fevereiro 07, 2020

O IVA QUE DEU CHOQUE

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TRABALHOS PARLAMENTARES  - O episódio da guerra sobre o IVA da electricidade trouxe para primeiro plano o que é a realidade política de hoje em Portugal: mesmo quando parece existir convergência de objectivos, os partidos das diversas matizes são depois incapazes de se entenderem em termos práticos e de abdicarem dos pequenos interesses tácticos de cada um. Mas o recente debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado teve alguns outros pontos curiosos. Um deles foi o rol de promessas em diversas áreas, entre as quais baixar impostos em 2021. Depois, o mais destacado elemento  da tropa de choque do PS para crises políticas, Carlos César, veio deixar no ar a possibilidade de o Governo se demitir caso o Orçamento fosse desvirtuado. No ar ficou a ideia de que o PS pode mesmo estar disposto a ir a eleições antes do final da legislatura. As promessas visam claramente combater a pequena queda registada pelo PS, e Costa acredita ser possível federar alguns votos resultantes da implosão do Livre e do desgaste do PCP; além disso a grande tentação de António Costa é apostar numa fragmentação maior do espectro à direita, com o Chega a subir, tornando as contas futuras de Rui Rio mais confusas. Um tal cenário futuro possibilitaria ao PS acordos pontuais à esquerda e ao centro direita, facilitando ao mesmo tempo uma renovação do elenco governamental, nomeadamente por causa do factor Centeno. A propósito fica registada uma sibilina sugestão do Presidente da República, que começou a fazer circular a ideia de que o calendário eleitoral ideal para futuras legislativas devia ser antecipado para antes de verão, de forma a evitar que a campanha seja contaminada pelo espectro do orçamento... Será que em 2021 teremos duas eleições em vez de acontecerem apenas as autárquicas?


 


SEMANADA - Em nome do ambiente Medina anunciou a proibição de circulação de automóveis na Baixa lisboeta; por falar em ambiente o ecosistema de 200 mil aves que vivem no estuário do Tejo vai ser profundamente afectado pelo aeroporto do Montijo; ainda sobre ambiente  a poluição provocada por navios é equivalente à causada pelos automóveis nas oito cidades portuguesas com mais carros; na costa portuguesa, as emissões dos navios de cruzeiro foram 86 vezes superiores às dos carros que circularam pelas estradas nacionais.e Lisboa é a sexta cidade europeia mais poluída por paquetes turísticos; em 2018 Portugal só reciclou 12% do plástico que consumiu; em 2018 Portugal recebeu 330 mil toneladas de resíduos perigosos; Azeredo Lopes admitiu em Tribunal ter desvalorizado informações relevantes sobre o roubo de armas em Tancos; em 2019 a Polícia Judiciária fez 50 apreensões de obras de arte falsas de artistas portugueses; 944 pessoas foram detidas em 2019 por violência doméstica; a dívida pública portuguesa voltou a aumentar em 2019 situando-se agora perto dos 250 mil milhões de euros; a Procuradora Geral da República avisou que o seu novo departamento que visa proteger consumidores, a saúde pública, o ambiente, o património cultural e o ordenamento do território nasceu com falta de meios humanos; a proposta de acabar com as isenções fiscais dos partidos políticos, apresentada pela Iniciativa Liberal, foi chumbada pelo PS, PSD e PCP.


 


ARCO DA VELHA - O Banco de Portugal não conseguiu, durante quase três anos, entregar a notificação de várias contra-ordenações ao ex Presidente do Montepio, Tomás Correia, e acabou por ter de fazer as acusações em Edital publicado esta semana na imprensa.


 


GRAVURAS E CERÂMICAS - Nos últimos tempos têm-se realizado diversas exposições que procuram proporcionar o acesso alargado a obras de artistas que não estamos habituados a ver expostos em Portugal. Algumas dessas exposições são organizadas por entidades privadas cuja actividade é promover mostras alargadas que circulam em diversos países, como aconteceu recentemente com as exposições de Escher e de Henri Cartier-Bresson, realizadas em Lisboa e no Porto. Por outro lado entidades ligadas a autarquias, como o Centro Cultural de Cascais ou o Palácio Anjos, em Algés, entraram no roteiro de circulação de exposições internacionais que disponibilizam com acesso gratuito. Em Cascais, por exemplo, realizaram-se mostras de fotografias de Norman Parkinson e de Herb Ritts, nunca antes exibidas em Portugal. E agora, no Palácio Anjos, o Município de Oeiras promoveu a exposição “Picasso, Mestre Universal” que inclui 66 obras de pintura, cerâmica e litografias provenientes de colecções particulares. A exposição, que é de entrada gratuita e estará patente até 30 de Abril mostra peças como a primeira série gráfica de Picasso, a “Suite dos Saltimbancos”, iniciada em 1904 até um exemplar da sua última produção em cerâmica, de Março de 1971 finalizada dois meses antes da morte do artista - a cerâmica foi aliás o suporte mais trabalhado por Picasso nos seus últimos anos de vida. Outra das obras é a série de litografias “Suite Sable Mouvant”, de que aqui se reproduz uma das imagens. Outra sugestão: a série de fotografias “Trinus”, de Cláudio Garrudo, o resultado de uma experiência de viagem a bordo de um navio cargueiro, volta ser exibida, com imagens inédita, na Casa da América Latina (Avenida da Índia 110), até 27 de Fevereiro, por ocasião dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães.


 


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CANÇÕES DA BALEIA BRANCA - Jaime Fernandes, um amigo que já partiu, e que foi um dos grandes homens da rádio e da televisão em Portugal, ensinou-me a descobrir e a gostar da música country, numa época em que muitos desconsideravam esse género musical. Nos seus programas de rádio dedicados à country e em numerosas conversas o Jaime foi alargando os meus conhecimentos sobre a matéria. Lembro-me do dia em que me falou de Terry Allen e de um dos seus primeiros trabalhos, o magnífico  “Lubbock (On Everything)”. Ao longo da sua carreira Allen já gravou mais de uma dezena de discos de originais, três deles neste século. “Just Like Moby Dick”, é o mais recente e acabou de sair (está disponível no Spotify). O álbum foi gravado em Austin com um grupo de músicos bem conhecidos da área da country e com produção de Charlie Sexton, ele próprio uma lenda musical. A voz grave e quente de Terry Allen percorre histórias por vezes fantásticas, frequentemente irónicas, numa sucessão de episódios que só acidentalmente evocam o Moby Dick de Melville com um fino humor. Allen, que é também um artista plástico reconhecido, fez incluir nos vários formatos da edição desenhos que fez a propósito das suas canções e dos personagens que as habitam. Uma das novidades do disco é a voz de Shannon McNally, sempre presente, e que além de cantar com Allen, faz um dueto fantástico com Sexton. A qualidade de Shannon é bem comprovada no tema em que a sua voz mais se destaca, “All These Blues Go Walkin´By”. Outra novidade é o facto de cinco das canções serem compostas em co-autoria com vários músicos da Panhandle Mistery Band, que o acompanham ao longo dos 12 temas. este Moby Dick é um encanto. Já há quem diga que é o melhor trabalho de sempre de Terry Allen.


 


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O MISTÉRIO DO BARCO VAZIO - A cidade de Lisboa é o ponto de partida de uma das mais brilhantes histórias de mistério que li nos últimos tempos. Em boa verdade eu é que andei distraído - a primeira edição portuguesa data de 2016 e teve então o título de “O Silêncio do Mar”. Este livro, da islandesa Yrsa Sigurdardóttir, uma das grandes escritoras policiais contemporâneas, foi agora reeditado com o título “Lisboa Reykjavik”, numa tradução de Miguel Freitas da Costa. A história é um autêntico mistério - um iate de luxo que havia zarpado de Lisboa com tripulação e uma família como passageira, chega a Reykjavik sem ninguém a bordo. Tudo se passa no período da grave crise financeira que atingiu a Islândia - o barco pertencia a um milionário cujas empresas faliram e os seus bens foram arrestados pelos credores. O iate estava a ser levado de volta à Islândia por ordem de um banco quando de repente os seus ocupantes desapareceram. O livro tem uma escrita sempre em dois planos temporais - o relato da viagem e o relato das investigações que se sucederam ao desaparecimento das pessoas que seguiam no barco. Cada capítulo alterna a narrativa, num ritmo envolvente. A autora, Yrsa Sigurdardóttir vive com a família em Reykjavík, é diretora de uma das maiores empresas de engenharia da Islândia e tem já uma extensa obra publicada onde a luta entre o bem e o mal é uma peça central e onde os conflitos da sociedade e os ódios que geram são uma constante. 


 


MASSA MUITO CASEIRA - Um dos mais interessantes restaurantes italianos de Lisboa, o Ruvida,  comemorou agora um ano de vida. Tem uma esplanada acolhedora e uma sala que tem o benefício de lá se poder seguir o processo de preparação da massa artesanal utilizada no restaurante. Há um menu almoço a 16 euros que muda todos os dias e uma lista com propostas bem variadas, incluindo uma secção dedicada a pratos confecionados com produtos da estação. E é essa a que prefiro. Mas comecemos pelas entradas onde destaco a  mousse de mortadela, ricotta de ovelha, parmesão e pistácio. No Ruvida tudo é feito à mão, sem usar máquinas e o único utensílio utilizado para estender a massa é o tradicional rolo de madeira. Nesta altura do ano, na secção “le proposte del momento” surgem três pratos de pasta de diferentes formatos: passatelli in brodo (massa feita com parmesão, pão ralado e ovos) cozinhada num caldo de vaca e frango capão; outra possibilidade é triangoli di patate su veluttata di funghi di stagione - aqui os triângulos de massa são recheados de batata e azeite aromatizado com louro, sobre um creme aveludado de cogumelos; e, por fim, a minha escolha, que foi gargati ricchi al consiero, uma receita do norte de Itália, da região de Vincenza, que leva uma pasta em forma de macarrões, mas mais curtos, finos e quase maciços, que agarram muito bem o sabor de quatro carnes diferentes,salteadas em banha, e cozinhada com ervilhas tortas, brócolos e abundante salsa picada. O Ruvida fica na Praça da Armada 17 e tem o telefone 213950977.


 


DIXIT - “Em democracia, os políticos não mudam de povo. Mas o povo muda de políticos. Não têm notado o que se passa na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos? “ - João Marques de Almeida


 


BACK TO BASICS - “A aventura consiste em recomeçar sempre de novo, sem nunca olhar para trás” - Corto Maltese




fevereiro 01, 2020

O PAPEL DO DESEJADO NA POLÍTICA PORTUGUESA

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BRUMAS POLÍTICAS - Vive-se de novo um período de sebastianismo em Portugal, no lado direito do espectro partidário. O efeito combinado da ascensão de novos partidos e da falta de rumo dos históricos criou um vácuo político. Não há-de ser por acaso que uma sondagem revelada esta semana atribui ao Chega a mesma votação que à CDU, ultrapassando pelo caminho o CDS que, ainda por cima, também ficou atrás da Iniciativa Liberal na mesma sondagem. Com as novas lideranças do PSD e CDS a verdade é que o PS pode dormir descansado - basta-lhe gerir as alianças orçamentais com os dissidentes ilhéus do PSD Madeira e os desejos do Bloco de Esquerda, sempre permeável a uma negociaçãozita. No caso do CDS, a vitória de Francisco Rodrigues dos Santos é o comprimido de que Rui Rio precisava para poder dormir descansado. À direita não haverá unidade, o CDS tornou-se persona non grata para o PSD. Na ânsia de se demarcar dos social-democratas o CDS iniciou um caminho que o pode levar a ficar com o Chega como único protagonista possível de um acordo político - autárquico, por exemplo. A situação proporciona ainda um outro cenário a António Costa - o de, no futuro, se necessário, escolher entre dar guarida governamental ao PSD ou ao Bloco, dependendo do momento e dos interesses em jogo. No meio da crise da direita o PS conseguiu tornar-se na charneira do regime e agora pode comandar o barco pela trajectória que lhe aprouver. Fará cedências, claro, dependendo de quem escolher para o noivado. Na realidade no início deste novo ano separaram-se as águas da política nacional e afirmou-se uma nova realidade: há uma direita que está orfã, não se revê nas lideranças actuais, há toda uma base de eleitores do PSD que perdeu referências e não se revê em Rio nem em nenhuma das suas alternativas à direita. Provavelmente as autárquicas vão ser o laboratório das coligações futuras e em Belém Marcelo espreita com inquietação a paisagem que se desenhou, entre a bruma do Tejo.



SEMANADA - Em 2019 verificou-se um aumento de famílias sobre-endividadas que pediram auxílio à DECO; o Tribunal de Contas proibiu alguns hospitais de fazerem compras de medicamentos para o cancro, HIV e algumas doenças raras alegando incumprimento de regras orçamentais; Victor Reis, ex-presidente do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana, recordou que Fernando Medina prometeu sete mil fogos de renda acessível para este mandato e ainda não apresentou nenhum; Lisboa é a cidade com pior trânsito da península ibérica;  na actual legislatura o Governo, que se gaba de ter o combate às alterações climáticas como prioridade, anunciou estar a estudar fazer um novo aeroporto civil na base de Monte Real , além do já anunciado para o Montijo; segundo a OCDE nos últimos quatro anos o número de sem abrigo em Portugal aumentou 157%; no último ano duplicou o número de adeptos de futebol proibidos de entrar em estádios por estarem envolvidos em incidentes violentos; as queixas por violência doméstica à PSP e GNR subiram 11,5% em 2019; o juiz Neto de Moura, que ganhou má fama num caso em que justificou o uso de violência doméstica citando a Bíblia e o Código Penal de 1886, passou a assinar as suas decisões como Joaquim Moura para tentar evitar ser reconhecido.


 


ARCO DA VELHA - Os partidos parlamentares fizeram 1272 propostas de alteração ao Orçamento de Estado mas nesta era de contas certas ninguém sabe dizer quanto custam as medidas e alterações propostas.


 


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MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS - “Aos Meus Amores 2.0”, de Álvaro Rosendo, é uma viagem fotográfica às últimas décadas do século passado, centrada na observação privilegiada  do autor, Álvaro Rosendo, em torno da música e em jornais, e na explosão de criatividade em Lisboa nessa época, acompanhando bandas como os Xutos & Pontapés ou os Heróis do Mar, artistas plásticos como Pedro Cabrita Reis, ou vivendo nas redacções do Blitz, Se7e,  Independente e Já. Logo na entrada, na parede frente à porta da Galeria Cisterna, está uma selecção de fotos que evocam esse passado, entre elas pelo menos uma, dos Xutos, que esteve na primeira versão de “Aos Meus Amores”, a primeira exposição a solo de Álvaro Rosendo no início da Galeria Monumental, no final dos anos 80, onde anos depois desenvolveu o projecto pioneiro da escola de fotografia Maumaus. Passada a zona de entrada entra-se na sala abobadada da cisterna onde estão expostas de cada lado da parede cerca de seis centenas de fotografias dos anos 80 e 90, em pequenas impressões a preto e branco e uma grande fotografia colorida já fruto de trabalhos pessoais do autor, mais tarde (na imagem). A exposição levou à recuperação e digitalização de milhares de fotografias, num trabalho de arquivo e curadoria (de Luis Gouveia Monteiro) exemplares. A exposição fica até 29 de Fevereiro, a Cisterna é na Rua António Maria Cardoso 27 e está aberta de terça a sábado entre as 11 e as 19. Nos dias 1, 8, 15, 22 e 29 de Fevereiro Álvaro Rosendo dinamiza ele próprio visitas guiadas à exposição às 15 e 17 horas.


 


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CANÇÕES TRANQUILAS - O primeiro disco de Bill Fay, um cantor e compositor inglês, data de 1970. O segundo disco data do ano seguinte e, depois, há um interregno de edição até 2005. Durante estes anos Bill Fay continuou a compôr e a gravar e em 2005 foi editada uma compilação de originais inéditos datados do final dos anos 70 e início dos anos 80. Depois, novo interregno até 2012, durante o qual foi crescendo um culto em torno das canções simples e arranjos depurados de Bill Fay, da forma como canta as palavras, carregadas de melancolia. Um novo álbum foi editado em 2015 e, agora, acabou de ser publicado novo trabalho, “Countless Branches”, com 10 canções inéditas que reflectem as suas preocupações sobre a situação do mundo. Há uma edição especial que inclui sete faixas bonus, com registos alternativos, alguns com a intervenção de uma banda de suporte em vez das versões acústicas do disco original que têm apenas Fay ao piano, uma característica da sua sonoridade. A maioria das críticas considera que este novo disco é o melhor de toda a carreira de Billy Fay, que agora está com 77 anos. O disco é curto, na sua versão original tem 27 minutos de duração e várias canções marcantes. Uma das causas mais evidentes para o renascer de interesse em torno da obra de Billy Fay vem da admiração que outros artistas têm por ele, nomeadamente os Wilco, que fizeram uma versão do tema “Be Not So Fearful” para o documentário video que produziram em 2002 intitulado “I Am Trying To Break Your Ear”. Neste “Countless Branches”, disponível no Spotify, Billy Fay faz canções místicas, outras bem terra a terra, relata a luta constante entre o Bem e o Mal, ao mesmo tempo que parece cantar para comunicar com diversas gerações. Surpreendente e irresistível.


 


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VIDA SUAVE - A edição de fevereiro da revista Monocle é dedicado a um dos temas mais em voga actualmente: a qualidade de vida. A capa, aqui reproduzida apela a que cada um recomece, defina novos objectivos, adopte uma nova postura, leia mais e se descontraia - em suma, que se viva uma vida mais suave. Esta é uma edição anti stress, focada em combater o imediatismo e a velocidade que pode ser má conselheira no pensamento e na execução. A ideia central da edição é possibilitar que cada pessoa consiga que 2020 corra melhor que o ano passado. Não há-de ser por acaso que aqui estão diversas histórias sobre pessoas que deixaram os seus empregos e procuraram uma vida diferente e mais realizada, de acordo com os objectivos de cada um e com um sentido de utilidade para a sociedade. Entre os artigos desta edição destaque para um trabalho sobre o plano de desenvolvimento e requalificação de Cartagena, na Colômbia, para os ambiciosos planos do novo autarca de Phoenix. O grande tema que passa pelos artigos centrados na capacidade de mudança tem a ver com uma questão básica: como passar dos sonhos para a realidade. como se pode fazer o salto para o desconhecido, fora da zona de conforto, como encarar ideias e debates que ficam de fora da zona do pensamento dominante dos dias que correm. Como se escreve no manifesto “Easy Does It”, vale a pena que cada um se consiga isolar, desaparecer durante alguns momentos e todos os dias fazer uma coisa de que se gosta e não apenas o que tem de se fazer por obrigação.


 


GULODICE - Uma das minhas guloseimas preferidas é uma sábia combinação entre sabores de fruta e chocolate. Nesta área gosto sobretudo de cascas de laranja cobertas com chocolate negro. Há alguns bons sítios para obter o petisco e, até agora, as da Pastelaria Sequeira, ao Saldanha, estavam no topo da lista, muito acima das demasiado sofisticadas ( e pouco frutadas) da Arcádia. Anuncio agora que na lista das melhores cascas de laranja com chocolate negro passaram a estar as que são produzidas nos Açores pela empresa O Chocolatinho, de Rabo de Peixe, São Miguel. As cascas são grossas, levemente cristalizadas, cobertas de abundante chocolate negro e com uma pontinha descoberta da casca de laranja. São simplesmente arrebatadoras. O petisco encontra-se em Lisboa na Mercearia dos Açores, que existem em Lisboa na Rua da Madalena 115 e na Rua Viriato (às Picoas) nº 14. Ali podem ser encontradas outras iguarias do arquipélago, com destaque para as manteigas artesanais do Pico e os vinhos locais, que têm vindo a ganhar notoriedade. 


 


DIXIT - “Um dia não será com dinheiro que se poderá comprar o tempo. Só com mais tempo. O nosso”. - Miguel Esteves Cardoso


 


BACK TO BASICS - “Nada melhor que dar uma aparência de mudança se quiser garantir que tudo fique na mesma” - Giuseppe di Lampedusa







 






janeiro 24, 2020

O BANCO DE PORTUGAL

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O MURO - O Banco de Portugal devia ser um muro intransponível contra a fraude e ameaças ao sistema financeiro português. Como a História recente comprova de forma recorrente tal não sucede. Nestes últimos dias as notícias em torno de Isabel dos Santos e do banco EuroBic vieram avolumar novas suspeitas sobre a ineficácia do Banco de Portugal. Para resumir a história temos um banco central que não vigia os bancos, um banco central que não fiscaliza movimentos suspeitos, ou seja um regulador que não regula. É certo que faz lindos estudos, mas curiosamente não lançou alertas em tempo devido, apesar de tanto estudo, sobre a situação do BES, do BPP, do BPN ou até do Montepio. Não fossem as exigências europeias sobre as nomeações para a banca e até isso provavelmente passaria ao lado no nosso banco central. A instituição tornou-se inimputável. O Conselho Consultivo do Banco de Portugal, de quem não se ouviram reparos ao que tem sucedido, tem integrado distintas figuras do regime como Francisco Louçã, Luís Nazaré, João Talone ou Murteira Nabo. Diz a Lei que a este Conselho "compete pronunciar-se, não vinculativamente, sobre o relatório anual da atividade do banco e sobre a atuação do banco decorrente das funções que lhe estão atribuídas". Ninguém deu ainda por nada de relevante vindo de tão distintas personalidades. Menos ainda do seu sempre sorridente Governador, Carlos Costa, que é perito em atravessar um dilúvio sem se molhar e em se manter a boiar no meio da tempestade. O Banco de Portugal, assim, pouco mais é do que um refúgio de políticos reformados, escola de candidatos a ministros ou trampolim para cargos internacionais. Em suma, em vez de banco central é um albergue espanhol. O  Banco de Portugal mais parece um verdadeiro muro da vergonha.


 


SEMANADA - Em cinco anos foram apreendidos 2,5 milhões de comprimidos por suspeita de falsificação e os estimulantes sexuais estão no topo da tabela; a Câmara de Lisboa gastou 18 mil euros em carimbos para chancelar folhas de papel na mesma altura em que afirma estar a desmaterializar processos; entretanto o espólio da Hemeroteca Municipal continua depositado numa garagem com poucas condições há sete anos; na última década houve uma quebra de 16% nas vendas de livros de ficção; o julgamento de um homem que se fez passar por assessor do Presidente da República foi adiado cerca de um ano por o juiz ter alegado dor de dentes; o Ministério da Educação confirmou que a meio da janeiro continuavam a existir disciplinas que não tinham ainda iniciado as aulas por falta de professores; o sindicato dos inspectores da PJ está preocupado com o aumento de mulheres naquela polícia e pediu à Direcção que trave a entrada de uma maioria de agentes do sexo feminino; o Estado interrompeu as negociações com as famílias dos comandos mortos em instrução no ano de 2016 e o Governo entende que só pagará indemnizações às famílias se for obrigado em Tribunal; as obras num lote de terreno em Soltróia comprado em hasta pública à Autoridade Tributária, com garantia de construção, foram embargadas por uma resolução do Governo; em 2019 foram contabilizados 4192 médicos estrangeiros a trabalhar no país, um aumento de 8,8% em relação ao ano anterior; a filha de Ana Rita, a bombeira de Alcabideche que morreu em 2013 nos fogos do Caramulo, vai receber dez euros por mês de compensação pela morte da mãe, valor  a que se juntam 90 euros para alimentação; Carlos Siulva, militante socialista e líder da UGT, acusou António Costa de maltratar sindicalistas dentro do partido.


 


ARCO DA VELHA - O suspeito de ser o cabecilha do assalto a Tancos poderá ser libertado dentro de dias por atingir o prazo de prisão preventiva sem acusação formal do Ministério Público, tal como já aconteceu recentemente com os Hell Angels, suspeitos de associação criminosa e homicídio.


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LAPA NO DESERTO - Cada vez que passo próximo da sede da CGD lembro-me da Roménia do tempo de Ceausescu: um edifício megalómano e horrível, impositivo e arrogante. É lá que está instalada a Culturgest que podia ser uma das grandes instituições culturais do país se cuidasse melhor da sua relação com as pessoas. Mas, se a instituição mãe, que é o banco, destrata os seus clientes, que esperar do resto? O mais espantoso de tudo, nesta questão da relação com o Banco, é que os clientes da Caixa não têm, por regra, conhecimento do que se passa na Culturgest. E, embora tenham descontos em algumas actividades, elas são-lhes parcamente comunicadas, para não dizer escondidas. Parece que a Caixa tem vergonha de dizer aos seus clientes o que a Culturgest faz. Há uns anos tive ocasião de falar com um responsável da Culturgest na época, chamando a atenção para a forma como a sua instituição encarava a comunicação e como a relação com os públicos não era estimulada. Não pareceu sensível ao assunto, embora muitas vezes se queixasse da falta de pessoas nas actividades que promovia. Vem toda esta conversa a propósito de uma excelente exposição que abriu na Culturgest na semana passada, dedicada à obra de Álvaro Lapa. A exposição está muito bem organizada e montada, em torno da relação do artista com os livros (e a sua própria escrita), evidencia diversas facetas menos conhecidas da sua obra, nomeadamente mostrando a sua biblioteca e os seus “Cadernos de Escritores”. Até 19 de Abril poderá ver (deverá ver…) “Lendo Resolve-se: Álvaro Lapa e a Literatura”, a exposição de que falo e que devia ser amplamente divulgada, fora das rotinas habituais e pouco funcionais. O que motivou as minhas linhas foi o facto de lá ter ido num Domingo ao fim da manhã e praticamente não haver público. A exposição tinha aberto no Sábado anterior e não tinha ninguém, apesar de ser dia de entrada gratuita. Compare-se o que se passa aos Domingos no CCB ou na Gulbenkian e veja-se a diferença. É uma pena, Álvaro Lapa e Oscar Faria, que organizou a exposição, mereciam muito mais.


 


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UM QUARTETO - Quando me apetece encontrar alguma coisa nova para ouvir tenho algumas rotinas. Uma delas é ir ao site da editora ECM, ver as novidades e depois passear pelo Spotify a descobri-las. Foi assim que dei com “Not Far From Here”, o novo disco do quarteto de Julia Hulssman, uma pianista e compositora de jazz alemã. Aqui está acompanhada pelo saxofonista Uli Klempendorff, Marc Muellbauer no baixo e Heinrich Köbberling na bateria. O quarteto gosta de arriscar, mantendo uma enorme coerência na forma como dialoga entre si. O disco inclui composições de todos os músicos e uma Interpretação de “This Is Not America”, um clássico de David Bowie, feito em co-autoria com Pat Metheny e Lyle Mays, e que é um dos pontos altos do disco (retomado como derradeira faixa numa outra versão, apenas ao piano). Hulsmann assina cinco composições e uma delas, “Weit Weg” merece especial destaque pela forma como a pianista e o baixista dialogam, com uma quase imperceptível presença da bateria. O saxofonista Klempendorff é o elemento novo nesta formação, até aqui um trio que tocava há cerca de 17 anos e ele tem uma presença marcante, como aliás é patente na faixa de abertura “The Art Of Failing”.


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LÍNGUAS VIPERINAS - Michelle Dean é uma jornalista e crítica literária canadiana, atualmente a viver e trabalhar nos EUA. Tem escrito para as revistas The New Yorker, The New Republic, The New York Times Magazine e Elle e em 2016 foi distinguida com uma menção do National Book Critics Circle pela excelência da sua abordagem aos livros e autores. “De Língua Afiada”, agora editado entre nós pela Quetzal,  permite a Michelle Dean levar-nos a conhecer melhor um conjunto de mulheres que, segundo ela, fizeram da opinião uma arte. A primeira frase do livro é esclarecedora: “Reuni neste livro um conjunto de mulheres que têm o denominador comum de, ainda em vida, terem ficado conhecidas como sendo de língua muito afiada”. Susan Sontag, Dorothy Parker, Hannah Arendt, Rebecca West, Joan Didion, Mary McCarthy, Pauline Kael, Renata Adler, Janet Malcom e Nora Ephron são exactamente as línguas afiadas escolhidas por Michelle Dean. A autora apresenta cada uma destas mulheres, enquadrando-as no seu tempo, relatando como viveram, quase uma mini-biografia com a particularidade de em todas surgirem citações dos seus escritos que permitem ver como de facto tinham as línguas afiadas. Dean sublinha que “estas mulheres, cada uma à sua maneira, desbravaram um caminho para que outras pudessem continuar.”. Delicioso - quer pelas histórias, quer pelas citações.


 


UMA TAVERNA - Confesso que até agora as minhas experiências gastronómicas em Nisa, uma vila no Alto Alentejo, não eram nada entusiasmantes. Na generalidade coisas fracas, insípidas, sem ambiente nem graça - gustativa ou convivial. Desta vez, no entanto, tenho que rever a minha opinião. A culpa desta mudança reside na Travessa da Vila onde Paulo Bagulho dirige a cozinha com saber e imaginação. Mas comecemos pelo local - uma sala simples e simpática, serviço atento e pronto, mesas e bancos corridos. Para começar na mesa havia bom pão, queijo e azeitonas da região, todos de boa qualidade. Da ementa contava açorda de ovas com peixe do rio - no caso um safio frito - uma alhada de cação, lombinhos com molho de azeite e coentros e febrinhas do alguidar grelhadas. Há um vinho da casa, passável, mas para a qualidade da comida o melhor é mesmo ver uma das outras propostas da lista. Desta vez provou-se o safio que estava bem frito, no ponto, sem gordura e a açorda, que era rica em ovas e muito bem temperada. Os lombinhos com molho de azeite mereceram vários elogios. A sopa de cação, que infelizmente não foi provada, pode ser servida como entrada ou como prato principal. A Taverna da Vila fica perto do Castelo de Nisa, no Largo Dr. António José de Almeida 2 e tem o telefone 965890164. Está associada a um outro espaço, o Quintal da Festa, na Rua 25 de Abril 61, onde existe também uma mercearia com produtos locais - espaço mais dado a temperaturas mais altas que as actuais, onde também pontifica na cozinha o mesmo chef Paulo Bagulho, que gosta de vir às mesas falar com os clientes de forma descontraída. Esta Taverna fica no registo.


 


DIXIT - “Portugal deve a Eanes, para além da afirmação democrática e do esforço de consciencialização cívica, a recondução das Forças Armadas à sua função de defesa nacional, a atenção prestada tanto aos Açores e à Madeira, como ao interior e muitas preocupações de solidariedade social. “ - Jorge Miranda


 


BACK TO BASICS - “A arte existe para que a realidade não nos destrua” - Nietzsche






janeiro 17, 2020

COMO GASTAR MILHÕES A ESTRAGAR UMA MARCA

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OS DOIS ESTAROLAS - Aobsil, sabem o que é? Há bandeirolas e anúncios de rua por todo o lado com esta sigla: AOBSIL.  Eu explico - é a nova marca de Lisboa. Na realidade é a palavra Lisboa escrita ao contrário. Esta palavra de difícil pronúncia é a nova marca da capital portuguesa. A bem dizer faz sentido: a gestão de Medina virou a cidade do avesso, faz sentido virar a palavra ao contrário. A nova marca da cidade nasceu na gigantesca operação de propaganda realizada a propósito de Lisboa ser agora a capital verde da Europa. O Sr. José Sá Fernandes, vereador desta causa, considera certamente ambiental caixotes de lixo a transbordar para o chão nas zonas históricas da cidade,  o cheiro nauseabundo que emana dos contentores ou a falta de limpeza que se tornou regra nesta cidade. Mas resolveu criar uma nova marca gráfica para a cidade, dizem os seus defensores que para evocar uma árvore. Em todo este exercício de vaidade e auto-satisfação vão ser gastos dezenas de milhões de euros ao longo do ano. A propósito de oabsil um dos mais prestigiados especialistas em desenvolvimento de marcas, Carlos Coelho, da Ivity, interrogou-se se Madrid passou a chamar-se Dirdam, ou se Paris passou a Sirap ou ainda se Londres pós brexit será Serdnol. De facto a ideia de mudar a marca da capital significa tratar mal a identidade da cidade, perdendo-se a oportunidade de Lisboa aparecer em grande, e com a sua identidade própria, num evento internacional como este. Mas indiferentes a estas questões menores os dois estarolas que nos governam a urbe, Medina&Fernandes, lá vão satisfeitos arredando pessoas da cidade e descaracterizando-a.


 


SEMANADA - Um estudo divulgado esta semana indica que um médico que trabalhe num dos serviços de cuidados paliativos dispõe em média de um máximo de nove minutos por dia para cuidar de cada doente; os atrasos na atribuição de subsídio de funeral chegam a atingir uma ano; os apoios do Estado a deficientes estão atrasados cerca de dois anos; a sede da PSP em Lisboa, na Penha de França, esteve em risco de ver a electricidade cortada por atrasos de pagamento das facturas; os bombeiros portugueses que ajudaram nas cheias em Moçambique ainda não receberam o valor que lhes é devido pela Protecção Civil desde Março do ano passado; o Governo decretou em Maio apoio financeiro para filhos até 6 anos de bombeiros voluntários mas ainda não foi disponibilizada qualquer verba para esse efeito; a Associação Nacional de Municípios considerou o Orçamento de Estado “absurdo e inaceitável” por contemplar um corte de 35 milhões de euros às autarquias e por violar a Lei das Finanças Locais;  em várias prisões os detidos são abastecidos de droga, armas e telemóveis através de drones e só em Paços de Ferreira já se verificaram este ano vários casos; há mais de três mil imóveis devolutos em Lisboa.


 


ARCO DA VELHA - O contrato de leasing de cerca de três dezenas de veículos da Protecção Civil chegou ao fim e os serviços da entidade não fizeram novo contrato, o que levou a firma locadora a recolher os veículos.


 


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UMA SÓ NOITE - Quando lerem estas linhas já não vão poder ver a exposição a que elas se referem. É uma exposição que apenas ficou patente durante algumas horas. Vai acontecer quatro vezes este ano, cada uma integrando novos artistas. Chama-se, por isso mesmo, “Esta Noite” e decorre, como aconteceu terça 14 de Janeiro, no ateliê Pedro Cabrita Reis, no Beato, entre as nove e meia da noite e a uma da manhã. A ideia de Pedro Cabrita Reis foi complementada por João Ferro Martins que com ele escolheu os artistas, todos eles à data da escolha sem galeria. Estão mesmo em princípio de carreira, nesta primeira Noite foram dez, serão meia centena até à última mostra. Os que expuseram na estreia tiveram oportunidade de mostrar o seu trabalho a coleccionadores, críticos, outros artistas. Foram vistos, ouviram opiniões de quem os não conhecia. “Esta Noite” é uma montra para talentos. a ideia da montra é aliás recorrente na forma como Pedro Cabrita Reis gosta de partilhar o palco. Ao longo de um ano, entre Abril de 2017 e Abril de 2018 organizou nas montras do British Bar, ao Cais do Sodré, uma série de exposições de pequenas peças de artistas que convidou, na generalidade com nome feito. Agora, em vez de uma montra física a dar para a rua, no centro da cidade, passou para a montra que forçosamente é o ateliê de um artista, neste caso o seu próprio espaço, que cedeu para que outros o pudessem utilizar e mostrar o que fazem. É recorrente em Cabrita Reis este impulso de descobrir e mostrar obras de outros artistas - foi assim que criou a sua própria colecção, comprando a muitos no início de carreira. “Esta Noite” é uma ideia generosa. Na imagem obras de Xavier Almeida e Cândido. Destaque também para o trabalho de Diogo Pinto e Luísa Passos.


 


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O PRAZER POP - Se quiserem ter uma ideia sobre o estado da música pop no arranque da segunda década do século XXI aconselho a que ouçam o álbum “Seeking Thrills”, de Georgia, agora editado. Está disponível no Spotify e em outras plataformas. Trata-se do segundo disco da intérprete britânica (o primeiro é de 2015) claramente centrado em conquistar as pistas de dança, com uma determinação assinalável e uma eficácia incontornável. Mas este não é só um disco de dança. Como todo o bom pop que se preza é um prazer para os ouvidos, uma companhia perfeita para várias ocasiões. Georgia Barnes tem 29 anos e foi construindo uma carreira de produtora paralelamente à de intérprete. Georgia faz parte de uma geração que quer recuperar a noção da natureza, que pretende uma vida saudável e se preocupa com o planeta, temas recorrentes das canções deste disco. Esta é a nova contemporaneidade que atravessa cada vez mais campos da criação artística, da música à literatura, passando pelas artes plásticas. Este é um disco onde o ritmo comanda - não é de admirar, Georgia é também baterista e, por exemplo, tocou com Kate Tempest. Musicalmente o álbum vai buscar referências aos anos 80, dando-lhes um tratamento sonoro actual - a capa é aliás um grupo de raparigas a dançar fotografadas em 1988 por Nancy Honey. “Seeking Thrills” é um compromisso entre influências musicais antigas com a sonoridade ajustada e preocupações sociais actuais. É, também por isso, um desafio. E um grande disco pop.


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ARTE EM PAPEL - Fundada em 2009 a revista “Elephant” é publicada em Londres quatro vezes por ano, sazonalmente, e propõe-se acompanhar as tendências da arte contemporânea. Tem uma forte presença online, num site próprio (elephant.art) e está no twitter, facebook e instagram. O seu lema é “life through art”. A revista dedica especial atenção a artistas emergentes e entre as suas actividades criou um laboratório onde promove residências artísticas, que depois são mostradas e relatadas nas várias plataformas. O site é permanentemente actualizado, com uma agenda diferente da edição em papel e, por exemplo, esta semana a notícia em destaque era uma visita à casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. Já a edição em papel, datada deste Inverno, a número 41, parte de uma pergunta: “Será que a Arte pode salvar-nos, a nós e ao planeta?”. O debate sobre as alterações climáticas serve de pano de fundo para uma série de artigos e imagens que colocam em primeiro plano a forma como o mundo natural e os animais são apresentados visualmente. O lema da edição é conseguir voltar a tornar o mundo mais selvagem, com menor peso da intervenção humana. Regularmente há ideias editoriais interessantes - por exemplo a volta ao mundo em cinco cidades, falando do que do ponto de vista da arte contemporânea se passa em cada uma delas ou ainda a “Paper Gallery” onde se mostra de forma alargada a obra de um artista. Ligados ao tema da edição destaco o artigo “10 ideias sobre arte e meio ambiente” . Outro bom artigo fala sobre a importância do trabalho dos assistentes dos artistas, neste caso a propósito da montagem de uma peça complexa de Kara Walker  no enorme espaço da Turbine Hall da Tate Modern. A revista em papel pode ser comprada na Under The Cover, na Rua Marquês Sá da Bandeira 88, em Lisboa.


 


PETISCO - Esta semana vi-as, pela primeira vez neste ano, a serem vendidas à beira da estrada, em pequenos sacos - falo das túberas, esses tubérculos maravilhosos a que alguns chamam as trufas portuguesas. Mais abundantes no Alentejo, aparecem também no Ribatejo e normalmente entre finais de Janeiro até meados de Abril. Não é fácil perceber onde estão, debaixo da terra e descobri-las é um segredo bem guardado, que passa de pais para filhos. O seu sabor não é tão intenso como o da trufa, mas é delicado e envolvente. Misturadas com ovos mexidos é a forma mais frequente como são apresentadas. No restaurante lisboeta Salsa & Coentros elas fazem parte da lista de entradas e são muito bem confeccionadas. Por mim fico bem com ovos mexidos com túberas como prato principal, acompanhado de um bom pão fatiado fino. É um petisco. Em casa do meu Pai, que era um apreciador, às vezes eram feitas de fricassé - e ficam também deliciosas. Noutras vezes eram servidas como aperitivo, cortadas em fatias de uns 2mm que são bem grelhadas na chapa e polvilhadas com sal grosso. Ainda hoje, quando lhes deito a mão, não dispenso guardar algumas para fazer este aperitivo. Mas a minha preferência vai para os ovos mexidos, muito mal passados, com as túberas pelo meio. Para as cozinhar assim devem ser lavadas muito bem e descascadas, tendo cuidado para remover toda a terra. Se não forem consumidas nos dias mais próximos, podem ser congeladas depois de descascadas. Mas vamos à receita, bem simples: o ideal é cortar as túberas em fatias finas como se fossem batatas para fritar às rodelas, a seguir salteá-las  em azeite até estarem passadas, juntar ovos batidos com sal (com um pouco de pimenta se gostarem) e envolver. Os ovos devem ficar mal passados.  Para além da beira da estrada às vezes aparecem em boas lojas como a histórica Frutaria Bristol, na Rua das Portas de Santo Antão, junto ao Coliseu.


 


DIXIT - “Uma obra de arte é tão importante na construção da cidade quanto a habitação social, ou o desporto e a cultura…”  - Pedro Cabrita Reis.


 


BACK TO BASICS - “Os políticos deviam ler mais ficção científica e menos policiais e livros de cow-boys” - Arthur C. Clarke






janeiro 10, 2020

CENTENO NA DANÇA DO ORÇAMENTO

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O BAILE ARMADO - O Orçamento de Estado é o contrário do que devia ser um documento que regulamenta como se gastam os dinheiros da nação. Devia ser transparente e é opaco - pelos vistos há verbas escondidas, e não são pequenas, para serem usadas e outros indicadores, como a verba para despesas imprevistas, a célebre “almofada” que não se vislumbram. A Unidade Técnica de Apoio Orçamental  do parlamento encontrou 255 milhões camuflados e considera poder existir uma suborçamentação naquele valor das receitas na proposta de Orçamento de Estado apresentada por Centeno. O Ministro das Finanças jura que esta análise está incorrecta, mas não falta quem ache que Mário Centeno criou um baú que permite ter uma confortável margem de manobra por parte do Executivo de António Costa para as negociações do OE2020 com os partidos pró-geringonça. Adicionalmente já se percebeu que o Orçamento de Estado para 2020 prevê maiores cativações do que as efectuadas em 2019. Com vários partidos a anunciarem que se vão abster ou votar contra, a maioria necessária para fazer aprovar o Orçamento vai estar dependente de muita negociação e de cedências aos partidos pró-geringonça. As negociações vão ser duras e a imprevisível deputada do Livre pode ter um grande protagonismo, de que gosta, em todo o processo. Em qualquer dos casos, mesmo depois de aprovado na generalidade, se isso acontecer por obra do Livre ou dos deputados da Madeira, há muito para renegociar nas votações na especialidade - onde a opacidade é ainda maior. E não há-de ser por acaso que na proposta de Orçamento para 2020 há muitos pontos em branco propositadamente deixados para essa negociação na especialidade. Na realidade o baile está armado em S. Bento. Para já o PS é o único a dizer que sim a Centeno, mas há uma fila de espera de pedidos e um baú para dar umas esmolas. E por cima disto tudo temos também a certeza de que esta será a maior carga fiscal de sempre. Os próximos dias vão ser animados, cheios de danças e contra-danças.


 


SEMANADA - A deputada Joacine Katar Moreira quis impedir a Assembleia da República de utilizar uma fotografia em que aparece na Comissão de Ambiente do Parlamento; segundo o presidente do Tribunal Constitucional, Manuel Costa Andrade, as verbas previstas para criar a nova Entidade da Transparência, que vai fiscalizar os políticos, não chegam para assegurar o seu funcionamento e  não há a "mínima preparação" para instalar este novo organismo; o preço das casas na periferia de Lisboa aumentou mais de 20% no terceiro trimestre de 2019; cerca de 1400 condutores já atingiram o limite de infracções e arriscam ficar sem carta de condução, triplicando o número dos que estavam nessa situação em 2018; as queixas relacionadas com os atrasos na atribuição de pensões aumentaram cerca de oito vezes em apenas três anos e atingiram 1600 no ano passado; a taxa de desemprego subiu para 6,7% em Novembro, o valor mais alto no espaço de um ano; na época do Natal, entre 1 de Dezembro e 2 de Janeiro, foram feitos pagamentos via multibanco a uma média de 242 milhões de euros por dia; em 2019 os portugueses gastaram em média 35,5 milhões de euros por dia a comer fora de casa; a maioria das câmaras municipais do norte do país não conseguiu atingir 50% de receitas próprias; pela primeira vez em 16 anos venderam-se mais carros a gasolina; em 2019 morreram 57 pessoas em acidentes com tractores registaram-se mais de cinco mil acidentes rodoviários entre o Natal e a passagem de ano que causaram 17 mortes; o Fisco cobrou imposto automóvel em excesso a cerca de 130 mil carros importados. 


 


ARCO DA VELHA - A nova Feira Popular de Lisboa, anunciada por Fernando Medina há quatro anos, ainda não saíu do papel nem tem data prevista de inauguração mas já se sabe que custará 70 milhões.


 


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IMAGENS MARGINAIS - Américo Filipe e Teresa Almeida e Silva apresentaram esta semana  na Galeria Monumental uma nova etapa do seu projecto comum “Estrada Marginal”, que mostra  pintura e video de Américo Filipe e pinturas de Teresa Almeida e Silva. (Campo dos Mártires da Pátria 101). Na Módulo - Centro Difusor de Arte, inaugura sábado “A Cor da Sombra” de Joana Hintze (Calçada dos Mestres 34). Outros destaques: “Os Dias das Pequenas Coisas” de Sarah Affonso no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado e “Sombras e Outras Cores” de Manuel Baptista no Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva.  Entretanto até sábado ainda podem ver algumas das exposições marcantes das últimas semanas: obras de Sérgio Pombo feitas entre 1973 e 2017 na Fundação Carmona e Costa, “Parasita” de Rita Ferreira na Travessa da Ermida, “Formas Antigas, Novas Circunstâncias” de André Guedes na Galeria Vera Cortês, “O Narcisismo das Pequenas Diferenças” de Pauliana Valente Pimentel no Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, “Jorinde e Joringel”, de Daniela Krtsch e “Double Poetics” , de Joana Gomes, na Galeria Belo Galsterer.


 


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UM TRIO INESPERADO - Não me canso de dizer que o trio é uma das minhas formações preferidas no jazz. O trio clássico inclui geralmente piano, baixo e bateria, mas no caso do disco de que hoje falo há uma curiosa situação: um dos músicos toca piano, trompete e teclados e ainda tem umas participações vocais. O músico em questão é Nicholas Payton, aqui acompanhado por  Kenny Washington na bateria e por Peter Washington no baixo. “Relaxin’ With Nick” é um duplo CD gravado nos dias 30 e 31 de Maio e 1 de Junho de 2019 no palco do Smoke - Jazz and Supper Club, de Nova Iorque. Ao todo são quinze temas, divididos pelos dois discos deste duplo CD, disponível no Spotify. Um dos temas incontornáveis é “Jazz Is A Four Letter Word”, a meio do primeiro disco. Payton começa com acordes do seu Fender Rhodes, acompanhado pelo baixista, enquanto explica que a música foi inspirada por um livro em que Max Roach estava a trabalhar na altura em que morreu. Payton, que fala e canta neste tema, passa do Fender Rhodes para o piano e depois para o trompete, num diálogo arrebatador com os outros dois músicos. Arrisco dizer que este é o tema mais emblemático de um disco onde também se destacam “1983”, “I Hear A Rhapsody” ou “Five”.


 


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GESTÃO POLÍTICA - Luis Reis, um dos nomes fortes da gestão histórica da Sonae, tem vindo a aumentar a sua actividade mediática, quer através de colunas de opinião, quer envolvendo-se mais directamente em política, como no caso das eleições internas do PSD em que aparece a apoiar um dos candidatos contra Rio. Aqui estão cerca de seis dezenas dos artigos que Luis Reis publicou entre Setembro de 2012 e Outubro de 2019 e que reflectem a sua observação da realidade económica e política portuguesa nesse período. Nos seus textos Luis Reis passa em revista a actuação dos governos de Passos Coelho e de António Costa e a acção dos ministros das finanças, nomeadamente de Vitor Gaspar e Mário Centeno. Luis Reis aborda os problemas que na sua perspectiva melhor caracterizam as dificuldades da nossa sociedade e da nossa economia. Além da sua actividade enquanto gestor, Luis Reis tem uma extensa carreira académica e participações em associações empresariais portuguesas e internacionais. Nas suas intervenções que aqui se recolhem tem insistido na necessidade de uma oposição mais activa que faça propostas novas, aponte reformas, defenda a modernidade. A última frase do livro, escrita depois das eleições de Outubro passado, diz tudo: “Lamento o pessimismo com que encaro os próximos quatro anos, mas navegar com Costa à vista é receita segura para naufrágio!”.


 


UM CLÁSSICO - Os buffets de almoço são geralmente uma aposta arriscada - coisas requentadas, sobras diversas, muitas vezes um aspecto um pouco enxovalhado. Uma boa excepção a esta regra é o buffet do histórico São Bernardo, hoje em dia na Junqueira, desde que há uns anos saíu da Lapa. Para além do take away que deu nome casa, o São Bernardo tem no segundo andar uma zona de restaurante que ao almoço funciona em buffet e que à noite pode ser reservado para grupos ou eventos. Mas vamos ao que interessa - este buffet é um clássico:  não sofre das maleitas da maioria, é diversificado, inclui sopa, entrada, prato de carne ou peixe, bebidas (vinho da casa branco ou tinto, água, sumo do dia ou limonada), além de sobremesa e café. O preço é 17,50, as mesas são confortáveis. Não é fácil encontrar clientela abaixo dos 40 e a orientação da cozinha é a gastronomia portuguesa. Num destes dias havia umas tenras tiras finas de choco frito acabado de fazer, uma belas empadinhas de frango e um saboroso frango com alecrim e mel. Nos acompanhamentos destacavam-se umas migas de couve, arroz árabe e batatinhas no forno,  além de uma boa variedade de saladas. Nas sobremesas há sempre fruta laminada e doces. no caso um bolo de chocolate e uma tarte de frutos silvestres. A qualidade da confecção é muito boa, a qualidade da matéria prima é constante. No São Bernardo não há lugar a más surpresas e no fim do almoço pode sempre escolher um dos pratos cozinhados e embalados para levar para casa.


 


DIXIT - “Era giro que, ao entregar o Orçamento ao Presidente da AR, Centeno fosse parado numa daquelas operações stop organizadas pela Autoridade Tributária e lhe esquadrinhassem a pen à procura de receitas ocultas” - José Diogo Quintela


 


BACK TO BASICS - “Um bom gestor garante que as coisas fiquem bem feitas; um líder consegue que se façam as coisas certas” - Peter Drucker


 




janeiro 03, 2020

DUAS DÉCADAS PERDIDAS

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O ESTADO DA NAÇÃO -  As duas primeiras décadas deste século são um somatório de oportunidades perdidas para Portugal. Não se fizeram reformas estruturais e as poucas mudanças que se fizeram acabaram por ser em boa parte revertidas. A presença de portugueses em cargos internacionais de relevo ao longo destas duas décadas é inversa em relação às melhorias e aos progressos verificados no país. Foram duas décadas de degradação do sistema político, do surgimento de numerosos casos de corrupção de várias dimensões, de descrédito do parlamento e dos partidos do sistema. Foram anos de aperto, de destruição de valor, de colapso de instituições financeiras, de degradação dos serviços públicos. A responsabilidade de tudo isto é repartida pelos partidos que estiveram no Governo, sem excepção. Continuámos a ver as promessas eleitorais serem desmentidas na prática logo a seguir à contagem dos votos. O sistema deixou de usar a confiança como moeda de troca. A justiça é uma miragem. Os cidadãos pagam mais ao Estado e recebem menos. Os eleitores afastam-se cada vez em maior número dos processos eleitorais. Os governantes são eleitos por uma minoria. As grandes cidades estão a deixar de ter habitantes, trocados por visitantes. A especulação imobiliária instalou-se. Em Lisboa o programa político da autarquia é afastar os lisboetas, tornar-lhes a vida difícil e deixar a sujidade e a porcaria invadir toda a cidade. Na primeira vintena de anos deste século o progresso foi pouco e o retrocesso foi enorme. É este o estado da nação no início de uma nova década.


 


SEMANADA - O peso dos impostos e das contribuições sociais efetivas aumenta para 35% do Produto Interno Bruto segundo a proposta do Orçamento de Estado para 2020; em 2019 a cobrança fiscal bateu novo recorde, com o fisco a arrecadar 5,2 milhões de euros por hora; o défice do Serviço Nacional de Saúde aumentou 72 milhões de euros;  em 2019 a GNR deteve mais de 30 pessoas, só no Algarve, sob acusação de violência doméstica; ainda em 2019 registram-se 35 mortes em contexto de violência doméstica - 27 mulheres, uma criança e sete homens; duplicaram as queixas de trabalhadoras por discriminação e a maioria dos processos são de mulheres empregadas em híperes e supermercados;  o crédito concedido este ano atingiu o maior valor desde final de 2014; a avaliação bancária das habitações para a atribuição de crédito voltou a bater níveis máximos em novembro; o número de reclamações em relação aos transportes públicos atingiu este ano um valor recorde, com a maior parte das queixas a incidirem nos comboios e no metro de Lisboa;  uma em cada cinco queixas é sobre mau atendimento; são registados quatro bebés por dia com pai incógnito; o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto SS, classificou a gestão das empresas portuguesas como de “fraquíssima qualidade” num discurso para portugueses que prosseguiram as suas carreiras académicas no estrangeiro. 


 


ARCO DA VELHA -  A Entidade da Transparência, criada há seis meses para fiscalizar as declarações de rendimentos de políticos e altos dirigentes da administração pública, não tem dotação orçamental no novo Orçamento de Estado.


 


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RENASCIMENTO  - Uma boa ideia para começar o ano é visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, para ver a exposição  sobre a obra de Alvaro Pirez de Évora, o mais antigo pintor nascido em Portugal, e que trabalhou na região da Toscana, em Itália, entre 1410 e 1434. No retábulo da Igreja de Santa Croce de Fossabanda, próximo de Pisa, está uma das suas obras e na assinatura o autor diz-se oriundo de Évora.  São conhecidas cerca de 50 pinturas da sua autoria e é reconhecida a qualidade plástica e a importância histórica da sua obra. Da exposição fazem parte pinturas conservadas em Portugal, e ainda obras dos grandes pintores toscanos do seu tempo. Ao todo são mostradas cerca de 85 peças que permitem enquadrar o contexto cultural e artístico em que se desenvolveu a arte de Alvaro Pirez d’Évora. Esta mostra, a mais completa realizada até hoje sobre este pintor,  conta com empréstimos de grandes museus europeus e coleções privadas de referência, de Itália, França, Alemanha, Hungria e Polónia. A exposição é fruto de uma colaboração entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o Polo Museale della Toscana e testemunha as intensas relações da área mediterrânica nos alvores do Renascimento. Esta mostra da obra de Alvaro Pirez de Évora fica até 15 de Março, na galeria das exposições temporárias do Museu Nacional de Arte Antiga, no piso zero.


 


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HOT RATS - Frank Zappa fez 62 álbuns em 52 anos de vida e desde a sua morte, ocorrida em 1993, os seus herdeiros já lançaram quase mais seis dezenas. O mais recente é a revisitação de The Hot Rats Session, em seis discos. Hot Rats foi o primeiro grande disco dos Mothers Of Invention, em 1969, e o álbum original tinha 43 minutos que oscilavam entre influências de jazz improvisado e o rock. Nas notas da fantástica capa, o próprio Frank Zappa chamava-lhe “um filme para os vossos ouvidos”. Nesta nova edição estão sete horas e 19 minutos que mostram o trabalho de Zappa e dos outros músicos ao longo das sessões de estúdio que levaram aos disco original. O seu talento de compositor ressalta e nas gravações pode sentir-se o génio a trabalhar, repetindo solos, improvisando, procurando o som pretendido e a melhor solução instrumental. Hot Rats,  o título, vem segundo o que Zappa contava, do que ele achava que soava um solo de Archie Shepp. Nesta recolha de conversas de estúdio (como no disco seis) e horas de ensaios, há a prova do experimentalismo, do sentido de aventura e de descoberta que sempre caracterizou a obra de Frank Zappa, com muito humor e provocação pelo meio. Esta nova edição não tem as sessões integrais, mas sim pedaços escolhidos que permitem compreender melhor como o disco original se tornou num clássico e a quantidade de trabalho que foi colocada no seu processo criativo. Frank Zappa, The Hot Rats Sessions, está disponível no Spotify.


 


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HERANÇAS - A “Cereal” é uma revista de lifestyle, que se publica duas vezes por ano, e em cada edição visita um conjunto de destinos, publica entrevistas e artigos sobre design, moda e arte. A edição de Outono/Inverno de 19 é dedicada o tema da herança, no sentido do legado, da tradição que passa de geração em geração. É uma edição quase intemporal - até a moda não tem data marcada. Rosa Park, a directora da publicação, escreve no texto de introdução que evocar o que nos é deixado “é procurar alcançar a imortalidade, vivendo as memórias daqueles que amámos”. Nesta edição explora-se a arquitectura de Gio Ponti num hotel intemporal em Sorrento e de Carlo Scarpa num túmulo desenhado em 1906. Pode ainda ver-se o trabalho desenvolvido para a Ruinart por Jonathan Anderson e um olhar sobre o estúdio onde Joan Miró trabalhava. Um dos melhores momentos é o portfolio fotográfico de Fan Ho, que com uma Rolleiflex retratou a Hong Kong dos anos 50 do século passado. Esta “Cereal” dá destaque a João Rodrigues, o português que com Manuel Aires Mateus desenvolveu o projecto das Casas na Areia da Comporta, que esteve na Bienal de Veneza em 2008. Depois, também com Manuel Aires Mateus, vieram a Casa no Tempo, no Alentejo, e as Cabanas no Rio, também na Comporta, além do Hotel Santa Clara 1728, em Lisboa. Estes quatro projectos são enquadrados pela marca comum “Silent Living”, que procura combinar a tranquilidade de cada local com um acolhimento familiar. Não é a única presença portuguesa nesta edição da “Cereal” que conta também com uma página de publicidade da marca “Flanela Portuguesa”.


 


COMIDAS - “O Homem Que Comia Tudo” é o blog de Ricardo Dias Felner, um dos melhores sítios para se obterem conselhos em matéria de novos restaurantes e de sugestões gastronómicas. O blogue todos os anos atribui os Prémios Cometa, acabados de revelar e que podem ser consultados em   ohomemquecomiatudo.com. Do texto introdutório à lista dos premiados destaco este excerto: “ainda falta um chef que meta todo o empenho e investimento na tarefa de fazer um restaurante moderno e ambicioso de cozinha regional portuguesa; ainda falta um Solar dos Presuntos actualizado, menos posh e menos vinha d’alhos, mas igualmente impecável no produto e no serviço”. Há prémios para todos os gostos, desde o melhor fine-dining até ao melhor ramen ou comida italiana, passando pelo melhor amouse-bouche, melhores mexicano, chinês, coreano ou japonês do ano. E claro, o chef do ano, o balcão do ano, o snack-bar do ano, a entrada do ano, a sobremesa do ano e mais uma série de inesperadas categorias que vale a pena conhecer. Vão ao blogue que vale a pena - podem a partir daí constituir um roteiro para interessantes descobertas em matéria gastronómica.


 


DIXIT - “Como é que um socialista consegue um excedente orçamental? - Aumenta os impostos.  Quem paga o excedente? - Os contribuintes. E que faz um socialista com um excedente? - Alimenta a grande família socialista. “ - Vicente Ferreira da Silva.


 


BACK TO BASICS - “Experiência não é o que acontece a cada um de nós, é aquilo que fazemos com o que nos acontece” - Aldous Huxley.





 




dezembro 27, 2019

REGULADOR, CENSOR OU APENAS BUROCRATA?

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ERC AGRIDE RTP - Na semana passada foi dada mais uma machadada no Serviço Público Audiovisual por um órgão essencialmente emanado do Parlamento - a Entidade Reguladora da Comunicação, um organismo que tem tido uma vida aberrante, criado há relativamente pouco tempo sob a batuta desse génio que é Azeredo Lopes (sim, o de Tancos…), mas que é essencialmente um monstro burocrático incapaz de acompanhar o evoluir dos tempos e daquilo que se propõe regular. Tenho guardados na memória episódios da falta de conhecimento da realidade de que a ERC regularmente dá mostras, nomeadamente na área online. Para mal dos nossos pecados cabe à ERC representar o Estado na tutela da RTP, é perante a ERC que os cargos dirigentes na área da programação e da informação da estação de serviço público têm que responder e é por ela que têm de ser aprovados antes de iniciarem funções. Como se viu num caso recente, a luz verde da ERC não impediu a interferência da anterior Direcção de Informação na tentativa de condicionar um programa e de gerir a sua emissão de acordo com um calendário da sua conveniência política. Um dos proeminentes dirigentes da ERC, Alberto Arons de Carvalho, veio mesmo afirmar publicamente não discordar das opções feitas pela anterior Direcção de Informação sobre o caso “Sexta Às Nove”. Este senhor foi em tempos Secretário de Estado, com a tutela da RTP, num dos períodos mais graves de má gestão e manipulação sistemática daquela estação, e não se regista uma decisão sua que impedisse o caos que lá se instalou. Voltemos ao tema: José Fragoso, jornalista e experiente homem de televisão, tem sido o Director de Programas da RTP e tem conseguido, no meio do furacão que em 2019 alterou o panorama das televisões em Portugal, manter a estação pública estável, continuando linhas de programação relevantes, dinamizando documentários, criando novas apostas e proporcionando até um crescimento da relevância do serviço público. A proposta da Administração da RTP em lhe dar a possibilidade de acumular a Direcção de Programas com a Direcção de Informação é uma aposta estratégica, na linha do que acontece nas melhores estações mundiais de serviço público onde há um Director Geral que coordena ambas as áreas. Qualquer pessoa que siga e se interesse pela missão contemporânea do Serviço Público Audiovisual conhece as boas práticas do sector, aquelas que têm dado provas, que têm alcançado resultados, que têm desenvolvido a estratégia de produção de conteúdos. A RTP não tem, na sua estrutura e estatutos, consignada a figura de Director-Geral, embora ela tenha existido implicitamente, de forma mais ou menos disfarçada, em muitos casos anteriores. Desta vez, respeitando os estatutos, a nomeação foi clara e fazia sentido. Sempre defendi que na RTP devia existir um Director-Geral com capacidade para harmonizar as áreas da Informação e Programação, que muitas vezes evidencia uma esquizofrenia que se manifesta graças à solução actual - além das numerosas guerras internas improdutivas que fomenta.  A estrutura que a ERC defende é uma herança da forma de organização dos jornais do início do século passado, adoptada como modelo para todos os media e que depois foi progressivamente sendo abandonada, em que se defendia uma certa predominância da Informação sobre a Programação, em vez de existir complementaridade. Ora era exactamente esta complementaridade, hoje em dia evidente em muitas estações públicas europeias de referência, que a RTP poderia ter, e que esta Administração procurava agora formalizar de forma transparente. Ao recusar a solução por temer a concentração e “os riscos que tal situação comporta”, a ERC veio revelar como é retrógrada, como não compreende o que deve ser hoje em dia um Serviço Público Audiovisual e como é avessa a qualquer tentativa de mudança e inovação. Não é pelo caminho que a ERC preconiza que se pode desenvolver um Serviço Público Audiovisual forte. Os senhores deputados e os senhores governantes que sustentam a ERC são coniventes com isto. Ou seja, prestam um péssimo serviço ao Serviço Público Audiovisual. 


 


SEMANADA - A ADSE tem por validar 650 mil facturas apresentadas por beneficiários para reembolso e o número deverá crescer no primeiro trimestre de 2020; nas duas primeiras décadas deste século Portugal perdeu 8767 escolas; ao contrário do que foi prometido pelo Governo a Autoridade Tributária não está a aceitar as correcções das declarações de IRS de quem recebeu pensões em atraso; cada árbitro ganha 1480 euros por jogo da Primeira Liga; no Orçamento de Estado apresentado por Centeno faltam dados sobre quanto o Governo tem para gastos imprevistos; a Ordem dos Engenheiros afirmou, sobre o impacto do mau tempo na zona de Coimbra, que houve incúria do Estado e desinvestimento na manutenção; segundo o seu Presidente do Conselho de Administração, a agência de notícias Lusa, por ter visto o seu financiamento limitado pelo Governo, vai sacrificar drasticamente o investimento em tecnologia em 2020 “num exercício orçamental de altíssimo risco” sobre o qual a ERC mantém religioso silêncio; no terceiro trimestre do ano o preço das casas em Portugal subiu 10,3%; o Bispo do Porto afirmou que “o Estado não é pessoa fiável”; nos últimos cinco anos a Inspecção do Ambiente só conseguiu cobrar 24% das multas; um terço dos projectos apresentados por empresas, e aprovados, no âmbito do Programa Portugal 2020 estão por executar; cada português produz em média 508 kgs de lixo por ano; o Exército perdeu metade dos efectivos em quase duas décadas; o quartel da GNR em Tavira está há um ano sem água quente.


 


ARCO DA VELHA - NO PSD, que é teoricamente o maior partido da oposição, menos de metade dos seus militantes tem direito a voto nas eleições directas para escolha de quem irá dirigir o partido e só cerca de 30 mil poderão votar. Esta democracia está cada vez menos representativa.


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FOTOGRAFIA  - Este ano, no Porto, surgiu uma galeria integralmente dedicada à fotografia. O Espaço SP620 (na imagem) foi criado por Pablo Berástegui que tem bastante experiência na área, nomeadamente como um dos responsáveis da Photo España. Além de galeria promove edições especiais e promove um projecto pedagógico que organiza visitas guiadas às exposições da Galeria para grupos de jovens. Durante os próximos quatro anos vai dedicar-se exclusivamente à fotografia documental, tendo por base um ciclo designado Salut Au Monde!, evocando o título de um poema célebre de Walt Whitman. Até 11 de Janeiro pode ser vista a exposição “Out Of The Way”, de Elena Anosova, com imagens realizadas nos territórios do extremo norte da Rússia, onde ainda vive a família paterna de Anosova rodeada por uma natureza intacta e uns modos de vida não muito diferentes daqueles dos antepassados que colonizaram a região da Sibéria há três séculos. A Galeria quer basear a sua actividade num grupo de apoiantes que mediante uma contribuição anual têm direito a tiragens das imagens das exposições realizadas. É um desafio para todos os que gostam de fotografia.  Espaço SP620, Rua Santos Pousada, 620. Mais informações em https://www.salutaumonde.info/ . Outras sugestões: ainda no Porto, no edifício da Alfândega pode ver  "Henri Cartier-Bresson: Retratos", uma exposição que reúne 121 trabalhos do fotógrafo francês realizados ao longo de 70 anos.  Em Évora, numa mostra preparada e encenada para ser vista ao ar livre, no Largo Conde Vila Flor, estão expostas 38 fotografias de Sebastião Salgado, a preto e branco, que integram o seu mais recente livro, “Genesis”. 


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SONS DA EMOÇÃO - Os budistas tibetanos acreditam que quando alguém morre a sua consciência vagueia num estado intermédio a que chamam bardo durante sete semanas antes de transitarem para uma nova vida. Tradicionalmente os monges budistas, para auxiliarem os familiares de quem passa por esta prova, lêem em voz alta o The Bardo Thodol, ou seja, o Livro Tibetano dos Mortos, durante os 49 dias do processo. Tenzin Choegyal é um dos mais importantes músicos tibetanos e há cerca de 15 anos trabalha  em diversos projectos inspirados pelo The Bardo Thodol, o último dos quais é “Songs From The Bardo”, feito em colaboração com Laurie Anderson e Jess Paris Smith, a filha de Anderson e de Fred ”Sonic Youth” Smith. Anderson assume o papel de guia nesta gravação, lendo passagens do Livro Tibetano dos Mortos traduzidas para inglês por Choegyal, acompanhadas por música imaginada por Jess Paris. No disco as canções e recitações sucedem-se sem separações evidentes, num ambiente fortemente emotivo e inspirador, musicalmente poderoso, em que o trabalho do violoncelista Rubin Kodheli merece especial referência. Disponível no Spotify.


 


PROVAR - Cada vez mais gosto de restaurantes despretensiosos onde o único conceito é prestar bom serviço e apresentar comida bem confeccionada. Por estes dias descobri o Clotilde, no Estoril, próximo do Casino, junto ao Centro de Congressos.  A sala é confortável, com a cozinha à vista, e existe também uma esplanada coberta. O serviço é atencioso e eficaz, a lista de vinhos é curta mas bem escolhida e a preços honestos e, no final, a conta é decente. Nas entradas provaram-se com agrado os peixinhos da horta e uma perdiz de escabeche muito boa. Umas trouxas de enchidos ficaram aquém das expectativas, mas havia uma opção elogiada numa mesa perto que podia ter sido um boa escolha - ostras à unidade ou à dose de seis. Nos pratos de substância tudo continuou a correr bem, com particular destaque para umas lulas guisadas com ameijoas, no ponto e muito saborosas. Na mesa mereceram elogios uns filetes de peixe galo que podem vir com arroz de tomate ou salada;  e dois amigos estrangeiros residentes aventuraram-se com êxito, ele nuns filetes de polvo com arroz de feijão enquanto uma californiana de gema elogiou a bochecha de porco preto com migas de espargos - destacou o tempero da tenra carne e o sabor das migas de espargos, que quis saber como se faziam. O Clotilde fica na Avenida Clotilde, Edifício Centro de Congressos do Estoril, telefone 214 663 084.


 


DIXIT -  “Os políticos adoram o caos. Não pensam noutra coisa. Dá-lhes autoridade e dá-lhes poder. Dá-lhes proeminência. Ficam com a ideia de que podem resolver as coisas por nós”- John Le Carré


 


BACK TO BASICS -  “Fazer reportagem é uma escola de vida: o que aprendemos baseia-se em erros que cometemos” - Cristina Garcia Rodero, fotojornalista.


 


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dezembro 20, 2019

REGABOFE PARLAMENTAR

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VERGONHA - Não tenho a menor simpatia por André Ventura. Mas também tenho muito pouca simpatia pelo comportamento de vários deputados no Parlamento, pela forma como alguns deles todos os dias atacam a democracia que dizem defender, perante a complacência - por vezes cumplicidade - dos dirigentes dos respectivos partidos. Não falo só dos casos de acumulação da função de deputado com actividades que deviam ser incompatíveis, nem tão pouco dos casos de tráfico de influências ou de conflito de interesses.  Também já nem falo dos arranjinhos de viagens, das assinaturas falsas de presença, das moradas fictícias para receberem subsídio de deslocação. O que na semana passada verdadeiramente me causou perplexidade foi a prescrição de multas a partidos políticos, que aconteceu graças a uma revisão da lei feita no Parlamento com a participação de deputados que eram visados no caso. A história tem requintes de malvadez e o facto é que prescreveram multas de centenas de milhares de euros aplicadas a partidos parlamentares por faltas cometidas nas suas contas relativas a 2009 e 2010. Pior ainda, sabe-se agora que o mesmo pode acontecer em relação às contas das finanças partidárias até 2014, que correm o risco de também ficarem no lixo e não serem cobradas. E porquê - a nova lei de financiamento, feita em Janeiro de 2018, é a causa que  levou à prescrição de processos de contra-ordenação de partidos e seus responsáveis financeiros. Curiosidade mórbida - alguns desses responsáveis financeiros das máquinas partidárias eram deputados que lideraram a muito conveniente revisão da lei que, em Janeiro de 2018, abriu caminho para atirar com as multas para o lixo. Na realidade estes deputados encontraram forma de contornar um sistema de controlo e verificação de irrregularidades e ilegalidades na actuação dos partidos, para que eles depois não sejam sancionadas. Se isto não é vergonhoso, o que será vergonha no parlamento português?.


 


SEMANADA - O orçamento para 2020 prevê um aumento da receita fiscal de 1275,4 milhões de euros, as receitas com IRS crescem mais de 400 milhões de euros e o Governo prevê um aumento da receita do IVA graças ao aumento do consumo; no mês de Outubro o crédito ao consumo atingiu o valor recorde de 726,8 milhões de euros; as queixas dos consumidores portugueses relativamente à Black Friday subiram 51% face ao ano passado; o descontentamento pelo atraso na entrega de encomendas aumentou 61%;  em 2018 os museus tiveram um aumento de 13,5% no aumento de visitantes, que atingiram os 19,5 milhões, quase metade dos quais foram estrangeiros; em 2018 registaram-se menos 5,3 % de espectadores nas salas de cinema nacionais; já os espectáculos de música registaram um aumento de 9,5% de espectadores; as exportações de bens culturais em 2018 representaram 167,6 milhões de euros (menos 6,9% do que no ano anterior) e as importações registaram 399,1 milhões, o que resultou num saldo negativo de 231,5 milhões; em 2018 a despesa das câmaras municipais em actividades culturais e criativas atingiu os 469,8 milhões de euros, um aumento de 4,4 % face a 2017; a linha de crédito para os municípios fazerem trabalho de limpeza de terrenos florestais desce de 50 milhões para cinco no próximo ano; no próximo ano está previsto um aumento de custos de nove milhões de euros nos gabinetes ministeriais deste Governo; em 2018 cerca de 80 mil portugueses deixaram o país.


 


ARCO DA VELHA - O Governo não executou este ano mais de 755 milhões de euros de investimento público que estavam programados em 2019 e no Orçamento de 2020 está assumido que 590 milhões nunca serão descativados.


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MEMÓRIAS & JOGATINAS - Depois de terem percorrido três décadas da vida lisboeta (LX 60, LX 70 e LX 80), Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes dedicam-se agora a mostrar outro lado de Lisboa em “LxJoga” que tem a particularidade de contar histórias meio esquecidas da cidade, juntando-as com jogos de papel, colocados no livro ao lado de episódios que com ele se relacionam. Aqui poderão ver como nasceram as avenidas novas ou o que significava o Salão Ideal, como era a festa permanente do Bristol Club ou as tentações hollywoodescas do cinema português de meados do século passado. Há capítulos imperdíveis como o dos 16 cromos lisboetas, do Repórter X a Guida Gorda, passando pelo Senhor do Adeus ou Madame Calado. Registam-se figuras que ajudaram a mudar a cidade, como Duarte Pacheco.  Momentos marcantes como o início da Moda Lisboa, a Expo 98 ou a inauguração da Fundação Calouste Gulbenkian aparecem bem relatados e ilustrados. O “LxJoga” combina a história com o ar lúdico dos jogos que se vão espalhando ao longo das páginas, com as respectivas soluções no final da obra, como manda a tradição.


 


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FUTUROLOGIA - Embora nem toda a gente tenha consciência do assunto, na realidade a maioria das pessoas ganharia em ter um almanaque perto de si ao longo de todo o ano. Nem estou a falar do velho Borda d’Água, estou mais a pensar em pequenos livros que se editam nesta altura do ano e que são guias para o futuro próximo. Um bom exemplo de uma destas bem úteis publicações é o “grande Almanaque Português, editado pela Guerra & Paz. Tem um belíssimo grafismo e inclui extensa informação sobre feriados nacionais e municipais, festas e feiras por todo o país, os dias dos santos, romarias e procissões, rezas e benzeduras, astronomia, marés e metereologia além de um rol imenso de curiosidades, como por exemplo várias boas receitas culinárias. Está ordenado por meses e por assuntos. No início do livro os editores sublinham que “um almanaque é um acto de celebração do passado e de confiança no futuro”. Reza a tradição que o primeiro almanaque português nasceu no final do século XV, em 1496, uma obra de Abrão Zacuto intitulada Almanach Perpetuum. Nos tempos presentes este da Guerra & Paz oferece-nos muito boa informação útil para irmos balizando o 2020 que está à espreita.


 


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A MÚSICA DE UMBERTO ECO - “La Misteriosa Musica Della Regina Loana” é uma novela de Umberto Eco que deu o título e serviu de inspiração ao novo trabalho da dupla Gianluigi Trovesi no clarinete e Gianni Coscia no acordeão, um disco agora editado pela ECM e já disponível no Spotify. Umberto Eco era um admirador confesso da dupla e neste trabalho Trovesi e Coscia recuperam uma série de temas que o escritor referiu no seu livro. Aqui estão 19 temas, entre os quais referências cinematográficas como “As Time Goes By” (de Casablanca) ou “Bel Ami” (do filme com o mesmo nome), clássicos como “Moonlight Serenade” de Glenn Miller, “Basin Street Blues” de Louis Armstrong ou temas dos próprios Trovesi e Coscia como “Gragnola”, a sua homenagem à Toscana. O disco abre com “Interludio”, uma composição em que o próprio Umberto Eco e Gianni Coscia colaboraram há anos. Prova de criatividade e capacidade de invenção este disco é uma das belíssimas surpresas da editora ECM neste final de ano.



APERITIVO ITALIANO - Sou um guloso por arancini, essa delícia italiana que tem origem na Sicília, Trata-se de uma bola de arroz que pode ter vários recheios e que no final é passada por farinha e frita. Antes de o ter provado deliciava-me com as descrições da iguaria feitas por Andrea Camilleri nos livros que relatavam as investigações do inspector Montalbano, claramente os policiais que conheço que mais abrem o apetite. Quando os provei percebi o porquê dos elogios de Montalbano ao petisco. Se em Itália, e sobretudo na Sicília, é frequente encontrá-los como aperitivos de fim da tarde em bares, em Portugal não é muito fácil dar com eles. Um bom amigo indicou-me - e posteriormente levou-me - ao L’Ape - Boteco Italiano, onde me deliciei com arancini de vários tamanhos e recheios, todos eles de superior qualidade. O L’Ape é um bar italiano feito para petiscar, conversar, beberricar. Há spritz de Aperol e de Campari, vinhos italianos e, em dias de sorte, os tais arancini. A casa é pequena, tem uma sala junto ao bar e um reservado interior com apenas uma mesa. Combina a função de aperitivo com a de galeria de arte, mostrando obras de artistas jovens. O menu do dia inclui uma bebida e uma tábua de queijos, enchidos e outros petiscos (incluindo por vezes arancini) e custa nove euros por pessoa. Além da tábua há outras possibilidades, bruschettas, saladas, piadine e panini diversos por exemplo, A selecção de vinhos italianos e alguns portugueses é boa embora não seja muito extensa e tem bons preços. Se um dia destes lhe apetecer experimentar um sabor de Itália ao fim da tarde este é o sítio certo para ir. Marco e Sergio lideram as operações, o ambiente é alegre, o serviço muito simpático. Para saberem quando há arancini sigam a página do restaurante no Facebook ou no instagram. Fica na Rua da Senhora da Glória 116A, à Graça.



DIXIT - “Uma política para a cultura deveria ser uma política de públicos e uma política de instituições (bibliotecas, museus, arquivos, patrimónios...) não uma política de clientelas, de autores e de criações, em suma, de subsídios” - Alexandre Pomar


 


BACK TO BASICS - “A maior parte das conversas não passa de monólogos proclamados na presença de testemunhas” - Margaret Millar


 






dezembro 13, 2019

COSTA VESTIU-SE DE PAI NATAL E PÔS CENTENO NO FORNO

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A GRANDE ILUSÃO - António Costa começou esta semana a usar a fantasia de Pai Natal. Colocou as barbas brancas e a fatiota vermelha a meio da discussão do Orçamento de Estado. Prometeu mais dinheiro em alguns sectores, nomeadamente na saúde, e colocou Centeno em lume brando, a fazer o papel de perú natalício no forno. Desde o IVA da electricidade ao financiamento da saúde, passando por aumentos da função pública ou a contratação de mil jovens licenciados para serviços do Estado, apareceu um pouco de tudo nesta semana. Com um Orçamento de Estado que promete um excedente orçamental e com estes aumentos de despesa é certo que o dinheiro há-de vir de algum lado - e nas últimas semanas foram também abundantes as referências a novas taxas. A única certeza que tenho é a de que no fim do dia a carga fiscal, directa ou indirecta, vai aumentar. O Estado, como a situação na saúde demonstra, não sabe poupar, sabe cortar e destruir. E depois, quando já está tudo a arder, despeja dinheiro que vai buscar aos bolsos dos contribuintes. Certamente que se recordam que a poucos dias das eleições António Costa garantia não haver problema algum na saúde. Esta semana revelou os números de parte do problema, um problema criado pela austeridade encapotada que marcou a sua primeira legislatura. Agora vem com estas promessas, que profissionais do sector dizem serem ainda insuficientes. Diminuir o peso do Estado é estabelecer prioridades - em sectores como a saúde, a educação, a justiça e a segurança e fazer reformas que permitam que estas áreas funcionem. Vir nesta altura falar de criar mais Estado numa regionalização encapotada é a prova de que tudo isto é um engano. A António Costa não interessa fazer reformas estruturais, o que ele sabe fazer é criar ilusões.  


 


SEMANADA - As emissões poluentes provenientes de navios nos portos portugueses superam as dos carros nas oito maiores cidades portuguesas; o custo das iluminações de natal em todo o país ultrapassa os sete milhões de euros, mais dois milhões que no ano passado - só em Lisboa são 800 mil euros;  o uso de dados móveis em 'roaming' na União Europeia (UE) decuplicou no primeiro semestre de 2019 face a 2017, ano em que as taxas de utilização dentro do bloco europeu foram abolidas; os preços das comunicações em Portugal são 20% mais elevados do que a média da União Europeia, e os da internet são 31% mais caros; há dois anos, a ADSE demorava, em média, um mês e uma semana a pagar aos beneficiários mas desde então, o prazo aumentou quase dois meses; em Outubro os bancos emprestaram mais de 30 milhões de euros por dia em crédito à habitação; em Albufeira há 7361 alojamentos locais; até Setembro o Estado gastou quase 300 milhões de euros em horas extra nos hospitais do SNS; segundo a Marktest, as redes sociais tiveram um crescimento rápido em Portugal, passando de 17.1% de utilizadores em 2008 para 63.6% em 2019, com a maior parte dos acessos feitos por telemóvel; entre os utilizadores portugueses, o Facebook ainda domina mas perde influência, com o Instagram a posicionar-se como rede em ascensão e muito relevante sobretudo entre os mais jovens; entre Janeiro e Setembro os crimes com facas aumentaram 10,4%; nos últimos dois anos abriram quase 300 supermercados em Portugal.


 


ARCO DA VELHA - Dois meses depois das eleições o partido Livre decidiu fazer um manual de conduta para a sua deputada, com nove regras, para ela se saber comportar politicamente. 


 


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ARTES URBANAS -  Pedro Casqueiro (na imagem) faz parte de uma geração de artistas plásticos portugueses que começou a expôr nos anos 80 do século passado e que desde então vem trabalhando a pintura de forma cada vez mais depurada. Desde a semana passada e até final de janeiro mostra uma dezena de trabalhos inéditos na exposição “Pinturas Rupestres” na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18-B). Outros destaques: até Sábado 14 pode visitar “Nas barbas do Pai Natal” , uma exposição de cerâmica, escultura, pintura e joalharia que mostra linguagens diferentes com pontos comuns, obras de Beatriz Horta Correia, Graça Pereira Coutinho, Laura Ayerza de Castilho e Susana Piteira, na loja Manuel Castilho Antiguidades, Rua D. Pedro V 85. Em mais uma exposição que procura cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas o Atelier-Museu (rua do Vale, 7) exibe a mostra “Antes do Início e Depois do Fim: Júlio Pomar e Hugo Canoilas”, com trabalhos de Hugo Canoilas e curadoria de Sara Antónia Matos.  Na Biblioteca Nacional pode ver “Volta Ao Mundo”, uma exposição sobre a obra gráfica de José de Guimarães uma seleção representativa da sua gravura produzida desde os anos 60 até final de 2018. Finalmente até 11 de Janeiro, “O Narcisismo das Pequenas Diferenças”, da fotógrafa Pauliana Valente Pimentel, põe jovens de várias classes sociais da ilha de São Miguel nas paredes do Arquivo Municipal de Lisboa.


 


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O PRINCÍPE - Em 1992 Prince lançou “1999” um álbum que muitos consideram o momento de viragem na sua carreira, o trabalho que lhe trouxe êxito e reconhecimento, assim como acesso a novos públicos. Foi o quinto álbum da sua carreira e o primeiro com a sua banda The Revolution. Faixas como a que dá o título, “1999”, ou “Delirious” ou “Little Red Corvette” foram marcantes. O disco, feito numa época particularmente agitada da sua carreira, coexistiu com o trabalho que fez com as Vanity 6 e Time, conseguindo manter um elevado padrão de qualidade. Agora a Warner lançou uma caixa com cinco discos que além dos temas originais, inclui lados B de singles, demos de estúdio,  inéditos e a gravação de um concerto dessa época. As canções originais foram remasterizadas e o conjunto de cinco discos tem ao todo 65 temas. O primeiro CD tem os 11 temas originais, o segundo inclui 18 demos, versões alternativas e edits para maxi singles. Nos dois discos seguintes há lados B de singles e inéditos - com destaque para uma balada tocado ao piano, “How Come You Don’t Call Me Anymore”, o vibrante “Horny Toad” que apareceu ao longo dos anos sob várias formas ou ainda “Moonbeam Levels”, que tinha sido revelado no álbum póstumo “4ever”. O quinto disco reproduz a gravação de um concerto realizado em Detroit em 30 de Novembro de 1992, com a energia que era habitual Prince colocar em palco. A caixa inclui ainda um DVD filmado um mês mais tarde em Houston. Trata-se claramente de uma edição para fãs e coleccionadores, que merece ser ouvida com atenção para, por exemplo, se descobrirem raridades como “Money Don’t Grow On Trees” ou “Rearrange” . Os cinco CD’s audio estão disponíveis no Spotify.


 


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PREVISÕES - Desde há uns anos a revista Monocle edita nesta altura uma publicação extra a que dá o nome de “Forecast” e que se dedica a fazer previsões e sugestões para o ano que se segue. É, normalmente uma edição particularmente rica em ideias e conteúdos e a que agora saíu não foge a essa regra. Um dos temas mais interessantes é um ranking das melhores pequenas cidades para se viver. Lusanne na Suiça ocupa o primeiro lugar, seguida por Boulder nos Estados Unidos e Bergen na Noruega. O Porto aparece em nono lugar. Em cada caso é feita uma análise da razão de recomendação de cada uma das urbes. Outro ponto de interesse é um trabalho sobre a nova capital que a Indonésia quer fazer, praticamente do zero, para substituir Jakarta como sede do Governo. Outro artigo interessante relata o aumento do consumo do cartão devido às embalagens utilizadas para a expedição das compras online e as iniciativas que a indústria do sector está a desenvolver para minorar os efeitos ambientais. Se já pensou como é a vida de um agente de escritores ou artistas esta edição do “Forecast” dá-lhe uma ideia do que fazem alguns dos mais conhecidos. No campo das artes  fiquei a saber que a Hungria está a captar cada vez mais filmagens de produções de cinema e televisão graças a uma film commission que funciona bem, suportada por incentivos fiscais que em 2019 atraíram para o país 360 milhões de euros para o sector audiovisual. Ora se cá o Ministério das Finanças entendesse o que os húngaros entendem a vida podia ser bem diferente para esta área em Portugal - não nos falta a luz, nem cenários naturais, nem técnicos. Só nos falta mesmo vontade política para fazer uma oferta financeira atraente.


 


EM DEFESA DO PANADO - O escalope panado, quando é bem feito, é um petisco. Falo de um escalope de vitela, cortado fino, a carne temperada com limão, sal e pimenta, depois envolvida em ovo batido, um pouco de farinha e pão ralado para uma rápida fritura. O ideal é que fique dourado e não com a cor escura que o óleo muito usado dá. Um bom panado tanto pode ser comido acabado de fazer, como servido frio com uma salada ou, então, no meio de um bom pão de mistura barrado com mostarda de qualidade, aconchegado por  uma folha de alface para refrescar. É mais frequente encontrar filetes de porco que de vitela, mas se o corte da bifana fôr muito fino e o tempero tiver sido bem feito são igualmente bons. Esta é uma boa base para uma refeição ligeira e o frito dos panados liga bem com legumes ou uma salada só de tomate cortado em pequenos pedaços, que é o acompanhamento que prefiro. Não é preciso nenhum caldeirão para a fritura, basta uma frigideira com óleo novo de boa qualidade e em pequena quantidade - não necessita de cobrir o filete. Dois minutos de cada lado devem chegar e depois é deixar secar para tirar o excesso de óleo. No fim basta temperar já no prato com uma generosa quantidade de limão espremido.


 


DIXIT - “Há comandantes que não têm quem comandar” - Helena Carreiras, Directora do Instituto de Defesa Nacional


 


BACK TO BASICS - “Quando falamos só repetimos o que já sabemos, mas se ouvirmos pode ser que aprendamos algo de novo - Dalai Lama