setembro 24, 2021

PARA ALÉM DOS RESULTADOS: REVISÃO DA LEI ELEITORAL PRECISA-SE

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O PESO DA ABSTENÇÃO - As eleições, como as que teremos Domingo 26, levantam três questões essenciais para que a democracia funcione: uma revisão e actualização da Lei Eleitoral, adequando-a à evolução da sociedade e da tecnologia desde 1975, a expectativa de que estas mudanças e uma reforma do sistema político-partidário ajudem a combater a abstenção galopante e, finalmente, uma actuação de fiscalização que evite a repetição do regabofe em que António Costa andou nestes dias perante a complacência da CNE, chegando a insinuar que autarcas do PS conseguirão utilizar melhor os dinheiros da bazuca que os de outros partidos. Peguemos no histórico das autárquicas e vamos a números. Estes, que hoje utilizo, foram compilados pela MARKTEST. Entre 1976 e 2017, a taxa de participação eleitoral nas autárquicas baixou 15%, passando de 64.6% em 1976 para 55.0% em 2017. Esta quebra foi mais acentuada nos distritos de Setúbal, Lisboa e Faro, ao contrário dos distritos de Bragança, Castelo Branco, Guarda e das Regiões Autónomas, únicas regiões onde a taxa de participação aumentou em 2017 face a 1976. Consequentemente, a taxa de abstenção aumentou, de 35.4% para 45.0% no período em análise. O ano de 1979 foi o ano de maior participação eleitoral. Nesse ano, 73.8% dos eleitores inscritos participaram nas eleições para a Câmara Municipal. Pelo contrário, 2013 e 2017 foram os anos com menor percentagem de participação nas autárquicas (respetivamente, 52.6 e 55.0%). Há quase metade dos eleitores que não têm participado nas autárquicas e os partidos não promovem as reformas necessárias para alterar este estado de coisas. Será porque lhes dá jeito?


 


SEMANADA - As aulas começaram mas em muitos casos sem os manuais escolares cuja entrega se atrasou; os salários dos professores com 15 anos de experiência subiram nos países da OCDE entre 2005 e 2020, à excepção de Portugal onde diminuíram 6%; a Presidente do Conselho das Finanças Públicas disse no Parlamento que a instituição que dirige tem dificuldade em obter do Ministério das Finanças a informação imprescindível para escrutinar o trabalho do Governo; o endividamento das empresas privadas atingiu 269,5 mil milhões de euros em julho, o valor mais elevado desde os 269,9 mil milhões de euros registados em março de 2014; três meses depois do acidente com a viatura oficial de Eduardo Cabrita, que vitimou um trabalhador na A6, ainda não se sabe a velocidade a que ía o veículo; segundo a DECO, por cada 100 euros pagos na conta de electricidade 46,5 € são para impostos e taxas; o leilão da rede de telecomunicações 5G já dura há mais de nove meses e não há perspectivas de quando poderá haver oferta comercial da rede móvel de quinta geração; a pandemia provocou uma quebra de quase 25% na compra de sapatos em Portugal em 2020; nos últimos oito anos o número de câmeras de vigilância nas ruas passaram de 38 para mais de 850 e Amadora e Lisboa são os concelhos mais vigiados dos 14 que instalaram videovigilância ;  existem 239 ex-políticos e juízes com subvenções vitalícias pagas pelo Estado; a Câmara Municipal de Lisboa tem cerca de dois mil fogos devolutos que podiam ser reabilitados para habitação social; segundo a Marktest perto de seis milhões de portugueses costumam ler notícias online, uma tendência que cresceu 28% desde 2013.


 


O ARCO DA VELHA - Fernando Nobre, médico, fundador e presidente da AMI, esteve presente a apoiar uma manifestação de negacionistas, não aceita a vacinação contra a Covid-19 e recusa-se a usar máscara.


 


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RETROSPECTIVA & COLECTIVA -  Há muito para ver na galerias lisboetas, entre retrospectivas, revelações e colaborações. Vou começar pela retrospectiva de Sofia Areal, na Fundação Carmona e Costa. A exposição, “20 anos para a frente, 20 anos para trás” permite viajar pelo percurso criativo da artista através de 130 das suas obras feitas ao longo de quatro décadas. ​​A exposição é acompanhada por um livro com textos de José Luís Porfírio, Jorge Silva Melo, Ricardo Escarduça e Martim Brion, que foi o curador da exposição. Nascida em Lisboa, em 1960, Sofia Areal (na imagem) tem desenvolvido o seu trabalho na pintura, desenho, colagem, ilustração, design gráfico, desenho têxtil e cenografia. A exposição fica até 18 de Dezembro na Fundação Carmona e Costa, Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1. Uma outra exposição inaugurada por estes dias e de visita muito recomendada é “Matéria Luminal” que fica no Museu Berardo até 9 de Janeiro. Com curadoria de Sérgio Mah, a exposição mostra abordagens artísticas em torno da luz com obras relevantes desde meados dos anos 60 até à actualidade. Cerca de quatro dezenas de artistas estão representados, proporcionando uma visão conjunta, infelizmente rara, do seu trabalho. Esta é mais uma razão para visitar “Matéria Luminal” e ter uma visão de conjunto de trabalhos de nomes como Ana Jotta, Palolo, Cabrita, Fernando calhau, João Paulo Feliciano, Jorge Martins, Jorge Molder, José Barrias, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Manuel Rosa, Miguel Palma, Paulo Nozolino, René Bertholo ou Rui Chafes, entre outros.


 


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OS DESAFIOS - No Pavilhão Branco, do Palácio Pimenta, Pedro Calapez e Alexandre Conefrey apresentam um conjunto de trabalhos inspirados pela obra “Viagem de Inverno”, poemas de Wilhelm Muller musicados por Schubert em 1827, uma obra musical cara aos dois artistas. É a segunda exposição recente de Pedro Calapez em parceria com outro artista - a outra é “Seja Dia Ou Seja Noite Pouco Importa”, com André Gomes,  ainda patente no Museu Berardo até 17 de Outubro. Nestes trabalhos apresentados no Pavilhão Branco é sensível uma mudança - já anteriormente enunciada - do trabalho de Pedro Calapez, que está a percorrer um território visual diverso do que nos últimos anos trabalhou com um resultado francamente surpreendente. Neste caso o contraste entre as pinturas de grande dimensão de Calapez e as pinturas de pequeno formato de Alexandre Conefrey (na imagem) é amplificado pela montagem criativa do curador da exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues. Conefrey apresenta também um conjunto de desenhos, num curioso contraste com as pinturas. A exposição fica no Pavilhão Branco até 14 de Novembro. E por fim a grande surpresa da semana - “Pick A Card, Any Card”, a exposição inaugural de Isa Toledo, na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). A sua matéria prima é a palavra, quer nas pequenas folhas de bloco notas, juntando palavras e frases e criando painéis, quer nos vídeos (que podem ser vistos no Instagram da artista).Verdadeiramente surpreendente.


 


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DANÇA & ARQUITECTURA - Nunca fui a Luanda, uma cidade que de alguma forma me atrai. Sente-se que existe uma comunidade artística activa, em diversas áreas. Um livro recentemente editado, “Lugares Incorporados”, fez-me ficar com mais vontade de a conhecer. A ideia do livro é desafiadora: dezasseis bailarinos de quatro gerações da Companhia de Dança Contemporânea de Angola foram fotografados em conjunto com dezasseis edifícios e lugares da cidade de Luanda que revelam os laços sociais e afetivos que se estabelecem entre as pessoas e os lugares que habitam. As fotografias são de Rui Tavares e mostram um património importante para a caracterização, a história e as memórias da capital de Angola. As imagens exploram as afinidades entre a Dança e a Arquitectura, espelhando as relações entre o corpo, o movimento e o espaço. O livro, “Lugares Incorporados”, patrocinado pela Sociedade Mineira de Catoca e editado pela Guerra & Paz, pretende também alertar para o risco que corre uma boa parte deste património edificado, “na esperança de que possa ser resgatado, recuperado e devolvido à sociedade luandense”. O autor das fotografias, Rui Tavares, é angolano e desde 1991 interessa-se pelas imagens de dança. Começa nessa época a sua colaboração com o Conjunto Experimental de Dança, que mais tarde deu origem à Companhia de Dança Contemporânea de Angola, de que é um dos membros fundadores. O livro mostra edifícios como os dos Armazéns da Baixa de Luanda, a Casa do Sobrado, a Cervejaria Biker, o Cine Karl Marx, o Edifício da Lello, o Governo Provincial de Luanda, o Mercado do Kinaxixi, o Palacete Cor de Rosa e o Teatro Avenida, entre outros. Os textos que enquadram as fotografias de Rui Tavares, são de Isabel Martins e Cristina Pinto.  Ana Clara Guerra Marques coordenou o projecto. O livro está disponível em Portugal no site da editora - guerraepaz.pt  .


 


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UMA BANDA SONORA - “Flag Day” é o filme de Sean Penn que esteve presente no Festival de Cannes deste ano, onde foi aplaudido. Baseado numa história verídica, "Flag Day" conta a vida de um pai, John Vogel (Sean Penn), que subsiste graças a pequenos furtos para poder sustentar os seus filhos. Para fazer a banda sonora do filme Penn convidou Eddie Vedder, que por sua vez se fez acompanhar por Glen Hansard, pela sua filha Olivia Vedder e por Cat Power. O resultado é uma colecção de 13 canções, a maioria originais, mas com algumas inspiradas versões como “I Think of Angels”, do islandês Kristján Kristjánsson, interpretada por Cat Power com a presença do próprio Krisján nos coros,  ou “Drive” dos R.EM., revisitada pelo próprio Eddie Vedder. Além disso, há oito canções compostas por Vedder e Hansard e três novas canções de Cat Power. Olivia Vedder canta na faixa de abertura, “My Father’s Daughter” e em “There’s A Girl” e é uma boa surpresa. O segundo tema da banda sonora é a faixa título, “Flag Day”, uma balada que é um dos melhores temas originais desta banda sonora. “I Am a Map,” “I Will Follow,” and “Dream” são os três temas originais de Cat Power e todos merecem atenção. O álbum tem  uma produção minimalista, arranjos simples, essencialmente acústicos e o resultado é uma banda sonora invulgarmente bem conseguida. Disponível nas plataformas de streaming. 


 


DIXIT - ​​"Temos em Portugal, no presente e desde há muito, uma sociedade rígida, pouco aberta à mudança e à inovação, cujas regras do jogo e incentivos são perversos e pouco claros. Uma sociedade com abusos de poderes dominantes com cliques partidárias, empresariais, corporativas ou familiares, que ocupam e dispõem de lugares marcados. Por um lado, não permitem o surgimento de novos actores e, por outro, não permitem o fim de projectos sem viabilidade. " - António Carrapatoso





BACK TO BASICS - “As pessoas não devem ter medo de quem as governa; são os governantes que devem temer o que os cidadãos pensam deles" - Alan Moore.


 







setembro 22, 2021

LISBOA: DEIXAR ANDAR OU MUDAR? SOCIALISMO OU LIBERDADE?

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O governo da nação anda num frenesim. Costa não pára sossegado, desdobra-se em promessas e no desfiar das maravilhas do PRR nos numerosos comícios das eleições autárquicas onde tem andado a apaparicar as listas do PS, de norte a sul do país. Aliás não anda sózinho: da Ministra da Saúde ao Ministro das Infraestruturas, dois putativos concorrentes à sucessão de Costa, a máquina socialista actua como uma central de propaganda. António Costa até parece que concorre em múltiplos concelhos, está em todo o lado. Mesmo sem estar em nenhuma lista é o maior protagonista destas autárquicas, sempre a distribuir brindes para o futuro. Chega ao ponto de insinuar que os autarcas socialistas serão melhores a aplicar os fundos da bazuca que os de outros partidos. A sempre expedita Comissão Nacional de Eleições, que andou atrás de autarcas que queriam apenas dizer o que tinham feito no seu concelho, limita-se a timidamente recordar que o executivo tem um dever de neutralidade face aos desmandos eleitoralistas governamentais. Assim a CNE age como fiel serventuária do regime e de quem nele manda. Em resposta à observação, Costa passou todo o fim de semana a fazer mais do mesmo: distribuir promessas e evocar sucessos e amanhãs maravilhosos com o PS a mandar. É um contraste com o que se passou, por exemplo, com Carlos Carreiras e Isaltino de Morais, que estão entre os autarcas que se viram impedidos pela CNE de divulgar o que foi feito nos municípios que governaram durante este mandato.  Na sequência do ocorrido Carlos Carreiras acusou a CNE de “falta de independência” e de ser “manifestamente partidarizada e governamentalizada”. Bazuka por todo o país, promessas de diminuição de impostos, juras de descentralização sem dados concretos, este é o reino do vale-tudo. A batota eleitoral foi oficialmente instituída pelo Governo. Como Fernando Sobral bem escreveu na sua coluna no Jornal Económico: "Muitos candidatos não dizem o que podem fazer pelo país; nunca param de pensar no que o país pode fazer por eles." Um bom exemplo disso é Lisboa, que Fernando Medina encara como uma rampa de lançamento para vôos futuros. Lisboa promete ser o palco de uma disputa renhida entre o socialismo e a liberdade.  Medina transformou a Câmara Municipal num clube de interesses privados, actuação bem visível nos casos recentemente divulgados da área do urbanismo.  Como se viu no caso das informações a embaixadas estrangeiras, Medina não sabe sequer o que os seus serviços fazem em áreas tão delicadas como o respeito à privacidade e à defesa da liberdade de manifestação. E quanto a trabalho realizado, a realidade é esta:  das promessas que fez na anterior campanha executou apenas nove das 30 medidas mais importantes que então prometeu. Em contrapartida fez muita coisa de que nem falou na sua anterior campanha, nomeadamente tornar o trânsito em Lisboa num inferno, tornar a vida na cidade mais desconfortável para quem cá vive. Termino a citar Isabel Diaz Ayuso, Presidente da Comunidade de Madrid, que nas mais recentes eleições derrotou a esquerda, numa mensagem que dirigiu a Carlos Moedas: “Como em Madrid, há que libertar Lisboa das políticas socialistas fracassadas e do seu amiguismo para que os cidadãos e empresas cresçam em liberdade, numa sociedade pujante, uma Lisboa livre, aberta a todos. Socialismo ou Liberdade?”. No fundo, é isto.


 


Publicado em https://multinews.sapo.pt/opiniao/governo-ou-central-de-propaganda-socialismo-ou-liberdade/


 

setembro 17, 2021

OS NÚMEROS DA DECADÊNCIA DA LISBOA DE MEDINA

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ESTA LISBOA QUE AFUNDOU - Desde 2007 é o PS que manda em Lisboa - primeiro com Costa e logo a seguir com Medina. Agora, ao fim de 14 anos Medina espalha pelos cartazes que defende “o direito à cidade”. Vamos lá a ver os factos: segundo a Pordata entre 2009 e 2020, a população residente de Lisboa diminuiu de 550.466 para 509.565 (um decréscimo de 7,4%). Em 2020, dos 509.565 residentes no município de Lisboa, 106.971 eram estrangeiros, mais 63194 do que em 2009.  Em 2009 nasceram em Lisboa 6220 bebés e em 2020 o número desceu para 5697.  Em 2009 em Lisboa por cada 100 habitantes 61,7 estavam em idade activa e em 2020 eram apenas 55. Em 2009 havia 72.189 alunos nas escolas de ensino básico público da cidade, em 2019 o número tinha descido para 63.911; em 2009 existiam 190 alojamentos turísticos em Lisboa, em 2019, antes da pandemia, contabilizavam-se 713; em 2009 a despesa da Câmara Municipal de Lisboa em actividades de Cultura e desporto significava 30,6% do total da despesa, esse número caíu para 8,4% em 2019. Os filhos dos lisboetas vão viver para a periferia e há 85 mil idosos a viver sózinhos ou na companhia de alguém da mesma idade na cidade. Um projeto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, designado Radar, recolheu dados de uma amostra de 30 mil destes seniores, e concluiu que 27 mil, ou seja 92% destas pessoas, não têm acompanhamento por parte de instituições, e, muito menos da autarquia. O meu maior desejo é que nestas eleições se conseguisse inverter esta tendência, que a cidade renasça e consiga cativar mais jovens, mais pessoas em idade activa, que a cidade deixe de ser um cenário para turista ver e sim um local onde os alfacinhas possam viver. O PS e Medina pioraram todos os indicadores desde que estão à frente de Lisboa. Alguém acredita que agora vão mudar? Se querem mais quatro anos de promessas não cumpridas votem mais Medina: das promessas que fez na anterior campanha executou apenas nove das 30 medidas mais importantes que então prometeu.  


 


SEMANADA- Em 1981, em Portugal, tínhamos 45,4 idosos por cada 100 jovens, em 2019 tínhamos 161,3; em 1981 tínhamos 25,1% da população a receber pensões de reforma, em 2019 o número tinha subido para 40,5%; em 1999 tínhamos 14.643 estabelecimentos de ensino públicos dos vários graus de ensino e  em em em 2020 tínhamos 5.644; em 1986 existiam em Portugal 24.938 publicações periódicas em 2019 o número reduziu para 19.323;as eleições autárquicas mais concorridas dos últimos anos foram as de 2009 com 5,5 milhões de votantes e as que registram maior abstenção foram as de 2013, nas quais quase metade dos eleitores não votaram; no segundo trimestre de 2020 a dívida pública era de 125,7%  do PIB e em idêntico período de  2021 tinha subido para  132,8%; em 2001 existiam 669 estações de comboio e em 2019 o número tinha descido para 549; em 1968 a rede ferroviária activa tinha 3.592 kms e em 2020 tinha 2.526 kms; em 1980 os comboios transportavam 224 mil passageiros e em 2019 o número foi de 175 mil; em 1979 o emprego nas administrações públicas era de 9% da população activa e em 2019 já tinha subido para 13,3%; em 2000 a receita fiscal do Estado totalizava 25.669 milhões de euros e em 2020 atingiu 43.222 milhões; no mesmo período os impostos directos subiram de 11,3 mil milhões para 19,1 e os indirectos de 14,3 mil milhões para 24. Todos os números são da Pordata.


 


O ARCO DA VELHA- A deputada independente Joacine Katar Moreira, eleita pelo Livre, quer  retirar os painéis evocativos dos Descobrimentos, que estão no Salão Nobre da Assembleia da República, e que ilustram cenas evocadas n’Os Lusíadas.


 


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UMA FAMÍLIA ESPECIAL - Os Bruhhoff são uma família que transformou a vida da cultura europeia – e a francesa em particular. Um dos seus membros, Jean, foi o criador de uma figura incontornável da literatura infantil Babar, outro esteve na origem da “Vogue” francesa. Yseult Williams, jornalista, neta de um físico nuclear irlandês e de um dos pioneiros do moderno cinema britânico, é a autora de “O Esplendor dos Brunhoff”, um livro que resulta de conversas com Marion de Brunhoff, que, aos 92 anos, quis deixar o legado da sua família – uma incursão pelo mundo das artes, da política e da História da Europa do século XX. Ao ler o livro descobre-se que na Belle Époque, no bairro de Montparnasse, os Brunhoff davam cartas na imprensa, edição, moda, fotografia, arte moderna, num ambiente boémio e liberal. Na história dos Brunhoff cruzamo-nos com Sergei Diaghilev, Jean Cocteau, Christian Dior, Gabrielle Chanel, Yves Saint Laurent, com o americano Condé Nast que a eles se associou para criar a edição francesa da revista “Vogue”. O livro conta o período entre as duas grandes guerras, a perseguição que a família sofreu pela sua origem judaica, a forma como a imprensa francesa que não se tornou colaboracionista com os nazis resistiu. Sobre o livro o diário francês “Libération” escreveu que  «o talento desta família genial é também a sua generosidade de ver o talento dos outros.» O livro “O Esplendor dos Brunhoff” foi agora editado pela Quetzal.


 


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A FORMA DA CÔR - Entra-se na Galeria Filomena Soares e o sentimento é de surpresa. “Nada Existe/ Nothing Exists”, a nova exposição de 12 esculturas  de Rui Chafes feitas em 2020 e 2021, inaugurou dia 11 e ficará na Galeria até 20 de Novembro. Como frequentemente acontece no trabalho de Chafes, cada peça é uma descoberta, que por vezes se relaciona com a que está ao lado, outras vezes não. Nesta exposição há um novo caminho anunciado em relação a trabalhos anteriores. Sente-se uma mudança, um desafio entre as formas e o equilíbrio em que cada obra existe. Para além dos novos trabalhos (na imagem), podem ver-se noutra sala da Galeria quatro esculturas  de 2017 que foram os estudos para  a peça “La Nuit",  que foi apresentada na exposição “Rui Chafes e Alberto Giacometti - Gris, Vide, Gris”, apresentada na Fundação Gulbenkian em Paris, em 2018, com curadoria de Helena de Freitas. No texto de  apresentação de “Nothing Exists” o próprio Rui Chafes sublinha a importância da relação entre o vazio e a forma, o significado da cor negra na sua obra, a não separação entre o que é o interior e o exterior de cada peça e a importância do diálogo entre o equilíbrio das obras e o olhar de quem as observa. Imperdível, esta exposição. Outras sugestões: a colectiva “Matéria Luminal” que propõe um percurso pelas práticas artísticas em Portugal, desde meados dos anos 1960 até à actualidade, e que inclui obras de  trinta e oito artistas. A exposição tem curadoria de Sérgio Mah e ficará no Museu Berardo até 9 de Janeiro.


 


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A GUITARRA - Pat Metheny, 67 anos, mantendo-se fiel à sua guitarra, é na verdade um homem de sete instrumentos: grava com músicos de jazz, faz incursões na clássica, trabalha em bandas sonoras de filmes e séries de televisão, compõe canções que pouco têm a ver com o jazz e gosta de trabalhar com um grande leque de músicos, sobretudo com alguns bem mais novos. É o caso de James Francies no piano e orgão, e Marcus Gilmore na bateria que o acompanham no novo disco “Side-Eye NYC”, ponto de partida para uma digressão anunciada para os próximos meses  e que incluirá cerca de 100 concertos em todo o mundo. Este disco foi gravado  ao vivo, antes da pandemia, em Nova Iorque. Na digressão Gilmore será substituído na bateria por Joe Dyson, mas James Francies, que tem uma importante quota parte da sonoridade do novo disco, acompanhará Metheny. O disco inclui alguns temas originais e novas versões, bem trabalhadas, de temas clássicos de Metheny como “Timeline”, originalmente gravado com Michael Brecker e Elvin Jones. O novo trio não hesita em usar texturas eletrónicas, em contraste com sonoridades tradicionais do jazz. O disco inclui oito  temas, começa pelo longo e envolvente “It Starts When It Disappears”. Jamie Francies tocou ao lado de nomes do jazz, dos R&B e do hip-hop e a sua presença é marcante no resultado final do disco e sobretudo nos 13 minutos do tema de abertura. Outros destaques vão para “Timeline”, “Lodger”, “Better Days Ahead” , “Bright Size Life” (do início da carreira de Metheny), “Turnaroud”  e “Zenith Blue”. Mas este exercício de selecção é um bocado forçado, o disco é todo ele magnífico, a guitarra de Metheny continua a ser mágica sem exibicionismos gratuitos e o trio é poderoso. Disponível nas plataformas de streaming.


 


O BELO FRANGO - Sou do tempo em que o Galeto anunciava com fulgor, pouco depois de abrir, em 1966,  a novidade de vender frangos assados, nessa altura ainda não muito vulgares. Agora eles estão em todo o lado e sob diversas formas - inteiros, com ossos e desossados, com uma gama de temperos e vários métodos de assadura. Uma das mais emblemáticas casas da especialidade é a Valenciana, em Campolide. Nasceu em 1914 como casa de pasto e foi desenvolvendo o negócio que hoje em dia existe. O frango assado foi introduzido na ementa nos anos 50 do século passado e a lista agora é bem variada. Mas a maior parte das pessoas que ali vão, para comer no local ou para levar para casa, procura o frango assado. Sempre bem assado, com molho simples ou picante e com acompanhamentos como salada, esparregado ou batatas fritas às rodelas caseiras. A Valenciana vende cerca de 500 frangos por dia e ao fim de semana por vezes esse número duplica. Agora tem uma meia dúzia de salas interiores e, desde há algum tempo, uma grande esplanada com jardim vertical, a dar para a praceta de Campolide, onde agora passa o eléctrico 24. A esplanada é devidamente protegida do vento que é um ex-libris de Campolide.  Os frangos da Valenciana são simples, saborosos, suculentos e despretensiosos. O serviço é simpático, o take-away é rápido. Eu sou freguês e nunca me correu mal.


 


DIXIT-  “ Os descobrimentos são um passado de conhecimento e de abertura ao Mundo de que Portugal se pode orgulhar. Esconder os painéis hoje é deixar de ler Os Lusíadas amanhã” - Manuel S. Fonseca.


 


BACK TO BASICS - “Pessoas com coragem e caráter parecem sempre sinistras aos olhos de outros” - Hermann Hesse

setembro 10, 2021

9/11 - O DIA EM QUE O MUNDO MUDOU

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O DIA 11 - Estava a meio do almoço, perto do sítio onde trabalhava, a Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. No restaurante do então novo Centro Comercial, uma televisão ligada dava notícias, sem som. De repente, vejo um avião a colidir com um prédio. Continuei a almoçar, mas fiquei intrigado. Pensei com os meus botões que talvez fosse o trailer promocional de algum filme novo de Bruce Willis. Mas, um pouco depois, há um sobressalto no estúdio e entram imagens em directo da CNN na emissão da SIC Notícias. Há um segundo avião a embater noutro prédio, ao lado do primeiro, a essa hora já semi destruído. Não queria acreditar no que estava a ver. Eu e outros pedimos ao restaurante para colocar som, e percebemos, então o que se estava a passar. Nem queríamos acreditar. Paguei rapidamente e saí. No Centro não se falava de outra coisa - em todas as lojas onde havia televisores nas montras, estavam ligados à mesma imagem. A essa hora já sabia que tinham sido as torres gémeas de Nova Iorque o alvo do ataque, era visível que ambas estavam destruídas e sabia-se que havia um número enorme de mortos. Quando cheguei ao escritório estava toda a gente alvoroçada. Pus-me na minha sala a procurar canais e mais notícias. A net era ainda incipiente, a informação mais rápida vinha pela televisão ou pela rádio. A TSF não parava. Foi chegando gente àquela sala, improvisado palco de últimas notícias. Nessa tarde, numa conversa com o Francisco Vasconcelos, ainda hoje à frente da empresa, o tema foi só um, e dito por ele: “hoje o mundo mudou e nada vai ser igual”. O que o Francisco então disse confirmou-se em cheio. A fotografia do início destas duas páginas é do memorial construído no local onde estavam as torres destruídas, e fotografei-o numa viagem a Nova Iorque em 2014, três anos depois de ter sido inaugurado. É um local impressionante, os nomes dos mortos esculpidos na pedra. Ninguém se pode esquecer. Naquele dia, percebemos que a guerra pode chegar aos nossos pés, de uma forma sistemática e financiada como nunca antes tinha acontecido. A forma de encarar as viagens, de entrar nos aeroportos, de olhar para as outras culturas, nunca mais foi a mesma.





DESFOLHADA - Em 1 de Janeiro de 2001 começou o terceiro milénio da nossa era; George W. Bush tomou posse como Presidente dos Estados Unidos; a doença das vacas loucas alterou hábitos de alimentação; em Abril aviões dos Estados Unidos e Reino Unido bombardearam posições no sul do Iraque; Tony Blair foi reeleito Primeiro-Ministro do Reino Unido; a 11 de Setembro um ataque reivindicado pela Al Qaeda, dirigida por Osama Bin Laden, destruiu as torres gémeas do World Trade Center de Nova Iorque; nesse dia nos Estados Unidos 19 terroristas sequestraram quatro aviões comerciais de passageiros, colidiram dois contra as Torres Gémeas, um contra o Pentágono, em Washington,  e o quarto caíu na Pensilvânia; quase três mil pessoas morreram nestes atentados, incluindo os 227 civis e os 19 sequestradores que estavam nos aviões; a esmagadora  maioria eram civis de mais de 70 países, incluindo cinco portugueses; a 7 de Outubro os Estados Unidos iniciaram uma operação militar no Afeganistão intitulada “Liberdade Duradoura”; em Novembro foi lançado o primeiro o filme “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro da saga; em Dezembro nasceu Billie Eilish; o prémio Nobel da Literatura foi atribuído a V.S. Naipaul;  em Portugal, nas eleições autárquicas de 16 de Dezembro 2001 o Partido Socialista perdeu 14 câmaras, em comparação com as eleições anteriores e o PSD ganhou concelhos como Lisboa, Porto e Coimbra, entre outros; na sequência do resultado das Autárquicas o Primeiro Ministro António Guterres demitiu-se, provocando legislativas antecipadas no ano seguinte; em 14 de Janeiro de 2001 Jorge Sampaio havia sido reeleito Presidente da República; a 4 de Março ruiu a ponte Hintze-Ribeiro, em Entre-os -Rios, causando 59 mortes; em 2001 o Boavista foi o Campeão Nacional de futebol pela primeira vez na sua história. 


 


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UM LIVRO EMOCIONANTE - Se fizerem uma busca sobre livros escritos na sequência dos atentados de 9 de Setembro de 2001, um dos que mais aparece bem recomendado é datado de 2019, bem recente portanto. Chama-se “Fall And Rise” e o seu autor, Mitchell Zuckoff, era em 2001 repórter do Boston Globe, um dos jornais de referência norte-americanos. O seu trabalho, na sequência do atentado, reconstruiu os momentos do ataque, evocou as vítimas e testemunhou o sofrimento das famílias. O autor demorou anos a conseguir reconstituir o puzzle de informações que recolheu para construir uma narrativa linear, e apaixonante, do que aconteceu a 9 de Setembro de 2011 em Nova Iorque, no Pentágono e na Pensilvânia. O livro fala dos mortos, mas também dos sobreviventes, cheio de histórias das pessoas que foram afectadas pelos acontecimentos dessa terça- feira, de Setembro de 2001. Há histórias como a de um actor que ficou preso num elevador na torre norte do World Trade Center, os heróis do vôo 93 que decidiram agir e impediram outro atentado, provocando a queda do avião numa zona não habitada da Pensilvânia ou a do veterano de diversas guerras que ficou encurralado no Pentágono. Este é de facto um retrato especial do 11 de Setembro, feito à distância, mas que permite olhar de novo para os acontecimentos, com a clareza que o distanciamento proporciona mas também com a emoção que os relatos evocados trazem ao virar de cada página. Esta é a história de pessoas vulgares num dia invulgar e terrível da nossa História recente. Pode encontrá-lo na Amazon, edição de capa dura com 624 páginas. Está disponível igualmente em versão para Kindle. 


 


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UM QUARTO COM VISTA  - Rita Barros é uma fotógrafa portuguesa que vive em Nova Iorque e testemunhou e fotografou o ataque às torres gémeas. Em Novembro de 2002 apresentou no Porto, no Centro Português de Fotografia, a exposição “Um Ano Depois” (cujo cartaz aqui se reproduz). Depois a exposição seguiu para o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, de 5 de Abril a 1 de Junho de 2003. Em Novembro de 2001 a Câmara Municipal de Lisboa promoveu a exposição colectiva “Tributo a Nova Iorque” nos Paços do Município, na qual estavam incluídas algumas das imagens de Rita Barros. Ao longo dos anos Rita Barros tem fotografado, da sua janela - a partir da qual fez as primeiras imagens do ataque - a evolução da linha do horizonte e o semanário “Expresso” publicou em 2012 um artigo onde surgiam as fotos de 2001 e as que que Rita Barros fez em 2011. Também a revista do Correio da Manhã publicou uma foto tirada por ela da sua janela com as torres a arderem e o mesmo enquadramento em 2011 e 2021. Rita Barros vive em Nova Iorque desde 1980, onde estudou e agora ensina fotografia na New York University. Um dos seus trabalhos mais importantes pode ser visto na exposição “Room 1008: The Last Days”, que até 10 de Outubro está patente no Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís. 1008 é o número do quarto onde vive desde 1984 no famoso Chelsea Hotel. “Room 1008: The Last Days”  prossegue o trabalho apresentado em anos anteriores e inclui uma série de impressões fotográficas e um livro em forma de acordeão. A esta série, juntou-se, especificamente para esta exposição, um conjunto de pequenos vídeos realizados durante os forçados confinamentos que a pandemia impôs a todos.


 


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CANÇÔES DE RESISTÊNCIA - Dezenas de músicos e cantores fizeram e interpretaram canções que têm por pano de fundo os atentados de 11 de Setembro de 2001 e a forma como eles alteraram as nossas vidas e, em especial, mudaram Nova Iorque. Entre todos eles gostava de destacar “I Can´t See New York”, de Tori Amos, em 2002, uma canção em que  ela descreve a surpresa de um passageiro que ao chegar a Nova Iorque de avião não consegue localizar o World Trade Center. 50 Cent gravou “Patiently Waiting” em 2003 e em 2004 os Beastie Boys gravaram “An Open Letter to NYC”. A primeira canção que se conhece sobre o tema, de 2001, foi “Song For The Lonely”, de Cher.  Em 2004 Leonard Cohen escreveu “On That Day”, os Coldplay em 2002 gravaram “Politik” e logo a seguir os Eagles fizeram “Hole In The World”. Paul McCartney com “Freedom” e Sheryl Crow com “God Bless This Mess” e os Cranberries com “New New York” são outros nomes que evocaram os atentados na sua música. No álbum “The Rising” (na imagem), Bruce Springsteen incluíu nove temas relacionados com o atentado, entre os quais a faixa título, mas também “You’re Missing”, “Into The Fire”, “Empty Sky” ou “Lonesome Day”, entre outras. No Spotify há uma lista intitulada “9/11- songs about nine eleven” onde podem ouvir muitos destes temas.


 


E A COMIDA? - Os americanos fazem inquéritos sobre tudo - até sobre as alterações de hábitos alimentares ocorridos após os atentados de 11 de Setembro. Pois a conclusão é simples: cresceu em 15% o consumo daquilo a que se convencionou chamar "comfort food”, cozinhados simples mas com capacidade para saciar o apetite, muitas vezes baseados em receitas tradicionais. E cresceu, também, em 15%, o consumo de doces e sobremesas. O resultado: um em cada dez norte-americanos ganhou peso nos dois meses seguintes. Mas nos dias a seguir aos atentados, com extensas zonas do centro de Nova Iorque interditas e abastecimentos complicados, houve momentos emocionantes como os carros de venda na rua que alimentaram gratuitamente os bombeiros, os delis que levavam sanduíches de pastrami aos que estavam a trabalhar na busca de feridos, as pizzerias que entregavam aos que estavam a trabalhar na zona do desastre. Foi a comida de rua que alimentou as equipas de socorro, a mesma que cada vez que vamos a Nova Iorque é uma tentação - seja um pretzel gigante, um hotdog ou uma deliciosa sanduíche de pastrami, de longe a minha preferida.


 


DIXIT - “Se não aprendermos mais nada com esta tragédia, retenhamos que a vida é curta e que não há tempo para o ódio” - Sandy Dhal, mulher de Jeff Dahl, que pilotava o vôo 93.


 


BACK TO BASICS - “Aquilo que nos distingue dos animais e nos separa do caos é a nossa capacidade para sofrermos em relação a pessoas que não conhecemos” - David Levithan


 

setembro 03, 2021

LISBOA MERECE MELHOR QUE UM POLÍTICO CÍNICO E SEM ÉTICA

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PEDRO NUNO SANTOS GANHOU - O silêncio às vezes compensa e, num Congresso que mais pareceu uma convenção autárquica, o recato de Pedro Nuno Santos pode ter valido pontos. Se durante o Congresso do PS ele não foi confrontado com críticas, bastaram dois dias para Medina começar a desempenhar o papel de batedor ao serviço de António Costa. O  pretexto foi a apresentação do seu programa eleitoral em Lisboa onde não faltaram críticas indirectas a Pedro Nuno Santos, nomeadamente na questão do aeroporto. Medina, nas autárquicas anteriores, apresentou um programa que não cumpriu; um programa em que há quatro anos não mencionou medidas que depois tomou, sem terem sido votadas, e que se tornaram no inferno dos lisboetas - como a perseguição à circulação automóvel sem a criação de medidas alternativas nos transportes públicos. Esta semana Fernando Medina fez um dos mais extraordinários exercícios de demagogia de que há memória. Por um lado a querer convencer que é um reivindicativo crítico do Governo, coisa que não se viu ao longo da sua permanência nos Paços do Concelho, e, depois, ao lançar acusações sobre o seu rival eleitoral que só fanáticos desinformados podem subscrever. Este é no entanto o estilo habitual de Medina, tem sido assim ao longo do tempo, desde a sua ausência no início da pandemia, que provocou atrasos consideráveis na região de Lisboa, ao contrário do que acontecia noutros concelhos limítrofes. Este sobressalto de Medina em relação ao Governo é também a constatação de que o jogo de sombras chinesas que António Costa tão bem pratica, patente quando avançou com Marta Temido para a lista de possíveis sucessores, está a causar mossa nos outros pretendentes. Medina quer continuar a ser Presidente da Câmara para manter o protagonismo político de que necessita se quiser suceder a Costa.  É sempre alguém apenas em trânsito face às suas ambições pessoais. Termino com um exemplo recente: durante anos Medina rejeitou críticas à forma como autorizava e fomentava uma avalanche de alojamentos locais que ajudaram a descaracterizar a cidade, mas agora aparece a querer limitá-los face aos perversos efeitos que já são evidentes. Esta semana apresentou um programa de promessas que contrasta com o que não fez durante os mais de seis anos que leva como Presidente da Câmara.  Como se pode acreditar num homem com este desempenho? Medina não é mais que um político cínico, sem ética, que não olha a meios para atingir os seus objetivos pessoais. Lisboa merece melhor. Pedro Nuno Santos deve olhar para tudo isto com um sorriso. Silencioso.





SEMANADA-  Durante a pandemia os portugueses duplicaram as suas poupanças e os depósitos de particulares nos bancos atingem agora 22,7 mil milhões de euros; Portugal está em vigésimo lugar no ranking dos investimentos dos Estados europeus em Cultura, atrás da Roménia, Eslováquia, Hungria e República Checa; segundo dados do INE o preço médio do metro quadrado de habitação em Portugal é de 1241 euros e há 25 concelhos onde o preço da habitação custa menos de metade da média nacional; em Lisboa há mais agências bancárias que em 16 distritos portugueses; em 2001 havia 206 milhões de cheques a circular e em 2020 o número ficou perto dos 15 milhões; Portugal e a Lituânia são os únicos dois países da UE sem uma oferta comercial de redes de telecomunicações 5G; Paul Milgrom, prémio nobel da economia em 2010, afirmou que o “leilão de 5G em Portugal segue regras que eram usadas há 20 anos”;  o preço dos bens alimentares subiu entre 10 a 20% no último ano devido à escassez de alguns produtos, ao aumento das rações, da  logística e dos transportes; José Sócrates esteve de férias no Brasil e encontrou.se com Lula e Dilma Rousseff; PS, PCP e PEV aprovaram no Parlamento uma lei, em vésperas das autárquicas, para amnistiar autarcas que não cumpriram regras financeiras -  a lei foi feita à medida de cinco autarcas do PS e um do PCP que têm processos na Inspecção Geral de Finanças; as despesas de consumo das famílias e das Administrações Públicas já ultrapassaram o patamar pré-crise, tal como o investimento, mas as exportações, penalizadas pelo turismo, ainda contabilizam uma quebra superior a 15%.





O ARCO DA VELHA- Em 2020 e 2021 o Governo não aprovou o Decreto Lei de Execução Orçamental, e em vez disso emitiu as instruções de execução orçamental através de uma mera  Circular da Direcção Geral do Orçamento. Marques Mendes defende que esta actuação é inconstitucional e tem como consequência que a Assembleia da República não tem informação nem capacidade de fiscalizar o que se passa com a execução orçamental.


 


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LER -   Nas páginas de ”O Sonho de Amadeo”, mergulhamos numa história em que a realidade e o sonho se confundem. O protagonista, Amadeo, acorda esbaforido após sonhar que foi assassinado, mas não se lembra do mais importante: o rosto do assassino. Tenta recordar-se dos pormenores do sonho, transportando-os para os quadros que pinta, ao mesmo tempo que inicia a procura de respostas nas noites mal dormidas, depois de receber um postal ilustrado que lhe lembra um dos seus sonhos.  “O Sonho de Amadeo”, é uma obra de Leonardo Costa de Oliveira, vencedora da última edição do Prémio Revelação Literária UCCLA-CMLisboa: Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa. Leonardo Costa de Oliveira, de 38 anos, natural de Paracambi, no interior do Rio de Janeiro, é doutorado em Geociências, é geofísico na petrolífera brasileira Petrobras e estreia-se como autor com este livro. São dele estas palavras:  «Será que eu também poderia escrever um livro? Criar uma história que pudesse interessar outras pessoas? Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade trabalhavam como funcionários públicos... Talvez, a partir de hoje, eu possa ser geólogo e também escrever... Por que não?» A edição é da editora “Guerra & Paz”.


 


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VER-  No Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, está patente até 3 de Outubro a exposição “Em Busca do Tempo Perdido”, de Francis Smith. Nascido em Lisboa em 1881, filho de pais ingleses, Francis Smith trabalhou grande parte da sua vida em França para onde cedo foi estudar pintura. No início do século XX foi contemporâneo, em Paris, da primeira geração modernista de artistas portugueses, como José-Augusto França lhe chamou, e que incluía Eduardo Viana, Manuel Jardim, Manuel Bentes, Amadeo de Souza-Cardoso, Emmerico Nunes e Domingos Rebelo. Quando Francis Smith morreu em Paris, em 1961, o pintor era unanimemente reconhecido como uma figura essencial da chamada Escola de Paris, da primeira metade do século XX. Com curadoria de Jorge Costa esta exposição da obra de Francis Smith apresenta a primeira investigação de fundo sobre a vida e obra desse artista modernista. Em França Francis Smith era reconhecido e teve uma carreira com reconhecimento da crítica, valorizada por colecionadores, participando nas mais importantes exposições do seu tempo. Pode dizer-se que ele foi o artista português que em vida obteve maior sucesso no panorama cultural francês. No entanto em Portugal a sua obra foi frequentemente menorizada. Foi Eduardo Viana quem em 1925 convidou Francis Smith a participar com várias obras no Salão de Outono, da Sociedade Nacional de Belas Artes. Mas foi em  seguiu em 1934, numa exposição no Salão Bobone, organizada pelo Secretariado Nacional da Propaganda, dirigido por António Ferro, que verdadeiramente Francis Smith foi reconhecido pela crítica local e obteve sucesso comercial - duas das suas obras existentes no Museu Nacional de Arte Contemporânea foram compradas nessa altura.





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OUVIR- ​​Um dos instrumentos cuja sonoridade mais me agrada é o baixo - seja o eléctrico, seja o contrabaixo. A editora ECM tem um histórico raro no registo de discos onde o baixo é predominante e um dos músicos que grava para a ECM é Marc Johnson. O seu mais recente álbum é “Overpass” onde ele aparece sózinho com o seu contrabaixo, acústico, dedilhado, por vezes com arco, não amplificado, ao longo de oito temas e quase 45 minutos. Johnson é um músico criativo que mesmo a solo e com um único instrumento consegue uma diversidade de ritmos e melodias. Marc Johnson nasceu no Nebraska em 1953, estudou música  na North Texas State University e começou a tocar aos 19 anos com a Fort Worth Symphony. Desde cedo trabalhou ao lado de nomes como Woody Herman, aos 25 anos era o baixista do trio de Bill Evans e a sua carreira cruza-se com a de nomes como Gary Peacock, Gary Burton, Jack DeJohnette, Bill Frisell, John Scofield, Stan Getz, Joe Lovano ou Paul Motian, entre outros. Um dos temas incluídos neste novo disco é “Nardis”, um original de Miles Davis que Johnson já tinha gravado com o trio de Bill Evans nos anos 70 e que agora surge reinterpretado. Outra nova versão é “Love Theme From Spartacus”, de Alex North e “Freedom Jazz Dance” de Eddie Harris. Os outros cinco temas são composições originais de Marc Johnson. “Overpass” está disponível nas plataformas de streaming.





PROVAR- Quem anda pelo lado da Praia do Meco tem agora um local onde pode comprar iguarias às vezes nada fáceis de encontrar naquelas redondezas. Trata-se da loja “Muito Espalhafato”, bem no centro de Alfarim, onde estão à venda bons vinhos, bons queijos (incluindo alguns estrangeiros como um pecorino siciliano de boa memória) e bons enchidos de produtores seleccionados - além de algumas outras iguarias como, inesperadamente, Dim Sums. O curioso é que além de poder comprar, pode ali provar alguns dos produtos num copo ao fim de tarde numa pequena esplanada no exterior. Este espaço de comidas e bebidas é sucessor do “Veneno”, que em tempos existiu em Alvalade pela mão de Francisco Ferrão Completo, homem de sete instrumentos sempre à volta da comida - desde restaurantes até serviços de entrega de comida como o Despacha-te Xico! Já aqui em tempos louvado. O Muito Espalhafato tem além das comidas e bebidas espaços onde se vendem livros em segunda mão, peças de joalharia artesanal, acessórios diversos e moda, velharias e peças de design.  Fica na Avenida José Carlos Ezequiel 44A, Alfarim.


 


DIXIT- “ Mais do que vistos gold para estrangeiros com dinheiro, devíamos ter um visto gold para imigrantes qualificados” - Maria João Valente Rosa, demógrafa, professora na Universidade Nova de Lisboa


 


BACK TO BASICS - Um clássico é um livro que toda a gente quer poder dizer que leu mas que ninguém quer ler - Mark Twain




agosto 27, 2021

A GUERRA DOS TRONOS ENCENADA EM PORTIMÃO

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AS HABILIDADES DE UM POLÍTICO PROFISSIONAL -  António Costa é um político hábil, que como Primeiro Ministro usa a comunicação como poucos dos seus antecessores. Na verdade é talvez o mais profissional político que Portugal teve como Primeiro Ministro nos 22 Governos Constitucionais desde 1974. No final de Novembro, António Costa completará seis anos como Primeiro-Ministro, ao longo de uma legislatura e meia, e, salvo algum cataclismo, parece evidente que cumprirá esta sua segunda legislatura até ao fim. O futuro? Como explicou numa entrevista ao “Expresso” no fim de semana passado, não sendo tabu, não é para se saber já. A  frase resume o pensamento político de António Costa: a realidade é a que ele dita.  Neste fim de semana, no Congresso do PS que se realizará em Portimão, assistiremos ao primeiro episódio da produção do PS baseada na “Guerra dos Tronos”. Costa garantiu que na linha da frente do palco será acompanhado pelos quatro socialistas que são os nomes mais apontados para a sua sucessão: Catarina Mendes, Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva e Pedro Nuno Santos. São todos diferentes, mas todos iguais no apego à política que tem sido seguida. E qual o resultado dessa política? - Quando os portugueses comparam o seu rendimento com o de países como a Eslováquia, República Checa, Hungria, Polónia, Lituânia, Letónia, Estónia e mesmo  Roménia, constatam que todos eles estão melhor que Portugal. O balanço destes seis anos que  António Costa leva como Primeiro Ministro não é nenhum tabu mas anda sempre escondido pela propaganda: o consulado de António Costa vai ser aquele em que o país desceu para a cauda da Europa em termos de riqueza. Nada disso impedirá que o fim de semana seja de festa e consagração em Portimão - Costa preparou bem o ritual e quem lhe pode suceder acredita que se pode distribuir o que não se tem. Esta semana Camilo Lourenço escrevia neste jornal que “daqui a dez anos, quando Costa estiver num cargo internacional, o seu consulado vai ser lembrado como aquele que desperdiçou a grande oportunidade de Portugal se colar aos da frente”. 


 


SEMANADA - O PCP é o partido que apresenta maior número de mulheres como cabeça de lista nas próximas autárquicas mas o PS tem sido quem consegue eleger mais mulheres:  há apenas sete autarquias com maioria feminina e 31 onde são mulheres a liderar: este ano registaram-se mais 1203 candidatos ao ensino superior que em 2020; o apoio ao estudo só chega a 21% dos alunos com média negativa; a anunciada subida do número de empregos fez-se à custa de um aumento recorde da função pública; em dez anos foram extintos 18 mil postos de trabalho na banca; entre 2018 e 2020 foram vendidas em Portugal 1890 caixas de medicamentos contra a disfunção erétil por dia; desde o início do ano as autoridades passam 20 multas por dia para quem não usa máscara na rua; o presidente da Ryanair, Michael O’Leary, acusa a TAP de bloquear o crescimento da concorrência no aeroporto de Lisboa; na semana passada o caos voltou a instalar-se no aeroporto de Lisboa, com enormes demoras, filas imensas, extravio de bagagens e incómodo acentuado para os passageiros mas até agora não foi assumida a responsabilidade pelo sucedido; a média diária de espectadores do Canal Parlamento desde o início do ano é de 115 no cabo e 234 na TDT, um total de 349 pessoas; o Parlamento paga 420 mil euros por ano ao operador responsável pela emissão da TDT, o que dá um custo médio de 1794 euros por espectador; a TVI recebeu 18 mil inscrições de candidatos a participarem no próximo Big Brother, que arranca em Setembro; o grupo Media Capital já recebeu 2.400 candidaturas ao processo de recrutamento da CNN Portugal que decorrre até 31 de Agosto.


 


O ARCO DA VELHA - Na Figueira da Foz o PSD já perdeu em tribunal duas tentativas de impedir a candidatura de Santana Lopes à autarquia local e agora ameaça recorrer para o Tribunal Constitucional. Como bem escreveu Luís Paixão  Martins no Facebook, “nem mesmo nos tempos em que foi presidente do PSD uma campanha de Pedro Santana Lopes teve um apoio tão grande da parte deste partido.” 


 


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OS QUADROS DE “A BRASILEIRA” -  Maria Aires da Silveira e Raquel Henriques da Silva são as curadoras de uma exposição no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) que se debruça sobre a história do café “A Brasileira”, do Chiado. Fundado em 1908 por Adriano Teles e mantido ao longo de mais de um século em excelentes condições, o café foi modernizado em 1925, quando recebeu  uma série de obras de importantes artistas plásticos da época - na imagem uma dessas obras, um auto-retrato em grupo de José de Almada Negreiros. Depois, em 1971, recebeu nova série de onze pinturas, que hoje decoram o espaço do estabelecimento, onde podem ser vistas, e que substituíram as anteriores. O  decorador Joachim Mitninsky  comprou em 1970  os quadros envelhecidos da montagem de 1926,  mandou restaurá-los, vendeu alguns e terá mantido outros na sua loja da Rua Vítor Cordon. As novas onze obras foram encomendadas por um júri de críticos de arte. Intitulada “A Brasileira do Chiado - Café-museu 1925-1971”, esta exposição do Museu Nacional de Arte Contemporânea celebra os 50 anos da segunda decoração de A Brasileira com quadros de artistas modernos. No Museu é possível ver alguns dos quadros da decoração de 1925 e um conjunto de documentação em grande parte inédita da decoração de 1971, nomeadamente fotografias da colocação das pinturas nas paredes de “A Brasileira”, exactamente na noite de 26 de Junho de 1971. A exposição é acompanhada de um catálogo, subsidiado pela empresa que actualmente detém o espaço, Valor do Tempo e pela Fundação Millennium BCP. O catálogo organiza-se em três núcleos fundamentais que abordam a criação do café-museu, no Chiado, em 1925 e 1971 com textos de Inês Silvestre, um ensaio de Raquel Henriques da Silva  e um trabalho de Maria de Aires Silveira sobre a temática dos cafés na capital, desde inícios do século XIX, que ajudaram a caracterizar o perfil da cidade e facilitaram o convívio de intelectuais. Até 26 de Setembro no MNAC, Rua Capelo 13 e Rua Serpa Pinto 4.


 


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UMA INVESTIGAÇÃO AUTOBIOGRÁFICA  - O escritor sueco Tom Malmquist ganhou fama através da sua obra de estreia, o romance “Em Todos Os Momentos Estamos Vivos”, onde  parte de episódios autobiográficos para escrever um livro sobre a perda e o luto. Editado em 2015, vencedor de vários prémios e considerado pelo New York Times como um dos cem livros mais notáveis desse ano. “Em Todos Os Momentos Estamos Vivos” tem agora uma continuação com a sua nova obra, “Todo o Ar Que Nos Rodeia”, que retoma o tema da morte, da solidão e dos laços desfeitos. Neste segundo romance, agora editado em Portugal e traduzido do original sueco, o autor volta a  percorrer os caminhos da ficção autobiográfica. Logo no início o protagonista, que é o próprio Malmquist, encontra um velho recorte de jornal com esta notícia: «No sábado, foi encontrado um homem morto numa gruta na floresta de Sörskogen. Apresentava cortes graves no rosto e no peito, e a polícia acredita que foi assassinado com um machado.» O jornal embrulhava as peças do serviço de loiça da mãe de Tom, que ele encontra no sótão. Partindo da pouca informação que tem, Tom Malmquist iniciará a sua própria investigação para descobrir tudo o que puder sobre Mikael K, o homem brutalmente assassinado duas décadas antes. Enquanto procura respostas para essas e outras perguntas, encontra perturbantes paralelos entre a história investigada e a sua própria vida. É um livro fascinante e como escreveu o diário sueco Aftonbladet, «os leitores de Paul Auster reconhecerão o estilo, não apenas na abordagem investigativa, mas também no vazio existencial que sugestivamente aparece nas entrelinhas, um vazio que parece ser o tema e o estímulo principal deste romance.» 


 


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O BATERISTA DOS BLUES, JAZZ E ROCK  - A vida de Charlie Watts mudou quando deixou de ser o baterista da Blues Incorporated, a primeira banda britânica, formada exclusivamente de músicos brancos, que tocava blues, no começo da década de 1960. Foi numa actuação dessa banda num clube londrino que Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones, fãs dos blues, conheceram Watts. Ficaram maravilhados com a sua qualidade de músico e  convidaram-no para ser o baterista do grupo que estavam a começar a constituir, admitindo que não tinham como lhe pagar nessa altura. Charlie acabou por aceitar trocar o já estável Blues Incorporated pelo projeto de Mick, Keith e Brian, e entrou como baterista para os Rolling Stones em 1963. Mick Jagger tinha então 20 anos e Watts era dois anos mais velho. O resto da história é conhecida e Watts foi sempre um elemento fundamental da banda, ajudando a manter a sua coesão mesmo nos períodos mais conturbados e difíceis. O que muitos não sabem é que ao mesmo tempo que integrava os Rolling Stones e tocava nos discos e concertos, Charlie Watts desenvolveu uma carreira a solo em torno do seu amor aos blues tradicionais e sobretudo do songbook clássico americano e dos standards de jazz. Quer com orquestra, quer em formações mais reduzidas, Charlie Watts gravou por sua conta, fora dos Stones, quase uma dezena de discos e apareceu em vários registos de outros músicos como convidado. Um dos seus trabalhos mais marcantes é um álbum de 1996, “Long Ago & Far Away”, onde interpreta 14 clássicos da música americana, acompanhado pela London Metropolitan Orchestra, com Bernard Fowler na voz e um conjunto de outros músicos, incluindo o português Luís Jardim. O CD, além da canção que lhe dá o nome,  inclui os temas “I’ve Got A Crush On You”, “More Than You Know”, “Good Morning Heartache”, “Stairway To The Stars”, “In The Still Of The Night”, “I Am In The Mood For Love”  e “Never Let Me Go”, entre outros. O disco é uma raridade, está esgotado, não existe por enquanto em streaming e em segunda mão, na Amazon, aparece à venda por 123 dólares.


 


DIXIT -  “É esse o tremendo conservadorismo que nos derrota: não queremos que se invente nada, só queremos que os estrangeiros (....) confirmem os nossos próprios gostos e preconceitos” - Miguel Esteves Cardoso.


 


BACK TO BASICS - Gostamos sempre daqueles que nos admiram, mas nem sempre gostamos daqueles que admiramos  - François de La Rochefoucauld.


 


(Publicado no Weekend do Jornal de Negócios de 27 de Agosto)








agosto 20, 2021

O TEMPO DOS INTOLERANTES

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OS NOVOS FANÁTICOS - Nos últimos dias um grupo de fanáticos apelidou de assassino o homem que comanda, com êxito, o processo de vacinação que já salvou numerosas vidas desde que ele iniciou funções. Um outro grupo de fanáticos atacou e danificou um centro de vacinação na Azambuja. Os dois casos são bons exemplos dos efeitos práticos do fanatismo - neste caso dos que condenam o uso de vacinas. Cada um tem direito à sua opinião e, em última análise, tem direito a decidir se quer ele próprio ser vacinado ou não. Mas não tem o direito de perturbar o trabalho de quem está a vacinar ou quem quer ser vacinado. Estes comportamentos são exemplos daquilo que os fanáticos dos extremos do espectro político podem produzir na ânsia de ganhar notoriedade. Estou convencido que há entre os negacionistas do Covid-19 e os opositores das vacinas pessoas com ideologias em teoria diametralmente opostas mas que se encontram num mesmo ponto: o desrespeito pelos direitos e liberdade dos outros, um desrespeito pela sociedade em que vivem e um extremo egoísmo. Cito, a propósito, o Papa Francisco: "Vacinar-se é uma forma simples mas profunda de promover o bem comum e de cuidarmos uns dos outros, especialmente dos mais vulneráveis", apelando a que cada um contribua para erradicar a pandemia com um "pequeno gesto de amor". Tenho sempre este velho lema que bem me vai guiando: a liberdade de cada um termina onde começa a de outras pessoas. Estes novos fanáticos são por natureza intolerantes - mudam de bandeira ao sabor do vento, sempre a querer limitar o que outros podem fazer ou pensar.





SEMANADA - 60% das 20 mil contratações da Função Pública no último ano são contratos a prazo; no final de Junho o emprego público atingiu o valor mais alto desde 2011, atingindo os 731 mil trabalhadore; o ganho médio mensal na Administração Pública é de 1801 euros enquanto a média global nacional é de 1208 euros; os consumidores portugueses endividaram-se em 16,6 milhões por dia em crédito ao consumo; a letalidade nos idosos não vacinados é três vezes maior do que nos vacinados; um estudo do Instituto Gulbenkian da Ciência indica que 63% dos idosos com mais de 70 anos mantêm anticorpos contra o coronavírus seis meses após a vacinação; há mais de 200 mil pessoas sem médico de família; o Governo não respondeu a um quarto das perguntas formuladas por deputados em requerimentos na Assembleia da República no segundo ano desta legislatura; duas em cada três câmaras municipais não cumprem as regras do Regulamento Geral de Protecção de Dados, três anos após a legislação ter entrado em vigor; na área dos registos e notariado há falta de cerca de 1700 trabalhadores e as filas de quem procura os serviços aumentam; os aeroportos portugueses receberam cerca de dois milhões de passageiros em Junho, o número mais alto desde Fevereiro do ano passado; a Altice Portugal diz só ter tido conhecimento do valor proposto pela Anacom para a tarifa social de internet através da comunicação social; sete dezenas de deputados concorrem à liderança de Câmaras Municipais. 


 


O ARCO DA VELHA - Um Jardim de Infância mandado construir pela Câmara do Entrocamento, inaugurado em 2008 e que custou 1,2 milhões de euros, está em risco de ruir e vai ser demolido porque tem falhas estruturais que impedem a sua recuperação.


 


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UM RISCO EM ÁGUEDA - Para quem estiver a norte proponho uma visita a Águeda, ao belo edifício do Centro de Artes, projectado pelo atelier AND-RÉ, no local onde antes existia uma fábrica de cerâmica. Inaugurado em 2017 o edifício tem uma área total de 4500 metros quadrados, inclui um auditório, uma área de exposições e um café-concerto. Se lá for por estes dias , até 12 de Setembro, poderá ver na sala estúdio a exposição “Risco” que põe em confronto dois tempos na Pintura de Helena Dias: por um lado apresenta um conjunto de três trabalhos produzidos entre 1974 e 1976 (os únicos existentes deste período), por outro mostra um conjunto de trabalhos produzidos entre 2018 e 2020. Um pouco mais de 40 anos separam umas obras das outras, no entanto, embora com linguagens técnicas diferentes, há elementos (e preocupações) formais constantes: a Helena Dias interessou e continua a interessar, quase obsessivamente, a prática pura da Pintura. A imagem que acompanha esta nota é de uma obra sem título de 2019, fotografada por André Lemos Pinto. Raquel Guerra, a curadora da exposição, sublinha que o título “Risco” põe em evidência duas abordagens: remete para o elemento formal que caracteriza as obras presentes neste projeto, e evidencia os riscos e a coragem inerentes a retomar a Pintura após um interregno de cerca de 28 anos. Se estiver em Lisboa aproveite para visitar no Museu Nacional de Arte Antiga a exposição “Vi O Reino Renovar, Arte no Tempo de D.Manuel I”, uma exposição criada para assinalar o quinto centenário da morte de D. Manuel I e que estará na Galeria de Exposições Temporárias do MNAA até 26 de Setembro. A exposição mostra a relação do monarca com a prática artística, uma das mais importantes de toda a história portuguesa, patente na forma como promoveu., patrocinou e encomendou obras de arquitectura, iluminura, pintura, escultura ou artes decorativas e também, como utilizou a produção artística na sua estratégia de representação e afirmação real.


 


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FILOSOFIA NAPOLITANA - No início do século XX a paisagem do golfo de Nápoles atraía nomes ilustres a Capri e Sorrento, como Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Maksim Górki e um então jovem filósofo, Theodor W. Adorno. Reza a lenda que foi aí, junto ao Vesúvio que nasceu, dos encontros destas personalidades, uma das mais importantes correntes filosóficas do século XX - a teoria crítica. Martin Mittelmeier, um autor alemão contemporâneo escreveu “Um Filósofo em Nápoles”, um livro publicado em 2013 e agora editado em Portugal pela Temas e Debates, com uma boa tradução de Pedro Garcia Rosado. O livro explora como a cidade de Nápoles – as paisagens, as pessoas, os turistas e os debates com o grupo de intelectuais que encontrou na cidade italiana – ajudou a criar as bases para o pensamento filosófico de um dos mais importantes e influentes pensadores europeus do século XX, Theodor W. Adorno. E deixa questões:  Como pode um país e um ambiente produzir um determinado sistema de pensamento? E porque é que a paisagem marcada pelo Vesúvio causou tanto impacto na vida e nas ideias de Adorno? Martin Mittelmeier conseguiu uma fusão entre filosofia, biografia e relato de viagens e mostra como a paisagem e a geografia de Nápoles se transformaram em filosofia, ao mesmo tempo que nos ajudam a redescobrir um dos pensadores mais influentes da história. Na realidade, como já foi citado pela crítica, «esta obra procura desmontar como a filosofia de Adorno nasceu de uma viagem pelo golfo de Nápoles na sua juventude. E que a força da sua filosofia, o fascínio que ela exerce e os problemas que suscita podem ser explicados por esta sua génese.»


 


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VER & OUVIR - Hoje em vez de limitar os sentidos à audição, sugiro que os compartilhem com a visão. E assim a sugestão musical da semana é uma série documental da Apple TV+, absolutamente extraordinária, intitulada “1971, o ano em que a música mudou tudo”. A primeira temporada está no ar, tem oito episódios centrados no final dos anos 60 e no início dos anos 70 - e como o título indica, sobretudo em 1971 - que é o ponto de partida para muitos dos factos que se relatam. Por ali passam nomes como Marvin Gaye, mostrando a  importância, muitas vezes esquecida do conteúdo e significado do seu álbum “What’s Going On”. Mas também Bob Dylan, George Harrison e o concerto para o Bangladesh realizado há 50 anos, a 1 de Agosto de 1971. Destaco logo no primeiro episódio a fantástica interpretação de Neil Young  para a sua canção “Ohio”, sobre a intervenção policial na Universidade de Kent que provocou quatro mortos entre os estudantes que protestavam contra a intervenção americana no Vietnam. A série tem numerosas imagens originais (e muitas vezes inéditas) da época e mostra a importância de nomes como Jim Morrison, Sly Stone, Ike e Tina Turner, James Brown, Curtis Mayfield, Joni Mitchell ou Carole King na criação das sonoridades que moldaram esses tempos. Mas mostra também o fim dos Beatles e o explodir de David Bowie, as crises dos Rolling Stones e até o papel de nomes que transformaram o jornalismo como Hunter S. Thompson. Um documento imprescindível. Cito, a terminar, palavras de John Lennon que sintetizam bem esses tempos”A discórdia é o combustível que alimenta a democracia”. Demasiada gente esquece-se disto.


 


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SOBRE A IMPORTÂNCIA DO POEJO - Eu adoro poejo - o cheiro, o sabor… Há uns meses dedicámos uns vasos a ervas aromáticas. Umas tiveram algum sucesso de crescimento, outras nem tanto. Mas o poejo é o campeão: um vaso a abarrotar. Desde então não nos falta o seu cheiro e sabor. Por isso mesmo fomos experimentar a velha açorda de bacalhau, mas com poejo em vez de coentros. A meio do processo ocorreu-me se um grande amigo que não suporta coentros, suportará poejo. Assunto a investigar. O prato é simples. Escalda-se o bacalhau dois ou trÊs minutos, guarda-se a água onde se preparou e num outro tacho coloca-se gengibre laminado, um pouco de cebola roxa picada  (eu sei, não é o costume, mas fica bom), muito poejo (folhas separadas dos caules e caules cortados em troços) e refoga-se o bacalhau escorrido  da escaldadela, misturando-se bem e em lume branco. Quando a coisa estiver no ponto que desejamos adiciona-se a água usada para o bacalhau e um pão caseiro de véspera, de preferência sem côdea. Mexe-se até se esfarelar para a consistência desejada. No fim colocam-se dois ovos a escalfar por cima no tacho e quando a clara começar a ficar opaca polvilhar tudo com folhas de poejo picadas e serve-se imediatamente. Um clarete refrescado acompanha muito bem - sugiro o da Adega de Penalva.


 


DIXIT - “Comem salsichas toda uma vida, e depois afirmam que não querem uma vacina porque dizem que não sabem o que lá está dentro” - lido no twitter


 


BACK TO BASICS - “Um fanático é alguém que se recusa a mudar de ideias e não aceita mudar de assunto” - Winston Churchill


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 20 de Agosto de 2021)



agosto 13, 2021

NAS AUTÁRQUICAS OLHE BEM PARA QUEM ESTÁ NA LISTA

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LIVRE, O OUTRO CHEGA - A deputada Joacine Katar Moreira, eleita pelo Livre, mas que depois se aborreceu com o partido que a indicou, deu uma entrevista há dias onde arrasou Eusébio, dizendo em tom de crítica que ele “não era a pessoa mais revolucionária” e acusando-o de “nunca ter lutado contra as estruturas”. Como Manuel S. Fonseca bem escreveu na sua “Bica Curta”, da última página do “Correio da Manhã”, “o que subjaz ao que disse Joacine é que só há uma forma, unilateral, de ser negro. Joacine condena o negro a ser revolucionário, a estar contra e de fora.” Para mim Joacine é um Ventura do outro lado do espectro político e o Livre tem momentos em que se lhe assemelha. E é com o Livre que o PS estabeleceu acordos eleitorais autárquicos. Da mesma maneira que há quem se indigne contra alianças com o Chega, que eu condeno, também me indigno com alianças com o Livre, um albergue de teses nascidas de modas ideológicas que no essencial acusam a Europa de todos os desmandos do mundo, incluindo os pilares da civilização. A sua acção quotidiana ignora um princípio que continuo a achar fundamental seguir: a liberdade de cada um acaba onde a de outra pessoa começa. O facto de em Lisboa o PS se ter aliado ao Livre é um sinal destes tempos. O facto de o representante deste partido na lista de Medina, Rui Tavares, estar indigitado como vereador da Cultura caso o PS vença, é dos piores sinais que podia haver. Em múltiplas ocasiões Tavares subscreveu textos onde fez eco e defendeu as teses actualmente politicamente correctas sobre a civilização ocidental. Para essa zona do pensamento político actual há uma arte que deve ser condenada e se possível derrubada. Não é um bom cartão de visita. Quando se vota para a Presidência de uma Câmara, no nosso sistema eleitoral, vota-se também na constituição da vereação que constitui o executivo da autarquia. Assim sendo, convém olhar com atenção para quem está na lista, que experiência tem das áreas que poderá vir a tutelar, que opiniões tem manifestado sobre o assunto. Eu não gostaria que a Cultura na cidade de Lisboa estivesse nas mãos do homem que escolheu Joacine para estar no Parlamento, sabendo muito bem qual era o seu pensamento, que aliás ela nunca escondeu. 


 


SEMANADA - Analisando a crise no PSD, Marques Mendes afirmou que “o mais bem posicionado” como alternativa a Rui Rio, é Paulo Rangel; apenas 36% dos técnicos do Estado recrutados em 2019 têm contrato de trabalho; a Câmara Municipal de Castelo Branco já gastou perto de meio milhão de euros com uma associação de produtores de figo da Índia que apenas teve escassa actividade em 2016 e 2017, empresa que foi criada e dirigida por altos funcionários da autarquia e outras pessoas afectas ao PS local; durante o ano de 2021 e até ao fim do 1º semestre, o actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa compareceu a apenas quatro sessões plenárias da Assembleia Municipal, quer presenciais, quer online, num total de 22;  há mais de três dezenas de concelhos que desde 1976 são geridos pelo mesmo partido, 11 do PSD e PS e 9 do PCP; desde que existem recenseamentos da população, ou seja desde 1864, apenas se registaram quebras populacionais duas vezes; de 1960 para 1970 nos fluxos migratórios para a Europa e agora entre 2011 e 2021, quando se perderam cerca de 200 mil habitantes; há 136 mil desempregados sem subsídio; entre 2019 e 2020 o investimento em investigação e desenvolvimento nas empresas privadas aumentou enquanto caíu no sector público, nomeadamente no ensino superior; metade das queixas feitas à inspecção das polícias é contra agentes da PSP e os casos de agressões têm peso significativo;  Portugal e Lituânia são os únicos países da União Europeia onde ainda não foi implementada a rede 5G.


 


O ARCO DA VELHA - Apesar da existência de uma nova ETAR que custou cinco milhões de euros, os esgotos produzidos por cerca de metade dos habitantes de Beja foram lançados durante dois meses na bacia do Roxo, que abastece de água potável cinco concelhos da região.


 


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O FOGO DE CHAFES - Na Casa das Artes, de Tavira, até 20 de Agosto, Rui Chafes apresenta “Travessia”, uma exposição pensada expressamente para o local. Ali está um conjunto de cinco esculturas, realizadas nos últimos  três anos, incluindo uma, a mais recente (pormenor na imagem), contemporânea da nova série de trabalhos que serão apresentados dia 11 de Setembro na próxima exposição de Chafes, “Nada Existe”, que vai decorrer na Galeria Filomena Soares, em Lisboa. Também na Casa das Artes de Tavira, e igualmente até 20 de Agosto, pode também ver  pintura de Ana Vieira Ribeiro e uma muito interessante série de fotografias de Tomás Vieira intitulada “Hedonismo Zero”. Outras sugestões: voltando a Lisboa, até 9 de Setembro, entre a Rua do Açúcar e a Rua do Amorim, passando pelo Largo do Poço do Bispo,  Marvila é uma galeria ao ar livre, com a exposição de obras de artistas plásticos, fotógrafos, ilustradores, designers e músicos, na sexta edição da Poster Mostra que exibe trabalhos de cerca de três dezenas de autores, entre os quais Adolfo Luxúria Canibal, Samuel Úria, Nuno Saraiva, André Carrilho e Ricardo Quaresma, entre outros. A norte a  exposição “Materiais Inflamáveis” mergulha no mundo dos fanzines portugueses para analisar o papel desempenhado pelo punk nas transformações sociais e políticas do Portugal pós-25 de Abril. Está patente no gabinete gráfico do Museu da Cidade do Porto, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, até 15 de Agosto. 


 


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CRIME NO ÁRTICO - Com o verão frescote que temos tido, uns policiais nórdicos vêm mesmo a calhar. Hoje destaco “À Flor das Águas”, de Christoffer Petersen, pseudónimo de um autor que vive no sul da Dinamarca e que durante sete anos esteve na Groenlândia, a maior ilha do mundo, com cerca de 56 mil habitantes, onde se apaixonou pelos costumes e hábitos locais, nessa terra onde o sol é raro, os cães ainda puxam trenós. Há uns anos li um outro romance seu, passado também na Gronelândia, “Um Inverno, Sete Sepulturas”, uma história envolvente. Petersen desenha mistérios e ficamos muitas vezes na dúvida sobre o que é ficção e o que pode ter sido realidade. O herói da nova história continua a ser David Maratse, um detective reformado que arranja maneira de estar sempre por perto quando acontece um crime mais estranho, embora tivesse a ambição de passar uma vida calma e simples, caçando e passeando com os seus cães e trenós pelas estepes geladas. O livro relata o que se passou num barco atracado num fiorde remoto.  Ninguém responde quando Maratse sobe a bordo e começa a chamar por alguém que esteja na embarcação. Uma vez dentro do barco, encontra cinco pessoas, duas mortas e três inconscientes. Enquanto isso, algures numa cabana de montanha, o sexto tripulante procura desesperadamente os diários desaparecidos da expedição a Svartenhuk do famoso meteorologista alemão Alfred Wegener  que podem ser a chave para a exploração de um minério raro e valioso e que está no meio de uma luta pelo controlo de uma empresa mineira. “À Flor da Água” há-de ter continuação - termina com o rapto de uma amiga especial do detective. E uma nova investigação começará. Como diz o autor, “quando a noite do Ártico dura quatro meses, o crime não conhece a sombra”.


 


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MANUAL POP - Jack Antonoff é um produtor com pergaminhos na música norte-americana, premiado com vários Grammys e que trabalhou com nomes como Taylor Swift, Lana D’El Rey, St. Vincent e  Clairo, entre outros. Além desta actividade, Antonoff criou os Bleachers, o nome de uma banda virtual que na realidade é o disfarce para a sua carreira a solo. Jack Antonoff é um praticante exímio do pop com sofisticação e este terceiro álbum que assina sob o nome Bleachers, Take the Sadness Out of Saturday Night”, é prova disso mesmo. Admirador confesso de Springsteen, o Boss faz uma breve aparição na faixa “Chinatown” e um pouco mais adiante é a vez de Lana d’El Rey aparecer em “Secret Life”. Ao todo são dez faixas onde não cabe a monotonia, com arranjos por vezes surpreendentes, cordas abundantes que se entrelaçam com guitarra acústica. “Stop Making This Hurt,” “Don’t Go Dark” and “How Dare You Want More?” , “I Wanna Get Better” e “Don’t Take the Money”. O disco, o terceiro sob o nome Bleachers, é uma demonstração de composição e produção pop. Disponível em streaming.


 


UMA DESCOBERTA EM TAVIRA -  Perto da Igreja do Carmo, na Rua dos Fumeiros de Trás, na parte alta de Tavira, junto ao centro da cidade, fica o restaurante Ti Maria, uma casa de petiscos bem algarvios e com incursões noutras regiões portuguesas. A casa é simpática, o interior está decorado a partir de caixas de madeira de muitas marcas de bons vinhos e objectos diversos - nos períodos de confinamento o proprietário aproveitou para remodelar e melhorar o interior. À chegada, na mesa, estão umas boas azeitonas e um pão que podia ser mais tradicional e guloso. Na lista estão petiscos como cogumelos recheados com alheira de caça e linguiça picante, há um apreciado folhado de queijo de cabra, nozes, espinafres e mel, uma Tapinha do alto de São Brás que consiste em farinheira panada com espinafres, tomate  e maionese de pimentos ou ainda uma tábua de queijos. Este é um sítio para petiscar e foi o que fizémos: muxama da boa para começar, tempura de polvo bem temperada e para rematar atum braseado, envolvido em sementes de sésamo, peça de bom calibre, cozinhado no ponto certo e bem cortado, acompanhado por batata doce frita aos palitos. Dizem que a tempura de biqueirão também dá que falar. Aberto há pouco mais de três anos, o Ti Maria aproveitou - e bem - a situação actual para alargar a esplanada ao longo da parede do restaurante e, em frente, junto à Igreja do Carmo. Mas no interior também se está bem, o serviço é atento e simpático, equipa jovem atenta, eficaz e simpática, excelente lista de vinhos a preços decentes. Reservas pelo telefone 281 403 268.


 


DIXIT - “Não nascem portugueses em número suficiente, os imigrantes não querem cá ficar e os jovens portugueses sonham em ir-se embora” - João Miguel Tavares sobre os resultados do Censos 2021.



BACK TO BASICS - “Tacto é a forma de conseguir fazer vingar uma opinião sem criar inimigos” - Isaac Newton.


 








agosto 06, 2021

MUITA CONVERSA E POUCA PARRA

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ELES FALAM, FALAM... - Tenho para mim que uma das razões para o descrédito cada vez maior dos políticos é a sua falta de capacidade para reconhecerem os erros, a forma como gostam de ocultar o que não conseguiram fazer, a maneira como sorrateiramente varrem para debaixo da mesa as falhas, atrasos, confusões e burocracias que impedem que as coisas funcionem. A maior especialidade dos políticos no activo é a arte de passar no meio de chuva evitando salpicos. Nem sempre foi assim:  já tivemos - e acredito que possamos voltar a ter - políticos sérios, honestos e frontais. Agora, de um lado ao outro do espectro, não se vislumbra nada disso a nível das primeiras figuras da maioria dos partidos e quando se desce no respectivo aparelho partidário a coisa geralmente agrava-se. Basta ver as contradições de ministros, os malabarismos e golpadas de dirigentes. Pior ainda é aquilo que o secretário geral adjunto do PS, José Luís Carneiro, esta semana veio dizer, atacando outros partidos por fazerem críticas ao governo e por procurarem “casos e casinhos”, que não são mais que as fugas à verdade e as manobras de ocultação em que muitos membros do actual executivo têm sido pródigos. Na política portuguesa tornou-se comum anunciar uma coisa que se esquece a seguir, proclamar verbas que depois não são gastas, confundir estratégia com propaganda. O nosso mal, na realidade , é o exemplo que vem de cima: muita conversa e pouca parra. Uma ilusão de ótica, no fundo.


 


SEMANADA - Quase 20% da população de Lisboa é estrangeira; 38% dos portugueses não têm recursos para passar uma semana de férias fora da sua residência habitual e na Europa a percentagem é de 28%; Portugal apenas conseguiu aproveitar 12% dos 102,7 milhões de euros de fundos europeus, que deviam ser geridos pelo Ministério do Planeamento,  destinados a serem aplicados no ambiente, crescimento azul (economia do mar), inovação,  igualdade de género, cultura e cidadãos ativos; o subsídio a cuidadores informais chegou a apenas um quinto dos candidatos; o número de nascimentos registados em Portugal no primeiro semestre de 2021 é o mais baixo dos últimos 33 anos; o Algarve tem agora o dobro dos desempregados ali registados há dois anos; no turismo, foram mais de 101 mil os empregos destruídos, entre o primeiro trimestre de 2021 e o período homólogo de 2020, mas os empregadores afirmam ter dificuldades em recrutar pessoal; o setor privado da saúde já emprega quase tantas pessoas como o SNS; segundo a OCDE 11,4 anos é o tempo que, em média, cada português demoraria a pagar uma casa de 100m2 com o rendimento disponível e sem recorrer a empréstimos; segundo a Centromarca a alimentação e as bebidas foram os sectores que registaram maior crescimento de vendas no primeiro semestre do ano, enquanto os produtos de limpeza caseira e de higiene e beleza observaram uma quebra assinalável.


 


O ARCO DA VELHA -  Na cadeia de Leiria um grupo de reclusos, familiares e funcionários civis utilizou durante meses o automóvel do director do estabelecimento prisional, sem o conhecimento deste, para introduzir droga e telemóveis na prisão, escondidos no forro do guarda lamas do veículo.


 


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FOTOGRAFIA DE GUERRA - Ao contrário do que aconteceu com outros conflitos do século XX, a guerra colonial portuguesa teve um reduzido registo fotográfico - à excepção de alguns repórteres estrangeiros, poucos, e dos serviços das Forças Armadas portuguesas que tinham essa função documental. No entanto, se compararmos com a guerra do Vietname, para não irmos mais longe, o que existe relativo à guerra na Guiné, Angola ou Moçambique é muito pouco. Augusta Conchiglia, uma repórter italiana entrou clandestinamente em Angola para, com Stefano de Stefani, reportar a luta em curso. Até Setembro desse ano, guiados pelos guerrilheiros do MPLA, percorreram centenas de quilómetros nas zonas libertadas.  É um dos raros registos fotográficos feito do lado dos guerrilheiros e não das Forças Armadas portuguesas. Conchiglia tirou milhares de fotografias, das quais parte foi publicada em 1969 no livro  “Guerra di Popolo in Angola”. Agora uma parte importante desse trabalho pode ser vista na exposição “Augusta Conchiglia nos Trilhos da Frente Leste - Imagens (e Sons) da Luta de Libertação em Angola”, que estará até finais de Dezembro no Museu do Aljube Resistência e Liberdade (Rua de Augusto Rosa 42). Com curadoria de Maria do Carmo Piçarra e José da Costa Ramos, a exposição apresenta imagens do primeiro álbum fotográfico da autoria de alguém exterior às partes do conflito, fotografias que se tornaram símbolos da luta de libertação contra o colonialismo em Angola. Na imagem aqui reproduzida Augusta Conchiglia está ao lado de Iko Carreira, um dos comandantes militares do MPLA mais próximos de Agostinho Neto. Outra sugestão fotográfica, desta vez a norte é a exposição “My Mind is a Cage” de Roger Ballen. Esta exposição foi projectada expressamente para o Centro Português de Fotografia e parte do desejo de Roger Ballen em apresentar uma obra nas distintas celas do edifício da Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto,  criando um imaginário em que as celas da Cadeia da Relação surgem como quartos de prisioneiros que albergam as várias séries de imagens do autor. A curadoria é de Ângela Ferreira e a exposição decorre até 10 de Outubro.


 


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UM POLICIAL DIFERENTE- “A Absolvição” é o terceiro volume da série «DNA», de Yrsa Sigurdardóttir, uma islandesa que tem escrito notáveis policiais. Esta série – iniciada com “O Legado”, teve continuação em  “Abismo” e continua agora com “A Absolvição”. A série, e o livro,  tem como protagonistas o investigador criminal Huldar e a psicóloga Freyja, que neste policial  são chamados a investigar uma morte cujos preliminares violentos foram divulgados numa rede social - o assassino filmou o que fez - e como fez - e enviou o vídeo aos contactos do telemóvel da vítima, via Snapchat. Ninguém compreendia a razão do crime, tanto mais que a vítima, Stella, era tida como uma rapariga boa e encantadora. Ao longo da investigação Huldar e Freya começam a descobrir quem  tivesse sofrido às suas mãos, sendo por ela perseguido, ameaçado e destruído, numa espiral de bullying. O crime repete-se, com outro jovem desaparecido e novo vídeo é  posto a circular da mesma forma - e depois percebe-se que o novo assassinato tem também a ver com bullying. A Absolvição, de Yrsa Sigurdardóttir, é uma história de suspense sobre o lado negro das redes sociais, com um foco intenso no exame do bullying – que inclui problemas de isolamento, suicídio, acompanhamento profissional e inépcia na sua prevenção como a crítica internacional tem referido. Yrsa Sigurdardóttir, 57 anos, vive com a família em Reiquejavique e é diretora de uma das maiores empresas de engenharia da Islândia. Escreve policiais nas suas horas vagas.


 


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PRINCE EM PROTESTO - O novo “Welcome 2 America” é o terceiro álbum póstumo de Prince a surgir desde a sua morte, em 2016, mas é o primeiro que é integralmente constituído por material inédito. Tratam-se de 12 canções, descobertas pelo arquivista do músico, Michael Howe, gravadas em 2010, antes de uma das suas últimas digressões. No entanto nessa digressão, que teve por título “Welcome 2 America”,  Prince não interpretou ao vivo nenhum dos temas deste álbum, que por alguma razão resolveu manter escondido até à sua morte, nunca regravando nenhum desses temas. A gravação, com uma produção ao bom nível a que Prince habituou, incluía além do autor, o baixista Tal Wilkenfeld e o baterista Chris Coleman. O álbum surge como um disco conceptual, em que todas as canções assumem uma atitude de protesto e de crítica, sobre temas que vão de impostos à tecnologia, passando pelo estado da indústria discográfica, drogas ou religião. É algo inédito Prince apresentar-se como um cantor de protesto, mas é isso que o disco mostra. Como “The Guardian” fez notar, este trabalho está longe de ser um registo de referência de Prince e alguma razão há-de ter existido para o próprio o ter mantido na prateleira. A favor do disco joga a coerência musical do trio, que se impõe com uma sonoridade enérgica. Mas de facto o conteúdo, ao longo dos 54 minutos de audição, nunca chega a descolar e muitas vezes mesmo a prestação musical de Prince revela um certo enfado com as palavras que canta - e que escreveu. Prince a abordar temas sociais e políticos é algo estranho e sente-se como ele próprio estava desconfortável. Tratou-se de um desabafo, que ele escondeu. Um trabalho apenas para coleccionadores.



A PROPÓSITO DA ACELGA -    Não gosto muito de restaurantes da moda - mas esta semana fui a um que reconheço ter-me cativado. Trata-se do Memória, em Campo de Ourique. O Memória trabalha sobre a cozinha italiana, mas com competência e boa matéria prima. O sítio é agradável, com um amplo espaço ao ar livre, um pátio interno do prédio onde está localizado. Além das entradas costumeiras, há uma burrata com presunto e figo, bem temperada, que animou parte da mesa onde eu estava, na altura entretido a beber um competente Aperol enquanto havia quem se regalasse com um prosecco. O menu oferece massas frescas com sugestões pouco habituais mas que satisfizeram, como uns pappardelle com ragú de coelho - quem quiser tem esparguete com trufas ou gnocchi de beterraba com acelgas. Há cuidado na escolha de ingredientes mediterrânicos e na combinação de sabores. Na área das pizzas, com massa fina, destaque para a que incorpora presunto e figos com mozzarella fior di latte e para a de anchovas e acelgas com mozzarella de búfala. Há mais de uma dúzia de propostas de pizza, incluindo vegetarianas. Nas sobremesas o tiramisu e a tarte tosca com cerejas deram muito boa conta do recado. A lista de vinhos inclui algumas propostas italianas de várias regiões, a preços decentes - a escolha da mesa recaíu num branco siciliano, Zabú Grillo, que também pode ser servido a copo. Há também vinhos portugueses, entre os quais um bom e inesperado Venâncio da Costa Lima branco. Apesar da casa cheia, o serviço funcionou bem. O Memória fica em Campo de Ourique, Rua 4 de Infantaria 26A, no Jardim da Parada, telefone 210998366.


 


DIXIT -  “Tenho vergonha de ter meia dúzia de cursos em que um estudante com 18 valores não entra. Estamos a torturar os nossos adolescentes com esta competitividade”  - António Cruz Serra, Reitor da Universidade de Lisboa.


 


BACK TO BASICS - “A vantagem de ter má memória é que podemos saborear as coisas boas várias vezes como se fossem novidade” - Friedrich Nietzsche.