dezembro 15, 2017

SOBRE O PÂNTANO E A PEÇONHA

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PÂNTANO  - Esta semana soube-se que o PS decidiu excluir José Sócrates das comemorações do décimo aniversário da aprovação do Tratado de Lisboa. Há dez anos essa cimeira acabou com o ex-Primeiro Ministro a dar uma palmada nas costas de Durão Barroso, então Presidente da Comissão Europeia, e a dizer-lhe ”porreiro, pá” uma vez assinado o acordo, que aliás se veio a revelar essencialmente inútil. Mas há que reconhecer que o excluído está muito bem representado nestas comemorações: Vieira da Silva, um dos homens que participava nos almoços intímos de Sócrates, e Santos Silva, seu terrorista verbal de serviço, lá estarão na bancada do Governo, mostrando como o pantanal socrático perdura, em cargos de destaque, no PS de António Costa e que, como por estes dias se viu, continua com duvidosos métodos. A propósito do caso Raríssimas estes dois nomes socráticos deram que falar: Vieira da Silva por se ter prestado a dar o nome para a instituição agora investigada, aceitando ser vice presidente da Assembleia Geral da Raríssimas e jurando agora não saber o que lá se passava - certamente da mesma forma como nunca percebeu o que Sócrates ía fazendo; e Santos Silva, retomando os seus melhores tempos de aprendiz de rotweiller, a classificar como “razões pessoais” aquilo que levou o secretário de estado da saúde, Manuel Delgado, a sair do governo: as razões pessoais, tirando incidentes laterais, são os 63 mil euros e viagens recebidos enquanto consultor da instituição, para a qual foi convidado pela presidente agora investigada. Paula Brito Costa, convidou-o por, nas suas próprias palavras citadas pela imprensa, ele ser um homem do PS bem colocado na área da saúde. O que esta semana mostrou, em relação ao PS, é que ou Costa acaba com a peçonha ou a peçonha acaba com ele.


 


SEMANADA - A despesa das famílias portuguesas em cultura afundou mais de 21% em cinco anos; na última década o ensino público perdeu 127 mil alunos; o número de alunos do pré escolar tem vindo a diminuir nos últimos quatro anos em termos percentuais face à população dos quatro e cinco anos de idade; os bancos emprestaram mais de 3,4 mil milhões de euros para crédito ao consumo nos primeiros dez meses do ano, o maior valor desde há uma década; os novos créditos à habitação concedidos em Outubro significam um aumento de 54,8% face ao mesmo período do ano passado; a produção industrial aumentou em outubro na zona euro e União Europeia face ao mês homólogo, mas recuou na comparação com setembro, tendo Portugal registado a segunda maior quebra mensal; a dívida dos hospitais públicos a fornecedores já atingiu 1090 milhões de euros; metade dos jovens médicos admite emigrar depois de ter obtido a especialidade em Portugal; a legionella foi responsável pela morte de 40 pessoas em Portugal nos últimos quatro anos; Rui Rio declarou-se indisponível para fazer debates com Santana Lopes nas três televisões generalistas;  a tv por cabo já chega a 92% das famílias portuguesas; ocorreu esta semana a sexta remodelação governamental;  em dois anos Costa já teve 14 baixas no Governo desde que a Frente de Esquerda chegou ao poder; em Seia um homem tentou vender a um GNR a fotocópia de uma cautela da Lotaria de Natal como se fosse verdadeira.


 


ARCO DA VELHA - O Ministro Vieira da Silva mandou agora auditar as contas da Raríssimas, exactamente as mesmas que ele próprio aprovou numa Assembleia Geral da instituição antes de ir para o Governo. E o ex-tesoureiro da Raríssimas revelou que o ministro da Segurança Social não lhe respondeu a denúncias que lhe enviou em setembro.


 


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FOLHEAR - Todos os anos a editora Guerra & Paz tem lançado por esta altura edições especiais, os chamados “beaux livres”, como o editor Manuel S. Fonseca gosta de se lhes referir. Estas obras constituem a colecção “Três Sinais”,  onde se combina um lado artesanal com um design gráfico contemporâneo. “O Físico Prodigioso”, que dá corpo à edição deste ano, é um texto de Jorge de Sena, publicado pela primeira vez em 1966 na colectânea de contos do escritor intitulada “Novas Andanças do Demónio”. “O Físico Prodigioso” pode ser, como o próprio Jorge de Sena explicava, um médico ou mágico medieval, imaginado  pelo escritor quando vivia no Brasil em 1964, como símbolo da liberdade e do amor. Eugénio Melo e Castro, que incluíu o texto em “Antologia do Conto Fantástico Português”, de 1974, considerava “O Físico Prodigioso” como “um modelo superlativo do conto fantástico” . Nas notas introdutórias que escreveu em 1977 para uma nova edição, Jorge de Sena faz notar que “O Físico Prodigioso” não é uma escrita clássica, antes preferindo “o experimentalismo narrativo, jogando com o espaço, o tempo, a repetição variada do texto”. A nova edição inclui um conjunto de 21 ilustrações inéditas feitas propositadamente para esta obra por Mariana Viana, uma capa articulada, dourada, e acabamento com faces do miolo pintadas à mão. O grafismo é de Ilídio Viana, foram feitos 1500 exemplares numerados. O editor refere que esta foi “a forma que a Guerra e Paz encontrou para , num tempo de mudança de paradigma do livro, reforçar a singularidade de uma obra de conteúdo audacioso e perturbador”.  Se está à procura de uma prenda de Natal que não se desvaneça no tempo, esta é uma boa ideia.


 


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VER - Pode uma só obra justificar uma exposição? A resposta é sim e remete para “Eco”, o trabalho de Rui Sanches, apresentado no Projecto Travessa da Ermida (Travessa do Mata Pinto 21) até 31 de Dezembro. A partir de um texto de Ovídio, o artista revisita o significado do que pode ser o eco e sugere uma sua tradução espacial (na imagem). Mudando completamente de registo, vale a pena ir nestes próximos dias - até Domingo 17 -  ver a peça “Nathan, O Sábio” ao  Teatro Municipal Joaquim Benite, em  Almada - um texto de Gotthold Ephraim Lessing, que aborda a relação entre religiões, mais precisamente a tolerância numa cidade, simbolicamente Jerusalém, onde muçulmanos, judeus e cristãos se cruzam. A peça, numa tradução de Yvette Centeno, é apresentada pela primeira vez em Portugal, com encenação de Rodrigo Francisco, cenários de Pedro Calapez e  figurinos de António Lagarto, um conjunto coerente, particularmente bem pensado para a peça, cuja acção decorre no século XII mas que, com a envolvente cenográfica criada, ganha uma dimensão de intemporalidade - ou, mais precisamente de uma actualidade particularmente relevante. Outras sugestões: a partir deste fim de semana as obras de José Pedro Croft que representaram Portugal na Bienal de Veneza, vão estar expostas no espaço da Real Vinícola em Matosinhos; “Na Penumbra” é o título do conjunto de fotografias de Augusto Brázio patentes na Galeria das Salgadeiras, Rua da Atalaia 12, no Bairro Alto; e finalmente a ExperimentaDesign, pela mão da sua fundadora Guta Moura Guedes, inaugurou um espaço próprio, a Lisbon Gallery, inteiramente dedicado à arquitectura e ao design, com peças de Amanda Levete, Fernando Brízio, Jasper Morrison, Michael Anastassiades e Miguel Vieira Baptista, entre outros.


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OUVIR - Entre 1966 e 1968 Amália Rodrigues fez várias sessões de gravação com o Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Dessas sessões saíram alguns discos, entre os quais um registo de referência da carreira da fadista, o LP “Vou Dar de Beber à Dor”. Agora, pela primeira vez, são disponibilizadas numa única edição discográfica todas as sessões gravadas nesse período de tempo. Numa nova edição feita a partir de um cuidado trabalho de pesquisa nos arquivos da Valentim de Carvalho reúnem-se três CD’s com 81 registos de quase outros tantos temas, nas diversas versões que foram sendo registadas em estúdio. O primeiro disco reproduz o original LP “Fados 67”, o álbum da Amália que incluía maior número de fados tradicionais. No segundo disco estão outros fados tradicionais e algum repertório internacional que então Amália costumava cantar nas suas digressões, sobretudo em França. Finalmente o terceiro disco tem várias versões inéditas de gravações conhecidas. ensaios de estúdio e outros registos, hoje raros, que foram originalmente editados em EP’s. Não só a qualidade e variedade do repertório é assinalável, como aqui se encontram as primeiras gravações de Amália em captação estereofónica. Além disso, durante o período de tempo em que estas gravações foram feitas, a voz de Amália estava num período excepcional - há mesmo quem diga que foi o seu melhor momento. Destaque ainda para os textos de enquadramento de Frederico Santiago (o responsável pelo trabalho de pesquisa nos arquivos da Valentim de Carvalho) e para um notável ensaio de Nuno Vieira de Almeida, “Amália - Algumas razões para a amar”. “Fados 67”, triplo CD, edição Valentim de Carvalho.



PROVAR - Construído nos anos 90 do século passado na Doca do Bom Sucesso, em Belém, o restaurante “Vela Latina” impôs-se ao longo dos anos como uma referência da restauração lisboeta. Era um local clássico, com boa comida  e uma garrafeira com vinhos muito acima da média. O restaurante tinha um bar, quando se subiam as escadas, antes de entrar na sala principal, e em baixo tinha uma sala privada para um grupo pequeno, que continua a existir.  A meio deste ano sofreu obras profundas e o bar passou a ser uma sala dedicada ao cruzamento das cozinhas do Japão e do Peru. O restaurante antigo foi todo redecorado, mas a lista mantém-se com bons clássicos que fizeram a fama da casa, como os filetes de pescada com arroz de berbigão e salsa, os rolinhos de linguados com gambas, ou os fígados de aves em tarte de maçã. Nesta primeira visita as atenções foram para o antigo bar, agora Nikkei, o espaço de fusão entre oriente e América Latina, que foi roubar o seu nome ao índice da Bolsa de Tóquio. A boa influência peruana faz-se notar nas sugestões de ceviche que contrastam- e completam bem - as variedades de sushi. Em qualquer caso a qualidade do peixe é impecável, assim como o seu corte, tal como o preparo do arroz, o ponto decisivo para aferir a honestidade do sushi. A lista de vinhos do Nikkei tem propostas diversificadas, muito pensada em função da comida que serve, sobretudo nos brancos. Nas sobremesas aparecem surpresas como churros, servidos com molho de chocolate derretido. O ambiente é simpático, o serviço é atencioso. Um dia destes regresso à sala grande para ver como se comportam os clássicos… Nikkei, Doca do Bom Sucesso, telefone 213 017 118.


 


DIXIT - “O que é o presidente do Eurogrupo? É um presidente de porra nenhuma” - António Lobo Xavier, na “Quadratura do Círculo”


 


GOSTO - “Fátima” de João Canijo foi selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Roterdão, na Holanda, a realizar em janeiro do próximo ano.


 


NÃO GOSTO - Em outubro as importações cresceram duas vezes mais que as exportações.


 


BACK TO BASICS -  “Insanidade é continuar a fazer a mesma coisa e esperar obter resultados diferentes” - Albert Einstein.


 


 






dezembro 07, 2017

QUEM NASCEU NESTE SÉCULO JÁ VOTA NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES

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MUDANÇAS - Na vida muito pouca coisa é a preto e branco e cada vez há menos certezas e mais dúvidas e questões. O ritmo das alterações nos padrões de comportamento e de consumo evoluiu à  velocidade com que a tecnologia avançou. Vamos com 17 anos deste século. Quem nasceu em 2000 viveu sempre numa sociedade digital. Quem nasceu em 2000 já vai poder votar nas próximas legislativas com base numa lei que nessa altura fará 45 anos. Como mudou o mundo e o país nestes 45 anos? Que hábitos têm agora os cidadãos com 18 anos, comparados com aqueles que nasceram em 1956 e tinham 18 anos em 1974? As diferenças são enormes. Para além de terem crescido em sociedades radicalmente diferentes, as suas experiências pouco têm em comum. Em 1974 era pouco frequente ir estudar para o estrangeiro e a participação numa guerra era um espectro que pesava nos adolescentes; agora o programa Erasmus e outros semelhantes proporcionam a um número enorme de jovens o conhecimento de outras culturas e outros hábitos. Viajar tornou-se quase uma banalidade. Ninguém espera pelos telejornais ou os noticiários da rádio para saber notícias e a imprensa parece uma extravagância. Temos um país diferente e os jovens que começam a sua vida profissional têm objectivos diferentes. Sabem que não terão um emprego para toda a vida, têm uma mobilidade maior e muitos um futuro mais sombrio. O principal problema de quem fôr Governo é garantir que a geração que vai votar daqui a pouco não se desilude com o sistema e com o país. E para isso vamos todos ter que mudar muito, a começar pelos políticos.


 


SEMANADA - As casas de apostas online registaram 258 mil novos jogadores desde o início do ano; as vendas de carros aumentaram 8,4% até Novembro, em comparação com o mesmo período do ano passado; nos primeiros onze meses do ano registaram-se 118 mil acidentes rodoviários que provocaram mais 53 mortos e 2000 feridos que no ano passado; os prejuízos causados pelos incêndios na região centro provocaram prejuízos da ordem dos mil milhões de euros; uma avaliação internacional indica que os alunos do 4º ano em Portugal registam piores resultados na leitura e compreensão da escrita e Portugal ocupa agora o 30º lugar de uma lista de 50, tendo piorado relativamente há cinco anos atrás; o Centro de reabilitação do Alcoitão fechou 32 camas por falta de médicos; um quarto dos hospitais públicos ultrapassa o limite de partos por cesariana fixados pelo governo; o ex Ministro da Cultura socialista Manuel Maria Carrilho afirmou em tribunal ser ele a vítima de violência doméstica praticada pela sua ex mulher Bárbara Guimarães; os juízes do Tribunal da Relação do Porto Joaquim Neto de Moura e Maria Luísa Arantes vão ser alvo de processo disciplinar devido ao acórdão que desvaloriza a violência doméstica; as vendas de chocolate em Portugal vão ultrapassar os 200 milhões de euros este ano, devendo ficar cerca de 5% acima de 2016.


 


ARCO DA  VELHA - A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, por unanimidade, uma verba de um milhão de euros por ano destinada a pagar a assessores e secretariado dos diversos partidos, numa assembleia que não tem deputados a tempo inteiro e onde havia deputados que eram assessores deles próprios para assim receberem uma remuneração.


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FOLHEAR - Uma nova colecção de livros dedicada à fotografia é sempre uma boa notícia. Por iniciativa da Imprensa Nacional, e sob orientação de Cláudio Garrudo, nasceu agora a série Ph. , dedicada à fotografia portuguesa contemporânea. A ideia é editar dois volumes por ano, que têm um preço de 19 euros, acessível para um livro de fotografia com a qualidade de impressão que este tem. O primeiro volume é dedicado à obra de Jorge Molder, um dos nomes mais importantes da fotografia portuguesa, que já foi artista convidado da Bienal de São Paulo em 1994 e representou Portugal na Bienal de Veneza de 1999. Cláudio Garrudo, coordenador da colecção Ph., esteve durante meses a trabalhar com Jorge Molder, escolhendo um conjunto de imagens, algumas nunca expostas ou reproduzidas. Molder fez a sua primeira exposição em 1977 - o seu percurso fotográfico tem pois quatro décadas - e como Bragança de Miranda escreveu no ensaio que está incluído na edição “usou o seu corpo como matéria porque era o que tinha mais à mão” . O livro, de 132 páginas, é uma excelente introdução à obra de Jorge Molder, permitindo ter uma noção da sua evolução ao longo dos anos, num percurso feito com o que se poderia dizer um olhar sensato que lhe permitiu construir imagens que depois fixou em fotografia. A esse nível o seu trabalho sempre me fez lembrar Ralph Eugene Meatyard e algumas fases da obra de Duane Michals, mas é inegável que Molder manteve uma coerência na abordagem do seu “eu” que este livro bem demonstra. Esta nova iniciativa editorial da Imprensa Nacional vem proporcionar o conhecimento mais disseminado de uma obra que tem vivido sobretudo em exposições e em colecções privadas e públicas. Citando Henri Cartier-Bresson numa entrevista de 1952, “a fotografia deve ser feita, e reproduzida, para as massas e não para coleccionadores - parte da vitalidade e da força da fotografia vem de poder ser infinitamente reproduzida.”


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VER - Luiz Carvalho é um dos mais importantes repórteres fotográficos portugueses, com uma obra persistente de registo da evolução de Portugal ao longo das últimas cinco décadas e,  mais recentemente, da divulgação da fotografia através do programa de televisão que ele produz e realiza  na RTP3, o “Fotobox”. Luiz Carvalho tem exposto relativamente pouco - há oito anos que não mostrava o seu trabalho e agora apresenta “O Resto É Paisagem!”,  na Pequena Galeria, até 22 de Dezembro. A mostra integra um conjunto de 27 fotografias que o autor seleccionou, privilegiando imagens mais antigas porque, afirma, é “em relação a essas que sente maior afecto e é com elas que se sente mais à vontade quando se trata de mostrar uma parte, forçosamente pequena, de todo o seu trabalho”. São imagens a preto e branco, uma opção que, como sublinha, voltou a fazer parte hoje em dia do seu meio ambiente. A imagem escolhida para ilustrar esta nota é uma evocação daquilo que Luiz Carvalho sente em relação ao seu próprio trabalho: um fotógrafo a olhar o infinito. Sobre esta mostra afirma Luiz Carvalho: “Não fazia uma exposição individual há 8 anos porque é para mim um exercício difícil chamar amigos e seguidores, a incomodarem-se para irem ver umas fotos penduradas numa parede, que podem não interessar a ninguém  - é arriscado e pode ser muito constrangedor para mim. Foi o projecto bonito e empenhado da Pequena Galeria que me convenceu a expor de novo, e a amizade de longa data pela Cristina Homem de Melo.” O Resto É Paisagem, de Luiz Carvalho, está n’a Pequena Galeria - de quarta a sábado entre as 18 e as 20, na Avenida 24 de Julho 4C.


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OUVIR - No final do século passado Pedro Tenreiro e Rui Miguel Abreu mergulharam nos arquivos da  Valentim de Carvalho, foram ao baú da pop dos anos 60 e 70 e saíram-se com dois CD’s sob o título “Portugal DeLuxe”, 1 e 2, que incluíam registos raros de nomes como Thilo’s Combo, Carlos Mendes, Quinteto Académico, Duo Ouro Negro, Natércia Barreto, Bossa Jazz 3, Conjunto Académico de João Paulo, entre outros. Assim se mostravam os ecos portugueses do rock’n’roll, da surf music, da soul e dos rhythm & blues e também de algum jazz vocal. Agora Pedro Tenreiro mergulhou de novo nesses arquivou e recuperou toda a série - além de se reeditarem os dois primeiros CD’s desta colecção, há muito fora de mercado, foi adicionado um terceiro volume, intitulado “Modernidade Longíqua”, que tem preciosidades como “Hit The Road, Jack”, pelos Strollers sob o comando do jazzman José Duarte, uma deliciosa versão de “Sunny” pelo Conjunto Sousa Pinto (onde o saxofonista era o falecido dirigente socialista José Lello) e ainda raridades como “Volkswagen Blue” por José Cid, “Teach Me Tiger” por Mafalda Sofia,  “The More I See You” por Thilo’s Combo, “I Feel Good” pelo Quinteto Académico ou “Try A Little Tenderness “ por Vickie com o Conjunto Académico João Paulo, além do histórico “Ababilah” do Quarteto1111. Este novo volume “Portugal DeLuxe”, tem  belíssimos textos de enquadramento de João Carlos Callixto e é uma verdadeira jóia.



PROVAR - Muitas vezes o afã de descobrir novos restaurantes dificulta que se visitem bons exemplos de cozinha popular e tradicional  que ainda existem em Lisboa. Recentemente um amigo levou-me à  Imperial de Campo de Ourique, fundada em 1947, também conhecida por  A Tasca do João, desde que João Gomes ali chegou, em 1956. Com o Senhor João na sala e a sua Dona Adelaide no comando da cozinha a casa tornou-se uma referência em termos tradição culinária portuguesa. O casal é originário de Ponte da Barca e a gastronomia da região ali deixou as suas marcas - a começar pelo Bacalhau à Minhota, que é dos melhores que se podem provar em Lisboa. Outro prato que ali faz deslocar clientela fiel é a chanfana, servida às sextas e sábados.  A Costeleta de Novilho, generosa, é também afamada pelo tamanho e qualidade do corte. Nesta altura do ano as favinhas com todos são primorosas e abundantes de molho - a requererem um dos babetes bem coloridos que a casa disponibiliza aos seus clientes. A sala de entrada tem a cozinha e um longo balcão, ladeado por algumas mesas e a sala interior é ampla e confortável. O avental do Senhor João Gomes tem uma frase que bem podia ser o lema da casa: “Isto é um espectáculo!”. O vinho da casa é da região do Cartaxo e revela-se honesto. Os preços são populares, como a essência da cozinha de Dona Adelaide e o serviço do Senhor João. A morada é  Rua Correia Teles 67  e o telefone é  213 886 096.


 


DIXIT - “O PS falhou redondamente, não foi capaz de analisar o perfil e a informação objectiva de quem foi seu Secretário-Geral e candidato à direcção do Governo” - Viriato Soromenho Marques sobre Sócrates e a Operação Marquês.


 


GOSTO - Teresa Gonçalves Lobo expõe em Londres, na Galeria Waterhouse & Dodd, os seus desenhos feitos para o poema “inquieto/unstill”, de Robert Vas Dias.


 


NÃO GOSTO - 70% dos menores delinquentes têm menos de 14 anos.


 


BACK TO BASICS - “Quando escorregamos a andar recuperamos depressa, quando temos uma escorregadela  a falar por vezes nunca recuperamos” - Benjamin Franklin.


 

novembro 30, 2017

SOBRE O SEPARAR DAS ÁGUAS

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DIFERENÇAS - O PSD debate-se com uma escolha que no fundo tem a ver com reviver o passado e manter o sistema como está, ou ser parte de um processo de modernização do sistema político. Rui Rio, apoiado essencialmente pela velha guarda, surge como uma garantia de continuidade do status quo partidário; Pedro Santana Lopes, que tem defendido a necessidade de rever o funcionamento do sistema político, surge como a proposta de ruptura e conta com apoios entre as gerações mais novas do seu partido. Há várias diferenças evidentes entre Pedro Santana Lopes e Rui Rio, mas esta semana foi colocada em evidência uma das maiores: a capacidade política e táctica e a maneira como é encarada a imagem pública do partido. Rio recusou desde o princípio da disputa a realização de debates com Santana Lopes e este, há dias, escreveu ao seu opositor e recordou-lhe o óbvio:  como poderá o PSD no futuro, em eleições nacionais, reivindicar debates com o seu principal opositor se internamente os recusa? Rui Rio não teve outro remédio do que recuar e aceitar debater frente a frente. Chama-se a isto capacidade política e sentido táctico. O episódio mostra de forma cristalina os dois mundos que se confrontam dentro do mesmo partido: um, conservador, virado para dentro, sem rasgo nem visão; e outro, de mudança, virado para o exterior, que procura alargar o debate à sociedade, e  que gosta de desafios. As eleições internas do PSD não são apenas um contar de apoios e espingardas distritais. São um momento para reflectir como um partido deve funcionar hoje em dia na sociedade contemporânea.


 


SEMANADA - Só este ano os 175 assaltos já verificados a máquinas multibanco renderam dois milhões de euros; um regulamento previsto na lei desde 2013 com medidas para evitar roubos nas máquinas ATM esteve quase cinco anos sem ser publicado; segundo o INE perto de 80% das famílias portuguesas têm acesso à internet e um terço já a usou para encomendar bens ou serviços, mais do dobro do início da década; segundo a Marktest, 3,8 milhões de portugueses têm o hábito de ler notícias através do telemóvel ou tablet mas há 2,7 milhões de portugueses que contactam com a imprensa exclusivamente em papel; há ainda 588 freguesias portuguesas sem acesso a banda larga no telemóvel; a Marktest contabiliza 3 milhões e 291 mil lares com Tv paga (cabo), o que corresponde a 81.4% dos lares portugueses e a penetração deste serviço tem revelado uma tendência crescente ao longo dos últimos anos, passando de 46.4% em 2006 para os 81.4% agora observados; ao aprovar o Orçamento de Estado para 2018 a Assembleia da República assumiu compromissos de aumento da despesa e de perda da receita para 2019 num total de 593 milhões de euros; o Bloco de Esquerda acusou o PS de deslealdade por quebra de compromissos relativamente ao Orçamento de Estado; o Ministro da Saúde avisou a Presidente do Infarmed da decisão da Mudança para o Porto dia 21 de Novembro, às oito da manhã, depois de ter recebido instruções nesse sentido, na véspera, do Primeiro Ministro, logo após se ter sabido que a agência europeia do medicamento não iria para o Porto; o Presidente da República defendeu esta segunda-feira que “a política clássica, longe das pessoas, ignorando a sociedade, sem inovação, está condenada” e lançou um apelo aos responsáveis políticos para que inovem e façam progredir os sistemas políticos.


 


ARCO DA VELHA - A direcção da casa dos Rapazes de Viana do Castelo suspendeu duas funcionárias que denunciaram maus tratos infligidos a crianças na instituição e  manteve ao serviço os cinco acusados dessas práticas.


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FOLHEAR - Um dos maiores problemas com que hoje em dia as empresas se deparam é conseguirem manter os seus melhores colaboradores - não só mantê-los na empresa, mas conseguir que estejam empenhados. Há uma geração, saída das Universidades há pouco tempo, que já não vive no conceito do emprego para toda a vida e que gosta de apostar na sua própria evolução. Para além das questões salariais, há sinais de reconhecimento e de estímulo que muitas vezes são tão importantes como um aumento. “Era Uma Vez Um Talento“, de Dalila Pinto de Almeida, reflecte, a partir de uma história real, sobre o que fazer para reter as melhores pessoas numa organização. Desde o diagnóstico que permite perceber como se caracteriza um talento no seio de uma empresa, até um guia para fazer o seu enquadramento na organização, promover o seu desenvolvimento e fazer o controlo regular da sua prestação, este livro é simultaneamente um relato de uma situação real e um manual informal para a acção  de empresas que se preocupam com os seus quadros. Dalila Pinto de Almeida trabalha em Consultoria Organizacional há 25 anos, com especialização em Executive Search e Coaching de Executivos. Para além da sua empresa, DPA Consultoria, integra a THNK School Of Creative Leadership como Leadership Coach e vai escrevendo regularmente no seu blog Telescópio. Este livro, agora editado pela Vida Económica, acaba por pegar em temas que a autora foi abordando nos seus posts. Aqui chegado devo fazer uma declaração de interesse: acompanhei a preparação do livro desde o início. E continuo a achar que foi uma bela ideia. E uma bela história.


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VER - O Museu de Arte Popular acolhe até 27 de maio  a primeira grande exposição realizada em Portugal do artista gráfico holandês Escher. Mauritus Cornelis Escher tornou-se conhecido pela sua técnica de xilogravuras, litografias e meios-tons que mostram construções aparentemente impossíveis, utilizando padrões geométricos cruzados que evoluem para formas completamente diferentes, muitas vezes criando efeitos que exploram ilusões de óptica. No seu trabalho procurava representar o espaço, tridimensional, no plano bidimensional que cabe na folha de papel e neste processo criava imagens impossíveis e com o seu quê de surrealismo. Escher nasceu no final do século XIX e morreu em 1972, mas foi sobretudo nos anos 60 que a sua obra ganhou notoriedade e projecção, apesar de o seu trabalho ter sido muitas vezes rejeitado e menosprezado como uma forma menor de expressão artística. Foi um influente artista numa rara simbiose europeia entre o surrealismo, a pop art e o psicadelismo e a sua colaboração com músicos e grupos nos anos 60 é assinalável. A presente exposição conta, além das duas centenas de obras, com um conjunto de equipamentos didáticos e de experiências científicas, que possibilitam rever o percurso criativo de Escher Entre os trabalhos apresentados nesta exposição, encontram-se obras como este “Vínculo da União”, de 1956, aqui reproduzida. Museu de Arte Popular, Avenida Brasília, todos os dias das 10 às 20h00. Se estiver no Porto não perca “José de Almada Negreiros - Desenho em Movimento”, no Museu Nacional Soares dos Reis até 18 de Março do próximo ano. A exposição, que a Gulbenkian organizou em Lisboa há uns meses chega agora ao Porto.


 


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OUVIR - A primeira vez que fui a Los Angeles quis ir ver onde ficava o Hotel California. Conhecia-o de ser protagonista de uma canção dos Eagles a que volta e meia regresso . Localizado em Santa Monica, bem perto do mar, o Hotel mudou entretanto de designação e agora chama-se Sea Blue, um nome sem nenhuma graça - parece um detergente. Retenho ainda a imagem dele com o nome original e, claro, as nove canções do álbum homónimo dos Eagles, editado no fim de 1976 ou princípio de 1977, dependendo do local de lançamento. Seja como fôr lá vão passados 40 anos sobre a sua edição. Foi o quarto LP dos Eagles e o seu primeiro grande sucesso. Aqui estão temas como “Life In The Fast lane”, “There Is A New Kid In Town” e, claro “Hotel California”, a canção que deu o título ao álbum. Don Felder, Don Henley, Glen Frey, Joe Walsh e Randy Meisner são os nomes que fizeram dos Eagles uma banda de culto na década de 60, uma referência musical na costa oeste dos Estados Unidos, um bom bocado antes de ser Silicon Valley a brilhar ali em vez da música. Para assinalar os 40 anos da edição original foi agora publicado  um duplo CD em que, para além do LP original, se inclui um segundo CD com dez temas gravados ao vivo em diversos locais da digressão da banda em 1976 - e que incluem temas da fase anterior da carreira dos Eagles. A gravação e mistura respeitam o ar do tempo e dão uma boa ideia do que poderia ser um concerto da banda nesses anos. Bem sei que sou fã dos Eagles, mas esta edição é mesmo uma preciosidade.


 


PROVAR - O sítio existe já há uns anos, é discreto e confortável. Fica na Rua Bartolomeu Dias, entre os Jerónimos e a Torre de Belém e o seu nome - Descobre - tem a ver certamente com a evocação do local. Para além das salas, quando o tempo está de feição, há também uma esplanada. Na entrada fica uma mercearia e garrafeira com bons produtos portugueses, desde vinhos raros à ginginha de Lisboa. A ementa tem sugestões para picar, pratos vegetarianos, saladas e propostas de carne e peixe mais substanciais. Numa recente visita foram elogiadas as lulinhas, o caril de galinha. o arroz de legumes com ovo escalfado e a salada de garoupa (aqui lamentando-se que fosse aparentemente usada salada de pacote - mas a garoupa era boa). Quando se chega à mesa há várias ofertas de pão, azeite com balsâmico, uma pasta de azeitona e manteiga com flor de sal e redução de tinta roriz. Os acompanhamentos são escolhidos à parte e destacam-se os purés de castanha e de batata doce com aipo. Para além de se poder escolher um dos vinhos à venda, pode optar-se por uma boa seleção e vinhos a copo a preços sensatos. Nos doces o aplauso foi para com doce de ovos com sorbet de limão e um crumble de pêra. Vale a pena descobrir o Descobre - aberto todos os dias, Rua Bartolomeu Dias 65, telefone 218 056 461.


 


DIXIT - “Sinto que sou um pequeno arbusto na enorme floresta digital, e que só com um golpe genial – de talento, sorte, ou combinando ambos – alguém vai ligar ao que escrevo. Habituei-me a viver nesta recatada humildade, onde escrever não é mais do que um velho hábito que alimento” - Pedro Rolo Duarte, no seu blogue, no passado dia 8 de outubro.


 


GOSTO - Luis Newton, presidente da junta de freguesia da Estrela, afirmou que neste momento o PSD “não precisa de uma folha de excel a ditar o futuro”.


 


NÃO GOSTO - Da forma como alguns académicos se sujeitam a pretender dar um arremedo de cobertura científica a iniciativas de propaganda política.


 


BACK TO BASICS - “Desde que a palavra sobreviva, o homem sobrevive” - Fernando Sobral, em “O Silêncio dos Céus” .


 

novembro 24, 2017

A ESTRATÉGIA DA COLIGAÇÃO: DIVIDIR O PAÍS

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APARTHEID - A frente de esquerda, a que alguns por carinho oficinal chamam geringonça, está a fazer tudo para criar um apartheid na sociedade portuguesa, ao colocar de um lado quem trabalha para a administração e empresas públicas e, do outro, quem trabalha fora do braço protector do Estado como patrão. O resultado é simples: jogar uns contra os outros, Estado contra o que não é Estado. Aquilo a que assistimos por estes dias é à defesa da criação de duas castas - a dos que têm benefícios automáticos e a dos que só progridem se derem provas de que o merecem. Os clamores pela igualdade para todos escondem sempre a parte que não cabe no todos e que, neste caso, já é a maior parte. Se formos ao segmento abaixo dos 35 anos ainda é mais evidente a clivagem: nesse escalão há muito mais gente a trabalhar fora do Estado que em qualquer outro segmento etário. Os que trabalham fora do Estado sabem o que é terem de competir com empresas rivais da sua, terem que desenvolver produtos que sejam vendáveis, dever prestar serviços de forma eficaz, sob pena de as suas empresas serem preteridas por outras. Mas Estado há só um e não há como lhe fugir. Ainda vivemos numa época em que a maioria dos políticos passou a vida a trabalhar para o Estado - na Administração central, local ou em empresas públicas. Cresceram com a certeza de que os votos vinham daí e que esse colégio eleitoral tinha que ser protegido. Mas com o andar dos tempos há menos gente a receber ordenado do Estado. Um dia destes os eleitores que não trabalham para o Estado vão revoltar-se contra os políticos que defendem o apartheid social.


 


SEMANADA - Os partidos que apoiam o Governo apresentarem 492 propostas de alteração ao Orçamento de Estado com reflexos no aumento da despesa pública; a Comissão Europeia diz que o Orçamento português arrisca violar as regras europeias de ajustamento orçamental e em causa está uma redução estrutural do défice inferior à recomendada e um aumento da despesa considerado excessivo; peritos de Bruxelas dizem que a despesa com salários da função Pública vai custar mais 385 milhões de euros do que o Governo previu no Orçamento, sem contar com novos encargos pendentes de negociações com os sindicatos; a Comissão de Protecção de Dados considera que o Orçamento de Estado propõe demasiadas interconexões entre bases de dados da administração pública; o sector empresarial do Estado registou no ano passado prejuízos de cerca de 408 milhões de euros e a Parpública foi a que registou maior aumento de perdas nesse período; nos últimos quatro meses, em Portugal, foram feitos 3500 furos de água; cada português gasta por dia 220 litros de água, o dobro do considerado suficiente pelas Nações Unidas; o tempo médio de espera para o início de tratamento de alcoólicos já ultrapassa os dois meses; ficaram por ocupar cerca de meia centena de vagas para médicos de família por falta de candidatos; 91% dos trabalhadores do Infarmed estão contra a mudança para o Porto.


 


ARCO DA VELHA - A base de dados de pedófilos condenados, que tem mais de cinco mil nomes e que foi criada há dois anos com o objectivo de ser usada pelos orgãos de investigação criminal, nunca foi consultada por PSP, GNR ou PJ, apesar de crescente número de casos de abuso de menores.


 


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FOLHEAR - A “Monocle” já não surpreende com frequência, mas neste mês conseguiu dar nas vistas: fez uma entrevista com o ex-presidente brasileiro Lula, a que dá chamada de capa com o título “O Regresso de Lula”,  com direito a três páginas, no essencial laudatórias. Para o ex-presidente nas malhas da Lei esta foi a possibilidade de se reposicionar numa revista de difusão internacional e dirigida a um segmento influente. Lula curiosamente afirma na entrevista que “a solução para a crise económica é a credibilidade”. Quase me apetece dizer que a peça sobre Lula podia ser considerada conteúdo patrocinado.... Surpresas à parte, esta edição de Dezembro da “Monocle” inclui o já tradicional relatório anual sobre os países que melhor exercem o seu “soft power”, um misto de diplomacia com encanto e comunicação. Portugal aparece na posição 12, em subida comparativamente com o ano passado, logo atrás da Itália e Dinamarca e à frente da Nova Zelândia, Espanha e Noruega. O ranking de 25 países é liderado pelo Canadá, Alemanha e França. Sobre Portugal a revista deixa no entanto um aviso: “à medida que cresce o número de visitantes é importante o país focar-se na salvaguarda da sua autenticidade”. Um outro destaque português surge na lista “Travel Top 50” com o Hotel Ritz (“Top untouched modernist hotel”) e com as tripulações da TAP (“Most handsome crew”). Finalmente na secção de comidas e bebidas surge em destaque o restaurante Jncquoi, na Avenida da Liberdade. Por fim, uma notícia: efeito colateral do Brexit, a “Monocle” vai mudar o seu quartel general de Londres para Zurique. Já me esquecia - esta é  a edição com sugestões de prendas de Natal. Nada austeras.


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VER - A nova exposição de Pedro Calapez surge como uma surpresa, rasgando horizontes em relação ao que tem sido a evolução da sua obra nos anos mais recentes. São pinturas sobre papel e alumínio (na imagem), criadas em várias dimensões, rasgando a escala habitual, e sugerindo diversas formas de ver e de poderem ser vistas. Integralmente composta por obras inéditas, feitas para esta mostra que assinala o 5º aniversário da Galeria Belo-Galsterer, a exposição evidencia a forma como Calapez optou por trabalhar sobre formatos inesperados. O nome escolhido - “Tracção e Compressão simples entre limites elásticos” - é particularmente indicado para mostrar as diferentes abordagens, de material de suporte e de concepção da sua forma. Vai ficar na na Belo Galsterer, Rua Castilho 71, r/c esq, até 20 de Janeiro. Outro destaque vai para a exposição “2 desenhos e 2 esculturas”, de José Pedro Croft, na Galeria Vera Cortês. Croft, que representou Portugal este ano na Bienal de Veneza, apresenta quatro trabalhos inéditos. Permito-me chamar  a atenção para os desenhos, que vão para além da aparência do traço, numa construção minuciosa feita sobre papel, manipulado e trabalhado de forma a permitir diversas leituras. Na Rua João Saraiva 16-1º, até 13 de Janeiro. N´A Pequena Galeria, (avenida 24 de Julho 4C),  Luiz Carvalho apresenta “O Resto É Paisagem”, uma exposição de fotografias feitas ao longo da sua vida e a que aqui regressaremos para a semana.


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OUVIR - A carreira de Seal começou no início dos anos 90, ao longo do tempo editou dez álbuns e afirmou-se como uma das vozes mais interessantes, muitas vezes na fronteira entre a pop e o soft jazz, com influências dos blues e da soul music e de nomes como Tony Bennett ou Nat King Cole. O seu  mais recente CD acaba de ser publicado e o nome corresponde exactamente ao seu conteúdo: “Standards”. Trata-se de um conjunto de canções que ganharam fama, originalmente feitas entre os anos 30 e 60 do século passado. Neste álbum Seal é acompanhado por uma orquestra de 65 elementos, com arranjos de Chris Walden, num registo que muitas vezes se aproxima de uma gravação ao vivo. O começo do disco é arrasador: “Luck Be A Lady”, “Autumn Leaves” e “I Put A Spell On You”. Ao todo são 14 temas, entre os quais podemos ainda encontrar “They Can’t Take That Away From Me”, “Love For Sale”, “My Funny Valentine”, “I’ve Got You Under My Skin”, “The Nearness Of You” e, claro, “Christmas Song”, entre outros. Seal é um vocalista de créditos firmados, com uma capacidade de interpretação invulgar. É justo dizer o que o disco é marcado por um espírito de risco na sua abordagem a “I Put A Spell On You”, uma interpretação arrebatadora onde Seal é acompanhado de um coro gospel. O mesmo desejo de fazer  a diferença ouve-se em “I Got You Under My Skin”, onde descola da abordagem que Nelson Riddle  fez para a marcante interpretação de Sinatra. CD Decca /Universal já disponível em Portugal.


 


PROVAR - Há cerca de duas décadas Manuel Martins ganhou fama com os seus petiscos alentejanos num pequeno estabelecimento na Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, a que chamou “A Charcutaria”. Alguns anos depois resolveu mudar-se para uma casa bem maior, na Rua do Alecrim. Continuou a ganhar fama mas a certa altura as coisas começaram a correr menos bem e este ano, há uns meses, decidiu voltar a Campo de Ourique, à Rua Francisco Metrass. É bem visível o peso da idade, mas o talento nos sabores alentejanos continua igual. As suas empadas de galinha têm uma massa finíssima e um recheio leve e continuam a ser uma iguaria. O pão, obviamente alentejano, é fatiado finíssimo. Na ementa introduziu umas saladas (como por exemplo de pêra, canónigos, pinhões e parmesão), mas mantém bons clássicos - como os seus pastéis de massa tenra acompanhados por arroz de coentros que continuam soberbos. E claro que na lista ao longo do ano surgem pratos como os pezinhos de coentrada, perdiz estufada, perdiz de escabeche,  empada de perdiz ou a lebre com feijão..Lá estão ainda nos queijos um serpa curado e um de cabra, também curado, muito saboroso e, nas sobremesas, um belo bolo de chocolate e doces conventuais. O vinho servido a copo é o alentejano Nunes Barata, tanto tinto como branco, e ambos cumprem com honestidade a sua função. Manuel Martins continua sempre simpático, focado nos clientes e a fazer boa cozinha alentejana, simples, com qualidade, e aqui com preços muito convidativos. A sala é pequena, como na casa original, tem uma dúzia de lugares e está aberta ao almoço e jantar todos os dias excepto ao domingo. A Charcutaria, Rua Francisco Metrass 64, telefone 215 842 827. Aceita encomendas para fora.


 


DIXIT - “Mudar sedes da Administração Central é desconcentrar. Descentralizar é transferir competências da Administração Central para Entidades Regionais ou Locais” - Luis Paixão Martins, no Facebook.


 


GOSTO - The Presidential, o comboio turístico de luxo do Douro, que usa as carruagens utilizadas por Presidentes da República recuperadas pelo Museu Nacional Ferroviário, ganhou o Best Event Awards de 2017.


 


NÃO GOSTO - Mais de 200 mil utentes foram afectados pela greve dos técnicos de diagnóstico e terapêutica.


 


BACK TO BASICS - Vale mais um exército de ovelhas comandado por um leão, que um exército de leões comandados por uma ovelha - Damião de Goes

novembro 17, 2017

SOBRE A IMPORTÂNCIA DA CURIOSIDADE

 


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PARTIDOS  - Soube-se esta semana que dos 210.907 militantes do PSD apenas 28.739 (13,6%) têm as quotas em dia - condição necessária para poderem votar nas eleições directas de 13 de Janeiro. Estamos a falar de 12 euros por ano. No primeiro mês após o início da campanha interna para escolher, em eleições directas, quem será o líder, cerca de cinco mil militantes pagaram as suas quotas em atraso e a data limite para pôr as quotas em dia e poder votar nas Directas de Janeiro é dia 15 de Dezembro. A situação é um retrato do funcionamento dos partidos, mesmo quando têm um teórico número apreciável de militantes: a maioria está arredada da vida dos respectivos partidos, a participação política reduz-se a um pequeno núcleo central. Se fizermos bem as contas a quem está na Assembleia da República, em autarquias a diversos níveis e em orgãos internos, veremos que o total é uma parte significativa daqueles que têm as quotas em dia. Temos portanto duas figuras de relevo da política portuguesa a percorrer o país de lés a lés numa campanha eleitoral que tem um universo de votantes reduzido - e mesmo que, por milagre do destino e ajudas de duvidosa generosidade que se tornaram habituais nos aparelhos partidários, o número de militantes com capacidade eleitoral duplique em relação aos actuais, estaremos a falar de meia centena de milhar de pessoas. É a elas que caberá decidir quem será o líder da oposição. Quando as coisas chegam a este ponto alguma coisa está muito mal no sistema político e partidário - no fundo é um espelho do que se passa no país. O sistema que temos, a nível nacional e a nível partidário, levou a este paradoxo: é uma minoria que decide o futuro da maioria.


 


SEMANADA - Em Portugal estão em construção mais 80 hotéis, anunciou o Ministro da Economia; na via navegável do Douro há 60 operadores com 147 barcos, dos quais 20 são barcos-hotel; a zona do Douro espera atingir até ao final do ano o número recorde de um milhão de turistas;  as receitas do sector hoteleiro subiram 14% durante a época alta (Junho a Setembro), equivalente a 200 milhões, chegando aos 1688 milhões de euros; em Portugal são detectados mais de 200 novos casos de diabetes por dia; o Bastonário da Ordem dos Médicos afirmou que grande parte dos equipamentos e materiais do Serviço Nacional de Saúde está fora do prazo de validade; em Portugal 800 mil pessoas tomam calmantes todos os dias; segundo a Marktest um em cada dez portugueses utiliza regularmente anúncios on line; o Ministério Público recebeu entre 1 de Setembro de 2016 e 31 de Agosto deste ano 5965 denúncias de operações suspeitas de lavagem de dinheiro, um aumento de 22% face ao período anterior; este ano os bancos portugueses estão a emprestar uma média de 21,8 milhões de euros por dia para compra de habitação, um aumento de 42,7% em relação ao ano passado; na função público o salário médio está 500 euros acima do sector privado;  a União Europeia alertou Portugal para a “elevada proporção de empregos criados em setores com baixas qualificações e salários abaixo da média”.


 


ARCO DA VELHA - Uma técnica de acção educativa de Vila do Conde andava a abastecer detidos da cadeia de Paços de Ferreira com haxixe a 200 euros a grama, e cocaina e heroina a 500 euros a grama.


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FOLHEAR - O fascínio pelo Oriente continua a dominar as obras de Fernando Sobral, como aconteceu em “ Os segredos do Hidroavião “ ou em “ As jóias de Goa”. Agora, com “O Silêncio dos Céus” continua a escrever sobre mistérios, mas de forma mais introspectiva. Esta é uma história passada em Macau, em meados do século XIX, o relato de uma conspiração urdida por personagens locais de proveniências diversas e passados distintos. Muitas vezes Fernando Sobral coloca no discurso dos conspiradores frases que vão mostrando as suas próprias reflexões. Por exemplo, logo no início, recorda que “a vida não pertence a nada, excepto ao vento,  porque a nossa alma é o ar”. Um pouco mais à frente afirma que “a maior interrogação com que se defrontam os seres humanos é a existência do mal” e defende noutro passo que “para encontrar as grandes verdades da vida temos de passar pelo silêncio”. “A curiosidade é a minha estrela polar”, disse Fernando Sobral esta semana na apresentação do livro, em Lisboa. Ao ler qualquer dos seus livros percebe-se o cuidado colocado na investigação sobre os locais, seus usos e costumes. Aqui vai mais além e coloca-se dentro das questões que norteiam desde há muitos séculos o pensamento filosófico oriental. Partindo de uma história de conspiração, “O Silêncio dos Céus” depressa se torna numa viagem pelas tradições do oriente, onde a aventura faz parte da vida e se mistura com a luta pelo poder. “Alguém dizia que quando olhas demasiado para um abismo, este também olha para ti” - descubram porquê em “O Silêncio dos Céus”, de Fernando Sobral, edição Livros do Oriente.


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VER - O destaque desta semana vai para a exposição colectiva que assinala os 25 anos de existência da Galeria Fernando Santos, no Porto, em boa parte responsável por se ter criado um pólo de arte na Rua Miguel Bombarda. Para assinalar o aniversário o galerista Fernando Santos mostra obras inéditas a  Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez (na imagem), João Louro, Priscilla Fernandes, Jorge Galindo, Nikias Skapinakis, Gerardo Burmester, António Olaio, além de obras pouco conhecidas de artistas como Alberto Carneiro e Álvaro Lapa. Até 5 de Janeiro. Em Coimbra não perca a sua bienal de arte contemporânea, “Ano Zero”, que com curadoria de Delfim Sardo apresenta obras de 34 artistas, 17 das quais feitas propositadamente para esta mostra e que estão em diversos locais da cidade. Outras sugestões: na Galeria Pedro Alfacinha (Rua de S. Mamede 25), “America”, um conjunto de seis novos trabalhos fotográficos de António Júlio Duarte. Na Galeria 111, Campo Grande, “História da Vida Privada”, um projeto de  Pedro Valdez Cardoso concebido, ao longo de um ano, especificamente para a esta galeria, reunindo um conjunto de mais de 100 obras, com peças inéditas, peças recentes e um conjunto de peças do arquivo do artista, as quais foram sendo realizadas ao longo de mais de 15 anos e nunca expostas, na sua grande maioria, anteriormente. Finalmente, no CCB Garagem Sul, um espaço dedicado à arquitectura, abriu esta semana “Neighbourhood”, sobre os pontos de encontro entre a arquitectura de Álvaro Siza e a de Aldo Rossi na forma de pensar a cidade.


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OUVIR - Basta ouvir “Conto de Fadas”, logo no início deste CD, para perceber como Aldina Duarte gosta de escrever, cantar e, fazendo as duas coisas, provocar e surpreender. Cantar um fado assim, o tradicional “”Fado Santa Luzia”,  acompanhada por uma caixinha de música é usar a heresia e viver o risco que faltam a tantas tentativas de fadistas de moda que andam por aí. Esta é a melhor coisa que se poderia fazer neste tempo de tradições copiadas e de falsas almas que fazem que cantam. Aldina Duarte chamou a este seu novo disco “Quando Se Ama Loucamente” e cada uma das letras que para ele escreveu é uma peça da explicação do que é o Amor. Aldina Duarte escreve como poucos outros fadistas e canta como muito poucas mulheres hoje em dia, em Portugal. Ouvi-la é uma lição de poesia. É muito curiosa a forma como  pegou em fados tradicionais e os recriou com novas letras - um desafio arriscado mas que funcionou bem como nestes versos: “Somos dois da mesma dança/ enlaçados na lembrança/ e perdidos no coração” . O disco assume-se como uma homenagem a Maria Gabriela Llansol, evocada num belíssimo texto de Hélia Correia que surge, no disco, ao lado de uma reprodução de um quadro de Pedro Cabrita Reis. E recordada, no final, pela voz de João Barrento, que diz as suas palavras. Este é um dos grandes discos portugueses do ano. CD Sony Music.



PROVAR - Situado nas Avenidas Novas, “O Funil” tem uma longa tradição que vem desde 1971. Há poucos anos, em 2014, foi totalmente remodelado e após um período inicial que se distinguiu, deixou cair a qualidade e o serviço. Há poucos meses passou para as mão de António Diogo, um profissional com vasta experiência na restauração e com um cuidado claro no serviço aos clientes. O bacalhau à Braz é um clássico que se tem mantido e que continua a ser uma referência segura e outra boa escolha são os filetes de peixe espada com arroz de lima. Os pratos do dia são normalmente abaixo dos 10 euros e os pratos da carta normal andam entre os 10 e 14 euros - e aí podemos encontrar alguns arrozes dignos de nota - nomeadamente o de vitela e cogumelos, o de polvo e o de garoupa e gambas. Nos petiscos da casa destaque para os pastéis de bacalhau. Na nova lista está por vezes uma novidade, trazida por António Diogo de aventuras anteriores, é o spaghetti a la forma - em que a massa acabada de cozer vai para dentro de um parmesão onde é envolvida, a quente, no queijo, ganhando todo o seu sabor. O vinho da casa é o Intensus, alentejano, que cumpre bem, sobretudo o tinto, e é servido a copo ou pequenos jarros Nas sobremesas o destaque vai para as farófias, bem feitas, à moda antiga, irresistíveis.  O restaurante destaca-se pela arte de bem receber, pela atenção dada aos clientes e tem como único ponto menos positivo o facto de por  vezes existir alguma demora. Av. Elias Garcia 82-A, tel. 210 968 912.


 


DIXIT - “Depois da centena de mortos, um país ardido, décadas de medidas políticas, dezenas de ministros, várias reformas estruturais, grupos de trabalho independentes e missões de estrutura, chegámos enfim à solução: caramba, o que nos faltava era uma empresa pública para a floresta” - Paulo Ferreira, no Facebook.


 


GOSTO - Marcelo Rebelo de Sousa voltou a sublinhar que os relatórios sobre o apuramento de responsabilidades nos casos da legionella e de Tancos devem ser tornados públicos.


 


NÃO GOSTO - Do esquema de corrupção nas messes da Força Aérea, que há uma década envolve 86 oficiais e empresários num esquema de sobrefacturação de fornecimentos.


 


BACK TO BASICS - “A melhor forma de prejudicar uma causa é defendê-la deliberadamente com argumentos falsos” - Friederich Nietzsche





 

novembro 10, 2017

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DE NADA SERVE SE AS PESSOAS FOREM DESTRUÍDAS

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O SURURU - Vai para aí um grande sururu por causa da Web Summit. As redes sociais, um dos pilares da expressão pública da nova sociedade, foram o centro das críticas, remoques e ataques à iniciativa que delas em boa parte nasceu. Esclareço que para mim a Web Summit não é a santa milagreira que vai resolver o problema das start ups portuguesas, nem uma escola de casos de sucesso. Mas é uma boa feira, uma enorme feira de um sector específico que está no centro da nova economia, uma forma de proporcionar pontos de encontro, fomentar debates e às vezes criar notícia internacionalmente - como aconteceu com as revelações sobre a campanha de Trump feitas por um dos seus protagonistas. Eu cá prefiro que tudo isto suceda em Lisboa do que noutra capital qualquer- ajuda a pôr-nos no mapa e traz-nos mundo. Mas, é bom ter isto presente, também reforça a necessidade de que quem manda na cidade reflicta com cuidado como quer tratar e posicionar o turismo, como quer posicionar a cidade em termo de recuperação urbanística e atracção de empresas. E sobretudo, obriga necessariamemte o Governo a ver as assimetrias que existem dentro de um país que é capaz de acolher com sucesso um evento desta complexidade e, ao mesmo tempo, deixar arder vastas porções de território, permitir a morte de uma centena de pessoas nos fogos, não conseguir garantir a segurança nem nos incêndios nem nos hospitais como agora se percebeu. É este o paradoxo do Portugal contemporâneo e a Web Summit também tem essa utilidade - agudiza a comparação e mostra como o Estado tem comportamentos diferentes. É bom termos a Web Summit, é bom aprendermos, é bom que o Sr Cosgrove ganhe dinheiro com o assunto porque assim também nós ganhamos: este é o caso de uma win-win situation. Mas o êxito da sua realização, a eficácia da produção do evento, a correcção de erros do ano passado, traz a responsabilidade de o Estado não se restringir a eventos de propaganda e começar a preocupar-se com os cidadãos. O sentido da Web Summit é esse: de nada serve a inteligência artificial se as pessoas forem destruídas.


 


SEMANADA - Na semana da Web Summit o alojamento local em Lisboa teve uma ocupação de 80%; há 120 grupo de participantes na web summit que têm por objectivo visitar os bares do Bairro Alto e proximidades; foi uma falha de software no sistema de informação de autópsias que levou a PSP a interromper os velórios de vítimas de legionela, colocando os cadáveres dentro de sacos de plástico à frente dos familiares; na sequência dos incidentes na discoteca Urban a PSP informou que não prevê reforçar o patrulhamento à noite em Lisboa; os processos existentes em Tribunal sobre violência exercida por seguranças não suspendem a sua licença de actividade, nem lhes retiram o cartão profissional; a verba prevista no Orçamento de Estado para o Serviço Nacional de Saúde não chega para cobrir as suas despesas e a dívida a fornecedores continua a crescer e já ultrapassa os mil milhões de euros; em sete anos um em cada três empregos podem ser substituídos por sistemas de tecnologia inteligente; segundo um estudo da Marktest a utilização da Internet através do telemóvel quase quadruplicou nos últimos 5 anos; o futebol vale 43% do total de apostas do jogo online; a Amazon vai passar a fazer entregas gratuitas em Portugal a partir da sua filial espanhola.


 


ARCO DA VELHA - O Ministério da Administração Interna comprou há dois anos um software para monitorizar o SIRESP que nunca usou;  depois de Pedrógão, a Protecção Civil requereu a utilização dessa aplicação que no entanto permaneceu inoperacional nos incêndios de 15 de Outubro.


 


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FOLHEAR - Hanna Arendt foi uma das mais influentes pensadoras do século XX. Alemã, de origem judaica, foi perseguida pelos nazis. A situação na Alemanha levou-a a emigrar para os Estados Unidos ainda antes da segunda grande guerra, onde consolidou a sua reputação na área da filosofia política, ou teoria política - como ela preferia chamar-lhe. Na Universidade de Marburg, onde estudou em 1924, um dos seus professores foi Martin Heidegger, 17 anos mais velho que ela, casado,  e um dos mais reputados filósofos da época. A relação entre o professor de 36 anos e a aluna de 19 evoluíu da atracção intelectual e tornaram-se amantes, clandestinos, uma relação escondida, que a levou a partir para outra universidade sem nunca esquecer a relação. Depois de concluir os seus estudos em filosofia, Arendt começou progressivamente a interessar-se por teoria política, nomeadamente o papel das mulheres na sociedade e a questão judaica. Heidegger, pelo seu lado, era dos nomes mais importantes da Filosofia alemã da época e a sua obra desenvolveu-se em torno do sentido do ser. Em 1933 aderiu ao partido nacional-socialista, precisamente o ano em que Hitler ascendeu ao poder e em que Hanna Arendt esteve presa pelos nazis, antes de emigrar. Heidegger havia de afirmar que o romance com Arendt foi “o mais excitante, mais orientado e mais rico” período da sua vida e que essa criatividade se refletiu na sua obra mais importante - “”Ser e Tempo”. Agora, pela primeira vez, surge reunida num único volume a correspondência trocada entre Hanna Arendt e Martin Heidegger entre 1925 e 1975, o ano em que ela morreu. É um diálogo feito com base na paixão e admiração recíprocas que se manteve ao longo dos anos, contrariando a distância geográfica e as diferenças ideológicas, mas é sobretudo um constante diálogo entre duas das mais importantes vozes filosóficas do século XX. Hoje em dia se calhar isto tudo é incorrecto e seria um escândalo que levaria ao despedimento de ambos - mas se não tivesse acontecido não tínhamos “Arendt-Heidegger, Cartas 1925-1975”, que foi traduzido do alemão por Marco Casanova e editado pela Guerra & Paz.


 


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VER - O MAAT tem muito para ver por estes dias. Começo por “Electronic Superhighway”, uma exposição produzida pela Galeria Whitechapel de Londres, em 1916, e que reúne mais de 100 peças que mostram o impacto das novas tecnologias e da internet nos artistas de meados da década de 60 até ao presente. A exposição inclui obras multimedia, filmes, pintura, escultura, fotografia e desenho de mais de 70 artistas, entre eles Nam June Paik, Judith Barry, Douglas Copland, JODI, Richard Serra, Thomas Ruff e Amalia Ulman, entre outros. Está no edifício da Central Tejo até Março do próximo ano. Ainda no edifício da Central Tejo recomenda-se “Quote/unquote, entre apropriação e diálogo”, uma selecção de obras da Fundação EDP subordinada ao tema da apropriação na arte contemporânea. A exposição estará patente até Fevereiro do próximo ano e inclui obras de artistas como Pedro Calapez, Eduardo Batarda, Luis Campos, Nuno Cera, José Pedro Croft, Ângelo de Sousa, e Fernando Calhau, entre outros. A completar este ciclo de exposições do MAAT está “Bónus”, uma projecto de Ana Jotta que sai dos edifícios do MAAT para um espaço no número 30 da Rua do Embaixador, em Belém e que inclui gravuras e peças de bronze em tiragem única. Esta exposição nasce da relação entre a artista e o museu, relação que parte da atribuição do Grande Prémio Fundação EDP a Ana Jotta em 2013. “Bónus”, o título escolhido pela artista, reflecte o desejo de levar para um espaço de características não museológicas, numa rua de grande circulação e comércio da freguesia de Belém, um conjunto de trabalhos recentes e inéditos levando-os para mais perto da comunidade local envolvente do MAAT.


 


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OUVIR - A prestigiada etiqueta de jazz Blue Note teve a ideia de pegar em seis dos mais destacados músicos que gravam para a editora, cada um dirigindo o seu próprio grupo, e juntou-os. É uma ideia explosiva que pode correr mal ou correr muito bem. Correu muito bem. Para culminar resolveram chamar ao duplo CD resultante desta junção “Our Point Of View”, um título ele próprio provocatório. No caso juntaram-se os talentos de Robert Glasper no piano, Marcus Strickland no saxofone, Lionel Loueke na guitarra, Derrick Hodge no baixo eléctrico, Kendrick Scott na bateria e Ambrose Akinmusire no trompete. Como se isto não chegasse Wayne Shorter e Herbie Hancock aparecem a dar ar da sua graça no primeiro tema do segundo disco em “Masquelero”, um original do próprio Shorter. À excepção deste e de “Witch Hunt”, também de Wayne Shorter, todos os outros nove temas do duplo CD são da autoria de membros deste sexteto de luxo, quase todos versões de composições que gravaram a solo nos seus discos. Gostava de realçar “Bayinah”, no segundo disco, um original do guitarrista Lionel Loueke e que mostra de forma exemplar o prazer de tocar em conjunto e em romper barreiras e conceitos estabelecidos - afinal é essa a essência do próprio jazz. Nesse sentido este disco é uma introdução perfeita ao que de melhor se faz no jazz contemporâneo. Blue Note All - Stars, “Our Point Of View”, duplo CD distribuído em Portugal pela Universal.


 


PROVAR - Estamos no Verão de S. Martinho - embora o Outono ande tímido e a chuva arredia para mal dos nossos pecados. Esta é a época do ano em que se comem castanhas assadas, acompanhadas de água-pé, uma bebida tradicional que celebra o fim das vindimas e o vinho novo e que as normas comunitárias arredaram das prateleiras, norma que a ASAE se apressou a implementar com o desvelo que aplica às tradições. A água-pé é uma bebida tradicional de Portugal, com baixo teor de álcool, normalmente à volta de oito graus, resultante da fermentação da adição de água ao bagaço da uva e é em geral confeccionada para consumo nos magustos e outras festividades tradicionais do Outono. Tem a tonalidade de um clarete, um sabor suave, bebe-se à temperatura ambiente, mais fresca do que morna e pode ter um leve gasoso. A sua comercialização está proibida - legalmente só pode ser utilizada para consumo familiar do produtor de vinho. Quer isto dizer que ou arranjamos familiares que façam vinho ou teremos que ir à procura de almas caridosas que a dispensem, correndo o risco da ilegalidade. Esta é daquelas situações ridículas - a produção de água-pé não é proibida, a sua comercialização é que é. Assim se dá cabo de uma tradição por obra e graça de uns rapazes em Bruxelas, aos quais o destemido Mário Centeno se quer agora juntar. Eu por mim espero comer castanhas e beber água pé neste verão de S. Martinho. E sei onde a posso encontrar.


 


DIXIT - “É tempo de a China ocupar o seu lugar no centro do palco mundial” - Xi Jiping, Presidente da República Popular da China.


 


GOSTO - A exportação de frutas portuguesas aumentou 40% nos primeiros oito meses deste ano.


 


NÃO GOSTO - Os prazos dos tribunais e da Justiça em Portugal continuam na cauda da Europa.


 


BACK TO BASICS - Mesmo no trono mais sumptuoso a verdade é que apenas estamos sentados no nosso próprio  rabo - Michel de Montaigne


 


 

O CANAL “OUTROS” CADA VEZ MAIS EM DESTAQUE

Nos resultados das audiências de televisão há uma área que tem vindo a obter importância crescente nos últimos anos – e que está sob a designação genérica de “Outros”. E o que está dentro destes “Outros” ? – desde o Netflix ao You Tube, passando por jogos online e a recepção da AppleTv ou do Chromecast e outros equipamentos do género que começam a ser abundantes no mercado português e que permitem ver um conjunto alargado de conteúdos e canais torneando os operadores tradicionais comno a Nos, a Meo, a Vodafone ou a Nowo. Desde que haja internet de razoável qualidade as propostas de TV destes operadores já não são a forma exclusiva de poder ver TV. Para termos uma ideia na semana passada, este “Outros” valeu em média 10% do total da audiência de TV. No sábado atingiu os 15,1%, bem à frente da RTP1, quase a alcançar a SIC, que nesse dia fez 15,6% de share de audiência. E estes números analisam apenas o que se passa nos aparelhos de televisão, não incluem os dispositivos móveis e laptops onde cada vez mais pessoas vêem conteúdos audiovisuais. Na realidade o consumo de televisão está a mudar de forma drástica. Entre as  poucas coisas que conseguem contrariar esta tendência estão as transmissões directas nomeadamente de futebol. Foi o que aconteceu: o programa mais visto em todos os canais foi o jogo Manchester Unbited – Benfgica, transmitido pela RTP1 e que foi visto por mais de milhão e meio de espectadores.


 


texto publicado originalmente na revista Correio da Manhã, Sexta TV& Lazer

novembro 03, 2017

CRÓNICA DE UM MÊS INESPERADO

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MUDANÇAS - No espaço de um mês azedou a relação entre Belém e S.Bento, o PCP entupiu um dos motores da geringonça, Francisco Louçã voltou à actividade política oferecendo-se para mecânico da avaria registada e, no PSD, aquilo que prometia poder ser uma passeata cómoda para Rui Rio está a transformar-se numa sucessão de gaffes , que lhe têm saltado da boca mal teve oposição pela frente e que vão mostrando a verdadeira natureza deste Rio - um caudal que não é agradável à vista nem ao ouvido. No final do primeiro semestre deste ano nada indicava que se chegaria a uma situação destas e há muitas razões para isso: as catástrofes ocorridas nos incêndios florestais, a forma como o Governo não encarou a gravidade do problema, a insensibilidade de António Costa e a sua recusa da realidade, os descalabros nas eleições autárquicas - que fizeram despertar o PCP e o PSD do estado em que andavam. O que se vai sabendo do orçamento (e do seu anexo incontornável que são as cativações) mostra que o estado de austeridade continua e se agravou, embora mascarado, como se isto fosse um Halloween permanente. Mário Centeno é o aprendiz de ilusionista de falinhas mansas - desloca moedas de um bolso para outro e no percurso perdem-se umas e surripiam-se outras: perdem-se as das cativações e surripiam-se as que estão em taxas e taxinhas. Se a oposição ficar séria e eficaz Costa vai ter um 2018 menos tranquilo do que esperaria.


 


SEMANADA - Na lista do material roubado de Tancos e que apareceu na Chamusca figura uma caixa de petardos que não estava na relação inicial de items furtados; os Açores e a Madeira são as regiões com números mais elevados de violência doméstica; entre Janeiro e Agosto foram vendidos menos 34488 jornais e revistas por dia nas bancas; a taxa de desemprego de jovens abaixo dos 24 anos subiu para 25,7% - a média na zona euro é de 20,3%; o próprio Estado não cumpre uma lei de 2010 que estabelece uma quota de emprego para deficientes na administração central e local; foi agora revelado que a Força Aérea tem equipamento que permite detectar incêndios e reacendimentos na sua fase inicial mas ele não foi utilizado nos períodos em que ocorreram os incêndios mais graves; a protecção civil dispensou militares de patrulhas nocturnas de vigilância, precisamente a altura em que surgiam mais fogos; o PCP acusou o Governo de ter subestimado os perigos reais dos fogos; os bombeiros do Seixal estão à beira da falência; por cada cem euros de rendimento as famílias portuguesas só amealham cinco e a poupança está em mínimos históricos; a DECO recebeu pedidos de ajuda de 26.080 famílias sobre-endividadas até 25 de Outubro, mais de oitenta pedidos por dia; em 2016 foram registados em Portugal mais de nove mil crimes informáticos; dirigindo-se aos deputados do PSD, Rui Rio afirmou que em matéria de política financeira “faria igual a Maria Luís, ou pior”.


 


ARCO DA VELHA - O líder catalão Carlos Puigdemont proclamou a república em Barcelona e no dia seguinte fugiu para uma monarquia na Bélgica.


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FOLHEAR - Jonathan Swift foi um escritor anglo-irlandês, nascido na segunda metade  do século XVII e que se tornou conhecido pela sua prosa repleta de ironia, pelos panfletos políticos que escreveu para trabalhistas e conservadores e, sobretudo pelo seu clássico “As Viagens de Gulliver” - que em muitos pontos tem abundante sátira política. A obra relata as aventuras de um viajante destemido,  um médico inglês, que depois de um naufrágio descobre civilizações fantásticas onde a excentricidade existe aliada à cupidez e a inveja naturalmente à intriga. Mas este livro extraordinário é também povoado de utopias, desde ilhas voadoras habitadas por intelectuais, gente que nunca morre, marinheiros, piratas e até um capitão de origem portuguesa. Editado originalmente em 1726, sem ser assinado pelo autor, as Viagens de Gulliver rapidamente se tornaram num êxito. George Orwell disse que “se tivesse de fazer uma lista de seis livros a serem preservados, quando os demais fossem destruídos, poria certamente “As Viagens de Gulliver” nessa lista.”  E Jorge de Sena escreveu que por esta obra perpassava “ o espírito da medonha sátira contra a humanidade e a vida”. O título original do livro era  “Viagens a Diversas Nações Remotas do Mundo, em Quatro Partes, Por Lemuel Gulliver, primeiro como cirurgião, depois como capitão de vários navios”. Assim Gulliver visita Lilipute onde é um gigante, Brobdingnag onde parece um anão, até aos territórios da terceira viagem que desemboca no Japão e na quarta viagem que o leva a um mundo onde há cavalos dotados de razão.  Editado pela Guerra & Paz na colecção Clássicos.


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VER - Há 15 anos João Esteves de Oliveira fundou a sua Galeria, no Chiado, depois de uma carreira na banca. Posicionou-a como um espaço de exposição para obras em papel, uma declaração de princípios a favor da rigorosa arte do desenho. O papel, o seu suporte de escolha na arte que apresentou e na sua relação com artistas, fez a sua diferença enquanto galerista. Foi uma opção que manteve ao longo dos anos e que lhe permitiu apoiar o trabalho de jovens artistas, como tem feito anualmente, mas também das mais de seis dezenas de nomes incontornáveis da arte contemporânea portuguesa que lá expuseram. Há um lado de mercado nesta opção - para quem quer uma boa obra de arte, o suporte em papel é mais acessível. Ocasionalmente expôs esculturas, pintura que invadiu o papel e, uma vez ou outra, suportes diferentes. Assinalando década e meia da sua galeria João Esteves de Oliveira, chamou pela segunda vez para o seu espaço trabalhos de Manuel Caldeira, neste caso guaches sobre papel, com o nome genérico de “Spettacolo”. João Esteves de Oliveira, Galeria de Arte Moderna e Contemporânea, Rua Ivens 38. Outras sugestões: No Atelier Museu Júlio Pomar (Rua do Vale 7, Bairro Alto), e integrado no programa “O Passado e o Presente” no âmbito de Lisboa Capital Ibero Americana da Cultura 2017, abriu a colectiva TAWAPAYERA, com curadoria de Alexandre Melo, que inclui trabalhos de Júlio Pomar, Tiago Alexandre, Igor Jesus e Dealmeida e Silva. Por fim a iniciativa British Bar, organizada por Pedro Cabrita Reis, inaugurou a sua sétima apresentação e nas montras estão até final do mês obras de Diogo Seixas Lopes, João Pedro Vale e Júlio Pomar.


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OUVIR - No ano de 1982 Manchester era uma cidade assolada pelo encerramento de muitas indústrias que a tinham tornado uma das mais prósperas zonas de Inglaterra A cidade estava em crise mas da crise nascia um importante pólo criativo, em torno da Universidade local, do clube The Haçienda e da ousadia criativa de Tony Wilson, que havia fundado a Factory Records ( a casa dos Joy Division, Durutti Column ou A Certain Ratio, entre tantos outros). Foi em 1982 que quatro rapazes, Steven Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce fundaram The Smiths, recusados pela Factory Records, mas que rapidamente se tornaram notados - graças ao génio de Morrissey e Marr e a uma outra editora independente, a Rough Trade. O primeiro álbum foi editado em 1984, chamava-se simplesmente “The Smiths” e incluía temas como "Reel Around the Fountain" e "The Hand That Rocks the Cradle". Quatro anos depois saíu o seu terceiro disco, por muitos considerado a sua obra-prima, “The Queen is Dead”, gravado no final de 1985 e editado em 1986. Na realidade The Smiths eram mais uma ideia, um estado de espírito musical, do que uma banda - e a esse nível a sua influência na música britânica estendeu-se ao longo das décadas seguintes. The Smiths era um estilo, uma maneira de escolher palavras (escritas e cantadas por Morrissey), sobre ideias musicais muitas vezes surpreendentes de Marr.“The Queen Is Dead” é talvez o disco que mais mostra essa faceta do seu trabalho. Agora, 30 anos depois, sai esta edição especial, que recupera o alinhamento original do álbum, numa nova masterização, junta-os a versões alternativas, gravações demo, lados B de singles, além da gravação de um concerto realizado em Boston em Agosto desse ano e ainda um DVD com um filme realizado por Derek Jarman e que é uma evocação de “The Queen Is Dead”. Caixa The Queen Is Dead, edição Warner, disponível na FNAC e El Corte Ingles.


 


PROVAR - Gosto de fruta da época e esta é a altura do ano em que os sabores explodem - das castanhas aos dióspiros, passando pelos marmelos, essa matéria prima excelente de tantos prazeres. Sem brejeirice, gosto de marmelos de quase qualquer maneira - como acompanhamento, cortados ou em puré, como sobremesa, cozidos em calda ou assados no forno. Mas, sobretudo, esta é a altura ideal para se confeccionar e comer as várias variadas de doçaria marmeleira. A geleia de marmelo, por exemplo, só é boa fresca - se fôr com nozes - outro fruto da época - melhor ainda. Umas panquecas com geleia de marmelo fresca por cima batem aos pontos qualquer outra combinação possível. Mas o melhor de tudo é comer marmelada fresca, sozinha, no pão ou, melhor que tudo, a acompanhar um queijo - pode ser um flamengo açoriano de boa qualidade, um queijo de S. Jorge (ainda melhor) ou um queijo de Serpa bem curado. O marmelo é um fruto duro e trabalhoso, demora horas a preparar e a cozinhar. Se não tiver paciência para isso, há uma solução em Lisboa no que toca a marmelada e geleia - a Confeitaria Cistér, na Rua da Escola Politécnica 101, frente à faculdade de Ciências e que foi fundada em 1838 sob o nome Confeitaria Portuguesa. Aí encontra aquela que os seus produtores dizem ser a melhor marmelada do mundo e uma geleia de marmelo que não lhe fica atrás. Divirtam-se com o Outono, ele é cheio de coisas boas.


  


GOSTO - Manuel Maria Carrilho, ex-Ministro da Cultura de Guterres,  foi condenado a quatro anos e meio de prisão por crime de violência doméstica contra Bárbara Guimarães.


 


NÃO GOSTO - Mário Centeno bloqueou a utilização da verba, dada em 2015 pelo então Ministro da Saúde, necessária para ampliar a capacidade do bloco operatório do Instituto Português de Oncologia em Lisboa


 


BACK TO BASICS - “A utopia está sempre dois passos à minha frente. Eu dou dois passos e ela afasta-se. Então serve para quê? Para eu continuar a andar”  - Eduardo Galeano.

outubro 28, 2017

IMAGENS PASSAGEIRAS NA TV E SUGESTÕES AVULSAS

 


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O ESTADO DAS TVs - Até agora, este ano, oito dos dez programas de televisão mais vistos foram emitidos pela RTP1 e têm em comum o facto de serem transmissões de jogos de futebol, quer da seleção nacional, quer de equipas portuguesas em provas internacionais. Os outros dois programas deste top-ten televisivo foram da TVI: um deles é também a transmissão de um desafio de futebol, no caso um jogo de preparação da seleção nacional, e o outro é “Pesadelo na Cozinha”. A SIC tem até agora apenas um programa no Top 15, a novela “Amor Maior”, na 14ª posição. Na média anual a RTP1 tem 12,3% de share, a SIC regista 16,4% e a TVI lidera com 20,4% . A RTP2, pelo seu lado, regista uma média de 1,5%. No cabo o líder é o CMTV com uma média de share este ano de 2,2%, seguido da SIC Notícias com 2% e a TVI24 com 1,5%. Mas estes dados devem também ser interpretados de um outro ponto de vista: como está a evolução do comportamento dos espectadores de televisão? No global, este ano em Portugal, cada espectador está a ver cerca de menos 25 minutos de televisão por dia do que acontecia no ano passado. E se os canais generalistas são os mais atingidos (RTP, SIC e TVI), a verdade é que também os canais de cabo não crescem ao ritmo da perda dos generalistas - o que está a aumentar é o consumo de outras formas de visionamento, nomeadamente as emissões na internet, em streaming, como a Netflix e outros - sobretudo o YouTube que em Portugal tem 4,8 milhões de utilizadores regulares e que algumas estimativas indicam ser a principal forma de visionamento de vídeos utilizado pelo segmento entre os 15 e os 24 anos. Como se vê pelos números do início desta nota são as transmissões em directo, nomeadamente as desportivas, que conseguem captar maior audiência. O resto, que pode ser visto em diferido em qualquer momento, vai gradualmente passando para segundo plano. É esta a realidade: a forma de ver TV está a mudar mais depressa do que se pensava vir a acontecer.



SEMANADA - Portugal lidera os rankings europeus de área ardida e é dos países que menos gasta no combate aos incêndios, metade da média da zona euro; segundo uma contabilização feita pelas autarquias nos recentes incêndios arderam 1400 casas e 510 fábricas, 1034 veículos e 1755 construções de diversa natureza; um milhão de bicas de resinas de pinheiros foram destruídas nos fogos deste ano, um número que representa 20% da área resinada em Portugal, e há  200 postos de trabalho em risco; os assaltos a caixas multibanco triplicaram nos seis primeiros meses do ano, em comparação com igual período do ano passado; o aeródromo municipal de Viseu registou no ano passado 9119 movimentos de aviões, em comparação com os 800 movimentos registados no aeroporto de Beja nos últimos seis anos; no ano passado registaram-se em Portugal, por dia, 61 divórcios e 89 casamentos; desde o início do ano os portugueses gastaram 97 milhões de euros por dia em compras com cartões multibanco; um estudo do Instituto Português de Administração e Marketing indica que Cristiano Ronaldo é o jogador mais valioso do mundo e também a marca mais valiosa - a marca Ronaldo cresceu quase 50% em relação ao ano anterior e já vale 102 milhões de euros; na campanha para as directas do PSD Rui Rio rejeitou a proposta do seu adversário, Pedro Santana Lopes, para que se realizem debates a dois em todas as distritais do partido; o Supremo Tribunal de Justiça reduziu as penas de prisão aplicadas a um casal que escravizou uma rapariga romena, durante mais de quatro anos, depois de a Relação as ter agravado.



ARCO DA VELHA - Um recente acórdão da Relação do Porto desculpa a violência doméstica em caso de adultério e os juízes escreveram preto no branco que  “se vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”.


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FOLHEAR - Cem anos passados sobre a revolução de Outubro já se consegue olhar de forma fria para tudo o que se passou. “Revolução de Outubro – Cronologia, Utopia e Crime”, de Manuel S. Fonseca, é uma cronologia dos factos políticos ou sociais reveladores do que se passou nomeadamente durante os meses que vão de Fevereiro a Outubro de 1917. O livro acompanha a revolução no dia a dia, do enforcamento do irmão de Lenine à morte do dirigente da revolução e entrada do seu corpo no mausoléo. Esta não é uma cronologia indiferente ou neutra: o autor arriscou ir buscar ao «lixo da História», para onde Trotski os quis lançar, o pensamento e os esforços dos revolucionários que queriam «toda a democracia» e recorda que Outubro pôs fim ao pluralismo da esquerda e à democracia participativa que a Revolução de Fevereiro criara na Rússia. Como pôde um partido minoritário e extremista tomar o poder no maior país do mundo? de acordo com Manuel S. Fonseca, sem a I Grande Guerra, não teria havido revolução, sem Lenine, a Revolução não teria sido em Outubro, sem o Terror Vermelho, o povo teria apeado os bolcheviques do poder. E sublinha: “Talvez a revolução tenha sido, afinal, uma contra-revolução, com tudo o que as contra revoluções trazem: ditadura, prisão, tortura, fome e morte”. A cronologia é acompanhada de extensa documentação fotográfica, o livro tem um surpreendente grafismo de Ilídio Vasco e ajuda, cem anos depois, a compreender aquele tempo e como foi possível em nome de um ideal que parecia nobre, criar o monstro - a tomada de poder, escreve-se nas conclusões, vem instilada pelo virus totalitário . Edição Guerra & Paz.


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VER - Os espelhos são objetos muito interessantes devido à sua capacidade de nos transportar a outras dimensões, permitindo-nos ver o que parecemos ser - selfies antes de existirem smartphones. Ao longo da História, o artistas recorreram aos espelhos com diferentes propósitos, ora para revelar ora para disfarçar aspetos das cenas que representam. “Do Outro Lado do Espelho”, título que remete intencionalmente para o mundo de Alice Liddell, a heroína de Lewis Carroll, é uma nova exposição no Museu Gulbenkian, constituída por 69 obras e está dividida em cinco núcleos temáticos, precedidos por três figuras introdutórias: uma escultura que funciona como convite à visita, uma pintura que introduz o tema da mostra e um espelho-objeto. Com curadoria de Maria Rosa Figueiredo, é uma exposição temática, que tem o espelho como foco principal e que pretende demonstrar a sua presença na arte europeia, sobretudo na pintura, mas também em obras com outros suportes, como escultura, arte do livro, fotografia e cinema, com obras de Eduardo Luiz, Cecília Costa, Noé Sendas (o autor da imagem aqui reproduzida) , Paula Rego, Richard Hamilton e Daniel Blaufuks, entre outros. Se fôr à Gulbenkian aproveite para descobrir “Ana Hatherly e o Barroco”, com curadoria Paulo Pires do Vale e que permite entender como a investigação e experimentação de Ana Hatherly revalorizou o período histórico do Barroco. Destaque ainda para a exposição que assinala os 30 anos da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2), com um mural colectivo, em azulejo, o suporte que é o foco de trabalho da Galeria fundada por Ana Viegas. Este mural evoca a Carta de Lisboa, uma iniciativa cívica do Fórum Cidadania e que gerou uma obra que contou com a participação de Lourdes Castro, Manuel Vieira, Pedro Proença, Jorge Martins, Andreas Stocklein e Sofia Areal, entre outros.


 


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OUVIR - Para assinalar o centenário do nascimento de Ella Fitzgerald foi lançado um disco que é o perfeito exemplo do que a manipulação tecnológica permite fazer. Com base em gravações de Ella Fitzgerald feitas entre 1950 e 1961,  a London Symphony Orchestra adicionou novas orquestrações que substituíram os arranjos originais onde na maior parte dos casos predominava o piano. Além da orquestra, a voz de Ella Fitzgerald, remasterizada digitalmente, ganhou novo acompanhante num dos temas, com Gregory Porter. As gravações originais, feitas em mono, deram um suporte precioso para esta manipulação, polémica, mas que em muitos momentos faz destacar a voz da grande senhora. O repertório escolhido percorre vários temas de Cole Porter, como “Misty," "Bewitched," "These Foolish Things (Remind Me Of You) e " "I Get A Kick Out of You”, assim como duetos com Louis Armstrong em "Let's Call The Whole Thing Off" e "They Can't Take Away From Me”. A última faixa, “With A Song In My Heart”, é um magnífico exemplo da extraordinária forma vocal de Ella na época das gravações originais, ao lado do pianista Elli Larkin. Ella Fitzgerald, with the London Symphony Orchestra - Someone To Watch Over Me, CD já disponível em Portugal.



PROVAR - Os doces e compotas portugueses têm melhorado muito nos últimos anos e cito aqui apenas o exemplo da produção da Quinta da Prisca. No entanto há ainda uma coisa que falta - um bom doce de laranja amarga, algo melhor que o da Casa de Mateus, que é, mesmo assim, o mais sofrível. O que é preciso é que alguém consiga igualar a qualidade dos doces feitos desde 1938 na Escócia pela empresa familiar Mackays - sobretudo a Dundee orange marmalade. As laranjas vêm da região de Sevilha e os potes de cobre, aquecidos a vapor, são feitos por artesãos locais. Como começou este doce de laranja de Sevilha no meio da Escócia ? No meio de uma tempestade um navio espanhol abrigou-se no porto de Dundee no século XVIII e o carregamento de laranjas de Sevilha foi comprado por um comerciante local que descobriu que as laranjas eram amargas. A mulher resolveu fervê-las com açúcar e assim nasceu o doce de laranja de Dundee. A mesma empresa produz também a Mackays vintage dundee marmalade, mais espessa, com casca em corte grosso, boa consiste para barrar torradas. À venda nos bons supermercados e na magnífica loja Ayur, na avenida Visconde Valmor 34, onde existem quase todas as variedades produzidas pela Mackays ( também vale a pena provar a de gengibre com especiarias).



DIXIT - “Convém que as escolhas de um primeiro-ministro não coincidam com as fotografias do livro de curso da sua classe de Direito de 1982 sempre que é preciso remodelar”- João Miguel Tavares.



GOSTO - Ricardo Araújo Pereira vai fazer vários espectáculos pelo país e doar a receita às famílias das vítimas dos incêndios.

NÃO GOSTO - De um sistema judicial que permite que juízes citem passagens bíblicas para justificar o injustificável.



BACK TO BASICS - Devemos estudar o passado se quisermos definir o futuro -  Confúcio


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 28 de Outubro)

outubro 20, 2017

OS INCENDIÁRIOS DA HISTÓRIA

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OS INCENDIÁRIOS DA HISTÓRIA - É uma terrível coincidência que dias depois de o Governo tentar fazer esquecer e subalternizar o relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande uma nova catástrofe tenha colocado ainda mais a nu o que então tinha corrido mal, e que agora se repetiu. Os spin doctors que na semana passada andaram a tentar colocar o relatório debaixo de resmas de assuntos saíram-se agora com uma teoria de conspiração terrorista que atribui à direita a autoria dos incêndios, como estratégia para enfraquecer o Governo da esquerda. Da Roma antiga à ascensão nazi na Alemanha a História está cheia de manobras destas e sabe-se o que elas provocaram. A conspiração que existiu foi a que mudou em Abril a maioria da estrutura de comando da Protecção Civil, trocando quadros experientes por boys inexperientes, da direcção nacional aos comandantes distritais, como o relatório que se queria esquecer diz claramente; a conspiração que existiu foi a de quem, contra as previsões metereológicas e conselhos de especialistas, desmobilizou a 1 de Outubro o dispositivo de combate a incêndios retirando operacionais e meios pesados, reduzindo praticamente a metade a capacidade antes existente. Nesta matéria Centeno e Costa têm responsabilidades - o primeiro porque com as sua austeridade camuflada apertou os ministérios e forçou poupanças perigosas e o segundo porque não resistiu ao apelo de umas nomeações de favor que uma governante incapaz executou com mais desvelo do que a sua missão principal, que é a de proteger os cidadãos. Os erros do passado, de várias décadas, contam a nivel estratégico (florestas, ordenamento, etc) mas os erros tácticos e conjunturais contam muito - e este ano foram múltiplos, com o desgraçado resultado que se conhece. Há o nível do ordenamento florestal, há o nível do combate aos incêndios e há o nível da proteção das vidas humanas. O Estado falhou em todos os níveis. O único terrorismo que aqui vislumbro é o terrorismo de Estado. Não podemos mudar o passado, mas podemos melhorar o futuro.


 


SEMANADA - Este ano já morreram mais pessoas em incêndios florestais que no conjunto dos últimos 15 anos; no orçamento de Estado de 2017, em vigor, o governo fez um corte de 12% nas verbas para meios de prevenção e combate a fogos florestais, em relação ao que estava no Orçamento de 2016; a Rede Nacional dos 236  Postos de Vigia à floresta foi desactivada a 1 de Outubro por fim do contrato a prazo dos elementos que os integravam; na mesma data o Governo reduziu para metade os meios de combate a incêndios, apesar das previsões metereológicas desfavoráveis; os gastos de gabinetes governamentais estimados no orçamento para 2018 estão acima dos verificados nos governos de Sócrates, que eram superiores aos verificados no governo de Passos Coelho; as novas despesas do Estado somam quase 500 milhões de euros em 2018; o corte no défice de 1% é todo feito pela via da receita, ou seja, mais impostos, taxas e taxinhas; o orçamento prevê um aumento de 2,6% nas receitas com taxas e multas, que atingirão 3 mil milhões de euros; aumento do orçamento do Ministério do Ambiente: 75,8%; aumento do orçamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros: 10,9%; aumento do orçamento do Ministério das Finanças: 18,7%; aumento do orçamento do Ministério do Planeamento: 20,1%; aumento do orçamento do Ministério da Cultura: 11,3%; aumento do orçamento do Ministério da Administração Interna: 5,9% aumento do orçamento o Ministério da Saúde: 2,4%; diminuição do orçamento do Ministério da Educação: 2,9%.


 


ARCO DA VELHA - Segundo o Tribunal de Contas a Administração central do Sistema de Saúde falseou tempos de espera a consultas e cirurgias nos hospitais e entre 2014 e 2016 mais de 27 mil doentes ficaram em lista de espera por uma cirurgia, dos quais 2600 morreram antes de serem operados.


 


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FOLHEAR - Em Portugal, como em muitos países com História e tradições, há variações idiomáticas regionais, que vão da pronúncia até à existência de  palavras e expressões que só se usam localmente - é o que acontece por exemplo em Trás-Os-Montes onde uma capilota é uma sova, um farsolento é um vaidoso, uma novilheira é uma pessoa que tem sempre novidades ou unguento pode querer dizer dinheiro. Por isso mesmo Cidália Martins, José Pires e Mário Sacramento compilaram o  “Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano”.  Com mais de 10 200 palavras e expressões típicas de Trás-os-Montes, desde o vocabulário em vias de extinção, passando pelo calão, pela gíria, até às palavras e expressões castiças reinventadas pela nova gente transmontana, este dicionário surge como  um valioso instrumento para dar a conhecer o vasto património da língua portuguesa cuja grande riqueza reside na sua diversidade. No prefácio, o Professor Adriano Moreira classifica este dicionário como “uma obra prática, leve e lúdica” e recorda que “ a língua é uma essencial expressão da identidade dos povos”, sublinhando que “o nosso idioma global também vive e renasce no singular, no que é específico de determinadas localidades, regiões, aldeias”. Edição Guerra & Paz.


 


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VER - Na Culturgest estão duas exposições notáveis, ambas com curadoria de Delfim Sardo, ambas exemplos da diversidade criativa norte-americana do final da década de 60 e década de 70 do século passado. Começo por “Splitting, cutting, writing, drawing, eating...Gordon Matta Clark”, que mostra o percurso de um dos mais marcantes artistas norte-americanos da sua geração - morreu em 1978 com 35 anos. Arquitecto de formação, Matta-Clark fez desenho, escultura, interviu em edifícios devolutos desconstruindo a sua estrutura e fez performance em espaços públicos - de que é bom exemplo o restaurante Food, um ponto de encontro de artistas, aqui recordado num filme de Matta-Clark e de Robert Frank (o fotógrafo da obra The Americans). A outra exposição, “Time Capsule”,  é dedicada à revista “Aspen”, um projecto fascinante criado em 1965 e que durou até 1971, publicando dez números, na época disponíveis apenas por assinatura. A publicação foi concebida como uma caixa dentro da qual vinham diversos materiais, uns impressos, outros gravados, como discos, e até filme em bobine. Cada número tinha um editor e  designer diferente e a Aspen tornou-se num espelho de novas tendências. A exposição mostra todos os números da revista a partir da colecção de António Neto Alves, que demorou cerca de uma dezena de anos a conseguir obter todas as edições. Para além dos exemplares da Aspen, a exposição contextualiza cada número com o auxílio de diverso material complementar. É sobretudo empolgante pensar como a “Aspen” foi criada a partir de um suporte tradicional em papel, que em diversas ocasiões juntou registos de som e de imagem, quase de forma premonitória em relação ao que hoje é possível fazer em publicações de suporte digital e distribuição na internet.  Imperdível, até 7 de janeiro.


 


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OUVIR - Miles Davis começou a gravar para a etiqueta Prestige em 1951 e em 1955, depois do êxito obtido no Festival de Newport, foi para estúdio com o seu quinteto e gravou, em três extensas sessões, realizadas no final de 1955 e em 1956, uma série de discos hoje considerados o ponto de viragem decisivo da sua música. “The Legendary Prestige Quintet Sessions” é uma caixa de quatro CD’s, originalmente editada em 2006, agora reeditada e disponível no mercado nacional. O disco 1 recolhe gravações editadas no LP “The New Miles Davis Quintet”, que incluía John Coltrane no saxofone, Red Garland no piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria, além de Miles no trompete. O disco 2 recolhe temas gravados nos LP’s “Relaxin’ With The Miles Davis Quintet” e “Steamin’ With The Miles Davis Quartet”. O disco 3 recolhe gravações dos LP’s “Miles Davis and the Modern Jazz Giants”, “Workin’ with the Miles Davis Quintet” e “Cookin’ With The Miles Davis Quintet”. O disco 4 recolhe gravações feitas em programas de rádio e televisão, que aqui tiveram a sua primeira edição em disco e também alguns solos de Davis registados durante as sessões de estúdio. As gravações foram remasterizadas a partir das fitas originais e a caixa inclui um livro de 52 páginas com um texto de Bob Blumenthal que permite enquadrar a forma como tudo se passou. Disponível na FNAC e El Corte Ingles.



PROVAR - A chef Luísa Fernandes ganhou fama em Nova Iorque, para onde foi aos 49 anos, depois de ter sido paraquedista e enfermeira: começou como pasteleira num restaurante português, o Alfama, e , depois de ter estado no Galitos, Park Blue e Nomad, terminou como Chef num dos mais prestigiados restaurantes nova-iorquinos, o Robert. Há menos de um ano regressou a Portugal e há poucos meses abriu junto à Avenida da Liberdade o seu próprio restaurante, “Peixe na Avenida”. Focado no tema do mar tem uma decoração sóbria e confortável. Ao almoço há uma proposta de menu executivo por 14 euros (entrada, um prato à escolha entre três propostas, sobremesa, bebida e café). À noite há uma carta com uma boa diversidade de propostas, que contempla incursões em, ceviche, sushi e sashimi, todos com um toque português. Numa recente visita a mesa provou atum braseado com escabeche de uvas e cebola roxa, ceviche de atum rabilho dos açores, sushi de atum com tempura de batata doce, pargo selvagem com batata vitelote e peixinhos da horta, bacalhau asiático com couve bok choi e arroz de bambu selvagem e ainda um bacalhau mais português, escalfado em azeite com esmagada de batata e nabiças. O destaque vai para o ceviche, o atum braseado e para o bacalhau asiático. A sobremesa foi uma tarte tartin de maçã servida com um surpreendente gelado de violeta. O vinho da casa é Quinta da Pacheca e revelou-se uma boa companhia. O Peixe na Avenida fica ao fundo da rua Conceição da Glória, no número  2, na esquina com a Avenida da Liberdade. Encerra à segunda, sábado e domingo aberto ao jantar. Telefone 309765939


 


DIXIT - “Como se estão a criar muitos compromissos futuros assentes numa economia de redistribuição, e não numa economia de investimento, temo que no futuro fiquemos na maré vazia e sem calções, como já sucedeu” - João Duque, professor do ISEG, sobre o Orçamento de Estado


 


GOSTO -  Da frontalidade da comunicação ao país de Marcelo Rebelo de Sousa na noite de terça-feira


 


NÃO GOSTO - Do cinismo da comunicação ao país de António Costa na noite de segunda-feira


 


BACK TO BASICS - «O Estado é o mais frio de todos os monstros. Ele mente friamente.  Da sua boca sai esta mentira: “Eu, o Estado, sou o povo.”» - Nietzsche.