dezembro 11, 2020

PODE UM MINISTRO SER CONIVENTE COM O SILÊNCIO?

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A ENCOBRIDORA - Nove meses. É este o tempo que decorreu entre o assassinato de um ucraniano por agentes do SEF no aeroporto de Lisboa e o pedido de demissão finalmente apresentado pela Diretora desses serviços. Durante meses Cristina Gatões assobiou para o ar como se nada fosse. Na realidade, encobriu. De início a investigação foi branda e relendo as notícias relativas ao crime a ideia é que a cúpula do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras quis evitar que se falasse ou investigasse a fundo o assunto. O Ministro da Administração Interna objectivamente ouviu os assobios e ficou-se quedo e mudo. Esta semana aceitou piedosamente o tardio pedido de demissão da senhora. Fica-se na dúvida se o silêncio da senhora foi voluntário ou se foi ordenado. Não é muito normal ver um Ministro conivente com a ocultação dos factos. Será interessante ver qual vai ser o próximo posto desta diligente funcionária do Estado, uma jurista que fez toda a carreira no SEF. Cristina Gatões demorou nove meses a reconhecer o sucedido que classificou modestamente de actos de tortura. Custa acreditar que os outros membros da Direcção Nacional do SEF, que continuam em funções, não soubessem do sucedido. Não falaram, não se indignaram mas o Ministro Cabrita atribuíu-lhes agora a responsabilidade da reestruturação futura dos serviços. Seria bom saber porque porque foram eles também coniventes no silêncio - também receberam ordens para se calarem?  Recentemente o SEF anunciou que face ao sucedido seria instalado um botão de pânico nas instalações para que eventuais agredidos pudessem reagir. Podia ser anedota se não fosse macabro. O botão de pânico dá ideia do género de reestruturação que povoa estas mentes. E Eduardo Cabrita tem em toda esta novela muito que explicar. Se não promoveu, ajudou ao silêncio, a esconder, a desvalorizar a morte de um homem às mãos do Estado. Não devia continuar em funções.


 


SEMANADA - Um estudo recente indica que a queda do emprego registada este ano em Portugal concentrou-se nas profissões com os salários mais baixos; Boaventura Sousa Santos escreveu um artigo a elogiar o ensaio “O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, de Lenine, a propósito da votação do Orçamento de Estado; apesar da diminuição de turistas devido à pandemia a Madeira vai continuar a gastar este ano um milhão de euros no fogo de artifício da noite de fim de ano; segundo o Inquérito à Fecundidade de 2019 10% dos portugueses não têm intenção de ter filhos; 50% dos estudantes terminam o 12º ano depois da idade esperada, ou seja 17 anos;  na Assembleia da República o plano de vacinação contra a gripe recebeu 310 inscrições, mas o parlamento só recebeu até agora 105 vacinas; as vendas de queijo da Serra da Estrela com denominação de origem protegida caíram 60% devido essencialmente à anulação de feiras e eventos onde se comercializa o produto; o exército travou a admissão de um jovem que se afirmou como transexual; no Santuário de Fátima, de março até outubro deste ano, foram anuladas 987 peregrinações (703 estrangeiras e 284 portuguesas), num total de mais de 320 mil peregrinos"; a ausência de peregrinos traduz-se "numa quebra acentuada de receitas, 50,6%, nomeadamente ao nível dos donativos; até Outubro, no Serviço Nacional de Saúde, realizaram-se menos 112 mil cirurgias , menos 37 mil consultas presenciais por dia e menos 22 milhões de exames que em igual período do ano passado; a procura de viagens aéreas caíu 70,6% a nível global em Outubro deste ano comparado com o mesmo mês de 2019.


 


ARCO DA VELHA  - Um sargento da GNR, arguido no caso do assalto das armas em Tancos, justificou assim as suas longas conversas com o líder do furto para que dissesse onde escondera o material: “Os informadores são como as vacas: enquanto tiverem leite há que insistir” .


 


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IMAGENS CONFINADAS -  No Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, inaugurou e está patente até 23 de Janeiro a exposição Face À Vida Nua, que recolhe o trabalho de três artistas durante a pandemia e o confinamento: Luciana Fina apresenta-nos um filme realizado no primeiro surto pandémico deste ano, em que se confronta com a devastação da paisagem natural por especulação imobiliária, Vasco Barata dedicou-se nos meses da pandemia à prática do desenho, contido às dimensões físicas do seu espaço de trabalho,  e João Pina documentou com um ensaio fotográfico (na imagem)  o célebre edifício Copan, em São Paulo, projetado por Óscar Niemeyer, que tem 1160 apartamentos  e mais de 5000 residentes. Outros destaques: a não perder nos dias 11,12 e 13 na Galeria Monumental “Virose Artística”, uma mostra de pequenos formatos com obras de mais de 50 artistas ao preço único de 50 euros. Exclusivamente no Facebook e Instagram da Galeria. No Museu Municipal de Faro inaugurou a Exposição “Território Solar”, com obras da Coleção de Fotografia Contemporânea do Novo Banco, com  curadoria de Maria Eduarda Duarte e a exposição está patente até 28 de março de 2021. E finalmente na  SNBA  uma exposição sobre a obra de Cruzeiro Seixas, “Fazedor Nada Perfeito” mostra até 30 de Dezembro mais de 60 obras entre escultura, desenho, joalharia e serigrafia.


 


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UMA RARIDADE DE AMÁLIA - Como é que nasce um disco? “Ensaios”, a edição agora lançada com registos de Amália Rodrigues, ajuda a perceber como era o processo criativo da fadista. Trata-se de um CD duplo em que o primeiro disco recolhe gravações feitas nos Estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho e  o segundo gravações feitas em casa da própria Amália, em 1970 e 1971. Mais uma vez este trabalho, ligado às comemorações do centenário da fadista, tem a mão de Frederico Santiago que tem desempenhado um papel fundamental na recuperação do arquivo Amália. O primeiro disco, recolhe cinco temas, ensaios e takes experimentais gravados em estúdio, incluindo conversas com Hugo Ribeiro, o técnico de som que mais trabalhou com ela, e os músicos que a acompanhavam. Ali estão Meu Amor É Marinheiro, Sete Estradas, Rosa Vermelha, Alfama, Perdigão. No segundo disco, gravado em casa de Amália, em Lisboa, está o registo do seu trabalho com Alain Oulman, em fados como Sete Estradas, Nunca Ninguém Viu Ninguém, Gondarém, Perdigão, Abril, Rosa Vermelha e Com Vossa Licença. E depois há uma surpresa: gravações de Alain Oulman a cantar para Amália em meia dúzia de fados. São momentos de intimidade e que mostram a enorme cumplicidade musical entre ambos, o processo de busca e repetição até se chegar ao ponto que Amália pretendia - nas suas palavras, perto da perfeição: “a mim as coisas só me parecem completas quando as tenho todas, quero sempre fazer mais, fazer melhor”. A edição é complementada por um livro que traça a cronologia de 1970, um ano em que Amália cantou do Japão aos Estados Unidos. O livro tem fotografias inéditas, reprodução de páginas dos cadernos manuscritos  de Alain Oulman, com partituras e poemas dos fados, além de notas explicativas de Frederico Santiago sobre cada um dos fados, por Frederico Santiago. Edição Valentim de Carvalho.


 


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O TEMPO DA CHINA - Diplomata, académico, perito em relações internacionais e assuntos asiáticos, Kishore Mahbubani é Professor na Universidade Nacional de Singapura. Foi embaixador de Singapura nas Nações Unidas e presidiu ao Conselho de Segurança em 2001 e 2002. Já este ano lançou “Has China Won? - The Chinese Challenge To American Primacy, agora editado em português pela Bertrand com o título “A China Já Ganhou?”. Ao longo de nove capítulos Kishore Mahbubani faz uma reflexão geoestratégica do que se passa actualmente, analisando o comportamento da China e dos Estados Unidos e as situações a que ambos os países chegaram, as características de cada um e a maneira como encaram os grandes desafios do tempo presente, da ameaça terrorista aos problemas ambientais. No final do livro o autor deixa este recado: “o desafio que as alterações climáticas representam é simples: conseguiremos nós demonstrar que continuamos a ser a espécie mais inteligente do planeta Terra e preservá-lo para as gerações futuras? Os seres humanos olhariam cheios de pena para quaisquer das tribos de símios que continuassem a lutar pelo domínio do território enquanto a floresta em volta ardia. Contudo é assim que os Estados Unidos e a China surgirão às gerações futuras se continuarem a dirigir o foco para as suas diferenças enquanto o planeta Terra enfrenta um longo período de grande perigo”. E conclui o livro com esta frase: “A derradeira questão, portanto, não se centra em saber se os Estados Unidos ou a China venceram. Centra-se em perceber se a humanidade venceu”.


 


SALICÓRNIA CONFINADA COM ARROZ  - Gosto de arroz de todas as maneiras - simples, ou numa das muitas variedades temperadas da cozinha tradicional portuguesa. A minha preferência mais recente vai para arroz de salicórnia, essa planta que cresce espontaneamente em ambientes salinos, como nas rias da costa portuguesa. Tem caules carnudos, há quem lhe chame espargos do mar. A salicórnia é uma planta suculenta com sabor salgado, mas só há relativamente pouco tempo começou a ser mais fácil de encontrar nos supermercados - nas lojas de produtos biológicos já existia há algum tempo. Vamos então à receita, com arroz carolino naturalmente. De há uns tempos a esta parte abandonei os refogados tradicionais e coloquei a cebola e o alho de lado. Uso muitas vezes funcho e gengibre picados salteados em azeite para dar um toque inicial,  antes de adicionar o arroz e  depois a água da sua cozedura - gosto dele malandro mas sem demasiada calda. Neste caso de arroz de salicórnia não adiciono sal. Só coloco a salicórnia, numa quantidade generosa, a meio da cozedura e envolvo-a bem no arroz.  É também pouco depois, a uns três minutos do final da cozedura, que adiciono lingueirão - uso o congelado sem problemas, tendo o cuidado de o deixar ir à temperatura ambiente antes de entrar na panela. O lingueirão coze depressa e conserva melhor o seu sabor se não estiver muito tempo ao lume. Como qualquer arroz, devemos deixá-lo a repousar, tapado, já de lume desligado, pelo menos uns cinco minutos antes de servir. O tempo de preparação ronda a meia hora. Um Alvarinho a acompanhar fica sempre bem. Bom apetite. E divirtam-se. Cozinhar petiscos ajuda a combater o stress.


 


DIXIT - “Não se tratou de um acidente, mas sim de um atentado, embora não dirigido necessariamente a Francisco Sá Carneiro” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


BACK TO BASICS - “Aquilo que está feito não pode ser desfeito” - William Shakespeare


 




dezembro 04, 2020

O ZÉ POVINHO OLHOU PARA O PARLAMENTO

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POLÍTICA & TRAPALHICE  - Em 1875 Rafael Bordalo Pinheiro criou a personagem de Zé Povinho que rapidamente ganhou o estatuto de personificação da crítica social e política dos portugueses a quem mandava no país. Tenho para mim que esse olhar sobre Portugal, ao mesmo tempo com humor e sem tibiezas, é hoje personificado por Ricardo Araújo Pereira. Na emissão de Domingo passado de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, RAP passou imagens da votação no parlamento do Orçamento de Estado onde era patente a falta de cuidado de alguns deputados, o desnorte da mesa da Assembleia, em suma uma situação que faz jus ao nome do programa. De facto, se numa das mais importantes votações de qualquer sessão legislativa se passa o que o programa mostrou, só podemos estar perante uma falta de respeito pelos cidadãos. O Parlamento reflecte o estado da política e dos políticos, é o espelho do funcionamento do sistema. Quando acontecem cenas como as que foram mostradas é sinal de que algo está muito mal. Este ano o debate sobre o Orçamento parecia o palco de uma ópera buffa - inflexões, negociatas, arrufos e namoricos, intrigas, separações e zangas. As divergências são boas, os consensos são desejáveis, mas o retrato de golpes e contragolpes faz mal a um sistema que já está doente. Nestes tempos passou a ser normal fazer política pensando pouco no país e muito nos interesses de grupo ou pessoais. O poder não se deseja para servir o país e os cidadãos, pretende-se para satisfazer clientelas e proteger correlegionários. Enquanto isto não mudar a nossa vida vai ser complicada. As estatísticas não mentem. Mesmo sem pandemia o estado de saúde de Portugal é fraco, a debilidade continua. Penso nas imagens que vi, na maneira como decorreu o debate do Orçamento de Estado e temo o pior sobre a aplicação do dinheiro da célebre bazuka que vem da Europa. É que estas coisas andam todas ligadas. Numa semana que tanto se falou de pensar Portugal talvez seja bom vermos o que fazer para podermos funcionar melhor. 


 


SEMANADA - O PS aceitou 198 propostas de alteração ao Orçamento de Estado de 2021 e foram aprovadas, contra a vontade do PS, 82 propostas; o PS voltou a subir nas sondagens e o PSD a cair; no processo de liquidação do Banco Privado Português foram detectados desvios no valor de 11,6 milhões de euros que terão ido para a esfera pessoal de alguns dos administradores do banco; nas principais redes sociais os partidos com assento parlamentar têm 1,8 milhões de seguidores, 70% dos quais no Facebook, 17% no twitter e 13% no Instagram; a Iniciativa Liberal é o partido que mais interacções gera nas três redes sociais agora analisadas num estudo relativo a este ano; há 12 anos consecutivos que há mais mortes do que nascimentos em Portugal mas este ano estamos a bater o recorde do saldo natural negativo; a Web Summit, que este ano se realiza exclusivamente on line e sem público nem visitantes, custará à Câmara Municipal de Lisboa os mesmo 3 milhões de euros das edições anteriores que trouxeram milhares de pessoas à cidade; a candidata presidencial Ana Gomes tomou uma vacina contra a gripe que uma amiga lhe trouxe de França; os bancos emprestaram 976 milhões de euros para a compra de casa em outubro, feitas as contas dá mais de 31 milhões de euros por dia, trata-se do valor de financiamento de crédito à habitação mais elevado desde janeiro.


 


ARCO DA VELHA  - Estar infetado com Covid-19 ou estar a cumprir um período de isolamento profilático não chega para justificar o adiamento dos exames de Código ou de Condução e nessas situações os candidatos estão a ser obrigados a pagar para que as provas sejam remarcadas. 


 


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UM RUSSO E UM FRANCÊS OLHAM PARA LISBOA  - Tempos difíceis estes para ver exposições com todas as limitações de horário e de circulação que existem. A boa notícia é que há muito para ver. Comecemos pela Galeria Balcony. Nikolai Nekh nasceu na Rússia em 1985, mas estudou Arte e Multimédia na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. A fotografia é o meio que utiliza e “Surender Surender”, a exposição que agora inaugurou em Lisboa parte da observação da transformação da cidade onde vive (na imagem).  Há cerca de dois anos, Nikolai Nekh começou a aperceber-se da acumulação de objectos de mobiliário, como bancos, cadeiras, mesas ou estrados, nas ruas que percorria entre casa, na zona de São Bento, em Lisboa, e o trabalho. Na altura, o crescimento económico, o aumento do turismo e a especulação imobiliária já eram evidentes na cidade, mas foi quando se deparou com os vestígios da renovação de apartamentos para aluguer temporário a preços altos que o artista se debruçou sobre o assunto. Esta exposição mostra a forma como Nikolai Nekh encara o confronto entre o desenvolvimento económico, científico e tecnológico e o desequilíbrio social e ambiental. A exposição fica na Balcony Temporary Art Gallery até 19 de Janeiro (Rua Coronel Bento Roma 12A).  Na Galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76, Beato, até 15 de Janeiro) pode ver  “Entre Deux Eaux”, a segunda exposição de Adrien Mussika naquele espaço, fruto da sua visão de Lisboa, entre as águas do Tejo e do oceano onde o rio desagua. Até 15 de Janeiro. O russo fez fotografias sobre um discurso político, muito pré-covid e o francês sobre um devaneio intemporal. É uma velha disputa de estilos, mas vale a pena comparar. Outro destaque: no Projecto Travessa da Ermida, José de Guimarães mostra na exposição “Dioramas” um conjunto de instalações inéditas e peças de arte africana da sua coleção pessoal (até 9 de Janeiro, Travessa do Marta Pinto 21, Belém)


 


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CANÇÕES SEM TEMPO - Samuel Úria gravou o seu primeiro disco em 2009 e chamou-lhe "Nem Lhe Tocava”, que na altura marcou terreno pelos arranjos inusitados e pela construção das canções. Agora, mais de uma década depois de ter começado, lançou “Canções do Pós-Guerra”, outro nome provocador, Samuel Úrias salientou numa entrevista recente: “marimbar-me para as expectativas pode ser a receita certa para eu não ficar acabrunhado em relação a fazer um disco. Não penso no público, faço o que quero”. Neste novo disco, editado pela Valentim de Carvalho, estão nove canções coerentes mas diversas, onde frequentemente se detecta alguma influência folk. Aqui coexistem baladas com o “Cedo” com revisitações de blues como em “Fica Aquém”. O título do disco, ainda segundo Úria, tem a ver com a ruptura em relação ao álbum anterior, mais pop e electrónico (“Carga de Ombro” de 2016). Entre as influências poéticas, Samuel Úria cita Elisabeth Bishop, Philip Larkin, Ted Hughes e Leonard Cohen. As letras de Samuel Úria deixam marca, mostram o que ele pensa, não são rimas soltas. Por exemplo, em “As Traves” sublinha: “Tenho a vista cansada de tanto apontar para longe de mim/ E as traves nos olhos já dão de si/ Agora eu não dou conta de nada” . “Canções do Pós Guerra” é um disco intemporal, mistura estilos e influências, mas não vai em modas. Úria conta que foi para estúdio, antes da pandemia, com as canções apenas à guitarra e voz e aí começou o trabalho com o produtor Miguel Ferreira, que é também um dos músicos convidados. Aos poucos acrescentaram ideias à base acústica, procurando não deturpar a ideia original de cada tema. “Andámos ao sabor das canções”, conta Úria na mesma entrevista. O disco tem participações especiais da cantora Monday (Catarina Falcão) e de Miguel Araújo. Disponível em CD e no Spotify.


 


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SOBRE O TRABALHO - O nº10 de “Electra”, a revista trimestral da Fundação EDP, começa com um texto que evoca a construção da Central Tejo no início do século XX, criando  a grande fábrica produtora de energia eléctrica que abastecia a cidade e a região da Grande Lisboa. O texto, que evoca a ligação entre o homem e a máquina, o trabalho e a técnica, é acompanhado por uma selecção de fotografias da colecção de Kurt Pinto, depositadas na Fundação EDP e que são um documento único da construção e laboração da Central Tejo. Esta edição do Outono de 2020 da “Electra” tem por tema o trabalho e todas as suas implicações no mundo contemporâneo, a maneira como se transformou e, na situação actual, como coexiste com a devastação provocada pela pandemia. A “Electra” tem uma edição e grafismo exemplares e utiliza nesta edição fotografias de Alan Sekula e ilustrações de Konrad Kalpheck. Destaque para um artigo de Jason Read que analisa a série televisiva “Breaking Bad” à luz da representação do trabalho na personagem do professor de química que se torna um barão da droga. Destaque ainda para o portfolio de fotografia de Alec Soth, um dos nomes mais importantes da fotografia americana contemporânea, “Unseen Teen”, apresentado por Sérgio Mah.


 


IDEIAS PETISQUEIRAS PARA O CONFINAMENTO - Como nestes dias próximos a única solução é comer em casa, aqui ficam duas sugestões, simples. A primeira é mais de peso e retoma a velha ideia de massa com queijo. A segunda é um petisco para aperitivo. Comecemos pelo lado pesado. Primeiro  preparam a base do molho com uma chávena de leite, temperado com sal, pimentão doce fumado e pimenta negra moída na altura,  no qual dissolvem uma embalagem de mozarella gratinado, daquele que se usa para colocar nas pizzas. Uma alternativa lusitana, mais intensa, é cortar aos pedaços queijo da ilha de média cura e fazer o mesmo. Em qualquer dos casos no fim adicionam uma embalagem de queijo creme, tipo Philadelphia. Deixam tudo derreter bem e ficar cremoso. Entretanto cozem meio pacote de macarrão, mas não o deixam ficar mais de quatro minutos na água a ferver para permanecer “al dente”. Depois deitam um pouco do molho num recipiente de ir ao forno, colocam macarrão e o resto do molho por cima em camadas alternadas de forma a acabar com queijo. Fica no forno pré aquecido a 200º durante dez minutos para o molho derreter bem a acabar de cozer a massa. Está pronto a servir. Antes disso sugiro uma entrada - pegam numa embalagem de corações de alcachofra que escorrem e cortam aos pedaços. secam bem com papel de cozinha e levam os pedaços salpicados de azeite ao forno bem quente num tabuleiro. Quaisquer 18 a 20 minutos devem chegar para as alcachofras em pedaços ficarem tostadas. É deixar arrefecer e usar como aperitivo.


 


DIXIT - “Se não há cão, haverá gato, mas vamos fazer” - António Costa sobre a aprovação no parlamento da proposta que impedia a injecção de mais dinheiro no Novo Banco.


 


BACK TO BASICS - “Na literatura, tal como no amor, surpreendemo-nos com as escolhas que as pessoas fazem” - Andre Maurois


 





novembro 27, 2020

O PONTO COMUM ENTRE O CINEMA E A MERCEARIA - E A HISTÓRIA DE UM BARCO VERMELHO

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O ECRÃ FAZ TUDO - A janela é o ecrã mais antigo que conhecemos. O nosso olhar para fora de casa começou por passar por ali. A realidade hoje é outra. A janela é apenas mais um ecrã entre os muitos que fazem parte do nosso dia-a-dia. Frequentemente tenho à minha volta mais ecrãs que janelas e cada ecrã traz-me uma realidade diferente - algumas que escolho pessoalmente, outras que me são trazidas. A televisão é uma delas. Há uns anos era a única janela alternativa e podíamos apenas olhar para o que ela nos trazia, agora podemos escolher o que queremos que ela nos traga entre centenas de canais, podemos escolher a nossa programação, ver o que que nos interessa em gravações depois da sua emissão. No meio disto as transmissões desportivas, de futebol, continuam a ser os programas mais vistos - basta dizer que dos dez programas que maior audiência obtiveram até agora, oito foram transmissões de futebol - a excepção foram um “Jornal da Noite” do início da pandemia e  uma emissão de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” no primeiro período de confinamento. Desporto e notícias, que só fazem sentido quando vistas em directo, são o seguro de vida dos canais para manterem as suas audiências. Quase tudo o resto pode ser visto de outra forma. Muitas pessoas já vêem séries e filmes noutros ecrãs que não o da televisão e um dos ecrãs mais atingidos com a pandemia foi o das salas de cinema. Gus Van Sant, um cineasta norte-americano, constata que este ano o cinema foi empurrado para o ecrã dos computadores, aliás como boa parte das nossas vidas neste 2020. E desabafa: “É um bocado estranho estar a ver cinema no mesmo ecrã de computador onde fazemos as compras de mercearia”.


 


SEMANADA - Registam-se mais 103 mil desempregados em Outubro que no mesmo mês do ano passado e o nível de desemprego está 34% acima do registado em Outubro de 2019; nos primeiros oito meses deste ano venderam-se mais de 13 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, o valor mais alto dos últimos três anos; uma análise ao mapa de risco da COVID-19 com base em informação compilada pela Marktest, mostra que, nos dois grupos de concelhos de maior risco, vive 69% da população e concentra-se 68% do seu poder de compra; segundo um inquérito recente dois terços dos frequentadores habituais de restaurantes deixaram de o fazer desde que se iniciou novo estado de emergência; segundo a Associação Nacional dos Restaurantes a crise da pandemia já terá criado 40 mil desempregados no sector; um estudo do Ministério do Trabalho indica que 66% das empresas não têm ninguém em teletrabalho; impostos, taxas e outras tributações representam 46% das contas de energia eléctrica em Portugal; de acordo com o estudo “Os Portugueses E As Redes Sociais”, da Marktest, 33.2% dos portugueses com perfil criado em redes sociais afirma já ter feito compras diretamente numa rede social; desses cerca de 75% fez a última compra através do Facebook e 20% através do Instagram.


 


ARCO DA VELHA  - O vereador da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo, ameaçou dar “um par de murros nas fuças” a um vogal da Junta de Freguesia do Areeiro, Luís Moreira.


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O BARCO VERMELHO -  No grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada esta semana naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana passam pelas cinco salas onde se desenvolve a exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, nas suas várias facetas e nos suportes utilizados, do papel à escultura. Sérgio Fazenda Rodrigues, o curador da exposição, sublinha no texto que elaborou, que a produção de Cristina Ataíde “revela uma sede de experimentação e um fascínio pela descoberta que, entre outros, se ancora no impulso da viagem, na procura por outros sistemas de pensamento e numa busca pela expressão da matéria”. Nas cinco salas onde se desenvolve a exposição viaja-se pelos pilares da obra de Cristina Ataíde, com referências cruzadas mas sempre com a afirmação da sua identidade criativa. A exposição fica patente no Museu Berardo até 14 de Março de 2021. Outras sugestões: a Galeria Módulo (calçada dos Mestres 34) apresenta 20 pinturas de Ana Mata, realizadas entre 2018 e 2020. E na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Krtsch apresenta até 30 de Janeiro novas obras de pintura sob a designação “Please be quiet, please”, uma metáfora destes tempos que atravessamos.


 


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O DIA DA ORQUESTRA - Sérgio Godinho é um dos maiores escritores de canções da música portuguesa. Poucos autores se podem gabar de ter composto tantos temas que se tornaram famosos e que fazem parte do melhor da história da nossa música popular. Em quase 50 anos de carreira gravou 18 álbuns de originais, o último dos quais, “Nação Valente” data de 2018. Ora foi nesse mesmo ano que Sérgio Godinho realizou no Teatro S. Luiz, em Lisboa, uma série de concertos, entre 5 e 8 de Julho. Pela primeira vez na sua carreira tocou acompanhado por uma Orquestra, neste caso a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Cesário Costa. O piano e os arranjos para orquestra ficaram a cargo de Filipe Raposo e no palco estavam também, como habitualmente, Os Assessores, o grupo que o vem acompanhando ao vivo - Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Sérgio Nascimento (bateria, percussão) com direcção musical de Nuno Rafael (guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, lap steel guitar, percussão, coros). Godinho, agora com 75 anos, tem mostrado uma capacidade de se rodear bem em termos musicais e este disco não é excepção. Sobre esta série de concertos, ele sublinha: “Há espectáculos de que continuamos a falar muito tempo depois, houve uma chispa. Não se apagou.” Essa chispa está bem presente nos 15 temas que o disco inclui, desde “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, até “A Noite Passada”, “A Deusa do Amor ou “O Primeiro Dia”, mas também canções menos conhecidas como “O Velho Samurai”. Sérgio Godinho inclui dois temas que são uma homenagem a dois contemporâneos com quem trabalhou- evoca Zeca Afonso em “Endechas a Bárbara Escrava”, um tema que Zeca compôs sobre um poema de Camões e evoca também José Mário Branco numa canção que com ele escreveu para o álbum “Nação Valente”, “Mariana Pais, 21 Anos”. Os arranjos de Filipe Raposo respeitam as canções e dão-lhes uma sonoridade diferente com um acompanhamento orquestral - e diga-se que Sérgio Godinho adapta muito bem a sua interpretação a este novo pano de fundo musical. Já disponível em CD e nas plataformas de streaming áudio.


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NO REINO DAS MOTORIZADAS LUSITANAS - Durante algumas décadas existiu em Portugal uma indústria de fabrico de motorizadas, derivadas da formulação bicicletas com motor auxiliar - limitado a 50 cc e que era possível guiar com carta de bicicleta, na altura obrigatória para andar, mesmo a pedal, na via pública. Começaram por imitar motos estrangeiras mas cedo se desenvolveram modelos desenhados em Portugal, numas vezes com motores importados,noutros casos com motores fabricados localmente. As Casal, Zundapp, Famel ou Sachs, para citar só algumas, foram o meio de transporte que cresceu no Portugal rural e ajudou a transformar a paisagem. Sobretudo no pós guerra e até final da década de 70 cresceram os modelos, aperfeiçoou-se a qualidade e algumas fábricas sobreviveram até ao início deste século. A história da indústria portuguesa de motociclos é agora contada por Pedro Pinto, motociclista e ex piloto desportivo, num magnífico álbum intitulado “As Motos Da Nossa Vida”, editado pela Quetzal. Ali se conta desde o início do fabrico dos primeiros velocípedes com motor a petróleo, fabricados no Porto no final do século XIX. A Famel em Águeda, a Diana em Sangalhos, os motores  Alma e as correspondentes Motalli em Vila Nova de Gaia, a Casal que tinha uma oficina de montagem na Avenida da República, em Lisboa e mais tarde uma fábrica em Aveiro,a EFS também em Aveiro, a Famel em Águeda, a Macal também em Águeda, a Pachancho em Braga, a Sachs em Anadia, a Vilar no Porto. O livro é profusamente ilustrado com imagens dos modelos de cada marca, das instalações fabris e até das numerosas provas desportivas que se realizam por todo o país com motorizadas cá produzidas. “As Motos da Nossa Vida” revisita as pequenas e grandes fábricas que, um pouco por todo o país, inventaram e desenharam modelos, criando riqueza e emprego, exportando milhares de exemplares e transformando o dia a dia do transporte de tanta gente. O álbum, de capa dura, tem cerca de 200 páginas e é um memorial precioso do que foi uma época do motociclismo nacional, antes dos sucessos agora obtidos por pilotos como Miguel Oliveira.





GULOSEIMAS DE ÉPOCA  - O português, já se sabe, é uma língua muito traiçoeira. Há palavras que só se devem usar no singular. Por exemplo é sempre mais elegante dizer tomate do que tomates, assim como é menos dúbio dizer que se gosta de marmelo do que de marmelos. Adiante na brejeirice… Vem isto a propósito de eu gostar de fruta da época e o marmelo ser uma delícia de outono. Nesta altura gosto dele cozido ou, ainda melhor, assado, levemente tostado, sempre com pouco açúcar e bastante canela. Para consumo posterior o petisco mais imediato é geleia de marmelo com nozes, uma verdadeira delícia. E, depois, para consumo faseado ao longo do ano, a verdadeira e genuína marmelada é sempre apreciada. Em matéria de geleia e marmelada, além de umas artesanais que algumas pessoas me oferecem, a minha preferência vai para as que são confeccionadas pela Cister, na Rua da Escola Politécnica. A receita mais afamada é a do Convento de Odivelas. No Porto a Casa Ramos vende uma marmelada muito elogiada produzida em Cinfães sob a marca Memórias. Em matéria de sobremesa de marmelo cozido ou assado o Salsa & Coentros e o Apuradinho, em Lisboa, são incontornáveis. 





DIXIT - “Coexistirão dois países entre 27 e 29 de Novembro: o do PC e o nosso” - João Gonçalves.


 


BACK TO BASICS - “Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais mostra, menos se sabe” - Diane Arbus




novembro 26, 2020

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O ECRÃ FAZ TUDO - A janela é o ecrã mais antigo que conhecemos. O nosso olhar para fora de casa começou por passar por ali. A realidade hoje é outra. A janela é apenas mais um ecrã entre os muitos que fazem parte do nosso dia-a-dia. Frequentemente tenho à minha volta mais ecrãs que janelas e cada ecrã traz-me uma realidade diferente - algumas que escolho pessoalmente, outras que me são trazidas. A televisão é uma delas. Há uns anos era a única janela alternativa e podíamos apenas olhar para o que ela nos trazia, agora podemos escolher o que queremos que ela nos traga entre centenas de canais, podemos escolher a nossa programação, ver o que que nos interessa em gravações depois da sua emissão. No meio disto as transmissões desportivas, de futebol, continuam a ser os programas mais vistos - basta dizer que dos dez programas que maior audiência obtiveram até agora, oito foram transmissões de futebol - a excepção foram um “Jornal da Noite” do início da pandemia e  uma emissão de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” no primeiro período de confinamento. Desporto e notícias, que só fazem sentido quando vistas em directo, são o seguro de vida dos canais para manterem as suas audiências. Quase tudo o resto pode ser visto de outra forma. Muitas pessoas já vêem séries e filmes noutros ecrãs que não o da televisão e um dos ecrãs mais atingidos com a pandemia foi o das salas de cinema. Gus Van Sant, um cineasta norte-americano, constata que este ano o cinema foi empurrado para o ecrã dos computadores, aliás como boa parte das nossas vidas neste 2020. E desabafa: “É um bocado estranho estar a ver cinema no mesmo ecrã de computador onde fazemos as compras de mercearia”.


 


SEMANADA - Registam-se mais 103 mil desempregados em Outubro que no mesmo mês do ano passado e o nível de desemprego está 34% acima do registado em Outubro de 2019; nos primeiros oito meses deste ano venderam-se mais de 13 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, o valor mais alto dos últimos três anos; uma análise ao mapa de risco da COVID-19 com base em informação compilada pela Marktest, mostra que, nos dois grupos de concelhos de maior risco, vive 69% da população e concentra-se 68% do seu poder de compra; segundo um inquérito recente dois terços dos frequentadores habituais de restaurantes deixaram de o fazer desde que se iniciou novo estado de emergência; segundo a Associação Nacional dos Restaurantes a crise da pandemia já terá criado 40 mil desempregados no sector; um estudo do Ministério do Trabalho indica que 66% das empresas não têm ninguém em teletrabalho; impostos, taxas e outras tributações representam 46% das contas de energia eléctrica em Portugal; de acordo com o estudo “Os Portugueses E As Redes Sociais”, da Marktest, 33.2% dos portugueses com perfil criado em redes sociais afirma já ter feito compras diretamente numa rede social; desses cerca de 75% fez a última compra através do Facebook e 20% através do Instagram.


 


ARCO DA VELHA  - O vereador da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo, ameaçou dar “um par de murros nas fuças” a um vogal da Junta de Freguesia do Areeiro, Luís Moreira.


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O BARCO VERMELHO -  No grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada esta semana naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana passam pelas cinco salas onde se desenvolve a exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, nas suas várias facetas e nos suportes utilizados, do papel à escultura. Sérgio Fazenda Rodrigues, o curador da exposição, sublinha no texto que elaborou, que a produção de Cristina Ataíde “revela uma sede de experimentação e um fascínio pela descoberta que, entre outros, se ancora no impulso da viagem, na procura por outros sistemas de pensamento e numa busca pela expressão da matéria”. Nas cinco salas onde se desenvolve a exposição viaja-se pelos pilares da obra de Cristina Ataíde, com referências cruzadas mas sempre com a afirmação da sua identidade criativa. A exposição fica patente no Museu Berardo até 14 de Março de 2021. Outras sugestões: a Galeria Módulo (calçada dos Mestres 34) apresenta 20 pinturas de Ana Mata, realizadas entre 2018 e 2020. E na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Krtsch apresenta até 30 de Janeiro novas obras de pintura sob a designação “Please be quiet, please”, uma metáfora destes tempos que atravessamos.


 


 


O DIA DA ORQUESTRA - Sérgio Godinho é um dos maiores escritores de canções da música portuguesa. Poucos autores se podem gabar de ter composto tantos temas que se tornaram famosos e que fazem parte do melhor da história da nossa música popular. Em quase 50 anos de carreira gravou 18 álbuns de originais, o último dos quais, “Nação Valente” data de 2018. Ora foi nesse mesmo ano que Sérgio Godinho realizou no Teatro S. Luiz, em Lisboa, uma série de concertos, entre 5 e 8 de Julho. Pela primeira vez na sua carreira tocou acompanhado por uma Orquestra, neste caso a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Cesário Costa. O piano e os arranjos para orquestra ficaram a cargo de Filipe Raposo e no palco estavam também, como habitualmente, Os Assessores, o grupo que o vem acompanhando ao vivo - Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Sérgio Nascimento (bateria, percussão) com direcção musical de Nuno Rafael (guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, lap steel guitar, percussão, coros). Godinho, agora com 75 anos, tem mostrado uma capacidade de se rodear bem em termos musicais e este disco não é excepção. Sobre esta série de concertos, ele sublinha: “Há espectáculos de que continuamos a falar muito tempo depois, houve uma chispa. Não se apagou.” Essa chispa está bem presente nos 15 temas que o disco inclui, desde “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, até “A Noite Passada”, “A Deusa do Amor ou “O Primeiro Dia”, mas também canções menos conhecidas como “O Velho Samurai”. Sérgio Godinho inclui dois temas que são uma homenagem a dois contemporâneos com quem trabalhou- evoca Zeca Afonso em “Endechas a Bárbara Escrava”, um tema que Zeca compôs sobre um poema de Camões e evoca também José Mário Branco numa canção que com ele escreveu para o álbum “Nação Valente”, “Mariana Pais, 21 Anos”. Os arranjos de Filipe Raposo respeitam as canções e dão-lhes uma sonoridade diferente com um acompanhamento orquestral - e diga-se que Sérgio Godinho adapta muito bem a sua interpretação a este novo pano de fundo musical. Já disponível em CD e nas plataformas de streaming áudio.


 


NO REINO DAS MOTORIZADAS LUSITANAS - Durante algumas décadas existiu em Portugal uma indústria de fabrico de motorizadas, derivadas da formulação bicicletas com motor auxiliar - limitado a 50 cc e que era possível guiar com carta de bicicleta, na altura obrigatória para andar, mesmo a pedal, na via pública. Começaram por imitar motos estrangeiras mas cedo se desenvolveram modelos desenhados em Portugal, numas vezes com motores importados,noutros casos com motores fabricados localmente. As Casal, Zundapp, Famel ou Sachs, para citar só algumas, foram o meio de transporte que cresceu no Portugal rural e ajudou a transformar a paisagem. Sobretudo no pós guerra e até final da década de 70 cresceram os modelos, aperfeiçoou-se a qualidade e algumas fábricas sobreviveram até ao início deste século. A história da indústria portuguesa de motociclos é agora contada por Pedro Pinto, motociclista e ex piloto desportivo, num magnífico álbum intitulado “As Motos Da Nossa Vida”, editado pela Quetzal. Ali se conta desde o início do fabrico dos primeiros velocípedes com motor a petróleo, fabricados no Porto no final do século XIX. A Famel em Águeda, a Diana em Sangalhos, os motores  Alma e as correspondentes Motalli em Vila Nova de Gaia, a Casal que tinha uma oficina de montagem na Avenida da República, em Lisboa e mais tarde uma fábrica em Aveiro,a EFS também em Aveiro, a Famel em Águeda, a Macal também em Águeda, a Pachancho em Braga, a Sachs em Anadia, a Vilar no Porto. O livro é profusamente ilustrado com imagens dos modelos de cada marca, das instalações fabris e até das numerosas provas desportivas que se realizam por todo o país com motorizadas cá produzidas. “As Motos da Nossa Vida” revisita as pequenas e grandes fábricas que, um pouco por todo o país, inventaram e desenharam modelos, criando riqueza e emprego, exportando milhares de exemplares e transformando o dia a dia do transporte de tanta gente. O álbum, de capa dura, tem cerca de 200 páginas e é um memorial precioso do que foi uma época do motociclismo nacional, antes dos sucessos agora obtidos por pilotos como Miguel Oliveira.





GULOSEIMAS DE ÉPOCA  - O português, já se sabe, é uma língua muito traiçoeira. Há palavras que só se devem usar no singular. Por exemplo é sempre mais elegante dizer tomate do que tomates, assim como é menos dúbio dizer que se gosta de marmelo do que de marmelos. Adiante na brejeirice… Vem isto a propósito de eu gostar de fruta da época e o marmelo ser uma delícia de outono. Nesta altura gosto dele cozido ou, ainda melhor, assado, levemente tostado, sempre com pouco açúcar e bastante canela. Para consumo posterior o petisco mais imediato é geleia de marmelo com nozes, uma verdadeira delícia. E, depois, para consumo faseado ao longo do ano, a verdadeira e genuína marmelada é sempre apreciada. Em matéria de geleia e marmelada, além de umas artesanais que algumas pessoas me oferecem, a minha preferência vai para as que são confeccionadas pela Cister, na Rua da Escola Politécnica. A receita mais afamada é a do Convento de Odivelas. No Porto a Casa Ramos vende uma marmelada muito elogiada produzida em Cinfães sob a marca Memórias. Em matéria de sobremesa de marmelo cozido ou assado o Salsa & Coentros e o Apuradinho, em Lisboa, são incontornáveis. 





DIXIT - “Coexistirão dois países entre 27 e 29 de Novembro: o do PC e o nosso” - João Gonçalves.


 


BACK TO BASICS - “Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais mostra, menos se sabe” - Diane Arbus




novembro 21, 2020

O que mudou na televisão portuguesa?

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A mudança mais significativa acontecida no último ano foi a diminuição do número de espectadores dos canais generalistas de sinal aberto (RTP1, RTP2, SIC e TVI). Actualmente cerca de metade do total dos espectadores de televisão preferem canais de cabo e serviços de streaming. Netflix, HBO, Disney e Amazon são os principais players – e já captam o interesse de cerca de 15% do total de espectadores, tendo estado a crescer ao longo de 2020. Ao fim de semana a sua relevância é ainda maior, chegando a andar perto dos 20%. Por isso, nos fins de semana, cada vez com maior frequência, a soma do share de audiência do conjunto de canais de cabo e de streaming ultrapassa os 50%. No entanto é preciso ter em conta que metade da audiência global concentrada nas mão da SIC, TVI e RTP1 é significativo e, do ponto de vista da importância comercial da publicidade, a televisão generalista garante uma cobertura que mais nenhum meio consegue igualar.


Se olharmos para o panorama nacional registamos ao longo do ano uma aproximação da TVI à SIC, que agora tem estado à distancia de dois pontos percentuais quando em Janeiro se situava nos seis pontos percentuais de diferença. A SIC continua a liderar, a TVI vai subindo e a RTP1 mantém alguma estabilidade. Os conteúdos mais consumidos pelos espectadores nos canais generalistas são transmissões de futebol, novelas, informação e reality shows. No cabo os líderes são a CMTV, seguido da Globo e da SIC Notícias. Nos canais de séries a FOX afirma-se claramente como líder.


Outra realidade que é preciso ter em conta, com a proliferação de ecrãs móveis e smart TV’s, é evidenciada por um recente estudo da Marktest, o Bareme Internet 2020: um milhão e 672 mil  portugueses costumam ver Televisão online, ou seja 19.5% dos residentes no Continente com 15 e mais anos e 25.8% dos internautas nacionais nesta faixa etária. Os homens a revelar uma taxa de consumo de TV online bastante superior à das mulheres, de 25% e 14.6% respetivamente A classe social revela igualmente comportamentos muito diferenciados, com os valores a baixar gradualmente de 35.2% junto das classes mais altas para 6.3% junto das mais baixas. O estudo da Marktest indica também que entre as idades encontramos igualmente diferenças importantes, com os mais jovens a registar um valor quase dez vezes superior ao dos mais velhos. 32% dos portugueses com menos de 35 anos tem o hábito de ver Tv online, face aos 3.2% dos indivíduos com mais de 64 anos que também o faz.

novembro 20, 2020

RIO ENLAMEADO: ENTRE A COEXISTÊNCIA E A FALTA DE PRINCÍPIOS

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UM RIO DE LAMA - Pode acontecer que um partido político decida mudar de estratégia no seguimento de um Congresso. O vencedor muitas vezes surge em oposição ao poder interno anterior ou então como a tábua de salvação num momento de falta de alternativa. Rui Rio venceu o PSD em oposição a Santana Lopes, mas fugiu sempre de explicitar estratégia e táctica política. Ficou sempre indefinido,  preferiu navegar ao sabor do vento. E em vez de uma oposição frontal a António Costa, ao PS e à geringonça, como Santana prometia, Rio decidiu-se por uma coexistência pacífica. Supõe-se que na sua mente estava poder ser a charneira que ressuscitasse um bloco central. Só que a vida não lhe correu de feição - e Costa, que é um político mais hábil de olhos fechados que Rio de olhos bem abertos debaixo de um duche frio, acabou por o acantonar. A isto juntou-se a deriva de um PP órfão de liderança,  que também pouco mais faz que tirar água do porão para não se afundar, e uma divisão do eleitorado urbano não centrista para a Iniciativa Liberal. E, para cúmulo, à direita de PSD e PP começou a crescer uma nova força política, populista, ideologicamente carregada, claramente em ruptura com o sistema, com um líder carismático - André Ventura. Rio foi o encenador do crescimento do Chega e agora, acossado, está disposto a tudo. O que Rui Rio está  a fazer é um exercício de sobrevivência de poder interno no PSD, sem mandato nem coerência, sem estratégia à vista que não seja tentar manter alguma relevância junto dos desesperados do aparelho pela falta de poder. De tudo isto vai sair um PSD mais fraco, uma direita menos credível e muito provavelmente umas eleições dadas de bandeja, de novo, ao PS. A única incógnita é saber o que Marcelo fará depois de ser reeleito: ou tolera Rio ou dá sinais de que o dispensa. Essa vai ser a parte interessante de seguir, ainda durante os ensaios das autárquicas, aposto. 


 


SEMANADA - Relativamente à pandemia, no início da semana, seis em cada dez municípios do país estavam em situação grave; 27 concelhos têm mais de 100 casos por 100 mil habitantes; os concelhos considerados de risco geram 90% da riqueza do país; no fim de semana passado foram detectadas pela GNR três festas no Algarve em que participavam 310 pessoas; o programa de apoio a pessoas carenciadas, financiado por fundos europeus, teve uma execução de apenas 32%; em 2018, segundo o Eurostat,  21,6% da população portuguesa vivia em risco de pobreza ou exclusão social; a pandemia provocou uma queda de 980 milhões de euros de receitas nos hotéis portugueses durante o verão; o investimento dos vistos gold caíu 52% em outubro; um inquérito da CIP aos seus associados  revela que 21%  das empresas admitem ter que reduzir os seus quadros de pessoal devido à situação provocada pela pandemia; no mês de setembro o recurso ao crédito pessoal, linhas a descoberto e aos cartões de crédito aumentou 16% relativamente ao mês anterior; no espaço de um ano encerraram 187 agências bancárias e saíram 1016 trabalhadores da banca; foram apresentadas na Assembleia da República 1542 propostas de alteração ao Orçamento de Estado, um novo recorde; segundo a Marktest 32% dos portugueses com menos de 35 anos tem o hábito de ver Tv online, face aos 3.2% dos indivíduos com mais de 64 anos que também o faz.


 


SINAIS DOS TEMPOS - Por causa da pandemia o negócio da venda de presuntos,salpicões e chouriças de Trás-os-Montes saltou das bancas das feiras para o online.


 


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PAPEL FOTOGRÁFICO - Luís Pavão, conhecido pelas suas fotografias de Lisboa (sobretudo nos anos 80) e pelo seu trabalho na área da preservação da fotografia,  expõe uma série de trabalhos inéditos feitos com a técnica de sensibilização directa do papel fotográfico, sem intermediação de uma câmara. O título da exposição veio do papel usado - Record Rapid (na imagem). No caso foi uma antiga caixa de papel Agfa Record Rapid, um clássico entre os papéis fotográficos para impressão a preto e branco. Os fotogramas recuperam a técnica utilizada por William Fox Talbot nos seus “photogenic drawings” na primeira metade do século XIX.  Aqui o que conta é a capacidade de trabalhar a luz e a sombra, por vezes colocando objectos sobre o papel no momento da sensibilização. Luís Pavão apresenta nesta “Record Rapid” a sua interpretação da fotografia enquanto possibilidade de desenho, substituindo o lápis pela luz e por objectos do quotidiano. Luís Pavão exerce a sua atividade na área de fotografia, além de ter realizado livros e exposições em torno da fotografia documental, é especializado em conservação e digitalização de coleções de fotografia e desde 1991 é conservador das coleções de fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa. A exposição abriu n’A Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C) e estará patente até 19 de Dezembro e, depois, de 13 de Janeiro a 13 de Fevereiro. Continuando na fotografia, mas a norte, destaque para a exposição que assinala os 50 anos de carreira de Alfredo Cunha e que estará patente até Maio do próximo ano no Centro Português de Fotografia, alojado no edifício da Cadeia da Relação, Largo Amor de Perdição, Porto. Alfredo Cunha é um dos mais importantes fotojornalistas portugueses e ao longo do último meio século trabalhou para jornais portugueses e estrangeiros e também para agências noticiosas.


 


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MÚSICA ALBANESA - Apesar da voz grave e cheia, o canto é suave, envolvente. Elina Duni nasceu em Tirana, na Albânia, no início da década de 80 e estudou música na Suíça, para onde foi residir na década de 90. Foi a partir do estudo do piano que descobriu o jazz - género que mais tarde se veio a tornar o seu principal foco de estudo, centrado no canto e composição, no Conservatório de Berna. Foi ainda enquanto estudava que criou o seu quinteto e que procurou uma fusão entre as suas raízes musicais - temas do folclore balcânico - e o jazz. Com o andar dos tempos o quinteto transformou-se em quarteto, com Elina Duni na voz, Rob Luft na guitarra (um elemento marcante da formação), Fred Thomas no piano e bateria e Matthieu Michel nos instrumentos de sopro. A maior parte dos 12 temas deste novo disco, “Lost Ships” são de Elina Duni e de Rob Luft que desde 2017 trabalham em conjunto. Mais tarde juntou-se Fred Thomas, cuja contribuição neste disco é muito sensível e por fim o flugelhorn de Matthieu contribui também para a sonoridade de todo o álbum. No disco coexistem temas de inspiração na música tradicional da Albânia, mas também versões de temas popularizados por Sinatra (“I’m A Fool To Want You”) ou Aznavour (“Hier Encore”). Permito-me destacar a cumplicidade entre a guitarra e a voz num disco inesperado. Edição ECM, disponível no Spotify.


 


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HISTÓRIAS DE SEMPRE - No século XIX os irmãos Grimm dedicaram-se ao registo de fábulas infantis e a recolha que efectuaram tornou-se fonte de algumas das histórias infantis mais apreciadas, ainda hoje permanentemente contadas. Do trabalho que desenvolveram saíu a colectânea “Os Contos de Grimm”, cuja primeira edição, em 1812, tinha dois volumes e incluía duas centenas de contos, incluindo clássicos como  “O Rei Sapo”,  “Capuchinho Vermelho”, “Rapunzel”, “Cinderela”, “A Bela Adormecida”, “Hansel e Gretel” ou “Branca de Neve”. Philip Pullman, um escritor britânico que ganhou fama com a trilogia “Mundos Paralelos”, decidiu pegar nas recolhas dos Grimm, escolheu meia centena dos contos mais conhecidos e deu-lhes nova forma, chamando-lhes “Contos de Grimm Para Todas as Idades”, agora editado pela Bertrand. A obra, considerada como “Livro de Ficção do Ano” pelo Sunday Times, inclui em cada conto os comentários de Pullman sobre as versões originais, fazendo o enquadramento na época da primeira edição e a forma como as histórias chegaram ao conhecimento dos irmãos Grimm.


 


O REGRESSO DO CLARETE - Durante os últimos anos, à sombra do ressurgimento de bons brancos e do nascimento de bons rosés nacionais, o clarete infelizmente perdeu espaço e, quase existência. E isto apesar de ser um vinho tradicional, nascido há séculos pelas mãos de monges cistercienses, que assim procuravam um equilíbrio entre uma pequena percentagem dos tintos e os brancos mais nobres, fazendo um vinho rico em aromas e com tons abertos. Mas as coisas estão a mudar e há pouco tempo tive ocasião de provar um clarete surpreendente - um Vineadouro Clarete 2019, feito pelo saber do enólogo Virgílio Loureiro que em boa hora convenceu Teresa e Carlos Lacerda, os proprietários da Quinta de Vineadouro, a arriscarem produzir um clarete - por sinal o primeiro clarete a obter a certificação DOC do Douro. Localizada no Douro Superior, freguesia de Numão, concelho de Vila Nova de Foz Côa, com o rio por perto, a quinta de Vineadouro tem uma mistura de 22 castas tradicionais, bem preservadas, algumas cuja plantação data de há 100 e há 50 anos a uma altitude de 450 metros. É um vinho com mais sabor que cheiro, feito a partir das castas Rabigato, Bastardo, Rufete, Casculho, Marufo e Síria. Aromático, este é um vinho ideal para petiscar, por exemplo ao lado de um queijo de meia cura  e de bom presunto da região. Tive também ocasião de experimentar dos mesmos produtores um branco com a casta histórica do Douro, o Rabigato. É um monocasta, com o sabor intenso daquelas uvas, corpo médio, aromático, fresco. Muito bom, com personalidade vincada. Outro branco notável é o Vineadouro Vinhas Antigas, uma vinha plantada em socalcos há mais de um século, com, entre outras castas, Malvasia Fina, Trincadeira Branca, Gouveio e Carrega Branco. Aromático, sabor intenso, acidez marcante, fantástico para preparar o palato a acompanhar frutos secos torrados. Por último há um tinto - o Vineadouro Reserva de 2017, com Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, corpo e sabor marcantes com madeira de carvalho perceptível mas não dominante. A produção da Quinta ronda as  3000 garrafas e em Lisboa pode encontrar os seus vinhos na garrafeira Néctar das Avenidas, na Avenida Luis Bivar - ou então ir ao site vineadouro.com e fazer a encomenda aos produtores.


 


DIXIT - “Considero necessária a realização de um Congresso extraordinário do PSD para definição, bem antes das eleições autárquicas e legislativas, da política de coligações e entendimentos (do partido) “ - Jorge Moreira da Silva.


 


BACK TO BASICS - “O maior problema não é a falta de dinheiro, é a falta de ideias” - Ken Hakuta, inventor.




novembro 13, 2020

COVID: EM VEZ DE IMPROVISO, ERA BOM HAVER UMA ESTRATÉGIA

 


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CONTRADIÇÕES & DESCUIDOS- No passado dia 10 de Abril António Costa afirmou: “seguramente vai surgir uma segunda vaga Covid no Outono/Inverno”; no dia 15 de Maio a Organização Mundial de Saúde alertou: “Europa pode enfrentar uma segunda vaga letal de Covid-19 a partir do Outono”; no dia 10 de Julho o grupo de peritos que trabalha com a Direcção Geral de Saúde avisou para uma situação de alto risco no Outono; no dia 9 de Novembro António Costa afirmou: ”Ninguém estava à espera que a segunda vaga chegasse tão cedo”. Isto não é ficção nem fake news, encontra-se facilmente quando se faz uma busca no google. A pandemia é um gravíssimo problema de saúde pública, a má comunicação em torno da situação tem complicado as coisas, dificultando o seu combate. O pior começou com a euforia de Junho quando as mais altas figuras do Estado deram o exemplo de participar em espectáculos, quando dirigentes partidários promoveram eventos para multidões, quando o Governo autorizou público numeroso em muitas ocasiões. Os comportamentos contraditórios com as precauções exigidas pela situação motivaram o desleixo. Tiago Correia, investigador na área da saúde defende que o governo “ficou deslumbrado” e preparou mal a segunda vaga. José Manuel Mendes, coordenador do Observatório de Risco, recorda que “na primavera confinámos e no verão fomos mandados de forma eufórica para a praia”. Nas últimas duas semanas morreram em média 43 pessoas por dia, o registo mais alto desde o início da pandemia. Em 20 dias duplicou o número dos internados por Covid nos hospitais do SNS. Têm razão aqueles que afirmam que o Governo baixou os braços no Verão, não previu mecanismos para prevenir a esperada segunda vaga, tomou demasiado tarde a decisão de obrigatoriedade de máscaras, demorou tempo a implementar testes rápidos e quando tudo se agravou de repente andou a correr atrás do prejuízo. Portugal é um dos países europeus em que a população tem maior ileteracia em matérias relacionadas com a saúde. Sabendo tudo isto os responsáveis deviam olhar para a frente, procurar prevenir em vez de remediar. Mas Costa, que finalmente agiu esta semana, mostrou mais uma vez que quando descontrai facilita e falha e acaba por decidir sob pressão - o que causa quase sempre excessos que, se houvesse uma estratégia em vez de um improviso, talvez pudessem ter sido evitados.


 


SEMANADA - Apesar da crise na aviação os cursos para piloto mantêm uma alta procura em Portugal, embora o seu custo oscile entre os 60 e os 115 mil euros; a venda de computadores portáteis aumentou 29% no terceiro trimestre do ano, reflexo do aumento do teletrabalho; as principais empresas de vendas pela internet em Portugal estimam que poderão ter até final do ano um crescimento de 30 a 50% de encomendas; um estudo recente aponta para que o valor de ouro, prata, paládio, platina e cobre existente nos 12,2 milhões de telemóveis que já não são usados e não foram reciclados existentes em Portugal atinge o total de 31 milhões de euros;  no setor da restauração e bebidas, 41% das empresas admitem avançar para a insolvência; a organização Refood está a receber menos donativos de comida devido à situação dos restaurantes e similares e tem praticamente o dobro dos beneficiários que procuram ajuda alimentar; nos últimos seis anos mais de 100 mulheres foram mortas, vítimas de violência doméstica; existem indícios de que o Presidente do Instituto do Desporto terá tentado bloquear a investigação a uma claque do Benfica; a diferença salarial entre homens e mulheres representa 52 dias de trabalho pago; um antigo subchefe dos Bombeiros Voluntários de Alfândega da Fé está a ser julgado sob a acusação de ter ateado 18 incêndios florestais em 2019; a Direção-Geral da Saúde não divulga o número de casos de Covid por concelho desde 26 de outubro, nem mesmo para os 121 concelhos abrangidos por medidas mais restritivas.  


 


ARCO DA VELHA - Um homem de 82 anos arrastou a sua mulher, de 79 anos, para o posto da GNR para a acusar de infidelidade e veio-se a descobrir que ela era vítima de violência doméstica há décadas sempre sob o pretexto de ciúmes.


 


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ARTE POPULAR -  Em semana de inaugurações, em que vejo as novidades na internet no site das galerias, destaco a nova exposição de Mário Belém na Underdogs - “That Moment Between Birth And Death”. O artista trabalha sobre uma base de madeira, obras frequentemente a meio caminho entre a pintura e a escultura, criando uma linguagem visual próxima da cultura popular mas com uma forte componente de reflexão sobre a condição humana nesta época. Esta exposição (na imagem) inclui trabalhos que radicam na observação da realidade vivida este ano e nos efeitos que tem na vida de todos nós. Belém cita uma frase de Mário de Sá-Carneiro como introdução ao seu trabaalho - “Ah! se eu fosse quem sou… Que triunfo!”. Numa outra área da galeria, o espaço Underdogs Capsule, apresenta-se o trabalho de duas artistas convidadas por Mário Belém - Ana+Betânia, que mostram “Wild Fire”. Ana Cruz e Maria de Betânia são duas ceramistas radicadas nas Caldas da Rainha e o seu trabalho é influenciado pela cerâmica popular portuguesa. As exposições ficam até 19 de Dezembro na Underdogs, de segunda a sexta, das 14 às 19h00, na Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila. 


 


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O PIANO - Dave Brubeck tinha 90 anos quando gravou este “Lullabies”, dedicado aos seus netos, muito baseado em temas clássicos e em canções populares junto de crianças. Reeditado agora, este não é um disco de easy-listening, é uma demonstração da capacidade de interpretação de um dos grandes pianistas de jazz, autor de numerosos temas que ficaram para a história da música como “In Your Own Sweet Way” ou “The Duke” ou intérprete de versões de temas como “Take Five” ou “Blue Rondo A La Turk”, ambos originais de Desmond, que com ele manteve uma longa colaboração. Estes grandes êxitos de Brubeck não fazem parte destas “Lullabies”, que percorrem um outro território, apenas com piano. Ao gravar o disco Brubeck recordou que o seu amor pela música e pelo piano veio da sua mãe, que frequentemente tocava para ele desde bebé. O disco começa com uma versão da famosa “lullaby” de Brahms e inclui tradicionais como “When It’s Sleepy Time Down South”, de clássicos como “Over The Rainbow” ou “Summertime”, a inspiração oriental de “Koto Song” e um “Briar Bush” arrebatador. Os fãs de Brubeck têm também um outro recente lançamento, a compilação “Brubeck Standard Time”, que inclui sete dos seus temas mais conhecidos, vários deles gravados ao vivo. Ambos estão disponíveis no Spotify.


 


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PORTO NO TOPO - “The Forecast” é uma publicação anual da revista “Monocle” que chega sempre às bancas nesta altura e se destina a perspectivar o novo ano que se avizinha. Economia, turismo, segurança, urbanismo, e, inevitavelmente, pandemia são alguns dos temas de uma edição que aponta também as melhores cidades para acolher startups e o tipo de arte em que pode valer a pena investir. No seu editorial Tyler Brulé, o fundador da “Monocle” apela à responsabilidade dos mídia nestes tempos em que vivemos, ao apoio dos estados aos serviços públicos de comunicação e informação e à necessidade de reforçar a imprensa livre que promova debates e a mobilização cívica das comunidades a que está ligada. 2020, afirma, foi o ano em que se perceberam mais claramente o tipo de problemas que surgem com o tipo de informação que se apresenta gratuita, como a que surge nas redes sociais, e que mostra visões deformadas e não escrutinadas da verdade - um preço terrível a pagar. “Os responsáveis por esses negócios que se disfarçam como informação devem ser responsabilizados pelos efeitos que as redes sociais geram”, afirma Brulé, que conclui assim:  “Muitas coisas boas acontecem com a digitalização mas não devemos ter receio de denunciar outras que nos são apresentadas como progresso e que no fundo provocam retrocessos na economia, nas pessoas e nas sociedades”. A terminar uma boa notícia: no artigo sobre as melhores pequenas cidades o Porto surge em primeiro lugar da lista.


 


RECEITAS DO CONFINAMENTO - Hoje proponho uma maneira diferente de preparar lombos de salmão. Coloque o forno a aquecer a 200 graus e num recipiente adequado disponha os lombos de salmão com a pele para baixo e tempere-os com azeite de boa qualidade (meia colher de sopa por lombo), sal a gosto e pimenta preta moída na altura. Reserve. A novidade vem no molho que vamos usar para dar um toque especial ao salmão. Numa pequena tigela dissolva uma colher de chá de açafrão moído de boa qualidade em duas colheres de sopa de água morna e mexa bem até o líquido ficar homogéneo com a cor alaranjada. Esprema para o mesmo recipiente o sumo de limão e meio e mexa bem de novo. Deite todo o conteúdo da tigela por cima das postas de salmão e depois disso vire-as, para a pele ficar para cima. Reserve durante quinze minutos enquanto começa a preparar o arroz. Volte a virar os lombos colocando de novo a pele para baixo e coloque no forno durante cerca de 15 minutos. Entretanto comece o arroz, de preferência um basmati de boa qualidade. Meça uma chávena de arroz, lave-o bem em água corrente até ela sair transparente e deixe-o escorrer. Coloque-o numa panela, deite duas colheres de bom azeite, sal a gosto e duas chávenas de água à temperatura ambiente. Mexa bem e espere que comece a ferver. Nessa altura reduza o calor e  misture uma quantidade generosa de endro picado, umas duas ou três colheres de sopa. Vá mexendo de vez em quando até a maior parte da água se ter evaporado, o que deve demorar uns cinco minutos. Só então o tapa da forma mais hermética possível e deixa-o em lume brando uns dez minutos, sempre coberto. Ao fim desse tempo tire-o do lume, mexa bem com um garfo para separar os bagos de arroz, volte a tapá-lo e espere cinco minutos. Ajuste a entrada do salmão no forno ao tempo do arroz para que tudo fique pronto na mesma altura - o salmão deve ficar opaco em cima e levemente rosado no interior. Divida o arroz pelos pratos e coloque os lombos dos salmão por cima, regando com o molho que tenha sobrado. Sirva com um quarto de limão a guarnecer o prato. Bom apetite.


 


DIXIT - “O espaço do centro direita e da direita portuguesa não é o do extremismo, seja esse extremismo convicto ou oportunista” - do texto do manifesto “a clareza que defendemos”.


 


BACK TO BASICS - “Não são aqueles que criaram os problemas que os poderão resolver” - Albert Einstein


 





novembro 06, 2020

UMA SEMANA TRAMADA

 


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O ESTADO DA NAÇÃO - Uma das coisas que na situação actual mais cria desconfiança nas pessoas é a forma de encarar o combate à pandemia num zigue-zague permanente que o Governo desenvolveu nos últimos meses. Houve claramente tratamentos diferenciados entre o que foi permitido e o que foi proibido e nem sempre se percebeu o porquê das decisões num caso e noutro - a Fórmula Um foi o caso recente mais flagrante. O perigo de uma segunda vaga, mais forte e perigosa, era conhecido há muito, ninguém pode dizer que foi uma surpresa. Mas a verdade é que as hesitações e contradições dos últimos meses complicaram passar a mensagem da prudência. O combate à pandemia passa também pelo exemplo, pela comunicação, pela transparência nas decisões, pela capacidade de mostrar uma estratégia. O que acontece é que o Governo andou a correr atrás do prejuízo, tem sido mais reactivo que preventivo. Se há uma estratégia e uma linha clara, por mais polémica que seja (estou a lembrar-me da Suécia…) então aposte-se tudo no que fôr decidido. Mas correr apenas ao sabor do vento não é uma boa solução. Compreendo que há cansaço, em primeiro lugar dos que estão mais directamente envolvidos na coordenação desta luta, mas não pode acontecer que se fique a dormir na forma como aconteceu na maior parte dos últimos meses. Ninguém sabe a cura, mas já muita gente sabe o que não deve acontecer. E houve claramente tolerância a mais - o que gera maus exemplos e agrava todos os problemas. O que estamos agora a passar tem a ver com isso mesmo. Uma semana tramada.


 


SEMANADA - 43% do sector da restauração equaciona insolvência; a transmissão televisiva de touradas em canais de sinal aberto será proibida a partir de 2022; este ano, devido à pandemia, realizaram-se 48 corridas de touros, menos 159 que em 2019;  um rapaz de 16 anos tinha em casa, em Albufeira, duas jibóias, uma pitão e uma tarântula; o número de trabalhadores demitidos em processos de despedimento colectivo entre janeiro e setembro já é de cerca de 5400 e é o mais elevado desde 2014, o último ano da troika em Portugal; a taxa de desemprego, que no segundo trimestre deste ano estava em 5,6%, subiu para 7,8% no período entre julho e setembro; em Portugal o tempo médio gasto por uma empresa para cumprir as obrigações fiscais é de 243 horas, enquanto que na Irlanda é de 82 horas; analisado o processo de pagamento de impostos Portugal é o sexto pior país entre os 141 estudados em relatórios do Fórum Económico Mundial e Banco Mundial;  ao nível da burocracia regulamentar ocupamos o 96º lugar e a 113ª quanto ao funcionamento da justiça; segundo dados do Ministério Público os inquéritos abertos por crimes de corrupção mostram um aumento de 100% entre 2014 e 2018; mais de 600 mil condutores foram detectados em excesso de velocidade desde o início do ano e, apesar da pandemia e da diminuição da circulação, o número de multas aumentou 25%; entre Março e Maio deste ano foram administradas menos 77.300 vacinas, uma queda de 13% face ao período homólogo do ano anterior. 


 


ARCO DA VELHA - Sete condenados do processo “Face Oculta” escapam à cadeia há 9 anos com a apresentação de novos recursos e apenas três outros estão detidos.


 


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A ARTE DO AZULEJO - Desde 1987 a Galeria Ratton dedica-se a fazer do azulejo o suporte para o trabalho de numerosos artistas que vai convidando. Faz peças de arte pública e painéis e azulejos individuais. Agora, em colaboração com a embaixada de Itália, e a propósito de um livro de Antonio Tabucchi, “Requiem”, a Ratton convidou Marta Wengorovius e Pedro Proença para criarem as peças que compõem a exposição “Entre O Sol E A Lua, Uma Alucinação”. A ideia da embaixada de Itália foi homenagear as vítimas da pandemia e ao mesmo tempo manter a sua ligação ao azulejo português que está presente no edifício da embaixada, no pátio e escadaria do Palácio dos Condes de Pombeiro. Assim nasceu o convite a Marta Wengorovius e Pedro Proença para que revisitassem os azulejos do Palácio e criassem um diálogo entre os azulejos e o imaginário presente no único livro escrito em português por António Tabucchi, “Requiem”. Foi assim que os dois artistas se envolveram num processo de criação assente na inspiração recíproca entre pintura e literatura que caracterizou também a obra de Tabucchi. Até 31 de Dezembro, Rua da Academia das Ciências 2C. Outras sugestões: na Galeria Cisterna (Rua António Maria Cardoso 27), Sara Maia mostra uma série de pinturas e desenhos a que chamou “Contadora de Histórias”. E, na nova galeria Sokyo Lisboa (Rua de S. Bento 440), pode ver a primeira exposição em Portugal da ceramista japonesa Mishima Kimiyo.


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O NASCIMENTO DE UMA LENDA - A canadiana Joni Mitchell tinha 20 anos quando gravou as primeiras canções que aparecem num novo conjunto de cinco CD’s, que recuperam gravações antigas, feitas antes ainda de ela ter feito o seu primeiro LP, “Songs To A Seagull” em 1968. Esta caixa é o primeiro volume dos seus arquivos sonoros - The Early Years (1963–1967). Na época das primeiras gravações aqui incluídas ela ainda usava o seu nome verdadeiro, Roberta Joan Anderson e acompanhava-se com um ukulele - a guitarra veio mais tarde. Foi um DJ de rádio de então, Barry Bowman, que no verão de 1963 a convenceu a gravar no estúdio da sua emissora, nove temas folk em duas sessões, e foi um dos amigos desse tempo, Danny Evanishen, que lhe sugeriu aprender guitarra. A primeira faixa do primeiro disco ( e a colectânea está organizada por estrita ordem cronológica de gravação), é o clássico “The House Of The Rising Sun”. As gravações desta sessão só reapareceram em 2015 e, mais tarde, outro material dos anos seguintes descoberto em vários locais. Neil Young, outro canadiano, que também se tem dedicado a recuperar o seu arquivo, ajudou Mitchell neste processo. E foi assim que ao longo de quase um ano se recuperou e remasterizou todo o material que agora aparece nos cinco CD’s. Ao todo são 119 temas, gravados em bares, sem sessões improvisadas, em programas de rádio, em concertos, um pouco por todo o lado. Desde as primeiras gravações, de 1963, até às de 1967 que encerram este primeiro volume dos arquivos, nota-se a evolução de uma criadora - na maneira como usa a voz (mas que está lá desde o início), na forma como imagina a música e a toca e sobretudo como evoluíu de tradicionais folk para as suas próprias composições, introspectivas que vão reflectindo o seu pensamento. Em cinco anos desapareceu Roberta Joan Anderson e nasceu Joni Mitchell. É essa transformação que este primeiro volume dos seus arquivos sonoros mostra. Disponível no Spotify.


 


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ESCRITA GONZO - Histórias urbanas ou ficções publicitárias? Um pouco de ambas. É esta a receita de “Azulejos Pretos”, o novo livro de Pedro Bidarra. O título vem do local central da acção que marca a narrativa - uma casa de banho inteiramente forrada a azulejos negros, toda ela preta, por onde desfilam personagens, se criam casos e se devoram vícios. No fundo, a metáfora da decadência destes tempos onde o mundo se organiza em torno de uma retrete. Mais do que uma crónica sobre noites marginais e personagens em busca de excitações casuais, “Azulejos Pretos” é o retrato do desencanto perante a sucessão de estereótipos que proliferam à nossa volta. A personagem central é o mestre de cerimónias que vê desfilar os actores secundários no palco do WC enquanto tece considerações sobre a sua vida e a dos outros. Há um pouco de evocação do género de escrita que Hunter S. Thompson popularizou como “Gonzo Writing”, onde o autor se confunde com o protagonista. Nas notas de apresentação do livro ele é assim descrito: “ Sendo o romance de um convulso anti-herói, Azulejos Pretos é um fresco cínico, satírico, ácido, mas também escondidamente enternecido das últimas quatro décadas da nossa vida, contadas e rememoradas numa só noite, numa casa de banho de azulejos pretos.”. Duas citações marcam o livro: “Se não fores pássaro, tem cuidado para não acampares à beira de um abismo”, de Nietzsche; a outra é um excerto de “Once In A Lifetime”, uma canção dos Talking Heads, do álbum “Remain In Light”. Como David Byrne cantava, “Well, How Did I Get Here?” - essa é a pergunta que baliza o protagonista da narrativa. Edição Guerra & Paz.


 


VOLTAR À PROVA - Gosto de voltar a restaurantes que não frequento muito mas que me impressionaram numa visita anterior. Umas vezes tenho desilusões, noutras alegrias. E foi com muito contentamento que saí do restaurante A Prova, em Belém, num regresso realizado há poucos dias. O restaurante é pequeno, meia dúzia de mesas e no espaço coexiste uma garrafeira bem escolhida, com preços sensatos, e uma mercearia com bons produtos de várias regiões - queijos, enchidos, conservas e compotas por exemplo.  A casa está nas mãos de um casal, José e Paula - ela na cozinha, ele na sala. Ali vai-se petiscar e Paula gosta de ir propondo coisas novas que vai aperfeiçoando. Desta vez a grande novidade foi um leitão da Bairrada desfiado em crocante de massa filo. Pela mesa circularam também para os quatro comensais batata doce recheada e bolinhas de alheira com geleia de fruta, que também se portaram bem. Ainda melhor se portaram umas vieiras, cozinhadas na chapa, no ponto exacto, muito bem temperadas, a fazer realçar o sabor a mar. No final um requeijão com doce de abóbora rematou uma refeição que foi acompanhada por um tinto do Douro, o Passagem reserva, por um branco da Bairrada, o Bone de Pedro Martim, e um Soalheiro Rosé. Para prova futura ficam os cogumelos selvagens em molho de mostarda e limão e a sanduíche de bolo lêvedo com queijo da ilha e calda de figo. Para quem quiser outros petiscos há preguinhos no pão e tábuas de queijos e enchidos. O Prova tem um serviço de take away com diversas quiches, bacalhau com alheira de caça ou com broa e espinafres e um lombinho de porco wellington, entre outras possibilidades. As entregas são feitas no dia a seguir à encomenda pelos telefones 215819080 ou 966046218 e O Prova fica na Rua Duarte Pacheco Pereira 9E, no Restelo, próximo do célebre café Careca.


 


DIXIT - “A situação é grave e as medidas restritivas são indispensáveis, mas sem liderança e sem mensagem tardarão a produzir efeitos. O Governo esgotou-se” - Paulo Rangel


 


BACK TO BASICS - “O Governo nunca deve ser deixado nas mão de quem cometa acções irresponsáveis” - George Washington


 





outubro 30, 2020

A TEMPESTADE QUE VEIO DOS AÇORES

 


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MAU TEMPO NO CANAL - No fim de semana passado o anticiclone dos Açores extravasou da meteorologia e entrou na política. Após décadas de domínio do PS, surgiu nos votos uma maioria que teoricamente pode fazer uma geringonça à direita. Se isso vai ou não acontecer é outra história. Mas, para memória futura convém registar que, coerente como é hábito, o autor da geringonça em exercício, António Costa, veio logo dizer que o mais votado no arquipélago foi o o PS, cabendo-lhe portanto o governo regional, num extraordinário exercício de amnésia sobre a forma como chegou ao poder apesar de ter perdido em votos para Passos Coelho em 2015. Em abono da verdade deve dizer-se que em 1998 essa incontornável figura do golpe palaciano que foi o Presidente Jorge Sampaio também recusou ao líder do PSD dos Açores de então, Carlos Costa Neves, a possibilidade de avançar para um governo suportado numa maioria do parlamento regional que não incluía o PS, que tinha sido o partido mais votado, mas não tinha a maioria absoluta dos deputados. Como se sabe, apesar das reticências colocadas na época, Cavaco não seguiu o exemplo de Sampaio e permitiu que o PS, com o Bloco, PCP e anexos fosse Governo. Escrevo estas linhas para que a memória não fique desvanecida na espuma dos dias, agora que o perfume da crise política percorre de novo os corredores do parlamento graças à disputa entre PS e Bloco de Esquerda. O que se passou nos Açores é um sinal de que há espaço para a mudança. E que o mau tempo pode chegar dos Açores ao Continente.


 


SEMANADASegundo o estudo da Marktest sobre a utilização da internet, não há diferenças entre os dois géneros no perfil dos utilizadores de redes sociais portugueses,  onde dois em cada três utilizadores têm menos de 45 anos e a maioria (54%) pertence às classes sociais mais altas, enquanto 36% reside nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto; em 2020 já foram identificados 6492 condutores com cartas de condução caducadas; uma sondagem divulgada esta semana indica que 85% dos portugueses são a favor do uso obrigatório de máscara na rua; António Costa acusou o Bloco de ter desertado da esquerda mas manifestou esperança no seu regresso; em Lisboa regista-se um aumento de furtos nomeadamente nas zonas de Belém e Areeiro; as próximas eleições presidenciais terão um custo para o Estado de 3,5 milhões de euros e as autárquicas deverão ultrapassar os 39 milhões; o grupo de peritos nomeados pelo Governo diz ser urgente uma revisão completa dos programas em todos os ciclos de escolaridade; 80% dos imóveis públicos vendidos nos últimos 11 anos foram alienados pelos governos de Sócrates; na proposta de Orçamento de Estado para 2021, entre a entrega da proposta e a votação, o Governo voltou a negociar com os partidos, mostrando abertura para medidas na especialidade que deverão custar pelo menos mais 300 milhões de euros; dos 740 aeroportos comerciais europeus perto de 200 estarão à beira da insolvência se o tráfego aéreo continuar reduzido, ameaçando mais de 250 mil postos de trabalho.


 


ARCO DA VELHA -  A proposta de Orçamento de Estado para 2021 contempla dez mil milhões de euros em “despesas excepcionais” não indicadas, gastos camuflados que representam cerca de 10% da despesa pública anual prevista, um aumento de 50% face a 2020.


 


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OÁSIS RIBEIRINHO -  No MAAT pode ver a partir desta semana e até 18 de Fevereiro a exposição “Um Oásis Ao Entardecer”, que assinala o 20º aniversário dos prémios Fundação EDP, mostrando o trabalho de 20 artistas, com 70 obras.  Lourdes Castro foi a primeira premiada em 2000 e nos anos seguintes seguiram-se Mário Cesariny, Álvaro Lapa, Eduardo Batarda, Jorge Molder, Ana Jotta, Artur Barrio, Joana Vasconcelos, Leonor Antunes, Vasco Araújo, Carlos Bunga, João Maria Gusmão+Pedro Paiva, João Leonardo, André Romão, Gabriel Abrantes, Priscilla Fernandes, Ana Santos, Mariana Silva, Claire de Santa Coloma e Diana Policarpo em 2019. João Pinharanda, que esteve na génese da iniciativa, sublinha que “os prémios são uma sala de espelhos na qual podemos ver multiplicadas algumas das possibilidades de entendimento da arte portuguesa ou feita em Portugal ou feita por artistas portugueses no mundo”. Inês Grosso e Rosa Lleó curadoras da exposição, afirmam que “Um Oásis Ao Entardecer” lança “um olhar para o futuro apontando para os desafios que nos esperam num mundo que sabemos transformado para sempre”. A exposição recorre a obras existentes na colecção da instituição e também a novas encomendas feitas pela Fundação EDP e junta os vencedores do Prémio Novos Artistas e do Grande Prémio Fundação EDP Arte. Outro destaque: no Atelier-Museu Júlio Pomar, abriu há dias a exposição “Os retratos”, que estará patente até 28 de Fevereiro de 2021. É uma mostra da exploração de Pomar do género do retrato ao longo de 70 anos (de 1940 até 2018, ano da sua morte). A exposição percorre as diversas fases da carreira do pintor, do neo-realismo do início de carreira a representações de caráter mais modernista, além de retratos de diversas personalidades nacionais e estrangeiras e também diversos auto retratos do pintor ao longo da vida. Entre os retratados nacionais estão nomes como Fernando Pessoa, Camões, Almada Negreiros e nos internacionais Baudelaire, Dante ou Samuel Beckett, entre outros.


 


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UMA CARTA MUSICAL - No dia 23 de Setembro Bruce Springsteen fez 71 anos. Lançou o seu novo disco nesse dia, “Letter To You”, com três temas inéditos, mas antigos, num total de 12 canções gravadas ao vivo em estúdio com a E Street Band, em Novembro de 2019. Não é por acaso que Springsteen lança um disco que é uma espécie de regresso aos seus manifestos do tempo de “Darkness On The Edge Of Town”, a pouco tempo das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Nem é por acaso que autorizou canções suas em anúncios de televisão anti-Trump. O disco é uma viagem ao passado com evocações do presente, alguma parte dele a evocar a sua banda de adolescente, Castile e um dos seus companheiros da altura, que morreu recentemente, George Theiss - “The Last Man Standing”. Este era o disco que o guitarrista Steven Van Zandt andava há anos a insistir junto de Bruce para ser feito. É um registo cru - dois dos temas antigos,  “If I Was the Priest, e Janey Needs a Priest são dos mais poderosos. Na canção título, é deixado o recado- In my letter to you/ I took all my fears and doubts/ In my letter to you All the hard things I found out/ In my letter to you/All that I've found true”. Este álbum, uma hora e pouco de música, é uma conversa com a E Street Band que se desenvolve há mais de quatro décadas, e foi feito e gravado no estúdio da casa de Springsteen, em meia dúzia de dias com canções onde coexistem os comboios, os rios, os subúrbios e os amores e desamores que são a base do cancioneiro de Springsteen. Disponível no Spotify.


 


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ENSAIO FOTOGRÁFICO - Uma das áreas mais afectadas nos mídia nos últimos anos é a imprensa. Perderam-se receitas de venda e de publicidade e em consequência as reportagens extensas quase desapareceram e com elas os ensaios fotográficos. O fotojornalismo perdeu terreno, paradoxalmente numa época em que a imagem é cada vez mais usada noutros meios. Felizmente surgiram publicações que procuram retomar a importância da reportagem, da abordagem de temas de forma mais profunda e com recurso a imagem, sob a forma impressa. É nessas publicações que o ensaio fotográfico tem  ressurgido. Se a imagem do momento e do acontecimento continua a ser importante, a forma como a fotografia consegue abordar e mostrar um tema de forma abrangente é igualmente importante. “Point.51” é uma publicação de periodicidade anual, que desde o outono de 2018 percorre esse caminho. Os primeiros dois números foram dedicados aos fluxos migratórios e aos problemas que levantam e à situação criada no Reino Unido com o Brexit e tudo o que o envolve. A edição deste ano tem por tema a resiliência, “histórias de coragem em tempos difíceis” e espelha o que se tem passado ao longo destes últimos meses.


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Na edição de Outubro deste ano há um dossier fotográfico, “Cuidador”, trabalho espantoso e perturbante de Teresa Nunes, uma fotojornalista do Porto, que documenta o que é a realidade dos cuidadores informais a partir de um exemplo familiar. Com formação em direito e em fotografia, Teresa Nunes escreveu também o texto que acompanha as imagens que se estendem por 12 páginas da publicação. Teresa Nunes decidiu dedicar-se à fotografia, abandonou a carreira de advocacia, e tem fotografado para a imprensa local, mas também para publicações nacionais como o “Expresso” e o “Observador”. Podem segui-la no Instagram @teresanunesphotography ou no seu site www.teresanunesphotography.pt  Este terceiro número da Point.51 tem histórias de coragem e de resistência de toda a Europa, desde os países nórdicos à Albânia, passando por Espanha, Rússia ou Alemanha. A Point.51 pode ser comprada online, por exemplo através da página de Facebook da publicação.


 


COMIDA RÁPIDA- Para a série comidas do confinamento  hoje tenho uma nova sugestão. Os bolos do caco, de inspiração açoriana, são a melhor versão portuguesa para suporte de sanduíches robustas. O meu conselho é que barrem cada metade com uma mistura de maionese e mostarda, polvilhada de cebolinho e temperada com açafrão. Por cima de cada uma das metades coloque fatias finas de pepino cru, queijo da ilha de S.Miguel, com um toque de compota de pimenta da terra antes de colocarem fatias de presunto cortado finíssimo, com agrião a separar as duas metades. O essencial é que tudo seja cortado muito fino, bem espalhado em várias camadas. O segredo de uma boa sanduíche, não é demais repeti-lo, reside na base escolhida para barrar o pão, no corte fino e na abundância dos ingredientes escolhidos.  Assim todos os sabores são realçados. A ideia de que uma fatia transparente de fiambre de má qualidade e uma fatia irregular de queijo plástico são a base de uma sanduíche é um dos pecados nacionais. Deixo ao vosso gosto se querem aquecer um pouco o pão na torradeira, antes de iniciarem o processo. Eu pessoalmente prescindo. A coisa é bem acompanhada por uma cerveja preta robusta, a Sagres, na minha opinião, de entre as industriais, é a melhor. Garanto que isto vale por uma refeição completa, saborosa e reconfortante.


 


DIXIT - “Todo o governante que sugerir o despedimento de um comentador deve ser imediatamente despedido” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “Não temam ter opiniões exageradas, porque tudo o que agora é aceite como opinião já em tempos foi considerado exagero” - Bertrand Russell