outubro 22, 2021

NÃS SE DEVE GASTAR O QUE NÃO SE TEM

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A CRISE - Pierre Moscovici, ex-comissário europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros, deu uma entrevista ao Jornal de Negócios, publicada quarta-feira passada, onde defende a necessidade de cortar despesa e baixar a dívida pública, recorda que pagar a dívida pública não deve ser feito à custa do investimento, sublinha que é necessário estar atento às finanças públicas, as quais devem ter regras. Lembra ainda que não basta ter políticas orçamentais e monetárias e que é fundamental fazer mudanças estruturais, investir na indústria e aumentar a capacidade de produzir. Pois bem, é neste cenário que o Governo apresenta um Orçamento de Estado que não estimula as empresas, ao mesmo tempo que se prepara para fazer cedências, em nome da estabilidade, às exigências do PCP e do Bloco de Esquerda em matérias como a Lei Laboral e outras com consequências directas no funcionamento da economia. A ameaça de crise política que estamos a viver deve-se a um dado simples: aumentou-se a despesa de forma enorme à custa da carga fiscal e não se estimulou o aumento da criação de riqueza através do desenvolvimento da economia e da capacidade de produção. Assim continuaremos a ter números assustadores nos indicadores de pobreza, continuaremos a perder competitividade e consolidaremos a triste posição que nos está a colocar na cauda da Europa. O legado do Governo da geringonça, até agora, é este. O Presidente da República, que quer a todo o custo evitar uma crise política, bem que podia, pelo menos para ser lembrado por alguma coisa além dos seus sorrisos e consensos, ser o promotor da reforma da Lei Eleitoral que permita eleições mais participadas, onde se crie maior proximidade com os eleitores através da criação, constitucionalmente prevista, de círculos uninominais e a com a criação de um círculo nacional de compensação que recupere os votos desperdiçados e garanta efectivamente a proporcionalidade eleitoral. Se não vamos ter eleições antecipadas, ao menos que se aproveite este tempo para melhorar o sistema político. 


 


SEMANADA - Depois de ter sido detectado que os dados da contratação pública disponíveis no Portal Base violam o RGPD a sua consulta foi suspensa até pelo menos a segunda semana de Dezembro; Ricardo Salgado passou um recibo verde de 8,5 milhões de euros como rendimento de trabalho independente, para resolver a existência do donativo do construtor José Guilherme;  a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos duplicou a previsão de custo médio da electricidade para 2022; na segunda fase de acesso ao ensino superior houve nove cursos onde a média de entrada foi superior a 19 valores; em ano recorde de produção de cereais o preço do trigo no mercado mundial aumentou 41%; as greves efetuadas na CP entre Junho e Setembro suprimiram 4000 comboios e o serviço assegurado pelos Alfa Pendular e Intercidades foi o mais afectado; um estudo de investigadores do ISCTE indica que um quarto dos trabalhadores é sobre-qualificado para o emprego que tem; o mesmo estudo indica que a falta de capacidade do mercado de trabalho em absorver jovens que saíram das universidades nos últimos anos se deve ao peso reduzido das indústrias e dos serviços de alta tecnologia; em 2020 cerca de 40% dos jovens entre os 25 e os 34 anos tinham o ensino superior; segundo o INE mais de 1,6 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar de pobreza, ou seja com menos de 540 euros por mês; o Governo está desde há três anos a seleccionar 40 psicólogos para o Serviço Nacional de Saúde e ainda não conseguiu chegar a uma decisão; cerca de seis milhões de portugueses acedem regularmente a redes sociais, indica um estudo da Marktest.


 


O ARCO DA VELHA - Esta semana fui comprar laranjas a um supermercado. Havia laranjas a granel importadas da África do Sul e laranjas bem nossas, das boas do Algarve, que só se vendiam em embalagens grandes. Isto faz algum sentido?


 


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DE QUE É FEITA A LUZ? -  “Mais Tarde” é a nova exposição de Jorge Molder, na Galeria Belo-Galsterer que até 15 de Janeiro apresenta 19 das 21 fotografias criadas para a revista Granta, um pedido editorial que tinha por base a criação de imagens em torno do sono e do sonho. Aqui estão expostos em conjunto, pela primeira vez,  19 trabalhos de grande dimensão, 150 x 100 cm, a maioria a preto e branco, três deles com côr. Jorge Molder fotografa-se maioritariamente a si próprio, quer expondo-se fisicamente, quer mostrando o que imagina e concretiza em fotografia, geralmente já na fase de manipulação digital da imagem e da sua impressão. É um lento e laborioso trabalho aquele que Jorge Molder empreende depois da captura da imagem pela câmera fotográfica. A sua expressão facial ou a sua mão (na imagem) ganham outra dimensão e outro significado quando ele dá a obra por terminada. A realidade não é o que parece, é o que queremos que ela seja - tem sido assim que Jorge Molder pratica a fotografia. O contraste acentuado a preto e branco é propositado e cria um clima que segue à risca a frase do poeta  Walt Whitman que Molder escolheu para o texto de apresentação da exposição: “Every moment of light and dark is a miracle”. A Belo-Galsterer fica na Rua Castilho 71 r/c esq.


 


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MANUAL DE PERSONAGENS TRAIÇOEIRAS - Aqui está um livro muito adequado aos tempos em que estamos -  “História Universal da Infâmia”, de Jorge Luis Borges. Tudo se passa em Buenos Aires, mas alguns personagens podiam estar aqui ao nosso lado. Jorge Luis Borges trabalha com biografias de ladrões e rufiões, personagens traiçoeiras e heróicas. Por estas páginas passam algumas das suas criações mais inesquecíveis em torno da vida e da morte em Buenos Aires: a viúva Ching, intrépida e sanguinária pirata; o inverosímil impostor Tom Castro; o atroz redentor Lazarus Morell ou «o homem da esquina rosada», gente que fala uma linguagem perigosa e que vivem à beira do abismo. Publicada pela primeira vez em 1935, a “História Universal da Infâmia” foi posteriormente revista pelo autor e aumentada em quatro textos, o que deu origem a todas as edições a partir de 1954. «O homem que o executou era bastante infeliz, mas divertiu-se a escrevê-lo; oxalá algum reflexo daquele prazer alcance os leitores», escreve o autor no prólogo da edição desse ano. A “História Universal da Infâmia” é considerada uma das suas obras mais importantes, quer do ponto de vista temático, quer do ponto de vista formal, misturando literatura, ficção pura, fontes clássicas, e até factos reais. Esta nova edição da Quetzal tem tradução de José Bento. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 1899 e em 1923, publicou o seu primeiro livro – “Fervor de Buenos Aires”, dois anos antes da edição original desta “História Universal da Infâmia”.


 


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MÚSICA DA VIDA -  Rodrigo Leão às vezes compõe bandas sonoras para filmes, mas o mais frequente é que os seus discos sejam bandas sonoras para o nosso dia-a-dia. É o que acontece com o seu novo álbum, “A Estranha Beleza da Vida”, o nome que deu a este trabalho pensado durante os meses do primeiro confinamento, e concretizado a partir do Outono do ano passado, faz agora um ano. O seu álbum anterior, “O Método” foi publicado no início de 2020 mas a pandemia acabou por impossibilitar a digressão que estava prevista. “A Estranha Beleza da Vida” é o retrato sonoro do “ténue espaço entre a vida e a morte”, como afirma o próprio Rodrigo Leão. E o novo disco acaba por ser uma celebração da vida e da liberdade criativa, onde surgem canções de ambientes sonoros diversos, arranjos por vezes surpreendentes.  Rodrigo Leão  contou na gravação com os seus cúmplices habituais na produção e arranjos - Pedro Oliveira, João Eleutério, Pedro Moreira e Carlos Tony Gomes. E convidou um para esta aventura a canadiana Michelle Gurevich (que canta em “Friend of a Friend”, o primeiro tema do álbum),  Kurt Wagner, dos Lambchop, (que interpreta “Who Can Resist”), a espanhola Martirio (que emociona com o seu cantar em “Voz de Sal”), a portuguesa Surma (que participa em “O Ovo do Tempo”)  e ainda o instrumentista e produtor espanhol Suso Sáiz no tema que é o último dos 14 do álbum e que lhe dá o título  “A Estranha Beleza da Vida” . Rodrigo Leão, pelo seu lado, percorre os outros nove temas com os seus músicos - e destaco “Sibila”, “A Valsa de Petra” e “O Maestro”. Há muito a descobrir neste disco onde se cruzam ritmos de vários continentes e sons de diversas épocas.





É A PASTA, GULOSO! - Quando o restaurante italiano Il Mercato abriu no Páteo Bagatela, em Lisboa, tive uma má experiência. Fui vencido pela curiosidade e quis ir conhecer um restaurante que estava então aberto há poucos dias. Aprendi entretanto que o melhor é só visitar novos restaurantes passados uns tempos da abertura. E assim, sucederam-se várias visitas. E humildemente tenho que reconhecer que o Il Mercato vale a pena, é um sítio onde se come bem, onde a confecção é cuidada e os produtos genuínos e onde o serviço é impecável. Além da  esplanada e da ampla sala existe um balcão onde se podem comprar produtos certificados italianos, de queijos a fumados. A cozinha é inspirada na gastronomia do sul da Itália com umas incursões pela Sicília. O Il Mercato faz parte dos restaurantes criados por Tanka Sapkota, que tem também a seu cargo o Come Prima, outro templo italiano. As entradas têm uma ampla escolha de presuntos, salames e mortadelas e além disso uma burrata artesanal que pode vir servida com anchovas - e que recomendo. As pastas são frescas e feitas na casa e a minha preferida são os raviolis de abóbora com trufa negra ou os bucatini com gambas , alcachofras grelhadas e bottarga, uma especialidade feita a partir de ovas de taínha. Do outro lado da mesa é muito apreciada a dourada, filetada, temperada com ervas e vinho branco e acompanhada por salada de rúcula. Nas sobremesas os mais gulosos dispõem de cheesecake de nutella. O vinho da casa  cumpre, idem o prosecco, a lista tem boas propostas italianas e portuguesas a preço decente. Telefone 211930941.


 


DIXIT - “O OE 2022 mostra, na Cultura como noutras áreas, que o Governo não tem qualquer intenção de fazer políticas específicas para corrigir os impactos desiguais da crise da pandemia” - Maria João Marques


 


BACK TO BASICS - “A coisa mais importante é nunca deixarmos de nos questionarmos “ - Albert Einstein


 


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outubro 15, 2021

OPTIMISMO? SÓ SE FÔR NUM MANICÓMIO...

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AS COSTAS LARGAS DO VÍRUS - Quem ouvir falar o Ministro das Finanças e o Primeiro Ministro será levado a pensar que, por cá, a pandemia teve efeitos mais graves que noutros países. Ora sabe-se que a culpa da situação das contas portuguesas não é do vírus, é das políticas que têm sido seguidas e que penalizam empresas e privados, enquanto protegem o Estado e a Administração Pública.  O Orçamento de Estado prevê que a despesa pública atinja em 2022 um recorde de quase 106 mil milhões de euros, o que significa um encargo aos portugueses de 12 milhões de euros por hora. A linha política do PS em matéria de finanças e de economia continua a ser a de procurar receita de qualquer forma em vez de facilitar o crescimento da economia e estimular o mercado interno. Não deixa de ser espantoso que países com menos população e menos recursos que Portugal, na Europa, tenham uma situação tão diferente. Recordo que segundo um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos em Portugal, mais de um em cada dez trabalhadores (11%) está em situação de pobreza. E a maior parte dos pobres não o são por não terem emprego ou por dependerem de apoios sociais que menorizem a ausência de salário -  estão em situação de pobreza porque auferem salários baixos ou têm empregos precários. O estudo, feito por uma equipa de 11 investigadores, aponta números claros sobre quem são as pessoas em situação de pobreza em Portugal: 32,9% são trabalhadores, 27,5% serão reformados, 26,6% são precários e 13% são desempregados. Ora acontece que ​​Portugal é o terceiro pior país europeu em termos de capital privado investido nas empresas em função do Produto Interno Bruto, ficando à frente apenas da Grécia e Roménia. O Governo escusa de atirar areia para os olhos e culpas para o vírus: são a paralisia da economia nacional, as taxas elevadas sobre as empresas e sobre os rendimentos do trabalho que afectam estruturalmente a nossa economia. Este Governo pensa mais em como gastar mais do que em como produzir mais.


 


SEMANADA - O Governo quer duplicar a taxa anual sobre os operadores dos serviços de televisão por cabo sendo que metade do valor cobrado se destina à RTP, que já recebe uma taxa proveniente da fatura de electricidade; segundo a proposta do Orçamento de Estado, no próximo ano o Ministério da Cultura não planeia executar mais de 16 milhões de euros dos 150 milhões inscritos no PRR para a requalificação de museus, palácios, monumentos e teatros nacionais; 60% do que se paga no abastecimento do depósito de combustível de uma viatura são impostos, o automóvel continua a ser uma das maiores receitas fiscais do Estado e o imposto de circulação vai aumentar; a zona da graça em Lisboa perdeu 146 lugares de estacionamento no período de três meses; Funchal e Lisboa vão receber 200 cruzeiros turísticos até ao fim do ano; metade dos cortes previstos no Orçamento de Estado na administração pública virá do sector da saúde; a falta de chips já custou 20% da produção nacional de carros e 35 mil veículos à Autoeuropa; em vários hospitais do país o tempo de espera por uma consulta de saúde mental ultrapassa os seis meses; desde que se iniciou há 16 anos o alargamento a leste da União Europeia, Portugal já foi ultrapassado pela República Checa, pela Estónia, Lituânia e Eslovénia.


 


O ARCO DA VELHA - Na União Europeia 44% dos agregados familiares que vivem nas cidades estão cobertos por redes digitais de capacidade muito elevada, mas nas zonas rurais apenas 20% das famílias consegue ter acesso a uma boa rede.


 


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A MARGEM SURPREENDENTE -  Até 16 de Janeiro do próximo ano poderão ver no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, uma surpreendente exposição de Pedro Calapez, intitulada “Perto da Margem”. São mais de duas dezenas de obras, duas delas de 2018 e as restantes de 2020 e 2021, em diversos suportes e técnicas, que se espalham por várias salas. Logo à entrada, na escadaria, Pedro Calapez revisita uma das obras de Vieira da Silva que ali está e de que ele próprio gosta muito, “Les Balançoires”. Esta resposta (na imagem) ao quadro de Vieira da Silva, foi a última peça feita por Calapez para a exposição e mostra o caminho que depois se segue de intervenção no espaço do Museu. João Pinharanda, que foi o curador de “Perto da Margem”, escreve num texto colocado à entrada: “Pedro Calapez aprofunda nesta exposição uma das questões que o ocupa desde sempre - a discussão dos limites tradicionais do quadro”. No mesmo texto, Pinharanda chama a atenção para o facto de as obras de Calapez saírem “constantemente do espaço convencional da pintura”. Nesta exposição Pedro Calapez retoma a ideia de uma instalação de peças colocadas no chão, um labirinto que bem pode ser visto como o percurso para os novos  caminhos que o artista tem percorrido. Esta peça, “Labirinto Deslocado”, faz referência a outra obra da Vieira de título “A deslocação do labirinto”, que pertence à colecção  Ilídio Pinho e que pode ser vista na seleção de obras da Vieira da Silva dessa colecção, e agora também na sala pequena das temporárias do Museu.  Outras sugestões: no Convento dos Capuchos, em Almada, Teresa Segurado Pavão apresenta peças de cerâmica construídas a partir de lâminas de marfim que cobriam as teclas de um antigo piano do S.Carlos que foi a reparar na Valentim de Carvalho, obras a que deu o nome de “Valentim”, tendo por pano de fundo musical a gravação de “As notas do velho marfim”, uma composição feita expressamente por  Mário Laginha para esta exposição - por isso mesmo o título genérico da exposição, que fica até 26 de Fevereiro do próximo ano, é “A Quatro Mãos”.


 


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PARA COMPREENDER OS ESTADOS UNIDOS - A “Guerra & Paz” tem vindo a publicar uma colecção de Atlas Históricos que são guias preciosos para melhor conhecermos um país ou uma região. Agora foi publicado o “Atlas Histórico dos Estados Unidos da América”, que percorre o percurso do país das colónias à expansão territorial, da fundação da república ao «Sonho Americano», do 11 de Setembro até ao ataque ao Capitólio em Janeiro deste ano. O livro resulta do trabalho do historiador francês Lauric Henneton, em colaboração com o cartógrafo e designer gráfico Pierre Gay e reúne mais de cem mapas e documentos que nos contam a História dos Estados Unidos da América. «A história da América do Norte é, antes de mais, uma história de imigração, dos Siberianos da Beríngia aos Asiáticos e Hispânicos da actualidade, passando por Ingleses, Alemães, Irlandeses e Italianos.», escreve o autor logo no início do livro. Partindo das migrações asiáticas, do período glaciar, a obra acompanha a evolução do território norte-americano até à actualidade. Vemos, entre os séculos XVI e XVIII, o nascimento de uma nação impulsionado pelas sucessivas vagas de imigração e pela expansão territorial que estas geraram e como no século seguinte, uma nova vaga de imigração, aliada a um processo de urbanização e industrialização sem precedentes, começa a desenhar «o sonho americano» e a forma como a jovem América se tornará numa potência. No século XX Laurie  Henneton aborda as duas Grandes Guerras, as grandes crises, e como tudo resultou num papel geopolítico importante. E, por fim, o século XXI, que, profundamente marcado pelo 11 de Setembro de 2001, tem sido caracterizado por fracassos institucionais e desigualdades crescentes. Segundo o autor, a diversidade que fez erguer a nação norte-americana dá hoje lugar a divisionismos que polarizaram a opinião pública. Perante o cenário actual, este Atlas deixa a pergunta: «O que resta do sonho americano?» 


 


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TROMPETE, VIOLINO E MAIS UMAS COISAS - Teve um dia difícil? Quando chegar a casa procure no Spotify o novo disco do trompetista norueguês Mathias Eick, “When We Leave”. Relaxe e sente-se a ouvir. A música que vai ouvir irá ajudá-lo a superar o dia. O disco resulta da conjugação dos talentos de Eick no trompete,  com o violino da Hakon Aase, o piano de Andreas Ulvo, o baixo de Audun Erlien, a percussão de  Torstein Lofthus, a bateria de  Helge Norbakken e a guitarra eléctrica de  Stian Carstensen. Estes sete músicos, com percursos diferentes no jazz, são companhia habitual do trompetista. Eick constrói melodias delicadas que interpreta de forma intensa, como em "Loving'', "Caring" ou “Playing”. Os sete temas de “When We Leave” são da sua autoria e entre eles há pérolas como “Flying” onde os arranjos e o papel minimalista da percussão são exemplares, “Arvo” , que é uma canção sem palavras ou o tema final, “Begging”, em que mais uma vez trompete e violino se cruzam de forma elegante com o piano e a percussão, discretamente a marcarem presença. O disco, gravado em Oslo em Agosto de 2020, foi agora editado em CD e streaming pela ECM e terá uma edição em vinil na primavera de 2022.


 


O SEGREDO ESTÁ NA GRELHA - Hoje proponho uma visita ao Cortesia, em Campo de Ourique. Trata-se de um restaurante apostado na qualidade dos produtos que serve - nomeadamente a carne - e na simpatia do serviço. Muito do segredo está nos cortes de carne servidos e no facto de ela ser grelhada num Josper, uma espécie de Rolls Royce dos grelhadores, que a deixa tostada por fora e saborosamente mal passada por dentro. Nas entradas destaco os croquetes, a rivalizar com alguns dos clássicos lisboetas - podem aliás ser prato principal acompanhado por arroz de tomate ou a salada da casa que leva alface, tomate cherry, parmesão e nozes caramelizadas. As duas visitas que fiz correram muito bem - da primeira vez uma vazia black angus perfeita, que é servida cortada em tiras com boas batatas fritas e, da segunda vez um bitoque do lombo com molho à portuguesa e ovo estrelado - perfeito no corte e na confecção - acompanhado também por batatas fritas já que  prescindi do arroz. O outro lado da mesa respondeu na primeira ocasião com uma salada de atum fresco e, na segunda, com os croquetes acompanhados pela salada da casa. Voltando às carnes, os mais gulosos podem partilhar um tomahawk maturado ou um chuletón extra e o clássico da casa, muito elogiado, é um entrecôte com 50 dias de maturação. Volto a sublinhar a qualidade e simpatia do serviço. Preço equilibrado, há vinho a copo bem escolhido e a imperial é bem tirada.  Rua Tomás da Anunciação 99A, telefone 211 333 851. Convém reservar, sobretudo se quiser ir para a esplanada.





DIXIT - “A ascensão das esquerdas dentro do PS é uma das causas da vontade do Governo de aumentar o poder sobre a sociedade” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “O lugar onde o optimismo mais floresce é num manicómio” - Havelock Ellis


 


 

outubro 08, 2021

O ESTADO, A JUSTIÇA E OS CONTRIBUINTES

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O CÍRCULO  VICIOSO - Todas as políticas precisam de investimento dos Governos, que vem das receitas obtidas nos impostos e nas alcavalas que abundam no nosso sistema. Empresas consideradas estratégicas, como a CP, para conseguirem desenvolver-se precisam de investimento e de não ter o peso de uma dívida acumulada ao longo dos anos por sub-financiamento por parte do Estado. O país está cheio de buracos deste género nas mais variadas áreas. O Ministro Pedro Nuno dos Santos deseja, e bem, que a ferrovia seja uma prioridade e que possa dar um forte e positivo contributo ambiental. Mas vai-se a ver e a sua decisão de voltar a privatizar a TAP terá um custo total, a suportar pelos contribuintes,  de pelo menos 3,2 mil milhões de euros até 2022. Pedro Nuno dos Santos com essa privatização  apostou numa empresa poluente, com sérios problemas de ineficácia e gestão criados nos últimos anos. E, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, nacionalizou-a sem nenhuma boa razão, quando hoje a companhia é mais cara e menos eficaz que as suas concorrentes que estão no mercado. O dinheiro que colocou na TAP significa  mais de mil milhões de euros acima da dívida histórica da CP, que Pedro Nuno dos Santos acusa João Leão de não resolver, tema que levou à saída do melhor presidente da CP dos últimos anos. No fim do dia, é sempre a mesma coisa: quando o dinheiro não dá para tudo é preciso escolher e encontrar receitas sem assaltar mais os contribuintes. Mas escolher despesa não é aquilo de que Pedro Nuno Santos mais gosta, preferindo gastar o que não se tem. Provavelmente poderia valer a pena pensar em conseguir maior receita com uma política fiscal mais competitiva que evite a evasão e com uma justiça tributária que não seja o pesadelo que é hoje em dia. Numa entrevista esta semana num canal de televisão o advogado Paulo Saragoça da Mata lembrou o velho princípio de que a evasão fiscal aumenta quando aumentam os impostos. Revelou dúvidas sobre a constitucionalidade do funcionamento da justiça tributária e classificou o sistema fiscal português como “demoníaco”. Justiça tributária e fiscalidade - aqui estão dois temas  que o Presidente da República podia ajudar a debater - e, dentro das suas competências, a mudar.


 


SEMANADA - A indústria automóvel instalada em Portugal exportou quase 5,6 mil milhões de euros no primeiro semestre, 40% dos quais em componentes para veículos; nos primeiros seis meses do ano a Aston Martin vendeu 26 carros em Portugal e no período homólogo de 2020 tinha vendido dois; a proposta de lei de videovigilância apresentada pelo Governo não teve pareceres da maior parte das entidades envolvidas e algumas das medidas, como o acesso pelas polícias aos dados biométricos dos cidadãos, contrariam os pareceres de diversas entidades europeias sobre este assunto; mais de 200 mil menores que estiveram sob a responsabilidade directa da Igreja Católica francesa entre 1950 e 2020 foram vítimas de abuso sexual por maia de 2000 padres e outros membros da hierarquia da igreja; Portugal está entre os melhores do mundo a aprovar leis sobre a corrupção, mas depois não as aplica, afirma Luís de Sousa, investigador da Universidade de Lisboa e um dos maiores estudiosos dos crimes de colarinho brancono país; Portugal tem mais de 5 mil pessoas acima dos 100 anos e a previsão é para duplicar até 2050; o número dos que estudam para ser professor caíu 79% em 20 anos; dos 17 presidentes de Câmara eleitos como independentes, nove vieram do PSD, sete do PS e um da CDU; nas autárquicas o PS perdeu 11% dos seus votos nas grandes cidades; nas celebrações do 5 de Outubro o Presidente da República disse que “o Portugal que somos nunca vencerá os desafios da entrada a tempo no novo ciclo económico com dois milhões de pobres e alguns mais em risco de pobreza”.


 


O ARCO DA VELHA - Um inspector da ASAE, colocado em tribunal por dívidas ao condomínio onde reside em Matosinhos, usou expedientes falsos e constituíu arguidos os responsáveis pelo edifício.


 


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FESTA DA FOTOGRAFIA -  Ao longo do mês de Outubro decorre a edição deste ano, a terceira, do Imago - Lisboa Photo Festival, um evento cada vez mais importante no contexto da fotografia em Portugal, que se desenvolve em 14 espaços institucionais e privados por toda a cidade. A edição deste ano tem duas temáticas “The Family In Transition”, integralmente apresentada no belo espaço das Carpintarias de São Lázaro, e “Rethinking Nature/ Rethinking Landscape”, esta espalhada por vários espaços. No Museu Nacional de Arte Contemporânea, estão as interessantes  exposições, da “Cuban Studies” (na imagem),  “CornWall” e “Home Works” de Joakim Eskildsen; a Sociedade Nacional de Belas Artes acolhe a representação da galeria “Salut Au Monde”, do Porto que apresenta a exposição “We Are Family” - inspirada na célebre “The Family Of Man”, criada em 1955 por Edward Steichen no MOMA, em Nova Iorque. Pauliana Valente Pimentel apresenta “Ask The Kids” no Espaço Camões-Sá da Costa, enquanto o Arquivo Municipal de Lisboa-Fotográfico (Rua da Palma 246), mostra “Homem Morto Passou Por Aqui” de Valter Vinagre, “”See Sea” de Maija Savolainen e “Aqui Lisboa: Anos 80” de José Vieira Mendes. A partir de dia 14 a Galeria Belo-Galsterer apresenta duas dezenas de obras de Jorge Molder, parte delas inéditas. Fora da Imago, mas também na área da fotografia, Noé Sendas apresenta “Vertical Seas” na Galeria Carlos Carvalho, Vasco Araújo mostra “Rehearsals” na Galeria Francisco Fino e David Infante apresenta “If All Time Is Eternally Present”,a Galeria Módulo. Fora de Lisboa, mas mesmo aqui ao lado, em Oeiras, no Parque dos Poetas, está montada a edição deste ano do World Press Photo, com entrada gratuita até 15 de Outubro.


 


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A METAMORFOSE DAS IMAGENS - Jorge Guerra é um fotógrafo português que vive desde os anos 70 no Canadá, em Toronto e um percurso pela sua obra é pretexto para o sétimo volume da colecção Ph., da Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo. Nesta edição mostram-se fotografias de seis décadas, mas a maior parte mostram, a preto e branco,  Luanda e Lisboa nos anos 60, em contraste com fotografias da mesma época de Florença, México, Londres mostrando um ambiente bem diferente. Estas são fotografias com pessoas, não necessariamente retratos, embora também existam, mas sobretudo cenas de rua, onde se sente a influència de, por exemplo, Robert Frank. A obra de Fernando Guerra aqui mostrada evidencia que a fotografia não é apenas o registo daquilo que acontece, sendo sobretudo a ilustração de uma maneira de ver o mundo. As imagens da inspecção aos receitas angolanos, em Luanda, no início dos anos 60, que estão logo no começo, são marcantes e de uma contemporaneidade espantosa. Depois, Portugal desaparece do seu olhar e as imagens dos anos 70 e 80 são do Canadá e Estados Unidos. Intercaladas no livro, surgem páginas de mosaicos de imagens, a cores, mais conceptuais, por vezes com polaroids, mostrando um outro lado para além das pessoas que são dominantes no preto e branco.Uma das últimas fotografias do livro, datada de 2018, intitulada “metamorfose”, evoca  simbolicamente o universo das imagens digitais que substituíram a película. O livro começa por um texto de Maria do Carmo Serén e Teresa Siza, que destacam a forma como Jorge Guerra retratou Lisboa, mostrando “uma cidade triste, quase sem sorrisos e muita mágoa subjacente” e sublinhamo seu lugar incontornável - e por vezes mal conhecido - na fotografia portuguesa.


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MUDAR DE VIDA - O contrabaixista Bernardo Moreira regressa à obra do guitarrista Carlos Paredes, que já tinha percorrido  num disco de 2002, “Ao Paredes Me Confesso”. O novo trabalho, "Entre Paredes", inclui oito temas, entre os quais um de José Afonso, “A Morte Saíu À Rua”. Gravado em sexteto no início de Novembro do ano passado, no convento de São Francisco em Coimbra, na gravação participaram, além de Bernardo Moreira,  João Moreira no trompete, Tomás Marques no saxofone, Ricardo Dias no piano,  Mário Delgado na guitarra e Joel Silva na bateria. “Entre Paredes” inclui os temas “António Marinheiro”, “Mudar de Vida”, “Canto de Amor”, “Verdes Anos”, “Navio Triste”, “A Morte Saíu à Rua”, “Serenata do Tejo” e “Canto do Amanhecer”. “Verdes Anos” já estava no anterior disco de Moreira dedicado à obra de Paredes, mas esta é uma nova versão.  Bernardo Moreira, integra o grupo que normalmente acompanha Cristina Branco. No disco destaco as versões de “Mudar de Vida”, “Verdes Anos” e “A Morte Saíu À Rua” e o trabalho, cúmplice e por vezes arrebatador, de todos os músicos do sexteto.


 


 


O BOM ATENDIMENTO - Tenho reparado que alguns dos novos restaurantes mais ou menos da moda têm um grave problema: a inexistência de um chefe de sala competente que vigie o ambiente e o serviço, antecipe o que cada mesa precisa e  evite um cliente a esbracejar para um empregado que olha para o infinito e não o vê - ou está á conversa com um colega sem interesse pelo que se passa ao seu redor. Vou dar um exemplo: o Zum Zum Gastrobar, de Marlene Vieira, cujos talentos na minha opinião se exageram, é um caso exemplar de mau serviço, desatenção e substituição da qualidade de confecção por um palavreado descritivo cujo resultado final é um desapontamento. Mas ela não é caso único -  desatenções, distrações e mau serviço aconteceram-me mais em restaurantes com marca de um dos “chefs” da moda do que em locais mais modestos. Nem sempre foi assim: um dos melhores chefes de sala dos últimos anos foi Hélder Ribeiro, da saudosa Bica do Sapato, assim como José Duarte, no Salsa & Coentros, é o homem do leme que assegura a boa navegação. Num outro registo de restaurante, recordo, na velha Paz, da Ajuda, a atenção que o seu proprietário, o Sr. António, tinha em relação à sala - cuidando que nada faltasse a quem lá ía, sempre atento, garantindo que o serviço saía da cozinha como devia  ser, disponibilizando-se sempre à difícil tarefa de dividir uma fresquíssima cabeça de garoupa pelos comensais de uma mesa, por forma a que tudo chegasse como devia ser e sem incómodos. É isto que faz falta e que está a desaparecer aos poucos. O bom atendimento faz parte de uma boa refeição. Por melhor que o chef seja, se não tiver olhos na sala está tudo estragado.





DIXIT -  “Estamos a chegar ao limite, temos de repensar o turismo que queremos no concelho” - Figueira Mendes, presidente da Cãmara de Grândola.


 


BACK TO BASICS - “Querer aprender com a inovação é mais importante que ter razão” - Steve Jobs








outubro 01, 2021

O RESULTADO DAS AUTÁRQUICAS MOSTRA QUE O ELEITORADO ESTÁ A MUDAR

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O NOVO TEMPO DA POLÍTICA - A meio da madrugada de segunda-feira dei comigo a pensar que as autárquicas em Lisboa mostraram que uma cidade não é um filme, não é um cenário fabricado, mas sim o local de histórias reais das vidas das pessoas que lá vivem. Em vez de uma ilusão para visitantes de passagem, uma cidade só vive se for uma casa para os seus residentes. Foi isso que se perdeu em Lisboa nos últimos anos e tenho a firme convicção de que foi isso que fez Medina ser derrotado, levando mais de 25 mil eleitores que votaram nele em 2017 a abandoná-lo. Dizem-me que segunda-feira, nos corredores do Município, as chefias se mostravam apreensivas e a generalidade dos funcionários aliviados. Pedro Magalhães, politólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, acredita que a participação eleitoral diminuíu nas freguesias onde o PS tinha tido mais apoio em 2017. Por outras palavras, houve uma manifestação de desagrado de um lado e um desejo de mudança do outro. Lisboa ficou a ganhar porque perdeu um autarca que se preocupava mais com as aparências do que com os problemas, arrogante e complacente com abusos e corruptelas. Um cidadão, citado por um jornal diário, resume o resultado a isto: “as pessoas fartaram-se”. O vencedor, Carlos Moedas, não vai ter tarefa fácil mas acredito que tenha capacidade para procurar consensos através de propostas abrangentes e de uma política social de que a cidade necessita. Este novo ciclo de Lisboa vai provavelmente mostrar uma nova forma de fazer política, menos apostada em criar tensões e mais virada para resolver problemas e tornar a cidade mais humana. Mas há um outro aspecto curioso, que tem a ver com a campanha eleitoral. Por vezes duvidei da eficácia da forma como a campanha de Carlos Moedas decorria, achava-a pouco afirmativa, digamos até que pouco agressiva, e com uma resposta fraca ao oponente. Mas tenho que reconhecer que me enganei sobre a estratégia seguida e na razão deste meu engano provavelmente está uma mudança do perfil dos eleitores, sobretudo dos mais novos. Será que o eleitorado começou a fartar-se de políticos que gritam e que atacam permanentemente os rivais? O resultado parece mostrar que sim. Bem vistas as coisas, nas campanhas presidenciais de Marcelo Rebelo de Sousa essa tendência começou a mostrar-se. Menos gritos, mais afectividade, maior contacto pessoal, menos demagogia. O eleitorado está a mudar, nestas autárquicas puderam votar aqueles que já nasceram nos primeiros anos deste século. O resultado que estes eleitores proporcionaram é um desafio e uma responsabilidade para o vencedor. E uma esperança de que a política mude para melhor. Novos tempos também são isto.


 


SEMANADA - O potencial de teletrabalho em Portugal é o nono mais baixo da UE, segundo um estudo europeu divulgado esta semana; Fernando Ruas, eleito Presidente da Câmara de Viseu, espera que a lista de promessas de fundos da bazuca feita por António Costa ao anterior autarca socialista da cidade seja cumprida; a Presidente do Conselho de Finanças Públicas alertou para a situação financeira “não confortável” do país; o défice público agravou-se 550 milhões de euros até Agosto; a abstenção nas autárquicas foi de 45%; em 2017 realizaram-se 25 coligações nas autárquicas, em 2021 o número duplicou para 52; o número de partidos que concorreram às autárquicas aumentou de 17 para 20 este ano - três dos anteriores não concorreram mas houve seis estreantes; em 2017 houve 83 candidaturas independentes e em 2017 o número desceu para 79; em 35 concelhos a aplicação da lei de limitação de mandatos deixou de fora da luta eleitoral os anteriores autarcas; quase um quarto dos candidatos ao ensino superior não conseguiu entrar num curso na primeira fase do processo de admissões; em 2020, após a morte de Ihor Homenyuk, o Ministro da Administração Interna prometeu que o centro de instalação temporária do SEF no Aeroporto de Lisboa teria cobertura de câmeras de vigilância em todos os espaços comuns, mas após um ano essa melhoria ainda não foi feita; o número de pessoas sem abrigo em Portugal aumentou em 2020 para 8029, mais 1000 cidadãos que no ano anterior; segundo o INE o valor das rendas de casa aumentou 11,5% entre Março e Junho.


 


O ARCO DA VELHA - Nuno Freitas, considerado pelo Ministro Pedro Nuno dos Santos como o melhor presidente de sempre da CP,  demitiu-se num cenário em que sentia  falta de autonomia de gestão, tinha um plano de atividades por aprovar e uma dívida histórica acumulada de 2,1 mil milhões, situação que paralisava a empresa. O Ministro Pedro Nuno dos Santos, sem nunca o dizer directamente, apontou o dedo ao Ministro das Finanças: "se dependesse de mim [o problema] estava resolvido".


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POR DENTRO DO ATELIÊ-  Na Galeria das Salgadeiras o fotógrafo Jordi Burch recria em imagens o seu próprio ateliê em S. Paulo e evoca o seu processo de trabalho. A montagem da exposição explora e invade diversos espaços da galeria, mostrando o exterior que se vê do atelier, em contraste com o que se passa no espaço interior. A exposição "como coisa real por fora, como coisa real por denbtro", que fica até 13 de Novembro, evidencia a linguagem fotográfica de Jordi Burch, que em tempos integrou o colectivo KameraPhoto o qual teve uma presença relevante no fotojornalismo português do início deste século. Na exposição Burch combina imagens de objectos de carácter instrumental com outras de paisagem e retrato, procurando estabelecer um relato da sua própria vivência, através da forma de ver os materiais que utiliza no seu dia-a dia, como tinteiros de impressora fotografados para além do conceito tradicional de objectos perecíveis (na imagem) A Galeria das Salgadeiras fica na Rua da Atalaia 12.


 


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IMAGENS MOÇAMBICANAS - Mário Macilau nasceu em 1984 em Inhambane, Moçambique, e em 1998 tirou a sua primeira fotografia numa avenida de Maputo, com uma câmera emprestada. Durante anos fotografou com o telemóvel da sua mãe e em 2007 teve a sua primeira máquina fotográfica, iniciando um novo percurso. Macilau trabalha preferencialmente  projectos de longa duração. Nos últimos anos  ganhou notoriedade e reconhecimento como um importante fotógrafo Moçambicano com uma intensa actividade internacional de que o expoente foi a sua escolha para estar presente no Pavilhão da Santa Sé na 56ª edição da Bienal de Veneza. Mário Macilau apresenta agora em Lisboa, até 11 de Novembro,  a sua primeira exposição individual, “Sombras do Tempo”, na Galeria Movart (Rua João Penha 14A). A exposição, com curadoria de Ekow Eshun, inclui uma série inédita de fotografias intitulada “Círculo de Memória” (na imagem). Neste trabalho Macilau fotografa edifícios abandonados da época colonial que, como diz, "estão presentes em todo o território Moçambicano, apesar de terem perdido qualquer sentido de funcionalidade”. Dentro de cada fotografia, o artista situa, sobrepondo, figuras, muitas vezes mulheres ou crianças, cuja imagem cria um contraste com as estruturas em ruínas que as rodeiam. 


 


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A FOTOGRAFIA PORTUGUESA  -  Esta semana trago-vos um livro imprescindível para conhecer e compreender a evolução, não só da fotografia, mas também da comunicação em Portugal no século XX: “Fotografia Impressa e Propaganda Em Portugal No Estado Novo”. A obra é o resultado de um trabalho de uma equipa de investigadores que entre 2016 e 2019 desenvolveu um projecto financiado pela Fundação Para A Ciência e Tecnologia sobre a utilização da fotografia imprensa durante esse período. Filomena Serra foi a responsável pelo desenvolvimento do projecto, juntamente, em áreas específicas, com Paula André e Manuel Villaverde Cabral e a organização do livro coube a Filomena Serra. Ao longo do trabalho podem ser seguidas cinquenta publicações - livro, álbuns fotográficos, fotolivros, revistas ilustradas e catálogos provenientes do fundo documental do SNI - Serviço Nacional de Informação que existe na Biblioteca Nacional. Logo no início o livro recorda que António Ferro, director do Secretariado da Propaganda Nacional criado em 1933, definiu a fotografia como o suporte comunicativo de exposições e edições que mostrassem a obra do Estado Novo, muitas vezes inspirados pelos então novos modelos de propaganda alemã, italiana e soviética.Este livro merece ser lido por todos quantos se interessam pela fotografia em Portugal, desde o texto inicial, de Filomena Serra, Paula André e Manuel Villaverde Cabral, até aos textos que mostram o que foram publicações como “O Notícias Ilustrado”. “O Século Ilustrado”, a “Panorama- Revista Portuguesa de Arte E Turismo” ou livros tão diversos como “Salazar o Homem E A Sua Obra”, de António Ferro,  “As Mulheres do Meu País” de Maria Lamas ou  “Lisboa Cidade Triste e Alegre” de Victor Palla e Costa Martins, entre vários outros. Um trabalho de rara qualidade, com um enorme manancial de informação, não só sobre a fotografia, mas também sobre a forma como ela foi usada na propaganda e na comunicação.


 


CONTRA OS MENUS DE DEGUSTAÇÃO -  Um dia destes começo a fazer uma lista de restaurantes onde se come bem, a preços justos, com bom serviço, sem atavios desnecessários mas com atenção e respeito pelos clientes. É claro que ficam excluídos os restaurantes que só propõem menus de degustação, essa variação totalitária apadrinhada por chefs de laboratório. Na realidade a imposição de menus de degustação é a coisa que mais me encanita na vida em matéria gastronómica. Muito raramente tive boas experiências e quase sempre achei ridícula a encenação. Prefiro ir ao circo quando quero ver palhaços. Em contrapartida gosto de listas que variam conforme as estações do ano, utilizam produtos da região quando possível e vigiam a qualidade da matéria prima e conseguem fazer isto sem artifícios nem pretensões e a preço justo. A ideia do fine dining é em si uma coisa que me atrai pouco, muito pouco; já a ideia de um restaurante simpático, com boa cozinha, onde se pode estar confortável, à nossa vontade, sem imposições, é coisa que me seduz. Fine dining para mim não é obedecer aos desejos dos outros, é conseguir que os outros satisfaçam os meus desejos em matéria do que me apetece provar. E que não me aborreçam enquanto estou à mesa, mas estejam atentos às necessidades dos comensais. 


 


DIXIT - “Medina perdeu mais que o poder em Lisboa, deixou de ser o delfim de Costa" - Armando Esteves Pereira, no “Correio da Manhã”.


 


BACK TO BASICS - “Não basta fazermos o melhor que podemos; por vezes temos que fazer o que é necessário” - Winston Churchill


 








setembro 24, 2021

PARA ALÉM DOS RESULTADOS: REVISÃO DA LEI ELEITORAL PRECISA-SE

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O PESO DA ABSTENÇÃO - As eleições, como as que teremos Domingo 26, levantam três questões essenciais para que a democracia funcione: uma revisão e actualização da Lei Eleitoral, adequando-a à evolução da sociedade e da tecnologia desde 1975, a expectativa de que estas mudanças e uma reforma do sistema político-partidário ajudem a combater a abstenção galopante e, finalmente, uma actuação de fiscalização que evite a repetição do regabofe em que António Costa andou nestes dias perante a complacência da CNE, chegando a insinuar que autarcas do PS conseguirão utilizar melhor os dinheiros da bazuca que os de outros partidos. Peguemos no histórico das autárquicas e vamos a números. Estes, que hoje utilizo, foram compilados pela MARKTEST. Entre 1976 e 2017, a taxa de participação eleitoral nas autárquicas baixou 15%, passando de 64.6% em 1976 para 55.0% em 2017. Esta quebra foi mais acentuada nos distritos de Setúbal, Lisboa e Faro, ao contrário dos distritos de Bragança, Castelo Branco, Guarda e das Regiões Autónomas, únicas regiões onde a taxa de participação aumentou em 2017 face a 1976. Consequentemente, a taxa de abstenção aumentou, de 35.4% para 45.0% no período em análise. O ano de 1979 foi o ano de maior participação eleitoral. Nesse ano, 73.8% dos eleitores inscritos participaram nas eleições para a Câmara Municipal. Pelo contrário, 2013 e 2017 foram os anos com menor percentagem de participação nas autárquicas (respetivamente, 52.6 e 55.0%). Há quase metade dos eleitores que não têm participado nas autárquicas e os partidos não promovem as reformas necessárias para alterar este estado de coisas. Será porque lhes dá jeito?


 


SEMANADA - As aulas começaram mas em muitos casos sem os manuais escolares cuja entrega se atrasou; os salários dos professores com 15 anos de experiência subiram nos países da OCDE entre 2005 e 2020, à excepção de Portugal onde diminuíram 6%; a Presidente do Conselho das Finanças Públicas disse no Parlamento que a instituição que dirige tem dificuldade em obter do Ministério das Finanças a informação imprescindível para escrutinar o trabalho do Governo; o endividamento das empresas privadas atingiu 269,5 mil milhões de euros em julho, o valor mais elevado desde os 269,9 mil milhões de euros registados em março de 2014; três meses depois do acidente com a viatura oficial de Eduardo Cabrita, que vitimou um trabalhador na A6, ainda não se sabe a velocidade a que ía o veículo; segundo a DECO, por cada 100 euros pagos na conta de electricidade 46,5 € são para impostos e taxas; o leilão da rede de telecomunicações 5G já dura há mais de nove meses e não há perspectivas de quando poderá haver oferta comercial da rede móvel de quinta geração; a pandemia provocou uma quebra de quase 25% na compra de sapatos em Portugal em 2020; nos últimos oito anos o número de câmeras de vigilância nas ruas passaram de 38 para mais de 850 e Amadora e Lisboa são os concelhos mais vigiados dos 14 que instalaram videovigilância ;  existem 239 ex-políticos e juízes com subvenções vitalícias pagas pelo Estado; a Câmara Municipal de Lisboa tem cerca de dois mil fogos devolutos que podiam ser reabilitados para habitação social; segundo a Marktest perto de seis milhões de portugueses costumam ler notícias online, uma tendência que cresceu 28% desde 2013.


 


O ARCO DA VELHA - Fernando Nobre, médico, fundador e presidente da AMI, esteve presente a apoiar uma manifestação de negacionistas, não aceita a vacinação contra a Covid-19 e recusa-se a usar máscara.


 


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RETROSPECTIVA & COLECTIVA -  Há muito para ver na galerias lisboetas, entre retrospectivas, revelações e colaborações. Vou começar pela retrospectiva de Sofia Areal, na Fundação Carmona e Costa. A exposição, “20 anos para a frente, 20 anos para trás” permite viajar pelo percurso criativo da artista através de 130 das suas obras feitas ao longo de quatro décadas. ​​A exposição é acompanhada por um livro com textos de José Luís Porfírio, Jorge Silva Melo, Ricardo Escarduça e Martim Brion, que foi o curador da exposição. Nascida em Lisboa, em 1960, Sofia Areal (na imagem) tem desenvolvido o seu trabalho na pintura, desenho, colagem, ilustração, design gráfico, desenho têxtil e cenografia. A exposição fica até 18 de Dezembro na Fundação Carmona e Costa, Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1. Uma outra exposição inaugurada por estes dias e de visita muito recomendada é “Matéria Luminal” que fica no Museu Berardo até 9 de Janeiro. Com curadoria de Sérgio Mah, a exposição mostra abordagens artísticas em torno da luz com obras relevantes desde meados dos anos 60 até à actualidade. Cerca de quatro dezenas de artistas estão representados, proporcionando uma visão conjunta, infelizmente rara, do seu trabalho. Esta é mais uma razão para visitar “Matéria Luminal” e ter uma visão de conjunto de trabalhos de nomes como Ana Jotta, Palolo, Cabrita, Fernando calhau, João Paulo Feliciano, Jorge Martins, Jorge Molder, José Barrias, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Manuel Rosa, Miguel Palma, Paulo Nozolino, René Bertholo ou Rui Chafes, entre outros.


 


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OS DESAFIOS - No Pavilhão Branco, do Palácio Pimenta, Pedro Calapez e Alexandre Conefrey apresentam um conjunto de trabalhos inspirados pela obra “Viagem de Inverno”, poemas de Wilhelm Muller musicados por Schubert em 1827, uma obra musical cara aos dois artistas. É a segunda exposição recente de Pedro Calapez em parceria com outro artista - a outra é “Seja Dia Ou Seja Noite Pouco Importa”, com André Gomes,  ainda patente no Museu Berardo até 17 de Outubro. Nestes trabalhos apresentados no Pavilhão Branco é sensível uma mudança - já anteriormente enunciada - do trabalho de Pedro Calapez, que está a percorrer um território visual diverso do que nos últimos anos trabalhou com um resultado francamente surpreendente. Neste caso o contraste entre as pinturas de grande dimensão de Calapez e as pinturas de pequeno formato de Alexandre Conefrey (na imagem) é amplificado pela montagem criativa do curador da exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues. Conefrey apresenta também um conjunto de desenhos, num curioso contraste com as pinturas. A exposição fica no Pavilhão Branco até 14 de Novembro. E por fim a grande surpresa da semana - “Pick A Card, Any Card”, a exposição inaugural de Isa Toledo, na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). A sua matéria prima é a palavra, quer nas pequenas folhas de bloco notas, juntando palavras e frases e criando painéis, quer nos vídeos (que podem ser vistos no Instagram da artista).Verdadeiramente surpreendente.


 


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DANÇA & ARQUITECTURA - Nunca fui a Luanda, uma cidade que de alguma forma me atrai. Sente-se que existe uma comunidade artística activa, em diversas áreas. Um livro recentemente editado, “Lugares Incorporados”, fez-me ficar com mais vontade de a conhecer. A ideia do livro é desafiadora: dezasseis bailarinos de quatro gerações da Companhia de Dança Contemporânea de Angola foram fotografados em conjunto com dezasseis edifícios e lugares da cidade de Luanda que revelam os laços sociais e afetivos que se estabelecem entre as pessoas e os lugares que habitam. As fotografias são de Rui Tavares e mostram um património importante para a caracterização, a história e as memórias da capital de Angola. As imagens exploram as afinidades entre a Dança e a Arquitectura, espelhando as relações entre o corpo, o movimento e o espaço. O livro, “Lugares Incorporados”, patrocinado pela Sociedade Mineira de Catoca e editado pela Guerra & Paz, pretende também alertar para o risco que corre uma boa parte deste património edificado, “na esperança de que possa ser resgatado, recuperado e devolvido à sociedade luandense”. O autor das fotografias, Rui Tavares, é angolano e desde 1991 interessa-se pelas imagens de dança. Começa nessa época a sua colaboração com o Conjunto Experimental de Dança, que mais tarde deu origem à Companhia de Dança Contemporânea de Angola, de que é um dos membros fundadores. O livro mostra edifícios como os dos Armazéns da Baixa de Luanda, a Casa do Sobrado, a Cervejaria Biker, o Cine Karl Marx, o Edifício da Lello, o Governo Provincial de Luanda, o Mercado do Kinaxixi, o Palacete Cor de Rosa e o Teatro Avenida, entre outros. Os textos que enquadram as fotografias de Rui Tavares, são de Isabel Martins e Cristina Pinto.  Ana Clara Guerra Marques coordenou o projecto. O livro está disponível em Portugal no site da editora - guerraepaz.pt  .


 


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UMA BANDA SONORA - “Flag Day” é o filme de Sean Penn que esteve presente no Festival de Cannes deste ano, onde foi aplaudido. Baseado numa história verídica, "Flag Day" conta a vida de um pai, John Vogel (Sean Penn), que subsiste graças a pequenos furtos para poder sustentar os seus filhos. Para fazer a banda sonora do filme Penn convidou Eddie Vedder, que por sua vez se fez acompanhar por Glen Hansard, pela sua filha Olivia Vedder e por Cat Power. O resultado é uma colecção de 13 canções, a maioria originais, mas com algumas inspiradas versões como “I Think of Angels”, do islandês Kristján Kristjánsson, interpretada por Cat Power com a presença do próprio Krisján nos coros,  ou “Drive” dos R.EM., revisitada pelo próprio Eddie Vedder. Além disso, há oito canções compostas por Vedder e Hansard e três novas canções de Cat Power. Olivia Vedder canta na faixa de abertura, “My Father’s Daughter” e em “There’s A Girl” e é uma boa surpresa. O segundo tema da banda sonora é a faixa título, “Flag Day”, uma balada que é um dos melhores temas originais desta banda sonora. “I Am a Map,” “I Will Follow,” and “Dream” são os três temas originais de Cat Power e todos merecem atenção. O álbum tem  uma produção minimalista, arranjos simples, essencialmente acústicos e o resultado é uma banda sonora invulgarmente bem conseguida. Disponível nas plataformas de streaming. 


 


DIXIT - ​​"Temos em Portugal, no presente e desde há muito, uma sociedade rígida, pouco aberta à mudança e à inovação, cujas regras do jogo e incentivos são perversos e pouco claros. Uma sociedade com abusos de poderes dominantes com cliques partidárias, empresariais, corporativas ou familiares, que ocupam e dispõem de lugares marcados. Por um lado, não permitem o surgimento de novos actores e, por outro, não permitem o fim de projectos sem viabilidade. " - António Carrapatoso





BACK TO BASICS - “As pessoas não devem ter medo de quem as governa; são os governantes que devem temer o que os cidadãos pensam deles" - Alan Moore.


 







setembro 22, 2021

LISBOA: DEIXAR ANDAR OU MUDAR? SOCIALISMO OU LIBERDADE?

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O governo da nação anda num frenesim. Costa não pára sossegado, desdobra-se em promessas e no desfiar das maravilhas do PRR nos numerosos comícios das eleições autárquicas onde tem andado a apaparicar as listas do PS, de norte a sul do país. Aliás não anda sózinho: da Ministra da Saúde ao Ministro das Infraestruturas, dois putativos concorrentes à sucessão de Costa, a máquina socialista actua como uma central de propaganda. António Costa até parece que concorre em múltiplos concelhos, está em todo o lado. Mesmo sem estar em nenhuma lista é o maior protagonista destas autárquicas, sempre a distribuir brindes para o futuro. Chega ao ponto de insinuar que os autarcas socialistas serão melhores a aplicar os fundos da bazuca que os de outros partidos. A sempre expedita Comissão Nacional de Eleições, que andou atrás de autarcas que queriam apenas dizer o que tinham feito no seu concelho, limita-se a timidamente recordar que o executivo tem um dever de neutralidade face aos desmandos eleitoralistas governamentais. Assim a CNE age como fiel serventuária do regime e de quem nele manda. Em resposta à observação, Costa passou todo o fim de semana a fazer mais do mesmo: distribuir promessas e evocar sucessos e amanhãs maravilhosos com o PS a mandar. É um contraste com o que se passou, por exemplo, com Carlos Carreiras e Isaltino de Morais, que estão entre os autarcas que se viram impedidos pela CNE de divulgar o que foi feito nos municípios que governaram durante este mandato.  Na sequência do ocorrido Carlos Carreiras acusou a CNE de “falta de independência” e de ser “manifestamente partidarizada e governamentalizada”. Bazuka por todo o país, promessas de diminuição de impostos, juras de descentralização sem dados concretos, este é o reino do vale-tudo. A batota eleitoral foi oficialmente instituída pelo Governo. Como Fernando Sobral bem escreveu na sua coluna no Jornal Económico: "Muitos candidatos não dizem o que podem fazer pelo país; nunca param de pensar no que o país pode fazer por eles." Um bom exemplo disso é Lisboa, que Fernando Medina encara como uma rampa de lançamento para vôos futuros. Lisboa promete ser o palco de uma disputa renhida entre o socialismo e a liberdade.  Medina transformou a Câmara Municipal num clube de interesses privados, actuação bem visível nos casos recentemente divulgados da área do urbanismo.  Como se viu no caso das informações a embaixadas estrangeiras, Medina não sabe sequer o que os seus serviços fazem em áreas tão delicadas como o respeito à privacidade e à defesa da liberdade de manifestação. E quanto a trabalho realizado, a realidade é esta:  das promessas que fez na anterior campanha executou apenas nove das 30 medidas mais importantes que então prometeu. Em contrapartida fez muita coisa de que nem falou na sua anterior campanha, nomeadamente tornar o trânsito em Lisboa num inferno, tornar a vida na cidade mais desconfortável para quem cá vive. Termino a citar Isabel Diaz Ayuso, Presidente da Comunidade de Madrid, que nas mais recentes eleições derrotou a esquerda, numa mensagem que dirigiu a Carlos Moedas: “Como em Madrid, há que libertar Lisboa das políticas socialistas fracassadas e do seu amiguismo para que os cidadãos e empresas cresçam em liberdade, numa sociedade pujante, uma Lisboa livre, aberta a todos. Socialismo ou Liberdade?”. No fundo, é isto.


 


Publicado em https://multinews.sapo.pt/opiniao/governo-ou-central-de-propaganda-socialismo-ou-liberdade/


 

setembro 17, 2021

OS NÚMEROS DA DECADÊNCIA DA LISBOA DE MEDINA

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ESTA LISBOA QUE AFUNDOU - Desde 2007 é o PS que manda em Lisboa - primeiro com Costa e logo a seguir com Medina. Agora, ao fim de 14 anos Medina espalha pelos cartazes que defende “o direito à cidade”. Vamos lá a ver os factos: segundo a Pordata entre 2009 e 2020, a população residente de Lisboa diminuiu de 550.466 para 509.565 (um decréscimo de 7,4%). Em 2020, dos 509.565 residentes no município de Lisboa, 106.971 eram estrangeiros, mais 63194 do que em 2009.  Em 2009 nasceram em Lisboa 6220 bebés e em 2020 o número desceu para 5697.  Em 2009 em Lisboa por cada 100 habitantes 61,7 estavam em idade activa e em 2020 eram apenas 55. Em 2009 havia 72.189 alunos nas escolas de ensino básico público da cidade, em 2019 o número tinha descido para 63.911; em 2009 existiam 190 alojamentos turísticos em Lisboa, em 2019, antes da pandemia, contabilizavam-se 713; em 2009 a despesa da Câmara Municipal de Lisboa em actividades de Cultura e desporto significava 30,6% do total da despesa, esse número caíu para 8,4% em 2019. Os filhos dos lisboetas vão viver para a periferia e há 85 mil idosos a viver sózinhos ou na companhia de alguém da mesma idade na cidade. Um projeto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, designado Radar, recolheu dados de uma amostra de 30 mil destes seniores, e concluiu que 27 mil, ou seja 92% destas pessoas, não têm acompanhamento por parte de instituições, e, muito menos da autarquia. O meu maior desejo é que nestas eleições se conseguisse inverter esta tendência, que a cidade renasça e consiga cativar mais jovens, mais pessoas em idade activa, que a cidade deixe de ser um cenário para turista ver e sim um local onde os alfacinhas possam viver. O PS e Medina pioraram todos os indicadores desde que estão à frente de Lisboa. Alguém acredita que agora vão mudar? Se querem mais quatro anos de promessas não cumpridas votem mais Medina: das promessas que fez na anterior campanha executou apenas nove das 30 medidas mais importantes que então prometeu.  


 


SEMANADA- Em 1981, em Portugal, tínhamos 45,4 idosos por cada 100 jovens, em 2019 tínhamos 161,3; em 1981 tínhamos 25,1% da população a receber pensões de reforma, em 2019 o número tinha subido para 40,5%; em 1999 tínhamos 14.643 estabelecimentos de ensino públicos dos vários graus de ensino e  em em em 2020 tínhamos 5.644; em 1986 existiam em Portugal 24.938 publicações periódicas em 2019 o número reduziu para 19.323;as eleições autárquicas mais concorridas dos últimos anos foram as de 2009 com 5,5 milhões de votantes e as que registram maior abstenção foram as de 2013, nas quais quase metade dos eleitores não votaram; no segundo trimestre de 2020 a dívida pública era de 125,7%  do PIB e em idêntico período de  2021 tinha subido para  132,8%; em 2001 existiam 669 estações de comboio e em 2019 o número tinha descido para 549; em 1968 a rede ferroviária activa tinha 3.592 kms e em 2020 tinha 2.526 kms; em 1980 os comboios transportavam 224 mil passageiros e em 2019 o número foi de 175 mil; em 1979 o emprego nas administrações públicas era de 9% da população activa e em 2019 já tinha subido para 13,3%; em 2000 a receita fiscal do Estado totalizava 25.669 milhões de euros e em 2020 atingiu 43.222 milhões; no mesmo período os impostos directos subiram de 11,3 mil milhões para 19,1 e os indirectos de 14,3 mil milhões para 24. Todos os números são da Pordata.


 


O ARCO DA VELHA- A deputada independente Joacine Katar Moreira, eleita pelo Livre, quer  retirar os painéis evocativos dos Descobrimentos, que estão no Salão Nobre da Assembleia da República, e que ilustram cenas evocadas n’Os Lusíadas.


 


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UMA FAMÍLIA ESPECIAL - Os Bruhhoff são uma família que transformou a vida da cultura europeia – e a francesa em particular. Um dos seus membros, Jean, foi o criador de uma figura incontornável da literatura infantil Babar, outro esteve na origem da “Vogue” francesa. Yseult Williams, jornalista, neta de um físico nuclear irlandês e de um dos pioneiros do moderno cinema britânico, é a autora de “O Esplendor dos Brunhoff”, um livro que resulta de conversas com Marion de Brunhoff, que, aos 92 anos, quis deixar o legado da sua família – uma incursão pelo mundo das artes, da política e da História da Europa do século XX. Ao ler o livro descobre-se que na Belle Époque, no bairro de Montparnasse, os Brunhoff davam cartas na imprensa, edição, moda, fotografia, arte moderna, num ambiente boémio e liberal. Na história dos Brunhoff cruzamo-nos com Sergei Diaghilev, Jean Cocteau, Christian Dior, Gabrielle Chanel, Yves Saint Laurent, com o americano Condé Nast que a eles se associou para criar a edição francesa da revista “Vogue”. O livro conta o período entre as duas grandes guerras, a perseguição que a família sofreu pela sua origem judaica, a forma como a imprensa francesa que não se tornou colaboracionista com os nazis resistiu. Sobre o livro o diário francês “Libération” escreveu que  «o talento desta família genial é também a sua generosidade de ver o talento dos outros.» O livro “O Esplendor dos Brunhoff” foi agora editado pela Quetzal.


 


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A FORMA DA CÔR - Entra-se na Galeria Filomena Soares e o sentimento é de surpresa. “Nada Existe/ Nothing Exists”, a nova exposição de 12 esculturas  de Rui Chafes feitas em 2020 e 2021, inaugurou dia 11 e ficará na Galeria até 20 de Novembro. Como frequentemente acontece no trabalho de Chafes, cada peça é uma descoberta, que por vezes se relaciona com a que está ao lado, outras vezes não. Nesta exposição há um novo caminho anunciado em relação a trabalhos anteriores. Sente-se uma mudança, um desafio entre as formas e o equilíbrio em que cada obra existe. Para além dos novos trabalhos (na imagem), podem ver-se noutra sala da Galeria quatro esculturas  de 2017 que foram os estudos para  a peça “La Nuit",  que foi apresentada na exposição “Rui Chafes e Alberto Giacometti - Gris, Vide, Gris”, apresentada na Fundação Gulbenkian em Paris, em 2018, com curadoria de Helena de Freitas. No texto de  apresentação de “Nothing Exists” o próprio Rui Chafes sublinha a importância da relação entre o vazio e a forma, o significado da cor negra na sua obra, a não separação entre o que é o interior e o exterior de cada peça e a importância do diálogo entre o equilíbrio das obras e o olhar de quem as observa. Imperdível, esta exposição. Outras sugestões: a colectiva “Matéria Luminal” que propõe um percurso pelas práticas artísticas em Portugal, desde meados dos anos 1960 até à actualidade, e que inclui obras de  trinta e oito artistas. A exposição tem curadoria de Sérgio Mah e ficará no Museu Berardo até 9 de Janeiro.


 


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A GUITARRA - Pat Metheny, 67 anos, mantendo-se fiel à sua guitarra, é na verdade um homem de sete instrumentos: grava com músicos de jazz, faz incursões na clássica, trabalha em bandas sonoras de filmes e séries de televisão, compõe canções que pouco têm a ver com o jazz e gosta de trabalhar com um grande leque de músicos, sobretudo com alguns bem mais novos. É o caso de James Francies no piano e orgão, e Marcus Gilmore na bateria que o acompanham no novo disco “Side-Eye NYC”, ponto de partida para uma digressão anunciada para os próximos meses  e que incluirá cerca de 100 concertos em todo o mundo. Este disco foi gravado  ao vivo, antes da pandemia, em Nova Iorque. Na digressão Gilmore será substituído na bateria por Joe Dyson, mas James Francies, que tem uma importante quota parte da sonoridade do novo disco, acompanhará Metheny. O disco inclui alguns temas originais e novas versões, bem trabalhadas, de temas clássicos de Metheny como “Timeline”, originalmente gravado com Michael Brecker e Elvin Jones. O novo trio não hesita em usar texturas eletrónicas, em contraste com sonoridades tradicionais do jazz. O disco inclui oito  temas, começa pelo longo e envolvente “It Starts When It Disappears”. Jamie Francies tocou ao lado de nomes do jazz, dos R&B e do hip-hop e a sua presença é marcante no resultado final do disco e sobretudo nos 13 minutos do tema de abertura. Outros destaques vão para “Timeline”, “Lodger”, “Better Days Ahead” , “Bright Size Life” (do início da carreira de Metheny), “Turnaroud”  e “Zenith Blue”. Mas este exercício de selecção é um bocado forçado, o disco é todo ele magnífico, a guitarra de Metheny continua a ser mágica sem exibicionismos gratuitos e o trio é poderoso. Disponível nas plataformas de streaming.


 


O BELO FRANGO - Sou do tempo em que o Galeto anunciava com fulgor, pouco depois de abrir, em 1966,  a novidade de vender frangos assados, nessa altura ainda não muito vulgares. Agora eles estão em todo o lado e sob diversas formas - inteiros, com ossos e desossados, com uma gama de temperos e vários métodos de assadura. Uma das mais emblemáticas casas da especialidade é a Valenciana, em Campolide. Nasceu em 1914 como casa de pasto e foi desenvolvendo o negócio que hoje em dia existe. O frango assado foi introduzido na ementa nos anos 50 do século passado e a lista agora é bem variada. Mas a maior parte das pessoas que ali vão, para comer no local ou para levar para casa, procura o frango assado. Sempre bem assado, com molho simples ou picante e com acompanhamentos como salada, esparregado ou batatas fritas às rodelas caseiras. A Valenciana vende cerca de 500 frangos por dia e ao fim de semana por vezes esse número duplica. Agora tem uma meia dúzia de salas interiores e, desde há algum tempo, uma grande esplanada com jardim vertical, a dar para a praceta de Campolide, onde agora passa o eléctrico 24. A esplanada é devidamente protegida do vento que é um ex-libris de Campolide.  Os frangos da Valenciana são simples, saborosos, suculentos e despretensiosos. O serviço é simpático, o take-away é rápido. Eu sou freguês e nunca me correu mal.


 


DIXIT-  “ Os descobrimentos são um passado de conhecimento e de abertura ao Mundo de que Portugal se pode orgulhar. Esconder os painéis hoje é deixar de ler Os Lusíadas amanhã” - Manuel S. Fonseca.


 


BACK TO BASICS - “Pessoas com coragem e caráter parecem sempre sinistras aos olhos de outros” - Hermann Hesse

setembro 10, 2021

9/11 - O DIA EM QUE O MUNDO MUDOU

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O DIA 11 - Estava a meio do almoço, perto do sítio onde trabalhava, a Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. No restaurante do então novo Centro Comercial, uma televisão ligada dava notícias, sem som. De repente, vejo um avião a colidir com um prédio. Continuei a almoçar, mas fiquei intrigado. Pensei com os meus botões que talvez fosse o trailer promocional de algum filme novo de Bruce Willis. Mas, um pouco depois, há um sobressalto no estúdio e entram imagens em directo da CNN na emissão da SIC Notícias. Há um segundo avião a embater noutro prédio, ao lado do primeiro, a essa hora já semi destruído. Não queria acreditar no que estava a ver. Eu e outros pedimos ao restaurante para colocar som, e percebemos, então o que se estava a passar. Nem queríamos acreditar. Paguei rapidamente e saí. No Centro não se falava de outra coisa - em todas as lojas onde havia televisores nas montras, estavam ligados à mesma imagem. A essa hora já sabia que tinham sido as torres gémeas de Nova Iorque o alvo do ataque, era visível que ambas estavam destruídas e sabia-se que havia um número enorme de mortos. Quando cheguei ao escritório estava toda a gente alvoroçada. Pus-me na minha sala a procurar canais e mais notícias. A net era ainda incipiente, a informação mais rápida vinha pela televisão ou pela rádio. A TSF não parava. Foi chegando gente àquela sala, improvisado palco de últimas notícias. Nessa tarde, numa conversa com o Francisco Vasconcelos, ainda hoje à frente da empresa, o tema foi só um, e dito por ele: “hoje o mundo mudou e nada vai ser igual”. O que o Francisco então disse confirmou-se em cheio. A fotografia do início destas duas páginas é do memorial construído no local onde estavam as torres destruídas, e fotografei-o numa viagem a Nova Iorque em 2014, três anos depois de ter sido inaugurado. É um local impressionante, os nomes dos mortos esculpidos na pedra. Ninguém se pode esquecer. Naquele dia, percebemos que a guerra pode chegar aos nossos pés, de uma forma sistemática e financiada como nunca antes tinha acontecido. A forma de encarar as viagens, de entrar nos aeroportos, de olhar para as outras culturas, nunca mais foi a mesma.





DESFOLHADA - Em 1 de Janeiro de 2001 começou o terceiro milénio da nossa era; George W. Bush tomou posse como Presidente dos Estados Unidos; a doença das vacas loucas alterou hábitos de alimentação; em Abril aviões dos Estados Unidos e Reino Unido bombardearam posições no sul do Iraque; Tony Blair foi reeleito Primeiro-Ministro do Reino Unido; a 11 de Setembro um ataque reivindicado pela Al Qaeda, dirigida por Osama Bin Laden, destruiu as torres gémeas do World Trade Center de Nova Iorque; nesse dia nos Estados Unidos 19 terroristas sequestraram quatro aviões comerciais de passageiros, colidiram dois contra as Torres Gémeas, um contra o Pentágono, em Washington,  e o quarto caíu na Pensilvânia; quase três mil pessoas morreram nestes atentados, incluindo os 227 civis e os 19 sequestradores que estavam nos aviões; a esmagadora  maioria eram civis de mais de 70 países, incluindo cinco portugueses; a 7 de Outubro os Estados Unidos iniciaram uma operação militar no Afeganistão intitulada “Liberdade Duradoura”; em Novembro foi lançado o primeiro o filme “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro da saga; em Dezembro nasceu Billie Eilish; o prémio Nobel da Literatura foi atribuído a V.S. Naipaul;  em Portugal, nas eleições autárquicas de 16 de Dezembro 2001 o Partido Socialista perdeu 14 câmaras, em comparação com as eleições anteriores e o PSD ganhou concelhos como Lisboa, Porto e Coimbra, entre outros; na sequência do resultado das Autárquicas o Primeiro Ministro António Guterres demitiu-se, provocando legislativas antecipadas no ano seguinte; em 14 de Janeiro de 2001 Jorge Sampaio havia sido reeleito Presidente da República; a 4 de Março ruiu a ponte Hintze-Ribeiro, em Entre-os -Rios, causando 59 mortes; em 2001 o Boavista foi o Campeão Nacional de futebol pela primeira vez na sua história. 


 


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UM LIVRO EMOCIONANTE - Se fizerem uma busca sobre livros escritos na sequência dos atentados de 9 de Setembro de 2001, um dos que mais aparece bem recomendado é datado de 2019, bem recente portanto. Chama-se “Fall And Rise” e o seu autor, Mitchell Zuckoff, era em 2001 repórter do Boston Globe, um dos jornais de referência norte-americanos. O seu trabalho, na sequência do atentado, reconstruiu os momentos do ataque, evocou as vítimas e testemunhou o sofrimento das famílias. O autor demorou anos a conseguir reconstituir o puzzle de informações que recolheu para construir uma narrativa linear, e apaixonante, do que aconteceu a 9 de Setembro de 2011 em Nova Iorque, no Pentágono e na Pensilvânia. O livro fala dos mortos, mas também dos sobreviventes, cheio de histórias das pessoas que foram afectadas pelos acontecimentos dessa terça- feira, de Setembro de 2001. Há histórias como a de um actor que ficou preso num elevador na torre norte do World Trade Center, os heróis do vôo 93 que decidiram agir e impediram outro atentado, provocando a queda do avião numa zona não habitada da Pensilvânia ou a do veterano de diversas guerras que ficou encurralado no Pentágono. Este é de facto um retrato especial do 11 de Setembro, feito à distância, mas que permite olhar de novo para os acontecimentos, com a clareza que o distanciamento proporciona mas também com a emoção que os relatos evocados trazem ao virar de cada página. Esta é a história de pessoas vulgares num dia invulgar e terrível da nossa História recente. Pode encontrá-lo na Amazon, edição de capa dura com 624 páginas. Está disponível igualmente em versão para Kindle. 


 


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UM QUARTO COM VISTA  - Rita Barros é uma fotógrafa portuguesa que vive em Nova Iorque e testemunhou e fotografou o ataque às torres gémeas. Em Novembro de 2002 apresentou no Porto, no Centro Português de Fotografia, a exposição “Um Ano Depois” (cujo cartaz aqui se reproduz). Depois a exposição seguiu para o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, de 5 de Abril a 1 de Junho de 2003. Em Novembro de 2001 a Câmara Municipal de Lisboa promoveu a exposição colectiva “Tributo a Nova Iorque” nos Paços do Município, na qual estavam incluídas algumas das imagens de Rita Barros. Ao longo dos anos Rita Barros tem fotografado, da sua janela - a partir da qual fez as primeiras imagens do ataque - a evolução da linha do horizonte e o semanário “Expresso” publicou em 2012 um artigo onde surgiam as fotos de 2001 e as que que Rita Barros fez em 2011. Também a revista do Correio da Manhã publicou uma foto tirada por ela da sua janela com as torres a arderem e o mesmo enquadramento em 2011 e 2021. Rita Barros vive em Nova Iorque desde 1980, onde estudou e agora ensina fotografia na New York University. Um dos seus trabalhos mais importantes pode ser visto na exposição “Room 1008: The Last Days”, que até 10 de Outubro está patente no Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís. 1008 é o número do quarto onde vive desde 1984 no famoso Chelsea Hotel. “Room 1008: The Last Days”  prossegue o trabalho apresentado em anos anteriores e inclui uma série de impressões fotográficas e um livro em forma de acordeão. A esta série, juntou-se, especificamente para esta exposição, um conjunto de pequenos vídeos realizados durante os forçados confinamentos que a pandemia impôs a todos.


 


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CANÇÔES DE RESISTÊNCIA - Dezenas de músicos e cantores fizeram e interpretaram canções que têm por pano de fundo os atentados de 11 de Setembro de 2001 e a forma como eles alteraram as nossas vidas e, em especial, mudaram Nova Iorque. Entre todos eles gostava de destacar “I Can´t See New York”, de Tori Amos, em 2002, uma canção em que  ela descreve a surpresa de um passageiro que ao chegar a Nova Iorque de avião não consegue localizar o World Trade Center. 50 Cent gravou “Patiently Waiting” em 2003 e em 2004 os Beastie Boys gravaram “An Open Letter to NYC”. A primeira canção que se conhece sobre o tema, de 2001, foi “Song For The Lonely”, de Cher.  Em 2004 Leonard Cohen escreveu “On That Day”, os Coldplay em 2002 gravaram “Politik” e logo a seguir os Eagles fizeram “Hole In The World”. Paul McCartney com “Freedom” e Sheryl Crow com “God Bless This Mess” e os Cranberries com “New New York” são outros nomes que evocaram os atentados na sua música. No álbum “The Rising” (na imagem), Bruce Springsteen incluíu nove temas relacionados com o atentado, entre os quais a faixa título, mas também “You’re Missing”, “Into The Fire”, “Empty Sky” ou “Lonesome Day”, entre outras. No Spotify há uma lista intitulada “9/11- songs about nine eleven” onde podem ouvir muitos destes temas.


 


E A COMIDA? - Os americanos fazem inquéritos sobre tudo - até sobre as alterações de hábitos alimentares ocorridos após os atentados de 11 de Setembro. Pois a conclusão é simples: cresceu em 15% o consumo daquilo a que se convencionou chamar "comfort food”, cozinhados simples mas com capacidade para saciar o apetite, muitas vezes baseados em receitas tradicionais. E cresceu, também, em 15%, o consumo de doces e sobremesas. O resultado: um em cada dez norte-americanos ganhou peso nos dois meses seguintes. Mas nos dias a seguir aos atentados, com extensas zonas do centro de Nova Iorque interditas e abastecimentos complicados, houve momentos emocionantes como os carros de venda na rua que alimentaram gratuitamente os bombeiros, os delis que levavam sanduíches de pastrami aos que estavam a trabalhar na busca de feridos, as pizzerias que entregavam aos que estavam a trabalhar na zona do desastre. Foi a comida de rua que alimentou as equipas de socorro, a mesma que cada vez que vamos a Nova Iorque é uma tentação - seja um pretzel gigante, um hotdog ou uma deliciosa sanduíche de pastrami, de longe a minha preferida.


 


DIXIT - “Se não aprendermos mais nada com esta tragédia, retenhamos que a vida é curta e que não há tempo para o ódio” - Sandy Dhal, mulher de Jeff Dahl, que pilotava o vôo 93.


 


BACK TO BASICS - “Aquilo que nos distingue dos animais e nos separa do caos é a nossa capacidade para sofrermos em relação a pessoas que não conhecemos” - David Levithan


 

setembro 03, 2021

LISBOA MERECE MELHOR QUE UM POLÍTICO CÍNICO E SEM ÉTICA

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PEDRO NUNO SANTOS GANHOU - O silêncio às vezes compensa e, num Congresso que mais pareceu uma convenção autárquica, o recato de Pedro Nuno Santos pode ter valido pontos. Se durante o Congresso do PS ele não foi confrontado com críticas, bastaram dois dias para Medina começar a desempenhar o papel de batedor ao serviço de António Costa. O  pretexto foi a apresentação do seu programa eleitoral em Lisboa onde não faltaram críticas indirectas a Pedro Nuno Santos, nomeadamente na questão do aeroporto. Medina, nas autárquicas anteriores, apresentou um programa que não cumpriu; um programa em que há quatro anos não mencionou medidas que depois tomou, sem terem sido votadas, e que se tornaram no inferno dos lisboetas - como a perseguição à circulação automóvel sem a criação de medidas alternativas nos transportes públicos. Esta semana Fernando Medina fez um dos mais extraordinários exercícios de demagogia de que há memória. Por um lado a querer convencer que é um reivindicativo crítico do Governo, coisa que não se viu ao longo da sua permanência nos Paços do Concelho, e, depois, ao lançar acusações sobre o seu rival eleitoral que só fanáticos desinformados podem subscrever. Este é no entanto o estilo habitual de Medina, tem sido assim ao longo do tempo, desde a sua ausência no início da pandemia, que provocou atrasos consideráveis na região de Lisboa, ao contrário do que acontecia noutros concelhos limítrofes. Este sobressalto de Medina em relação ao Governo é também a constatação de que o jogo de sombras chinesas que António Costa tão bem pratica, patente quando avançou com Marta Temido para a lista de possíveis sucessores, está a causar mossa nos outros pretendentes. Medina quer continuar a ser Presidente da Câmara para manter o protagonismo político de que necessita se quiser suceder a Costa.  É sempre alguém apenas em trânsito face às suas ambições pessoais. Termino com um exemplo recente: durante anos Medina rejeitou críticas à forma como autorizava e fomentava uma avalanche de alojamentos locais que ajudaram a descaracterizar a cidade, mas agora aparece a querer limitá-los face aos perversos efeitos que já são evidentes. Esta semana apresentou um programa de promessas que contrasta com o que não fez durante os mais de seis anos que leva como Presidente da Câmara.  Como se pode acreditar num homem com este desempenho? Medina não é mais que um político cínico, sem ética, que não olha a meios para atingir os seus objetivos pessoais. Lisboa merece melhor. Pedro Nuno Santos deve olhar para tudo isto com um sorriso. Silencioso.





SEMANADA-  Durante a pandemia os portugueses duplicaram as suas poupanças e os depósitos de particulares nos bancos atingem agora 22,7 mil milhões de euros; Portugal está em vigésimo lugar no ranking dos investimentos dos Estados europeus em Cultura, atrás da Roménia, Eslováquia, Hungria e República Checa; segundo dados do INE o preço médio do metro quadrado de habitação em Portugal é de 1241 euros e há 25 concelhos onde o preço da habitação custa menos de metade da média nacional; em Lisboa há mais agências bancárias que em 16 distritos portugueses; em 2001 havia 206 milhões de cheques a circular e em 2020 o número ficou perto dos 15 milhões; Portugal e a Lituânia são os únicos dois países da UE sem uma oferta comercial de redes de telecomunicações 5G; Paul Milgrom, prémio nobel da economia em 2010, afirmou que o “leilão de 5G em Portugal segue regras que eram usadas há 20 anos”;  o preço dos bens alimentares subiu entre 10 a 20% no último ano devido à escassez de alguns produtos, ao aumento das rações, da  logística e dos transportes; José Sócrates esteve de férias no Brasil e encontrou.se com Lula e Dilma Rousseff; PS, PCP e PEV aprovaram no Parlamento uma lei, em vésperas das autárquicas, para amnistiar autarcas que não cumpriram regras financeiras -  a lei foi feita à medida de cinco autarcas do PS e um do PCP que têm processos na Inspecção Geral de Finanças; as despesas de consumo das famílias e das Administrações Públicas já ultrapassaram o patamar pré-crise, tal como o investimento, mas as exportações, penalizadas pelo turismo, ainda contabilizam uma quebra superior a 15%.





O ARCO DA VELHA- Em 2020 e 2021 o Governo não aprovou o Decreto Lei de Execução Orçamental, e em vez disso emitiu as instruções de execução orçamental através de uma mera  Circular da Direcção Geral do Orçamento. Marques Mendes defende que esta actuação é inconstitucional e tem como consequência que a Assembleia da República não tem informação nem capacidade de fiscalizar o que se passa com a execução orçamental.


 


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LER -   Nas páginas de ”O Sonho de Amadeo”, mergulhamos numa história em que a realidade e o sonho se confundem. O protagonista, Amadeo, acorda esbaforido após sonhar que foi assassinado, mas não se lembra do mais importante: o rosto do assassino. Tenta recordar-se dos pormenores do sonho, transportando-os para os quadros que pinta, ao mesmo tempo que inicia a procura de respostas nas noites mal dormidas, depois de receber um postal ilustrado que lhe lembra um dos seus sonhos.  “O Sonho de Amadeo”, é uma obra de Leonardo Costa de Oliveira, vencedora da última edição do Prémio Revelação Literária UCCLA-CMLisboa: Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa. Leonardo Costa de Oliveira, de 38 anos, natural de Paracambi, no interior do Rio de Janeiro, é doutorado em Geociências, é geofísico na petrolífera brasileira Petrobras e estreia-se como autor com este livro. São dele estas palavras:  «Será que eu também poderia escrever um livro? Criar uma história que pudesse interessar outras pessoas? Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade trabalhavam como funcionários públicos... Talvez, a partir de hoje, eu possa ser geólogo e também escrever... Por que não?» A edição é da editora “Guerra & Paz”.


 


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VER-  No Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, está patente até 3 de Outubro a exposição “Em Busca do Tempo Perdido”, de Francis Smith. Nascido em Lisboa em 1881, filho de pais ingleses, Francis Smith trabalhou grande parte da sua vida em França para onde cedo foi estudar pintura. No início do século XX foi contemporâneo, em Paris, da primeira geração modernista de artistas portugueses, como José-Augusto França lhe chamou, e que incluía Eduardo Viana, Manuel Jardim, Manuel Bentes, Amadeo de Souza-Cardoso, Emmerico Nunes e Domingos Rebelo. Quando Francis Smith morreu em Paris, em 1961, o pintor era unanimemente reconhecido como uma figura essencial da chamada Escola de Paris, da primeira metade do século XX. Com curadoria de Jorge Costa esta exposição da obra de Francis Smith apresenta a primeira investigação de fundo sobre a vida e obra desse artista modernista. Em França Francis Smith era reconhecido e teve uma carreira com reconhecimento da crítica, valorizada por colecionadores, participando nas mais importantes exposições do seu tempo. Pode dizer-se que ele foi o artista português que em vida obteve maior sucesso no panorama cultural francês. No entanto em Portugal a sua obra foi frequentemente menorizada. Foi Eduardo Viana quem em 1925 convidou Francis Smith a participar com várias obras no Salão de Outono, da Sociedade Nacional de Belas Artes. Mas foi em  seguiu em 1934, numa exposição no Salão Bobone, organizada pelo Secretariado Nacional da Propaganda, dirigido por António Ferro, que verdadeiramente Francis Smith foi reconhecido pela crítica local e obteve sucesso comercial - duas das suas obras existentes no Museu Nacional de Arte Contemporânea foram compradas nessa altura.





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OUVIR- ​​Um dos instrumentos cuja sonoridade mais me agrada é o baixo - seja o eléctrico, seja o contrabaixo. A editora ECM tem um histórico raro no registo de discos onde o baixo é predominante e um dos músicos que grava para a ECM é Marc Johnson. O seu mais recente álbum é “Overpass” onde ele aparece sózinho com o seu contrabaixo, acústico, dedilhado, por vezes com arco, não amplificado, ao longo de oito temas e quase 45 minutos. Johnson é um músico criativo que mesmo a solo e com um único instrumento consegue uma diversidade de ritmos e melodias. Marc Johnson nasceu no Nebraska em 1953, estudou música  na North Texas State University e começou a tocar aos 19 anos com a Fort Worth Symphony. Desde cedo trabalhou ao lado de nomes como Woody Herman, aos 25 anos era o baixista do trio de Bill Evans e a sua carreira cruza-se com a de nomes como Gary Peacock, Gary Burton, Jack DeJohnette, Bill Frisell, John Scofield, Stan Getz, Joe Lovano ou Paul Motian, entre outros. Um dos temas incluídos neste novo disco é “Nardis”, um original de Miles Davis que Johnson já tinha gravado com o trio de Bill Evans nos anos 70 e que agora surge reinterpretado. Outra nova versão é “Love Theme From Spartacus”, de Alex North e “Freedom Jazz Dance” de Eddie Harris. Os outros cinco temas são composições originais de Marc Johnson. “Overpass” está disponível nas plataformas de streaming.





PROVAR- Quem anda pelo lado da Praia do Meco tem agora um local onde pode comprar iguarias às vezes nada fáceis de encontrar naquelas redondezas. Trata-se da loja “Muito Espalhafato”, bem no centro de Alfarim, onde estão à venda bons vinhos, bons queijos (incluindo alguns estrangeiros como um pecorino siciliano de boa memória) e bons enchidos de produtores seleccionados - além de algumas outras iguarias como, inesperadamente, Dim Sums. O curioso é que além de poder comprar, pode ali provar alguns dos produtos num copo ao fim de tarde numa pequena esplanada no exterior. Este espaço de comidas e bebidas é sucessor do “Veneno”, que em tempos existiu em Alvalade pela mão de Francisco Ferrão Completo, homem de sete instrumentos sempre à volta da comida - desde restaurantes até serviços de entrega de comida como o Despacha-te Xico! Já aqui em tempos louvado. O Muito Espalhafato tem além das comidas e bebidas espaços onde se vendem livros em segunda mão, peças de joalharia artesanal, acessórios diversos e moda, velharias e peças de design.  Fica na Avenida José Carlos Ezequiel 44A, Alfarim.


 


DIXIT- “ Mais do que vistos gold para estrangeiros com dinheiro, devíamos ter um visto gold para imigrantes qualificados” - Maria João Valente Rosa, demógrafa, professora na Universidade Nova de Lisboa


 


BACK TO BASICS - Um clássico é um livro que toda a gente quer poder dizer que leu mas que ninguém quer ler - Mark Twain