julho 19, 2019

UM MANUAL DE MEDIDAS CONTRA OS LISBOETAS

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A CÂMARA DA IMOBILIDADE - O actual executivo autárquico de Lisboa gaba-se de ter implementado políticas de mobilidade que favorecem os residentes da cidade. Ao longo do mandato de António Costa, e depois de Fernando Medina, tenho colocado as maiores reservas a estas afirmações - que têm apenas em consideração políticas parcelares e não um retrato geral da comodidade dos residentes lisboetas. Não vou entrar nas polémicas sobre bicicletas, trotinetas e outras soluções apregoadas como milagrosas e que em muitos casos aprofundam a insegurança - a começar pela dos peões. Nem menciono a insuficiência dos transportes públicos na cidade. Na minha opinião o vereador da mobilidade, Miguel Gaspar, é na realidade vereador da imobilidade. A Câmara Municipal de Lisboa toma medidas contraditórias a que ele dá cobertura - de um lado deseja menos carros na cidade e dificulta a circulação automóvel nalgumas vias (como sucedeu na Avenida da República e nos seus cruzamentos) e por outro toma medidas que visam transformar algumas artérias em vias rápidas. O caso mais recente é o do anúncio por Miguel Gaspar, na sequência das alterações previstas para a Praça de Espanha, de obras na Rua de Campolide que visam apenas criar uma entrada mais fácil daquele lado da cidade, contribuindo para uma circulação ainda mais difícil na Avenida Miguel Torga e na circulação naquela zona eminentemente residencial, em desrespeito total pelos seus moradores. Há poucos anos foram ali implementadas soluções de trânsito, sobretudo no cimo da Miguel Torga e no cruzamento da Marquês da Fronteira, que tornaram a circulação local um inferno para quem lá vive. A medida agora anunciada, conjugada com as malfeitorias anteriores, vai piorar tudo ainda mais. O que ali se está a passar e a preparar é o espelho da política de um executivo camarário mais interessado em obras de fachada e decorativas do que em tornar mais confortável a cidade para quem a vive no dia-a-dia e aqui paga as suas contribuições e impostos. Lisboa está cada vez mais a tornar-se numa cidade feita para quem não a habita e a situação tem culpados claros: Fernando Medina, Manuel Salgado e Miguel Gaspar estão à cabeça da lista de responsáveis pela destruição de uma cidade vivida. Preferiram fazer uma cidade visitada, preferiram favorecer a especulação imobiliária, preferiram penalizar os lisboetas, essa espécie em vias de extinção.


 


SEMANADA - Nos primeiros seis meses do ano a Polícia Judiciária fez seis operações contra a corrupção que visaram 14 autarcas; os bancos emprestaram 900 milhões de euros a grandes clientes sem quaisquer garantias; cerca de 80% das perdas associadas aos maiores devedores da CGD tiveram origem em créditos produzidos em mandatos de Carlos Santos Ferreira como Presidente do Conselho de Administração do banco, equipa de gestão que incluía Maldonado Gonelha a Armando Vara - indica o relatório preliminar da Comissão Parlamentar que investigou a instituição; o número de movimentos de aviões entre a meia noite e as seis chega a duplicar o máximo legalmente permitido; está prevista a abertura de 65 novos hotéis este ano em todo o país - dos quais 22 em Lisboa e 15 no Porto; já existem mais veículos de plataformas electrónicas do que táxis em Lisboa, Porto e Faro; o mais recente relatório da Autoridade para as Condições do Trabalho às empresas detectou aumento de 60% nos salários em atraso; o número de atingidos por doenças sexualmente transmissíveis aumentou 33% em 2018  e verificou-se também um aumento significativo entre pessoas com mais de 65 anos; a taxa de emprego dos cidadãos estrangeiros em território nacional ultrapassa os 73%, está a subir desde a crise e ultrapassa a média europeia; o sistema de ensino teve 40 reformas em 30 anos, das quais 18 desde o início deste século; há 700 mil portugueses sem médico de medicina geral e familiar. 


 


ARCO DA VELHA - A nova Lei das Beatas prevê que restaurantes e similares se possam candidatar a receber apoios financeiros se colocarem cinzeiros junto à entrada…


 


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JOALHARIA, ARQUITECTURA E FOTOGRAFIA  - O destaque desta semana vai para a exposição de joalharia contemporânea portuguesa que abriu na Gulbenkian e que é o prato forte da iniciativa “Convidados de Verão” da Fundação. Cristina Filipe, curadora da exposição, procurou estabelecer relações entre joias contemporâneas e obras do Museu Gulbenkian. A mostra segue a linha cronológica da exposição permanente da Coleção Moderna, apresentando joias realizadas entre 1958 e 2018 por artistas representados na Coleção como Jorge Vieira, José Aurélio, Maria José Oliveira, Vítor Pomar ou Pedro Cabrita Reis. São também criadas ligações entre peças da Coleção Moderna e obras de joalharia e estão presentes artistas como Alberto Gordillo, Kukas, Tereza Seabra ou Alexandra de Serpa Pimentel, entre outros, que iniciaram uma mudança na joalharia em Portugal desde a década de 1960, paralela à que se verificou nas artes plásticas e que demarcou a joalharia do campo das artes decorativas e aplicadas. No MAAT. desde a semana passada e até 2 de Setembro, pode ser vista a exposição “Form And Light”, que através da fotografia de Yigal Gawze, documenta a arquitectura Bauhaus erigida em Tel Aviv entre 1930 e 1940 e que foi uma espécie de laboratório onde os arquitetos, formados em vários países europeus, discutiam e criavam nas margens do Mediterrâneo um “modernismo modificado”. A fotografia dessa arquitectura, feita por Yigal Gawze evoca  a fotografia de vanguarda dos anos 30. Finalmente, e para continuar na fotografia, a Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) apresenta a exposição Ater, com trabalhos de Cláudio Garrudo, Augusto Brázio, Daniela Krtsch, João Dias, Jordi Burch, Maria Capelo, Rui Horta Pereira e Rui Soares Costa.


 


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GUITAR ROCK - O guitarrista Jack White é uma das mais fascinantes personagens do rock contemporâneo. O seu percurso inclui os White Stripes, uma longa carreira a solo, colaborações com nomes como Neil Young e projectos paralelos como The Dead Weather e  The Raconteurs, uma banda de existência incerta nascida em 2006 e que há 11 anos não editava nenhum disco. O silêncio foi agora quebrado com “Help Us Stranger”, gravado em Nashville mas marcado por Detroit, a cidade onde Jack White e Brendan Benson, os dois mentores do grupo, cresceram e começaram a tocar em bandas de garagem. Jack e Brendan são acompanhados nos Raconteurs por Jack Lawrence no baixo e Patrick Keeler na bateria. Este quarteto atirou-se a este disco como se se preparasse para uma batalha e o resultado é uma espécie de manifesto a dizer que o rock está vivo e se recomenda: quando White e Benson cantam “I’m here right now/I’m not dead yet” está dado o mote. O álbum tem baladas envolventes e duras como “Somedays (I don’t feel like trying)”, temas impactantes como a faixa de entrada “Bored And Razed” onde a guitarra de White estabelece a ordem num diálogo com a voz e a bateria, em contraste com a tranquilidade de Benson em “Only Child”, as harmonias de um quase pop “Sunday Driver” , a evocação dos blues em “Now That You’re Gone”, a energia contagiante de “Don’t Bother Me”, o dramatismo da ruptura cantada em “Now That You’re Gone” ou a inesperada versão de um tema de Donovan, “Hey Gip”. Entre a prova de vida do rock e um exercício de nostalgia este “Help Us Stranger” mostra a versatilidade de White e Benson


 


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JOGOS ANALÓGICOS - Se procura um livro para levar na bagagem de férias considere  “Os Jogos Da Minha Infância”. Trata-se um manual abreviado de jogos tradicionais que dispensam electricidade, computador ou telemóvel e que podem ser jogados em qualquer lado, uns dentro de casa, outros na rua. Desde o clássico pião, à apanhada e cabra cega, passando pelo macaquinho chinês, a barra do lenço, o elástico, a carica, berlindes ou o jogo do mata, o livro percorre mais de cinquenta jogos, cada um com um descritivo e instruções sintéticas. Nos casos em que se requer uma tabela de pontuação há modelos e as ilustrações proporcionam a visualização dos principais movimentos possíveis em cada jogo. O livro resulta de uma recolha da equipa editorial da editora Guerra e Paz em  torno de jogos tradicionais - pedrinhas e arte na esquadria para a macaca; destreza motriz e agilidade para o jogo do elástico; saltos dignos de um campeão olímpico no Mamã, dá licença?; cultura geral para o intemporal stop, pontaria e mestria para o berlinde, também apelidado de «guelas». Para além de jogos para jogar ao ar livre, o livro, “Os Jogos da Minha Infância” inclui também jogos para fazer em casa, da sueca ao jogo do galo ou à batalha naval. 


 


IDEIAS ORIENTAIS - De repente nos supermercados surgiram legumes a que não estamos habituados e com origens diversas - do Oriente vêm as couves pak choy e as berinjelas roxas chinesas, longas e finas; e do norte da Europa vêm os pepinos holandeses. Todos são diferentes, no paladar e na textura, de outros legumes das mesmas famílias, mas mais comuns em Portugal. O pepino holandês, por exemplo, é mais suave, menos acre que o pepino vulgar. A berinjela roxa é menos azeda e pela sua dimensão e textura, mais fácil de saltear. A couve pak choy fica bem cozida ao vapor ou levemente salteada - cozinha rápido. Estes três legumes não chegam cá vindos das suas paragens originais - curiosamente vêm todos do sul de Espanha, uma zona que parece ter-se especializado no cultivo destas espécies. Os seus sabores são mais suaves, as possibilidades de preparação que se vão descobrindo graças a pesquisas na internet abrem imensas possibilidades. O pepino, cortado em fatias muito finas, fica bem temperado com vinagre de arroz, lima, um pouco de saké, sal e sementes de sésamo - o resultado pode ser usado como aperitivo ou numa salada muito fresca. A couve pak choy funciona bem salteada e polvilhada com sementes de sésamo. Dá um belo acompanhamento. E as berinjelas roxas, salteadas e temperadas com molho de soja, ficam bem misturadas com peixe desfiado e camarões. 


 


DIXIT - “Uma visão positiva é aquilo que nos faz continuar, apesar das contrariedades que surgem ao longo da vida; a única desvantagem é que essa visão positiva dificulta-nos que vejamos as coisas más” - Andrea Camilleri


 


BACK TO BASICS - “A razão tem sempre um ar horrível quando não joga a nosso favor” - Halifax




julho 12, 2019

O ESTADO DA NAÇÃO TORNOU-SE NUMA CAMPANHA ELEITORAL

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E COSTA RI PORQUÊ? Como se viu há dias no Parlamento começou a época das promessas e da deturpação da realidade. Um António Costa sorridente veio garantir que nesta legislatura correu tudo bem, que vivemos quatro anos de grande felicidade e progresso - tudo, claro, graças à geringonça. O êxito foi tal que António Costa e os seus ministros vão correr o país numa digressão intitulada “Cumprimos!”. Mas, terão cumprido o quê? A generalidade dos serviços públicos essenciais degradou-se. O investimento público congelou, os transportes não dão resposta à procura, reformas estruturais não se fizeram, os contratos a termo aumentaram, o trabalho pouco qualificado cresceu. A austeridade agora chama-se cativações. As greves na saúde, na educação e nos transportes voltaram - e estrearam-se na justiça. Os casos de promiscuidade na colocação no aparelho de Estado de familiares de responsáveis governamentais aumentou para além de tudo o que se conhecia. O desrespeito pelos cidadãos atingiu níveis inéditos: um governante culpou as pessoas por fazerem fila para serem atendidos por serviços públicos. Quem trabalha para o Estado foi favorecido em relação a quem trabalha no sector privado. A carga fiscal aumentou para o maior valor de sempre e a Autoridade Tributária continuou a destratar os contribuintes e a exorbitar os seus poderes. A corrupção na classe política tornou-se endémica. Os incêndios de 2017 e o roubo de armamento em Tancos são episódios tristes, inacreditavelmente ainda sem responsabilidade apurada. No Parlamento, no debate sobre o Estado da Nação, o Primeiro Ministro teceu loas à sua governação e aos seus aliados na geringonça, prometeu repetir acordos e teve uma frase memorável - “para a geringonça sobreviver tudo foi suportável”. 


 


SEMANADA - Os portugueses gastam 16 milhões de euros por dia nos jogos da Santa Casa e jogos online; as raspadinhas representam mais de metade do volume de apostas dos Jogos da Santa Casa - 8,5 milhões de euros por dia; por falta de vagas no serviço de psiquiatria do Hospital Universitário de Coimbra há doentes com indicação de internamento compulsivo que ficam além do tempo limite no serviço de urgências; nesta legislatura o Governo não deu resposta a 2049 perguntas de deputados; uma empresa especializada em desinfestações diz que os tratamentos para eliminar percevejos aumentaram 475% em quatro anos e atribui o crescimento da sua actividade ao número de turistas; 1,3 milhões de pessoas têm salários até mil euros e destas cerca de 680 mil ganham entre 600 e 750 euros mensais; Portugal está entre os dez países da União Europeia que perderam habitantes em 2018 e tem a quarta taxa de natalidade mais baixa da região; em 2018, apenas 29 dos 308 concelhos portugueses registaram um maior número de nascimentos do que de óbitos; segundo a Marktest, entre Março e Maio deste ano 51.6% dos portugueses leu ou folheou a última edição de um título de imprensa, num total de 4 419 mil indivíduos; um relatório da WWF revela que em Portugal ardem, em média todos os anos, quase 140 mil hectares, em mais de 2200 incêndios, o dobro do número de fogos dos outros países do Mediterrâneo, assim como a maior área ardida.


 


ARCO DA VELHA - Hugo Pires, deputado do PS e coordenador do Grupo de Trabalho de Habitação, Reabilitação Urbana e Política de Cidades no Parlamento, é sócio de uma imobiliária que está a promover o despejo de uma livraria/galeria em Braga num imóvel que a sua empresa quer mudar para alojamento local.


 


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ROTEIRO - Até 17 de Novembro a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais exibe “Looking In/ Olhar Para Dentro”, uma exposição que reúne 60 anos de produção de obra gráfica de Paula Rego, exibindo cerca de duas centenas de peças, entre desenhos preparatórios para a execução das gravuras, chapas de cobre e trabalhos mais recentes e menos conhecidos (na imagem).  A curadoria é de Catarina Alfaro,  e a exposição inclui doações da artista, que decidiu completar a coleção da sua obra gráfica pertencente à Câmara Municipal de Cascais, à Fundação D. Luís I e à Casa das Histórias Paula Rego.  Em Lisboa, no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva está patente até 27 de Outubro a exposição “Brincar Diante de Deus, Arte e Liturgia”, com obras de Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro, feitas para locais de culto religioso. Ainda em Lisboa, na Rua Castilho 5 e até 6 de Setembro, no Espaço M, pode ser vista a exposição “Construir o Nada Perfeito – Tributo a Cruzeiro Seixas”, uma iniciativa do Colectivo Multimédia Perve, em parceria com a Associação Mutualista Montepio e que está inserida no ciclo de celebração dos 70 anos sobre a 1ª exposição do anti-grupo surrealista português “Os Surrealistas”, fundado por Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, recordando a exposição que, em 1949, teve lugar na sala de projeções da Pathé Baby, junto à Sé de Lisboa. Em Coimbra, organizadas pelo Centro de Artes Visuais no Pátio da Inquisição, duas novas exposições de fotografia, de Tomás Maia e de Carlos Vidal; em Ponta Delgada, nos Açores, na Galeria Fonseca Macedo, Olivier Nottellet expõe Emotional Rescue. 


 


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MACHINE MUSIC - A voz e guitarra dos Radiohead, Thom Yorke, tem um novo álbum a solo, “Anima” - praticamente 50 minutos de nove canções baseadas num pano de fundo de sons electrónicos, onde questões ambientais estão na primeira linha - e com o próprio Yorke a proclamar “I Can’t breathe”, um síntese das suas várias ansiedades pessoais e sociais. A saída do disco é acompanhada da distribuição, pela Netflix, de um mini-documentário com 15 minutos de duração, assegurado por um fiel fã dos Radiohead, Paul Thomas Anderson, que inclui três das canções do álbum e onde surge a actriz italiana Dajana Roncione. O filme apresenta três canções unidas como se fossem uma só - “Not the News,” “Traffic,” and “Dawn Chorus”. Musicalmente “Anima” vai no mesmo sentido da banda sonora que Yorke fez para “Suspiria”, de Luca Guadagnino. Tal como aconteceu nos seus dois anteriores projectos a solo, o álbum está baseado num lote de canções marcantes, como por exemplo “I Am A Very Rude Person”, onde a linha de baixo contrasta com a voz de Yorke num registo vocal quase místico, num contraste com “Runawayaway”, uma enérgica despedida com guitarras, que praticamente estavam ausentes desde o início deste “Anima”, essencialmente construído em torno de sintetizadores. E embora na maior parte das canções as situações concretas estejam distantes, em “The Axe”  Yorke canta “Goddamned machinery, why don’t you speak to me?/One day I am gonna take an axe to you”, um alerta que aqueles que consideram que a evolução tecnológica está a ir na direcção errada poderão subscrever.


 


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UM POLICIAL GELADO - Cada vez gosto mais de livros policiais, e confesso que nos últimos anos desenvolvi especial apreço por autores nórdicos. Christoffer Petersen é o pseudónimo de um escritor dinamarquês que decidiu em 2006 ir viver para a Gronelândia e ali se dedicou, durante sete anos, a estudar a tradição e a cultura da região, que considera uma das mais fascinantes em termos mundiais. A Gronelândia é uma região autónoma da Dinamarca, ocupa a maior ilha do mundo e tem uma população de cerca de 60 mil pessoas que vivem num clima ártico e são maioritariamente descendentes de esquimós. Foi na Gronelândia que Christoffer Petersen começou a escrever policiais, como o fascinante “Um Inverno, Sete Sepulturas”, lançado em 2018 e que a Quetzal agora editou. A história é assim resumida: “ Na remota comunidade ártica de Inussuk, no final de cada verão, são cavadas sete sepulturas antes que o solo congele. À medida que o inverno se aproxima, a questão que se coloca é se serão em número suficiente”. Este livro introduz a figura de David Maratse, um polícia prematuramente reformado que um dia, durante a pesca, encontra a filha desaparecida da primeira-ministra. Maratse torna-se o principal suspeito e para provar a sua inocência assume-se como o investigador do homicídio mais célebre da Gronelândia. Para além da trama policial o livro cativa pelas descrições da Gronelândia, da sua cultura e tradições - de tal forma que se fica com vontade de descobrir esta região.


 


AS COMIDAS DA MONOCLE - Ao longo do ano a revista “Monocle” vai fazendo edições especiais sobre vários temas - o futuro, destinos de viagens e, agora, um guia de locais onde se pode comer e beber bem - o “food and hospitality annual”. Nesta nova edição Portugal surge algumas vezes. “A Matter Of Taste” fala sobre os locais do Algarve que, na opinião da correspondente da revista em Portugal, Trish Lorenz, merecem ser conhecidos. E quais são os destaques? O restaurante A Venda, na parte antiga de Faro, o olival de Monterosa, as ostras de Moinho dos Ilhéus, o restaurante Noélia de Cabanas de Tavira (que já conheceu melhores dias, diga-se…), o hotel rural Companhia das Culturas em Castro Marim, o café DaRosa em Silves pela sua doçaria, e as vinhas do Morgado do Quintão. Logo a seguir aparece um artigo dedicado a petiscos portugueses, com receitas de pastéis de bacalhau, peixinhos da horta, favas com chouriço, salada de polvo, bolo do caco com manteiga de alho e bolas de berlim com creme (portuguese doughnuts, chamam-lhe…). Esta edição traz ainda a lista dos 50 restaurantes de todo o mundo que a Monocle recomenda - a primeira referência a Portugal surge na posição 42 com o “Rancho Português”, do Rio de Janeiro. Em 40º lugar surge o Kampo, do Funchal e a terminar, em 31º está o lisboeta Gambrinus. Há ainda um roteiro por diversas cidades e em Lisboa as recomendações vão para o pequeno almoço da La Boulangerie, o almoço da Sea Me Peixaria Moderna, o café da tarde para o Hello Kristof,o jantar para o Café Lisboa e o copo de fim de noite para o Park Bar.


 


DIXIT - “Nos dois anos seguintes, o Governo substituíu os Ministros que defendeu, os altos funcionários que protegeu e os encarregados da Protecção Civil que nomeou (...) Não analisou as falhas do Governo, nem as da administração pública. Parece não haver lições a retirar. Nem erros a evitar.” - António Barreto, sobre os incêndios de 2017.


 


BACK TO BASICS - “Não debato política, pois os eleitos fazem o que querem depois da posse” - João Gilberto


 


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julho 05, 2019

MAIS DE UM SÉCULO E O ESSENCIAL NÃO MUDOU

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DOIS PARTIDOS SEM IDEIAS -  Há mais de 120 anos um dos grandes escritores portugueses do século XIX traçava um retrato do país que tem estranhas semelhanças em relação ao que se passa hoje. É certo que somos menos resignados, mas continuamos macambúzios, burros de carga de impostos, feixes de misérias na cativada degradação dos serviços públicos. Passava o ano de 1896, Guerra Junqueiro escrevia em “A Pátria” e analisava a paisagem partidária. Se pensarmos que podemos considerar os dois partidos que o escritor referia os actuais PS e o PSD o retrato ainda fica mais certeiro. É impressionante como o texto, nas suas linhas gerais, mantém actualidade.  Ora leiam: “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (...) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.  Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.“ 


 


SEMANADA - Das 375 empresas afectadas pelos incêndios de 2017 na região centro, cerca de uma centena ainda não receberam qualquer valor dos apoios prometidos pelo Estado; foram constituídos 44 arguidos na investigação à atribuição de subsídios para a reconstrução ou reabilitação das casas afetadas pelo incêndio de Pedrógão Grande; a dívida pública portuguesa atingiu em Maio o valor mais alto de sempre, 252,5 mil milhões de euros, mais 200 milhões que em Abril; devido à falta de operadores as chamadas para o INEM chegam a demorar oito minutos a serem atendidas, quando a recomendação é de sete segundos; desde 2000 os partos em hospitais privados passaram de 5,7% para quase 15% do total; há 20 concelhos sem centros de saúde, mas só 12 não têm lojas da grande distribuição; o número de cirurgias em atraso duplicou nos últimos quatro anos; quatro das maternidades que estão em risco fazem um quinto das urgências do país; num inquérito realizado na região de Lisboa 35% das pessoas declararam não pertencer a uma religião e 13,1% afirmaram ser crentes mas sem religião; em 2018 a carga fiscal foi de 35,4% do PIB, a mais elevada desde 1995; a falta de guardas deixa a A1 sem patrulhas da GNR; em seis meses morreram 224 pessoas na estrada, um aumento em relação a igual período do ano passado; Marcelo Rebelo de Sousa foi aos bastidores do concerto de Rod Stewart para fazer uma selfie com o músico; Pedro Silva Pereira, braço direito de Sócrates, foi eleito vice-presidente do Parlamento Europeu numa candidatura que contou com o apoio de António Costa.


 


CONFUSÕES DO ESTADO - O novo Inspector-Geral da Defesa Nacional é membro da Comissão Política do PS. A Defesa Nacional é auditada por um dirigente partidário...


 


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ROTEIRO DE ARTES  - No Museu Nacional de Arte Antiga a “Obra Convidada” em exposição actualmente é o conjunto dos quatro desenhos preparatórios para o São Jerónimo de Durer, pertencentes à Galeria Albertina, de Viena. Ali  se confrontam com a obra final, aqui reproduzida, e que faz parte da colecção do MNAA. São Jerónimo é um pequeno painel a óleo pintado por Albrecht Dürer em 1521, durante a sua viagem à Flandres e Países Baixos , e então oferecido ao secretário da feitoria portuguesa, Rui Fernandes de Almada, com quem manteve relações de amizade. Pela primeira vez, mostram-se entre nós estes quatro desenhos preparatórios, notáveis na técnica utilizada por Durer para o estudo da figura humana. Esta exposição está na sala 50 do piso 1 do Museu até 11 de Agosto. Outras sugestões: na Nanogaleria! (Rua do Centro Cultural 11), Ana Vidigal apresenta Quebra Gesso;  no Espaço Cultural Mercês está a  a exposição coletiva "estoutro" ,  a propósito do Dia Mundial do Refugiado com obras de 12 artistas, entre os quais Bárbara Bulhão, Beatriz Coelho, Joana Galego, Nádia Duvall e Tiago Mourão; na Giefarte está Red As Scarlet, White As Snow de Manuel Caldeira; na fotografia, e até 19 de Julho, na MUTE (Rua Cecílio de Sousa 20), Rudolfo Gil e Rafael Raposo Pires apresentam “Outubro” e “Espaço/ Marca”, um conjunto de imagens com o título genérico de “Grau de Semelhança” que abordam a maneira de ver espaços; para terminar o destaque da semana vai para os novos trabalhos de Daniel Blaufuks. Não há cópias sem originais e vice-versa - no tempo das imagens digitais, o que é a cópia e o que é o original e qual o papel e lugar de cada um deles? - é daqui que parte a nova exposição de Daniel Blaufuks, “Cópia Original”, na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º, até 14 de Setembro.


 


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O NOVO POP - De certa forma o jazz vocal é o novo pop da geração Y, ou millenials, como lhes quiserem chamar - aqueles que nasceram nos anos 80 e 90. Jamie Cullum, pianista e cantor britânico faz parte da nova geração de jazz vocal que vale a pena ouvir. O seu novo álbum, o primeiro em cinco anos, “Taller”, é um bom exemplo do cruzamento com pop e blues, com passagens pelo funk - através de uma série de dez canções, ecléticas do ponto de vista musical, todas compostas pelo próprio Collum e que são uma espécie de carta de amor dirigida à sua mulher, a modelo e escritora Sophie Dahl - com destaque para aquilo que na pop se chamariam dois hinos:  “For The Love” e “Endings And Beginnings”. No disco, com arranjos orquestrais e vocais por vezes surpreendentes, participam um quarteto de cordas, a London Symphony Orchestra, um côro e o grupo de músicos que normalmente colabora com Jamie Cullum, com destaque para Troy Miller, que aliás é co-produtor e fez os arranjos e misturas.


 


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MANUAL SNOB - W. M. Thackeray nasceu em 1811, em Calcutá, e estudou em Cambridge. Fez carreira no jornalismo, antes de se tornar o reconhecido autor de “As Aventuras de Barry Lyndon”, transposto para o cinema por Stanley Kubrick e de “A Feira das Vaidades”. “O Livro dos Snobs”, agora publicado entre nós, é uma das suas obras marcantes e tem origem numa coluna que escreveu para a revista britânica Punch entre 1846 e 1847, na coluna «The Snobs of England, by one of themselves». Quase dois séculos depois, a crítica social, política e comportamental de Thackeray continua com uma actualidade impressionante, que pode encontrar paralelos evidentes com o que se passa nos meandros dos poderes. Este é um livro de humor devastador onde ninguém é poupado, dos mais poderosos monarcas às anfitriãs de banquetes, dos clérigos emproados aos turistas britânicos. Partindo da Inglaterra vitoriana, nem Portugal escapa, muito snobemente representado, de passagem, pela caricatura de Fernando II, marido de D. Maria II, nas suas peripécias de caça. Thackeray faz um retrato pormenorizado de cada tipo de snob, traçando-lhes o jeito e o estilo com uma fina ironia. Segundo as palavras de W. M. Thackeray, um snob pode estar em qualquer parte. E depois de ler este livro começamos a ver o que se passa à nossa volta com um novo olhar...


 


A CASSATA CREMOSA - Se não fossem as amígdalas e os gelados, que na convalescença da sua extracção constituíram a minha alimentação, provavelmente não tinha desenvolvido um gosto especial  pela cassata italiana. Nem sempre é fácil encontrar em Lisboa uma boa cassata, quer à fatia, quer cremosa. Devo aliás dizer que a descoberta da cassata cremosa se deve a uma nova casa de gelados italiana que abriu em Lisboa, no Princípe Real. Trata-se da Casa Nivà- Gelateria Tradizionale, que tem lojas em Turim (de onde é originária), em Cannes e, agora também em Lisboa, na Rua da Escola Politécnica 41. Os gelados Nivà são uma história de família, que começou em 1988, na região de Turim, utilizando apenas produtos naturais e técnicas artesanais. Os gelados são feitos diariamente e podem ser consumidos na loja em cone ou copo ou vendidos em embalagens para serem levadas para casa. A Nivà usa apenas produtos locais e de época e o método de elaboração respeita a tradição italiana. Na circunstância, além da descoberta da cassata cremosa, ela foi combinada com um gelado de pistácio, numa bela harmonia de sabores. O melhor é passarem na loja e fazerem umas experiências - provar a textura cremosa da Nivà é uma experiência que vale a pena ter.


 


DIXIT - “Preciso muitas vezes de legendas para entender Rui Rio” - Sonia Sapage


 


BACK TO BASICS - “A fúria do inferno não é nada comparada com a de um burocrata desprezado” - Milton Friedman.


 




junho 28, 2019

D. MEDINA I, O DESPOVOADOR

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OS ASSASSINOS DA CIDADE  - Nos últimos dias vários amigos que vivem em zonas históricas de Lisboa disseram que estão a ponderar sair das casas onde sonharam viver porque já não aguentam o barulho e a feira permanentemente instalada por todo o lado. Percorre-se a cidade e ela está desfigurada - basta olhar para o que permitiram fazer no Jardim de São Pedro de Alcântara, invadido por barracas horríveis e um barulho constante. Ali deixou de haver miradouro, um dos melhores locais para se apreciar as sete colinas está reduzido a uma feira foleira. Um pouco mais à frente o Princípe Real é o retrato do caos. No ar sente-se tensão, à noite o barulho continua, quem ali mora deseja fugir e os alojamentos locais multiplicam-se a uma velocidade desconcertante. Não vejo isto em nenhuma outra capital e cidades há, como Berlim, onde acabou de ser decretado o congelamento do preço das casas durante cinco anos para tentar travar a especulação imobiliária. Dez cidades (Amesterdão, Barcelona, Berlim, Bordéus, Bruxelas, Cracóvia, Munique, Paris, Valência e Viena) pediram a intervenção da União Europeia para impedir o crescimento explosivo do Airbnb, que está a pôr os habitantes locais para fora de suas casas. Contraste: em Lisboa o executivo municipal parece apostado em fomentar uma política de expulsão dos habitantes da cidade. Como afirmava Ana Margarida Carvalho num texto sobre a situação em Lisboa, a propósito do ruído e da confusão permanentes: “Se calhar, a ideia é mesmo essa: tornar de tal maneira insuportável a vida em bairros residenciais, até que estes deixem de ser residenciáveis.”. A edição mais recente da revista “Monocle” coloca Lisboa na décima posição entre as melhores 25 cidades, mas sublinha: “O fluxo de entrada de pessoas coloca questões sobre o turismo descontrolado, nomeadamente o aumento das rendas de casa, situação particularmente dramática num país que tem o menor salário mínimo da Europa Ocidental”. A Câmara Municipal, sugere a revista, “deveria agir rapidamente para evitar que os habitantes locais, que são quem dá vida à cidade tenham que sair para longe”.  


 


SEMANADA - Segundo um organismo do Conselho Europeu Portugal ignorou a maioria das recomendações para aplicação de medidas anticorrupção relativamente a parlamentares, juízes e procuradores; o Ministro das Finanças disse que as cativações não afectam o Serviço Nacional de Saúde; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou-se preocupado com o calendário de “contenção de despesas”; o hospital da Guarda está em ruptura com falta de médicos e equipamentos; a Urgência do  Hospital de Santa Maria tem escalas incompletas para 17 dias de Agosto; nas maternidades portuguesas faltam 150 obstetras; a maternidade Alfredo da Costa só tem anestesistas para cinco dias em Agosto; um estudo desenvolvido pela Fundação da Aliança de Democracias indica que Portugal é o terceiro país do mundo onde menos se acredita no governo; a compra de casas a pronto e em dinheiro está a aumentar; os partidos políticos têm um património imobiliário superior a 50 milhões de euros, a maioria isenta de IMI; apesar de proibidos os copos descartáveis continuaram a ser usados nas festas de Lisboa; m 2018 registaram-se 6536 visitas para sexo nas prisões portuguesas; o número de funcionários públicos aumentou 26 mil desde 2016; há quatro mil projectos urbanísticos pendentes na Câmara Municipal de Lisboa, com um atraso considerável e há casos em que as decisões são tomadas de forma mais rápida sabe-se lá porquê.


 


ARCO DA VELHA - Em Guimarães um conjunto de salas de ensaio equipadas, que custaram cerca de 800 mil euros e se destinavam a apoiar o trabalho de músicos locais, foram demolidas três anos depois de terem sido inauguradas devido a falhas estruturais no edifício.


 


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CONTAR HISTÓRIAS EM IMAGENS - Como Carolina Trigueiros escreve no texto  sobre a exposição “Sal Nos Olhos”, que abriu sábado passado na Galeria Diferença, Ana Vidigal “é uma contadora de histórias” que nas suas obras estabelece conexões de pessoas, lugares e momentos. Da mesma forma as obras de Ana Vidigal são histórias, que recorrem à utilização de recortes de imagens e texto, com recurso à colagem e também à pintura,  num processo de cruzamento de informação com um enquadramento plástico que faz cada obra transcender o significado inicial das referências que utilizou. São obras de intervenção, mas acima de tudo de observação do mundo à sua volta, sempre com um sentido de humor acutilante. Frequentemente mostram um olhar entre o crítico e o desapontado, mas na maior parte das vezes são uma narrativa crua que se desenvolve como um manifesto das suas ideias. Também na Diferença, em simultâneo com a exposição de Ana Vidigal, Hugo Brazão, um artista madeirense que trabalha em Londres, faz uma incursão entre a ficção e a realidade. Partiu de uma descoberta científica na Ponta de São Lourenço, na Madeira, para especular sobre os efeitos do erro humano no ambiente. “O’Mouse an’Man” de Hugo Brazão e “Sal Nos Olhos” de Ana Vidigal estão na Diferença até 27 de Julho - Rua de São Filipe Neri 42.


 


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ROTEIRO - Hoje destaco uma peça teatral - Sábado e Domingo são os últimos dias para poder assistir a “Gertrude Stein e Acompanhante”, uma peça de Win Wells que desenvolve em cena um diálogo improvável entre a escritora e poetisa americana Gertrude Stein  e a sua companheira de 36 anos de vida, Alice B. Toklas, levando-a a falar sobre os seus assuntos preferidos: ela própria, a literatura, a pintura, as artes.  O espaço cénico e os figurinos são de António Lagarto e em palco estão Cucha Carvalheiro, Lucinda Loureiro e Nuno Vieira de Almeida. Na sala Mário Viegas do Teatro de S. Luiz. Voltando às exposições destaco “A Chuva Cai Ao Contrário”, uma mostra marcante de João Jacinto na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36, até 20 de Julho). Trata-se de um impressionante conjunto de obras de grandes dimensões, numa montagem excepcional num corredor artificial criado no salão nobre da instituição. As 24 obras apresentadas foram aliás propositadamente feitas para este espaço, numa exposição patrocinada pela Fundação Carmona e Costa e com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria. 


 


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CALIFORNIA SOUNDS - Mesmo quando julgamos que Springsteen não nos podia surpreender, eis que, quase aos 70 anos, ele dá de novo sinais de vida. Depois da sua experiência de estar um ano, noite após noite num pequeno teatro da Broadway, o seu novo disco, “Western Stars” salta para os grandes horizontes americanos e entra musicalmente pela música country e por evocações da sonoridade pop dos anos 60 e 70 de uma forma que ele não havia ainda feito. Este é, digamos, um disco californiano - em vez de operários nas fábricas surge a história de um actor secundário cuja fama vem de ter levado um tiro de John Wayne num western. Os arranjos musicais fazem também lembrar a época, há momentos em que se sente quase a presença do som de Phil Spector e nos coros há um trabalho vocal que não se encontra habitualmente nos discos de Springsteen - que se posiciona ele próprio como um actor que está a querer desempenhar um papel diferente do habitual. “There Goes My Miracle” mostra-nos Springsteen a cantar de forma pouco usual e “Hello Sunshine”, quase no fim do disco, é um exemplo perfeito de todo este “Western Stars”, tal como, aliás “The Wayfarer” ou “Drive Fast (The Stuntman)”.


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DE ONDE VEM A VIAGEM?  - Michel Onfray é um filósofo francês que escreve sobre temas que incluem a gastronomia, a história, a pintura e a geografia, entre outros. Assume-se como um hedonista, numa pose quase libertária e tem cerca de meia centena de títulos publicados. Em tempos “Teoria da Viagem” já havia sido editado em Portugal, mas foi agora recuperado na bela colecção “Terra Incógnita”, que sob a direcção de Francisco José Viegas está a oferecer edições muito interessantes. Publicado em França em 2007, e como refere o editor no preâmbulo, este “Teoria da Viagem” cruza “a literatura propriamente dita com uma aproximação irregular e melancólica à geografia, a poesia com a prosa. O livro fala do desejo de partir, sobre o que nos leva a querer viajar - “Sonhar com um destino é obedecer a um imperativo que, no nosso íntimo, fala uma língua estrangeira.». E que poderemos encontrar nesta obra? - perguntas como qual é a origem do desejo de viajar? Por que razão nos sentimos mais nómadas ou mais sedentários? Porque somos impelidos para o movimento constante, a deslocação, ou amamos o imobilismo e as raízes?  O objectivo da colecção "Terra Incógnita"  é reunir "títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento". 


 


PROVA ALBICASTRENSE - Volta e meia o acaso leva-nos a um restaurante desconhecido e que nos deixa boas recordações. Numa recente viagem pela Beira Baixa descobri O Palitão, que fica numa urbanização relativamente recente de Castelo Branco e que pratica a gastronomia da região. Em primeiro lugar destaco a simpatia e eficácia do serviço, em segundo lugar o cuidado em pormenores como um pão de boa qualidade, embrulhado em pano como deve ser. Do ritual deste restaurante faz parte um cortejo de entradas que inclui ovos mexidos com farinheira, espargos selvagens, saladas frias de polvo e orelha e grão com bacalhau, além de uma salada de tomate saborosa como poucas. Nos pratos principais provaram-se os filetes de polvo e o laminado de carnes que são propostos com uma variedade de acompanhamentos, incluindo arroz com feijão e migas. O prato do dia era ensopado de borrego, elogiado noutras mesas. A garrafeira é variada, os preços são sensatos e a doçaria inclui bolo rançoso e sericaia. As operações são dirigidas por Frederico Vinagre, que ali se estabeleceu há 14 anos. O Palitão fica na Avenida de Espanha Lote 7, o telefone é o 272 323 608. A casa enche cedo, vale a pena marcar.


 


DIXIT - A corrupção é uma "epidemia que grassa pela sociedade" e isso em parte deve-se também a um sistema partidário que escolheu a via do "encastelamento", onde "o mérito foi substituído pela fidelidade partidária" e no qual "a administração pública foi colonizada" pelos partidos  - Ramalho Eanes.


 


BACK TO BASICS - “O principal sinal de que a corrupção está bem viva numa sociedade é a ideia de que os fins justificam os meios” - Georges Bernanos









junho 21, 2019

O ESTILO MEDINA: COMPLICAR A VIDA DO PRÓXIMO, ATÈ NO PAGAMENTO DE JUROS

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ABUSO CAMARÁRIO - Por estes dias muitos munícipes lisboetas receberam uma carta da Câmara Municipal de Lisboa, assinada pelo seu Vice-Presidente, que paga juros sobre a Taxa Municipal de Protecção Civil criada pelo PS na autarquia e que mais tarde foi considerada ilícita. O Município primeiro devolveu os valores indevidamente cobrados e agora enviou os juros indemnizatórios. Cada carta, recebida através dos CTT, incluía um vale postal com o valor calculado para cada munícipe. O meu tem o valor de 5,06 euros. Por acaso gostava de saber qual foi o encargo global da devolução da taxa indevidamente cobrada e dos juros indemnizatórios através deste processo - algum dos autarcas em exercício devia ser responsabilizado pelo abuso na cobrança e pelos custos que provocou. Imagino que para me devolverem os cinco euros tenham gasto quase tanto no envio do correio e emissão do vale postal. Já aquando do  reembolso do valor indevidamente cobrado fiquei a pensar porque é que não tinha sido transferido para a conta bancária de onde foi feito o pagamento - e agora tenho exactamente a mesma dúvida. Mas suspeito que o clã de Fernando Medina aposte na possibilidade de muitos destinatários do vale postal não terem paciência para as intermináveis filas dos CTT ou dos balcões dos bancos e que deixem passar o prazo de um mês em que o vale postal permanece válido. Os expedientes contra os cidadãos são intermináveis na autarquia lisboeta. Quem fez disparate foi a Câmara, quem tem que ir perder tempo são os cidadãos. É o mundo simplex.


 


SEMANADA - O antigo director de grandes empresas da CGD revelou que Joe Berardo enviou uma carta a Santos Ferreira pedindo um financiamento de 350 milhões para a compra de acções do BCP; Victor Constâncio recebeu Berardo no Banco de Portugal um mês antes da reunião da instituição onde a acta sobre a operação em torno do BCP foi aprovada e na qual esteve presente o Governador; uma fonte próxima de Berardo disse que “o comendador está incrédulo com a falta de memória de Vítor Constâncio acerca de uma reunião a sós, em julho” de 2007;  Faria de Oliveira, ex-Presidente da CGD, defendeu que o Banco de Portugal poderia “ter ido mais longe” nos alertas sobre Joe Berardo; o empresário Joe Berardo admitiu poder vir a chamar Constâncio como testemunha no processo que a banca lhe moveu para recuperar 962 milhões de euros em dívida; Duarte Caldeira, o líder do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil, afirmou que “o Governo não fez a devida avaliação do que ocorreu” nos incêndios de 2017; em três meses registaram-se quase quatro mil casos de agressões a idosos; um homem residente em Valpaços foi apanhado 17 vezes a conduzir sem carta e o tribunal de Guimarães aplicou-lhe pena suspensa; os funcionários públicos têm hoje em média 47 anos, mais 3,4 do que em 2011; apenas 61% dos obstetras do país trabalham no Serviço Nacional de Saúde e os blocos de parto dão sinais de ruptura; Portugal tem 159 idosos por cada 100 crianças.


 


ARCO DA VELHA - Os CTT são a marca com maior número de reclamações registadas no Portal da Queixa e desde o início do ano, até ao dia 17 de junho, registaram-se 2.743 queixas referentes aos CTT e CTT Expresso.


 


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ARQUIVOS DE IMAGEM - Martin Scorsese diz que a música é uma parte importante da sua actividade criativa e costuma citar o filme “Jazz In A Summer’s Day”, que mostra os bastidores e os palcos do Festival de Newport ao longo de um dia em 1959, como o exemplo de filme sobre o mundo da música que o fascina (este documentário, de Bert Stern e Aram Avakian está disponível no YouTube). Scorsese estreou-se a filmar música com o seu registo “The Last Waltz”, sobre o derradeiro concerto do grupo The Band em 1976 - e foi aí a sua aproximação a Bob Dylan, de quem tinha visto dois ou três concertos até então. Em 2005 Scorsese realizou um documentário sobre Dylan que fez história: “No Direction Home”. E agora foi Bob Dylan que o desafiou para pegar em material inédito filmado em 1975, durante a digressão Rolling Thunder Review, para mostrar o que então se tinha passado. Essa digressão foi pensada pelo próprio Dylan como uma espécie de circo itinerante que iria ser apresentada em pequenas salas na costa leste dos Estados Unidos e no Canadá. Dylan juntou à sua volta uma troupe interessante - músicos como os guitarristas Roger McGuinn (figura central dos Byrds), Mick Ronson, T Bone Burnett,  Ramblin´Jack Elliott, o violinista Scarlet Rivera, Joan Baez e Joni Mitchell, mas também o poeta o poeta Allen Ginsberg e o actor e escritor Sam Shepard (que escreveu um diário da digressão durante essas semanas). O próprio Dylan contratou uma equipa de filmagens para seguir e documentar toda a digressão que foi também registada em fotografia por Ken Regan (como a imagem que aqui é reproduzida). O trabalho de Scorsese foi alinhar todo o material de arquivo, construir uma narrativa com as imagens obtidas, confrontar entrevistas da época com entrevistas feitas agora (incluindo a primeira nova entrevista do próprio Dylan em anos) e transformar imagens dispersas de uma digressão atípica numa história - The Bob Dylan Story, subtítulo do imperdível documentário distribuído pela Netflix.


 


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ARQUIVOS SONOROS - Ao mesmo tempo que a Netflix lançava o documentário de Scorsese sobre a Rolling Thunder Review, Bob Dylan trabalhou na edição de uma caixa de 14 CD’s que recupera ensaios, actuações e gravações diversas feitas em espectáculo, em estúdio, ou sessões improvisadas em casa de outros músicos. Algumas destas gravações já tinham aparecido nas “Basement Tapes”, mas muito do material é inédito. Bob Dylan registava de forma sistemática as gravações dos seus trabalhos, do seu processo criativo, até de encontros casuais e fugazes - sendo que um dos momentos mais surpreendentes é o registo de uma sessão em casa de Gordon Lightfoot, no Canadá, onde também aparecem Patti Smith e Joni Mitchell, Este é o registo de sete semanas alucinantes - desde que os ensaios começaram até ao concerto de Montreal, no Outono de 1975. Um dos momentos chave de todos estes registos é a sucessão de versões de interpretação de “Isis”, uma canção de desamores, feita em parceria com Jacques Levy - que foi o responsável pela concepção cenográfica de toda a digressão. O tema apareceu no álbum “Desire”, e o que está nestes registos são os primeiros passos dessa canção, deste uma versão apenas ao piano até várias outras gravações ao vivo e em ensaios até ao concerto de Montreal. Outros momentos de registo são as versões de Hurricane, a canção que Dylan fez em prol da libertação de Ruben Carter. No Spotify podem encontrar uma versão condensada da caixa de 14 CD’s, um sampler que inclui dez temas da “Rolling Thunder Review, The 1975 Live Recordings”.


 


Romanceiro Cigano seguido de Pranto por Ignacio S


A POESIA DO TOUREIRO - Frederico Garcia Lorca é um dos nomes mais importantes da literatura espanhola. Nascido no final do século XIX, morreu cedo, em 1936, uma das primeiras vítimas da Guerra Civil de Espanha. Distinguiu-se nas peças de teatro que escreveu (como Bodas de Sangue ou La Casa de Bernarda Alba) e numa vasta obra poética. Dois dos seus poemas mais significativos, Romancero Gitano (1928), e Llanto por Ignacio Sánchez Mejías (1935) foram agora reunidos num único volume, com uma edição bilingue que junta ao original de Lorca a tradução de Vasco Graça Moura. “Romanceiro Cigano” tem um sabor mais popular e o “Pranto por Ignácio Sánchez Mejías”,  é uma composição mais elaborada em memória do célebre toureiro, que morreu colhido por um touro na praça de Manzanares El Real, em 13 de Agosto de 1934. Hoje em dia seria politicamente incorrecto enaltecer um toureiro, como Lorca fez mas quero acreditar que mesmo nestes tempos Lorca não se calaria perante os bons costumes. Ignacio Sánchez Mejías, que escreveu ele próprio duas peças de teatro, foi mecenas da chamada geração de 27, pólo de uma vanguarda cultural na Espanha da primeira metade do século XX. Na introdução que deixou escrita a estas traduções, Vasco Graça Moura sublinha que “o Llanto por Ignacio Sanchez Mejías é talvez a mais fascinante evocação do luto de toda a literatura do século XX”.


 


VISITAR - Em tempos a ideia de ir passar uns dias numas termas não me atraía. Percebi agora que não tinha razão. Estive uma semana no Hotel Fonte Santa, nas Termas de Monfortinho e fiquei rendido - ao hotel, à sua equipa, ao equipamento termal propriamente dito e sobretudo à região. Em tempos estes equipamentos - e o Clube de Tiro Desportivo de Monfortinho - estavam ligados ao banco Espírito Santo. Com o colapso do BES uns foram vendidos outros permanecem no Novo Banco, como o referido Hotel e outros encerraram, como o Astoria. Ambos são exemplares importantes da arquitectura de uma época. O Fonte Santa debate-se com falta de pessoal mas a equipa existente desdobra-se para prestar bom serviço. O Hotel fica colado ao balneário das termas e tem uma piscina com uma implantação perfeita e o terraço do bar proporciona uns belos fins de tarde. Do Balneário das Termas, que não experimentei, só me dizem maravilhas - preferi passar o tempo a ler no silêncio envolvente da região. O Clube de Tiro Desportivo foi entretanto vendido e recuperado. O seu restaurante tem um novo concessionário e os pratos fortes são o polvo grelhado, o arroz de lebre e o bacalhau (este último muito procurado por espanhóis - a fronteira é a dois passos). Mas o Clube de Tiro oferece também um complexo de piscinas aberto ao público e um conjunto de quatro modernos e confortáveis bungalows construídos já pelos novos proprietários, integralmente forrados a xisto, perfeitamente enquadrados na paisagem,  projectados por Tomás Ramos da ARC Arquitectura, e que podem ser alugados. Se quiser dar um salto a Espanha a escassa distância fica Coria, com uma interessante zona histórica onde há um restaurante simpático, El Bobo de Coria. Se andar mais uns quilómetros pode experimentar o Pátio, em Cáceres, detentor de estrelas Michelin.


 


DIXIT - “Nunca me tinha passado pela cabeça sair para o BCP “ - Armando Vara.


 


BACK TO BASICS - “Quando alguém estúpido relata o que uma pessoa inteligente disse o resultado nunca é rigoroso porque o relator inconscientemente traduz o que ouviu para algo que ele próprio possa compreender” - Bertrand Russell.









junho 14, 2019

VER O QUE É, OU VER O QUE SE QUER?

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O JOGO DAS SOMBRAS - Em geral prefiro o realismo ao optimismo. O optimismo provoca miopia, encarar a realidade torna tudo mais límpido. As cerimónias do 10 de Junho deste ano foram sobre as diferenças de encarar o país, com o Presidente da República a defender o optimismo,  o Primeiro Ministro a evitar o tema e o Comissário das Comemorações a traçar um retrato realista das coisas que deve ter deixado muitas individualidades agitadas e incómodas na tribuna de honra. É certo que Portugal é mais que fragilidades e erros, como disse Marcelo Rebelo de Sousa; mas é igualmente certo que temos tendência a protelar a resolução das fragilidades e a empurrar os erros para debaixo do tapete. É este eterno adiar que tem de mudar. O Estado precisa de uma varridela profunda e ela deve começar no desenho de um novo sistema eleitoral que permita que novas formações partidárias surjam e tenham representação parlamentar, para que os cidadãos se sintam mais perto dos eleitos e que os eleitos, a todos os níveis, das juntas de freguesias aos mais altos cargos, sejam exemplos de ética e de responsabilidade - o que implica responsabilizar os partidos pelas escolhas que fazem. A prioridade não pode ser criar novos eleitos na regionalização que alguns pretendem, não pode ser manter o jogo da mentira que tem dominado a política, sobretudo nestes anos mais próximos. A prioridade deve ser criar um sistema mais justo e mais escrutinável,  com uma justiça mais rápida nos casos de corrupção política. O tempo é o de proporcionar um sistema eleitoral que traga para a causa pública gente que se interesse pela política sem ser para traficar interesses, de legislação que penalize quem engana e rouba os cidadãos escondido atrás do manto do poder, seja local ou nacional, de partidos que não se limitem a fazer promessas que nunca cumprem. Como disse João Miguel Tavares em Portalegre,“nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa (além de pagar imposto)”.


 


SEMANADA - Armando Vara pediu escusa de ser ouvido de novo na Comissão de Inquérito à CGD mas o pedido foi recusado; dos 15 presidentes de câmara que foram constituídos arguidos nos últimos dois anos, 11 são do PS; o PSD apresentou um projeto de lei que propõe até 3 anos de prisão para quem matar cães ou gatos, mas não apresentou qualquer nova proposta sobre penalizações em casos de corrupção envolvendo políticos; Francisco Assis, do PS, afirmou que “Victor Constâncio é um homem sério e singularmente qualificado no plano económico, que ao longo da sua vida prestou relevantíssimos serviços ao país”; documentos do Banco de Portugal confirmam que a Administração da instituição, presidida por Victor Constâncio, sabia que Joe Berardo não tinha capacidade financeira para ser accionista qualificado do BCP; a CGD anunciou que vai avançar com a penhora dos salários que Joe Berardo receba por ser administrador de diversas empresas; 19,6% dos trabalhadores portugueses recebem o salário mínimo; o Conselho Superior das Finanças Públicas queixou-se de pelo terceiro ano consecutivo não ter acesso a dados financeiros do Sistema de Segurança Social e o Ministro da tutela, Vieira da Silva diz desconhecer a razão de tal facto; investigadores acompanharam durante dois anos a evolução da habitação numa área de 3,6 hectares à volta de uma rua de Alfama e concluíram que, de 150 apartamentos comprados, apenas um foi destinado à habitação própria; Lisboa é a cidade com maior rácio de casas para alugar a turistas no Airbnb face às principais capitais europeias, com um valor superior a 30 habitações por mil habitantes nesta plataforma.


 


EFEITO MEDINA -  Segundo um estudo internacional Lisboa é, pela terceira vez consecutiva, a cidade mais congestionada da Península Ibérica, acima de Madrid ou Barcelona e os condutores da capital passam em média 42 minutos por dia no trânsito, o que, no final de um ano, representa perto de 160 horas de tempo gasto em deslocações.


 


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ARTE VIRTUAL - Leonel Moura tem trabalhado nos últimos anos na aplicação de tecnologia à criação no domínio das artes plásticas. O percurso percorrido já recorreu a robots e agora propõe uma aplicação baseada em realidade aumentada, disponível gratuitamente na Apple Store e na Google Play, sob o nome Lisboa Viral. Através da aplicação Lisboa Viral o utilizador pode visualizar as 17 esculturas virtuais que se encontram espalhadas pela Grande Lisboa, desde vários pontos da capital até Cascais, Sintra, Ericeira, Sesimbra ou Mafra. Percorrendo os locais com a aplicação, em vez de um jogo onde se descobrem Pokémons, encontram-se as esculturas virtuais que são criadas por um programa generativo,  com recurso a realidade aumentada. Esses locais são Torre de Belém, Palácio de Belém, Praça do Comércio, Praça de Camões, Chiado, Rossio, Cais do Sodré (na imagem), Bairro Alto, Alfama, Estação do Oriente, Boca do Inferno, Cascais, Praia dos Pescadores, Cascais, Palácio de Sintra, Cabo da Roca, Sintra, Praia dos Pescadores, Ericeira, Cabo Espichel, Sesimbra e Palácio de Mafra. As obras podem ser visualizadas e também fazerem-se fotos ou vídeos que podem ser partilhados.  Estas esculturas existem também fisicamente em pequeno formato, tendo sido realizadas em impressão 3D e algumas já foram vendidas a colecionadores em Portugal e França com o preço médio de 3.000 euros. Leonel Moura está actualmente a preparar uma exposição a realizar em Pequim no próximo ano.


 


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UM SOM NOVO - Fred Pinto Ferreira já foi baterista dos Orelha Negra, Buraka Som Sistema, Os Dias de Raiva, Yellow W Van, Oiaiai, Laia e recentemente, da Banda do Mar, com os brasileiros Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. É também um produtor multifacetado de numerosos discos dos mais variados artistas, entre os quais, por exemplo Mafalda Veiga e Luís Represas e já actuou como baterista da fadista Raquel Tavares. Agora Fred decidiu lançar-se a solo com o disco "O Amor Encontra-te no Fim", composto por 15 faixas. Fred encara este projecto como uma terapia musical para se reencontrar consigo próprio e, ao contrário da maioria dos mais recentes trabalhos discográficos portugueses, frequentemente monótonos e desinteressantes, há aqui a procura de alguma coisa nova e não um mero copiar de tendências. Confesso que este é dos discos portugueses deste ano que mais gostei de descobrir e tornou-se numa escuta frequente no Spotify. O nome do disco, com uma base de bateria acústica que é envolvida por electrónica, essencialmente instrumental,  é uma homenagem a uma canção de Daniel Johnston, “True Love Will Find You In The End”, evocado em “Para Nunca Mais Cair”, a derradeira faixa do álbum. Amaura, Francis Dale, Marcelo Camelo e Carlão são os convidados de Fred em “O Amor Encontra-te no Fim”.


 


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A GESTÃO DAS EMPRESAS FAMILIARES - Em Portugal, as empresas familiares contribuem para 65 % do PIB e são responsáveis por 50 % do emprego. Luís Parreirão, administrador da MGP SGPS, SA, accionista maioritária da Mota-Engil, analisou os desafios complexos de gestão que se colocam nesse contexto e reuniu as conclusões no livro “Empresas Familiares: Da Governance à Responsabilidade Social”. Como é a governança destas empresas familiares? Baseada na razão ou na emoção? Privilegiam mérito ou preferências individuais? Como são encarados os donos - como sócios ou familiares? E como são tomadas as decisões das maiores empresas familiares em Portugal, que representam 25 % das entidades cotadas na bolsa? Para Luís Parreirão as respostas não são óbvias e muito menos «nestes tempos de incerteza(s)», que impõem às empresas familiares «um mais forte, e mais flexível, planeamento estratégico, quer para si próprias, quer para a(s) família(s) accionista(s)». O autor foca temas como o aumento da espera pela sucessão dos herdeiros do accionista maioritário, resultante do aumento da esperança média de vida : «Será que as novas gerações estarão disponíveis para esperar até mais tarde? Quantos estarão disponíveis para conviver com a “síndrome do Príncipe Carlos”?»  Finalmente o autor aborda também, com recurso a dados europeus, o protocolo familiar e a nova realidade dos family offices, permitindo ter uma visão actualizada e prática sobre este universo.


 


A BELA MASSA - Várias pessoas já tinham elogiado o restaurante italiano que abriu recentemente na Praça da Armada, perto de Alcântara. Na semana passada pude finalmente lá ir com um grupo de amigos, por acaso de várias nacionalidades. O restaurante, que abriu no início deste ano, chama-se Ruvida e é gerido por um casal italiano que se estabeleceu em Lisboa - Valentina Franchi e Michel Fant. Tem uma sala com poucas mesas e cozinha aberta, um grande balcão onde Valentina ao fim da noite prepara a massa fresca para o dia seguinte (um espectáculo digno de se ver) e uma esplanada simpática. A decoração é simples e de bom gosto, infelizmente os arquitectos continuam a não ter cuidado com a acústica das salas de restaurantes - será que os arquitectos apreciam a cacofonia? Acústica à parte a cozinha do restaurante só merece elogios e a qualidade das massas é acima da média. O menu de almoço custa 16 euros e inclui entrada, prato principal, sobremesa, bebida e café - e pode ter a sorte de ser dia de tagliatelle com tomates e alcaparras, uma especialidade. Nas entradas destaco a mousse de mortadela, o tártaro de vitella alla piemonte e as sardinhas fritas marinadas num molho de cebola cozinhada em vinagre, com pedaços de pinhão - uma especialidade veneziana. Na lista das pasta destaco os tortelloni burro
 e oro, a massa bem no ponto, boa para tomar o gosto do molho de tomate e manteiga, muito suave, que vai às mil maravilhas com o recheio de ricota, parmesão e noz moscada. A lista de vinhos podia ser melhor sem ser maior, mas em compensação o spritz mereceu elogios de um especialista francês que estava na mesa. O serviço na sala pode melhorar um pouco. O Ruvina fica na Praça da Armada 17 e está aberto para almoços e jantares de quarta a sexta e aos sábados e domingos non stop das 12 às 23. Reservas pelo  213 950 977.


 


DIXIT - “A verdadeira modernidade da Administração, com que tantas autoridades e tantos políticos gostam de rechear os seus discursos, não é a da tecnologia, é a da humanidade e a da igualdade” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Há  tipos tão batoteiros que usam cartas marcadas quando jogam solitário” - personagem de um policial de Desmond Bagley.





 






 


 

junho 07, 2019

A POLÍTICA INTERESSEIRA

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INTERESSES EM VEZ DE IDEAIS  - O caso de Joaquim Couto, o autarca de Santo Tirso que meteu cunhas a outros quatro autarcas recomendando os serviços de consultoria de comunicação de empresas da mulher, é apenas o mais recente de uma longa lista dos pecadilhos abundantes na paisagem política e partidária portuguesa - em todas as áreas ideológicas, como se tem visto. Uma sondagem recente mostra que mais de metade dos portugueses não têm confiança nos líderes políticos e nos deputados e que quase metade dos inquiridos está pouco satisfeita com a democracia. Querem cenário mais preocupante que este? A culpa não é dos eleitores mas de um sistema calculista que deliberadamente procura menosprezar a participação, manter o status quo, e dificultar o aparecimento de novas alternativas. Houve um tempo em que na política entravam homens com ideais e causas; hoje, na maior parte dos casos, está na política gentinha que se move apenas por interesses e vantagens pessoais. O resultado está à vista: todos procuram uma causa para a crise e ela não é segredo nenhum: a corrupção, o abuso de poder, o compadrio. Há quem diga que esta conversa fomenta o populismo, mas a minha sincera opinião é que a causa do populismo está no sistema que permite tudo isto e não se corrige. O problema está nisto: varrer os interesseiros da política significa destruir grande parte dos aparelhos dos principais partidos. E ninguém quer ir por esse caminho, muito menos em ano de eleições.


 


SEMANADA - Poucas semanas depois de o Governo ter anunciado que queria melhorar o serviço de comboios a Infraestruturas de Portugal decidiu extinguir as equipas especializadas em segurança e manutenção ferroviária; à semelhança de outros serviços de transporte público, depois do anúncio da descida dos preços dos passes sociais, o Metro de Lisboa mandou retirar bancos para caberem mais passageiros, em piores condições de conforto e segurança; a empresa acusada de roubar mantimentos para as messes da Força Aérea e de pagar luvas a militares foi convidada e contratada de novo para fornecer bebidas e aperitivos naquele ramo das Forças Armadas; o concelho de Montalegre tem uma área superior à ilha da Madeira mas é habitado apenas por nove mil pessoas; 21,3% da população portuguesa tem mais de 65 anos, valor apenas superado na Europa pela Itália;  Celorico da Beira é o último município do Rating Municipal Português divulgado pela Ordem dos Economistas e todos os 20 piores municípios do ranking divulgado são de pequena dimensão e estão no interior; em ano e meio foram apreendidos 2990 telemóveis nas cadeias portuguesas; um quinto das salas dos hospitais e centros de saúde não têm ar condicionado.


 


O MURO - No funeral de Agustina foi notória a ausência dos habituais nomes da intelectualidade que se afirma de esquerda, aqueles que não perdem uma oportunidade para prestar vassalagem nas campanhas eleitorais e para coçarem as costas uns aos outros, mas que são incapazes de atravessar o muro da ideologia para reconhecer o génio - que na verdade sempre os incomodou. Como podia aquela mulher escrever tão bem, não sendo da esquerda deles?


 


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REVIVER - Em 2014 a editora Guerra & Paz lançou “ O Livro de Agustina”, uma autobiografia da escritora, com 120 páginas e dezenas de fotografias dos álbuns de família e de recordações avulsas. Podem encontrá-lo na Feira do Livro e nas livrarias. Neste livro revivemos a vida de Agustina Bessa-Luís, contada por ela com enorme humor, escrita na primeira pessoa, e que começa, assim, evocando os avós, para explicar as suas próprias origens: “O avô Teixeira, com todo o ar dostoiewskiano, casou em Março de 1987 com Justina, filha de José Bento de Bessa, do Lugar do Barral. Ele tinha 41 anos quando casou e ela 28, idade que, para uma noiva, era já um pouco avançada, nesse tempo. Explica-se assim porque Justina ficara enamorada desde os sete anos por José, com 20 anos, quando ele a ajudou a passar um ribeiro em dia de invernia e lhe disse que casaria com ela, um dia”.  E, já quase no final do livro, Agustina conclui: “ Esta é a minha história que a memória abreviou, quando não é que a modéstia a repreende. Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas a que faltou a experiência”. São poucos os escritores que conseguem contar assim a sua própria vida.


 


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A VISÃO DO FOTÓGRAFO - A certa altura, em 1951, Fernando Lemos estava em Paris com José Augusto França (um amigo com quem se correspondeu toda a vida) e queria expôr fotografia na capital francesa. Essa  exposição nunca se concretizou mas Lemos e França conviveram na altura com Vieira da Silva e Arpad Szenes, em casa de quem conheceram Man Ray, que expunha na cidade por essa altura e cujo trabalho influenciou Lemos. Esta história vem na introdução que Filomena Serra escreveu ao quarto volume da série Ph., uma colecção criada na Imprensa Nacional para publicar o trabalho de fotógrafos portugueses contemporâneos, dirigida por Cláudio Garrudo. A primeira fotografia deste livro é exactamente do jovem José Augusto França, fotografado na Galeria das Quimeras, na Notre Dame. Filomena Serra destaca que “uma das propriedades que Lemos atribui à fotografia é a fusão: fusão de luz e sombra, fusão de formas, de linhas e contornos, que deambulam e desmaterializam os corpos, podendo até surgir o informe”. A primeira fotografia de Fernando Lemos foi feita em 1949, a partir da janela do seu quarto, na Rua do Sol ao Rato, com uma máquina rudimentar e está reproduzida nesse livro. Como Filomena Serra sublinha Fernando Lemos descobre com a fotografia que ”afinal numa fracção de segundo tudo muda”. E começa a fotografar amigos, as pessoas com quem se dava, uma geração de pintores, poetas, escritores, artistas. Neste livro, que inclui numerosas imagens inéditas, estão retratos que Fernando Lemos fez de nomes como Agostinho da Silva, José Viana, Arpad e Vieira da Silva, Mário Cesariny, José Cardoso Pires, António Pedro, Fernando Azevedo e Vespeira, Mécia e Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, José Blanc de Portugal ou Sophia de Mello Breyner, todos fotografados entre 1949 e 1952, a época em que mais trabalhou o meio, num testemunho de cumplicidades e na descoberta de técnicas de exploração de luz ou de sobreposição de imagens.


 


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AS MUITAS DIMENSÕES DE FERNANDO LEMOS - Esta é a semana do regresso de Fernando Lemos a Portugal e uma oportunidade única para quem não o conhece descobrir a sua obra multifacetada e pouco conhecida pelos mais novos. Lemos, nascido em 1926, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e ao longo da sua vida dedicou-se à pintura, à fotografia e ao design gráfico e industrial, para só citar as áreas onde a sua presença é mais marcante. Em 1953, desiludido e em ruptura com o clima político que se vivia em Portugal, foi para o Brasil, onde reside desde então. Para além do livro de fotografia acima referido, editado pela Imprensa Nacional, a partir desta semana pode ser descoberta a sua obra multifacetada e que permanece actual. Comecemos pela exposição dos seus trabalhos em azulejo, que está na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C) até 6 de Setembro, e onde esta fotografia de Fernando Lemos, tendo por fundo um dos seus painéis, foi feita. A exposição da Ratton chama-se “Máscaras do Tempo” e inclui um conjunto de padrões de azulejo mostrados em painéis e um conjunto de 11 desenhos reproduzidos em chapa de alumínio. Na Galeria 111 (Campo Grande 113) está até 14 de Setembro a exposição “Mais a Mais ou Menos” que mostra a diversidade dos suportes que utilizou e inclui fotografias, desenhos a carvão, desenhos em técnica mista sobre papel, cartões postais, aguarelas e acrílico sobre cartão e papel - uma introdução indispensável à obra de Fernando Lemos. Finalmente, por iniciativa do MUDE, no Torreão Poente da Cordoaria Nacional e até 6 de Outubro está “Fernando Lemos Designer”, a é a primeira exposição especialmente dedicada a Fernando Lemos enquanto designer e artista gráfico. Das suas mãos nasceram logótipos, livros (e uma editora de literatura infantil – editora Giroflé), muitas ilustrações, cartazes, azulejos, murais, tapeçarias, estampas para tecidos, pavilhões expositivos. Esta exposição, que está a ser preparada pela equipa do Mude desde 2017 reúne 230 obras, a maior parte delas desconhecidas em Portugal, está documentada num bom catálogo editado pelo MUDE e a Imprensa Nacional e tem ainda a particularidade de permitir perceber o processo criativo do autor e de mostrar, pela primeira vez, trabalhos inéditos que nunca saíram do papel.


 


ROTEIRO - O Fotobox é o único programa sobre fotografia que existe na televisão portuguesa - passa aos Domingos à tarde na RTP3. Neste próximo domingo Luiz Carvalho revista a reportagem que fez em 1992 sobre o último dia de trabalho da fábrica vidreira Stephens na Marinha Grande, voltando a falar, agora, com operários que fotografou nesse dia.  Na edição da semana passada o Fotobox chamou a atenção para a exposição “Fotografia Impressa e Propaganda Visual em Portugal (1934-1974)” , que está até 30 de Agosto na Galeria do Auditório da Biblioteca Nacional (Campo Grande, Lisboa) e revisita a História do Estado Novo português através da fotografia impressa e da propaganda visual, comissariada por Filomena Serra e Paula André. A terminar deixo a sugestão de um disco, “O Amor Encontra-te No Fim”, a estreia a solo de Fred Pinto Ferreira, depois de trabalhar em projectos como os Buraka Som sistema, os Orelha Negra ou a Banda do Mar. Ouçam no Spotify que vale a pena. Petisco guloseima:  um gelado artesanal italiano daLuc Duc, ao cimo da Rua de Campolide, esquina com a Marquês da Fronteira.


 


DIXIT - “Com 16% em Lisboa e 22% no Porto o PSD é agora um partido rural, que vai bem a Rui Rio, um homenzinho autoritário e colérico, que chegou ontem de 1970 e não se distingue pela inteligência política” - Vasco Pulido Valente.


 


BACK TO BASICS - “O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo” - Agustina Bessa-Luís


 

maio 31, 2019

A MINORIA RUIDOSA PRECISOU DE POUCO PARA TOMAR CONTA DAS ELEIÇÕES

 


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O PODER DA MINORIA - A coisa mais engraçada que saíu das eleições europeias do passado fim de semana foi a reviravolta da arrumação partidária, com o Bloco a subir, o PCP a descer, o CDS a esvair-se e o PAN a crescer. O cenário é de tal monta que António Costa iniciou os trabalhos de produção do novo reality show que vai dominar a política portuguesa até Outubro. Chama-se “Quem Quer Casar Com o Primeiro” e tem um concurso complementar intitulado “A Roda da Geringonça”. Os canais disputam os formatos e multiplicam-se os interessados.  No Domingo surgiu mais um candidato surpresa ao casamento do reality show - o PAN, que entrou na lista dos candidatos a charneira do regime - e que já está a ocupar o espaço mais esverdeado aproveitando o facto de o partido melancia estar cada vez mais vermelho por dentro e menos verde por fora. Piadas à parte a realidade é dura: os directórios partidários choram sobre a abstenção mas a última coisa que querem é mudar a lei eleitoral, adequando-a a novos tempos - nomeadamente estudando alternativas ao método de Hondt que protege os partidos instalados e dificulta a entrada de novas organizações no círculo do poder. Feitas as contas e tendo em consideração que a abstenção ficou pouco abaixo dos 70% a verdade nua e crua é esta: se tomarmos como base o total dos recenseados o PS obteve 10,47% dos votos dos eleitores, o PSD ficou nos 6,88, o Bloco vive com 3,08%, a CDU está reduzida a 2,16%, o CDS a 1,94%. Na verdade menos de 25% dos eleitores optou por um qualquer dos partidos que se apresentaram. 45 anos depois de 1974 o regime considera-se legitimado com a participação de apenas um quarto dos cidadãos. A coisa está reduzida aos diretórios partidários e seus adeptos mais próximos. O regime não consegue chamar as pessoas a participar nas decisões do país, governado por uma ruidosa minoria que só olha para si própria. Este é o triste resultado dos políticos que temos e das campanhas eleitorais como  aquela a que acabámos de assistir.


 


SEMANADA - O PCP desceu em todas as eleições realizadas desde a formalização da geringonça e nestas europeias perdeu em Setúbal e Beja para o PS; os 11 partidos mais pequenos recolheram apenas 10% dos votos; Barrancos, localidade conhecida pelas suas touradas com touros de morte, foi o único concelho onde o PAN não obteve um único voto; segundo um estudo da Marktest os eleitores da freguesia de Fundada (concelho de Vila de Rei) foram os mais participativos, pois 65.38% dos 520 inscritos foram votar; segundo o mesmo estudo os residentes em Morgade (concelho de Montalegre) foram os mais abstencionistas, pois apenas 4 dos 323 eleitores aí inscritos votaram; as cativações aumentaram nos três primeiros meses deste ano cerca de 10 milhões de euros face ao mesmo trimestre de 2018; em 2018 cerca de 28% dos partos foram feitos por cesariana, um novo aumento em relação ao ano anterior; o número de crianças vítimas de abusos sexuais continua a aumentar e há uma média de 22 novos casos reportados por mês; segundo a Entidade Reguladora da Saúde ao longo de quatro anos o hospital de Vila Franca de Xira teve doentes  internados em refeitórios, havendo também casos de doentes internados em casas de banho; entre 2013 e 2017 fecharam quase metade das lojas históricas de Lisboa; Joe Berardo manifestou intenção de processar os deputados que o interrogaram na Comissão Parlamentar de Inquérito.


 


ARCO DA VELHA - Os vinte habitantes de Marinha de Vale do Carvalho, uma aldeia na Sertã, continuam sem internet e sem telefone fixo desde os incêndios de Outubro de 2017, há 20 meses portanto.


 


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PORTUGAL NA MONOCLE - A Monocle publica duas vezes por ano edições especiais. “The Forecast” no final de cada ano e que explora tendências futuras; e “The Escapist”, no início de cada verão, para abordar viagens, sítios ou, como na mais recente edição vem bem em destaque: “The Travel Top 50” e Portugal aparece referido sete vezes: a linha aérea com a tripulação mais bonita é a TAP; o aeroporto hub de voos intercontinentais com a melhor localização é Lisboa; os melhores consumíveis de hotel são os da Claus, do Porto; um refúgio de excepção é São Lourenço do Barrocal; os melhores quartos de hotel são os do Belmond Reid’s Palace no Funchal; o destino ideal para um fim de semana é a Madeira; e o melhor buffet de hotel é o do Ritz Four Seasons de Lisboa. O portfolio de moda desta edição foi fotografado na Madeira num especial de 14 páginas, a área comercial do aeroporto de Lisboa vem em destaque com a loja O Mundo Fantástico das Conservas Portuguesas e a do Porto com os Sabonetes Confiança, a música dos Deolinda, os Galos de Barcelos e os vinhos do Esporão. Os dois outros destaques portugueses vão para as toalhas de praia Abyss & Habidecor de Viseu, para o Hotel Memmo Baleeira em Sagres (e para a Feijoada de chocos do Restaurante carlos na mesma localidade). Mas o prato forte da edição é uma entrevista ao presidente da Câmara de Florença onde Dario Nardella recorda como proibiu a abertura de cadeias de fast food, cafés de internet e lojas de telemóveis no centro histórico da cidade, como está a tomar medidas para controlar empresas como a Airbnb, para fomentar turismo que traga valor á cidade e aos seus negócios e como todas as receitas das taxas de turismo e pernoita são aplicadas em actividades culturais, manutenção dos parques e zonas verdes e nos transportes públicos.


 


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TERRITÓRIOS URBANOS - O título da exposição de fotografia do argentino Alberto Picco na Galeria Diferença é “Arquivo Território (Paisagem)”. O autor vive há muitos naos em Portugal, integrou a área de fotografia de O Independente  e as 14 imagens que apresenta, feitas em filme preto e branco no início deste século, mostram simultaneamente uma visão que conjuga o efeito do passar do tempo nas nossas memórias e na forma como percepcionamos a paisagem urbana, em pormenores dos territórios da cidade que por vezes parecem banais mas que ganham significado especial quando são vistos fora do tempo, ganhando uma dimensão de imaginário fora da estrita realidade fotográfica. Ainda na Diferença e até finais de Junho está também a colectiva “de passagem”, com fotografias de André Gomes (realizadas com smartphone), José Francisco Azevedo, André Carapinha e Monteiro Gil (Rua São Felipe Neri 42, segunda a sábado das 13 às 19). Outro destaque vai para a exposição patente na Underdogs,  “Faces of Society” dos iranianos Icy e Sot, que actualmente vivem e trabalham em Nova Iorque e que têm realizado trabalhos nas ruas de diversas cidades em todo o mundo (terça a sábado, até meados de Junho, Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila). Recordo ainda que no Torreão Nascente da Cordoaria está “ponto De Fuga” , com obras da Colecção António Cachola, e no Museu de Lisboa (Palácio Pimenta, Campo Grande) está “Ni Le Soleil Ni La Mort” de João Louro. Finalmente, no Museu do Fado, abriu uma exposição que traça a história da guitarra portuguesa ao longo de dois séculos e mostra cerca de meia centena desses instrumentos musicais.


 


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MORRISSEY SONGBOOK -  As mais recentes posições de Morrissey a favor do Brexit levaram grande parte da imprensa inglesa a encarar o seu novo álbum mais do ponto de vista político do que musical. Trata-se de uma escolha de 12 temas de autores norte-americanos dos anos 70 e 80, muitos deles conotados com canções de protesto, o que não deixa de ser curioso tendo em conta o posicionamento mais recente do fundador dos Smiths. E, no entanto, o disco é musicalmente revigorante, com versões surpreendentes de alguns temas. O produtor foi Joe Chiccarelli e permito-me destacar o tratamento que deu a “Don´t Interrupt The Sorrow”, um original de Joni Mitchell, aos arranjos de “Only a Pawn In Their Game” de Bob Dylan, a “Suffer The Little Children” de Buffy Sainte Marie (que ganha uma outra intensidade), a “Days Of Decision” de Phil Ochs e sobretudo a “It’s Over”, de Roy Orbinson. Outros autores representados nesta versão do American Songbook de Morrissey são Melanie, Carly Simon, Jobriath (um expoente do glam rock dos anos 80), Tim Hardin, Gary Puckett, Laura Nyro (bela versão de “Wedding Bell Blues” ou Dionne Warwick. Uma coisa é certa: a escolha das canções é curiosíssima, os arranjos são surpreendentes e a interpretação supera os originais frequentemente mostrando que Morrissey, o cantor, está num bom momento.“California Son”, de Morrissey, está disponível no  Spotify.


 


O ALVARINHO - Com o aumento das temperaturas chega a altura de experimentar os vinhos verdes da mais recente vindima. O vinho Alvarinho da colheita de 2018 que João Portugal Ramos agora colocou no mercado merece ser provado com atenção. Feito a partir de uvas da região de Monção e Melgaço, com as vinhas localizadas num vale, este Alvarinho é um bom exemplo da conciliação da tradição da região do Minho com técnicas de vinificação contemporâneas. O resultado é um vinho de cor citrina, aroma intenso, elegante, floral e frutado ideal para acompanhar um aperitivo num fim de tarde estival. Fica muito bem com pratos de marisco e de peixe e com sushi ou ceviche. Para além deste  100% Alvarinho João Portugal Ramos lançou também um outro verde, com 85% da casta Loureiro e 15% Alvarinho, mais simples e leve, e que funciona particularmente bem com saladas ou o incontornável aperitivo.


 


DIXIT -  “Estamos preparados para assumir mais responsabilidades” - Inês Sousa, do PAN


 


BACK TO BASICS - “Ignorância e confiança é tudo o que é necessário para se obter sucesso” - Mark Twain






maio 24, 2019

COMO VOTAR, NO DOMINGO?

 


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UM VOTO NULO - Esta semana vi um tempo de antena do PS em que um actor deambula num monólogo mal escrito, que no final é comentado numa simulação de mesa redonda protagonizada pelo candidato Pedro Marques. Trata-se de um exemplo de manipulação completa a meio de uma campanha eleitoral e nada do tempo de antena tem a menor relação com o sentido das eleições deste fim de semana e muito pouco cola com a realidade objectiva e a história recente. É uma espécie de fake news, publicidade enganosa por junto. Estamos num paradoxo: Domingo há eleições mas na campanha eleitoral não se debateu o que está a votos: o Parlamento Europeu e o seu papel na União Europeia. Apresentadas pelo Governo e pela oposição como um referendo ao exercício do poder por António Costa, estas eleições são, no fundo, um retrato da disfunção da própria UE. Recordo aqui o que António Barreto acertadamente disse sobre este assunto: “Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos?”. Na realidade esta é a questão que não foi discutida e que toda a gente quer evitar. Olho para o que se passou na campanha eleitoral e fico enjoado com o fraseado dos cinco maiores partidos e nos novos partidos não me revejo - até porque eles próprios posicionaram-se submissos face ao sistema vigente do exercício de poder na União Europeia. O voto útil é uma coisa que cada vez me agrada menos - é um ritual de conformismo, é aceitar que não se pode fazer nada. A abstenção, já se sabe, deve atingir níveis históricos e não tenciono alimentá-la. Mas tenciono votar nulo, com um risco a toda a largura do boletim do voto, uma expressão do meu desagrado. Este é, nesta altura, o único voto que para mim faz sentido - e tenho pena que os votos brancos e nulos sejam contabilizados em conjunto, e não separados,  na nossa caduca lei eleitoral, ela própria incentivadora desta redoma de imobilidade do sistema.


 


SEMANADA - O Ministério da Educação revelou que desde o início do ano lectivo já recebeu 600 reclamações contra refeições servidas em refeitórios escolares concessionados; as doenças sexualmente transmitidas estão a aumentar e os casos de gonorreia subiram 48% no ano passado; uma advogada candidata a juíza foi acusada por tráfico de droga, apanhada em flagrante à entrada de um estabelecimento prisional; em 23% dos concelhos portugueses há mais reformados que trabalhadores; mais de 40% das famílias têm um rendimento anual inferior a dez mil euros; a OCDE reviu em baixa a estimativa para o PIB para 1,8% (abaixo dos 2,1% que antecipava)  e agravou a previsão do défice para 0,5% (contra 0,2% previstos em novembro); nos primeiros três meses do ano os cinco principais bancos do sistema tiveram em conjunto um lucro de 373 milhões de euros, o equivalente a 4,1 milhões de euros por dia; o Novo Banco registou prejuízos de 93 milhões de euros, o único dos cinco com contas no vermelho; os bancos concederam, em março, 617 milhões de euros aos consumidores só para o crédito ao consumo, dos quais 238 milhões foram destinados ao crédito automóvel; em 2018 o regulador da saúde aplicou 487 multas, o dobro das aplicadas em 2017;as telecomunicações ocupam o primeiro lugar há mais de 12 anos no ranking das reclamações que chegam à DECO; num relatório sobre um descarrilamento a Infraestruturas de Portugal afirmou não ter meios para fazer melhor manutenção das linhas ferroviárias.  


 


MILAGRES DO REGIME - Hortense Martins, líder do PS no distrito de Castelo Branco e mulher do atual presidente da Câmara local, conseguiu em 2010 um subsídio de 171 mil euros para a construção de um projecto familiar turístico que já estava em funcionamento há 24 meses e em 2013 obteve mais 105 mil euros para uma unidade de turismo em espaço rural que também já estava a funcionar à data da aprovação da respetiva candidatura.


 


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LEITURAS JUVENIS - Já vai no número cinco a “Electra”, criada pela Fundação EDP  como uma “revista de pensamento, arte, literatura, ciência e crítica cultural” - um caso único no actual panorama editorial português, dirigida por José Manuel dos Santos. Um dos pontos altos desta edição é um ensaio sobre Marcel Proust onde Michel Erman fala da relação de Proust com o dinheiro e do que ele representou na sua obra e na sua vida. “Da herança que recebeu dos pais ao uso que fez dela para afirmação literária, da comédia mundana a meio facilitador de relações amorosas e sexuais, o dinheiro foi para Proust um instrumento de compreensão do mundo e do lugar de cada um, nele”. Mas o prato forte desta edição é o especial “Jovens Para Sempre”, dedicado aos ideais da juventude, apresentados “como um dos motores da história social, cultural e política” recente. Cuidadosamente paginado e ilustrado, este especial destaca, num texto de António Guerreiro, que “a juventude como categoria sociológica é uma invenção do século XX”. Num outro texto o crítico de música, escritor e cineasta inglês Jon Savage, autor de “Teenage: The Creation Of Youth Culture”, escreve sobre “A Era da Adolescência” e sublinha: “os filhos do pós-guerra geralmente pensam que inventaram tudo, mas todos os elementos do que hoje consideramos ser uma cultura da juventude já existiam na cultura swing” dos anos 30. Mais dois textos a merecer especial atenção nesta edição da “Electra” - “Esplendor na Relva”, de Daniel Jones, que partindo de exemplos cinematográficos reflecte sobre a sua experiência de lidar com jovens em idade escolar, e “Pasolini e a possibilidade de exceder o poder”, onde Vinicius Nicastro Honesko analisa a relação entre Pasolini e os jovens estudantes das revoltas de 1968, apontando para a diferença entre o intelectual clássico e os estudantes que então marcaram essa época.


 


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IMAGENS DA NATUREZA NUMA GALERIA - Passada a euforia do ARCO e de todas as manifestações paralelas, regressemos ao que de bom existe nas galerias lisboetas. Há uma exposição, inaugurada há duas semanas, que merece toda a atenção: “Cascata”, que assinala a estreia de Paulo Brighenti na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 R/C Esq) e que ali pode ser visitada até 27 de Julho. Esta “Cascata” representa uma evolução em relação às exposições anteriores de Brighenti, um artista que está representado em algumas importantes colecções privadas e institucionais. Mais uma vez Brighenti ultrapassa o universo mais habitual da pintura e do desenho, mas sem o abandonar, e mostra algum do seu trabalho em escultura, desde delicadas peças até outras de maiores dimensões, todas com alguma relação com a natureza e com a presença humana - como aliás as pinturas que também integram esta exposição, em suportes que vão do papel ao linho. No texto de apresentação da exposição Miguel Mesquita sublinha: “Partindo desta analogia da transformação de plano para volume, podendo considerar-se de superfície para objecto, Paulo Brighenti tem recentemente desenvolvido, de forma discreta mas intensa, um campo de experimentação sobre a relação entre pintura e escultura.”


 


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A CANTORA DE JAZZ - Nalguns momentos a música de Norah Jones esteve associada a pano de fundo sonoro para jantares românticos e, em determinado ponto da carreira, a sua originalidade como intérprete de jazz esbateu-se. É no entanto injusto considerá-la apenas como uma voz delico-doce e este seu novo disco vem mostrar um outro lado, de estilos diversificados. Na realidade não se trata de um álbum de originais mas de uma colectânea de singles que Norah Jones lançou ao longo dos últimos dois anos, canções gravadas com a colaboração de nomes como Jeff Tweedy dos Wilco, Thomas Bartlett (que colabora regularmente com St. Vincent) ou Billie Joe Armstrong, dos Green Day. O leque é portanto diversificado e longe de fórmulas tradicionais, ao mesmo tempo que, por exemplo em “It Was You”,  retoma a vocalização intimista que a caracteriza, e onde voz, teclado, metais e secção rítmica criam um ambiente musical especial. Os melhores momentos são quando ela sai da rima, por exemplo ao ser arrastada por Billie Joe Armstrong para a country em “A Song With No Name”, na faixa final, “Just a Little Bit”, onde se solta do seu estilo mais conhecido e sobretudo na canção que dá título a esta colectânea, “Begin Again”, forte e afirmativa, com um arranjo musical inesperado que combina violinos, piano e guitarra eléctrica. CD Blue Note já disponível em Portugal e no Spotify.


 


OS CARACÓIS DO POMAR - Apesar de a primavera estar hesitante a época dos caracóis já começou. Um dos locais incontornáveis para os apreciadores do petisco é o Pomar de Alvalade, na Rua Marquesa de Alorna 21. Criado pelo pai de Paulo Bento, o local está recheado de referências ao futebol. A lista inclui uma série de pratos tradicionais, das pataniscas aos secretos, mas o que atrai muita gente a este local ao fim da tarde é a petisquice dos caracóis. Têm fama (e na minha opinião) proveito de serem dos melhores de Lisboa - um tempero certo. A imperial é bem tirada e surge rapidamente na mesa quando o copo anterior se esvazia. Para rematar há quem peça um prego ou uma bifana no pão - eu acho que esta última é a opção mais acertada. Serviço simpático, casa sempre cheia, o Pomar de Alvalade é um daqueles pequenos restaurantes populares de bairro em que o conceito principal é a qualidade.


 


DIXIT - “A União Europeia é um daqueles temas em que mais vale não tocar muito” - Luciano Amaral, a propósito das eleições para o Parlamento Europeu.


 


BACK TO BASICS - “A política é um conjunto de interesses mascarados como defesa de princípios” - Ambrose Bierce