julho 10, 2020

A ESTRANHA MÚSICA QUE ANDA NO AR

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A EDP FOI NACIONALIZADA? - A menos que alguma coisa tenha sido alterada no funcionamento da economia das empresas privadas eu acreditava, até esta semana, que decisões são tomadas pelos seus accionistas e não pelo Estado. No entanto por estes dias percebi que o entendimento da nova anormalidade em que vivemos é que o Ministério Público e um Juiz podem remover quem os incomode antes de haver qualquer julgamento. Vem isto a propósito do que se passa na EDP. Desde há muito tempo que António Mexia se tinha tornado um alvo a abater para o Governo. Infelizmente para a geringonça os accionistas, e sobretudo o accionista maioritário chinês, decidiram manter a confiança em Mexia e nos resultados de gestão que alcançou. De maneira que, pegando na espingarda neste concurso de tiro ao alvo, um juiz e o Ministério Público, abrindo um grave precedente, tiraram Mexia e Manso Neto da empresa, contra as decisões tomadas pelos accionistas em Assembleia Geral. Ambos são acusados num processo baseado em factos não provados e muito menos julgados. Para todos os efeitos são inocentes até prova em contrário - é esse princípio que norteia a justiça nos países democráticos. Se os accionistas entendem que um gestor cometeu algum acto reprovável ou que tem um ónus que penaliza a empresa, podem substituí-lo. Mas não foi isso que aconteceu. Em Portugal temos uma justiça lenta e ineficiente, com juízes acusados de corrupção, de justicialismo político e de mais algumas malfeitorias. É esse mesmo aparelho judicial, corporativo, arcaico e ineficaz que, à sombra do Estado, vive em impunidade. Vivemos tempos difíceis para a economia - e o principal perigo não vem da pandemia, vem de uma justiça assim, vem das interferências do Governo na TAP, da nacionalização da Efacec, deste cheiro a 11 de Março de 1975 que começa a perfumar o ambiente. Temos cada vez mais um estado que não protege as pessoas, mas que as condiciona. E as imposições, com o medo que elas podem causar, começam a configurar uma tentativa de imposição de um pensamento único, protagonizado por um Estado que pretende ser incontestado e exercer a prepotência como modo de estar. E com a conivência dos mais altos magistrados da Nação.


 


SEMANADA -  Dados da Direcção Geral da Saúde indicam que entre 2009 e 2019 a mortalidade no nosso país atingiu os 108.229 óbitos anuais, em média, com um máximo de 113.599 óbitos em 2018 e um mínimo de 103.203 óbitos em 2011; no primeiro semestre de 2020, registaram-se 60.936 óbitos, o que corresponde a mais 7.2% do que a média da década anterior (56869); a Associação de Médicos de Família estima que ficaram 15 mil diagnósticos de cancro por fazer em três meses; há mais 110 mil utentes sem médico atribuído pelos Centros de Saúde e aumentam as queixas sobre a demora e dificuldade na marcação de consultas nos centros de saúde; a ASAE apreendeu 627 mil máscaras, compradas por diversas entidades públicas, destinadas a profissionais de saúde, e que não cumprem requisitos de segurança nem têm garantia de qualidade; o recrudescimento da pandemia provocou nova corrida à informação e, a semana de 22 a 29 de Junho, segundo dados da Marktest, foi a quarta com maior tráfego nos sites de informação desde meados de Março, com quase 300 milhões de pageviews; em 1928, na Grande Depressão, a economia portuguesa colapsou 9,7% e a Comissão Europeia estima que o país deve afundar 9,8% ou mais devido à pandemia; a task force de especialistas criada em Fevereiro pela Direcção Geral de Saúde para acompanhar o combate à pandemia deixou de reunir pouco tempo depois e não reúne desde Março; as reuniões de peritos de saúde no Infarmed foram suspensas por decisão do Primeiro Ministro depois de terem lá surgido vozes críticas da actuação do Governo no desconfinamento.


 


ARCO DA VELHA -  Segundo a Protecção Civil o Ministério das Finanças não disponibilizou em Junho o reforço orçamental esperado para as despesas dos bombeiros no combate aos fogos rurais.


 


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O REGRESSO ÀS GALERIAS -  A Galeria Espaço Exibicionista apresenta uma colectiva com a participação de 25 artistas plásticos, entre os quais Alexandre Alonso, Ana Monteiro, Emanuel de Sousa, Filipe Raizer, Gabriel Garcia, João Fortuna, Jorge Humberto (Joh), Luis Melo, Martinho Dias, Paulina Goca e Valentim Quaresma (cuja obra está na foto). Dilema- Group Show 2020 pode ser visto de segunda a sexta entre as 11 e as 20 e ao sábado das 11 às 18 no Espaço Exibicionista,  Rua D. Estefânia 157 C. Mais sugestões: na Galeria Vera Cortês decorre uma exposição colectiva com todos os seus artistas, num formato invulgar,  constituída por 19 apresentações individuais em nove exposições de dois artistas, cada um apresentando uma obra, cada dueto, chamemos-lhe assim, com a duração de uma semana. Até dia 15 podem ver Gonçalo Barreiros e John Wood com Paul Harrison, de 16 a 22 de Julho estarão Anna Franceschini e Daniel Blaufuks, de 23 a 31 deste mês estarão Alexandre farto (aka Vihls) e António Bolota. De 1 a 17 de Agosto a Galeria encerra e retoma o ciclo a 20 de Agosto, que decorrerá nos mesmos moldes até 23 de Setembro. Nas Carpintarias de S. Lázaro, que reabrem agora no pós-pandemia, James Newitt apresenta a curta metragem “Fossil” em formato de instalação que percorre os vários espaços do local. A galeria Fonseca Macedo, em S. Miguel, nos Açores, completou 20 anos e apresenta uma Colectiva com obras de artistas que mostrou ao longo dos anos; o acontecimento da semana foi a abertura do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra com a exposição “Corpo e Matéria” com curadoria de José Maçãs de Carvalho e David Santos.


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SOB A PAISAGEM DO CANADÁ  - Quando um músico australiano é desafiado a fazer uma residência com músicos canadianos em Banff, na região de Alberta, no Canadá, com vista para o parque natural da região e para parte das montanhas rochosas, a influência da natureza na música produzida é inevitável. “Nothing Remains Unchanged” é o resultado da colaboração do baixista australiano Ross McHenry com o baterista Eric Harland, o pianista Matthew Sheens e o saxofonista Ben Wendel, no Banff Centre for Arts And Creativity. O resultado está em nove temas que oscilam entre o tranquilo e o tempestuoso, todos mostrando um desejo de explorar as potencialidades da colaboração entre músicos que se estão a descobrir uns aos outros. As influências de Ross McHenry estão bem sedimentadas no jazz, mas sem desprezar a música de câmara e alguma electrónica - um cocktail só por si invulgar. A grandiosidade da paisagem local foi certamente uma influência na composição destes temas, todos criados em Banff. “Complicated Us”, o tema de abertura é um bom exemplo da ligação entre o baterista e o baixista, que se desenvolve enquanto o saxofonista e o pianista criam a paisagem sonora de fundo, repleta de tensões. Em contraste “Woods” é um exercício de tranquilidade e meditação, enquanto “Forest Dance” e sobretudo “Perspectives” mostram as capacidades individuais dos músicos. O disco está disponível no Spotify.


 


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CONTRA O PENSAMENTO ÚNICO  - Bernard-Henri Lévy, que se tornou conhecido por ser um dos artífices dos “novos filósofos” franceses, escreveu durante os últimos mesesEste Vírus Que Nos Enlouquece”. Provocador como sempre, pretenso iconoclasta por definição, Levy dedica-se mais uma vez a abanar consciências e ataca toda a estratégia de contenção da pandemia por covid-19 imposta pelos governantes ocidentais, que acusa de se terem inspirado no modelo ditatorial chinês.  Bernard-Henri Lévy não é meigo e classifica os detentores do poder de usurários da morte, tiranos da obediência, higienistas delirantes, protagonistas da primeira crise mundial que «produziu uma realidade mais incrível que a ficção» e a que mais «inflacionou discursos obsessivos». Sempre à procura de uma polémica, Levy aponta o dedo a governantes, organizações internacionais, influenciadores de opinião e “colapsologistas” que, «efusivos, disfarçam o seu egoísmo de abnegação» e aproveitam o coronavírus para arrasar o que a civilização ocidental tem de melhor. «É preciso resistir, custe o que custe, a esse vento de loucura que sopra sobre o mundo», vento a que o autor chama de «Primeiro Medo Mundial», que assola o planeta e, afirma, estrangula a liberdade dos cidadãos a coberto da urgência sanitária. Levy ergue-se contra o pensamento único, em defesa das portas da liberdade que para si são  aeroportos, viagens, cosmopolitismo e comércio. «Os grandes epistemólogos dizem que as crises sanitárias são fenómenos sociais que comportam aspectos médicos» -  é esta a tese que serviu de base ao pensamento formulado por Bernard Henri Lévy neste livro, já editado em Portugal pela Guerra & Paz.  


 


POR VOLTA DA MEIA NOITE  -  A minha sugestão petisqueira de hoje passa por uma série japonesa de televisão, que tem origem numa obra de Manga, e que é exibida pela Netflix em duas temporadas, de dez episódios de 25 minutos cada um - “Midnight Dinner, Tokyo Stories”. Tudo se passa num bar de apenas 12 lugares ao balcão, localizado nas pequenas ruas escondidas do centro de Tóquio, junto da estação central de comboios, um restaurante que tem a particularidade de só funcionar entre a meia noite e as sete da manhã. “O meu dia começa quando acaba o dos outros”, diz o Mestre (único nome pelo qual é tratado pelos clientes), dono e único funcionário do bar que tem uma lista minimalista, teoricamente com um único prato, uma tradicional sopa japonesa de legumes e porco. O Mestre declara que a sua política é fazer o que os clientes pedirem com os ingredientes que nesse dia tiver disponíveis. Cada episódio é uma história fechada e o Mestre, uma interpretação fantástica de Kaoru Kobayashi, é o pivot de continuidade que assiste à forma como ao seu balcão se desenrolam histórias fascinantes de relações humanas - cada uma à volta de uma das suas criações culinárias. O que eu sei é que desde que comecei a ver a série já experimentei fazer ramen e inhame salteado e, para principiante, não me saí nada mal, sobretudo no ramen. Estou com vontade de um dia destes fazer uma omelete de arroz e ando a estudar a possibilidade do salmão com cogumelos. Vou ver mais uns episódios.


 


DIXIT - “Há coisas que apesar de o Governo não nos querer dizer, precisamos de saber: não havia mesmo outra solução?” - Paulo Rangel, sobre a TAP.


 


BACK TO BASICS - “A inspiração é de facto algo que existe, mas para  ela surgir temos que  trabalhar” - Pablo Picasso

julho 03, 2020

O TEMPO DO DESGOVERNO - JÁ SE ZANGAM AS COMADRES...

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SEMANA HORRIBILIS - A semana, que prometia ser do regresso à normalidade, foi afinal um pesadelo. A razão do pesadelo, percebe-se hoje claramente, foi o desgoverno com que o desconfinamento se processou, os maus exemplos das mais altas figuras do Estado em grandes eventos públicos, a tolerância fomentada ao desrespeito pelas regras básicas. Na região de Lisboa a situação de saúde pública agravou-se, a comunicação foi uma desgraça e teve repercussões no exterior: alguns países fecharam as portas a receber portugueses com medo de que daqui possa ir contágio. Internamente a coisa também correu mal: o presidente da Câmara de Lisboa zangou-se com a Ministra da Saúde, António Costa irritou-se com os peritos epidemiologistas que contrariaram a sua propaganda. No entretanto os utentes dos transportes públicos queixaram-se de lotação excessiva e o Ministro da TAP, Pedro Nuno Santos, passou dias a garantir  que está tudo bem apesar de todas as provas em contrário. De tudo isto há algumas coisas a reter: a  fúria de Medina surge por causa da quebra do Turismo, não se manifestou devido a preocupações com a saúde de quem vive e trabalha na cidade, como não o fez desde que a pandemia nos atingiu. E Pedro Nuno Santos tem a tarefa de comprar a TAP com dinheiro dos contribuintes, num processo diferente e menos transparente e racional do que vários apoios concedidos por outros governos europeus a companhias aéreas. Pelo meio as Finanças, tão relutantes a darem incentivos fiscais a áreas como por exemplo a cultura, prometem descontos no IRC e IRS aos organizadores da final da Liga dos Campeões e do IVA az organizadores de congressos. O PS está infestado de contradições, António Costa tem poder e mostra-o,  mas já não o usa para governar. O país está entregue ao acaso - descobrem-se milhões para o negócio da TAP enquanto é uma dificuldade encontrar dinheiro para a saúde  - e essa falta de recursos, dizem os especialistas, contribuíu para dificultar o combate à pandemia em Lisboa. Este é o mais triste retrato desta semana que deixa um lastro de demasiadas coisas por explicar. 


 


SEMANADA - Portugal está na cauda da OCDE no número de cuidadores formais por cada cem idosos; segundo o Conselho da Europa Portugal falhou as metas de redução da disparidade salarial entre homens e mulheres; um estudo realizado a nível europeu em relação à pandemia indica que para a maioria dos europeus a confiança nos Estados Unidos foi quebrada, que a União Europeia não esteve à altura das suas responsabilidades e que a perspectiva negativa sobre a China aumentou; o mesmo estudo indica ainda que há maior cepticismo sobre a capacidade de as instituições de Bruxelas para relançar a recuperação económica; nos últimos três anos lectivos foram descontinuados mais cursos do Ensino Superior que aqueles que foram autorizados a abrir; desde a declaração do estado de emergência o número de estudantes que fizeram pedidos de bolsa de estudos mais do que duplicou; a Infraestruturas de Portugal, que tutela a CP, está a restringir o acesso a estudos sobre a modernização das linhas férreas, prontos há dois anos; o Ministro das infraestruturas admitiu ser inviável cumprir o distanciamento social nos comboios; Fernando Medina disse que “com mais chefes e pouco exército não conseguimos ganhar esta guerra” à pandemia, criticando assim o Governo; a Ministra da Saúde respondeu pedindo “menos má-língua”; o Ministro das Infraestruturas garantiu  que o aeroporto do Montijo é para avançar apesar dos efeitos da pandemia no sector da aviação; na área metropolitana de Lisboa há 15.000 doentes em vigilância e 100 incontactáveis por dia;  Segundo o INE há 10 295 909 residentes em território nacional e, deste número, 2 280 424 têm 65 ou mais anos, o que representa 22.1% do total da população, o que excede em 638 mil o verificado há 20 anos; 





ESTATÍSTICAS - A Amazon realiza 11.000 dólares de vendas em cada segundo na sua plataforma de e commerce e no ano passado entregou  3,5 mil milhões de encomendas, o que significa uma para cada dois seres humanos do planeta.


 


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FOTOGRAFIA PORTUGUESA -  Nos últimos anos tem crescido o mercado dos photobooks - não são livros sobre fotografia, são livros que apresentam fotografias de um autor ou sobre um tema, ou até um ensaio fotográfico. Com a diminuição da publicação de grandes reportagens fotográficas em jornais, e sobretudo em revistas, nos últimos anos houve um ressurgir desta categoria muito especial - os photobooks, na terminologia internacional. Folhear um photobook com atenção é (quase) como visitar uma exposição. Por cá têm surgido alguns e destaco a colecção Ph., criada pela Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo e que é uma série de monografias dedicada à fotografia portuguesa contemporânea com texto bilingue à venda por 19 euros. Depois de edições dedicadas a Jorge Molder, Paulo Nozolino, Helena Almeida e Fernando Lemos surge agora José M. Rodrigues. Após 20 anos a trabalhar na Holanda, José M. Rodrigues vive desde 1993 em Évora, onde tem leccionado na Universidade local e foi o vencedor do Prémio Pessoa em 1999. Este novo volume da Ph. percorre a obra do fotógrafo, desde a sua produção recente e inédita com obras de 2020, até às primeiras fotografias do início dos anos 70 do século passado. No texto introdutório do livro, Rui Prata sublinha que as fotografias de José M. Rodrigues “são despojadas de acessórios e sublinha que as imagens “não têm ruído, limitando-se ao fundamental”, muitas vezes baseado no desafio que é o próprio olhar do fotógrafo, o qual, nas últimas páginas do livro deixa esta ideia: “o trabalho do fotógrafo reduz-se a uns segundos numa vida inteira”.


 


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BLUES, SOUL & GOSPEL- A primeira frase que Diane Schuur canta no seu novo disco conta logo toda a história: “The blues and I know each other”. A dedicação aos blues, à soul e ao gospel fazem parte das características desta pianista e cantora que, numa época em que o jazz vocal muitas vezes é amaciado, procura manter uma identidade forte. Aqui, no novo álbum “Running On Faith”,  Schuur é apoiada por Ernie Watts, que co-produz o disco, por Kye Palmer no trompete, por Thom Rutella na guitarra, Bruce Lett no baixo acústico e Kendall Kay na bateria. São músicos sérios que não fazem floreados e tocam jazz sem maquilhagens. Diane Schuur está em grande forma e a sua relação com os músicos é assinalável - parece aliás ter ganho uma energia que estava ausente de outros registos seus recentes. Em “Walking On A Tightrope”, a faixa inicial, é particularmente evidente a forma como ela se solta a cantar ao lado dos músicos,  mudando de registo logo a seguir em “The Danger Zone”. Destaque ainda para uma versão de um original de Paul Simon, “Something So Right”, para o gospel “Everybody Looks Good At The Starting Line” que mostra mais uma vez a ligação entre a cantora e pianista e os músicos que aqui a acompanham e finalmente para o clássico “Swing Low Sweet Chariot”, que encerra os 13 temas do álbum “Running On Faith”, já disponível no Spotify.


 


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APRENDER A ESCREVER - Stephen King fez nome a escrever histórias de ficção científica, terror e fantasia. Está entre os dez autores mais traduzidos no mundo, foi editado em 40 países e, no total, já vendeu mais de 400 milhões de exemplares das cerca de sete dezenas de originais que escreveu desde 1974, vários adaptados ao cinema, como “Carrie” ou “Shinning”. Toda esta experiência permite-lhe ter uma visão muito clara sobre o trabalho de um escritor. “Escrever”, um livro entre a autobiografia e um guia sobre como escrever, tem agora uma edição portuguesa e foi considerado pela Time um dos melhores 100 livros de não ficção de todos os tempos. Iniciada em 1997, esta obra só seria terminada em 2000, na convalescença de um grave acidente. Ele conta que nos meses de recuperação, o nexo entre a escrita e a existência tornou-se mais crucial do que nunca para si e decidiu fazer um guia para potenciais escritores. “Escrever” parte da experiência concreta do autor, e apresenta a sua perspetiva sobre a formação de um escritor, com conselhos práticos e sobre todas as fases, desde o desenvolvimento da intriga e a criação das personagens até aos hábitos profissionais e à fuga ao trabalho. Publicado originalmente em folhetim na revista New Yorker, o livro culmina com um testemunho do modo como a necessidade irresistível de escrever estimulou a recuperação de Stephen King e o trouxe de volta à vida após o acidente. A páginas tantas, no final da primeira parte do livro, encontramos esta frase: “Começa assim: coloque a mesa num canto e, sempre que se sentar para escrever, lembre-se da razão de ela não estar no meio da sala. A vida não é um suporte à arte. É exatamente o contrário.” Edição Bertrand.


 


A BARLAVENTO - A costa vicentina tem bom peixe. E tem dos melhores percebes que se podem encontrar em Portugal. O mar batido deve ser a causa. Durante muitos anos o Café Correia, em Vila do Bispo, era o sítio incontornável para avaliar como estavam os bichos. Infelizmente o Café Correia fechou, na porta está um agradecimento à clientela que frequentou a casa, em jeito de despedida. No largo ali perto há dois ou três sítios sem história, mas um deles, o Snack Bar Convívio, sabe tratar bem os percebes. è preciso ter paciência, mas no fim há recompensa pelo sabor do pedúnculo do bicho. Se rumarmos mesmo a Sagres temos uma casa discreta, O Carlos, aberta desde 1993 numa esquina da zona mais recente da localidade, com esplanada ampla, e com muito respeito, também, pelos percebes frescos bem servidos. Mas O Carlos tem uma especialidade que vale a pena provar - um arroz rico de marisco, cozinhado no ponto e com o sabor a mar bem presente. Acresce ainda em abono do local uma tarte de alfarroba, amêndoa e figo como é difícil encontrar. E, para cúmulo, o serviço é bom. (Telefone 282 624 228). Para finalizar o roteiro de Sagres recomenda-se também o Vila Velha (telefone 282 624 788), onde numa sala simpática se provou uma boa ligação de tagliatelle com camarão. Voltando um pouco acima, na Carrapateira, recomenda-se O Sítio do Rio, no caminho para a Praia Bordeira, onde tivemos a sorte de encontrar uma anchova de bom tamanho, aprimoradamente na grelha, fresquíssima. O local foi escolhido ao acaso mas portou-se muito bem. (Telefone 282 973 119).


 


DIXIT - “Vivemos numa sociedade que, cada vez menos, reconhece o direito ao pluralismo, que se fecha em redutos de intolerância” - Jorge Barreto Xavier.


 


BACK TO BASICS - “Por vezes ficamos fiéis a uma causa só porque os seus inimigos são completamente insípidos” - Friedrich Nietzsche.


 






junho 26, 2020

PERDEU-SE A NOÇÃO DA REALIDADE E A PANDEMIA REACENDEU-SE

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A BEBEDEIRA DO PODER - As peripécias deste desconfinamento parecem indicar que a abertura de portas foi muito mais desleixada que o seu fechamento. Todas as importantes e persistentes instruções de meados de Março e do início do confinamento resultaram porque foram claras e precisas; no desconfinamento aconteceu o contrário - pior comunicação, instruções mais difusas, menos preparação, menos acompanhamento, decisões contraditórias, mudanças de rumo frequentes - que ainda por cima é o que pode gerar maior desconfiança e perturbação, até na actividade económica. No final de Maio as pessoas estavam saturadas e era previsível que, a menos que tudo fosse muito salvaguardado, ocorreriam excessos. É dever de quem manda prever este tipo de coisas. Da mesma maneira que elogiei a persistente acção do Governo no confinamento e a forma como Costa acompanhou a situação, desta vez junto a minha voz a todos os que apontam o dedo aos dislates das últimas semanas. Já nem falo da triste cena da cerimónia de regozijo pela vinda da Champions, nem da ofensiva ideia de que aumentar o perigo era uma homenagem ao pessoal da saúde, nem das ridículas posições de Fernando Medina, que, durante os piores momentos não se ouviu nem se sentiu e que agora quer cantar de poleiro. Cito o que Ana Cristina Leonardo escreveu esta semana na sua página do Facebook: “Numa situação como a que estamos a viver, onde por muito cuidado que se tenha não existe risco zero, o inimigo é invisível à vista desarmada e o país é mesmo muito pobre, o equilíbrio entre economia e saúde pública vai ser — está a ser — difícil de gerir (...) E ter autoridade numa situação de crise conta bastante.” Foi essa autoridade que se perdeu neste recente e acidentado percurso. O poder é um vício, que por vezes embebeda e faz perder a noção da realidade, sobretudo quando os cocktails são servidos, como tem acontecido ultimamente, pelo próprio Presidente da República, em constantes happy hours com o Primeiro-Ministro.


 


SEMANADA - O número de casais em que ambos os cônjuges estão desempregados aumentou pelo terceiro mês consecutivo e atingiu em maio os 6.722 casos, uma subida de 1.207 casais face ao mesmo mês do ano passado; na segunda metade de Março verificou-se uma grande queda nas exportações, com efeitos sensíveis no défice externo do primeiro trimestre, que teve um saldo negativo de 544 milhões de euros; segundo a consultora KPMG a pandemia Covid 19 provocou uma desvalorização do plantel das equipas de futebol, que para alguns clubes do top 32 europeu ultrapassa os 20%, e que nos casos de Benfica e FC Porto supera os 15%; o PAN, que foi um dos triunfadores das mais recentes legislativas, atravessa uma intensa polémica interna com acusações de que há colaboradores pagos a falsos recibos verdes, que existem assessores parlamentares dos deputados do partido que são pagos pela Câmara de Lisboa e que as contas partidárias levantam suspeitas; segundo o INE existiam no final de 2019 10 295 909 residentes em território nacional, Lisboa mantém-se o concelho mais populoso do país, com cerca de 510 mil habitantes. Sintra, com 391 mil é o segundo maior e Vila Nova de Gaia o terceiro, com 300 mil, enquanto o Porto, com 217 mil habitantes, ocupa a quarta posição; as reservas de autocaravanas para os meses de verão aumentaram 50%, na sequência da procura de soluções alternativas para férias no contexto Covid 19.


 


CURIOSIDADES DOCES - Segundo a Marktest mais de cinco milhões de pessoas dizem ter consumido tabletes de chocolate no último ano, o que representa 59,5% da população, sendo que o consumo é maior junto das mulheres e que o consumo de  chocolate preto ultrapassa já o do  chocolate de leite.


 


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O PODER DO DESENHO -  Quando se descem os degraus da Galeria Miguel Nabinho e se chega à sala de exposições aquilo que se vê é um conjunto de desenhos que autenticamente se desenrolam por três das suas paredes. Trata-se de “Border Line”, o novo trabalho de Manuel Vieira, com praticamente sete dezenas de desenhos, relacionados entre si, mas cada um com vida autónoma. O papel pardo Kraft é a matéria prima utilizada, assim como a tinta da China e, ocasionalmente, guache. Isto, claro, além da prodigiosa imaginação do artista - onde a atracção pelo fantástico é dominante. A maior parte dos desenhos nasceu no início deste ano e a série ficou finalizada uma semana antes do confinamento - embora haja alguns que foram criados em 2017. O traço rigoroso, um trabalho manual de dimensão apreciável, a miscelânea de personagens, os temas que vão dos pesadelos do amor até viagens imaginárias e tentações variadas, criam na obra, como está exposta, um conceito de narrativa, quase uma banda desenhada gigante. A peça destina-se no entanto, também, a ser vista isoladamente - cada desenho pode ser vendido separadamente e isso introduz uma perspectiva de efémero nesta exposição - onde se sabe que o conjunto será disperso, percebendo que cada desenho acaba por contar a sua própria história. No texto da exposição Manuel Vieira escreve:  “A Arte é a última fronteira e faz-se o que se pode, com o material que se tem”. Não podia ter mais razão. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, está aberta de terça a sábado à tarde, entre as 14h00 e as 19h45.


 


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ODE A NEW YORK - Delmore Schwartz, um dos escritores norte-americanos injustamente pouco conhecidos, escreveu “Nos Sonhos Começam As Responsabilidades”  em 1935 e esta colecção de short stories é considerada a sua obra maior, uma ode a Nova Iorque. Na Universidade de Siracusa, onde dava aulas, teve Lou Reed como aluno, que sublinha que Delmore foi a sua inspiração para escrever, não lhe poupando elogios no prefácio que escreveu. Delmore morreu ignorado e na miséria em 1966 e este livro foi publicado em português pela primeira vez em 2012. Nascido em Brooklyn, Delmore Schwartz foi, acima de tudo, um retratista de Nova Iorque e dos jovens heróis à descoberta do seu mundo. Com apenas 21 anos, escreveu este “Nos Sonhos Começam as Responsabilidades”, e mais tarde viria a imortalizar o seu nome como um expoente literário da geração que cresceu entre a Depressão e o começo da II Guerra Mundial. Nestes oito contos a realidade e a ficção misturam-se e, tal como o autor, também o protagonista da história é um jovem de 21 anos. Editado pela Guerra & Paz.


 


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O PODER DA PALAVRA - Em 79 anos já gravou 39 álbuns de originais. Chama-se Bob Dylan e a sua designação como Nobel da Literatura provocou polémica e levantou tempestades. Ouvindo as palavras que usa neste disco talvez os críticos possam entender melhor a razão de ser da distinção que recebeu. Este é um disco mais falado e escrito que os anteriores - “Rough And Rowdy Ways”, lançado há dias, é o seu primeiro álbum de originais em vários anos, o primeiro depois de lhe ter sido atribuído o Nobel. Antes deste novo trabalho andara no cancioneiro americano clássico, Sinatra incluído. Críticos de diversas proveniências já decretaram “Rough And Rowdy Ways” o seu melhor trabalho desde há muito tempo. É certamente aquele que transporta mais ideias, que afirma mais convicções, sobretudo aquele em que Dylan descreve melhor a forma como vê o que hoje se passa nos Estados Unidos. Não deixa de ser curioso que a primeira faixa do disco a ser divulgada, há uns meses, em pleno confinamento, tenha sido “Murder Must Foul”, um épico de 17 minutos que revive os tempos do assassinato do presidente Kennedy e salienta as lutas contra a injustiça que constituem a espinha dorsal da História da América. Ao ouvir o disco muitos criticarão a voz de Dylan, que em muitos pontos fala mais que canta, não muito longe do derradeiro registo de Leonard Cohen. Mas esta maneira de interpretar a sua música dá ainda mais força às suas palavras, coloca as ideias em primeiro plano. E, como sempre, o significado e as intenções de muitas das suas letras provocarão grandes discussões sobre todas as interpretações possíveis. Duplo CD, disponível no Spotify - dez canções, uma hora e dez de grande música. Imperdível.


 


UMA IGUARIA SERVIDA FRIA - Escolher rosbife num restaurante é muitas vezes uma aposta arriscada. Há um sem número de razões para isso: a mais frequente é que a carne não é boa; depois vem o tempero e a confecção - um rosbife fora do ponto e semi-cozido, em vez de mal passado, é fora de jogo completo! E finalmente o corte - um corte grosso e irregular arrisca-se a estragar boa carne bem confeccionada - e já nem falo dos cómicos que perguntam se queremos o rosbife aquecido com molho quente por cima para estragar ainda mais. Por isso há tão poucos sítios onde se possa pedir rosbife à vontade. Nestes dias que começam a ficar quentes, apesar da nossa proverbial ventania de fim de tarde, umas fatias de rosbife frio, de boa carne, bem cozinhado e bem cortado, sabem muito bem. Como eu cada vez gosto menos de experiências mal sucedidas e de surpresas desagradáveis, vou cada vez a menos restaurantes, escolhendo preferencialmente aqueles onde sei que não me desiludem o palato e onde sou bem atendido. Para eu ser fiel a um restaurante, o mesmo tem que ser fiel aos clientes e manter a constância da qualidade. De entre os restaurantes que mais frequento destaco hoje aquele que tem o melhor rosbife - o Salsa & Coentros, em Alvalade. Na lista  o rosbife aparece com uma anotação - “iguaria servida fria”. E de facto é uma iguaria - acompanhado por batatas fritas às rodelas feitas na hora a partir de boa matéria prima tubércula, servido com molho bearnaise e/ou mostarda de Dijon, este rosbife merece uma homenagem especial. Ele e José Duarte, o fundador e proprietário do Salsa & Coentros, sempre atento, sempre a controlar a boa qualidade daquilo que aparece nas mesas - dos vinhos da semana aos pratos tradicionais e às sugestões do dia. Fica na Rua Coronel Marques Leitão, 12, junto à Avenida da Igreja, telefone 218 410 990


 


DIXIT - “Se eu estivesse a escrever o romance da pandemia — Deus me livre e guarde! — garanto-vos que às tantas metia o Medina a dizer isto:  «Ó António! Olhe que os infectados não são meus!»” - Ana Cristina Leonardo, no Facebook


 


BACK TO BASICS - “Por aqui prefere-se o pontapé para a frente. E que o destino resolva o problema”  - Fernando Sobral




junho 19, 2020

O POLÍTICAMENTE CORRECTO QUER IMPÔR UM PENSAMENTO ÚNICO

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AS NOVAS DITADURAS - Nunca gostei que me dissessem o que não podia ler, o que não podia escrever, o que não devia pensar. Também não me agrada que me digam do que devo gostar. Desagrada-me quem julga ter por missão indiscutível defender valores que podem ser os seus, mas não são os de todos - na religião, na ideologia, na política, nos costumes, na estética ou na ética, para só citar alguns. Prezo a liberdade de poder tomar decisões, arcando com a responsabilidade inerente. Habituei-me a pensar que a minha liberdade acaba onde começa a dos outros e tenho tentado viver assim. E irrita-me que alguém tente entrar na minha liberdade, na minha maneira de encarar a História, na minha maneira de ver os acontecimentos. Por isso, para mim o Livre é tão perigoso como o Chega e os últimos dias têm provado isso mesmo - mas não me ocorre dizer-lhes o que devem fazer. Existem certamente formas de analisar a História. Mas não existem duas Histórias. Existem factos - e depois existem interpretações - e estas são de quem as quiser formular, desde que não pretendam impô-las aos outros. Acontece que desde há uns anos, em todo o mundo, se evolui para uma forma de proto-ditadura que veste as roupagens do politicamente correcto, em que alguns decretam o que está certo e fazem julgamentos por conta própria. Muito facilmente se começou a confundir direitos de uns com pecados de outros e criou-se a tendência de querer que toda a sociedade aceite como verdade inquestionável aquilo que apenas a parte dela interessa. E isto é inaceitável, seja qual fôr o tema. É uma nova forma de ditadura.


 


SEMANADA - O Estado não sabe ao certo quantos prédios tem, nem ideia do valor do seu património imobiliário, revela uma auditoria da Inspecção Geral de Finanças; o Governo construiu o Orçamento retificativo com uma estimativa de contração do PIB de 6,9% e uma semana depois o Banco de Portugal colocou em causa os pressupostos utilizados pelas Finanças, avançando com uma previsão de uma recessão de 9,5%; Portugal é um dos 12 países com taxa de inflação negativa na zona euro; três anos passados sobre a tragédia de Pedrógão Grande o SIRESP continua sem cobrir várias zonas das zonas atingidas; segundo bombeiros da região as florestas dos concelhos onde morreram 66 pessoas estão por limpar; o deputado europeu do PAN abandonou o partido, mas não o seu lugar em Bruxelas, acusando a organização de colagem à esquerda; o mercado português registou a segunda maior quebra na venda de automóveis ligeiros na Europa; foi descoberto um depósito de 30 mil toneladas de resíduos perigosos numa antiga zona industrial de Setúbal, onde estão há mais de 20 anos; segundo a Marktest durante o confinamento aumentou o consumo de pizza e de cápsulas de café; o número de cesarianas realizadas nos hospitais públicos subiu pelo terceiro ano consecutivo atingindo em 2019 cerca de 30% dos partos realizados; o saldo entre nascimentos e mortes em Portugal continua negativo pelo 11º ano consecutivo, mas pela primeira vez nos últimos dez anos regista-se um aumento da população, graças à imigração. 


 


ARCO DA VELHA -  Caso Mário Centeno seja nomeado governador do Banco de Portugal, a sua acção vai ser avaliada por um conselho de auditoria que o próprio nomeou enquanto ministro das Finanças.


 


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MAAT REINVENTADO  -  E pronto, o maat finalmente reabriu após o confinamento e obras de manutenção da estrutura afectada por uma tempestade no Inverno passado. Três destaques: a intervenção arquitectónica Beeline, a experiência sonora Extintion Calls e o PeepShow. As duas primeiras ficam até Janeiro do próximo ano, a última até 19 de Outubro. Beeline é uma intervenção arquitetónica que foi encomendada ao estúdio nova-iorquino SO – IL, e que ocupa a totalidade do edifício do maat. Trabalho de arquitetura efémera, área de eleição daquele atelier até à data, Beeline foi concebido para acolher o maat Mode 2020, um programa público de palestras e outros eventos com uma duração de seis meses lançado pela nova diretora do maat, Beatrice Leanza. Extinction Calls é uma encomenda especial a Cláudia Martinho, na qual a artista usa sons do arquivo para criar um percurso sonoro com espécies de aves extintas e  ameaçadas. A paisagem sonora é espacializada em ressonância com o espaço acústico do maat e da intervenção Beeline criando uma diversidade de pontos de escuta. Peepshow agrupa um conjunto de 15 estruturas portáteis cujo interior pode ser observado por vigias de grandes dimensões e está integrado na Beeline. Estão expostas peças da colecção de arte Fundação EDP e cada uma das intervenções é o ponto de partida para uma série de conversas em torno da relação entre arte e realidade que terão a participação dos artistas representados: Catarina Botelho, Paulo Brighenti, Tomás Colaço, Luisa Ferreira, Horácio Frutuoso, Mariana Gomes, Pedro Gomes, André Guedes, João Louro, Maria Lusitano, João Ferro Martins, Paulo Mendes, Rodrigo Oliveira, Francisco Vidal e Valter Vinagre.


 


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O SOM DA PANDEMIA - Quando a pandemia alastrou o pianista Brad Mehldau estava a meio de uma digressão pela Europa, que foi interrompida. Mehldau, casado com uma holandesa, divide o seu tempo normalmente entre Amsterdão e New York, cidade para onde iria quando tudo se precipitou. Durante meses esteve fechado na sua casa de Amsterdão e compôs 12 temas que integrou num álbum inesperado a que chamou “Suite: April 2020”. O disco evoca o espírito do tempo, do mês de Abril em que a pandemia dominou o mundo. A capa do disco é o texto de uma mensagem do pianista que descreve a música que compôs como um retrato sonoro de um tempo em que todos tiveram de se reencontrar a si mesmos. Os 12 andamentos da suite têm nomes como “Keeping Distance”, “Stopping, Listening, Hearing”, “Remembering Before All This”, “Uncertainty”, “Waiting” e três momentos do quotidiano do confinamento: “In The Kitchen”, “Family Harmony” e “Lullaby”. Há ainda três versões que Brad decidiu fazer de composições de outros músicos, três temas que escolheu como canções adequados ao espírito deste tempo: “Don’t Let It Bring You Down” de Neil Young, “New York State Of Mind” de Billy Joel e “Look For The Silver Lining”, de Jerome Kern. Disponível em edição especial limitada de vinil, em CD e no Spotify.


 


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CRIME E MISTÉRIO -  Comecei a ler policiais pela mão da colecção Vampiro - primeiro emprestados por um amigo, depois religiosamente comprados à medida que iam saindo. Foi ali que descobri os mestres dos policiais e um dos que mais me atraiu foi Raymond Chandler, sempre com o seu detective Philip Marlowe. Chandler nasceu em Chicago em 1888 e era administrador de empresas petrolíferas quando veio a Grande Depressão, em 1932. Foi nessa altura que começou a escrever - primeiro contos policiais e, depois, novelas. Este mês encontrei nas reedições contemporâneas da colecção Vampiro o seu segundo romance, “Farewell My Lovely”, ou “Perdeu-se Uma Mulher”. Voltei a descobrir o prazer da definição de personagens que Chandler fazia. É um estilo bem distante dos modernos policiais nórdicos que ultimamente são a minha paixão e que se baseiam muito na definição do perfil psicológico de polícias e criminosos.  “Perdeu-se Uma Mulher” é o segundo romance de Chandler, originalmente publicado em 1940, a partir da junção de três contos que já tinha publicado em revistas. Mais tarde a história passou a filme, protagonizado por Robert Mitchum. Com uma boa tradução de Paula Reis, “Perdeu-se Uma Mulher” descreve a Los Angeles dos anos 40, os bastidores violentos e corruptos que evidenciam as tensões de uma grande cidade, com um cenário de tráfico de droga, jóias roubadas, mulheres sedutoras e assédios variados. Hoje em dia tudo o que é politicamente correcto cairia em cima do escritor  e dos métodos do seu detective Marlowe. Se tal tivesse acontecido  quando Chandler começou a escrever ter-se-ía perdido um dos grandes autores da literatura policial. Talvez em vez disso se tivesse escrito um outro livro - “Os Crimes do Politicamente Correcto”.


 


O ITALIANO QUE SE APAIXONOU POR SAGRES - Sagres sem vento e com a água do mar a boa temperatura? - Pois é raro, mas acontece. De qualquer maneira foi com esse pano de fundo que passeando pelas ruas do centro, junto à  Pousada, encontrámos o Mum’s. À frente da casa, mal saída ainda do confinamento, está um italiano que há 11 anos trocou o restaurante que tinha em Milão e rumou a Portugal. Apaixonou-se por Sagres, convenceu a namorada, também italiana, a segui-lo e os dois puseram de pé o Mum’s passado um tempo. O foco da casa é a utilização de produtos da região, do azeite a frescos, com destaque para os produtos biológicos de produtores da costa vicentina, passando é claro pelo peixe, escolhido na lota de Portimão. Simão, aliás Simone, sommelier de formação, apaixonou-se pelos vinhos portugueses, de que fala com conhecimento e entusiasmo - sobretudo dos vinhos do Douro. Antes do Covid o Mum’s era conhecido pelos cocktails, servidos no bar e numa pequena esplanada - tinham boa fama os negroni, por exemplo. Agora, com menos mesas e o balcão à espera de melhores dias, o foco está nos jantares. A decoração do Mum’s é simples e imaginativa, Simão é um anfitrião notável, um contador de histórias, e na cozinha está um jovem chef português, de origem ribatejana, Alexandre Fidalgo. O couvert é simples e bom - do pão às azeitonas, passando por uma manteiga fermentada e uma maionese vegan. Nas entradas provou-se com muito gosto cavala fumada em consommé frio de peixe. A  lista apresenta várias sugestões vegetarianas, mas inclui também opções para hereges dessa crença, como um magnífico polvo frito, extraordinário de textura e sabor, acompanhado por cevasotto de lima e aipo, que mais não é que uma variante de risotto em que o arroz é substituído por grãos de cevada. Outras opções, boas são o filete de peixe do dia com puré de aipo, nabo e agrião ou o lombo de bacalhau acompanhado de esmagada de batata com alecrim e espargos verdes. A refeição foi acompanhada por um Vale Pradinhos reserva branco, que cumpriu muito bem. No Mum’s não sei que elogie mais - se o talento da cozinha, se a hospitalidade de Simão. Na próxima ida a Sagres lá voltarei. Mum’s, Rua Comandante Matoso, 917 524 315, aberto aos jantares todos os dias excepto terça-feira.


 


DIXIT - "É perfeitamente desejável que possamos ter um Banco de Portugal acima da conflitualidade política e não como parte do combate político" - António Costa, em 2015, sobre o processo de nomeação do Governador do Banco de Portugal


 


BACK TO BASICS - “Um fanático é alguém que é incapaz de mudar de ideias e que não quer mudar de assunto” - Winston Churchill

junho 12, 2020

UMA PALAVRAS SOBRE AS AUDIÊNCIAS DE TV E SUGESTÕES AVULSAS

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A GRANDE ILUSÃO - Quando olhamos para a lista dos 20  programas mais vistos da televisão portuguesa só vemos dois canais: SIC e TVI. Porquê? A explicação é fácil e baseia-se na táctica da sobreposição da realidade. Passo a explicar: estes dois canais começaram há algum tempo a desdobrar cada um dos seus principais programas em várias emissões, com títulos ligeiramente diferentes. O objectivo é conseguirem ocupar o maior número possível de lugares no ranking. Por exemplo as telenovelas têm “especiais”, o “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” fica dividido em duas partes que ocupam de  facto dois lugares da lista, o “Big Brother” idem e o “Quem Quer Namorar Com o Agricultor” ainda mais. Na semana passada, por exemplo, a lista dos 20 programas mais vistos afinal só corresponde a dez programas realmente diferentes. Só o “Quem Quer Namorar Com O Agricultor” tem cinco presenças no top 20 graças a esta técnica dos desdobramentos. A lista assim elaborada dá uma ideia distorcida do que é de facto a realidade e diversidade da televisão em Portugal. Basta dar este pequeno exemplo - sem este truque de multiplicação dos programas a RTP1 também estaria com várias entradas, pelo menos cinco, na lista dos 20 mais da semana passada. É uma perigosa ilusão esta que se cria de fazer crer que só existe a SIC e a TVI quando as duas juntas alcançaram 34,6 por cento da média do total de espectadores da semana passada enquanto o conjunto de canais cabo por si só significou 37,8% .


 


SEMANADA - Mário Centeno afirmou que não falou e não quer falar com Costa e Silva no âmbito do estudo que este está a realizar para o Governo sobre a recuperação da economia; segundo o Conselho das Finanças Públicas o PIB pode cair entre 7,5 e 11,8% e a dívida pode disparar para 141,8% devido aos efeitos da pandemia na economia; o sector das empresas de diversões itinerantes, pirotecnia e música, que trabalham habitualmente nas festas e romarias de verão, estimam perder 50 milhões de euros este ano; um estudo divulgado esta semana indica que as rendas de casa já desceram 20% desde o início da pandemia; os lucros das empresas do PSI 20 caíram 56% desde o início da pandemia; um terço dos alunos do nono ano passa com negativa a matemática; durante o período do confinamento foram usados mais descartáveis e houve um recuo nos hábitos da reciclagem; no final da semana passada estavam operacionais e a voar 12.234 aviões em todo o mundo e continuavam em terra 14.025 à espera de ordem para descolar; Portugal esteve quase 100 dias sem jogos de futebol e na primeira semana de regresso dos jogos começaram logo os casos de violência; Pinto da Costa foi eleito para o 15º mandato consecutivo à frente do Futebol Clube do Porto, que dirige desde 1982, e alcançou 70% dos votos; as autoridades espanholas procuraram um crocodilo que teria sido visto no Douro, na zona de Valladolid - mas afinal era uma morsa.


 


ARCO DA VELHA - Três avaliadores de projectos da Fundação para a Ciência e Tecnologia concorreram e ganharam um apoio, apesar de terem tido acesso antecipado aos critérios de avaliação.


 


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FOLHEAR FOTOGRAFIAS  -  Uma das maneiras de seguir o que de melhor se faz em fotografia é ter acesso a edições de photobooks e revistas - e particularmente a Aperture, editada quatro vezes por ano, sazonalmente, pela Aperture Foundation, de Nova Iorque. Encontrar a Aperture em Portugal não era fácil mas agora já é possível adquiri-la (e folheá-la antes se fôr o caso), numa nova loja,a Photo Book Corner, que abriu na Avenida Marquês Sá da Bandeira, perto da Gulbenkian e praticamente paredes meias com a Under The Cover, uma loja especializada em revistas independentes. Assim se criou ali um pequeno cluster de divulgação e venda de edições difíceis de encontrar noutros locais. A Photo Book Corner dispõe de uma boa selecção de livros de fotografia de autores como Robert Frank, Todd Hido, Nan Goldin ou Martin Parr, entre outros. Além disso expõe ainda fotografia, que vende, apesar do espaço exíguo, mas bem aproveitado. Mas passemos a esta edição da Aperture, da primavera de 2020, que na capa leva o título genérico “House & Home”. A edição explora as formas dos espaços domésticos e as ligações entre arquitectura, design e fotografia. Logo na entrada, e fora deste tema, há dois pequenos artigos interessantes - um sobre a ligação entre a arte, artistas e a utilização das suas obras na publicidade; e outro sobre a crescente utilização de boa fotografia nas capas de livros, nalguns casos porque os seus autores  viram em exposições imagens que lhes pareceram adequadas às obras que tinham escrito e quiseram tê-las na capa. No tema principal desta edição destaco as páginas sobre Robert Adams e as suas fotografias dos anos 70, assim como a revisitação contemporânea do trabalho que Walker Evans fez nos anos 30 do século passado em Pittsburgh. Nesta edição da Aperture há ainda uma dezena de portfolios sobre o tema de capa que merecem atenção. Antes de ter existência física como loja, a Photo Book Corner já existia como uma operação on line - que pode descobrir em  www.photobookcorner.com.


 


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OS TIGRES REGRESSARAM - 22 anos sem deitar um disco cá para fora e agora sai isto: uma pérola. Os Três Tristes Tigres marcaram a última metade dos anos 90, mas desde 1998 que não editavam originais - “Comum” havia sido o seu último registo dessa época, sempre com Ana Deus, Alexandre Soares e as palavras de Regina Guimarães. Nos anos mais recentes tinham-se reencontrado em torno de Osso Vaidoso, um projecto nascido em 2010 entre a guitarra e a voz, desenvolvido por Alexandre Soares e as suas guitarras e Ana Deus e a sua voz. O novo disco, “Mínima Luz”, nasceu de um desafio de revisitação da obra dos Três Tristes Tigres feito pelo Teatro Rivoli. Uma coisa puxa a outra e nos últimos dois anos o novo disco foi nascendo na cabeça dos seus autores, foi ganhando forma. Desta vez Alexandre Soares chamou mais músicos para o seu lado, com destaque para o baterista Fred Ferreira, o baixista Rui Martelo, o percussionista Gustavo Costa e a harpista Angélica Salvi. Ao longo destas últimas duas décadas Alexandre Soares tem trabalhado em bandas sonoras e em composições para dança e teatro. Nos Osso Vaidoso deu asas à guitarra, que neste novo disco dos Três Tristes Tigres ganha electricidade e estabelece um renovado diálogo com os seus sintetizadores. Ana Deus está em grande forma a interpretar as palavras de Regina Guimarães que escreveu para cinco dos nove temas e a própria cantora escreveu um deles (“Surrealina”), Luca Argel outro e Regina Guimarães adaptou também poemas de Langston Hughes -  ‘Life is Fine’ aqui é “À Tona” e de William Blake “The Tyger”. Numa recente entrevista, falando sobre o disco, Ana Deus disse que ele “reflete o desejo de que haja mais luz e mais ciência na informação - hoje em dia, é como se anos e anos de ciência, estudo e conhecimento fossem abafados por lixo e conversas da treta.” “Mínima Luz” é uma edição de autor, em CD e vinil, que podem ser comprados através do email correiodostigres@gmail.com e que pode também ser ouvido no Spotify.


 


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OS DILEMAS DO FIM DA VIDA -  “Reconhecer os limites da ciência e da sua aplicação tecnológica é um acto de maturidade. Cumprir o desejo do doente, não o obrigar a viver através de meios tecnológicos, é respeitar o princípio da autonomia, que é o único princípio da moral, de acordo com Kant. Em nome da moralidade, obrigar um doente frágil a prolongar o seu sofrimento contra a sua vontade, simplesmente porque é possível através de meios tecnológicos, não é aceitável” - quem o afirma é o médico J. Filipe Monteiro, pneumologista e mestre em Bioética, no livro “Testamento Vital - Nos dilemas éticos do fim da vida”, agora editado. O tema da morte assistida foi ganhando relevo e no início deste ano o parlamento aprovou uma série de projectos que abriram o caminho para a elaboração de uma lei que permita e regulamenta a morte assistida. No livro de J. Filipe Monteiro ao longo dos vários capítulos são discutidos e reflectidos, o percurso histórico, os aspectos técnicos e filosóficos, a perspectiva de algumas religiões e organizações médicas. O livro explica ainda em detalhe todo o processo ligado à opção pelo  Testamento Vital ou Directivas Antecipadas da Vida. “A rejeição da obstinação terapêutica é um acto de boa prática médica”, defende o autor, que sublinha: “Todos os intervenientes, dos doentes aos médicos, passando  pela família e pelas instituições gestoras de saúde, devem envidar todos os esforços  para a sensibilização pedagógica do testamento vital”.


 


ELAS & AS ISCAS - Tinha saudades de uma isca, com elas, claro - o nome do prato é só por si um episódio, estimulando a imaginação. Mas adiante. A realidade é que  num take away não se pode comer iscas. A coisa não é simples - o corte tem de ser bem feito e desde as vacas loucas ficámos quase reduzidos às iscas de porco e aí o corte tem ainda de ser mais preciso e afinado - sempre muito fino. Temperá-las é outra arte e o molho outra ainda - um pouco de vinagre a mais ou a menos é a morte do artista. Na Valbom há um restraurante que tem umas iscas acima da média - o Jaguar. A sala é das inviáveis pela pandemia - pequena, cheia de mesas, corredor comprido estreito e balcão, tudo coisas impossíveis. Mas felizmente agora tem uma boa esplanada. Podem vir com elas como devem ser - as batatas cozidas, ou na versão traiçoeira, com batata frita aos palitos. Confesso que não sou ortodoxo e escolho conforme as ocasiões e o apetite do momento. É curioso que a Valbom tem mais abaixo, no clássico Polícia, outro bom local para umas iscas tradicionais. Mas devo deixar aqui uma recomendação: há uma outra hipótese de iscas, que é um petisco e não é frequente conseguir encontrar - iscas de leitão, ainda mais finas e delicadas que todas as outras. Aqui em Lisboa recomendo um sítio que por vezes as tem - é o Apuradinho, na Rua de Campolide. 


 


DIXIT - “O meu sonho é que conseguíssemos ter os cidadãos dos nossos países a mudar as suas vidas para criar uma relação de maior respeito pela natureza e pelos oceanos e que isso tivesse repercussões nas decisões políticas nos próximos anos” - Tiago Pitta e Cunha,presidente da Fundação Oceano Azul


 


BACK TO BASICS - “As nossas vidas começam a acabar no dia em que ficarmos silenciosos face às coisas que mais importam” - Martin Luther King





 

junho 05, 2020

A PANDEMIA MOSTROU A IMPORTÂNCIA DO SERVIÇO PÚBLICO AUDIOVISUAL

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O SERVIÇO PÚBLICO DA RTP  - Espero que nestes últimos meses alguns dos adeptos da extinção do serviço público audiovisual tenham acompanhado a actividade da RTP, quer na televisão, quer na rádio ou online. A informação dos seus canais de televisão e da rádio, primou por ser exacta sem ser alarmista, didáctica sem ser enfadonha, promoveu debates, chamou especialistas, não foi sensacionalista. Pelo meio foi estreando novas séries, umas melhores que as outras, claro, num caminho longo que tinha que ser começado algum dia. Nestes meses a RTP mostrou o que é serviço público: alternativa, referência, complementaridade. Além disso conseguiu colocar no ar em tempo recorde as emissões escolares para vários graus de ensino, esteve presente sem ser subserviente em todos os momentos de intervenção dos orgãos de soberania na condução do combate à pandemia. Sem futebol as suas audiências desceram, mas a boa notícia é que estabilizaram em valores aceitáveis no caso da RTP1 e seria bom terem um empurrão criativo, na informação, programação e na promoção, no caso da RTP2. A RTP3 no conjunto das emissões de cabo e TDT conseguiu um bom resultado, logo atrás da SIC Notícias e à frente da TVI24 no acumulado desde o início do ano. E a plataforma RTP Play, que funciona em streaming nas emissões da rádio e televisão, permite, além das emissões em directo, recuperar de forma simples e universal conteúdos que na altura em que foram emitidos não se puderam ver, sem pagar qualquer assinatura. Se não tivéssemos um serviço público audiovisual diversificado como o que a RTP disponibiliza teríamos vivido pior estes meses. 


 


SEMANADA - Segundo a PSP em 2029 registaram-se 1526 casos de ataques de cães a pessoas; o mercado automóvel recuou 71,6% em Maio, com os concessionários já de portas abertas; as primeiras sardinhas de bom tamanho vendidas na lota de Matosinhos ultrapassaram os dois euros por quilo e as mais pequenas ficaram no euro por quilo; desde 1991, o número de crianças com menos de 10 anos diminuíu em praticamente todos os concelhos do país e no total, o país "perdeu" 293 mil crianças até aos 10 anos, passando de 1 milhão e 190 mil crianças em 1991 para 897 mil em 2018; segundo a Marktest durante o confinamento cerca de 30% dos portugueses fizeram mais compras online; ainda segundo a Marktest 55% dos portugueses está a planear fazer as férias de verão no campo; uma estudo esta semana divulgado mostra que mais de metade dos profissionais de saúde apresentam sinais de exaustão física e psicológica associadas ao exercício da sua profissão durante o combate à pandemia; uma sondagem recente indica que 85% dos votantes do PS querem o seu partido a apoiar uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa; há empresas exportadoras que esperam há dois meses pela garantia estatal no seguro de crédito, já que a proposta apresentada pelo Governo não tem o acordo das seguradoras; a CP perdeu 20 milhões de euros por mês de receitas devido à pandemia; segundo a Associação dos Mediadores do Imobiliário de Portugal a maioria das empresas suas associadas teve quebras de actividade na ordem dos 50%, entre Março e Maio;Várias reportagens indicam que foi maior a corrida a centros comerciais que aos jardins de infância no dia das respectivas reaberturas; o número de vacinas administradas em maio caiu mais de 40% em comparação com o mesmo mês de 2019.


 


ARCO DA VELHA - Das 15 recomendações sugeridas pelo GRECO, o Grupo de Estados Contra a Corrupção do Conselho Europeu. só uma foi implementada em Portugal,  oito só o foram parcialmente e seis foram ignoradas e Portugal está num grupo de 15 países incumpridores que têm uma avaliação “globalmente insatisfatória”. 


 


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FOTOGRAFIA REMOTAMENTE COMANDADA -  Durante o tempo em que trabalhei em redacções uma das coisas que me dava mais prazer e satisfação era acompanhar a paginação, escolher as fotografias, editá-las com os seus autores, construir a história com as imagens.  O “Blitz” e “O Independente” deram-me esse prazer, assim como, mais tarde, o “Se7e” e a “Visão” e hoje, nestas páginas de “A Esquina do Rio” do “Weekend” do “Jornal de Negócios”, procuro sempre escolher as imagens. Quando pego numa revista, ou num jornal, a paginação e a edição fotográfica são sempre o meu foco de atenção. Hoje isso também acontece por vezes com algumas publicações online - o conceito de paginação para ecrã de dispositivo móvel, por exemplo, é um desafio. Mas quero destacar uma das melhores ideias que vi nos últimos tempos, nascida das medidas de confinamento tomadas no decurso da pandemia. A revista “Time”, dedicou a sua edição de 1 de Junho à “Generation Pandemic”, o título da capa. E para editar as imagens de um dos artigos principais “Unlucky Graduates”, que se estende ao longo de 12 páginas da revista, designaram Hannah Beier, uma finalista de fotografia da Universidade de Drexel, de Filadélfia. Beier fotografou virtual e remotamente os seus colegas de curso, nas casas onde estavam confinados. Utilizou a aplicação Face Time dos iPhones para dirigir a sessão fotográfica com cada um, pedindo-lhes para posarem como entendeu e no enquadramento que escolheu, e foi a partir do telefone que capturou as fotografias dos sete colegas que são os protagonistas da reportagem. É uma ideia fantástica e é preciso folhearem estas páginas para ver como o resultado obtido de facto é surpreendente, capturando o espírito do momento. Na imagem está a dupla página de abertura deste artigo na “Time”.


 


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O ACORDEÃO E A GUITARRA - O catálogo ECM continua a ser um porto seguro na música contemporânea fora das correntes do mainstream. Uma das suas novidade é um disco que cruza o acordeão com a guitarra, tocados respectivamente por Jean-Louis Matinier e por Kevin Seddiki. Matinier colabora desde há muito tempo com a ECM, como músico convidado em diversos discos ou mesmo em dueto, como aconteceu com Marco Ambrosini. Este é o primeiro registo com o guitarrista Kevin Seddiki, que agora se estreia na ECM. Seddiki estudou guitarra clássica e tem trabalhado em diversos géneros musicais, desde o jazz a projectos transculturais. “Rivages”, o disco de Matinier e Seddiki, tem 11 temas, que vão do tradicional “Greensleeves” numa interpretação solta e criativa, a “Les Berceaux”, de Gabriel Fauré, passando por originais e improvisações como “Miroirs” e “Feux Follets”. A ligação entre o acordeão e a guitarra é muito bem conseguida, o estilo de interpretação  dos dois músicos complementa-se, entre o devanear de Matinier e o dedilhar certeiro de Seddiki. Uma das coisas engraçadas num dueto é que não há sítio onde qualquer um dos seus intervenientes se possa esconder - estão ambos igualmente expostos. Prova do apreço de Matinier por Seddiki é ter-lhe dado o palco num tema a solo, “Derivando”. Disponível no Spotify.


 


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CONTÁGIOS HÁ MUITOS… - Ao escrever sobre “As Leis do Contágio”, The Times, de Londres, escreveu que “é difícil imaginar um livro mais oportuno… grande parte do mundo moderno fará mais sentido depois de o ler”. Publicado originalmente já em 2020, “As Leis do Contágio” é um trabalho do epidemiologista inglês Adam Kucharski, que tem trabalhado em surtos globais como as epidemias do ébola e do vírus da zica. Colaborador habitual da imprensa, escreve para The Observer e Financial Times, The New Statesman e Scientific American. Neste livro analisa a forma como uma doença, um comportamento ou uma ideia se propagam no mundo moderno. Kucharski afirma que o contágio tanto pode vir de um vírus, como de um movimento político ou até mesmo de um tweet que lança uma inesperada controvérsia, ou de uma ideia que inflama a sociedade. O autor apresenta os padrões matemáticos de uma doença infecciosa, como aquela que assola atualmente a Humanidade, e descreve o fenómeno do contágio em geral – seja de uma doença, de um comportamento ou de uma ideia – chamando a atenção para os aspetos biológicos e sociais desse processo. Segundo Kucharski as nossas existências são moldadas por surtos de doenças, de desinformação e até de violência, que surgem, se espalham e se desvanecem a uma velocidade espantosa. Para os compreender, precisamos de perceber os padrões e as leis ocultas que os governam, afirma. Dos «superdisseminadores» — os que podem desencadear uma pandemia, derrubar um sistema financeiro ou vender uma ideia — à dinâmica social que faz da solidão um sentimento popular, o autor apresenta revelações curiosas sobre o comportamento humano, sobre o porquê das coisas, propondo como podemos melhorar a nossa previsão e reação a fenómenos de contágio em qualquer esfera das nossas vidas. Edição Portuguesa da Porto Editora.


 


PIPOCAS DE POLVO? - Para gozar o progressivo desconfinamento nada como comer um bom peixe com vista para o mar em ambiente seguro. Pensei no Meco e ali existem restaurantes de praia armados ao pingarelho e também alguns restaurantes. Escolhi um entre estes últimos: a Gula do Meco, também conhecido por Mania do Peixe, onde pontua Carla Costa na cozinha e o seu marido Fernando na sala. A localização é excelente, o serviço é atento, o peixe é fresquíssimo e bem escolhido pelo saber do proprietário. A banca do peixe para grelhar tem escolha ampla mas a casa tem também uma apreciável comida de tacho. Como o objectivo era peixe na grelha, a opção foi um robalo para duas pessoas, cozinhado no ponto, acompanhado por salada, legumes no forno e uma açorda frita em rodelas que fazem lembrar pataniscas - e que é um petisco. Para a próxima vai cherne à posta, que tinha muito bom aspecto. Por falar em petisco destaco as pipocas de polvo - pedaços muito pequenos de tentáculos de polvo cozido que depois são fritos com um polme impecável e estaladiço. Na comida de tacho encontram feijoada de gambas e a feijoada de búzio, além da massada à pescador e de arroz de robalo. Uma especialidade da casa é o peixe no pão - peixe envolvido em massa de pão e que é cozinhado lentamente no forno - uma variante muito interessante do conceito de peixe ao sal. Além da belíssima vista. de uma sala e esplanada amplas, ideais para este tempo de distâncias, a casa tem bom serviço, um parque de estacionamento próprio, uma lista de vinhos simpática a preços decentes e com várias possibilidades de vinhos a copo. É um dos melhores restaurantes do Meco e bate-se com vantagem com a concorrência mais antiga - quer na vista quer na simpatia. Fica na Rua Praia do Moinho de Baixo, a caminho da praia e dos parques de estacionamento, reservas recomendáveis pelo 964 408 048.


 


DIXIT - “Sou contra as visões estatizantes ou colectivistas da economia” - António Costa e Silva


 


BACK TO BASICS - “A ciência pode estabelecer limites ao conhecimento, mas não deve estabelecer limites à imaginação” - Bertrand Russell

maio 29, 2020

A IMPORTÂNCIA DA PUBLICIDADE NUMA INFORMAÇÃO DE QUALIDADE

 


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AS MARCAS, A COMUNICAÇÃO E A PUBLICIDADE - Quando em meados de Março foram decretadas as medidas do Estado de Emergência tudo no mundo dos mídia começou a mudar. A procura de notícias aumentou e, nas primeiras semanas, o consumo de televisão cresceu significativamente, quer nos canais generalistas, quer nos canais de informação do cabo, ao mesmo tempo que o consumo de internet explodiu. Criaram-se novos hábitos. Mas, com o encerramento da actividade económica, os anunciantes retraíram-se e, apesar do consumo dos meios de comunicação ter aumentado o investimento publicitário diminuíu, e muito. Agora a actividade económica está a retomar e as marcas precisam voltar a estar na mente dos consumidores. Nestes meses muitas delas  saíram do dia a dia das pessoas, algumas arriscam o esquecimento. Como infelizmente há empresas que vão fechar, algumas marcas desaparecerão. Será que os consumidores vão perceber logo quais as marcas sobreviventes e dinâmicas? A verdade é que quem não fala desaparece, quem estiver ausente fica esquecido. Quem está à espera de decidir se vale a pena retomar a publicidade agora, pode ficar para trás na corrida de fundo que é a recuperação da economia. A publicidade é parte integrante dos conteúdos consumidos por quem segue televisão, rádio, imprensa, online, por quem anda na rua e vê outdoors. Sem presença regular na mídia nacional as marcas portuguesas comunicam pior, têm menos pontos de contacto com os seus consumidores. Publicidade e conteúdos andam de mãos dadas. As marcas portuguesas precisam dos canais de comunicação proporcionados pelos mídia nacionais e os mídia nacionais precisam da sua publicidade para continuarem a desempenhar o seu papel.


 


SEMANADA - As idas ao multibanco caíram para metade em Abril devido ao confinamento e as compras realizadas com cartões desceram para mínimos desde 2009; os sites de e-commerce mais visitados em Abril foram os da Worten e FNAC, seguidos do Aliexpress, Continente e Amazon, refere um estudo da Marktest; o valor da facturação do sector da restauração na primeira semana de abertura representou 40% do valor médio pré-confinamento; 54% da receita do IRC depende de 0,4% das empresas que existem em Portugal; as contas públicas registaram um défice de 1650 milhões de euros até Abril, mais 341 milhões que no mesmo período do ano anterior; em Portugal houve um aumento de perto de 50% no tráfego em sites marginais da internet que permitem o acesso pirata a canais de televisão de cabo e de streaming; há 400 mil pessoas a necessitar de ajuda alimentar; os 36 drones comprados pelo Estado há dois anos para o Exército, com o objectivo de detectarem fogos em colaboração com a Protecção Civil, nunca foram usados; uma locomotiva de 1924, exemplar único no mundo, está num barracão da estação da Pampilhosa da CP e já foi vandalizada por várias vezes; em Santarém existem 42 lares de idosos “não legais”, o dobro do que se pensava; nos quatro maiores hospitais do país há cerca de cem doentes que não têm para onde ir, à espera de vaga num Lar. 


 


ARCO DA VELHA - Um indivíduo de 20 anos que estava em prisão domiciliária com pulseira electrónica incendiou seis veículos na rua onde vivia, em Lisboa, com o objectivo de ver bombeiros e polícia a actuar.


 


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ARTES CONTEMPORÂNEAS -  Iniciada em 2016, a ARCOlisboa, feira internacional de arte contemporânea, decorreu até este ano na Cordoaria Nacional. Este ano, por força das coisas, a ARCOlisboa transformou-se num evento on-line com a duração de quatro semanas e vai estar disponível de 20 de maio a 14 de junho, através do site arcolisboa.com em parceria com a plataforma artsy.net, apresentando e comercializando obras das galerias selecionadas pelo Comité Organizador da feira e pelos comissários das secções Opening e África em Foco. Estamos a falar, nas galerias convidadas, de mais de quatro dezenas de stands virtuais - a maioria, duas dezenas, de galerias espanholas, seguidas por galerias portuguesas e também, galerias do Reino Unido, Japão, Áustria, Itália, Brasil e Uruguai. Na secção Opening, destinada a novas galerias, estão mais de uma dezena de participantes e na África em Foco uma dezena. Centenas de obras de pintura, escultura e fotografia estão disponíveis num circuito virtual, nem sempre com a navegação online mais evidente. Gostaria de destacar a secção África em Foco, coordenada por Paula Nascimento, e que mostra a diversidade das propostas dos artistas de diversos países (África do Sul, Angola, Moçambique, Uganda, Zimbabwe) que ali estão - saliento, pessoalmente, os trabalhos de Ângela Ferreira, Filipe Branquinho, René Tavares, Thó Simões, Keyezua (na imagem) e Musa Nxumalo. Outra sugestão: para sairmos do mundo virtual recomendo uma visita à Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, na Praça das Amoreiras, para descobrir a exposição “Água Pesada” que até 19 de Setembro mostra belíssimos desenhos a grafite de Alexandre Conefrey. Ali ao lado, na CasaAtelier Vieira da Silva, Inez Teixeira apresenta “Phytographia Curiosa”, um conjunto de desenhos a tinta da china sobre papel.


 


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A DANÇA DE NÍDIA  - Quando um disco tem por título uma frase de um poema de Jorge de Sena, nasce de uma etiqueta alternativa de rap e música de dança dos arredores de Lisboa (Princípe Discos), é feito e produzido por uma portuguesa de origem africana que viveu em França e tem lugar de honra na crítica semanal de discos do Guardian londrino, alguma coisa se passa. O álbum é “Não Fales Nela Que A Mentes”, o segundo disco de Nídia que o Guardian descreve como “um novo trabalho mais meditativo, que mostra uma variedade de ritmos de dança com enfoque na emoção e desassossego” . São dez faixas, com destaque para “Raps”, “Capacidades”, “Nik Com”, “Popo” e “Emotions”. Nídia Sukulbembe tem 23 anos e ganhou notoriedade como DJ um pouco por todo o mundo. Este seu segundo disco é fruto de uma experiência de pistas de dança mais amadurecida. Nídia, nascida numa família guineense, cresceu no Barreiro e mais tarde foi viver para Bordéus, onde ganhou contacto com músicos de outras nacionalidades, mas manteve sempre a ligação à Principe Discos. Há um ou outro elemento vocal, mas este é o reino do instrumental, do baixo e da percussão, com uma elegância invulgar na mistura. A Pitchfork diz que a  aproximação de Nídia à música “é eficiente e elementar, criando a complexidade através dos arranjos” - “Emotions” é um perfeito exemplo disso mesmo.


 


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E, A SEGUIR? - Desde que a pandemia começou a revista mensal “Monocle” tem alterado radicalmente o conteúdo editorial. A edição de Maio focou-se na casa das pessoas, onde cada um estava a passar o confinamento - com sugestões, ideias, exemplos de coisas para fazer. Agora, na edição de Junho, o tema é “What Happens Next?”. Para responder à pergunta a “Monocle” convidou 50 personalidades de todo o mundo, 50 pensadores “que se atrevem a sonhar”, como a revista os designou. Aqui estão nomes como o filósofo Alain de Botton, o arquitecto Daniel Libeskind, o economista Daniel Kahneman, entre muitos outros incluindo governantes de vários países e responsáveis urbanísticos. Os temas abordados vão desde a resiliência das cidades até ao futuro dos cruzeiros marítimos, o que se pode esperar da aviação, passando por estratégias para manter a funcionar pequenos comércios. Alain de Botton escreve sobre o estoicismo dos romanos, baseado em manter a calma e continuar a fazer o que cada um é suposto fazer - é um bom tiro de partida para toda a edição. Um especialista canadiano em agricultura, Jean-Martin Fortier, acredita que a pandemia levou as pessoas a pensarem mais sobre de onde vem a comida, como se cultiva e como se deve utilizar sem desperdícios; sobre as cidades, urbanistas recomendam que as autoridades de planeamento passem a ter como prioridade a criação de infra estruturas focadas nas necessidades reais das pessoas que nelas vivem permanentemente. Um dos mais curiosos artigos tem a ver com as saudades que ao fim de dois meses em casa muitos sentiram dos seus escritórios - é certo, diz o seu autor, que a pandemia provou que se pode trabalhar de forma remota mas isso não quer dizer o fim dos escritórios e sim a possibilidade de revermos como funcionamos. Um dos artigos de que mais gostei foi aquele em que se defende a importância da rádio - as emissões radiofónicas oferecem aquilo que nenhum outro meio pode oferecer: uma espantosa combinação de actualidade, intimidade e humanidade.





A IDEIA DE UM GRANDE CHEF - Massimo Bottura é o criador de um dos restaurantes mais famosos do mundo, a Osteria Francescana, de Modena. Na edição da “Monocle” acima referida escreve sobre como os restaurantes podem sobreviver - e renascer - no pós covid. Admite que já não tem reservas do estrangeiro como costumava ter, mas está contente porque as marcações de italianos que queriam conhecer o seu restaurante explodiram. Bottura defende que se aproveitem todos os ingredientes e fez mesmo uma série de videos durante o confinamento, “Kitchen Quarantine”, focados em evitar o desperdício. O que se está a passar vai fazer rever a forma como trabalha: admite fazer menus de degustação mais curtos, está a criar uma linha de take away em que os ingredientes serão embalados de forma separada para cada pessoa depois acabar de preparar o prato em casa, como o próprio restaurante faria. E confessa que quando outros chefs lhe perguntam o que devem fazer, responde sempre o mesmo: cada vez mais temos que ter em conta os produtores locais “somos os embaixadores dos melhores produtores de produtos frescos, de queijos, dos pescadores - o dever dos chefs é fazer com que os heróis sejam os produtores”. Em Lisboa, alguns restaurantes, como por exemplo o Salsa & Coentros, em Alvalade, ou o Essencial, junto ao Princípe Real, fizeram menus especiais de take-away durante o confinamento, sugestões fora da carta habitual, com pratos que deviam ser acabados na casa de cada um. Mais informações em www.restaurantesalsaecoentros.pt ou www.essencialrestaurante.pt.


 


DIXIT - “Já pagou as suas notícias de hoje? Ou está à espera que seja o Estado a pagar? Este é o problema dos Media e ninguém parece entender-se sobre o que fazer” - Catarina Carvalho


 


BACK TO BASICS - “Um diplomata é alguém que o pode mandar para o Inferno de tal forma que até lhe apetece lá ir” - Caskie Stinnett


 




maio 22, 2020

A PRAGA AGORA PODE SER POLÍTICA

 


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A ERVA DANINHA - O período mais complicado da pandemia começou agora, com o reabrir dos locais e das actividades após dois meses de um quase total encerramento. Os dois meses foram fundamentais para manter os indicadores em níveis baixos, para permitir que o Serviço Nacional de Saúde funcionasse sem sobrecarga demasiada e para que equipamentos de tratamento e de protecção chegassem nas quantidades necessárias. Durante dois meses houve uma trégua política assumida por todos - e manda a verdade que se diga que, no geral, o Governo fez bom trabalho. Vamos ver agora se o sistema está preparado para absorver os efeitos do desconfinamento - social e político. De qualquer forma a trégua política chegou ao fim e as tempestades já se desenham sob o pretexto das eleições presidenciais. António Costa tentou iludir a questão atirando o Congresso do PS para depois do acto eleitoral que sufragará Marcelo Rebelo de Sousa, na presunção de que ele quebra o tabu e se recandidata. A coabitação entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro inquieta à esquerda e à direita. Ana Gomes e Manuel Alegre já abriram hostilidades do lado do PS, assim como Alberto João Jardim e Miguel Albuquerque, do lado do PSD. Há poucos dias António Costa anunciou que o bloco central não estava nos seus planos, referindo-se a algum entendimento com Rui Rio. Mas, na prática, aquilo a que estamos a assistir é a uma nova forma de aliança, entre pessoas de quadrantes diferentes, ambas em lugares decisivos para o país: o novo compromisso histórico não vai ser o bloco central partidário, tudo indica que será entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro. Ambos vão concentrar um poder conjunto inédito em Portugal. No horizonte estão, vindos daqui e dali da área do Poder, sinais de vontade de manter um autoritarismo e um controlo governamental que nasceu no Estado de Emergência e que, agora, dá sinais de querer continuar e, no desejo de alguns, florescer - incentivado aliás por todos os que, desesperados com os efeitos do encerramento geral de actividades no confinamento, se viram para o Estado como a solução de todos os problemas. Está criado o terreno para o Governo aparecer como o salvador. Sem poder equilibrado por um contra-poder essa erva daninha que é o abuso de autoridade poderá tornar-se uma praga, adubada por um compromisso histórico. Esse é o problema maior com que nos defrontamos a nível político.


 


SEMANADA - Um inquérito recente mostra que em Portugal, aos 15 anos, só 10% dos alunos gostam muito da escola mas em 1998 o número era de 29%; durante o período de estado de emergência foram efectuados 348 casamentos; nos hospitais não foram efectuadas nove mil cirurgias programadas durante o estado de emergência; em comparação com o mesmo período do ano passado realizaram-se menos 181 mil consultas hospitalares no período do estado de emergência; a pandemia obrigou a reescrever os guiões das telenovelas que voltaram a ser gravadas, mas sem cenas de beijos e de intimidade; foi descoberta uma estufa de cultivo de canábis, com uma tonelada da substância, dentro de um armazém na Maia que anteriormente era uma lavandaria; a crise da pandemia afectou 40% da força de trabalho em Portugal; o número de desempregados subiu 22,1% em Abril; 7500 microempresas pediram apoios para reabrir portas; um estudo recente indica que nos testes de diagnóstico a Covid-19 cerca de 11% dos infectados apresentam resultados negativos; danos colaterais: segundo o Centro de Informação Antivenenos do INEM, os casos de exposição indevida a lixívia em março e abril mais do que duplicaram e o número de acidentes com desinfetantes das mãos foi oito vezes superior ao do ano passado; O mercado europeu de automóveis caiu 76,3% em abril, em comparação com mesmo mês em 2019 e em Portugal, queda atinge 84,6%: o consumo de gasóleo em Portugal no mês de Abril caíu 45% e o da gasolina cerca de 60%.





ARCO DA VELHA -  O Tribunal da Relação de Évora absolveu um pai condenado por violar a filha menor, considerando que esta tinha mentido, e criticou aqueles que acreditam nos relatos de agressões das vítimas de crimes sexuais e de violência doméstica, ao mesmo tempo que ironizou sobre as lesões atestadas por médicos.


 


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REABRIU A ARTE - Esta semana grande parte das galerias privadas de arte contemporânea começaram a reabrir, algumas delas com exposições que estavam prontas e montadas e que não foram visitadas porque tudo coincidiu com as medidas de confinamento. As visitas são em horários mais reduzidos e com marcação, mas nos sites das galerias e nalguns casos no respectivo facebook é possível agendar o que se pretende ver. Eu tenho saudades de voltar a ver obras de arte sem ser no ecrã do computador em visitas virtuais. Por falar nisso esta semana a ARCO LISBOA abriu, desta vez não na cordoaria, mas de forma virtual, até 14 de Junho, em www.ifema.es/pt/arco-lisboa . Na próxima semana relatarei a visita que vou fazer mas desde já digo que a secção sobre arte africana me despertou a curiosidade. E esta semana foi também marcada pela reabertura de Museus, destacando-se a inauguração de uma apresentação de desenhos de Julião Sarmento no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa (na imagem) . Sob a designação “A Linha Que Fecha Também Abre”, Julião Sarmento apresenta cinco desenhos que dialogam com obras da colecção do museu, nomeadamente do desenho florentino do Renascimento e suas extensões ibéricas, obras da autoria ou atribuídas a Baccio Bandinelli, Luca Cambiaso, Corregio, Pontormo e Francisco Venegas. A exposição deste diálogo entre épocas, comissariada por João Pinharanda,  decorre na Sala do Tecto Pintado do MNAA até 26 de Julho. Finalmente, para sairmos de Lisboa, na Quinta da Cruz - Centro de Arte Contemporânea de Viseu, as portas reabriram com a exposição “I Dreamt Your House was a Line”, de Pedro Cabrita Reis.


 


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O BELO SOM DO  BANJO - Desde já aviso que só vale a pena continuar a ler estas linhas se gostar das sonoridades creoulas de Nova Orleães e de banjo. Eu gosto, de maneira que me deliciei com “The Blue Book Of Storyville”, de Dan Vappie, personagem exuberante, exímio tocador de banjo, vocalista cheio de tiques locais, ao lado dos Jazz Creóle, um trio constituído para esta ocasião e que integra  de Dave Kelbie na guitarra (e produção), Sebastien Girardot no baixo e David Horniblow no clarinete. Cabe aqui recordar que a tradição musical de Nova Orleães está ligada ao nascimento e crescimento do jazz. Neste disco estão canções creoulas originais (algumas no tradicional francês da região), standards de jazz e alguns originais do próprio Vappie, cuja educação musical vem aliás do jazz - começou pela guitarra e o baixo e só depois se dedicou ao banjo, muito influenciado por um dos grandes músicos dos anos 40 de Danny Baker, um dos históricos tocadores de banjo e contadores de canções de Nova Orleães. Dan Vappie pesquisou para este disco a música cajun, inspirações do Caribe, canções tradicionais, temas popularizados por Louis Armstrong ou Sidney Bechet, por exemplo. É difícil destacar um tema de entre os 17 deste disco mas o meu preferido é “Buddy Bolden’s Blues”. Vappie mostra bem a importância do banjo na música de Nova Orleães e a sua importância, muitas vezes esquecida, no jazz. “The Blue Book Of Storyville” está disponível no Spotify.


 


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HISTÓRIAS DE UMA TORRE - Dia 26 de Maio, terça-feira da próxima semana, assinala-se o centenário do nascimento de Ruben Andresen Leitão, que ficou conhecido pela assinatura literária que escolheu - Ruben A. Nesse mesmo dia vai ficar disponível nas livrarias a nova edição de uma das suas obras mais importantes, “A Torre de Barbela”, a visão pessoal de Ruben A. da evolução de Portugal desde a sua fundação.  Escrito em forma de romance que nasce no Minho, na margem esquerda do Rio Lima, numa antiga torre de vigia que, reza a História, data da fundação da nacionalidade e que é a única torre triangular de toda a Península Ibérica. O local, a Torre de Barbela, é o ponto de partida para uma viagem a oito séculos de História através de personagens fantásticas que Ruben A. criou. O romance foi premiado em 1965 pela Academia de Ciências de Lisboa com o prémio Ricardo Malheiros. Publicado na Colecção Miniatura dos Livros do Brasil. A evocação do centenário do nascimento do escritor, de que esta edição faz parte, terá continuidade com as reedições de mais duas obras, “O Mundo À Minha Procura” e “Silêncio para 4”, pela Assírio & Alvim, no segundo semestre. Ruben Andresen Leitão nasceu em 1920, estreou-se em 1949 com “Páginas”, um misto de diário e ficção e dedicou a sua vida ao ensino da Língua e Cultura Portuguesas em universidades do Reino Unido, nomeadamente em Londres e, depois em Oxford.





O REGRESSO ÀS MESAS DE RESTAURANTES - Esta semana regressei aos restaurantes que gosto de frequentar no dia a dia. Num deles procurei uma coisa trivial, mas que ali corre sempre muito bem: um meio bife do lombo, grelhado na brasa, acompanhado por batatas fritas aos palitos absolutamente impecáveis. Ao contrário do que muitos pensam é preciso arte para isto correr bem: a carne tem que ser boa, a grelha tem que estar no ponto para vir mal passado e as batatas fritas não podem ser das congeladas nem das moles e espapaçadas - devem estar estaladiças por fora, sem ficarem queimadas. É assim que as coisas se passam na cervejaria Valbom, que nestes dias tem a vantagem de ter uma boa esplanada (Avenida Conde Valbom 114, telefone 217 970 410). E além do bife tem muito por onde escolher em matéria de cozinha portuguesa, como filetes de polvo com arroz de grelos por exemplo. O outro regresso foi ao melhor bacalhau à Braz que conheço - leve, ovos no ponto, húmidos, bacalhau de boa qualidade, tempero acertado. Nesse dia na ementa havia uma outra especialidade da casa que me deixou na dúvida - pastéis de massa tenra, mas venceu o bacalhau e não me arrependi. O local destas confecções é O Apuradinho, na Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501). E, embora agora apeteça voltar a uma sala de restaurante, rever conhecidos e estar à cavaqueira com amigos, se quiser em qualquer destes locais pode fazer uma encomenda para levar para casa.


 


DIXIT - “O PS não pode tratar os militantes como parvos (...) o PS não é o partido do Costa” - Ana Gomes


 


BACK TO BASICS - “É muito perigoso querer estar certo quando um Governo está errado” - Voltaire


 

maio 15, 2020

O QUE FAZER COM ESTA EUROPA?

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RECONSTRUIR O FUTURO - O acto fundador da União Europeia foi há 70 anos. Sete décadas depois, e no meio de uma das maiores crises da História recente da Europa, não se vê união - mas sente-se a existência de obstáculos, burocracias e, infelizmente, de muitos egoísmos nacionais.  Quando se olha para a Europa observa-se o entendimento cordial entre a França e Alemanha, construído a calcar os interesses e aspirações de outros países em nome do seu mútuo benefício, e sente-se o agudizar de divisões entre o norte e o sul. Em nome das normas europeias sectores vitais para Portugal como a agricultura e a pesca foram primeiro reduzidos e depois quase eliminados. A indústria foi pelo mesmo caminho. Os fundos europeus foram a justificação para destruir a produção portuguesa em várias áreas e tiveram o seu papel na corrupção do aparelho de Estado. Ficámos com auto estradas construídas e  com o sistema ferroviário destruído. Passámos a importar muito do que antes produzíamos. E, no fim, o turismo foi a cereja no topo do bolo: passámos a exportador de ilusões. O resultado está à vista. Para assegurarmos o futuro temos que reconstruir parte do nosso melhor passado e incorporar nele a capacidade de investigação científica e de desenvolvimento tecnológico de que entretanto começámos a dar provas. Seremos capazes de apostar no nosso desenvolvimento e recuperar agricultura, pesca e indústria ao mesmo tempo que desenvolvemos um sector de serviços baseado no conhecimento e na tecnologia e não apenas no sol, praia e paisagem? 


 


SEMANADA - Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa prepararam a nova viagem de ambos nas instalações da Auto Europa em Palmela; Centeno levou cartão amarelo por fora de jogo no caso do Novo Banco; Rui Rio equiparou a comunicação social a fábricas de calçado ou mobiliário; até Março foram registadas menos 71 mil transacções de imóveis; segundo uma sondagem da Marktest, 74% dos portugueses admitem optar no futuro por fazerem essencialmente compras no comércio de rua, tradicional; quanto às deslocações, a grande maioria considera que vai optar pela utilização de transporte privado e na média nacional apenas 16% aponta para a utilização dos transportes públicos, com um número ligeiramente superior, 22%, nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto; a Deco recebeu 3.600 pedidos de ajuda entre 18 de Março e 11 de Maio por parte de famílias em dificuldades financeiras devido à redução de rendimentos;  Mário Centeno admite que a receita do Estado em 2020 pode cair perto de 10 mil milhões de euros, um cenário mais pessimista que o estimado por Bruxelas; segundo a Escola Nacional de Saúde Pública os concelhos com maior taxa de desemprego e maiores desigualdades de rendimentos são aqueles que têm maior número acumulado de casos de covid-19; Portugal é um dos seis países do euro que menos impulso orçamental vai dar à recuperação da economia; mais de 79% das empresas portuguesas tiveram uma redução no volume de negócios desde o início da pandemia.


 


ASSIM VAI PORTUGAL - Um estudo da Marktest indica que durante o mês de Abril Cristiano Ronaldo continuou a ser o português que registou maior número de menções nas redes sociais, o primeiro ministro António Costa, ficou na segunda posição da tabela e a apresentadora da SIC, Cristina Ferreira manteve o terceiro lugar.


 


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GUITARRADA - Blake Mills é um produtor premiado pelo seu trabalho com nomes como Laura Marling ou John Legend. É, além disso, um guitarrista criativo, um compositor dedicado a fazer canções simples e marcantes, e um cantor com um registo de voz invulgar. “Mutable Set”, agora editado, é o seu quarto disco. Tocou ao lado de Fiona Apple e ao longo dos seus 20 anos de carreira construíu a reputação de ser um músico inventivo a quem se podia recorrer para assegurar arranjos inesperados e uma musicalidade que outros não conseguem criar. A ele, sai-lhe naturalmente, quer quando produz canções de outros, quer quando as faz para si próprio, como neste disco. A forma como toca guitarra e trabalha o seu som, é surpreendente - por vezes com recurso a guitarra sintetizada. Se as suas origens estão no country rock, o seu presente é marcado pelo desejo de descoberta e afirmação de um estilo próprio. As canções deste disco, muitas feitas em parceria com  Cass McCombs nas letras, como “Never Forever” ou “My Dear One”, têm todas uma sonoridade e uma produção exemplares, baseada em guitarra, piano e saxofone. Essa produção, meticulosamente trabalhada, é particularmente saliente em “Vanishing Twin”, onde todo o seu talento enquanto guitarrista mais se mostra - de uma forma elegante mesmo nos momentos mais exuberantes. A voz de Blake Mills é discreta, muitas vezes imagina-se que está a sussurrar ao ouvido de alguém, como por exemplo em “May Later”. Os sete minutos de “Money Is The One True God”, uma evocação da tempestade económica que marca os dias de hoje, é daquelas canções que vai ficar na memória. E, quase de certeza, na História. Disponível no Spotify.


 


NewsMuseumLiberdadeImprensa.jpgAPRENDER A VIVER AS NOTÍCIAS - Localizado em Sintra, o NewsMuseum é um equipamento único vocacionado para dar a descobrir o mundo dos media, com incursões na história do jornalismo e da comunicação. Uma das suas componentes importantes é o serviço educativo, vocacionado para proporcionar aos alunos de diversos graus de ensino uma percepção de como se fazem as notícias. Para se integrar na realidade escolar criada pela pandemia, o Newsmuseum  vai realizar visitas guiadas e interativas para as escolas através de videoconferência. NewsMuseum @Zoom para Escolas é um programa de e-learning já disponível, ainda a tempo de integrar o plano de aulas do 3.º período escolar, no registo #EstudoEmCasa. É a própria coordenadora dos Serviços Educativos, Elsa Luís, quem recebe os visitantes em Zoom e os conduz numa visita interativa pelas grandes narrativas que marcaram Portugal e o Mundo nos últimos 120 anos. Os alunos podem ainda experimentar algumas simulações de reportagem e no final podem fazer um jogo que consiste em criar uma primeira página de jornal. As visitas serão adaptadas aos diferentes níveis de ensino, desde o 5.º ao 12.º ano. Mais informações e agendamentos através do e-mail info@newsmuseum.pt.. Aberto desde 25 de Abril de 2016, o Newsmuseu fica localizado na Rua Visconde de Monserrate, no Centro de Sintra. 


 


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VOANDO NO DESERTO - “O Principezinho” foi escrito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupéry, um aviador francês que estava exilado nos Estados Unidos, país onde o livro foi primeiro publicado em 1943.  É uma das obras mais editadas e traduzidas em todo o mundo, existindo mais de 200 edições em outros tantos idiomas e dialectos. O livro tem uma forte componente autobiográfica baseada naquilo que o próprio Saint-Exupéry viveu quando o seu avião caiu no deserto do Saara. À primeira vista, é uma história muito simples: um principezinho fala com um aviador em apuros e cativa-o. O principezinho é uma criança, um menino apenas. Com a sua imaginação e poesia cativa o aviador, e ambos andam, no deserto, à procura de alguma coisa: no fim, a busca deles é o espelho da nossa procura diária de um sentido para a vida. Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon, no começo do século XX, a 29 de Junho de 1900. Morreu no céu, quando o seu avião foi atingido por um atirador alemão, durante a II Guerra Mundial, em 1944. Era piloto de aviões, mas a sua imaginação voava sozinha, criava romances, poemas, reportagens, fazia desenhos que ilustram o que escrevia, como se vê  nas páginas deste “O Principezinho”. O que esta edição tem de especial é um texto do editor, Manuel S. Fonseca, no final, com 16 perguntas. Num livro para crianças a primeira das perguntas é dirigida a adultos: ”quando foi a primeira vez que se lembrou que também já foi uma criança?”. E, mais à frente, outra para os adultos: “qual foi a sua última aventura?”. São duas questões que nos podem pôr a pensar. As outras perguntas, bem mais simples, são destinadas às crianças, os jovens leitores a quem Saint-Exupéry dedicou o livro, os textos e os desenhos. Edição Guerra e Paz na colecção Correio da Manhã.


 


O FEIJÃO FORA DA LATA - Na minha redescoberta dos vendedores e dos pequenos mercados de freguesia redescobri a existência de feijão de várias espécies fora das latas onde vem embalado. Um dia destes trouxe um pequeno saco de feijão frade seco para casa e perguntei se havia conhecimento para tratar do assunto. Que sim, que havia, foi a resposta recebida. E vai daí, pela primeira vez em muitos anos, comi feijão frade demolhado de véspera e cozido na hora, ao mesmo tempo que meio chouriço alentejano cortado às rodelas, com tempero ao gosto. Assisti à preparação, lançando umas piadas pelo meio sobre a complexidade do know how envolvido na operação (muito para além de escorrer a leguminosa de uma lata de abertura rápida). O resultado foi um sabor diferente, uma textura melhor. Regado com bom azeite e salpicado de salsa fresca, também do mercado, foi o acompanhamento de um entrecosto cozido na mesma água que banhou feijão e chouriço. O entrecosto veio do talho do mesmo mercado, onde durante todo este tempo não houve filas e onde a qualidade dos produtos sempre me surpreendeu. A rematar vieram uns morangos, também produzidos na região, e comprados ao produtor no próprio dia em que foram colhidos - toda uma outra história em relação aos que vêm importados de Espanha ainda meio verdes e que andam nos supermercados. Nestes dois meses de isolamento aprendi a comprar produtos alimentares de outra forma, a preparar os ingredientes naturais, a cozinhar mais devagar. E tudo isto sem gastar mais tempo e a despender menos dinheiro que se fizesse as coisas de outra forma. Esta é uma das lições que me fica de dois meses à descoberta de outra maneira de viver o quotidiano, conciliando trabalho profissional com ocupações pessoais e chegando ao fim de cada dia com mais coisas feitas, menos stress e mais contente por contribuir para ajudar o comércio local.


 


DIXIT- “Há uma diferença radical entre cada um de nós ter um campo ideológico com o qual se identifica ou ter um clube ideológico com o qual tem de se identificar” - João Miguel Tavares.


 


BACK TO BASICS - “Nunca ouvi música criada pelo Diabo” - Little Richard.