novembro 20, 2020

RIO ENLAMEADO: ENTRE A COEXISTÊNCIA E A FALTA DE PRINCÍPIOS

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UM RIO DE LAMA - Pode acontecer que um partido político decida mudar de estratégia no seguimento de um Congresso. O vencedor muitas vezes surge em oposição ao poder interno anterior ou então como a tábua de salvação num momento de falta de alternativa. Rui Rio venceu o PSD em oposição a Santana Lopes, mas fugiu sempre de explicitar estratégia e táctica política. Ficou sempre indefinido,  preferiu navegar ao sabor do vento. E em vez de uma oposição frontal a António Costa, ao PS e à geringonça, como Santana prometia, Rio decidiu-se por uma coexistência pacífica. Supõe-se que na sua mente estava poder ser a charneira que ressuscitasse um bloco central. Só que a vida não lhe correu de feição - e Costa, que é um político mais hábil de olhos fechados que Rio de olhos bem abertos debaixo de um duche frio, acabou por o acantonar. A isto juntou-se a deriva de um PP órfão de liderança,  que também pouco mais faz que tirar água do porão para não se afundar, e uma divisão do eleitorado urbano não centrista para a Iniciativa Liberal. E, para cúmulo, à direita de PSD e PP começou a crescer uma nova força política, populista, ideologicamente carregada, claramente em ruptura com o sistema, com um líder carismático - André Ventura. Rio foi o encenador do crescimento do Chega e agora, acossado, está disposto a tudo. O que Rui Rio está  a fazer é um exercício de sobrevivência de poder interno no PSD, sem mandato nem coerência, sem estratégia à vista que não seja tentar manter alguma relevância junto dos desesperados do aparelho pela falta de poder. De tudo isto vai sair um PSD mais fraco, uma direita menos credível e muito provavelmente umas eleições dadas de bandeja, de novo, ao PS. A única incógnita é saber o que Marcelo fará depois de ser reeleito: ou tolera Rio ou dá sinais de que o dispensa. Essa vai ser a parte interessante de seguir, ainda durante os ensaios das autárquicas, aposto. 


 


SEMANADA - Relativamente à pandemia, no início da semana, seis em cada dez municípios do país estavam em situação grave; 27 concelhos têm mais de 100 casos por 100 mil habitantes; os concelhos considerados de risco geram 90% da riqueza do país; no fim de semana passado foram detectadas pela GNR três festas no Algarve em que participavam 310 pessoas; o programa de apoio a pessoas carenciadas, financiado por fundos europeus, teve uma execução de apenas 32%; em 2018, segundo o Eurostat,  21,6% da população portuguesa vivia em risco de pobreza ou exclusão social; a pandemia provocou uma queda de 980 milhões de euros de receitas nos hotéis portugueses durante o verão; o investimento dos vistos gold caíu 52% em outubro; um inquérito da CIP aos seus associados  revela que 21%  das empresas admitem ter que reduzir os seus quadros de pessoal devido à situação provocada pela pandemia; no mês de setembro o recurso ao crédito pessoal, linhas a descoberto e aos cartões de crédito aumentou 16% relativamente ao mês anterior; no espaço de um ano encerraram 187 agências bancárias e saíram 1016 trabalhadores da banca; foram apresentadas na Assembleia da República 1542 propostas de alteração ao Orçamento de Estado, um novo recorde; segundo a Marktest 32% dos portugueses com menos de 35 anos tem o hábito de ver Tv online, face aos 3.2% dos indivíduos com mais de 64 anos que também o faz.


 


SINAIS DOS TEMPOS - Por causa da pandemia o negócio da venda de presuntos,salpicões e chouriças de Trás-os-Montes saltou das bancas das feiras para o online.


 


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PAPEL FOTOGRÁFICO - Luís Pavão, conhecido pelas suas fotografias de Lisboa (sobretudo nos anos 80) e pelo seu trabalho na área da preservação da fotografia,  expõe uma série de trabalhos inéditos feitos com a técnica de sensibilização directa do papel fotográfico, sem intermediação de uma câmara. O título da exposição veio do papel usado - Record Rapid (na imagem). No caso foi uma antiga caixa de papel Agfa Record Rapid, um clássico entre os papéis fotográficos para impressão a preto e branco. Os fotogramas recuperam a técnica utilizada por William Fox Talbot nos seus “photogenic drawings” na primeira metade do século XIX.  Aqui o que conta é a capacidade de trabalhar a luz e a sombra, por vezes colocando objectos sobre o papel no momento da sensibilização. Luís Pavão apresenta nesta “Record Rapid” a sua interpretação da fotografia enquanto possibilidade de desenho, substituindo o lápis pela luz e por objectos do quotidiano. Luís Pavão exerce a sua atividade na área de fotografia, além de ter realizado livros e exposições em torno da fotografia documental, é especializado em conservação e digitalização de coleções de fotografia e desde 1991 é conservador das coleções de fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa. A exposição abriu n’A Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C) e estará patente até 19 de Dezembro e, depois, de 13 de Janeiro a 13 de Fevereiro. Continuando na fotografia, mas a norte, destaque para a exposição que assinala os 50 anos de carreira de Alfredo Cunha e que estará patente até Maio do próximo ano no Centro Português de Fotografia, alojado no edifício da Cadeia da Relação, Largo Amor de Perdição, Porto. Alfredo Cunha é um dos mais importantes fotojornalistas portugueses e ao longo do último meio século trabalhou para jornais portugueses e estrangeiros e também para agências noticiosas.


 


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MÚSICA ALBANESA - Apesar da voz grave e cheia, o canto é suave, envolvente. Elina Duni nasceu em Tirana, na Albânia, no início da década de 80 e estudou música na Suíça, para onde foi residir na década de 90. Foi a partir do estudo do piano que descobriu o jazz - género que mais tarde se veio a tornar o seu principal foco de estudo, centrado no canto e composição, no Conservatório de Berna. Foi ainda enquanto estudava que criou o seu quinteto e que procurou uma fusão entre as suas raízes musicais - temas do folclore balcânico - e o jazz. Com o andar dos tempos o quinteto transformou-se em quarteto, com Elina Duni na voz, Rob Luft na guitarra (um elemento marcante da formação), Fred Thomas no piano e bateria e Matthieu Michel nos instrumentos de sopro. A maior parte dos 12 temas deste novo disco, “Lost Ships” são de Elina Duni e de Rob Luft que desde 2017 trabalham em conjunto. Mais tarde juntou-se Fred Thomas, cuja contribuição neste disco é muito sensível e por fim o flugelhorn de Matthieu contribui também para a sonoridade de todo o álbum. No disco coexistem temas de inspiração na música tradicional da Albânia, mas também versões de temas popularizados por Sinatra (“I’m A Fool To Want You”) ou Aznavour (“Hier Encore”). Permito-me destacar a cumplicidade entre a guitarra e a voz num disco inesperado. Edição ECM, disponível no Spotify.


 


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HISTÓRIAS DE SEMPRE - No século XIX os irmãos Grimm dedicaram-se ao registo de fábulas infantis e a recolha que efectuaram tornou-se fonte de algumas das histórias infantis mais apreciadas, ainda hoje permanentemente contadas. Do trabalho que desenvolveram saíu a colectânea “Os Contos de Grimm”, cuja primeira edição, em 1812, tinha dois volumes e incluía duas centenas de contos, incluindo clássicos como  “O Rei Sapo”,  “Capuchinho Vermelho”, “Rapunzel”, “Cinderela”, “A Bela Adormecida”, “Hansel e Gretel” ou “Branca de Neve”. Philip Pullman, um escritor britânico que ganhou fama com a trilogia “Mundos Paralelos”, decidiu pegar nas recolhas dos Grimm, escolheu meia centena dos contos mais conhecidos e deu-lhes nova forma, chamando-lhes “Contos de Grimm Para Todas as Idades”, agora editado pela Bertrand. A obra, considerada como “Livro de Ficção do Ano” pelo Sunday Times, inclui em cada conto os comentários de Pullman sobre as versões originais, fazendo o enquadramento na época da primeira edição e a forma como as histórias chegaram ao conhecimento dos irmãos Grimm.


 


O REGRESSO DO CLARETE - Durante os últimos anos, à sombra do ressurgimento de bons brancos e do nascimento de bons rosés nacionais, o clarete infelizmente perdeu espaço e, quase existência. E isto apesar de ser um vinho tradicional, nascido há séculos pelas mãos de monges cistercienses, que assim procuravam um equilíbrio entre uma pequena percentagem dos tintos e os brancos mais nobres, fazendo um vinho rico em aromas e com tons abertos. Mas as coisas estão a mudar e há pouco tempo tive ocasião de provar um clarete surpreendente - um Vineadouro Clarete 2019, feito pelo saber do enólogo Virgílio Loureiro que em boa hora convenceu Teresa e Carlos Lacerda, os proprietários da Quinta de Vineadouro, a arriscarem produzir um clarete - por sinal o primeiro clarete a obter a certificação DOC do Douro. Localizada no Douro Superior, freguesia de Numão, concelho de Vila Nova de Foz Côa, com o rio por perto, a quinta de Vineadouro tem uma mistura de 22 castas tradicionais, bem preservadas, algumas cuja plantação data de há 100 e há 50 anos a uma altitude de 450 metros. É um vinho com mais sabor que cheiro, feito a partir das castas Rabigato, Bastardo, Rufete, Casculho, Marufo e Síria. Aromático, este é um vinho ideal para petiscar, por exemplo ao lado de um queijo de meia cura  e de bom presunto da região. Tive também ocasião de experimentar dos mesmos produtores um branco com a casta histórica do Douro, o Rabigato. É um monocasta, com o sabor intenso daquelas uvas, corpo médio, aromático, fresco. Muito bom, com personalidade vincada. Outro branco notável é o Vineadouro Vinhas Antigas, uma vinha plantada em socalcos há mais de um século, com, entre outras castas, Malvasia Fina, Trincadeira Branca, Gouveio e Carrega Branco. Aromático, sabor intenso, acidez marcante, fantástico para preparar o palato a acompanhar frutos secos torrados. Por último há um tinto - o Vineadouro Reserva de 2017, com Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, corpo e sabor marcantes com madeira de carvalho perceptível mas não dominante. A produção da Quinta ronda as  3000 garrafas e em Lisboa pode encontrar os seus vinhos na garrafeira Néctar das Avenidas, na Avenida Luis Bivar - ou então ir ao site vineadouro.com e fazer a encomenda aos produtores.


 


DIXIT - “Considero necessária a realização de um Congresso extraordinário do PSD para definição, bem antes das eleições autárquicas e legislativas, da política de coligações e entendimentos (do partido) “ - Jorge Moreira da Silva.


 


BACK TO BASICS - “O maior problema não é a falta de dinheiro, é a falta de ideias” - Ken Hakuta, inventor.




novembro 13, 2020

COVID: EM VEZ DE IMPROVISO, ERA BOM HAVER UMA ESTRATÉGIA

 


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CONTRADIÇÕES & DESCUIDOS- No passado dia 10 de Abril António Costa afirmou: “seguramente vai surgir uma segunda vaga Covid no Outono/Inverno”; no dia 15 de Maio a Organização Mundial de Saúde alertou: “Europa pode enfrentar uma segunda vaga letal de Covid-19 a partir do Outono”; no dia 10 de Julho o grupo de peritos que trabalha com a Direcção Geral de Saúde avisou para uma situação de alto risco no Outono; no dia 9 de Novembro António Costa afirmou: ”Ninguém estava à espera que a segunda vaga chegasse tão cedo”. Isto não é ficção nem fake news, encontra-se facilmente quando se faz uma busca no google. A pandemia é um gravíssimo problema de saúde pública, a má comunicação em torno da situação tem complicado as coisas, dificultando o seu combate. O pior começou com a euforia de Junho quando as mais altas figuras do Estado deram o exemplo de participar em espectáculos, quando dirigentes partidários promoveram eventos para multidões, quando o Governo autorizou público numeroso em muitas ocasiões. Os comportamentos contraditórios com as precauções exigidas pela situação motivaram o desleixo. Tiago Correia, investigador na área da saúde defende que o governo “ficou deslumbrado” e preparou mal a segunda vaga. José Manuel Mendes, coordenador do Observatório de Risco, recorda que “na primavera confinámos e no verão fomos mandados de forma eufórica para a praia”. Nas últimas duas semanas morreram em média 43 pessoas por dia, o registo mais alto desde o início da pandemia. Em 20 dias duplicou o número dos internados por Covid nos hospitais do SNS. Têm razão aqueles que afirmam que o Governo baixou os braços no Verão, não previu mecanismos para prevenir a esperada segunda vaga, tomou demasiado tarde a decisão de obrigatoriedade de máscaras, demorou tempo a implementar testes rápidos e quando tudo se agravou de repente andou a correr atrás do prejuízo. Portugal é um dos países europeus em que a população tem maior ileteracia em matérias relacionadas com a saúde. Sabendo tudo isto os responsáveis deviam olhar para a frente, procurar prevenir em vez de remediar. Mas Costa, que finalmente agiu esta semana, mostrou mais uma vez que quando descontrai facilita e falha e acaba por decidir sob pressão - o que causa quase sempre excessos que, se houvesse uma estratégia em vez de um improviso, talvez pudessem ter sido evitados.


 


SEMANADA - Apesar da crise na aviação os cursos para piloto mantêm uma alta procura em Portugal, embora o seu custo oscile entre os 60 e os 115 mil euros; a venda de computadores portáteis aumentou 29% no terceiro trimestre do ano, reflexo do aumento do teletrabalho; as principais empresas de vendas pela internet em Portugal estimam que poderão ter até final do ano um crescimento de 30 a 50% de encomendas; um estudo recente aponta para que o valor de ouro, prata, paládio, platina e cobre existente nos 12,2 milhões de telemóveis que já não são usados e não foram reciclados existentes em Portugal atinge o total de 31 milhões de euros;  no setor da restauração e bebidas, 41% das empresas admitem avançar para a insolvência; a organização Refood está a receber menos donativos de comida devido à situação dos restaurantes e similares e tem praticamente o dobro dos beneficiários que procuram ajuda alimentar; nos últimos seis anos mais de 100 mulheres foram mortas, vítimas de violência doméstica; existem indícios de que o Presidente do Instituto do Desporto terá tentado bloquear a investigação a uma claque do Benfica; a diferença salarial entre homens e mulheres representa 52 dias de trabalho pago; um antigo subchefe dos Bombeiros Voluntários de Alfândega da Fé está a ser julgado sob a acusação de ter ateado 18 incêndios florestais em 2019; a Direção-Geral da Saúde não divulga o número de casos de Covid por concelho desde 26 de outubro, nem mesmo para os 121 concelhos abrangidos por medidas mais restritivas.  


 


ARCO DA VELHA - Um homem de 82 anos arrastou a sua mulher, de 79 anos, para o posto da GNR para a acusar de infidelidade e veio-se a descobrir que ela era vítima de violência doméstica há décadas sempre sob o pretexto de ciúmes.


 


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ARTE POPULAR -  Em semana de inaugurações, em que vejo as novidades na internet no site das galerias, destaco a nova exposição de Mário Belém na Underdogs - “That Moment Between Birth And Death”. O artista trabalha sobre uma base de madeira, obras frequentemente a meio caminho entre a pintura e a escultura, criando uma linguagem visual próxima da cultura popular mas com uma forte componente de reflexão sobre a condição humana nesta época. Esta exposição (na imagem) inclui trabalhos que radicam na observação da realidade vivida este ano e nos efeitos que tem na vida de todos nós. Belém cita uma frase de Mário de Sá-Carneiro como introdução ao seu trabaalho - “Ah! se eu fosse quem sou… Que triunfo!”. Numa outra área da galeria, o espaço Underdogs Capsule, apresenta-se o trabalho de duas artistas convidadas por Mário Belém - Ana+Betânia, que mostram “Wild Fire”. Ana Cruz e Maria de Betânia são duas ceramistas radicadas nas Caldas da Rainha e o seu trabalho é influenciado pela cerâmica popular portuguesa. As exposições ficam até 19 de Dezembro na Underdogs, de segunda a sexta, das 14 às 19h00, na Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila. 


 


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O PIANO - Dave Brubeck tinha 90 anos quando gravou este “Lullabies”, dedicado aos seus netos, muito baseado em temas clássicos e em canções populares junto de crianças. Reeditado agora, este não é um disco de easy-listening, é uma demonstração da capacidade de interpretação de um dos grandes pianistas de jazz, autor de numerosos temas que ficaram para a história da música como “In Your Own Sweet Way” ou “The Duke” ou intérprete de versões de temas como “Take Five” ou “Blue Rondo A La Turk”, ambos originais de Desmond, que com ele manteve uma longa colaboração. Estes grandes êxitos de Brubeck não fazem parte destas “Lullabies”, que percorrem um outro território, apenas com piano. Ao gravar o disco Brubeck recordou que o seu amor pela música e pelo piano veio da sua mãe, que frequentemente tocava para ele desde bebé. O disco começa com uma versão da famosa “lullaby” de Brahms e inclui tradicionais como “When It’s Sleepy Time Down South”, de clássicos como “Over The Rainbow” ou “Summertime”, a inspiração oriental de “Koto Song” e um “Briar Bush” arrebatador. Os fãs de Brubeck têm também um outro recente lançamento, a compilação “Brubeck Standard Time”, que inclui sete dos seus temas mais conhecidos, vários deles gravados ao vivo. Ambos estão disponíveis no Spotify.


 


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PORTO NO TOPO - “The Forecast” é uma publicação anual da revista “Monocle” que chega sempre às bancas nesta altura e se destina a perspectivar o novo ano que se avizinha. Economia, turismo, segurança, urbanismo, e, inevitavelmente, pandemia são alguns dos temas de uma edição que aponta também as melhores cidades para acolher startups e o tipo de arte em que pode valer a pena investir. No seu editorial Tyler Brulé, o fundador da “Monocle” apela à responsabilidade dos mídia nestes tempos em que vivemos, ao apoio dos estados aos serviços públicos de comunicação e informação e à necessidade de reforçar a imprensa livre que promova debates e a mobilização cívica das comunidades a que está ligada. 2020, afirma, foi o ano em que se perceberam mais claramente o tipo de problemas que surgem com o tipo de informação que se apresenta gratuita, como a que surge nas redes sociais, e que mostra visões deformadas e não escrutinadas da verdade - um preço terrível a pagar. “Os responsáveis por esses negócios que se disfarçam como informação devem ser responsabilizados pelos efeitos que as redes sociais geram”, afirma Brulé, que conclui assim:  “Muitas coisas boas acontecem com a digitalização mas não devemos ter receio de denunciar outras que nos são apresentadas como progresso e que no fundo provocam retrocessos na economia, nas pessoas e nas sociedades”. A terminar uma boa notícia: no artigo sobre as melhores pequenas cidades o Porto surge em primeiro lugar da lista.


 


RECEITAS DO CONFINAMENTO - Hoje proponho uma maneira diferente de preparar lombos de salmão. Coloque o forno a aquecer a 200 graus e num recipiente adequado disponha os lombos de salmão com a pele para baixo e tempere-os com azeite de boa qualidade (meia colher de sopa por lombo), sal a gosto e pimenta preta moída na altura. Reserve. A novidade vem no molho que vamos usar para dar um toque especial ao salmão. Numa pequena tigela dissolva uma colher de chá de açafrão moído de boa qualidade em duas colheres de sopa de água morna e mexa bem até o líquido ficar homogéneo com a cor alaranjada. Esprema para o mesmo recipiente o sumo de limão e meio e mexa bem de novo. Deite todo o conteúdo da tigela por cima das postas de salmão e depois disso vire-as, para a pele ficar para cima. Reserve durante quinze minutos enquanto começa a preparar o arroz. Volte a virar os lombos colocando de novo a pele para baixo e coloque no forno durante cerca de 15 minutos. Entretanto comece o arroz, de preferência um basmati de boa qualidade. Meça uma chávena de arroz, lave-o bem em água corrente até ela sair transparente e deixe-o escorrer. Coloque-o numa panela, deite duas colheres de bom azeite, sal a gosto e duas chávenas de água à temperatura ambiente. Mexa bem e espere que comece a ferver. Nessa altura reduza o calor e  misture uma quantidade generosa de endro picado, umas duas ou três colheres de sopa. Vá mexendo de vez em quando até a maior parte da água se ter evaporado, o que deve demorar uns cinco minutos. Só então o tapa da forma mais hermética possível e deixa-o em lume brando uns dez minutos, sempre coberto. Ao fim desse tempo tire-o do lume, mexa bem com um garfo para separar os bagos de arroz, volte a tapá-lo e espere cinco minutos. Ajuste a entrada do salmão no forno ao tempo do arroz para que tudo fique pronto na mesma altura - o salmão deve ficar opaco em cima e levemente rosado no interior. Divida o arroz pelos pratos e coloque os lombos dos salmão por cima, regando com o molho que tenha sobrado. Sirva com um quarto de limão a guarnecer o prato. Bom apetite.


 


DIXIT - “O espaço do centro direita e da direita portuguesa não é o do extremismo, seja esse extremismo convicto ou oportunista” - do texto do manifesto “a clareza que defendemos”.


 


BACK TO BASICS - “Não são aqueles que criaram os problemas que os poderão resolver” - Albert Einstein


 





novembro 06, 2020

UMA SEMANA TRAMADA

 


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O ESTADO DA NAÇÃO - Uma das coisas que na situação actual mais cria desconfiança nas pessoas é a forma de encarar o combate à pandemia num zigue-zague permanente que o Governo desenvolveu nos últimos meses. Houve claramente tratamentos diferenciados entre o que foi permitido e o que foi proibido e nem sempre se percebeu o porquê das decisões num caso e noutro - a Fórmula Um foi o caso recente mais flagrante. O perigo de uma segunda vaga, mais forte e perigosa, era conhecido há muito, ninguém pode dizer que foi uma surpresa. Mas a verdade é que as hesitações e contradições dos últimos meses complicaram passar a mensagem da prudência. O combate à pandemia passa também pelo exemplo, pela comunicação, pela transparência nas decisões, pela capacidade de mostrar uma estratégia. O que acontece é que o Governo andou a correr atrás do prejuízo, tem sido mais reactivo que preventivo. Se há uma estratégia e uma linha clara, por mais polémica que seja (estou a lembrar-me da Suécia…) então aposte-se tudo no que fôr decidido. Mas correr apenas ao sabor do vento não é uma boa solução. Compreendo que há cansaço, em primeiro lugar dos que estão mais directamente envolvidos na coordenação desta luta, mas não pode acontecer que se fique a dormir na forma como aconteceu na maior parte dos últimos meses. Ninguém sabe a cura, mas já muita gente sabe o que não deve acontecer. E houve claramente tolerância a mais - o que gera maus exemplos e agrava todos os problemas. O que estamos agora a passar tem a ver com isso mesmo. Uma semana tramada.


 


SEMANADA - 43% do sector da restauração equaciona insolvência; a transmissão televisiva de touradas em canais de sinal aberto será proibida a partir de 2022; este ano, devido à pandemia, realizaram-se 48 corridas de touros, menos 159 que em 2019;  um rapaz de 16 anos tinha em casa, em Albufeira, duas jibóias, uma pitão e uma tarântula; o número de trabalhadores demitidos em processos de despedimento colectivo entre janeiro e setembro já é de cerca de 5400 e é o mais elevado desde 2014, o último ano da troika em Portugal; a taxa de desemprego, que no segundo trimestre deste ano estava em 5,6%, subiu para 7,8% no período entre julho e setembro; em Portugal o tempo médio gasto por uma empresa para cumprir as obrigações fiscais é de 243 horas, enquanto que na Irlanda é de 82 horas; analisado o processo de pagamento de impostos Portugal é o sexto pior país entre os 141 estudados em relatórios do Fórum Económico Mundial e Banco Mundial;  ao nível da burocracia regulamentar ocupamos o 96º lugar e a 113ª quanto ao funcionamento da justiça; segundo dados do Ministério Público os inquéritos abertos por crimes de corrupção mostram um aumento de 100% entre 2014 e 2018; mais de 600 mil condutores foram detectados em excesso de velocidade desde o início do ano e, apesar da pandemia e da diminuição da circulação, o número de multas aumentou 25%; entre Março e Maio deste ano foram administradas menos 77.300 vacinas, uma queda de 13% face ao período homólogo do ano anterior. 


 


ARCO DA VELHA - Sete condenados do processo “Face Oculta” escapam à cadeia há 9 anos com a apresentação de novos recursos e apenas três outros estão detidos.


 


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A ARTE DO AZULEJO - Desde 1987 a Galeria Ratton dedica-se a fazer do azulejo o suporte para o trabalho de numerosos artistas que vai convidando. Faz peças de arte pública e painéis e azulejos individuais. Agora, em colaboração com a embaixada de Itália, e a propósito de um livro de Antonio Tabucchi, “Requiem”, a Ratton convidou Marta Wengorovius e Pedro Proença para criarem as peças que compõem a exposição “Entre O Sol E A Lua, Uma Alucinação”. A ideia da embaixada de Itália foi homenagear as vítimas da pandemia e ao mesmo tempo manter a sua ligação ao azulejo português que está presente no edifício da embaixada, no pátio e escadaria do Palácio dos Condes de Pombeiro. Assim nasceu o convite a Marta Wengorovius e Pedro Proença para que revisitassem os azulejos do Palácio e criassem um diálogo entre os azulejos e o imaginário presente no único livro escrito em português por António Tabucchi, “Requiem”. Foi assim que os dois artistas se envolveram num processo de criação assente na inspiração recíproca entre pintura e literatura que caracterizou também a obra de Tabucchi. Até 31 de Dezembro, Rua da Academia das Ciências 2C. Outras sugestões: na Galeria Cisterna (Rua António Maria Cardoso 27), Sara Maia mostra uma série de pinturas e desenhos a que chamou “Contadora de Histórias”. E, na nova galeria Sokyo Lisboa (Rua de S. Bento 440), pode ver a primeira exposição em Portugal da ceramista japonesa Mishima Kimiyo.


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O NASCIMENTO DE UMA LENDA - A canadiana Joni Mitchell tinha 20 anos quando gravou as primeiras canções que aparecem num novo conjunto de cinco CD’s, que recuperam gravações antigas, feitas antes ainda de ela ter feito o seu primeiro LP, “Songs To A Seagull” em 1968. Esta caixa é o primeiro volume dos seus arquivos sonoros - The Early Years (1963–1967). Na época das primeiras gravações aqui incluídas ela ainda usava o seu nome verdadeiro, Roberta Joan Anderson e acompanhava-se com um ukulele - a guitarra veio mais tarde. Foi um DJ de rádio de então, Barry Bowman, que no verão de 1963 a convenceu a gravar no estúdio da sua emissora, nove temas folk em duas sessões, e foi um dos amigos desse tempo, Danny Evanishen, que lhe sugeriu aprender guitarra. A primeira faixa do primeiro disco ( e a colectânea está organizada por estrita ordem cronológica de gravação), é o clássico “The House Of The Rising Sun”. As gravações desta sessão só reapareceram em 2015 e, mais tarde, outro material dos anos seguintes descoberto em vários locais. Neil Young, outro canadiano, que também se tem dedicado a recuperar o seu arquivo, ajudou Mitchell neste processo. E foi assim que ao longo de quase um ano se recuperou e remasterizou todo o material que agora aparece nos cinco CD’s. Ao todo são 119 temas, gravados em bares, sem sessões improvisadas, em programas de rádio, em concertos, um pouco por todo o lado. Desde as primeiras gravações, de 1963, até às de 1967 que encerram este primeiro volume dos arquivos, nota-se a evolução de uma criadora - na maneira como usa a voz (mas que está lá desde o início), na forma como imagina a música e a toca e sobretudo como evoluíu de tradicionais folk para as suas próprias composições, introspectivas que vão reflectindo o seu pensamento. Em cinco anos desapareceu Roberta Joan Anderson e nasceu Joni Mitchell. É essa transformação que este primeiro volume dos seus arquivos sonoros mostra. Disponível no Spotify.


 


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ESCRITA GONZO - Histórias urbanas ou ficções publicitárias? Um pouco de ambas. É esta a receita de “Azulejos Pretos”, o novo livro de Pedro Bidarra. O título vem do local central da acção que marca a narrativa - uma casa de banho inteiramente forrada a azulejos negros, toda ela preta, por onde desfilam personagens, se criam casos e se devoram vícios. No fundo, a metáfora da decadência destes tempos onde o mundo se organiza em torno de uma retrete. Mais do que uma crónica sobre noites marginais e personagens em busca de excitações casuais, “Azulejos Pretos” é o retrato do desencanto perante a sucessão de estereótipos que proliferam à nossa volta. A personagem central é o mestre de cerimónias que vê desfilar os actores secundários no palco do WC enquanto tece considerações sobre a sua vida e a dos outros. Há um pouco de evocação do género de escrita que Hunter S. Thompson popularizou como “Gonzo Writing”, onde o autor se confunde com o protagonista. Nas notas de apresentação do livro ele é assim descrito: “ Sendo o romance de um convulso anti-herói, Azulejos Pretos é um fresco cínico, satírico, ácido, mas também escondidamente enternecido das últimas quatro décadas da nossa vida, contadas e rememoradas numa só noite, numa casa de banho de azulejos pretos.”. Duas citações marcam o livro: “Se não fores pássaro, tem cuidado para não acampares à beira de um abismo”, de Nietzsche; a outra é um excerto de “Once In A Lifetime”, uma canção dos Talking Heads, do álbum “Remain In Light”. Como David Byrne cantava, “Well, How Did I Get Here?” - essa é a pergunta que baliza o protagonista da narrativa. Edição Guerra & Paz.


 


VOLTAR À PROVA - Gosto de voltar a restaurantes que não frequento muito mas que me impressionaram numa visita anterior. Umas vezes tenho desilusões, noutras alegrias. E foi com muito contentamento que saí do restaurante A Prova, em Belém, num regresso realizado há poucos dias. O restaurante é pequeno, meia dúzia de mesas e no espaço coexiste uma garrafeira bem escolhida, com preços sensatos, e uma mercearia com bons produtos de várias regiões - queijos, enchidos, conservas e compotas por exemplo.  A casa está nas mãos de um casal, José e Paula - ela na cozinha, ele na sala. Ali vai-se petiscar e Paula gosta de ir propondo coisas novas que vai aperfeiçoando. Desta vez a grande novidade foi um leitão da Bairrada desfiado em crocante de massa filo. Pela mesa circularam também para os quatro comensais batata doce recheada e bolinhas de alheira com geleia de fruta, que também se portaram bem. Ainda melhor se portaram umas vieiras, cozinhadas na chapa, no ponto exacto, muito bem temperadas, a fazer realçar o sabor a mar. No final um requeijão com doce de abóbora rematou uma refeição que foi acompanhada por um tinto do Douro, o Passagem reserva, por um branco da Bairrada, o Bone de Pedro Martim, e um Soalheiro Rosé. Para prova futura ficam os cogumelos selvagens em molho de mostarda e limão e a sanduíche de bolo lêvedo com queijo da ilha e calda de figo. Para quem quiser outros petiscos há preguinhos no pão e tábuas de queijos e enchidos. O Prova tem um serviço de take away com diversas quiches, bacalhau com alheira de caça ou com broa e espinafres e um lombinho de porco wellington, entre outras possibilidades. As entregas são feitas no dia a seguir à encomenda pelos telefones 215819080 ou 966046218 e O Prova fica na Rua Duarte Pacheco Pereira 9E, no Restelo, próximo do célebre café Careca.


 


DIXIT - “A situação é grave e as medidas restritivas são indispensáveis, mas sem liderança e sem mensagem tardarão a produzir efeitos. O Governo esgotou-se” - Paulo Rangel


 


BACK TO BASICS - “O Governo nunca deve ser deixado nas mão de quem cometa acções irresponsáveis” - George Washington


 





outubro 30, 2020

A TEMPESTADE QUE VEIO DOS AÇORES

 


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MAU TEMPO NO CANAL - No fim de semana passado o anticiclone dos Açores extravasou da meteorologia e entrou na política. Após décadas de domínio do PS, surgiu nos votos uma maioria que teoricamente pode fazer uma geringonça à direita. Se isso vai ou não acontecer é outra história. Mas, para memória futura convém registar que, coerente como é hábito, o autor da geringonça em exercício, António Costa, veio logo dizer que o mais votado no arquipélago foi o o PS, cabendo-lhe portanto o governo regional, num extraordinário exercício de amnésia sobre a forma como chegou ao poder apesar de ter perdido em votos para Passos Coelho em 2015. Em abono da verdade deve dizer-se que em 1998 essa incontornável figura do golpe palaciano que foi o Presidente Jorge Sampaio também recusou ao líder do PSD dos Açores de então, Carlos Costa Neves, a possibilidade de avançar para um governo suportado numa maioria do parlamento regional que não incluía o PS, que tinha sido o partido mais votado, mas não tinha a maioria absoluta dos deputados. Como se sabe, apesar das reticências colocadas na época, Cavaco não seguiu o exemplo de Sampaio e permitiu que o PS, com o Bloco, PCP e anexos fosse Governo. Escrevo estas linhas para que a memória não fique desvanecida na espuma dos dias, agora que o perfume da crise política percorre de novo os corredores do parlamento graças à disputa entre PS e Bloco de Esquerda. O que se passou nos Açores é um sinal de que há espaço para a mudança. E que o mau tempo pode chegar dos Açores ao Continente.


 


SEMANADASegundo o estudo da Marktest sobre a utilização da internet, não há diferenças entre os dois géneros no perfil dos utilizadores de redes sociais portugueses,  onde dois em cada três utilizadores têm menos de 45 anos e a maioria (54%) pertence às classes sociais mais altas, enquanto 36% reside nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto; em 2020 já foram identificados 6492 condutores com cartas de condução caducadas; uma sondagem divulgada esta semana indica que 85% dos portugueses são a favor do uso obrigatório de máscara na rua; António Costa acusou o Bloco de ter desertado da esquerda mas manifestou esperança no seu regresso; em Lisboa regista-se um aumento de furtos nomeadamente nas zonas de Belém e Areeiro; as próximas eleições presidenciais terão um custo para o Estado de 3,5 milhões de euros e as autárquicas deverão ultrapassar os 39 milhões; o grupo de peritos nomeados pelo Governo diz ser urgente uma revisão completa dos programas em todos os ciclos de escolaridade; 80% dos imóveis públicos vendidos nos últimos 11 anos foram alienados pelos governos de Sócrates; na proposta de Orçamento de Estado para 2021, entre a entrega da proposta e a votação, o Governo voltou a negociar com os partidos, mostrando abertura para medidas na especialidade que deverão custar pelo menos mais 300 milhões de euros; dos 740 aeroportos comerciais europeus perto de 200 estarão à beira da insolvência se o tráfego aéreo continuar reduzido, ameaçando mais de 250 mil postos de trabalho.


 


ARCO DA VELHA -  A proposta de Orçamento de Estado para 2021 contempla dez mil milhões de euros em “despesas excepcionais” não indicadas, gastos camuflados que representam cerca de 10% da despesa pública anual prevista, um aumento de 50% face a 2020.


 


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OÁSIS RIBEIRINHO -  No MAAT pode ver a partir desta semana e até 18 de Fevereiro a exposição “Um Oásis Ao Entardecer”, que assinala o 20º aniversário dos prémios Fundação EDP, mostrando o trabalho de 20 artistas, com 70 obras.  Lourdes Castro foi a primeira premiada em 2000 e nos anos seguintes seguiram-se Mário Cesariny, Álvaro Lapa, Eduardo Batarda, Jorge Molder, Ana Jotta, Artur Barrio, Joana Vasconcelos, Leonor Antunes, Vasco Araújo, Carlos Bunga, João Maria Gusmão+Pedro Paiva, João Leonardo, André Romão, Gabriel Abrantes, Priscilla Fernandes, Ana Santos, Mariana Silva, Claire de Santa Coloma e Diana Policarpo em 2019. João Pinharanda, que esteve na génese da iniciativa, sublinha que “os prémios são uma sala de espelhos na qual podemos ver multiplicadas algumas das possibilidades de entendimento da arte portuguesa ou feita em Portugal ou feita por artistas portugueses no mundo”. Inês Grosso e Rosa Lleó curadoras da exposição, afirmam que “Um Oásis Ao Entardecer” lança “um olhar para o futuro apontando para os desafios que nos esperam num mundo que sabemos transformado para sempre”. A exposição recorre a obras existentes na colecção da instituição e também a novas encomendas feitas pela Fundação EDP e junta os vencedores do Prémio Novos Artistas e do Grande Prémio Fundação EDP Arte. Outro destaque: no Atelier-Museu Júlio Pomar, abriu há dias a exposição “Os retratos”, que estará patente até 28 de Fevereiro de 2021. É uma mostra da exploração de Pomar do género do retrato ao longo de 70 anos (de 1940 até 2018, ano da sua morte). A exposição percorre as diversas fases da carreira do pintor, do neo-realismo do início de carreira a representações de caráter mais modernista, além de retratos de diversas personalidades nacionais e estrangeiras e também diversos auto retratos do pintor ao longo da vida. Entre os retratados nacionais estão nomes como Fernando Pessoa, Camões, Almada Negreiros e nos internacionais Baudelaire, Dante ou Samuel Beckett, entre outros.


 


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UMA CARTA MUSICAL - No dia 23 de Setembro Bruce Springsteen fez 71 anos. Lançou o seu novo disco nesse dia, “Letter To You”, com três temas inéditos, mas antigos, num total de 12 canções gravadas ao vivo em estúdio com a E Street Band, em Novembro de 2019. Não é por acaso que Springsteen lança um disco que é uma espécie de regresso aos seus manifestos do tempo de “Darkness On The Edge Of Town”, a pouco tempo das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Nem é por acaso que autorizou canções suas em anúncios de televisão anti-Trump. O disco é uma viagem ao passado com evocações do presente, alguma parte dele a evocar a sua banda de adolescente, Castile e um dos seus companheiros da altura, que morreu recentemente, George Theiss - “The Last Man Standing”. Este era o disco que o guitarrista Steven Van Zandt andava há anos a insistir junto de Bruce para ser feito. É um registo cru - dois dos temas antigos,  “If I Was the Priest, e Janey Needs a Priest são dos mais poderosos. Na canção título, é deixado o recado- In my letter to you/ I took all my fears and doubts/ In my letter to you All the hard things I found out/ In my letter to you/All that I've found true”. Este álbum, uma hora e pouco de música, é uma conversa com a E Street Band que se desenvolve há mais de quatro décadas, e foi feito e gravado no estúdio da casa de Springsteen, em meia dúzia de dias com canções onde coexistem os comboios, os rios, os subúrbios e os amores e desamores que são a base do cancioneiro de Springsteen. Disponível no Spotify.


 


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ENSAIO FOTOGRÁFICO - Uma das áreas mais afectadas nos mídia nos últimos anos é a imprensa. Perderam-se receitas de venda e de publicidade e em consequência as reportagens extensas quase desapareceram e com elas os ensaios fotográficos. O fotojornalismo perdeu terreno, paradoxalmente numa época em que a imagem é cada vez mais usada noutros meios. Felizmente surgiram publicações que procuram retomar a importância da reportagem, da abordagem de temas de forma mais profunda e com recurso a imagem, sob a forma impressa. É nessas publicações que o ensaio fotográfico tem  ressurgido. Se a imagem do momento e do acontecimento continua a ser importante, a forma como a fotografia consegue abordar e mostrar um tema de forma abrangente é igualmente importante. “Point.51” é uma publicação de periodicidade anual, que desde o outono de 2018 percorre esse caminho. Os primeiros dois números foram dedicados aos fluxos migratórios e aos problemas que levantam e à situação criada no Reino Unido com o Brexit e tudo o que o envolve. A edição deste ano tem por tema a resiliência, “histórias de coragem em tempos difíceis” e espelha o que se tem passado ao longo destes últimos meses.


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Na edição de Outubro deste ano há um dossier fotográfico, “Cuidador”, trabalho espantoso e perturbante de Teresa Nunes, uma fotojornalista do Porto, que documenta o que é a realidade dos cuidadores informais a partir de um exemplo familiar. Com formação em direito e em fotografia, Teresa Nunes escreveu também o texto que acompanha as imagens que se estendem por 12 páginas da publicação. Teresa Nunes decidiu dedicar-se à fotografia, abandonou a carreira de advocacia, e tem fotografado para a imprensa local, mas também para publicações nacionais como o “Expresso” e o “Observador”. Podem segui-la no Instagram @teresanunesphotography ou no seu site www.teresanunesphotography.pt  Este terceiro número da Point.51 tem histórias de coragem e de resistência de toda a Europa, desde os países nórdicos à Albânia, passando por Espanha, Rússia ou Alemanha. A Point.51 pode ser comprada online, por exemplo através da página de Facebook da publicação.


 


COMIDA RÁPIDA- Para a série comidas do confinamento  hoje tenho uma nova sugestão. Os bolos do caco, de inspiração açoriana, são a melhor versão portuguesa para suporte de sanduíches robustas. O meu conselho é que barrem cada metade com uma mistura de maionese e mostarda, polvilhada de cebolinho e temperada com açafrão. Por cima de cada uma das metades coloque fatias finas de pepino cru, queijo da ilha de S.Miguel, com um toque de compota de pimenta da terra antes de colocarem fatias de presunto cortado finíssimo, com agrião a separar as duas metades. O essencial é que tudo seja cortado muito fino, bem espalhado em várias camadas. O segredo de uma boa sanduíche, não é demais repeti-lo, reside na base escolhida para barrar o pão, no corte fino e na abundância dos ingredientes escolhidos.  Assim todos os sabores são realçados. A ideia de que uma fatia transparente de fiambre de má qualidade e uma fatia irregular de queijo plástico são a base de uma sanduíche é um dos pecados nacionais. Deixo ao vosso gosto se querem aquecer um pouco o pão na torradeira, antes de iniciarem o processo. Eu pessoalmente prescindo. A coisa é bem acompanhada por uma cerveja preta robusta, a Sagres, na minha opinião, de entre as industriais, é a melhor. Garanto que isto vale por uma refeição completa, saborosa e reconfortante.


 


DIXIT - “Todo o governante que sugerir o despedimento de um comentador deve ser imediatamente despedido” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “Não temam ter opiniões exageradas, porque tudo o que agora é aceite como opinião já em tempos foi considerado exagero” - Bertrand Russell


 


 

outubro 23, 2020

OS FOTOGÉNICOS FAZEM TUDO MENOS MUDAR O SISTEMA

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COMEÇOU O PERÍODO ELEITORAL - Passemos por cima do caso de diversão da semana que foi o topless presidencial.  Portugal tem certamente o maior número de casos de presidentes da república que se prestam a criar oportunidades fotográficas a subir a coqueiros, em calção de banho ou de tronco nu. Adiante nas distracções, vamos ao que interessa. Esta semana marca o início de um ciclo eleitoral com as eleições regionais dos Açores e Madeira, depois virão as presidenciais e, lá para o final do próximo ano, as autárquicas. Entrámos pois de facto num período de campanha eleitoral que se estende por um ano e não me consta que os protagonistas do assunto tenham tido vontade de aperfeiçoar o sistema político, o funcionamento dos partidos nem os processos eleitorais propriamente ditos. Com a abstenção nos números que se conhecem, ainda para mais numa conjuntura de pandemia, seria desejável que, em vez de se mostrar, o Presidente da República promovesse um debate sério sobre o assunto. Ao longo dos anos de exercício deste seu mandato não o fez, e é pena. É porventura a maior lacuna da sua actividade e, se as selfies ficam para a história, também a relutância de Marcelo Rebelo de Sousa em mudar o status quo ficará. Alguns países, como a Nova Zelândia, a Alemanha ou regiões do Reino Unido usam um sistema eleitoral misto em que cada eleitor dispõe de dois votos - um nominal para escolher o representante para o órgão a eleger e outro para indicar um partido político que considerem dever estar representado - pode nem ser o mesmo do candidato. Os lugares são preenchidos primeiro pelos candidatos mais votados e depois, os lugares sobrantes, são divididos pelos partidos concorrentes de forma proporcional aos votos obtidos a nível nacional ou regional. Assim os votos não se dirigem só a partidos políticos, mas a pessoas concretas e evidentemente que é mais fácil renovar os protagonistas políticos. O sistema tem a vantagem de privilegiar a confiança dos eleitores nos candidatos, em vez de se entregarem às máquinas partidárias. Temos ainda um longo caminho a percorrer, mas é sempre altura de o iniciar.


 


SEMANADA - Nos últimos cinco anos saíram do INEM 250 técnicos e as principais razões são os baixos salários e o risco na actividade, que levam muitos a abandonar logo no período experimental; 55% dos novos desempregados são trabalhadores precários; no Algarve o desemprego subiu 123%; no verão deste ano foram registados em Portugal menos 137 mil voos que no mesmo período do ano passado, uma quebra de cerca de 60%; quase 40% das empresas do distrito de Aveiro sofreram paragens devido à pandemia; o programa de acesso à habitação lançado pelo Governo há dois anos só executou 8% das verbas disponíveis; empresas chinesas de máscaras e equipamento hospitalar foram as principais fornecedores de serviços de saúde oficiais portugueses durante a pandemia; 253 ventiladores importados da China ainda não foram distribuídos aos hospitais do SNS porque aguardam inspecção; segundo a Marktest mais de quatro milhões de portugueses ouvem música online, com o YouTube em primeiro lugar e o Spotify em segundo a serem as plataformas mais usadas; a maioria dos contágios verificados em estabelecimentos do ensino superior foram causados por festas relacionadas com o programa Erasmus; cinco profissionais de saúde sofrem agressões todos os dias; o diretor nacional da Polícia Judiciária admitiu ter poucos inspectores e peritos para combater eficazmente a corrupção; a Câmara Municipal de Trofa é acusada de ter gasto quase 75 mil euros em votos telefónicos num concurso da RTP para eleger os Santeiros de S. Mamede do Coronado como uma das “7 Maravilhas da Cultura Popular”.


 


ARCO DA VELHA  - No serviço de Psiquiatria do Hospital de Viseu foram detectados ratos e serpentes.


 


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OUSADIA E TALENTO - A mais surpreendente e disruptiva exposição que me foi dado ver nos últimos meses está na Galeria Valbom , KWZero, feita pelo colectivo com o mesmo nome constituído por Manuel João Vieira, Pedro Portugal e Pedro Proença. O título é um tributo aos artistas do grupo KWY dos anos 50/60 do século XX e à Alternativa Zero, de Ernesto de Sousa. Vieira, Portugal e Proença são companheiros de longa data em aventuras como o Movimento Homeoestético. Nesta exposição, que se estende nos dois pisos da Valbom, são apresentados mais de seis dezenas de  objectos, esculturas, instalações, desenhos, aguarelas, fotografias, pinturas e videos, que na inauguração foram complementados por uma performance. Manuel João Vieira, Pedro Proença e Pedro Portugal, em nome próprio ou com as identidades alternativas que escolheram, complementam-se, não só na linguagem visual que cada um utilizou, mas também na abordagem criativa que desenvolvem. entre o humor e a provocação. As obras são desafiantes muitas vezes mas nunca desprovidas de sentido nem meramente exibicionistas ou gratuitas. Em paralelo com as intervenções e criações mais provocadoras estão trabalhos que mostram o talento e a criatividade de Manuel João Vieira,  Pedro Portugal ou Pedro Proença, desde quadros de grandes dimensões a óleo, até  esculturas e uma série de aguarelas, muitas das obras com um sentido de observação do presente, evocando mesmo, por exemplo, a  linguagem visual contemporânea de símbolos como os emojis. A exposição fica patente até 12 de Dezembro na Galeria Valbom, avenida Conde de Valbom 89A, entre as 13 e as 19h30, de segunda a sábado.


 


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O FADO VADIO  - Para além de artista plástico, Manuel João Vieira é verdadeiramente um músico dos sete instrumentos. Esta faceta musical tem uma particularidade rara - que é um grande conhecimento de diversos repertórios antigos, não só da música portuguesa, mas também do cancioneiro popular de outros países como a Itália , a França ou os Estados Unidos. Manuel João Vieira é um apaixonado pela canção, os clássicos românticos e os temas brejeiros. A maneira como os canta é sempre subversiva e muito própria. Desta vez, no novo disco “Anatomia do Fado”, atirou-se a este género musical, recorrente na sua actividade ao longo dos últimos anos. “Anatomia do Fado” é um CD duplo, editado pelo Museu do Fado, que inclui 32 faixas. Há numerosos temas originais de Manuel João Vieira e versões como a que fez, por exemplo “A Estação das Chuvas”, baseado em “La Saison Des Pluies” de Serge Gainsbourg. E clássicos como “Fado Boi” de Frederico Valério, “Duas Mortalhas” de Linhares Barbosa ou “Amor É Água Que Corre”, de Alfredo Duarte ou “Procuro E Não Te Encontro”, de Nóbrega e Sousa. E, depois, há os fados humorísticos, em grande parte do repertório original de Joaquim Cordeiro que Manuel João Vieira descobriu em discos que foi comprando ao longo dos anos na Feira da Ladra. A capa do disco reproduz um pormenor do quadro “Fado Vadio”, do pintor João Vieira, pai de Manuel João e ele próprio um apreciador de fado e da canção tradicional, que gostava de cantar e gravou até um disco de boleros. O livrinho que acompanha o disco tem desenhos do próprio Manuel João Vieira, que nas gravações canta e toca bandolim, acompanhado por Vital da Assunção na viola, Arménio de Melo na guitarra portuguesa, Múcio Sá no baixo e viola e Sandro Costa também na guitarra portuguesa nalguns temas. Manuel João Vieira não é um fadista, é um músico que canta o que lhe dá gozo, com um enorme sentido de humor e um jeito entre o brejeiro e sentimental. É raro hoje em dia  encontrar um disco tão divertido e sentido. Esta edição pode ser encontrada nas lojas da FNAC.


 


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ENTRE AS PALAVRAS E A IMAGEM  - Mário Cesariny é personagem marcante da cultura portuguesa do século XX e distinguiu-se na escrita, nomeadamente na poesia, mas também como artista plástico. Prosseguindo a recuperação da obra do autor, a Assírio & Alvim editou agora “Poemas Dramáticos e Pictopoemas”. Na primeira parte, que agrupa os poemas dramáticos,  estão reunidos textos não constantes de recolhas anteriores, como as peças “Consultório do Dr. Pena e do Dr. Pluma”, “Um Auto para Jerusalém”, “Titânia” e o guião cinematográfico “A Norma de Bellini”. Esta edição de “Poemas Dramáticos e Pictopoemas” inclui ainda três peças nunca antes publicadas em livro: “Projecto de Rebelião”, “O Processo” e “Projecto não Terminado para Teatro Radiofónico”. A segunda parte, Pictopoemas, agrupa em mais de 200 páginas uma série de obras plásticas,, nomeadamente desenhos e intervenções acutilantes feitas a partir de recortes de imprensa, juntando títulos, por vezes imagens. Mário Cesariny foi um dos principais fundadores do movimento surrealista português, contemporâneo ao lado de Cruzeiro Seixas, de António Maria Lisboa ou Mário-Henrique Leiria, entre outros. Não resisto a terminar com uma citação da peça “Titânia”, que espelha bem como Cesariny olhava em redor: “O diabo português é o diabo mais grosseiro que há, nunca se definiu. Apesar disso, dura, e é dos mais temidos. Saiba-se lá porquê! Muito desconfio ser o nosso diabo coisa tão junta à cabeça de baixo que nunca chegará à cabeça de cima, esse nobre capitel onde se aninham Faustos, Margaridas e as Seduções do Espírito”.


 


COMIDA RÁPIDA- Ao fim destes meses de pandemia a imaginação culinária já não é famosa. De modo que me vou inspirando em receitas de algumas newsletters. Aqui fica uma ideia para uma refeição pouco trabalhosa e rápida - vou chamar-lhe lasagna aldrabada. Primeiro escolhem uns ravioli de massa fresca pré preparados, por exemplo de espinafres e ricotta. eu gosto dos fabricados pela Rana. Depois uma embalagem de molho de tomate pré-preparado de tomate e manjericão, pode ser da marca Barilla, que deitam num recipiente de ir ao forno (que entretanto já puseram a aquecer a 200 graus). Por cima deitam os ravioli, mexem bem para serem envolvidos e tapados pelo molho, colocam uma camada de queijo mozzarella às farripas, por cima mais, uma camada de raviolis, temperam com um pouco de pimenta a gosto e no fim colocam mais molho de tomate com manjericão, queijo parmesão ralado numa quantidade generosa e levam ao forno quinze minutos, com o grill ligado nos últimos cinco. Está pronto. Bom apetite.


 


DIXIT - “Porque razão gostam tanto do povo e tão pouco do público” - António-Pedro Vasconcelos sobre a oposição à nova Lei do Cinema.


 


BACK TO BASICS - “Todas as gerações se imaginam mais conhecedoras que aquelas que a precederam e mais sábias que as que lhe vão suceder” - George Orwell


 





outubro 16, 2020

UM DESTINO INCERTO

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SINAIS CONFUSOS - Este ano tenho viajado cá dentro - quer dizer, tenho sobretudo andado por diversos pontos do país, de carro. Ao longo de todas as viagens deparei-me com um fenómeno constante: a sinalização e as indicações de destinos existentes nas estradas não são coerentes no espaço de poucos quilómetros, quase sempre são confusas e serão muito adequadas para quem conhece a estrada mas completamente inúteis para quem por lá passa pela primeira vez. Não creio que fosse muito difícil garantir que uma direcção se mantivesse presente, em vez de surgirem variantes que só servem para baralhar. Mas há uma novidade, vinda aliás do Governo e do Parlamento. A proposta de orçamento de Estado para 2021 parece uma estrada mal sinalizada. Surgem indicações contraditórias, há falta de consistência na informação, contradição entre as narrativas dos destinatários. E, o destino apresenta-se incerto: Bloco faz ultimatos, PCP esconde-se num tabu, o PAN baralha as contas, o PSD perdeu o GPS e não sabe para onde há-de ir, o PS ameaça com crise política e o Presidente da República coloca sinais de STOP por todo o lado, baralhando ainda mais o trânsito. A verdade é esta: o percurso está difícil, a viagem é acidentada e falta descobrir qual a melhor saída para o país prosseguir viagem. 





SEMANADA - Os gabinetes dos 70 membros do Governo actual têm ao seu serviço 1236 pessoas, um recorde desde 2011; as consultas de jovens até aos 19 anos motivadas por Covid-19 aumentaram de 2500 para 12500 por semana nos centros de saúde durante Setembro, o mês do regresso às aulas; quase metade do orçamento previsto para o Ministério da Cultura destina-se à RTP e RDP; um relatório da Transparência Internacional afirma que Portugal falha na aplicação da lei contra a corrupção no comércio internacional; nos primeiros nove meses deste ano nasceram mais bebés no Porto e menos em Lisboa; em 2020 aumentou o número de divórcios em relação ao ano anterior; no Orçamento de Estado para 2021 a receita prevista com taxas e multas cresce 35,2% para um total de 3175 milhões de euros; as taxas de notariado, registo predial, comercial e civil sobem mais de 200%; uma inspectora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras terá processado mais de seis mil vistos fraudulentos para uma rede de imigração ilegal que atingiu também funcionários da Autoridade Tributária e da Segurança Social; segundo o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, desenvolvido pela Marktest, o TikTok, que este ano é analisado pela primeira vez, entrou diretamente para a quinta posição, atrás do Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp que ocupam as quatro primerias posições.





NOTÍCIAS DO EIXO BELÉM-S.BENTO - Um erro na proposta de Lei do Orçamento motivou sobressaltos em Belém: previa-se para 2021 uma dotação para a Presidência da República que era o dobro da verificada em 2020, mas afinal era um erro e o valor para o próximo ano é o mesmo do ano em curso.


 


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SALA DE DESENHO -  Até domingo dia 18 vale a pena passar na Sociedade Nacional de Belas artes (Rua Barata Salgueiro, Lisboa), para descobrir trabalhos em papel que 20 galerias aí apresentam em mais uma edição de “Drawing Room”, um projecto focado no desenho contemporâneo em papel que junta 20 galerias portuguesas e estrangeiras. Em destaque estão galerias como as Salgadeiras, a Balcony, a Belo-Galsterer, a Módulo, Filomena Soares. 111, Fonseca Macedo e a Monumental, entre outras. José Loureiro, Sara Mealha, Paula Rego, Rita Gaspar Vieira, Francisco Mendes Moreira, Pedro Calapez, Sara Bichão, Paulo Brighenti, Pedro Barateiro, António Olaio, Rui Horta Pereira, Alexandre Conefrey, Jorge Queiroz e Manuel San Payo são alguns dos mais de cinquenta artistas que expõem e vendem as suas obras, através das galerias que os representam, nesta iniciativa que se realiza desde 2018. A Drawing Room foi o palco para a atribuição a Pedro Calapez do Prémio Projecto Artístico Destacado, atribuído pela Fundação Millennium. Outras sugestões: na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva pode ir  ver as obras feitas nos anos 70 por Eduardo Batarda; e no Museu Berardo há uma exposição incontornável, o Projecto MAP, um exaustivo trabalho de  pesquisa e mapeamento do universo da arte contemporânea em Portugal, que inclui obras dos artistas, conversas gravadas com eles, documentação que pode ser recolhida ao longo do percurso da exposição  (que tem uma muito boa montagem)  e guardada no final num pequeno dossier que acaba por ser um catálogo. Desenvolvido pela Associação Cultural Colectivo de Curadores, com a direcção de Alda Gaslterer e Verónica de Mello, esta exposição que mostra o trabalho de investigação e recolha feito ao longo de uma década e que pode ser visto até 10 de Janeiro.


 


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UMA GUITARRA NO JAZZ - “Conspiracy” é o nome do novo álbum de estúdio do guitarrista Terje Rypdal, que se faz acompanhar de mais três músicos noruegueses - o teclista Stale Storlokken, o baixista Endre Hareide e o baterista Pal Thowsen, que o acompanham ao longo de seis novos temas naquela que é a mais coesa formação com que trabalhou ao longo dos últimos anos. Trata-se do trabalho mais interessante do septuagenário guitarrista, que nos  num passado próximo fez incursões com orquestras, coros e electrónica,alguns deles de má memória. Aqui Rypdal regressa aos ambientes de fusão que marcaram a fase mais importante da sua carreira. O ambiente sonoro sobrepõe-se à melodia e a faixa de abertura, “As The Ghost…Was Me!?” mostra claramente a escolha desse caminho. Aqui, como noutros temas, nota-se a complementaridade entre a guitarra, o baixo e a bateria, com os teclados a proporcionarem o pano de fundo ambiental. Vários destes temas podiam fazer parte de bandas sonoras e não há-de ser por acaso que de repente vêm à memória imagens de filmes de David Lynch. Na faixa que dá título ao disco, “Conspiracy”, o quarteto exemplifica de forma clara a proposta deste disco: uma ruptura com um passado recente e uma declaração enérgica de afirmação da identidade que se associa à imagem de um dos mais importantes músicos do jazz europeu e nórdico em especial. Disco ECM, disponível no Spotify.


 


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ALMANAQUE DA LUSITÂNIA - Este “Weekend” do “Jornal de Negócios” que estão a ler tem a data de 16 de Outubro, o dia em que abriu ao público a EXPO em 1998. No dia anterior, 15, assinala-se a data da publicação do primeiro número da revista “Seara Nova”, em 1921. E no dia 17, no ano de 1817, ocorreu a execução do tenente-coronel Gomes Freire de Andrade, condenado por liderar a conspiração contra Beresford e a regência. Todas estas informações, e muitas outras, estão no curioso no “Almanaque da História de Portugal”, elaborado pelo Professor José Martinho Gaspar e agora editado. Ao longo de cerca de 200 páginas são percorridas, mês a mês, as principais datas da História de Portugal - indicação dos acontecimentos, das figuras, dos locais, de curiosidades. Aqui aparecem as batalhas, os marcos da cultura, quem nasceu em determinado mês e quem mais o marcou ao longo dos séculos da nossa História. Há ainda um resumo dos principais acontecimentos de cada século e notas sobre a origem de diversas expressões associadas à nossa História. “Neste livro dão-se notícias do passado, a História não é senão isso” - escreve o autor na introdução a esta edição da Guerra & Paz.





FALTA DE AMBIENTE  - Aqui há uns anos cresceu um género de restaurantes que se baseou em conceitos, modas e muito trabalho de relações públicas, investindo nestas áreas mais do que naquilo que torna um restaurante uma experiência a repetir: conforto do espaço, ambiente, criatividade e bom senso, serviço, boa relação qualidade-preço. É muito difícil conjugar tudo isto e foram poucos os que o conseguiram fazer - e menos ainda os que o conseguem manter. Eu tinha razoável impressão de Marlene Vieira e lá decidi ir experimentar o ZumZum Gastrobar, o seu novo restaurante, localizado na Doca do Jardim do Tabaco, junto ao terminal de cruzeiros de Lisboa. O local é bom, o estacionamento é fácil (duas coisas simpáticas). Já a decoração deixa a desejar, insípida e algo desconfortável. Ambiente, numa noite de quinta-feira, não havia, mesmo descontando o Covid. O serviço é atento mas por vezes demasiado intrometido, o que se torna incómodo - por exemplo vieram explicar-nos que umas pipocas incompreensivelmente colocadas num ceviche se destinavam a diminuir a pegada ambiental, evitando a importação de milho do Peru. O Ceviche de espadarte devia ter o peixe fatiado mais fino, podia bem dispensar o maracujá e as cinematográficas pipocas. No couvert os chips de moreia não resultaram e acabavam por ser desagradáveis, salvou-se o pão e a manteiga, anunciada como sendo dos Açores (mas amolecida demais). Os dois pontos mais positivos foram as filhós de berbigão à Bulhão Pato e a Mini Sanduíche de Rosbife em bolo lêvedo com maionese de beterraba. As sobremesas ficaram muito aquém das expectativas com um arroz doce que se anunciava como uma original versão e que surgiu sem graça, e um enrolado de ananás dos açores demasiado doce. A boa localização, a esplanada que há-de ser agradável nos dias bons e o serviço de vinhos que correu bem, com boas propostas, não chegam para atenuar os lados menos bons. Mixed feelings sobre este ZumZum, mas não me apetece lá voltar tão cedo.


 


DIXIT - “Quando o primeiro-ministro não encontra forma de se refrear, e quando em Belém e na São Caetano à Lapa há mais cumplicidade do que contrapoder, é todo o sistema democrático que fica desequilibrado” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “Quase todas as pessoas suportam a adversidade, mas se quiserem testar o carácter de alguém, dêem-lhe poder” - Abraham Lincoln




outubro 09, 2020

E NÃO SABIAM DAS REUNIÕEZINHAS SECRETAS PARA CONTORNAR O TRIBUNAL DE CONTAS?

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CONTAS POLÉMICAS - Foi com perplexidade que li que Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio indicaram, em sintonia com António Costa, o nome de José Tavares para Presidente do Tribunal de Contas. O facto de ele, enquanto quadro dirigente dessa instituição, poder ter auxiliado o Governo Sócrates a contornar as regras existentes no Tribunal cria no entanto uma dúvida: quem aceitou validar o nome de José Tavares não sabia dessa situação, ou sabia e decidiu que não era relevante? Nenhuma das situações abona em favor dos intervenientes. Parece que Marcelo Rebelo de Sousa se transformou de encantador de serpentes em engolidor de sapos. De Rio pouco se espera e já nos habituou a fazer jeitos a Costa. Percebemos agora que o Presidente, refém do receio de  uma crise política, dá jeitos de contorcionista para evitar problemas antes das próximas presidenciais. Claro que no meio disto fica por esclarecer como é que o perfil de José Tavares se enquadra no critério que o próprio Marcelo definiu em declarações públicas como necessário para o sucessor de Vítor Caldeira:  “exatamente com o mesmo grau de exigência no combate a conluios, compadrios e corrupções” que o anterior Presidente. Vitor Caldeira não era um burocrata de uma instituição: esteve por três mandatos à frente do Tribunal de Contas Europeu e no seu mandato no Tribunal de Contas português não hesitou em confrontar membros do Governo e autarcas, colocando reservas às suas actuações, o que lhe valeu críticas públicas de diversos membros destacados do PS. A razão da sua não recondução tem a ver com isso e não com outras questões. A Secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, já veio alertar para o facto de um escrutínio muito apertado da aplicação dos fundos poder inviabilizar a sua aplicação prática. Está tudo dito, não está? A não recondução dos incómodos passou a ser o procedimento. Quem se mete com o PS, leva - esse velho lema acaba de ter mais uma confirmação prática. Com a conivência deste Presidente da República.


 


SEMANADA - A dívida espanhola pode chegar a 120% do PIB no final do ano e a portuguesa poderá ultrapassar os 130%; em Portugal existem mais de 4300 taxas que são aplicadas a empresas e às famílias; em oito distritos fixaram-se no ano passado mais estrangeiros do que o número neles registado de nascimentos de bebés; mais de 10% dos bebés nascidos em todo o país são de mães de outras nacionalidades que não a portuguesa; são cobrados 30 milhões de euros por ano de uma taxa de gás que devia ter acabado em 2017 mas cujo fim não foi regulamentado; as vendas de vinho do porto caíram cerca de 40% entre janeiro e agosto;  no último ano foram roubados 270 carros por mês; o Banco Alimentar já está a apoiar 440 mil pessoas, mais 60 mil do que antes da pandemia; a dívida portuguesa deve ultrapassar os 130% no final do ano, enquanto a dívida espanhola pode chegar a 120%; um estudo recente sobre hábitos de leitura revela que 70% dos alunos do básico e secundário não leem por prazer, 31% nunca viu familiares a ler, 31,5% nunca ouviram contar histórias em família e 57% admitem que em casa existe uma relação distante com os livros e a leitura; segundo a Marktest cerca de 62% dos portugueses com mais de 15 anos, quase cinco milhões e meio de pessoas, usa serviços de mensagens instantâneas, o triplo dos que o faziam em 2013 e o valor sobe para 95% entre os 15 e os 24 anos; nos últimos cinco anos as dez maiores sociedades de advogados do país efectuaram contratos com entidades públicas no valor total de 30 milhões de euros. 


 


ARCO DA VELHA - A cientista Elvira Fortunato está há mais de um ano a tentar adquirir para o Centro onde trabalha um microscópio electrónico que custa dois milhões de euros, verba que provém de uma bolsa de investigação que ela própria ganhou e não consegue desbloquear por dificuldades burocráticas.


 


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FOTOGRAFIASTodd Hido é um dos nomes mais importantes da fotografia norte-americana contemporânea. Com uma actividade editorial intensa (já produziu 17 livros), Hido começou a expôr em finais dos anos 90 e a editar no início deste século. A sua série “House Hunting”, fruto de viagens pelos Estados Unidos onde se focou em imagens nocturnas de casas em paisagens rurais e de subúrbios, deu-lhe notoriedade e reconhecimento e é um dos pontos fortes da sua primeira exposição em Portugal, no Imago Photo Festival. Patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, a exposição inclui também trabalhos da sua nova série “Bright Black World”, na qual Hido sai das paisagens americanas e passa para paisagens desoladas do norte da Europa. A exposição inclui ainda imagens da série de nus e de retratos que fez em paralelo com a série House Hunting e ainda colagens recentes. A exposição de Todd Hido fica até 3 de Janeiro no MNAC. Outra exposição em destaque neste Imago é “Novas Visões na Fotografia Contemporânea”, que está dividida entre as carpintarias de São Lázaro e o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, ambas até meados de Novembro. Outra sugestão: na Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva Ana Vidigal apresenta “Arpad e As Cinco”, com obras feitas propositadamente para esta mostra e que evocam Maria Helena Vieira da Silva, Ana Vieira, Paula Rego e Lourdes Castro.


 


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SEGREDOS BERLINENSES - Em 1960 Ella Fitzgerald, então com 43 anos, actuou em Berlim e dos concertos realizados resultou um disco histórico na sua discografia - “Ella In Berlin, Mack The Knife”. Dois anos mais tarde, em 1962,  Ella regressou de novo a Berlim para mais uma série de concertos e Norman Granz, o seu empresário (e fundador da Verve Records, a histórica etiqueta de jazz), gravou-os como era seu hábito- umas vezes porque as usava para posterior transmissão em rádios, outras para material de base para novas edições. Mas desde que foram feitas, as fitas com as gravações dessa série de concertos berlinenses no mês de Março de 1962, no Sportpalast da cidade, estiveram desaparecidas. Coisa rara na época, quase há 60 anos, foram feitas gravações em mono e em stereo em simultâneo, o que agora permitiu um trabalho de fundo sobre os registos, que originalmente têm muito boa qualidade sonora. Foi dessas fitas que agora nasceu uma nova edição, em CD e duplo LP - “Ella, The Lost Berlin Tapes”. Ao todo são 17 temas, desde o histórico “Mack The Knife” a “Summertime”, passando por  “Cry Me A River”, um fulgurante “Cheek To Cheek”, e versões de “Someone To Watch Over Me”, e “Wee Baby Blues”, entre outros. Ella estava em grande forma vocal e foi acompanhada por Paul Smith no piano, Wilfred Middlebrooks no baixo e Stan Levey na bateria. O trabalho de recuperação das fitas e de produção foi agora dirigido por Gregg Field que trabalhou com Ella nos anos 80 - a cantora morreu em 1996, com 79 anos.


 


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UM POLICIAL ARREBATADOR - Duas situações cruzam-se neste policial: a reabertura de uma investigação do assassinato de uma familia quase inteira e o tráfico de armas. O cenário é a Suécia contemporânea e o pano de fundo da acção, que decorre em vários países, mostra um retrato duro do efeito que emigrantes vindos de cenários de guerra desencadeiam numa sociedade como a sueca, um tema aliás que tem sido recorrente em muitos dos romances policiais nórdicos dos últimos anos. De um lado um polícia à beira da reforma que decide reinvestigar um caso, do outro um ex-agente infiltrado que com ele trabalhou e que se vê envolvido numa guerra de gangs. O livro chama-se “A Aniversariante” e o seu autor é o sueco Anders Roslund. O nome vem do começo da história: uma menina é a única sobrevivente de toda a sua família, morta quando se preparava para ir soprar as velas do bolo do seu quinto aniversário. Emocionante até ao fim, com uma escrita viva, personagens magníficamente traçadas, o livro é policial negro, ao mesmo tempo que um thriller socio-político.  Anders Roslund  foi jornalista durante década e meia antes de se dedicar exclusivamente à escrita, focado em policiais. Primeiro em dupla com Borge Hellstrom, um ex-criminoso que se tornou escritor e agora, desde a morte do seu parceiro em 2017, a solo. 


 


SOBRE O TÁRTARO - Tenho um amigo que me dá muito bons conselhos sobre restaurantes e a  sua mais recente indicação é um restaurante que nasceu no mercado Time Out e que, como vários outros, nos últimos tempos ganhou asas e voou para a rua, no caso para ali bem perto, na Rua da Boavista 12, junto à Ribeira. O restaurante, confortável, bem decorado, dimensão média, é o MISC by Tartar-ia. O serviço é absolutamente exemplar - acolhedor, informado, a ajudar a tomar a decisão. A ementa base é inspirada nas viagens que a sua fundadora, Maria Calheiros Machado, fez ao Médio Oriente, América do Sul e a alguns países europeus. O nome vem da oferta diversificada de tártaros: de salmão, de atum, de carne, de robalo e até de vegetais, tártaros que constituem o essencial da lista, onde não faltam também ceviche ou um bem português arroz de lingueirão. O menu inicial foi desenhado pelo chef Vítor Santos e agora é Maria Calheiros Machado quem dirige a operação da cozinha no dia a dia. O começo foi protagonizado por uns belíssimos croquetes de beringela com tahini de batata doce laranja. Depois vieram os tártaros. O de atum é  marinado com óleo de sésamo, coentros e raspa de lima e faz-se acompanhar de um puré de abacate com maionese e bolacha de sésamo, esponja de tinta de choco e rebentos de shiso. Depois apareceu o bife tártaro asiático com carne de vaca cortada manualmente  e marinada em sweet chili sauce, óleo de sésamo, coentros, pimenta e tabasco. Para uma próxima ocasião fica um tártaro de robalo com escabeche de beterraba, pasta de folha de wasabi e crocante de pele de robalo. A sobremesa foi uma tarte de queijo incontornável. A copo foi servido um espumante Filipa Pato que deu muito boa conta e um surpreendente tinto do Douro Superior, de Lucinda Todo Bom. O serviço é fantástico, talvez porque a fundadora começou por estudar Recursos Humanos antes de estudar hotelaria e restauração. Local a repetir. Rua da Boavista 14, tel. 218 051 457.


 


DIXIT - “A burocracia da Administração Pública é diabólica e é mentira que esteja relacionada com as regras europeias” - Elvira Fortunato


 


BACK TO BASICS - “O primeiro sinal de corrupção numa sociedade é defender que os fins justificam os meios” - Georges Bernanos









outubro 02, 2020

A CORRUPÇÃO E O POPULISMO

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A CORRUPÇÃOZINHA - Toda a gente anda muito entretida com a forma como a bazuca dos fundos europeus vai ser aplicada, como os dinheiros a fundo perdido vão ser utilizados e com a encenação em torno do dilúvio de dinheiro que aí vem e que esta semana teve um ponto alto com a visita da senhora Ursula von der Leyen a Portugal para benzer António Costa. Curiosa a agenda do Primeiro Ministro em termos de propaganda:  na semana passada apresentou o plano, nesta semana trouxe a mecenas. Tudo isto é muito bonito, tudo isto é muito interessante, mas restam alguns temas que o Plano de Recuperação Económica não contempla e o Estado ainda menos: medidas eficazes para combater a corrupção, medidas eficazes de fiscalização da aplicação das verbas que forem distribuídas e instrumentos de investigação e punição de eventuais culpados de má utilização do dinheiro. O Plano destaca-se pelos grandes projectos, alguns deles até consensuais, como a ferrovia, outros menos, como a estatização da economia. Mas infelizmente temos o histórico que se sabe na má utilização de fundos europeus, na permissividade face à corrupção e às negociatas que cresceram à sombra desses dinheiros. Sem instrumentos de fiscalização e justiça eficazes temo o pior. As boas consciências lusas indignaram-se, e justamente, pelas habilidades fiscais de Trump. Mas não conseguem ser tão veementes a combater a corrupção que sabem que acontece em Portugal em várias áreas - da economia, à justiça, à actividade partidária e até, ainda esta semana se viu, a oficiais de alta patente das forças armadas. Sem rigor, fiscalização e justiça vamos ter certamente muitos planos que podem ser imensas oportunidades douradas para muita gente. A corrupção é uma chaga social que marca o país e é responsável por alguns dos maiores problemas que se repetem ao longo dos anos. E isto acontece com a complacência do sistema político que temos: no fundo o populismo que cresce nasce do comportamento dos dois partidos que alternadamente governam Portugal desde 1976 - o PSD e o PS e permitiram o ponto a que se chegou.



SEMANADA - Desde o início do ano até Agosto os hospitais do SNS realizaram menos 12,6% de consultas que no ano passado e menos 22% de cirurgias; entre 2 de março e 30 de agosto houve mais 6312 óbitos que no período homólogo dos últimos cinco anos e apenas 1822 foram por covid-19; o PSD e o PS reduziram os debates parlamentares sobre a União Europeia para dois por semestre em vez de ocorrerem, como até agora, antes de cada reunião do Conselho Europeu; 63% dos professores do quadro do Ministério da Educação têm mais de 50 anos; faltam funcionários em dois terços das escolas portuguesas e somos o segundo país da OCDE com mais falhas de pessoal não docente; as insolvências de particulares representam cerca de 80% de todos os processos do género decretados pelos tribunais; a taxa de desemprego superou em Agosto a barreira dos 8%; a taxa de poupança das famílias portuguesas saltou de 10,6% nos meses de abril a junho de 2019 para 22,6% no mesmo trimestre deste ano; o sector do táxi perdeu entre 70 a 80% das receitas desde o início da pandemia; segundo o estudo TGI da Marktest 2 em cada 3 portugueses têm máquinas de café com sistema de cápsula; a capacidade de produção de hidrogénio em Portugal quintuplicou no espaço de um ano; só estão a funcionar quatro dos 12 drones, que deviam ter sido entregues à Força Aérea até 4 de agosto para a vigilância de incêndios florestais e que tiveram um custo total de 4,5 milhões de euros; a Marinha comprou ao mesmo fornecedor um destes aparelhos por um custo cerca de três vezes superior ao pago pela Força Aérea, mas também surgiram problemas técnicos.


 


COISAS DA POLÍTICA - O Ministro dos Negócios Estrangeiros elogiou Marcelo Rebelo de Sousa e o Ministro das Infraestruturas respondeu a elogiar Ana Gomes. 


 


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PSICÓLOGA OBSERVA UM PERIGOSO FAMILIAR- Mary L. Trump é uma psicóloga experiente, doutorada em psicologia clínica pelo Derner Institute Of Advanced Psychological Studies. “Demasiado E Nunca Suficiente- Como A Minha Família Criou O Homem Mais Perigoso do Mundo” é o livro que escreveu sobre o seu tio Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos,  agora editado em Portugal. O livro vendeu no primeiro dia  950 mil exemplares nos Estados Unidos, apesar de Donald Trump ter tentado impedir judicialmente a sua publicação. A autora conta ao pormenor as dinâmicas privadas de uma das famílias mais poderosas, visíveis e disfuncionais do mundo, hoje a habitar a Casa Branca. Recorrendo à sua memória mas também a documentos legais, extratos bancários, diários privados, correspondência vária e fotografias, entre outros registos, a autora procura desconstruir o que considera serem as mentiras, deturpações e fabricações que alicerçam a projeção planetária do que classifica como a  figura mitómana de Trump. Mary L. Trump, filha de um dos quatro irmãos do Presidente, relata  eventos familiares com detalhe, descreve como Donald Trump sempre procurava ser o centro das atenções da família e conta como ele, que foi o filho favorito de Fred Trump, despediu e maltratou o pai quando adoeceu. É um relato duro, que percorre a história da sua família, as ruinosas aventuras empresariais em que Trump se envolveu e a forma como ele procura construir um universo próprio, distante da realidade.


 


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A INDISCRIÇÃO DO OLHAR - Pedro Calapez começou a expôr no final dos anos 70 e mantém uma actividade regular, trabalhando com galerias em Portugal e em outros países. A sua obra está presente em importantes colecções institucionais e privadas  expõem com frequência. “Olhares Indiscretos” é o título da sua nova exposição que está patente na Galeria Fernando Santos, no Porto, pelo menos até 19 de Dezembro. É composta por 11 obras datadas deste ano, todas inéditas, na maioria de grandes dimensões, a acrílico sobre tela ou alumínio. Na imagem está um acrílico sobre tela, datado de 2020, com 196x146 cms. Na galeria estão ainda duas obras em papel, de menores dimensões, que foram mostradas numa recente da exposição na Fundação Carmona e Costa e que de certa forma abrem pistas para estes novos trabalhos. E está também patente um pastel sobre papel de grandes dimensões que esteve numa exposição realizada na Fundação Medeiros e Almeida. No texto que escreveu para est exposição Pedro Calapez sublinha que “provavelmente a apreensão completa do objecto olhado nunca será conseguida, nem pelo seu próprio autor. Em boa verdade é esta inacessibilidade que confere a liberdade que o objecto artístico intrinsecamente reivindica”. E, mais adiante: “ Indiscretos seremos, pela intromissão sem maneiras e sem vergonha nas imagens que surgem no nosso caminho. Queremos conhecer e conhecermo-nos. Arrastamo-nos numa inevitável e indefinível solidão.” Ainda no Porto e no Espaço 531, ligado à Galeria Fernando Santos, Daniela Krtsch expõe “À Procura De Um Outro Continente”, um conjunto de trabalhos recentes de dimensões variadas e suportes diferentes onde mistura o desenho e a pintura, num ciclo dedicado a exposições de mulheres artistas e que já teve mostras de Francisca Carvalho e Ana Vidigal, segundo um projecto de Pedro Quintas.


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A OBSERVAÇÃO DA PAISAGEM - João Queiroz estudou filosofia e ao mesmo tempo começou a descobrir o desenho e a pintura.Tem nestas áreas uma carreira já longa, que data dos anos 80, está presente em várias colecções, foi prémio EDP de desenho em 2000 e também foi vencedor, em 2011, do prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte. A sua obra mais recente caracteriza-se por uma abordagem da natureza muito baseada na observação da paisagem. Até 7 de Novembro tem na Galeria Vera Cortês, em Lisboa, um extenso conjunto de obras inéditas sob o título “Passeio”, onde mais uma vez percorre o olhar sobre as paisagens em vários ângulos. É um conjunto de obras, 72 pinturas expostas em vários segmentos (na imagem). No texto que escreveu para a exposição, e que parte de uma citação de Platão, João Queiroz escreve: “Os passeios do filósofo, do poeta, do músico, do cineasta, do pintor são diferentes mas compartilham algo de semelhante: uma especial relação com o lugar onde o ofício é privilegiadamente executado. O filósofo passeia no campo com a Ágora na mente, o pintor com o Atelier”. Outra sugestão: a exposição “Dissonâncias” que abriu no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, inclui  85 obras de 45 artistas, dando a conhecer uma seleção das recentes aquisições e doações de artistas e mecenas para o Museu. E para finalizar a Galeria Miguel Nabinho apresenta “Suite J - A Vida É Um Palco”, uma exposição de novos trabalhos de Ana Jotta.


 


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RECITAL ESCOLAR - Em Outubro de 1968 o quarteto de Thelonius Monk fez um concerto no auditório da escola de Palo Alto, na Califórnia. A história é curiosa - foi Danny Scher um dos alunos da escola, então com 16 anos, e que sonhava promover concertos, que convenceu o agente de Monk a trazer o quarteto até Palo Alto por um cachet irrisório e a tocar num anfiteatro de 350 lugares para que a venda dos bilhetes angariasse fundos para uma iniciativa da escola - diga-se de passagem que mais tarde Scher veio a ser um importante produtor de espectáculos. Outra curiosidade: um dos porteiros da escola propôs a Scher afinar gratuitamente o piano em que Monk iria tocar, desde que pudesse gravar o concerto. Durante muitos anos as fitas com uma cópia dessa  gravação, que o porteiro deu a Danny Scher, estiveram esquecidas dentro de uma caixa. Há pouco tempo Scher descobriu-as, contactou o filho de Monk que concordou com a sua edição, feita agora pela etiqueta Impulse. O que está no disco são seis temas, com cerca de uma hora de música, num ponto alto da carreira do quarteto - Thelonius Monk no piano, Charlie Rose no saxofone tenor, Larry Gales no baixo e Ben Riley na bateria. O resultado é este álbum “Palo Alto”, que permite, à distância de meio século, sentir a enorme energia e criatividade de Monk numa actuação descontraída, cheia de swing, baseada em alguns dos seus temas clássicos e que permite perceber a enorme qualidade de todos os músicos e a direcção segura que Thelonius Monk discretamente imprimia. Disponível no Spotify.


 


DIXIT - A corrupção não escolhe alvos e varre todos por igual - Eduardo Dâmaso


 


BACK TO BASICS - A ilusão é o primeiro de todos os prazeres - Oscar Wilde


 


 

setembro 25, 2020

ESTADO - O GLUTÃO DE BAZUCAS

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O PASSADO, EM VEZ DO FUTURO -  Quando se olha para a coqueluche de Costa, o seu  Plano de Recuperação, constatamos que os 12,9 mil milhões de euros de subvenções europeias vão ser utilizados sobretudo para investir na máquina do Estado, deixando as empresas com as migalhas. Uma análise mais fina permite questionar se a distribuição da bazuca de dinheiro europeu, da maneira  que está planeada, não se destina a financiar o programa político da nova geringonça que se vai preparando nos bastidores, mas com o pano de boca de cena escancarado. O Governo defende-se dizendo que o investimento planeado se destina a criar um Estado melhor, mas só o tempo dirá se vai servir para proporcionar melhor educação, um sistema de saúde mais eficaz, uma justiça mais célere ou a combater desigualdades territoriais ou, se em vez disso, irá servir para satisfazer sindicatos, reivindicações de grupos profissionais e financiar um programa político estatizante. Uma sondagem divulgada esta semana indica que 60,6% dos portugueses não acreditam que os fundos europeus que aí vêm sejam bem aplicados e geridos. Quando olhamos para o que se passou desde a adesão à União Europeia e ao que se vai conhecendo das intenções anunciadas para o dinheiro que aí vem, só se pode pensar que aqueles que não acreditam têm razão. Este plano não foi feito para criar bases para o futuro, mas sim para remendar os buracos deixados pelas cativações dos últimos anos.


 


SEMANADA - Os inscritos nos centros de emprego de todo o país atingem os 409 mil e não havia tanto desemprego registado desde janeiro de 2018; no Algarve, em Agosto, estavam inscritos 13.072 desempregados, uma subida de 178% num ano; os primeiros indicadores dos últimos meses indicam que o turismo correu bastante pior do que o que se antevia, mas a indústria e as exportações recuperaram no verão acima das expectativas; segundo a Marktest, na última década, o número de portugueses que utiliza o smartphone para aceder à Internet, octuplicou e representa agora 72% do total de acessos e as SmartTV já ultrapassam os tablet no acesso à internet; segundo um estudo da DECO dois terços dos agregados familiares em Portugal ainda usam gás de botija e o seu custo médio é de mais 230 euros por ano, cerca do dobro do  gás natural; estrangeiros compraram 8,5% das casas vendidas em Portugal em 2019; a venda de casas caíu 21,6% no segundo trimestre deste ano; em seis meses foram registadas no portal da queixa  8033 reclamações relativas ao acesso aos serviços públicos, um aumento de 47% face ao período homólogo; no primeiro semestre deste ano, a Assistência Médica Internacional apoiou, em média, 114 novos casos de pobreza por mês, os serviços mais procurados foram a distribuição de alimentos e o apoio social; a dívida pública atingiu 133,8% do PIB;  no Domingo passado a entrevista a Ana Gomes feita por Ricardo Araújo Pereira na SIC teve mais espectadores que Teresa Guilherme no Big Brother da TVI. 


 


ARCO DA VELHA - A Continental Mabor, em Famalicão, corre o risco de perder um investimento de 100 milhões de euros e a criação de cerca de 400 empregos por causa da demora na construção de uma estrada que anda a ser falada há duas décadas.


 


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PAISAGENS - Pedro Chorão nasceu em 1945, começou a expôr em 1975. Começou por estudar biologia e o seu interesse pela pintura nasceu já tinha passado dos 20 anos. Estudou biologia em Liverpool, história de arte e arqueologia em Paris e pintura em Lisboa. Goa é um destino que procura que seja tão frequente quanto possível e as paisagens que vê da casa onde normalmente lá se aloja, junto ao mar, são a base de trabalho para esta nova série de obras que foi apresentada na semana passada na Galeria Monumental e que tem por título “O Princípio da Paisagem”. Em Goa, durante as estadas longas que gosta de realizar, faz desenhos que depois utiliza por vezes como base de trabalhos futuros. Em Lisboa, no seu estúdio, paredes meias com a casa em que vive, pinta entre a memória e a imaginação, sempre a ouvir música - Bach muitas vezes, o piano de jazz de Bill Evans outras tantas. Tem um falar calmo, tranquilo como as suas pinturas. “O Princípio da Paisagem” fica até 31 de Outubro, na Galeria Monumental, Campo dos Mártires da Pátria 111, visitas por marcação pelo telefone 918 744 548.


 


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A DESCOBERTA DE UMA COLECÇÃO -  A FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) foi criada em 1985 e desde relativamente cedo começou a constituir uma colecção de obras de arte centrada em artistas portugueses contemporâneos. Manuel Castro Caldas, posteriormente em colaboração com Manuel Costa Cabral e Rui Sanches, iniciou a colecção e reuniu um conjunto importante de 765 obras entre 1986 e 2002. É deste núcleo que sai grande parte da selecção organizada por António Pinto Ribeiro e Sandra Vieira Jurgens para “Festa.Fúria.Femina”, a exposição que esta semana abriu no maat-Central Tejo e lá ficará até 25 de janeiro. Reunindo 228 obras de 61 artistas, maioritariamente portugueses, de várias gerações, a exposição permite ver trabalhos de diversos contextos e períodos, possibilitando uma nova visão sobre o trabalho desenvolvido em Portugal nas artes plásticas no último quarto do século passado. Ao mesmo tempo são apresentadas algumas obras provenientes das novas aquisições da FLAD, retomadas em 2019, já com António Pinto Ribeiro, que admite procurar seguir o conceito de colecção inicialmente delineado por Manuel Castro Caldas. O objectivo desta mostra é precisamente, nas palavras dos seus curadores, celebrar a história e a continuidade da importante colecção da FLAD, dando-lhe uma inédita exposição que permite descobri-la, afastada que estava do olhar público. Também na Central Tejo abriu “Ballad Of Today”, uma exposição de fotografia e instalações sonoras de André Cepeda, apresentada como “uma longa caminhada contínua através de uma cidade”. Ao longo de 80 fotografias André Cepeda apresenta uma visão inesperada, mas também muito desigual, por vezes desnecessariamente apostada no óbvio. Outras sugestões: na Galeria Belo Galsterer destaque para novas obras de Paulo Brighenti e na Galeria 111 o fotógrafo moçambicano Mauro Pinto apresenta “Blackmoney”, uma visão do universo sempre emocional, mas já muito explorado, da dura realidade do trabalho em minas em sociedades pós-coloniais.


 


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AS PALAVRAS DE AMÁLIA -  - Este livro é autenticamente uma descoberta saída do fundo de um baú: em 1973, a Editora Arcádia encarregou o escritor Manuel da Fonseca de escrever uma biografia de Amália Rodrigues. A ideia era pôr um escritor famoso e conhecido pela sua militância comunista a traçar o perfil daquela que era então considerada o ícone do Fado e ligada ao anterior regime. Essa biografia nunca foi escrita, mas ficaram gravadas nove horas de conversa entre os dois, quer na casa da Rua de São Bento, quer na herdade que Amália tinha no Brejão, uma conversa feita em três momentos distintos. Entretanto, a Arcádia acabou e as gravações ficaram esquecidas. Até hoje. As edições Nelson de Matos e a Porto Editora conseguiram localizar essas gravações, promovendo a sua transcrição integral, a cargo de Pedro Castanheira, que também elaborou as mais de três centenas de notas que surgem no final da edição, enquadrando aspectos da conversa  agora publicada sob o título “Amália Nas Suas Palavras”. Rui Vieira Nery, que escreveu o prefácio, intitulado certeiramente “Amália e Manuel da Fonseca: entre a cumplicidade e o jogo do gato e do rato”, descreve o encadeamento original, respeitado na edição, das perguntas e respostas como «itinerário errático de um diálogo informal». A conversa está recheada de saltos cronológicos, de mudanças de tema, de associações imprevistas, de interferências externas, de pontos mortos e até  graças ocasionais. Mas na longa conversa destacam-se três tópicos centrais em relação aos quais o texto presta informações relevantes e por vezes inéditas: a infância dura da artista, a relação de Amália com o fado e as suas opções políticas. “Amália Nas Suas palavras” surgida no ano das comemorações do centenário da fadista, teve o apoio da Fundação Gulbenkian e do Museu do Fado.


 


PASTRAMI AO DOMICÍLIO - Já aqui o escrevi mais que uma vez, sou um adepto confesso de sanduíches - mas não as anémicas, em pão borrachoso, de folha transparente de fiambre e queijo flamengo de inferior qualidade que desgraçadamente são as mais frequentes nos cafés deste rectângulo à beira-mar plantado. Nos locais que frequento mais regularmente fiz questão de negociar a confecção de sanduíches como eu gosto e não me tenho dado mal com o resultado. Mas é muito difícil encontrar uma das minhas preferidas, a clássica sanduíche de pastrami, uma deliciosa carne feita do peito bovino, ou seja, a parte dianteira do boi, temperada, fumada e depois cozinhada lentamente. O resultado é magnífico mas difícil de encontrar. Os supermercados do El Corte Inglés têm nas suas charcutarias um bom pastrami, a que recorro para liquidar fomes súbitas caseiras. Mas agora, para minha alegria, descobri uma sanduíche de pastrami no Uber Eats. Passo a explicar: os serviços de entrega de comida pronta apostam em novos modelos e um dos mais recentes é a criação de espaços virtuais. A Pica-Miolo é a primeira «padaria virtual» a abrir no País e a estar disponível apenas online. Apresenta seis variedades de pães artesanais: trigo, mistura, espelta,  jalapeños e tâmaras, trigo, sésamo e carvão activado e outro que incorpora na massa queijo da ilha e cebola crocante. O pão pode ser pedido inteiro (a forma é cilíndrica) ou já fatiado. A partir do pão de trigo a Pica Miolo elaborou cinco sanduíches, a que chamou Picas: a tradicional Club (com frango, ovo e tomate), a de  presunto com queijo brie e nozes; a minha sempre desejada de pastrami e coleslaw (uma salada de repolho cortado muito fino e temperada), a de salmão fumado com queijo Philadelphia e molho de endro e, para terminar, a de atum com tempero kimchi.  Na minha preferida gostaria que tivesse um pouco mais de pastrami e um pouco menos de coleslaw. Mas pelo menos já sei onde recorrer quando de repente me apetecer esse petisco. E se encomendar também o pão de jalapeños e tâmaras fique a saber que ele é uma excelente base das sanduíches que decidir fazer em casa. Sou testemunha.


 


DIXIT - “Precisamos de um chefe de Estado que una, e não que divida mais os portugueses” - Carlos César, Presidente do PS defendendo Marcelo e criticando Ana Gomes.


 


BACK TO BASICS - “A simplicidade é o último grau da sofisticação “ - Leonardo da Vinci