fevereiro 07, 2021

Um barco suspenso entre as montanhas e o Ganges

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Por estes dias não podemos lá ir, mas no grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada em Novembro naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana passam pelas cinco salas onde se desenvolve a exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, nas suas várias facetas e nos suportes utilizados, do papel à escultura. Sérgio Fazenda Rodrigues, o curador da exposição, sublinha no texto que elaborou, que a produção de Cristina Ataíde “revela uma sede de experimentação e um fascínio pela descoberta que, entre outros, se ancora no impulso da viagem, na procura por outros sistemas de pensamento e numa busca pela expressão da matéria”. Nas cinco salas onde se desenvolve a exposição viaja-se pelos pilares da obra de Cristina Ataíde, com referências cruzadas mas sempre com a afirmação da sua identidade criativa. Quando o museu reabrir não deixem de a ir ver. Se quiserem podem ver o PDF do catálogo da exposição aqui . E entretanto também podem ver uma visita guiada pela artista no video abaixo.



 

fevereiro 06, 2021

NÃO PERCAM - UM GRANDE DOCUMENTÁRIO EM QUATRO EPISÓDIOS NA RTP PLAY

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O MISTÉRIO DO CÉREBRO -  A RTP é a única estação de televisão que produz, promove e exibe regularmente documentários - não estou a falar de reportagens. Essa é uma parte muito importante do Serviço Público audiovisual. Se não for a RTP a fazer isso ninguém se preocupará com esse assunto e a produção de conteúdos audiovisuais de referência em língua portuguesa ficará ainda mais pobre. "Deus Cérebro” é uma série documental em quatro episódios, já todos transmitidos em horário nobre no primeiro canal, que conta como nos últimos 20 anos se deram passos de gigante na exploração do cérebro humano - mesmo se  a dimensão do que está para lá do nosso conhecimento permanece um enigma. À medida que se avança no conhecimento do cérebro, maior é a perceção de que há um vasto universo por descobrir. A série pretende descodificar os mistérios do cérebro humano. Produzida pela Panavideo, realizada por António José Almeida, com guião de Anabela Almeida e música de Carlos Maria Trindade, a série entrevista cientistas portugueses e estrangeiros e é um exemplo do que deve ser um documentário que de uma forma simples e eficaz aborda uma matéria tão complexa como o cérebro humano. Todos os episódios estão disponíveis na RTP Play, a aplicação de conteúdos do canal que é disponibilizada gratuitamente. 


 

fevereiro 05, 2021

AUDIÊNCIAS TV - SIC LIDERA NO PRIMEIRO MÊS DO ANO

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No final do mês de Janeiro as audiências de televisão indicavam que a SIC continua a liderar, com quase dois pontos percentuais de vantagem sobre a TVI em termos de share médio. No fecho do mês a  SIC ficou com 18,3%, a TVI com 16,4% e a RTP com 11,2%. No cabo a liderança continua a pertencer ao CMTV com 4,3%, seguido da SIC Notícias com 2,4, a Globo e a TVI24 com 1,6% e a Fox com 1,5%. Reflectindo os números sobre a circulação durante este confinamento não há variações sensíveis no consumo de televisão, nem em número de espectadores, nem em termos do tempo gasto frente ao televisor. O programa mais visto continua a ser “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, da SIC - canal que aliás tem 11 programas nos 15 mais vistos - a TVI tem três e a RTP tem um. As novelas mais vistas continuam a ser “A Máscara” e “Amor, Amor”, da SIC, que ficaram respectivamente na 4ª e 5ª posições globais. “Bem Me Quer”, a novela da TVI não conseguiu melhor que a 14ª posição global e o programa mais visto da RTP foi mais uma vez “O Preço Certo”. Se olharmos para o mês de janeiro os três programas mais vistos foram jogos da Allianz Cup, com o desafio entre Benfica e Sporting de Braga a liderar, seguido pela final entre o Sporting e o Sporting de Braga e depois pelo jogo entre o Sporting e o Futebol Clube do Porto. Futebóis à parte o 4ª programa mais visto de Janeiro foi o debate entre André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa e na 5ª posição ficou uma emissão especial da novela “A Máscara”.


(publicado nna revista SEXTA-GUIA DO LAZER do Correio da Manhã de 5 de Fevereiro)

MAIS E MELHOR VACINAÇÃO E MENOS PROPAGANDA

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A MIRAGEM DAS VACINASO que se passa com o Plano de Vacinação contra a Covid-19 é um espelho do que tem acontecido no combate à doença: falta de planificação, improviso, atropelos constantes, desresponsabilização das autoridades. Algumas declarações de Francisco Ramos, ex- Coordenador do Plano de Vacinação, são patéticas e claramente extravasam as suas funções e dizem bastante sobre a sua competência para dirigir uma área com uma responsabilidade tão grande na defesa da saúde pública. O homem fazia análise política enquanto o plano de vacinação tinha falhas trágicas. Acabou por se demitir no início da semana, depois de nem ter conseguido controlar abusos na vacinação no Hospital que ele próprio dirige, a Cruz Vermelha. Estávamos à espera de um plano nacional de vacinação mas saíu-nos um plano nacional da confusão. Numa série de países, civilistas e democráticos, as forças armadas têm sido chamadas a auxiliar - e dirigir - com a sua experiência, competência, meios e logística, esta tão delicada e urgente acção de vacinação. As Forças Armadas têm um papel relevante em tempo de paz, a complementar a sociedade civil, usando a sua experiência em situações de crise e de urgência extrema. Em Portugal têm sempre respondido positivamente quando chamadas a ajudar. Recentemente soube-se que uma coronel médica da Força Aérea, Maria Salazar, coordena de forma exemplar uma força de 300 militares que prestam auxílio à formação de pessoal de lares de idosos no combate à pandemia. E é um bom sinal que seja agora um militar a tomar conta da operação de vacinação. A demissão de Francisco Ramos é uma oportunidade para endireitar as coisas.  Como disse o Presidente do Sindicato Independente dos Médicos, é preciso “mais trabalho e menos propaganda”. Espera-se que o novo responsável, vice-almirante Gouveia e Melo, fale menos que o antecessor e que mostre que a prioridade é mesmo vacinar as pessoas.


 


SEMANADA - Segundo a Direção Geral da Saúde registaram-se em Portugal um total de 19 490 óbitos em janeiro, o que corresponde a um aumento de 67% face à média verificada entre 2009 e 2020; a pandemia provocou uma queda histórica da esperança média de vida depois dos 65 anos; a meio da semana já tinham sido referenciados mais de 340 casos de vacinações indevidas feitas por favor ou graças a “cunhas”; o responsável dos serviços farmacêuticos do INEM que denunciou abusos na administração da vacina, foi afastado das suas funções; a dívida portuguesa ultrapassou os 270 mil milhões de euros em 2020, o que significa o valor recorde de 134,8% do PIB; o valor final da variação anual do PIB em 2020 foi de 7,6%, o mais negativo desde 1928; em 2020 o número de dormidas em estabelecimentos hoteleiros caíu 63% face a 2019, registou o pior número desde 1993 e a área metropolitana de Lisboa foi a zona mais afectada com uma quebra de 71,5%; Portugal desceu de categoria no Índice de Democracia elaborado anualmente pela revista The Economist, que teve em consideração, a par da reversão das liberdades democráticas por causa da pandemia, questões como a redução dos debates parlamentares ou ainda “a falta de transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Contas”;  Manuel Villaverde Cabral, Marçal Grilo e Pedro Santana Lopes pronunciaram-se a favor da nomeação pelo Presidente da República de um Governo de salvação nacional para gerir o combate à pandemia e a recuperação da economia; o parlamento europeu recomendou que pelo menos 2% dos planos de recuperação dos estados membros sejam dirigidos para o sector cultural e criativo mas o plano do Governo português não os identifica como uma prioridade.


 


ARCO DA VELHA  - Cristina Gatões, a ex directora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que durante meses não se pronunciou sobre a morte de um cidadão estrangeiro no aeroporto, em instalações do SEF, passou de directora demitida daquela entidade a assessora da nova direcção onde vai trabalhar na reformulação dos vistos gold. O mundo é mesmo cor de rosa.


 


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O MISTÉRIO DO CÉREBRO -  A RTP é a única estação de televisão que produz, promove e exibe documentários - não estou a falar de reportagens. Essa é uma parte muito importante do Serviço Público audiovisual. Se não for a RTP a fazer isso ninguém se preocupará com esse assunto e a produção de conteúdos audiovisuais em língua portuguesa ficará ainda mais pobre. "Deus Cérebro” é uma série documental em quatro episódios, já todos transmitidos em horário nobre no primeiro canal, que conta como nos últimos 20 anos se deram passos de gigante na exploração do cérebro humano - mesmo se  a dimensão do que está para lá do nosso conhecimento permanece um enigma. À medida que se avança no conhecimento do cérebro, maior é a perceção de que há um vasto universo por descobrir. A série pretende descodificar os mistérios do cérebro humano. Produzida pela Panavideo, realizada por António José Almeida, com guião de Anabela Almeida e música de Carlos Maria Trindade, a série entrevista cientistas portugueses e estrangeiros, como António Damásio (na imagem) e é um exemplo do que deve ser um documentário que de uma forma simples e eficaz aborda uma matéria tão complexa como o cérebro humano. Todos os episódios estão disponíveis na RTP Play, a aplicação de conteúdos do canal.


 


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BLUES E SAUDADE - Melody Gardot a cantar em português num dueto com António Zambujo? Sim - exactamente o segundo tema do seu novo álbum “Sunset In The Blue” editado em Janeiro. “C’Est Magnifique” é o encontro de estúdio entre Gardot e Zambujo - nada de admirar já que a cantora passa temporadas largas em Lisboa, onde não se cansa de dizer que gosta de estar. Nos últimos anos Gardot trabalha cada vez mais nesse território em expansão que é o cruzamento do jazz vocal com a música pop, percorrendo baladas e recorrendo a arranjos envolventes. Aqui a atracção latina é patente em vários temas, num disco onde os originais se entrelaçam com versões de canções de outros autores. E nesses temas latinos ela canta num português com toque de Brasil enquanto que ao longo dos 12 temas deste disco usa a sua voz em registos que, como a revista Down Beat escreveu, fazem lembrar Shirley Horn, Dinah Washington ou Edith Piaf, mostrando a extensão da sua capacidade vocal. O tema que dá título ao álbum foi escrito por Jesse Harris, um dos nomes que tem estado ao lado da carreira de Norah Jones. O que eu acho especial em Gardot é ela, em disco, conseguir transmitir a atmosfera de um clube de jazz, mesmo quando os arranjos são complexos. Este disco é um repositório de saudades de outros mundos, de viagens que estes tempos obrigam a que fiquem só no pensamento, tão evidente na sua versão de “From Paris With Love” quando canta “Maybe one day I will see you soon”. O single e vídeo desta canção serviu para recolher receitas para organizações de profissionais de saúde que estão a combater a Covid-19 e Gardot fez questão de gravar com uma orquestra como um sinal de apoio aos músicos que nestes tempos estão com o seu trabalho em risco. “Sunset In The Blue” está disponível nas plataformas de streaming e “From Paris With Love” pode ser visto no YouTube.


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A HISTÓRIA DO PETISCO - Alguns dos meus leitores já terão reparado como eu gosto de petiscar e de ler sobre comidas. Algumas das receitas  que aqui relato nasceram de newsletters que recebo e vou experimentando. Nestes dias de confinamento abri um livro, editado há pouco tempo, que é uma excursão pela História e pela gastronomia. Chama-se “História dos Paladares” e foi escrito por Deana Barroqueiro, uma portuguesa nascida em 1945 nos Estados Unidos, que aos dois anos veio para Portugal onde cresceu e estudou, na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem ensinado  Língua e Literatura Portuguesa e Francesa. Autora de diversos livros e de guiões  para cinema e televisão tem vários romances históricos publicados. Este novo livro relata a história da evolução do gosto, a educação do paladar, o amadurecimento da gastronomia como uma arte. O percurso histórico desta evolução é narrado com acontecimentos passados em todo o mundo, ao longo de séculos, cruzando episódios com mitos, evocando personalidades que contribuíram para tornar a comida algo de especial para além das questões da sobrevivência. E, como neste livro a história do mundo se cruza com a história de Portugal, há numerosas indicações de como as influências dos territórios descobertos por portugueses se repercutiram na gastronomia lusitana. Este primeiro volume de “História dos Paladares”, com o título “Sedução”, será seguido pela “Perdição”, onde a gastronomia se liga ao cinema, ou ao prazer, à tentação, ao fausto e até à religião. E neste “Sedução” há mais de 250 receitas de diversas épocas e países. Um guia para estes dias.


 


NA PÚCARA - Esta receita é tirada do livro de Deana Barroqueiro”, “História dos Paladares”, referido nestas páginas. Trata-se de uma ideia para estes dias de confinamento invernais : frango na púcara, que a autora indica ter tido origem no século XIX, o equivalente português ao coq-au-vin. Aqui vai então: arranja-se o frango e corta-se aos pedaços, e salteia-se numa frigideira com 100 gramas de manteiga até ficar dourado. Ainda na frigideira rega-se com um cálice de aguardente e flameja-se. Os pedaços de frango devem então ser transferidos para um tacho com tampa (um bom tacho de barro ou um Le creuset nos dias que correm…). Adiciona-se 150 gramas de chouriço e presunto cortados às tiras pequenas, quatro tomates sem, pele nem sementes, uma meia dezena de cebolinhas, duas colheres de sopa de mostarda, dois dentes de alho esmagados, um cálice de vinho do Porto, um cálice de boa aguardente e um copo de vinho branco seco. A tudo isto adiciona-se salsa, tomilho, cravo, gengibre, noz moscada e pimenta e eventualmente cenoura cortada aos pedaços pequenos. Tudo isto se coloca no tacho intercalando com camadas dos pedaços de frango. O vinho do Porto, a aguardente e o vinho branco só entram no fim, para regar os ingredientes. Tapa-se o tacho e leva-se ao forno bem quente. Quando o frango estiver cozido destapa-se o tacho para o cozinhado corar à superfície. É servido no tacho, acompanhado de puré de batata ou arroz solto. 


 


DIXIT - “Neste momento a prioridade parece-me ser manter as empresas vivas e não o controlo do défice” - João Borges Assunção, professor da Católica, criticando o facto de a despesa pública ter ficado abaixo das verbas orçamentadas.


 


BACK TO BASICS - “A actividade política prática consiste em ignorar os factos” - Henry Adams





 

janeiro 29, 2021

O GOVERNO QUE LEVOU PORTUGAL A LIDERAR NOS MAUS INDICADORES

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SEM SAÙDE NÃO HÁ ECONOMIA - A reconstrução da confiança dos portugueses no poder político e seus protagonistas, a recuperação da economia e a reconstrução do país dependem de uma única coisa: da forma como se enfrentar daqui para a frente a pandemia, sem hesitações e medidas contraditórias. Sem resolvermos a saúde não se resolve o resto, isso é cada vez mais certo. Instala-se a dúvida: será o Ministério da Saúde o responsável, ou será a irresponsabilidade do Primeiro Ministro a abrir e fechar a torneira e a tomar medidas contraditórias, como no Natal, que ajuda à situação em que estamos? Percebe-se que o caos vem dos zigue-zagues em matéria de medidas de confinamento, mas, na realidade, apesar de múltiplos avisos, o sistema não funcionou pese embora o esforço e dedicação dos profissionais de saúde. A culpa não é deles, é de quem andou a brincar ao gato e ao rato com um vírus. O país está numa situação terrível. Todos os que tomaram decisões - nomeadamente Costa e Marcelo - têm culpas neste cartório. Será que Marcelo, que tem nas mãos a pior situação de pandemia, vai acabar o seu segundo mandato como Presidente do país mais pobre da União Europeia? Todos gostaríamos que fosse de outra maneira. Marcelo ganhou o respeito e admiração dos eleitores, gerindo de forma hábil a proximidade dos afectos com a distância institucional. Mas mesmo sem poderes legislativos tem que fazer melhor - à partida com a sua  influência na saúde, na vacinação, exercendo vigilância. Mas também na  justiça que se degrada e no estado da educação onde os justos pagam pelos pecadores porque o Ministro do sector também ficou sentado sem fazer o que prometera. É esta situação de Portugal ser  líder nos rankings da pobreza e do Covid na Europa que torna o terreno fértil para os populismos. Num país mais igual, com menos diferenças regionais e menos assimetrias, as coisas seriam diferentes. O regime andou a semear que alguém dissesse chega. Não sei se os protagonistas do crime são indicados e têm capacidade para alterar o estado das coisas. Há meio milhão de pessoas que estão zangadas com o sistema. Não procurem o êxito de Ventura nos eleitores do PC, procurem no que sucessivos Governos, este incluído, fizerem ao longo dos anos nomeadamente no abandono do interior e na ausência de reformas estruturais.  


 


SEMANADA - Continuam por vacinar 90% dos médicos de hospitais privados; um estudo divulgado esta semana indica que na União Europeia a pandemia castigou mais as indústrias culturais e criativas do que o turismo ou o sector automóvel; Portugal é um dos quatro únicos países da União Europeia onde ainda não existe rede 5G; em Portugal nos últimos 11 anos os preços nas telecomunicações cresceram 6,5% mas caíram 10,8% na UE;  as mortes Covid em Janeiro são quase tantas como as ocorridas no total entre Março e Novembro; o número de desempregados voltou a ultrapassar a fasquia dos 400 mil; no sul do país, o desemprego aumentou mais de 63% face a fevereiro de 2020 e a seguir na lista surge a região de Lisboa e Vale do Tejo, onde o desemprego se agravou em mais de 35%; mais de 22 mil empresas pediram acesso ao lay-off em Janeiro; André Ventura ficou em segundo lugar em 203 dos 308 concelhos do país e em 12 dos 20 distritos; ficou em segundo lugar onde há elevado défice demográfico, em territórios abandonados, com populações envelhecidas; ficou em segundo lugar onde há mais 20% de população estrangeira; ficou em segundo lugar nos concelhos que tiveram no início de janeiro mais do dobro dos casos de novas infecções de covid-19 do que a média do país; são os concelhos  onde o desemprego mais cresce e onde existe maior frustração pela gestão da pandemia. 


 


ARCO DA VELHA  - Estima-se que cerca de cinco mil eleitores votaram no candidato fantasma Eduardo Baptista, que foi  incluído no boletim de voto em primeiro lugar, mesmo sem ter angariado as assinaturas necessárias para a apresentação da candidatura.


 


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MAAT VIRTUAL - Ao fim de sete meses Beeline, a intervenção arquitetónica encomendada pelo MAAT ao estúdio SO – IL, sediado em Nova Iorque, está agora obviamente encerrada mas durante estes dias de confinamento existem alguns conteúdos virtuais para desfrutar: ouvir as palavras dos arquitetos sobre o papel da prática do design efémero e a missão da arquitetura, explorar a instalação e as exposições que a acompanham em textos e imagens por escritores e fotógrafos de renome, e recordar eventos que acolheu como parte do maat Mode 2020, um programa público, participativo e experimental, que apresentou 86 projetos envolvendo mais de 220 participantes internacionais e instituições parceiras. Pode ter uma ideia de tudo isto no canal do MAAT no YouTube e se visitar o site do MAAT pode também ver as fotos que Iwan Baan fez de Beeline,  assim como textos sobre o trabalho de intervenção do estúdio SO-IL-


 


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UM PEIXE EM CANÇÕES - Volta e meia há uns discos que nos causam um sobressalto. Um bom sobressalto. É o que me aconteceu com “Peixe Azul”, o novo trabalho de  Miguel Araújo. O melhor é ouvi-lo: “As gravações deste disco começaram no final de 2018, que foi quando eu consegui ter o meu estúdio pronto. Fui gravando uma espécie de "maquetes melhoradas" de algumas músicas que tinha na altura, sem saber que muitas dessas gravações acabariam por ser as que estão agora no disco: algo não muito produzido, com arranjos feitos e tocados exclusivamente por mim de forma natural e despretensiosa. Fui fazendo este disco entre Novembro de 2018 e Julho de 2020. Só no início de 2020 é que me surgiu a ideia de converter esse processo num disco. “ E sobre as canções? - “A escrita da canções é algo que eu vou fazendo ao longo do tempo, de uma forma desorganizada e caótica. Uma das canções, “Gabriela de Jesus”, tem letra escrita muito recentemente (verão de 2019) por cima duma melodia que eu inventei aos 17 anos e da qual nunca me esqueci. Portanto essa demorou 25 anos. Algumas escrevi mesmo perto do fim do processo, como por exemplo “Balzac”, que escrevi  durante os ultimos dias das misturas, quando achava que o disco estaria terminado. "As Velhas que Cosem as Meias dos Netos" é um poema que escrevi em Junho de 2007 quando a minha avó morreu, e cuja música fiz durante as gravações. O confinamento propiciou este disco na medida em que as minhas visitas ao estúdio (que fica na cave de minha casa) passaram a ser diárias, das nove às cinco, literalmente. À boa maneira dos discos confinados, foi todo feito por mim: capa, arranjos, produção, todos os instrumentos, agora até a venda e distribuição. Em quase todos os casos, eu rematei, finalizei as canções durante as gravações, a partir de esboços que vou acumulando quase diariamente há 20 anos. Esse é sempre o meu processo.” Miguel Araújo é quem melhores canções escreve e interpreta hoje em dia em Portugal. Este”Peixe Azul” tem dez canções, tornou-se num disco que ouço a toda a hora e sorrio cada vez que o volto a ouvir. Está por enquanto só á venda on line em www.miguelaraujo.pt 


 


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SOBRE A IGUALDADE - Quando pego num livro tenho sempre a tentação de ver a primeira frase e, às vezes, a última. Neste caso, a última é que vale: as criaturas lá fora olhavam de porco para homem, de  homem para porco e novamente de porco para homem; mas já era impossível dizer qual era qual”. O livro em questão é “1984”, de George Orwell, que acabou de voltar a ser publicado, pela Bertrand, numa boa tradução de Maria Antunes. Em Portugal, a primeira edição desta obra, foi intitulada “O Porco Triunfante” e data de 1946, devendo-se  à Livraria Popular de Francisco Franco.“1984” foi escrito por Orwell entre 1943 e 1944, no final da Guerra e conta a história de uma quinta tomada pelos seus explorados e maltratados animais, que decidem criar um novo sistema de progresso, justiça e igualdade. É, na essência, uma fábula que na verdade, é um retrato político e social da implantação de um regime totalitário e que ganha uma actualidade inesperada por estes dias. Não deixa de ser curioso voltar a esta obra de Orwell, que foi também o autor de “1984”, um premonitório livro sobre o mundo em que vivemos e que também foi agora reeditado, neste caso pelos Livros do Brasil.


 


SOPA COM ABSINTO - A “Konfekt”, uma nova revista do grupo que edita a “Monocle” tem uma newsletter,  "Kompakt", que entre outras coisas recomenda um vinho e propõe uma receita. O vinho não é fácil de encontrar no confinamento, mas a receita é possível e aqui fica ela, pela mão do chef Richard Kagi, de Zurique que conta que a ouviu num concurso radiofónico de receitas. Trata-se de uma sopa de abóbora com absinto - adivinha-se uma coisa decadente… Esta escolha foi-me sugerida pela minha fiel conselheira e passou o teste que fizémos esta semana. Então para os ingredientes: um kg de abóbora, uma colher de sobremesa de caril de boa qualidade, 200 ml de vinho branco seco, 800 ml de caldo de galinha ou de legumes, 200 gramas de mascarpone (e um pouco mais para o enfeite final no empratamento) e ainda um dedal de absinto (o português Neto Costa é perfeito…). A abóbora deve ser descascada e cortada em cubos, que depois vão ao forno a 180 graus durante cerca de uma hora. Uma vez assada mistura-se no caldo de galinha, já com o caril, e passa-se tudo com o 1-2-3. Depois adiciona-se o mascarpone, mexe-se bem e deixa-se apurar em lume brando, com um toque de absinto. Como o absinto tem um gosto forte vão experimentando a partir de uma pequena dose para que não se torne demasiado presente. Adicione sal e pimenta a gosto. Serve-se em pratos fundos e coloca-se um pedaço de mascarpone por cima no empratamento final. Bom apetite. O sabor é verdadeiramente inesperado e magnífico. E neste tempo sabe sempre bem uma sopa quentinha. 


 


DIXIT - “A esquerda foi a grande derrotada e a direita não conseguiu ganhar” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS -  “Há quem diga que o tempo muda as coisas, mas na realidade somos nós que temos que as fazer mudar" - Andy Warhol.









janeiro 22, 2021

O PERIGO DA POLÍTICA DO ZIGUE ZAGUE

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AS CONTRADIÇÕES NA PANDEMIA - Se quisermos resumir as coisas, a estratégia do governo para o combate à pandemia tem sido um passeio na montanha russa. Depois do confinamento de Março escancararam-se os portões no verão, fecharam-se no outono, mas com muitas frestas, e depois escancararam-se de novo as portas nas últimas semanas de Dezembro. O resultado desta montanha russa de decisões está infelizmente à vista e é dramático. Falta de atenção às evidências científicas, falta de planeamento em matéria de organização e meios no sistema de saúde e  uma comunicação péssima são os erros que nos trouxeram aqui. Citando sábias palavras amigas, as mensagens contraditórias de abre e fecha levaram-nos onde estamos. Na realidade, um dos princípios básicos da comunicação tem em conta a clareza da mensagem. Ambiguidades e contradições são para utilizar em contextos em que o resultado final pouco importe ou possa vir a ser anulado. Quando se estabelece um sentido de urgência para a adopção de determinados comportamentos, como numa situação de pandemia em que a saúde pública e as vidas das pessoas são postas em causa, a necessidade desse básico é ainda mais evidente. O contrário de uma mensagem clara e inequívoca pode ser uma mensagem paradoxal ou uma contraditória. As mensagens paradoxais deixam os receptores enredados numa teia de onde dificilmente saem, já que uma coisa e o seu contrário são ambos percebidos como válidos. Já as mensagens contraditórias deixam o caminho aberto à escolha do comportamento a adoptar. Ora, parece que o estilo adoptado pelo Governo para anunciar o confinamento terá ido pelo caminho da contradição. Senão vejamos: uma semana antes começou a preparar os cidadãos para um novo confinamento que seria mais rigoroso do que o primeiro, para no dia da comunicação ao país enunciar umas boas dezenas de excepções que permitem aos cidadãos – e se conhecemos a nossa habilidade para enganar regras – escolher a maneira de se comportarem. Muitos respiraram de alívio, outros ficaram preocupados e hoje temos uma grande parte da população em pânico. O que se espera de uma liderança é que ela – sobretudo em momentos difíceis - nos transmita mensagens claras ainda que duras, que nos guie, que vá à frente e não que vá atrás com o dedo apontado à nossa irresponsabilidade. Porque somos todos nós que estamos cansados. Uma mensagem clara é percebida por todos os receptores da mesma maneira, não deixa espaço para a dúvida e normalmente reduz o cansaço pela simples razão de que não é necessário repeti-la.   Esperemos que a montanha russa não recomece no carnaval e na Páscoa. Não chegámos aqui por acaso ou por infortúnio, foi por uma sucessão de erros que potenciaram o perigo da pandemia. A situação não era fácil, mas ficou pior quando a vontade de agradar se misturou com a falta de preparação e a falta de coragem de tomar medidas a tempo e horas. 





SEMANADA - Os cinemas portugueses sofreram uma quebra de 75,55 por cento em audiência e receitas no ano passado face a 2019, correspondendo a menos 11,7 milhões de espectadores em sala; O Instituto do Cinema Audiovisual (ICA) indica que em 2020 as salas de cinema tiveram 3,77 milhões de espectadores, quando em 2019 tinham sido emitidos 15,5 milhões; o domínio português na internet, .pt, viu o número de registos crescer 22,9 por cento, fechando o ano de 2020 com mais 96 mil; os eventos cancelados desde que o Governo anunciou a intenção de implementar um novo confinamento geral provocaram perdas superiores a um milhão de euros na facturação das empresas do sector, segundo a Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (APSTE); os casinos físicos portugueses perderam 50% das suas receitas brutas em 2020, tendo fechado o ano com uma faturação de 157,9 milhões de euros, o valor mais baixo dos últimos 23 anos; em 2020 registaram-se em Portugal menos 345 mil voos que no ano anterior, uma quebra de 58%; na primeira semana do confinamento o consumo de televisão não registou subida, ao contrário do que aconteceu em Março; os doentes internados em Lisboa e Vale do Tejo já são mais do dobro do máximo previsto há três meses; o cenário a que assistimos é equivalente a todos os dias cair um avião cheio de portugueses; esta semana Portugal tornou-se o país do mundo com mais casos por milhão de habitantes e o 2º em mortes; “não podemos tomar decisões conforme as pressões” - afirmou António Costa em Bruxelas sobre o reforço das medidas de confinamento.


 


CURIOSIDADES CONTEMPORÂNEAS  - A China foi a única potência mundial a crescer em 2020.


 


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PASSEAR NUM MUSEU -  Galerias fechadas, museus encerrados. O que podemos fazer? - Voltar a explorar as possibilidades de navegar pela internet! A Gulbenkian tem desenvolvido bons recursos no seu site que nos permitem, nestes dias mais difíceis, ter a ilusão de podermos ver e ouvir sem sair de casa. Se forem ao site gulbenkian.pt e seleccionarem a área de Museu e depois museu online poderão descobrir as várias colecções em visitas virtuais que funcionam bem, quer na Colecção do Fundador, quer na Colecção Moderna. Se escolherem as exposições actuais, por exemplo, poderão ver uma visita virtual da exposição de Lalique (na imagem) e também uma visita guiada a esta mostra feita pela curadora que a organizou, Luisa Sampaio. E, já agora vão até ao YouTube e pesquisem por Gulbenkian. Irão dar com o canal da Fundação onde têm numerosos vídeos sobre o museu e as exposições, mas também os registos das gravações das emissões de streaming de diversos espectáculos, como os recentes Concerto do Ano Novo ou Uma Noite na Ópera. Por ali têm muito com que se entreterem. Enquanto não podemos voltar às nossas galerias preferidas, pelo menos podemos explorar o que a internet hoje nos possibilita. E a oferta online da Gulbenkian é boa.


 


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MÚSICA PARA DIAS FRIOS - Há alguns anos que vou seguindo o que a editora musical ECM vai fazendo. Fundada em 1969 em Munique por Manfred Eicher, a ECM abriu a porta primeiro ao jazz europeu, depois a músicos de outras nacionalidades e a outros géneros musicais. De Keith Jarrett a Pat Metheny, passando por Dave Holland, muitos dos melhores músicos gravaram para a editora. Desde 2017 a ECM passou a ter todo o seu catálogo disponível nas plataformas de streaming. É um catálogo cheio de diversidades, de experiências, mas também de discos que hoje são clássicos da música contemporânea. Agora, no início deste ano, a ECM actualizou nas plataformas de streaming, sob a forma de uma playlist, uma colectânea apropriadamente intitulada “Deep Winter”. São três dezenas de temas, mais de duas horas de música criteriosamente escolhida de nomes como John Cage, Jan Garbarek, Meredith Monk, Terje Rypdall, Keith Jarrett, mas também Bach, Bela Bartok. Esta é uma boa oportunidade para descobrir o som da ECM. Se visitarem o site da editora poderão também descobrir a sua actividade mais recente. Eu tenho este “Deep Winter” em modo “repeat” há vários dias. 





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ESPÍRITO ORIENTAL - “A glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga”, lê-se no último parágrafo de “O Marinheiro Que Perdeu As Graças do Mar”. O livro, um dos mais breves e poderosos romances da obra de Yukio Mishima, foi publicado originalmente em 1963, revelando um olhar radical e cru sobre a honra perdida de uma sociedade japonesa transformada pela guerra. Relata os sentimentos de jovens testemunhas de um amor que ultrapassa ventos e marés e que, ao olhar de um adolescente e seus amigos, é sintoma de uma fragilidade humana perigosa e inaceitável. Noburo e seus amigos estão no centro do livro. Quando a mãe de Noburo conhece o marinheiro Ryuji e se envolve com ele, o rapaz fascina-se com as histórias de aventuras no alto-mar, com a coragem e a calma daquele homem, com a solidez do seu corpo. Assim que o marinheiro desilude os ideais fundamentalistas, o grupo de amigos de Noburo monta e põe em marcha um plano de vingança. Yukio Mishima, pseudónimo de Kimitake Hiraoka, nasceu em Tóquio em 1925 e suicidou-se praticando o ritual seppuku, a 25 de novembro de 1970, manifestando assim a sua discordância perante o abandono das tradições japonesas. A sua obra e a sua vida estão enraizadas no tradicionalismo militar e espiritual dos samurais. Bem sei que as livrarias estão fechadas e os livros são considerados por este desgoverno produtos não essenciais. Mas pode sempre utilizar uma das plataformas online para encomendar este magnífico Mishima.


 


SALADA DE INVERNO  - Confinados, resta voltar à cozinha. Já no primeiro confinamento criei uma rotina de imaginar menus, pesquisar na internet, ver o que podia  fazer com ingredientes fáceis de encontrar em supermercado. Cozinhar aliviou-me da tensão do teletrabalho e agora, de novo, é uma pausa que ajuda a descontrair desta ansiedade inevitável causada pela pandemia e pelo agravamento da situação. A proposta que vos deixo esta semana, apesar das temperaturas baixas, é de uma salada caprese, mas esta é especial e quentinha. Comecem por preparar a quantidade de que necessitarem de quinoa branca da forma habitual, e entretanto aqueçam o forno a duzentos graus. Quando a quinoa estiver quase cozinhada misturem um tomate picado, espinafres baby frescos, parmesão ralado e sal e pimenta a gosto. Espalhem a quinoa com estes aditivos numa travessa de ir ao forno e por cima coloquem tomate às rodelas, com duas bolas de queijo mozarella cortado às fatias e reguem com um fio de azeite. Levem tudo ao forno durante cerca de meia hora até o queijo começar a derreter e a ficar levemente tostado. Antes de levar para  a mesa coloquem por cima folhas de manjericão fresco. Bom apetite para esta caprese de inverno.


 


DIXIT - “Ouvindo falar o Primeiro Ministro parece que não foi este Governo que esteve a gerir este processo da pandemia e nos trouxe a um ponto entre a espada e a parede” - Tiago Mayan Gonçalves


 


BACK TO BASICS - “Tem sido dito que o homem é um animal racional e eu tenho passado a minha vida, sem sucesso, à procura de provas que confirmem isto” - Bertrand Russell


 




janeiro 15, 2021

PRESIDENCIAIS: ELEIÇÃO OU REFERENDO?

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PARA QUE SERVEM ESTAS ELEIÇÕES ? - Não sei bem se chame eleições ou referendo ao que se vai passar a partir do próximo Domingo, dia de voto antecipado. Todas as sondagens apontam para uma confirmação de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República - resta saber qual a abstenção e com quantos votos contará o Presidente no final. O risco que corre, se a abstenção for grande, é ficar politicamente fragilizado, o que qualquer Governo não deixará de aproveitar. Marcelo é verdadeiramente o único candidato que corre pela vitória, os outros estão nestas eleições apenas para afirmação dos seus projectos políticos ou pessoais, num exercício de propaganda. Estas eleições, cuja campanha decorre numa situação restritiva devido à pandemia, serão certamente objecto de estudo futuro. Esta é uma campanha sem rua, assente na televisão e nos outros meios de comunicação. Os afectos, agora, são virtuais. E como funcionaram os debates? O que se sabe,para já, é que o acumulado de espectadores que seguiram os debates em todos os canais ultrapassou os seis milhões e meio. O debate mais visto foi o de Marcelo Rebelo de Sousa com André Ventura, transmitido na SIC e SIC Notícias e que ultrapassou os dois milhões de espectadores. O debate com todos os candidatos na RTP1 na noite de terça-feira ficou-se pelos 450 mil espectadores, enquanto na SIC e TVI, no mesmo horário,  uma telenovela e a transmissão do  Benfica-Estrela da Amadora tiveram bem mais que um milhão de espectadores cada. Mas nesta campanha houve surpresas - desde o desempenho de Vitorino Silva (Tino de Rans), que chegou até a corrigir uma pergunta mal feita por Miguel Sousa Tavares, até à forma como Tiago Mayan Gonçalves conseguiu posicionar e explicar o que de facto são as ideias liberais que defende, surpreendendo muita gente e tendo um comportamento elogiado pela maioria dos comentadores. Isto traz-nos à questão dos candidatos. À excepção de Marcelo, que corre para a reeleição, os outros correm para se posicionarem. Não serão presidentes, mas há ideias que merecem aplauso. Para mim as que foram defendidas por Tiago Mayan Gonçalves são aquelas de que me sinto mais próximo e por isso o meu voto irá para ele. Estas eleições também podem servir para mostrar que há alternativas a considerar fora do quadro partidário anquilosado que nos governa. E é isso que farei.





SEMANADA - Dois jornalistas foram vigiados, com recolha de imagens, por uma equipa da PSP ao longo de cerca de dois meses e as contas bancárias de um deles foram passadas a pente fino por ordem de uma procuradora do Ministério Público que os investigava por violação de segredo de justiça; a magistrada pretendia saber quais as fontes dos jornalistas; pela primeira vez, em democracia jornalistas foram vigiados e fotografados pela polícia, as suas mensagens vasculhadas sem cobertura legal, violando o direito ao sigilo profissional, com o sigilo bancário levantado de forma completamente ilegal; estas acções foram ordenadas pela procuradora do Ministério Público Andrea Marques, com conhecimento da Diretora do DIAP de Lisboa, Fernanda Pego; o despacho da procuradora Andrea Marques sobre a vigilância efectuada viola o direito do jornalista à proteção das fontes e ao sigilo profissional, nos termos dos artigos 8º e 11º da Lei nº 64/2007;  as acções ordenadas violam ainda o direito à intimidade e reserva pessoal e o direito de imagem dos visados, podendo configurar a autoria moral do crime de devassa da vida privada, de acordo com o que prescreve o artigo 192 do Código Penal; até à data em que escrevo, quarta-feira, ainda não se conhece nenhum comentário do Primeiro Ministro ou da Ministra da Justiça sobre o assunto; também nenhum dos candidatos à Presidência se manifestou em defesa da lei que protege o sigilo profissional dos jornalistas; o Presidente da República também ainda não disse nada, até à data, sobre este atentado à  liberdade de Informação.


 


ARCO DA VELHA  - Apesar da grande quantidade de testes realizados por famílias antes do Natal e do Ano Novo os casos positivos que foram identificados não tiveram  controlo epidemiológico adequado e a larga maioria dos infectados, 87%, não foi contactada pelas autoridades de saúde para ser feito o habitual rastreio de forma a tentar determinar a cadeia de contágio.


 


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FOTOGRAFIA DE RUA -  Eu hoje tinha uma exposição para recomendar, que tinha a inauguração prevista para este fim de semana. Mas não vai acontecer. A exposição de que falo estava prevista para o Centro Cultural de Cascais, por iniciativa da Fundação D. Luis I. A exposição estava prevista durar até 16 de Maio, esperemos que findo o confinamento ainda a possamos ver. Vale a pena e a história da fotógrafa é fantástica. Vivian Maier era uma ama que nos tempos livres passeava e fotografava as ruas das cidades dos Estados Unidos onde viveu, com uma Rolleiflex, como se pode ver na imagem. Através dos seus retratos de desconhecidos nas ruas dos EUA nas décadas de 1950 e 1980, a maior parte em preto e branco, Maier documentou, registou e interpretou o mundo ao seu redor, na América urbana na segunda metade do século XX. Durante mais de quarenta anos, Maier trabalhou como ama em Chicago. Nos tempos livres, percorreu as ruas daquela cidade e de Nova Iorque fotografando cenas da vida quotidiana, observando pessoas de todas as idades e classes sociais. O resultado dessas excursões fotográficas é uma obra impressionante que compreende mais de 100 mil imagens, descobertas em 2007 quando o historiador John Maloof comprou em leilão o conteúdo abandonado de dois contentores de armazém e se viu na posse de milhares de negativos, diapositivos e fotografias impressas. A exposição “Vivian Maier Street Photographer”, que já está montada no Centro Cultural de Cascais e que poderemos ver daqui a poucas semanas mostra imagens captadas entre 1953 e 1984, na sua maioria a preto e branco. Esperemos então que o confinamento passe…





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SWIFT AMADURECIDA - Poucos meses depois de ter lançado o álbum “Folklore”, Taylor Swift regressa com mais um trabalho fruto da quarentena, do isolamento em que tem estado. Assim de repente, sem aviso prévio, como já tinha feito com “Folklore”, Swift juntou 17 canções  em “Evermore”. Os dois álbuns são quase gémeos, têm uma relação próxima um com o outro. As canções funcionam como short stories que se articulam entre si, mas este “Evermore” é mais variado e ousado em termos de sonoridade do que “Folklore” e também é mais maduro. Há aqui momentos surpreendentes como “No Body, No Crime”, uma balada claramente inspirada no country, que contrasta com o pop de “Gold Rush” ou de “Dorothea” ou, num salto noutra direcção, com a forma como Swift canta em “Closure”, alterando a sua voz com filtros electrónicos. No geral a produção é mais cuidada, como se depois de “ Folklore” ela tivesse decidido limar arestas, melhorar a produção por forma fazer ressaltar as letras que escreveu e as histórias que quis contar. O melhor exemplo disso é “Marjorie”, uma jóia de composição e de escrita, em que Swift se empenha na interpretação de forma especial. Numa outra canção, “Happiness”, gravada apenas uma semana antes de lançar este disco, ela resume o seu estado de espírito:  “I was dancing when the music stopped/And in the disbelief/I can’t face reinvention/I haven’t met the new me yet.” Disponível em streaming.


 


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LIVROS DE COMPANHIA - Gosto de almanaques. Costumo comprar o do Borda d’Água e mais recentemente tornei-me fiel leitor do Almanaque Bertrand. O primeiro Almanaque Bertrand data de 1899 e o que está agora à venda, abrangendo os anos de 2020 e 2021, é o nº 80. São 180 páginas com capa cartonada ao preço de cinco euros. Uma pechincha. A coordenação editorial é de João Pombeiro e aqui há de tudo - recomendações para cuidar do jardim, pequenas histórias, palavras cruzadas, calendários, páginas para tomar notas, efemérides de cada mês, fases da lua, poemas de autores tão diversos como  Ricardo Reis, António Nobre, Cesário Verde, Olavo Bilac, Mário de Sá  Carneiro ou  Natália Correia, textos de Raul Brandão, de Eça de Queiroz, Clarice Lispector ou Machado de Assis, entre outros, diversas informações úteis, a lista dos Domingos de Páscoa até 2060, curiosidades, adivinhas, citações de vários autores, provérbios e passatempos. Este é um daqueles livros que gosto de ter em cima da minha mesa de trabalho para ir folheando à procura de uma ideia, de uma inspiração. E raramente falha. É um belo livro de companhia. Está aqui ao meu lado.





OS SABORES QUE FICAM - Aí vem mais uma época terrível para os restaurantes, o novo confinamento vai ser outra rude machadada. Há dias o responsável de um dos meus restaurantes preferidos dizia-me que agora, quando se estava a recuperar um bocadinho da crise anterior, é que tudo se complicava de novo. Não encaro nenhum dos restaurantes onde vou com maior frequência como um mero local para comer. Claro que pretendo que a comida seja bem confecionada, que me proponham pratos que não sei confeccionar ou não tenho paciência para fazer em casa. Mas sobretudo gosto de um certo ar familiar, que o serviço seja atento sem ser subserviente, que tenha poucas modas, que seja consistente na cozinha e coerente na relação qualidade-preço. Gosto de locais onde revejo clientela habitual, onde tanto se pode conversar tranquilamente como ficar sozinho a petiscar e a observar. Não gosto de alguns sítios recentes, muito em moda, algo artificiais, que mais parecem montras de comensais exibicionistas que outra coisa qualquer. Espero que os meus restaurantes favoritos saiam vivos desta maldita pandemia, que o Duarte continue a guiar bem o Salsa & Coentros, que o Albano continue a garantir os petiscos do Apuradinho, que no Casa Nostra, um sobrevivente do Bairro Alto, a cozinha continue sempre uma boa surpresa e que o Mariano e a restante equipa de sala continuem a criar um ambiente especial, e que na Primavera do Jerónimo os panados da D.Helena permaneçam sem rival. Há mais sítios, mas estes são aqueles de que mais me vou lembrar ao longo deste novo confinamento.





DIXIT - “Na verdade, quem não resistiu a fazer uma oferta natalícia de quatro dias de congelamento do distanciamento social foram os dirigentes políticos e não a pressão das famílias. E são as suas políticas e decisões que devem ser escrutinadas” - Eduardo Dâmaso, Director da Sábado


 


BACK TO BASICS - "Quando a imprensa não fala, o povo é que não fala. Não se cala a imprensa. Cala-se o povo" - William Blake











janeiro 08, 2021

RECORDANDO O TEMPO EM QUE ANTÓNIO COSTA SE DEMITIU DE MINISTRO

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A IMAGEM DO DESGOVERNO - Quando se está numa situação de limitação de direitos, como a que a pandemia está a provocar, é preciso ter redobrado cuidado com a prepotência e o abuso de poder. O Primeiro Ministro tem obrigação de ter isto em conta e o Presidente da República tem o dever de vigiar e exigir a resolução de situações que radicam em incompetência, favorecimento, corruptelas de poder. Em pouco tempo, nas últimas semanas, o Ministério da Administração Interna e Ministério da Justiça mostraram falta de respeito pelos portugueses. Ultrapassaram limites. Os seus responsáveis não deveriam poder continuar nos postos, escudados em demissões de subalternos  e na desculpa de não mexer no Governo durante a Presidência da União Europeia. António Costa foi ministro da justiça em 1999, no XIV Governo Constitucional, chefiado por António Guterres. Demitiu-se de ministro, na sequência da crítica feita ao seu ministério em relação ao inquérito sobre o caso de Camarate onde Sá Carneiro morreu. O autor da crítica foi Ricardo Sá Fernandes, que integrava o mesmo Governo como secretário de estado dos assuntos fiscais, que conhecia bem o processo  e que criticou as conclusões do ministério da justiça. Por isso mesmo António Costa está especialmente bem colocado para saber quando um membro do Governo se deve afastar. Num tempo em que todos sentimos limitações de que não gostamos e que não queremos que se tornem rotina, o Ministro da Administração Interna fechou os olhos a violações intoleráveis dos direitos humanos e a Ministra da Justiça foi portadora de uma mentira para proteger um favorecimento. É isto que queremos preservar para os outros países da União Europeia? É esta a ética republicana que enche a boca dos responsáveis?


 


SEMANADA - A linha pública de apoio ao Brexit só chegou a sete empresas portuguesas e os apoios públicos disponíveis de 50 milhões de euros quase não foram usados; uma sondagem recente indica que dois terços dos portugueses pensam que Eduardo Cabrita não tem condições de se manter no cargo de Ministro da Administração Interna depois dos factos relacionados com a morte de Ihor Homeniuk às mãos do SEF; só três dos 20 projectos do plano Ferrovia 2020 ficaram prontos a tempo e 20% dos 2,1 mil milhões previstos não foram sequer utilizados; o défice de 2020 é o maior dos últimos 17 anos; 40 mil empresas em crise devido à pandemia já pediram apoios a fundo perdido; de janeiro até final de novembro as famílias gastaram mais 692 milhões de euros nos supermercados em resultado da transferência do consumo de fora de casa para o lar durante os períodos de confinamento; cinco funcionários da segurança social vão ser julgados num processo de corrupção relacionado com a atribuição a troco de dinheiro de do número de segurança social a cidadãos estrangeiros; no ano europeu da ferrovia Lisboa não tem comboios internacionais; soube-se esta semana que há cinco anos uma investigadora recebeu queixas de agressões contra um detido no centro de instalação temporária do SEF no Porto e fez a denúncia à direcção daquela polícia, que considerou a informação caluniosa; uma sondagem promovida pela SEDES concluiu que 65,2% dos portugueses gostariam de eleger os seus representantes de forma mais directa; em 2020 os depósitos bancários das famílias alcançaram o maior valor de sempre; o Instituto de Emprego e Formação profissional exige licenciatura a formadores nas áreas de cabeleireiro, esteticista, cozinheiro ou costura; Saudade foi nomeada a palavra do ano num inquérito promovido pela Porto Editora.


 


ARCO DA VELHA  - O Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita,  aceitou que os boletins de voto para as eleições presidenciais incluam o nome de um candidato que não foi admitido pelo Tribunal Constitucional.


 


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O PODER DAS BALADAS - Matt Berninger ganhou fama como fundador e vocalista de uma das bandas mais importantes dos últimos anos, The National. Há poucos meses lançou o seu primeiro disco a solo, “Serpentine Prison”, uma colecção de dez canções exemplares, escritas por si com diversos músicos seus amigos. A produção é de Booker T. Jones, um dos nomes clássicos da música americana, que já trabalhou com nomes tão diversos como Neil Young,  Bill Withers ou Willie Nelson. A interpretação de Berninger é despojada a um ponto pouco usual, deixando à vista a realidade de cada canção e a qualidade musical do trabalho feito, muito dirigido pelo produtor que optou por arranjos simples, deixando terreno abundante para Berninger ocupar com a sua voz. Essencialmente acústico, muitos temas têm uma simplicidade arrebatadora (por exemplo “Oh Dearie"), uma narrativa comovente como “Take Me Out Of Town” e “One More Second” ou revelam uma balada envolvente como “Silver Springs”, onde é acompanhado por Gail Ann Dorsey que trabalhou com David Bowie nalguns dos seus últimos trabalhos. Berninger não tenta replicar a sonoridade da sua banda The National, escolhe um ritmo mais lento, um som muitas vezes intimista e uma simplicidade que alcança um dos seus momentos mais emotivos em “All For Nothing” onde a sua voz e o piano se tornam marcantes. É claramente um dos melhores discos do ano passado - e deixo aqui o meu obrigado a Manuel Soares de Oliveira, o publicitário por trás da Mosca, por mo dar a descobrir. Disponível em streaming.


 


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IMAGENS DESTES TEMPOS  - Cartazes abandonados, marcas de incêndio, territórios devastados, interiores abandonados, vestígios de presenças passadas, obras inacabadas, explorações interrompidas. Ao longo das páginas espalham-se fragmentos de memórias, imagens incompletas, retratos da natureza desleixada, de templos arruinados, de estruturas destruídas. Esta é a síntese das imagens deixadas nas fotografias de Pedro S. Lobo, agora reunidas no livro "Not Yet", com edição em Portugal e no Brasil. Pedro S.Lobo, natural do Rio de Janeiro e que vive em Borba desde 2007, fotografou os grandes incêndios de 2017 e 2018 no centro do país e mais tarde seguiu os efeitos e as marcas que deixaram. Este livro evoca esse tempo e essas marcas, e acaba por ser o álbum de um ano devastador e interrompido como 2020 foi. No texto no final do livro, editado em Portugal pela Sistema Solar/Documenta, o autor esclarece que o seu objectivo é evocar as histórias que aconteceram antes do abandono. Christian Carvalho Cruz refere no mesmo texto que as imagens de Pedro S.Lobo são marcadas pela vida do autor, “vivida com o desespero e a violência de um pássaro que se esfola nas grades da gaiola”. Alexandre Pomar, graças a quem descobri este livro, escreveu no Facebook que “é inevitável associarmos a gravidade do percurso através das páginas ao peso opressivo deste ano ameaçador, mas as fotografias do Pedro Lobo não  ilustram a epidemia, as suas séries já lhe pertenciam, são algumas das  suas linhas de trabalho, entre outras, umas mais conceptuais (com  escritas), mais despertas para a surpresa e o humor (o insólito), mais  gráficas ou construídas (malhas, estruturas), mais documentais (...) sempre a atenção ao  património habitado, mesmo que património instável e desvalorizado.”


 


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A FORÇA DA ESCULTURA -  Começo o ano por mostrar uma peça que só pode ser vista em Stampa, na Suiça, nos jardins do edifício da fundação criada para preservar a obra do escultor Alberto Giacometti. A peça, em ferro, de grandes dimensões, foi criada pelo artista português Rui Chafes, a convite daquela  fundação. Intitulada "Occhi Che Non Dormono" ("Sleepless Eyes" ou "Olhos que Não Dormem"), a peça foi instalada  em finais de Novembro frente à casa onde o artista suíço viveu numa plataforma de madeira sobre o rio Maira. A obra já está colocada, mas só será formalmente inaugurada no dia 4 de Abril. Em 2018, na delegação francesa da Fundação Gulbenkian, e por iniciativa de Helena Freitas, foi mostrada a exposição “Gris, Vide, Gris” que juntava obras de Giacometti e de Chafes. Essa mostra reunia sete esculturas de Rui Chafes, seis concebidas para o projeto, e 11 esculturas e quatro desenhos de Giacometti, entre as quais "Le Nez". Vem dessa altura a ideia de assinalar a ligação entre a obra de Chafes e de Giacometti, na casa onde este viveu. “O olhar aspira ao infinito para além do rio Maira e das encostas da montanha e os olhos percebem, vêem e redesenham a relação com a paisagem e o invisível” - afirma Virginia Marano, curadora da instalação. Outros destaques já que estamos a falar de escultura - em Serralves até Junho está a exposição “Deslaçar Um Tormento” que exibe trabalhos de Louise Bourgeois. E em Lisboa, no Museu Berardo, Cristina Ataíde mostra a diversidade do seu trabalho em “Dar Corpo Ao Vazio”.



COMIDA INVERNAL -  Nos dias frios há que saber escolher refeições quentes, mais demoradas, aquilo a que se chama cozinha de conforto, que nos satisfaz e aquece a alma. Um dos pratos que melhor se encaixa nesta categoria é o clássico salsichas frescas enroladas em couve lombarda. Não é fácil de encontrar nos restaurantes lisboetas e é menos simples de fazer do que aquilo que se pensa. Em primeiro lugar as salsichas têm que ser mesmo muito frescas e da melhor qualidade - o que de si já não é a coisa mais simples do mundo. Depois, a couve lombarda tem que ser macia. É necessário tempo ao lume, cuidado com o tempero e o molho. Eu julgava que a receita era essencialmente portuguesa, mas descobri por estes dias  que faz parte das receitas da semana do Cooking do New York Times. Há muitas receitas na internet, mas se quiserem experimentar a sério podem tentar se no Apuradinho está disponível por estes dias - Rua de Campolide 209, tel 213 880 501.


 


DIXIT - “Corremos o risco de o Governo Costa ficar na história pela supina banalização da irresponsabilidade política” - Paulo Rangel


 


BACK TO BASICS - “Qualquer idiota é capaz de criar algo complexo. Para fazer coisas simples é preciso génio” - Pete Seeger


 





dezembro 31, 2020

QUE PORTUGAL É ESTE QUE NÃO CONSEGUE FUGIR À CAUDA DA EUROPA?

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PENSAR PORTUGAL -  Para além da espuma dos dias, escolho estes excertos da mais importante intervenção política feita em Portugal neste ano que agora acaba. Falo da intervenção de Pedro Passos Coelho numa conferência sobre a importância de Alfredo da Silva. O seu discurso foi muito para além das questões conjunturais do SEF ou da TAP que chamaram a atenção dos noticiários. Escolhi estes excertos, editados, que são, creio, um enquadramento perfeito da situação de Portugal. Aqui fica, para memória futura:


“Agora que já não há nem o rei nem a monarquia para culpar pelas nossas desgraças, agora que também já não há as ditaduras nem a sociedade fechada e pequenina que nos limitava, agora está na hora de olharmos para nós próprios e fazermos o que tem de ser feito enquanto vamos a tempo de alterar as coisas como pretendemos, para que nem tenhamos de voltar a passar por experiências tão traumáticas como as que vivemos após a grande crise de 2010, nem estejamos condenados a uma desqualificação paulatina dos nossos sonhos e aspirações de poder viver uma sociedade verdadeiramente mais democrática e com mais justiça.“


“Aproximámo-nos significativamente, em termos reais, da média europeia na primeira meia dúzia de anos da integração quando éramos apenas 15 países. Mas conseguimos singularmente regredir à medida que países mais pobres e menos desenvolvidos que nós se integraram na União Europeia. Poderá dizer-se que regredimos mais nos anos de crises que tivemos de enfrentar, o que é verdade. Mas isso esquece que os outros também enfrentaram as crises e que a média europeia reflete esse desempenho de todos, pelo que se nos afastámos mais dos outros durante as crises, foi porque a nossa vulnerabilidade estrutural nos impõe nas crises prejuízos maiores do que aos outros.”  


“Não será, finalmente, conveniente perguntarmo-nos: que Portugal é este que não consegue fugir à cauda da Europa quando praticamente todos os outros conseguem? A resposta terá de ser dada por nós próprios. Olhando para dentro da sociedade portuguesa e mudando o que é preciso. Mudar nas estruturas públicas e privadas. Conseguir, se assim o desejarmos, implantar regras estáveis e confiáveis. Responsabilizar a sociedade civil e o Estado e cultivar um exemplo de salvaguarda e de separação de interesses que possa incutir o desenvolvimento do capital social e da confiança.“


 


SEMANADA - Segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos em Portugal, 6% da população não tinha, no ano passado, capacidade para pagar as despesas do dia-a-dia ou para liquidar a tempo rendas e outros encargos; outros 19% não tinham dinheiro para aquecer as suas casas; a despesa do Estado em educação, em termos de percentagem do PIB, está a cair desde 2016; a despesa do estado na saúde, em percentagem do PIB, caíu em 2016, 2017 e 2018 e só recuperou um pouco em 2019; a receita fiscal entre 2015 e 2019, em impostos directos e indirectos, aumentou cerca de 20%; no mesmo período a despesa corrente do Estado em percentagem do PIB caíu cerca de 10%; o défice público do último trimestre deste ano, medido em proporção do produto interno bruto (PIB), deverá registar o segundo valor mais alto, logo atrás do obtido por Sócrates em final de 2010; Marcelo Rebelo de Sousa prevê gastar 25 mil euros na sua campanha eleitoral para as presidenciais, Ana Gomes admitiu que gastará o dobro, o PCP prevê 450 mil euros, André Ventura 160 mil, Tino de Rans aponta para 16 mil, Tiago Mayan prevê 40 mil e Marisa Matias 256 mil; a provedora de justiça revelou na Assembleia da República que só agora foram acatadas recomendações dadas desde 2018 sobre a actuação do SEF no Aeroporto de Lisboa; os médicos do sector privado da saúde que tratam doentes Covid não foram incluídos na primeira vaga de vacinados.


 


LA PALISSADE DA SEMANA - “O jornalista de televisão que foi o provedor constata que nestas eleições presidenciais as entrevistas políticas televisivas ganham um relevo particular” - José Manuel Barata Feyo.  


 


FRASE DA SEMANA - “É uma enorme carga burocrática. Trouxe um pequeno bosque de árvores abatidas para entregar ao Estado informação que já tem” - Tiago Mayan Gonçalves, ao entregar no Tribunal Constitucional a sua candidatura presidencial, pela Iniciativa Liberal.


 


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FOTOGRAFIAS NA RUA - O lugar da fotografia é na rua? Pode ser. As imagens de Sebastião Salgado, no seu trabalho “Génesis”, estão junto do Arco da Rua Augusta. São 38 fotografias. Até 14 de Janeiro pode ser vista esta exposição organizada pela Fundação La Caixa”. Sebastião Salgado, 76 anos,é economista de formação e apaixonou-se cedo pela fotografia. Recusou uma oferta de trabalho do Banco Mundial para se dedicar à fotografia e tem feito trabalhos notáveis sobre o meio ambiente e a natureza humana. As imagens são a preto e branco, como é habitual no trabalho de Salgado. Outras recomendações: no Porto, na Galeria Sput&Nick The Window (Rua do Bonjardim 1340), a dupla de artistas Daniel Moreira e Rita Castro Neves apresenta uma exposição sobre o tema do cortelho – uma pequena construção em pedra de granito, abrigo em forma de iglu, característico da paisagem rural do noroeste português. A exposição “O Cortelho” estará patente até 30 de janeiro. Na NO-No, em Lisboa, Ana Pérez-Quiroga apresenta até 9 de Janeiro a exposição “De Que Casa Eres? Episódios de un cotidiano” . Em Faro, no Museu Municipal, até 17 de Janeiro estão expostos trabalhos de Xana, António Olaio e Tiago Batista sob a designação genérica “O Lápis Mágico”.


 


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O PIANO - Soube-se em 2020 que o pianista Keith Jarrett, 75 anos, decidiu, por motivos de saúde, não voltar a realizar concertos. No início da sua carreira, nos anos 60,  tocou com os Jazz Messengers de Art Blakey, mas foi como pianista no grupo de Miles Davis, nos anos 70, que ganhou rapidamente fama. Ao longo da carreira tocou também com músicos como Charlie Haden, Paul Motian ou Freddie Hubbard, entre outros. Ao longo da sua extensa discografia destacam-se as gravações efectuadas ao vivo, nomeadamente o histórico “The Koln Concert”, de 1975, que impôs o seu estilo e a sua sonoridade e o tornou uma figura incontornável da história do jazz. Ao decidir parar com as suas actuações públicas Keith Jarrett anunciou um novo disco, gravado ao vivo, em 2016,  na capital húngara. Jarrett afirma que The Budapest Concert é o melhor de todos os seus registos gravados ao vivo, superando outro disco do mesmo ano, de um recital em Munique, e defende mesmo que a gravação de Budapeste é melhor que o Koln Concert. Todas as gravações ao vivo de Jarrett baseiam-se na improvisação o que torna cada concerto diferente do outro. Aqui, neste novo disco duplo lançado há poucos meses, há 12 partes, como ele gosta de classificar os temas nas notas dos discos. Cada uma destas partes surge como um momento musical autónomo mas todos eles estão relacionados entre si, do mais curto de cerca de três minutos, ao mais longo que excede os 15. Apenas uma das partes, a última, recebe um título - “Blues”, um surpreendente boogie-wooggie que assim deixa no ar um Jarrett mais raro e solto. No final há ainda o registo dos dois encores, “It’s A Lonesome Town” e "Answer Me”. Duplo CD ECM, disponível em streaming no Spotify.


 


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O CADERNO DE CARTIER-BRESSON - Todos os anos ofereço a mim mesmo uma prenda. Este ano foi uma magnífica edição feita pela Thames & Hudson de “Scrapbook”, de Henri Cartier Bresson, publicado pela primeira vez em 2006. A história do livro é ela própria um episódio. Em 1946, aos 38 anos, Cartier-Bresson viajou de barco para Nova Iorque, na sequência de um convite para expôr no MoMa, The Museum Of Modern Art, que na altura começou a mostrar fotografia. Na mala levava 300 fotografias, impressas em pequeno formato. Na chegada a Nova Iorque comprou um livro de apontamentos, colou nas suas páginas todas essas imagens e levou-o aos curadores do MoMa para que eles pudessem ter uma melhor ideia do seu trabalho. Todas as  fotografias desse caderno, que foi reproduzido pela primeira vez na edição da Thames & Hudson, foram originalmente feitas entre 1932 e 1946. Martine Franck, sua viúva e Presidente da Fundação Henri Cartier-Bresson, que morreu em 2012,  contou que o original deste caderno de apontamentos estava numa velha mala escondida no meio de uma estante da casa onde viviam. De vez em quando, recorda nas notas iniciais do livro, o fotógrafo dizia -lhe que este era o seu mais precioso objecto, a par do álbum que tinha preparado para o realizador Jean Renoir, na esperança de poder fotografar a filmagem de uma das suas obras, como veio a acontecer aliás..  Agnès Sire, Diretora da Fundação Cartier-Bresson  conta as histórias à volta deste Scrapbook, numa introdução que reproduz páginas da agenda de Bresson, documentos oficiais, imagens de família, a troca de correspondência com David “Chim” Seymour o obreiro desta exposição em Nova Iorque.  A maior dificuldade da exposição no MoMa,  no pós guerra, era a falta de papel fotográfico para garantir boas impressões das imagens. Inicialmente a exposição estava pensada para 75 fotos e no fim acabou por mostrar 163  em ampliações de 30x40 e 40x50. Foi também feita uma versão mais reduzida, de 100 imagens, que o MoMa levou em digressão por várias cidades americanas. Esta edição do “Scrapbook” inclui, ao longo de 260 páginas, não só reproduções das páginas originais, mas também diversos textos de enquadramento  histórico, e informações que ajudam o compreender o processo criativo e o método de selecção de Henri Cartier-Bresson para a exposição que o lançou definitivamente como um nome incontornável da fotografia do século XX.


 


DIXIT - “Só com instituições mais fortes venceremos. Golpes de sorte e de génio, habilidades e invenções de nada servirão. Instituições e liberdade, sim” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “Por melhor que uma estratégia possa parecer, convém olhar para os seus resultados” - Winston Churchill


 




dezembro 23, 2020

PALPITES PARA 21, UM INESPERADO DISCO, UM BELO POLICIAL, A FOTOGRAFIA EM COIMBRA E UM DOCINHO

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2021 - Daqui a uns dias começa um novo ciclo eleitoral. Teremos as eleições presidenciais daqui a um mês - a 24 de Janeiro. Estas são eleições muito peculiares - não entre escolher candidatos mas referendar um estilo de viver e assumir a Presidência. Marcelo mudou a forma sem mudar as regras, surpreendeu muitas vezes, abusou do sentimento, tornou-se o primeiro Presidente da República da era dos smartphones - sem selfies o seu mandato teria sido diferente na forma de se relacionar com as pessoas. As sondagens dão-lhe grande distância sobre os outros candidatos mas estas eleições têm uma particularidade - são as primeiras em tempo de pandemia, vão decorrer com constrangimentos de movimento e de acção. Marcelo já tinha feito na sua anterior eleição uma campanha austera, vai agora ser ainda mais rigoroso. Os outros candidatos vão ser comparados com ele se saírem da linha. Se houvesse um rival a sério seria interessante ver como se desenrolariam as candidaturas que disputassem a vitória. Assim, trata-se apenas de referendar um estilo que poupou a António Costa muitas dores de cabeça.Verdade seja dita que oposição é coisa que não existe, está desaparecida em combate há uns tempos e não se vê que a curto prazo a possa assumir. Mas o ano eleitoral vai também trazer, lá mais para o Outono, as eleições autárquicas e aí as guerras vão ser ferozes. A ver vamos como a pandemia evolui e como poderão então ser as campanhas eleitorais. Mas é certo que provavelmente muitas câmaras mudarão de titular, é provável que o Chega venha a governar alguns concelhos e a grande incógnita será saber o que acontece em Lisboa e no Porto. Em Lisboa Medina, apesar da péssima gestão que fez da cidade, pode vir a ganhar por falta de adversário credível. E, no Porto, Rui Moreira está debaixo de fogo. O resultado das autárquicas poderá ter influência no evoluir da geringonça - e essa é uma das dúvidas que só esclareceremos lá para o fim de 2021. Em havendo saúde, vai ser um ano animado.


 


SEMANADA - O Sindicato do SEF criticou a nomeação de um militar para dirigir o serviço argumentando que aquele organismo tinha “30 anos do mais civilista serviço de imigração da Europa”; o mesmo Sindicato ainda não se pronunciou sobre as denúncias de práticas sistemáticas e repetidas de violação dos direitos humanos por agentes da instituição, nomeadamente no aeroporto de Lisboa; a Ordem dos Advogados denunciou à Provedoria de Justiça graves atropelos do SEF na regularização de imigrantes; o número de casais com ambos os elementos inscritos nos centros de emprego aumentou 15,9% em Novembro face ao mesmo mês do ano passado; há 166 hotéis à venda devido às quebras verificadas no sector do turismo; o médico que denunciou o homicídio do cidadão ucraniano pelo SEF no aeroporto foi despedido do Instituto de Medicina Legal; Portugal é dos países europeus com maior fatia do crédito sob regime de moratória, 23%; o Banco Alimentar Contra a Fome recebe mais de 50 pedidos de ajuda por dia; um relatório da OCDE indica que se ignora o número exacto de médicos que trabalham em Portugal, existem apenas estimativas; Quase 30% dos alunos de 11, 13 e 15 anos não gostam da escola e a segunda coisa de que menos gostam é das aulas (35%) e 85% dos inquiridos considera a matéria aborrecida; um terço dos portugueses já teve apoios sociais por causa da pandemia; em dez anos as escolas do básico e secundário perderam mais de 370 mil alunos; 


 


ARCO DA VELHA  - Esta semana surgiram mais relatos de agressões feitas por agentes do SEF no aeroporto antes e depois do assassinato de Ihor Homeniuk  e a Inspecção Geral da Administração Interna admitiu ter encontrado práticas desumanas e ilegalidades no funcionamento daquela força policial.


 


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OS GRANDES ENCONTROS  - “Coimbra - A Cidade e as Sombras” é o título da exposição que assinala os 40 anos dos Encontros de Fotografia ali iniciados em 1980 por iniciativa de Albano da Silva Pereira. Ao longo dos anos a organização dos Encontros apostou, na época de forma pioneira, na divulgação da fotografia, acompanhando o seu entendimento e evolução ao longo destas quatro décadas. Os Encontros trouxeram a Portugal nomes importantes da história da fotografia mas também realizaram encomendas específicas que permitiram criar um novo olhar sobre Coimbra e sobre outras regiões. Até 27 de Fevereiro será possível ver obras de nomes como António Júlio Duarte (na imagem), Bernard Plossu, Augusto Brázio, Inês Gonçalves, Paulo Nozolino ou George Krause e também artistas plásticos como Rui Chafes, ou Paulo Brighenti, entre outros. A exposição distribui-se por três núcleos intitulados “Coimbra”, “Ao Espelho da Sereia” e “Coração da Ciência”, apresentando uma retrospectiva de três projetos que fazem parte da história dos Encontros de Fotografia, resultado de uma seleção de obras pertencentes à coleção do CAV, feita por Albano Silva Pereira. Outros destaques: em Braga, na Zet Gallery, João Louro apresenta About Today, uma seleção de cerca de dezena e meia de trabalhos, produzidos entre 1995 e 2019, na sua generalidade de exibição inédita; e em Lisboa, o Círculo Eça de Queiroz apresenta obras da sua colecção na sua maior parte formada durante os anos em que António Ferro dirigia o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) e patrocinou o Segundo Modernismo Português. Ali estão trabalhos de Canto da Maia, Bernardo Marques, Leopoldo de Almeida, Júlio de Sousa, Estrela Faria e Paulo Ferreira - artistas ligados às Exposições de Arte Moderna do SPN, às grandes feiras internacionais de Paris e Nova Iorque e à Exposição do Mundo Português.


 


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UM DISCO LUSO-CANADIANO - Lucy Hocking é uma jornalista neo-zelandesa que vive em Londres e trabalha para a BBC. Era a entrevistada da newsletter da Monocle de sábado passado, uma das minhas leituras de fim de semana. A entrevista segue um modelo onde se pergunta que revistas lê, que noticiários ouve, que livros está a folhear e que música ouve. A resposta de Lucy deixou-me curioso - um disco de um grupo chamado Mira Pardelha, que ela caracteriza como Luso-Canadiano e que integra o seu próprio marido, debaixo da parte que leva a bandeira do Canadá. O disco chama-se “About Land, fui ouvi-lo no Spotify. O álbum foi criado entre Lisboa e Londres por um colectivo de músicos portugueses e canadianos, Mira Pardelha, que existe desde 1998. Nesse ano os músicos canadianos Jason Breckenridge e Ian Brimacombe partilhavam habitação em Lisboa e foram entrando na tradição musical da cidade e do país com o apoio de vários portugueses. Agora, duas décadas depois da ideia original, Breckenridge e Brimacombe revisitaram as suas memórias lisboetas e fizeram finalmente um disco,  com o auxílio de músicos locais, entre as quais a vocalista Benedita Barbosa e de mais alguns músicos que vivem em Londres. O disco tem raízes na música folk do Canadá, mas tem fortes influências portuguesas como se comprova em temas como “Rosa dos Ventos” ou “Entre O Céu E O Chão”. Trata-se de um pop elaborado, com dez temas onde se faz também ouvir a influência de sonoridades brasileiras, como em “For Prester John” onde se sente que alguém andou a ouvir os Mutantes. É curioso ouvir como músicos de outras nacionalidades constroem canções cantadas em português e como a voz de Benedita Barbosa é surpreendente. O Spotify serve para isto - descobrir o que não se conhece.


 


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CRIME & CASTIGO  - Tenho uma queda por policiais. Isso e livros sobre História. Mas reconheço que os policiais são uma coisa à parte. Fui alimentado a livros da colecção Vampiro durante a adolescência e a coisa deixou marcas profundas. Um dos grandes policiais editados este ano em Portugal é  “Terra Alta”, o livro de Javier Cercas que venceu o Prémio Planeta em 2019. Pode alguém querer fazer justiça? A vingança é legítima? Estas são as questões de fundo que lançam a narrativa do livro, marcada por personagens fortes. O livro conta a epopeia de um homem em busca do seu lugar no mundo. “Terra Alta” conta como  um crime terrível abala a pacata comarca que lhe serve de título: os donos da sua maior empresa aparecem barbaramente assassinados. Quem toma conta do caso é Melchor Marín, leitor compulsivo e jovem polícia que chegou de Barcelona quatro anos antes. Sobre os ombros carrega um passado obscuro que o converteu numa lenda junto das forças policiais, mas que ele acredita ter enterrado sob uma vida feliz como marido da bibliotecária da povoação e pai de uma menina chamada Cosette, tal como a filha de Jean Valjean, o protagonista de “Os Miseráveis”, o seu livro preferido. Nascido na região de Cáceres, Javier Cercas, 58 anos,  está traduzido em mais de 30 línguas e ganhou vários prémios ao longo da carreira. Na sua escrita surge sempre a evocação de um imperativo moral que cria heróis improváveis e “Terra Alta” é um bom exemplo disso mesmo. Aproveitem estes dias e os confinamentos e divirtam-se com a investigação deste crime.





O BOLO DE TODAS AS ESTAÇÕES - Imagino que pudessem estar à espera que me colocasse na guerra dos Bolos Rei. É um debate curioso: Bolo Rei ou essa modernice chamada Bolo Rainha? Por este andar proíbem o sexo no nome dos bolos, digo-vos eu. Não pensem que vou falar do clássico Bolo da Confeitaria Nacional, nem tão pouco do moderno Bolo da Gleba. Também não falarei de sonhos, nem de filhoses. Mas em contrapartida vou falar de um bolo de todo o ano que, na  minha modesta opinião, tem o seu expoente máximo na Pastelaria Versailles, ao Saldanha. Trata-se do caracol, indiferente às questões de género e sem se preocupar com a extinção das frutas cristalizadas, que é o pecado original do Bolo Rainha. Sempre achei que existem pontos de contacto na textura da massa e no seu recheio, entre o caracol da Versailles e o Bolo Rei. O caracol, a acompanhar uma chávena de bom café, é dos melhores começos de dia que se pode imaginar. Bate os donuts imperialistas aos pontos e deixa os maneirismos dos croissants a boa distância. O seu único rival, e mesmo assim tem dias, é o bolo de arroz. Mas eu por mim, prefiro o caracol, disponível todo o ano e sempre o da Versailles.


 


DIXIT - “O mandato e a legislatura resultaram porque ambos precisavam vitalmente um do outro, Marcelo e Costa, Presidente e Governo. Nunca se tinha ido tão longe no entendimento.” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - Os políticos e as fraldas devem ser mudados pela mesma razão - Eça de Queiroz.


 




dezembro 18, 2020

CADA VEZ MAIS; TUDO ENTRE COMPINCHAS...

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O CÍRCULO FECHADO - O novo chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, foi o mais destacado assessor económico de José Sócrates e o seu homem forte para os negócios com a Venezuela durante os seis anos de Governo socrático. Após 2011 os contactos entre Escária e Sócrates continuaram até que o ex-Primeiro Ministro foi detido em 2014. Escária esteve também sempre próximo do actual Primeiro Ministro mesmo depois de, em 2017, se ter demitido de assessor económico de Costa quando foi envolvido no caso das ofertas de viagens pela GALP ao Euro 2016. Mais recentemente esteve envolvido nas negociações entre Costa e o polémico primeiro-ministro húngaro,Viktor Órban. Antes, recordo, também fomentou boas relações com o sinistro regime venezuelano. É pois um rapaz que gosta de relações escaldantes. Num recente artigo João Miguel Tavares escreveu: “onde há negócios, dinheiro e diplomacia económica, aí está Vítor Escária. Sempre foi assim e, pelos vistos, continua a ser, e de um modo que não poderia ser mais assumido – ao colocar Escária como seu chefe de gabinete, António Costa está a pôr os negócios e o dinheiro (neste caso, a enxurrada de fundos europeus) no centro do seu governo.” Esta nomeação e outras ocorridas recentemente mostram que o Primeiro Ministro começa a ter falta de capacidade - ou talvez de vontade - em ir buscar caras descomprometidas. O executivo é cada vez mais um prolongamento do núcleo duro do aparelho do PS. Na realidade um quarto dos membros do actual Governo já foi chefe de gabinete em algum executivo socialista. Que resultado tem isto nas nossas vidas? - a balbúrdia criada pela incapacidade do Ministro Eduardo Cabrita no caso do SEF e a cobertura que lhe foi dada por António Costa e por Santos Silva mostram onde o círculo fechado e a protecção dos incondicionais pode levar. Quem acha que o resultado é bom?





SEMANADA - O PS  chumbou um projecto-lei, proposto já depois do assassinato de Ihor Momenyuk, onde era exigido que a audiência aos estrangeiros para a recusa de entrada em Portugal só pudesse ser feita na presença de um advogado; Portugal continua a ser um dos países europeus em que maior número de pessoas declara não ter capacidade para manter a sua casa aquecida de forma adequada; uma sondagem recente indica que apenas 61% dos portugueses estao dispostos a receber a vacina contra Covid-19 de imediato e 19% adiarão a decisão e 8% afirmam não querer ser vacinados; segundo a Marktest os canais de TV emitiram em Novembro, pela primeira vez desde Março de 2019, mais publicidade do que em igual mês do ano passado; num relatório apresentado há cerca de um ano o Comité Contra a Tortura da ONU manifestava preocupações sobre o respeito pelos direitos huamnos em instalações do SEF; uma sondagem divulgada esta semana indica que Marcelo é o candidato presidencial preferido até entre eleitores do Bloco de Esquerda; o custo suportado pelo Estado para segurar bancos em Portugal ascendeu a cerca de 21 mil milhões de euros entre 2018 e 2019; sete em cada dez portugueses estão muito pessimistas quanto aos efeitos da pandemia na economia nacional; um estudo da Universidade Católica indica que a pandemia reduziu os rendimentos a um quarto dos inquiridos; os portugueses têm hoje menos poder de compra do que em 2010; prevê-se que neste mês de Natal sejam vendidas em Portugal cinco toneladas de bacalhau.


 


ARCO DA VELHA  - O presidente do sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do SEF criticou o Presidente da República por este ter defendido a necessidade da reestruturação daquela polícia.


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UM PORTUGUÊS EM MÁLAGA - Até 14 de Março de 2021 o Centro de Arte Contemporânea de Málaga acolhe cerca de 250 obras de Pedro Cabrita Reis que mostram a evolução da obra do artista português ao longo da sua carreira. “Cabrita - Cabinet d’Amateur” é uma instalação em que as obras cobrem as paredes da área da exposição, a zona central do Centro, de cima abaixo, de forma aparentemente aleatória - escreve o “la Vanguardia”, que salienta que o nome a e a forma da mostra têm a ver com o espírito coleccionista do artista(na imagem). Aliás a maior parte das obras pertence à colecção pessoal de Cabrita, à excepção de um pequeno número proveniente de colecções particulares. Ainda segundo o La Vanguardia cerca de uma centena de obras foram feitas entre 2019 e 2020. Comissariada por Helena Juncosa, a exposição mostra pintura, desenho, fotografia, escultura mas também  instalações compostas por objectos diversos. Outras sugestões: em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, Pedro Calhau apresenta até final de Janeiro a exposição “Do Inesgotável”, com trabalhos de gravura, fotografia, desenho, instalação e texto. E já que estamos em época invernal o Museu da Farmácia , em Lisboa, junto ao Chiado,  apresenta “Vintage PUB – a memória das farmácias” , a nova exposição que ali reúne diversos anúncios da década de 1960, desde cartazes de Melhoral até rebuçados para a tosse.


 


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O DUETO  - A relação entre a cantora Maria João e o pianista Mário Laginha vem de longe. Ambos trabalharam juntos em diversos projectos, desde o inicial quinteto de Maria João, até que em 1994 se concretizou com o álbum “Danças” o início do dueto que se afirmou ao longo dos anos em mais de uma dezena de trabalhos e discos. Na realidade, desde o início, a relação entre ambos foi de uma complementaridade musical invulgar feita de uma cumplicidade crescente entre a forma muito própria de interpretação vocal de Maria João e a capacidade de adaptação do piano de Mário Laginha à voz em canções de muitos e diferentes géneros. O “Best Of Maria João & Mário Laginha”, agora editado, mostra isso mesmo em 14 temas gravados em tempos muito diversos, entre 1996 e 2012. Aqui estão originais dos dois artistas, como a faixa inicial “Cair do Céu”, mas também interpretações de clássicos como “Black Bird” de Lennon & McCartney ou “Beatriz”, de Edu Lobo e Chico Buarque. E, claro, há diversas participações, como as dos brasileiros  Gilberto Gil em “Um Amor”, e Lenine em “Flor”. Edição Universal disponível em CD e streaming.


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OLHAR PARA A HISTÓRIA  - “A minha visão da História humana, da História-vivida é contemplativa. Requer um olhar atento, global, pacífico, não interventivo” - assim define José Mattoso o seu processo de trabalho. “A História Contemplativa” é precisamente o nome do seu livro, agora editado, que reúne palestras, ensaios e artigos surgidos entre 1996 e 2013, que abordam temas tão diversos como as relações entre mouros e cristãos na Península Ibérica do século XI, as particularidades da religiosidade dos alentejanos, os contactos do Portugal recém-nascido com o mundo ou a importância dos lugares e monumentos portugueses classificados como património mundial pela Unesco. A abrir o livro está um ensaio inédito, escrito expressamente para esta edição, que pode ser visto como uma súmula do pensamento de José Mattoso, um dos maiores historiadores portugueses, actualmente com 87 anos. São suas estas palavras: «A história como disciplina confunde-se com a técnica historiográfica: tem métodos, exige a crítica, o rigor e a quantificação; demonstra factos e constrói narrativas; propõe hipóteses e interpreta documentos. É uma das Ciências Humanas. Mas a História é também uma Arte, porque busca a compreensão do sentido que os atos humanos adquirem por serem praticados no Tempo. Na primeira acepção, a História demonstra a veracidade dos factos, e descobre o seu encadeamento. Na segunda, considera-os como manifestação da condição humana, ou seja, como resultado da inserção do Homem no Tempo. Enquanto Ciência, utiliza a análise; enquanto Arte, além de formular sínteses que a aproxima da totalidade, apercebe-se da beleza do Ser revelado pela contemplação.» Edição Círculo de Leitores, Temas & Debates.


 


PETISCO APURADINHO -  Sopa de rabo de boi é uma coisa tão comum que até há sopas instantâneas com a receita. Mas nada se compara ao sabor da carne do rabo de boi, uma iguaria infelizmente ainda pouco conhecida e que não se encontra em todo o lado. Dizem os entendidos que a origem do petisco é espanhola, mas em Portugal foi no Ribatejo que o petisco se aprimorou. O rabo de boi deve ser cortado aos pedaços, pelas articulações, que depois de bem cozinhados num lento estufado com alho francês, cenoura, louro, cravinho e um pouco de vinho fazem maravilhas. A carne vai-se separando dos ossos e cartilagens e fica com um sabor magnífico. É verdadeiramente um petisco que requer paciência, tempo e trabalho. O seu acompanhamento ideal é um puré de batata natural - nada de instantâneos. A combinação do estufado com o puré que se vai embebendo no molho, já no prato, é verdadeiramente arrebatadora. Eu gosto de salpicar o puré com pimenta preta moída na altura.  Esta pequena maravilha foi-me apresentada pela primeira vez, há uns anos, n’ O Apuradinho (Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501). E esta semana lá voltei a encontrar a iguaria, num almoço tardio ao fim de uma manhã de afazeres. Soube-me mesmo bem. 


 


DIXIT - “Ao fim destes anos todos de apoio maciço de fundos estruturais, Portugal é ainda um país atrasado” que deve aplicar o dinheiro “de uma forma radicalmente diferente da reprodução do passado" - Elisa Ferreira, Comissária Europeia com a pasta do financiamento comunitário. 


 


BACK TO BASICS - “Às vezes, as nossas acções são perguntas e não respostas“ - John Le Carré