outubro 13, 2017

O DESTINO MARCA A HORA

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TIC-TAC - O relógio da política, que estava parado há uns tempos, voltou a andar, as autárquicas deram mesmo um abanão ao estado das coisas. O PSD tem uma oportunidade de voltar a fazer oposição e o PCP já começou a mostrar que reactivou a política de rua - está visto que vamos ter mais greves nos próximos tempos. Cada um destes dois partidos procura recuperar a sua identidade, perdida no caso do PSD por uma incompreensão do que tinha mudado no país e, no do PCP, pelos travões que lhe foram impostos pela geringonça. No PSD a luta interna vai ser dura entre a ala de Rio, apoiado pela previsível velha guarda do partido e Pedro Santana Lopes, que quer uma renovação de pessoas e de ideias. Qualquer dos dois não está no Parlamento nem nos habituais poisos do regime - o que coloca em vantagem Santana Lopes, mais experiente a fazer comunicação fora do círculo institucional. Para além das pessoas o que está em causa tem a ver com o funcionamento dos partidos e do sistema político: quem quer dar mais voz aos cidadãos? Quem vai conseguir envolver e cativar simpatizantes, apoiantes, independentes, fazendo o partido crescer para além do seu aparelho? No fim do dia quem quer mesmo afirmar a diferença? Já se percebeu que de um lado está um candidato que prefere não aceitar perguntas de jornalistas, como Rio fez na apresentação da sua candidatura e, do outro, alguém que aprecia uma boa polémica e gosta de correr riscos, como Santana Lopes. Entre a pressão do PCP e o reviver do PSD António Costa vai ter um fim de legislatura mais agitado que esperava. Imaginou, talvez, que poderia ensaiar uns passos de dança com Rui Rio, pode ser que em vez disso lhe reste continuar a dançar o tango com Catarina Martins.


 


SEMANADA - O investimento público previsto no Orçamento de Estado de 2018 será inferior ao do último ano do governo de Passos Coelho e equivale a menos de 2% do PIB, que é o valor mais baixo da Europa; em 2016 o Estado concedeu cerca de 2500 milhões de euros em benefícios fiscais a entidades sujeitas a IRC; cem mil famílias não vão ter descida no IRS; nos últimos dois meses e meio verificaram se 29 assaltos à bomba a caixas multibanco; desde 2015 já ocorreram 215 insolvências de farmácias; a marca Elefante Branco, registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial,  está à venda por um valor base de  cinco mil euros; em Portugal realizaram-se 850 transplantes de coração em 30 anos, e o país está no 12º lugar europeu neste tipo de cirurgias; há 1672 obesos à espera de cirurgia adequada, mais 10% que no ano passado; a entidade reguladora da saúde recebeu 49 mil queixas nos primeiros oito meses do ano; em Portugal a penetração das redes sociais aumentou quase três vezes e meia entre 2008 e 2017, passando de 17.1% para 59.1%, segundo a Marktest; um milhão e 807 mil os portugueses costumam jogar online, segundo os resultados do estudo Bareme Internet 2017; o número de alunos cresce há quatro anos seguidos nas universidades privadas que este ano registaram 20 600 novas entradas; temos 140 reclusos por cada 100 mil habitantes e a idade média dos detidos é de 39,7 anos; a nova lei de estrangeiros já legalizou cadastrados violentos em Portugal.


 


ARCO DA VELHA- A concessionária dos cacilheiros, Soflusa, reagiu aos protesto dos utentes sobre os enormes atrasos devido à greve que afecta os seus barcos, pedindo paciência aos passageiros que se deslocam para o trabalho e sugerindo que evitem as horas de ponta.


 


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FOLHEAR - O futebol não é coisa que me excite - não acho grande graça ao assunto. Mas fico sempre fascinado pelo entusiasmo que suscita, pela paixão que se sente, e pelas conversas infindáveis que proporciona. O que se passa nalguns canais de televisão do cabo é sintomático - há uns rapazes que analisam a bola como se estivessem a analisar um tratado filosófico, outros que se insultam como se estivessem ébrios numa taberna e outros ainda que vibram como se estivessem num Indiana Jones. Reconheço que o futebol é bom motivo de conversas -  mas há há muito que recomendei ao meu barbeiro que não me falasse de futebol e se um taxista tenta começar num relato sobre o Jesus ou o Vitória desato a falar da uber e lá me vou safando. Mas sei que o futebol é uma paixão - que vem de miúdo quando se joga na rua, numa praceta, em qualquer lugar. “Houve um tempo em que o futebol era um prazer barato que se jogava ao domingo. Não era difícil que alguém se apaixonasse por aquele jogo de regras simples, com artistas que fintavam os adversários e marcavam golos” - esta descrição está em “Futebol, o estádio global”, uma nova edição dos Ensaios da Fundação Francisco Manuel Dos Santos, escrita por Fernando Sobral (declaração de interesse: meu amigo e companheiro de muitas páginas). Fernando Sobral fala da evolução do jogo, com o saber de um conhecedor e a distância fleumática de um atento observador que o caracteriza - e que lhe permite falar das relações entre futebol, marcas, economia, mídia, poder e política, sempre com uma frase de fundo: “para os adeptos o futebol é quase tudo”. Até eu fiquei mais interessado pelo futebol depois de ler este livro. “O futebol não tem fronteiras, acaba com elas”, como diz Fernando Sobral.


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OUVIR - Alfredo Rodrigo Duarte, Alfredo Marceneiro para toda a vida, nasceu em 1891. Marceneiro de profissão, tornou-se fadista por vocação e assim ficou conhecido. Tive a felicidade de o ouvir cantar e até, eu miúdo ainda, de o ouvir a falar à volta de uma mesa. Era um homem fascinante, uma voz impressionante e, sobretudo, um sentir especial que transmitia a cantar o seu fado. Até hoje nunca tinha percebido as semelhanças que existem, de facto, entre Camané e Marceneiro - tão distantes no tempo um do outro. Mas ao fazer um disco de homenagem a Alfredo Marceneiro, Camané expôs essa semelhança. E o maior ponto dessa semelhança é na alma, no tal sentir do que se canta. Logo na faixa de entrada, “Cabaré”, Camané canta ao que vem - não é a um despique, é a uma homenagem feita com a voz que faz ouvir o coração. Sou dos que considera Camané o grande fadista português surgido na segunda metade do século XX - para mim não há outro como ele na intensidade, na capacidade de interpretação, na comunicação que estabelece - na emoção que transmite - será isto o Fado? Ouvir estas versões de “Olhos Fatais”, “Ironia”, “Empate Dois a Dois”, “Despedida”, “Lembro-me de Ti” e, sobretudo “O Remorso” é  uma experiência extraordinária. Simples mas intenso, criativo mas respeitador, inesperado mas tradicional, Camané fez desta homenagem a Marceneiro o grande disco de Fado dos últimos anos. Destaque ainda para  a produção exemplar de José Mário Branco, para a guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o extraordinário trabalho de baixo de Carlos Bica. “Camané Canta Marceneiro”, CD Warner, disponível numa edição especial com CD e DVD ou apenas CD.


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VER - Lu Nan, fotógrafo chinês e correspondente da agência fotográfica Magnum mostra no Museu Berardo uma longa marcha, a preto e branco: "Trilogia - Fotografias (1989-2004)" inaugurou esta semana (na imagem) e é uma mostra parcial de um trabalho que Lu Nan realizou ao longo de 15 anos por toda a China. Dividida em três partes a exposição mostra a realidade dos hospitais psiquiátricos da China, segue depois a estrada da fé católica e termina com o dia a dia dos camponeses tibetanos. O curador desta exposição, João Miguel Barros, advogado português apaixonado pela fotografia (e pelos fotógrafos chineses em particular) escreveu que o inferno, o purgatório e o paraíso da "Divina Comédia" de Dante Alighieri não andam muito longe daqui."Lu Nan, Trilogia - Fotografias (1989-2004)" fica no Museu Coleção Berardo, CCB, em Lisboa, até 14 de janeiro, onde podem também ser comprados os três livros que compõem esta Trilogia: The Forgotten People: The Condition of China’s Psychiatric Patients; On The Road: The Catholic Faith in China e Four Seasons: Everyday Life of Tibetan Peasants. Passando para outra sugestão, ainda na fotografia, até 29 de Dezembro pode ser vista na Casa da América Latina uma exposição do trabalho de Daniel Mordzinski  que retratou dezenas de escritores ao longo da sua vida. Para mudar de registo o MAAT propõe uma exposição sonora - uma instalação áudio de Bill Fontana, “Shadow Surroundings”, baseada em gravações feitas no ambiente da ponte 25 de Abril.


 


PROVAR - Nesta altura do ano um fim de semana alargado no Douro é uma coisa verdadeiramente única. Há o Douro, as vinhas  de Outono que estão a mudar de côr, as quintas muito bem arranjadas, o acolhimento sempre simpático e descontraído em qualquer lugar. O norte, nessa matéria, é outro campeonato. Um pequeno exemplo: em Tonda, uma freguesia de Tondela, íamos à procura de um restaurante que nos tinham aconselhado, mas, por engano tínhamos antes entrado num pequeno café-restaurante a perguntar se era ali o local que procurávamos - que não, mas sorridentes disseram que este, simples, era melhor. Fugindo da recomendação fomos para o que o acaso nos tinha dado e encontrámos um espaço alegre e familiar onde nos serviram uma vitelinha de Lafões digna de nota - tudo isto se passou n’O Samarras,  Rua de Santo Amaro, Tonda. Mas o melhor dos dias estava para vir com a localização, em cima do rio Douro, da Quinta da Ermida, em Baião. Além do alojamento e dos fins de tarde à conversa em torno de um bom verde branco produzido na quinta, os jantares eram de cozinha antiga portuguesa - merece destaque a bôla servida como petisco de entrada, uns belos rissóis de carne , além de um frango do campo com batatas e arroz a trazer memórias de infância. Ali perto, também, ficou na memória A Casa do Almocreve, em Portela do Gôve, que proporcionou  um anho extraordinário de tempero e boa confecção. E mal ficaria se não evocasse aqui a prova de vinhos, tão bem explicada, na Quinta de Covela, em S. Tomé de Covelas. Destaque para o Rosé, para o Branco Escolha, e para a descoberta de um branco da casta local avesso, além dos tintos da Quinta das Tecedeiras. Se  a tudo isto somarmos uma noite de lua cheia reflectida no Douro ficam com uma boa ideia do que é um belo fim de semana.


 


DIXIT - “Neste momento os partidos têm todo o poder e os cidadãos nenhum” - Marina Costa Lobo


 


GOSTO - Segundo um estudo da ACEPI, mais de 91% da população portuguesa vai estar a utilizar a internet até 2025 e 59% farão compras online.


 


NÃO GOSTO - O consumo de antidepressivos em Portugal duplicou nos últimos quatro anos.


 


BACK TO BASICS - “Uma boa oportunidade é falhada pela maior parte das pessoas porque aparece vestida de fato macaco e é confundida com trabalho” - Thomas Edison.


(Publicado no Jornal de Negócios, Weekend, de 13 de Outubro de 2017)


http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/manuel-falcao/detalhe/20171013_1021_a-esquina-do-rio?ref=Opini%C3%A3o_grupo1


 


 

outubro 06, 2017

QUE FAZER? PROMOVER MUDANÇAS OU FOMENTAR INTRIGAS PALACIANAS?

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(esta imagem é um pormenor da obra "Interdito" da artista plástica Marilá Dardot)


 


AGORA? - Não tenho a certeza se a avaria política detectada no Domingo passado se resolve com uma simples reparação de motor, recauchutagem de pneu ou mudança de mecânico e condutor. O que aconteceu nestas autárquicas foi o sinal da crise que percorre o sistema político e partidário desenhado em 1974, entretanto desactualizado mas nunca adequadamente ajustado. A avaria maior foi detectada no lado direito do espectro partidário, com o PSD, mas teve também sinais fortes do lado esquerdo, com o PCP. A minha convicção é que este foi o sinal de um problema estrutural irreversível se se mantiver o quadro actual. Soluções antigas dificilmente resolvem problemas novos - como apresentar propostas diferentes de acordo com as questões contemporâneas, de adequar o discurso às novas formas de comunicação, conseguir atrair os eleitores mais jovens. Duvido que formas de organização antigas possam ajudar a solucionar o problema. Se quer sobreviver e ser relevante o PSD necessita urgentemente de criar um novo enquadramento, de analisar como se distanciou do eleitorado, qual a razão que o leva a ser  incapaz de mobilizar vontades, cativar independentes e criar propostas fora dos aparelhos partidários. Precisa sobretudo de uma clara definição ideológica e de um posicionamento político que seja mobilizador. Veja-se o que aconteceu em Lisboa: Assunção Cristas conseguiu falar para fora do seu partido, o PSD ficou a falar para dentro (na realidade nem para dentro conseguiu falar) e deixou muitos dos seus eleitores tradicionais fugir. O PSD tem o desafio de voltar a conseguir inserir-se na sociedade, a quem virou costas nos últimos anos. Importa mais saber o que se diz para fora de forma coerente e consistente do que entrar no jogo das habilidades tácticas conjunturais e exercícios de conspirações palacianas. O CDS deu um exemplo de mudança. Será o PSD capaz de fazer o mesmo?


 


SEMANADA - Em Lisboa  Fernando Medina perdeu 3 vereadores e a maioria absoluta; no Porto Rui Moreira obteve maioria absoluta; o PCP perdeu dez câmaras, entre as quais Almada, Barreiro e Beja; a análise dos fluxos de eleitores mostra que os votos das câmaras perdidas pela CDU foram para o PS; a CDU (PCP e PEV) ficou pela primeira vez abaixo do meio milhão de votos em todo o território; nestas autárquicas houve 17 movimentos independentes que ganharam câmaras, contra 13 em 2013; Tino de Rans obteve 6,22% de votos em Penafiel; em 2013 o PAN teve 16 mil votos, Domingo passado chegou praticamente aos 56 mil; 47 câmaras mudaram de côr nestas autárquicas - 16 passaram do PSD para o PS, 12 passaram do PS para o PSD, 9 passaram da CDU para o PS e 2 passaram do PSD para independentes; o PSD, sozinho ou em coligação, nunca tinha obtido tão poucas presidências de câmara desde o início das autárquicas, em 1976; o PS ficou com 159 câmaras, o PSD vai liderar 98; há mais de 40 anos que o PSD não tinha tão poucos votos; Passos Coelho anunciou que não se recandidatará à liderança do PSD; segundo a Marktest, a freguesia de Lamosa (concelho de Sernancelhe, distrito de Viseu) foi a mais participativa neste acto eleitoral pois 90.15% dos 203 inscritos apresentaram-se nas urnas; pelo contrário, a freguesia de Parada do Monte e Cubalhão foi a que registou maior abstenção, tendo votado apenas 29.89% dos 977 inscritos nesta freguesia.


 


ARCO DA VELHA - O candidato do PCTP/MRPP à Câmara da Moita, Leonel Coelho, prometia uma ruptura com o passado apesar de ter 82 anos - teve 667 votos, mais sete do que há quatro anos.


 


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FOLHEAR - A colecção Livros Amarelos, da editora Guerra & Paz, permite fazer uma leitura paralela de textos de dois autores que por alguma razão têm uma ligação entre si. O novo volume reúne, sob a orientação de Jerónimo Pizarro, a “Saudação a Walt Whitman” de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e o “Canto A Mim Mesmo” de Walt Whitman. Pizarro escreveu para esta edição curtas biografias de Fernando Pessoa e de Walt Whitman e ainda um ensaio, “Negação e Saudação”, que permite perceber o porquê de juntar os dois textos. Nele Jerónimo Pizarro recorda que o crítico literário norte-americano Harold Bloom escreveu que Fernando Pessoa foi considerado o maior herdeiro português de Whitman e é sugerido que o heterónimo Álvaro de Campos pode ter nascido desse fascínio que Pessoa tinha pela poesia de Walt Whitman e que ”toda a sua produção de 1914-e 1916, e não só, torna-se mais compreensível se a aproximarmos de Whitman”. Os dois poemas que esta edição reúne reforçam a comunhão poética entre os dois autores, e, como Jerónimo Pizarro diz, “vem precisamente convidar-nos a uma leitura dupla, permitindo neste caso revisitar Whitman para reler Pessoa”.


 


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VER - Prossegue o ciclo “British Bar”, uma ideia de Pedro Cabrita Reis que encontra nas três montras do estabelecimento do Cais de Sodré o seu ponto de exposição - peças de artistas plásticos que encaixam nas dimensões das três estreitas montras verticais, obras escolhidas pelo próprio Cabrita Reis - que está sempre presente no animado fim de tarde de apresentação de cada um destes projectos, que depois durante um mês ali estão expostos. Desde esta segunda-feira ali estão peças de Maria José Oliveira (“Macaco Miguel”, na imagem) e dois trabalhos de artistas mais novos - uma peça sem título de João Ferro Martins na montra da esquerda e outra da Fernão Cruz, “Apologizing studio#1”, na montra da direita. Trago mais duas sugestões e ambas partilham de uma mesma nota prévia: apresentadas em galerias privadas, são obras de inegável valor que parecem destinadas apenas a serem compradas por instituições, que as possam albergar nos seus acervos e esporadicamente mostrar. Começo pelo trabalho de Ana Jotta, que está na galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Intitulado “fala-só”, trata-se de um trabalho de grandes dimensões, em que o suporte é um rolo de tela que ao ser desenrolado vai mostrando movimentos de figuras humanas traçadas em esboço, que podem ser lidos como  momentos da evolução da espécie, evocando quase um storyboard cinematográfico através do desenho afirmativo e forte de Ana Jotta. A outra exposição, que manifestamente só vive de todas as peças e ambientes em conjunto, é da brasileira Marilá Dardot, está na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80) e é uma instalação que evoca a censura sobre a criação literária, a partir de uma lista de 900 livros censurados, proibidos ou apreendidos entre 1933 e 1974 em que uma representação tridimensional do objecto livro convive com a justificação dos censores para as suas proibições.


 


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OUVIR - O trio clássico de jazz - contrabaixo. bateria e piano - é uma das minhas formações preferidas. Para a coisa funcionar é preciso que os intervenientes sejam grandes músicos e, sobretudo, que consigam dialogar entre si e conjugar as suas experiências e vivências musicais. Depois de 30 anos a tocar com Keith Jarrett, com quem gravou duas dezenas de discos no Standards Trio (que incluía o baterista Jack DeJohnette), Gary Peacock decidiu em 2014 criar o seu próprio trio e escolheu o pianista Marc Copland e o baterista Joey Baron. O seu primeiro disco, dessa altura, foi “Now This” e agora saíu novo álbum, “Tangents”. Gary Peacock, agora com 82 anos, tem uma carreira de mais de seis décadas e nos anos 60 tocou com nomes da vanguarda dessa época, como Albert Ayler e Paul Bley. Depois dos anos com Jarrett, Gary Peacock retoma nesta sua nova formação as influências das diversas fases da sua carreira e sente-se que as suas experiências com Ayler deixaram marca que perdurou ao longo de todos estes anos. O novo disco, “Tangents”, tem onze temas: cinco deles são do próprio Gary Peacock, dois de  Baron, um de Copland, um outro uma improvisação assinada pelos três músicos e duas versões, ambas fantásticas - “Spartacus” de Alex North e “Blue In Greens” de Miles Davis e Bill Evans. O tema improvisado, “Open Forest”, é um dos momentos altos do disco, assim como a faixa título, “Tangents”, “December Greenwings”, a envolvente faixa de abertura “Contact” ou a energia que passa em “Tempei Tempo”. Este CD é um perfeito exemplo de um trabalho em que os músicos deixam espaço uns para os outros, com longos solos, permitindo que os temas se desenvolvam de forma natural - a experiência de todos os envolvidos subtilmente deixa a música ir para onde ela quer. CD "Tangents", Gary Peacock Trio, edição ECM, na FNAC.


 


PROVAR -  Há já muito tempo que João Portugal Ramos se dedicou a vinhos fora do Alentejo que lhe deu fama. Primeiro, em 2004, chegou à região do Tejo, com o Quinta do Vimioso, depois, em 2007, foi o Douro, com o Duorom e uma parceria com José Maria Soares Franco; no entretanto tinha começado a trabalhar as vinhas da Quinta da Foz do Arouce, na Lousã; e, mais recentemente, entrou no mundo dos vinhos verdes, da região de Monção e Melgaço. É nestes vinhos verdes que me vou focar. O primeiro Alvarinho acompanhado por João Portugal Ramos foi de 2012 e no ano seguinte saíu um Loureiro. Agora, a sua equipa, que inclui a enóloga Antonina Barbosa, apresentou duas novas propostas. A primeira é um Alvarinho Espumante Reserva Bruto Natural, de 2014, o primeiro espumante da sub-região apresentado como um Bruto Natural. Tem bolha fina e persistente e um longo final, marcado pela mineralidade do Alvarinho. A outra novidade é o Alvarinho Reserva 2015 que mantém a mineralidade, pontuado por um toque de madeira e notas frutadas, com um longo final - um vinho branco surpreendente. Aproveitem estes dias quentes, convidativos para um fim de tarde na companhia de qualquer destes vinhos.


 


DIXIT - “Não gostei da vitória esmagadora de Fernando Medina. Os lisboetas, como eu, sabem que não merecia. “Alindar” a cidade não é o que se pede ao Presidente da CML – e sentindo que todos os dias mais lisboetas são literalmente expulsos da cidade para os subúrbios, e que a cidade vive um caos que resulta das (erradas) prioridades da Câmara, esperava uma vitória ligeira, que lhe reconhecesse algum talento mas o obrigasse a ouvir quem vive na capital.” - Pedro Rolo Duarte


 


GOSTO - O MAAT teve mais de meio milhão de visitantes no primeiro ano de existência, que se completou esta semana.


 


NÃO GOSTO - A dívida pública ultrapassou os 250 mil milhões de euros.


 


BACK TO BASICS - “Um fanático é alguém que não muda de opinião, nem muda de assunto” - Winston Churchill.


 





setembro 29, 2017

DECLARAÇÃO DE VOTO: NOSSA LISBOA!

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CLUBISMOS - Os partidos têm marcas - melhor , são eles próprios marcas. Os mais antigos, que vieram de antes de 74 ou os que nasceram logo nessa altura, têm décadas de consolidação da respectiva marca. Por isso muitas vezes este efeito de marca passa por cima da análise racional das propostas e programas e do perfil dos candidatos. A coisa ainda se complica mais quando a afinidade a uma marca partidária se confunde com clubismo acrítico. Como se tem visto em anos anteriores, as autárquicas são um dos raros momentos onde esta lógica da fidelidade à marca pode ser abalada. A importância do perfil dos candidatos é importante, a experiência existente na equipa é relevante. E, depois, nas autárquicas há a possibilidade de escolher uma lista para a vereação, outra para a Assembleia Municipal, outra para a freguesia. O efeito clubista pode esbater-se na proximidade. Eu confio que isto possa acontecer em Lisboa - que os votantes habituais do PS olhem para Medina e vejam como ele privilegiou criar uma cidade bonitinha mas incaracterística e disfuncional, como preferiu agradar mais aos visitantes do que aos habitantes e como criou uma acção política baseada em deitar cimento em cima de cimento. Às vezes penso que no seu gabinete Medina olha para os lisboetas, para as queixas que ouve de quem não compreende as suas obras e, tal como na peça do dramaturgo Karl Valentim, interroga-se: “E não se pode exterminá-los?”. Esse é mais ou menos o programa de Medina para os que insistem em querer viver em Lisboa sem serem visitantes ocasionais. Bem sei que qualquer obra gera congestionamentos, mas também sei que aquilo que não é suposto é que os congestionamentos fiquem piores depois da obra terminada. Essa é a pedra de toque do medinismo: criar incómodo para quem vive em Lisboa. A finalizar, deixo uma declaração de interesse: para a Câmara Municipal vou votar em Assunção Cristas, que está mais preocupada com a vida de quem cá vive do que com o prazer de quem está de passagem. E é quem o faz de forma mais estruturada.


 


SEMANADA - Um estudo da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil indica que 65% das crianças portuguesas não comem a dose diária de fruta e legumes recomendada pela Organização Mundial de Saúde; um estudo da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro revela que os recintos escolares (incluindo vários renovados pela Parque Escolar) não têm espaço, equipamento e zonas verdes suficientes, existindo um défice de 80% em relação ao cenário ideal; segundo a Marktest  46%  dos portugueses segue figuras públicas nas redes sociais e Cristiano Ronaldo é quem tem maior número de seguidores, com Cristina Ferreira e Manuel Luis Goucha nas posições seguintes; os livros de actividades para meninos e meninas da Porto Editora voltaram a ser postos à venda; no espaço de um ano os portugueses gastaram 108 milhões de euros em jogo online; os diversos impostos pagos pelos contribuintes rendem cerca de 109 milhões de euros por dia ao Estado; o IMT, que incide na compra de imóveis, teve um aumento de receita de 24% até Agosto deste ano; os aeroportos portugueses receberam 16 milhões de passageiros entre Junho e Agosto; a investigação ao roubo de 57 pistolas Glock do quartel-general da PSP está parada; o Estado está a demorar, em média, 95 dias a pagar as facturas a fornecedores, um aumento de 25% em relação ao ano passado; um estudo da própria Câmara revela que a maioria das ciclovias criadas nos últimos anos em Lisboa, e que têm sido pouco usadas, já estão a precisar de obras.


 


ARCO DA VELHA - A decisão do ajuste directo, alegando “urgência imperiosa”, que a Câmara Municipal de Lisboa fez das obras de S. Pedro de Alcântara, por cinco milhões de euros à Teixeira Duarte, foi tomada antes de o LNEC ter emitido o parecer que lhe havia sido solicitado e que não aponta qualquer perigo iminente.


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FOLHEAR - Apesar do título este não é um livro sobre religião ou sobre o sentimento de culpa e o castigo. “Piedade Para Os Pecadores” é um romance sobre uma vida agitada no mundo empresarial e dos mercados financeiros, com diversas intrigas amorosas pelo meio. O seu autor é Manuel Lemos Macedo, um português que depois do 25 de Abril e da nacionalização da firma familiar foi para a Irlanda, onde estudou no University College de Dublin e, depois, nos Estados Unidos, na Columbia Business School. Posteriormente trabalhou em Paris e Madrid na banca de investimento e depois, em conjunto com a família Rothschild, criou em Lisboa uma sociedade financeira, da qual foi gerente. Em 1997 deixou os negócios, recolheu-se no campo (é natural de Tomar) e, segundo o próprio, dedicou-se à leitura, ao convívio com amigos e à escrita. Em 2004 publicou “A Vida É Um Sonho” e, agora, este “Piedade Para os Pecadores”. O primeiro livro abordava o impacto que as mudanças estruturais em Portugal na década de 70 tiveram na sociedade  - é uma obra sobre a natureza humana e a decadência. Este “Piedade Para Os Pecadores” conta a história de um filho-família que dirigia uma firma com 3000 funcionários e que, depois do 25 de Abril, decide mudar de vida, indo para Paris com a intenção de se “pôr à prova”. Entra nos mercados financeiros e as aventuras na bolsa misturam-se com as aventuras românticas - poderia ser uma autobiografia, atendendo à vida do autor, mas Manuel Lemos Macedo diz que qualquer semelhança do livro com a realidade é pura coincidência. E mais uma vez é uma história que oscila entre a rebeldia, a descoberta, o diletantismo e algumas lições de moral avulsas, no fundo numa escrita datada. Edição Guerra & Paz.


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VER - Andrea Baginski é uma galerista que tem apostado na divulgação de artistas portugueses contemporâneos, mas também em trazer a Lisboa a obra de artistas sul-americanos - nomeadamente do Brasil, o seu país de origem. Na semana passada abriu a sua galeria ao Chile, com a apresentação de “La Mano Invisible”, de Patrick Hamilton (na foto), um chileno com ascendentes irlandeses.  É uma exposição assumidamente política, a começar pelo nome, que evoca o conceito desenvolvido por Adam Smith sobre a capacidade autorreguladora do mercado livre. As relações entre o trabalho e a economia e o seu cruzamento com a história são os pontos de partida do artista. Visualmente impactante, repleta de metáforas visuais, usando técnicas que remetem para o mundo do trabalho manual e para o dia a dia das sociedades contemporâneas, “La Mano Invisible” é uma das mais interessantes exposições deste ano. Até 4 de Novembro na Galeria Baginski, Rua Capitão Leitão 51. Outras sugestões: na Quadrado Azul “Provas de Contacto 1972-1980”, que mostra como Ernesto de Sousa, nesses anos, utilizou a fotografia como meio de expandir a sua criação artística (Rua Reinaldo Ferreira 20A até 16 de Novembro); destaque também para a nova mostra de trabalhos de pintura de  João Queiroz na Galeria Vera Cortês, até 11 de Novembro (Rua João Saraiva 16, Lisboa); na Fundação Carmona e Costa até 4 de Novembro desenhos de Jorge Pinheiro (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1- 6º); e finalmente n’A Pequena Galeria uma exposição sobre fotografia de moda, com trabalhos de Carlos Ramos, Ana Trindade e Nuno Beja, comissariada por Luísa Ferreira sob o título “3 na Moda” (até 14 de Outubro, Av 24 de Julho 4C).


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OUVIR - Filipe Monteiro deu nas vistas há uns anos nos Atomic Bees, a banda onde também estava Rita Redshoes. Devoto da guitarra, mas também praticante do piano, deixou-se depois apaixonar pelo video e durante uma série de anos trabalhou com nomes como os Da Weasel, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia, entre outros. Com eles produziu videoclips, dvd’s e documentários. Ao mesmo tempo fazia o gosto à música como convidado em estúdio ou em palco, fez arranjos e produziu “Golden Era” e “Lights & Darks” de Rita Red Shoes. Agora finalmente Filipe Monteiro regressa em nome próprio aos discos - aliás sob a designação Tomara e o título genérico “Favourite Ghost”. É um disco de ambientes, surpreendente pelos arranjos inesperados, pelos contrastes sonoros, pelo equilíbrio entre as partes instrumentais e as vocalizadas, no fundo um exercício de bom gosto. “Coffee And Toast”, a primeira canção, é a narrativa de um dia que é o guião de uma vida. “Favourite Ghost”, a faixa que dá o nome ao álbum, é uma deliciosa canção de amor e romance e em “For No Reason” percebe-se porque é que a guitarra é o instrumento de eleição de Filipe Monteiro e um cartão de visita das suas qualidades como compositor. Finalmente “House”, cantada por Márcia, é uma espécie de regresso às origens, um fim que parece anunciar um novo princípio. Disponível em CD e no Spotify.


 


PROVAR -  Conseguir conciliar conforto, bom serviço, uma vista magnífica, produtos frescos e boa confecção é uma coisa cada vez mais rara em Lisboa. Junto ao rio, na zona da Doca de Belém, tudo isto se junta no restaurante do Clube Naval. Em baixo está a esplanada e em cima fica uma sala confortável e um terraço, fechado, de onde se avista o Tejo e a margem sul, em frente a Belém. Ainda no primeiro piso existe a chamada Sala dos Sócios, que alberga a colecção de troféus do Clube e uma ampla mesa que pode receber até umas vinte pessoas - disponível apenas por reserva, com preço à parte. Por falar em reservas a esplanada de rua não aceita reservas mas o restaurante do primeiro piso sim, e vale a pena fazê-lo, sobretudo ao fim de semana. Duas recentes visitas permitiram provar, nas entradas, um carpaccio de novilho que estava bom e uma salada de polvo muito boa. Dos pratos principais provaram-se uns filetes de peixe galo com arroz de lingueirão, uns filetes de polvo com migas de batata doce, ambos acima das expectativas, e um robalo grelhado, fresquíssimo e de boa confecção, acompanhado de legumes abundantes (podiam estar um bocadinho menos cozidos…). O caril de lavagante com gambas tem boa fama, mas não foi provado. Os preços são honestos, tendo em conta a localização e o bom serviço. Avenida de Brasília, Doca Seca de Belém, Edifício do Clube Naval, Belém, telefone 308 803 749.


 


DIXIT - Tancos é o novo fenómeno do Entroncamento - João Miguel Tavares


 


GOSTO - Dois cientistas portugueses descobriram o mecanismo que ajuda a perceber a razão das alterações no cérebro dos doentes com Parkinson


 


NÃO GOSTO - Este Verão houve 25 incêndios causados por foguetes


 


BACK TO BASICS - “No passado a censura funcionava porque bloqueava o fluxo de informação; no século XXI funciona inundando as pessoas com informação irrelevante” - Yuval Harari


 





setembro 22, 2017

A QUEM FAVORECE A ABSTENÇÃO? A QUEM NÂO QUER QUE AS POLÍTICAS SEJAM JULGADAS PELO VOTO

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CAMPANHA - E pronto, começou a campanha eleitoral. O Governo entrou nela a pés juntos com promessas de redução da carga fiscal, os autarcas em exercício com inaugurações e, nalguns casos, como o de Medina, com promessas por cumprir e muitas obras por acabar, além dos engarrafamentos que vão aumentando. Os eleitores começam a estar fartos destas aldrabices. Querem ver? - Desde 1976 realizaram-se em Portugal 11 eleições autárquicas e nestes 41 anos, a taxa de participação eleitoral foi descendo depois dos primeiros entusiasmos, o que diz alguma coisa sobre o relacionamento de eleitos com eleitores.  Na primeira eleição a participação foi de  64.55% dos inscritos, na eleição seguinte, em 1979, esse valor subiu para 73.77% e ainda se manteve acima dos 70% nas eleições de 1982. A partir dessa data a participação foi diminuindo com o valor mais baixo de sempre a registar-se  nas últimas eleições, de Setembro de 2013, onde  participação andou pelos 52,6%, com 6,8% de votos brancos e nulos. Ou seja a maioria dos eleitores não votou em nenhum candidato. Há uma minoria que elege e a maioria da classe política não se incomoda com o assunto porque a abstenção é a garantia de que não há sobressaltos nem alteração do status quo partidário vigente. Os incumbentes preferem que a abstenção continue o seu caminho e lhes garanta o lugar por arrasto. Por isso Medina não se importa que haja menos habitantes e menos eleitores em Lisboa. Até lhe dá jeito.


 


SEMANADA - Segundo o INE, o número de pessoas entre os 20 e 34 anos que habitam em Lisboa passou de 95.830 em 2011 para 67.916 em 2016, uma diminuição de 29%, sendo assim o concelho onde o número de jovens adultos mais diminuiu; o número de licenciados do ensino privado caiu 41% em dez anos; Azeredo Lopes não esclareceu na Assembleia da República se houve ou não assalto aos paióis de Tancos; o Bloco de Esquerda propôs que jovens com mais de 16 anos possam processar os pais que não aceitem a sua vontade de mudarem de sexo; Mário Centeno apressou-se a explicar que afinal o prometido alívio fiscal no IRS , que ele próprio tinha anunciado, não se destina a todos os contribuintes; o primeiro ministro admitiu que Portugal pode apresentar uma candidatura à presidência do Eurogrupo; na primeira semana de entrada em vigor de nova legislação sobre imigração deram entrada 4000 pedidos de autorização de residência de estrangeiros em Portugal; o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não recebeu informação sobre os suspeitos do processo brasileiro Lava-Jato e alguns deles pediram vistos Gold; as receitas do IMI cresceram 150% depois da avaliação arbitrária e unilateral dos imóveis pelo Estado; em ano de eleições autárquicas as Câmaras Municipais já arrecadaram mais 100 milhões de impostos até Julho do que em igual período de 2016; “proibir os jogos de futebol nos dias em que há eleições é mais uma boa ideia para levar os portugueses à abstenção” -  escreveu Miguel Esteves Cardoso.


 


ARCO DA VELHA - Dos 21 relatórios encomendados pelo Governo sobre o incêndio de Pedrogão nenhum atribui culpas a quem quer que seja sobre o ocorrido nas mais diversas áreas, das comunicações ao comando das operações, passando pela actuação das forças de segurança ou dos organismos de coordenação e prevenção.


 


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FOLHEAR - A revista Wallpaper foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, que a dirigiu até 2002 e desde o início a publicação convida nomes conhecidos das artes, da arquitectura, do design ou da moda para editar o número de Outubro. Este ano, para assinalar o 21º aniversário da Wallpaper, revisitam-se os 21 convidados, entre os quais Karl Lagerfeld, Philippe Starck, David Lynch, Louise Bourgeois, Robert Wilson, os Kraftwerk, Lang Lang, Frank Gehry, Jean Nouvel, Jeff Koons Hedi Slimane e Dieter Rams, entre outros. E a todos os possíveis foi pedida uma ideia nova para esta edição. A capa , aqui reproduzida, foi concebida pelo atelier Zaha Hadid a partir de um modelo gráfico gerado em computador. É um prazer ver que neste tempo de crise da imprensa e das dificuldades em obter publicidade para muitas revistas, as 44 páginas iniciais desta edição da Wallpaper são publicidade de algumas das maiores marcas mundiais de moda e design - e ao longo das 420 páginas muitas são de publicidade. Destaco nesta edição na área da arquitectura (a transformação de um silo de armazenagem em museu na Cidade do Cabo para acolher arte africana contemporânea), das artes plásticas (Miguel Barceló e o japonês Takashi Murakami) ou do design (o nonagésimo aniversário da prestigiada marca italiana de mobiliário Cassina). À margem, um dos artigos mais curiosos é sobre o design das embalagens de medicamentos e produtos farmacêuticos, desde as primeiras embalagens de Aspirina aos logotipos de alguns laboratórios ao longo dos tempos. Outro artigo curioso mostra uma vinha e uma adega no Japão, uma experiência pioneira naquele país. Para rematar há um destaque português, dedicado aos sabonetes Claus, do Porto.


 


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VER - André Gomes usa a fotografia como instrumento de construção de ficções que traduz em imagens. Durante anos trabalhou a partir de polaroids e nos tempos mais recentes passou a utilizar imagens fotográficas digitais que usa depois como base para manipulação, muitas vezes criando colagens electrónicas. Esta semana apresentou os seus dois mais recentes trabalhos, o pequeno ensaio “Numa Noite Igual” e, sobretudo,  “Casa da Estrada” - um projecto que conta uma história imaginada, ocorrida entre os kms 35 e 36 da Estrada Nacional 332, no distrito da Guarda. A “Casa da Estrada”  evoca uma narrativa mística, inspirada por citações dos evangelhos , cruzada com imagens aparentemente banais mas com um grau de construção assinalável, criando uma sucessão de ambientes e situações onde o real e o artificial se misturam. Não deixa de ser curioso pensar que André Gomes, com uma carreira no teatro a interpretar personagens imaginadas, transpõe para um suporte aparentemente tão reprodutor da realidade, como é a fotografia, a ideia da fantasia através da encenação da imagem.  Até 21 de Outubro na Galeria Diferença, Rua São Filipe Nery 42. Outras sugestões: em primeiro lugar, no Porto, na Galeria Quadrado Azul, Paulo Nozolino expõe até 16 de Novembro “Loaded Shine”  que reúne 20 fotografias feitas entre 2008 a 2013 em locais tão diferentes como Nova Iorque, Paris, Berlim e Lisboa, mas também lugares no interior de França e de Portugal; depois, em Lisboa, na Plataforma Revólver, “Lights, Camera, Action”, do francês Renaud Monfury, mostra uma série de fotografias que retratam o mundo do cinema; e finalmente, no Centro Cultural de Cascais, “Em Plena Luz”, uma centena de fotografias do norte-americano Herb Ritts, essencialmente sobre estrelas do cinema, da música e da moda, em exposição até 21 de Janeiro.


 


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OUVIR - Nos últimos tempos tem-se assistido a um renascer das edições de discos em vinil, muitas vezes a partir de originais remasterizados, com prensagens de alta qualidade que utilizam vinil virgem de grande densidade. Para dar resposta a este público crescente - basta ver o aumento do tamanho das prateleiras de vinil nas lojas de discos como a FNAC e El Corte Ingles - a Warner lançou seis títulos que são clássicos da música portuguesa dos últimos 30 anos. Cinco deles são editados pela primeira vez em vinil - três são de Madredeus e três de Mariza.” O Espírito da Paz”, primeiro disco de Madredeus, foi originalmente publicado em 1994 e, na altura, teve uma tiragem em vinil limitada a 500 cópias e ressurge agora remasterizado. Dois outros títulos de Madredeus agora lançados surgem pela primeira vez em vinil: o álbum de remisturas “Electrónico”,  de 2002, onde a música do grupo foi revista por produtores como Craig Armstrong, Manitoba ou Telepopmusik e a recolha de êxitos “Antologia”, lançada em 2000. Quanto a Mariza, três dos seus álbuns vêem agora primeira edição em vinil: “Fado Em Mim” , de 2001, que foi a estreia da cantora ( e que inclui “Ó Gente da Minha Terra”), “Mundo”,  de 2015, que é o seu mais recente trabalho de estúdio, e o “Best Of” de 2014, que junta três inéditos a 17 êxitos da carreira de Mariza. Acreditem que quando ouvirem qualquer destes LP’s numa boa aparelhagem vão descobrir nestes discos de vinil  uma sonoridade diferente.


 


PROVAR -   Como alguns leitores já terão notado um dos passatempos que me ajuda a descontrair é cozinhar e ir descobrindo possibilidades na combinação de sabores. Ora para cozinhar não são precisas muitas coisas além de boa matéria prima, mas há meia dúzia de utensílios que ajudam muito o trabalho de amadores como eu, que gostam de estar sozinhos na cozinha. Confesso que sou fascinado por gadgets de cozinha - desde tábuas de cortar a mandolinas, passando por pinças até peças sérias como as panelas de ferro da Creuset para lume e forno, as frigideiras De Buyer, ou as assadeiras redondas de ferro fundido, fantásticas para levar ao forno o que se começou a preparar na chama do fogão, ou mesmo simples panelas de bambu para cozer a vapor. Não é fácil encontrar tudo isto num só lugar mas, há pouco tempo, descobri na Avenida 5 de Outubro, junto ao cinema Nimas, a filial lisboeta da casa César Castro, originalmente do Porto, e que se dedica a ter todos os utensílios possíveis e imaginários para utilizar na cozinha, com pessoal competente para esclarecer dúvidas. Não poucas vezes, depois de ler uma receita no site www.epicurious.com ,  é lá que me dirijo para procurar alguma coisa que me faz falta para garantir que o preparo sai bem feito. Claro que esta mania coleccionista gera problemas de falta de espaço na cozinha doméstica, mas com jeitinho e paciência tudo se consegue. E com o material adequado o resultado final do cozinhado é bem melhor. www.cesar-castro.pt .


 


DIXIT - “Entrar aqui um grupo de políticos ou de turistas é a mesma coisa: nunca nenhum me comprou um peixe” - Cristina Jesus, peixeira em Matosinhos, sobre as incursões de caravanas partidárias no Mercado durante as campanhas eleitorais.


 


GOSTO -  Da presença de artistas portugueses fora de portas: José Barrias expõe “collezionista de echi” na Nuova Galleria Morone em Milão, Cristina Ataíde está em Madrid na Estampa 2017, na Galeria Magda Bellotti, e Pedro Calapez está em Palma de Maiorca com “”El Límite Ubiquo”na Galeria Maior.


 


NÃO GOSTO - Segundo a Anacom, desde Abril de 2011 que os preços das telecomunicações crescem mais em Portugal do que na União Europeia.


 


BACK TO BASICS - “Aqueles que vos fazem acreditar em coisas absurdas são os mesmos que depois cometem atrocidades” - Voltaire


 


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setembro 15, 2017

SOBRE A ARTE DO MALABARISMO EM CONCURSOS PÚBLICOS (E AS OPORTUNIDADES IMOBILIÁRIAS LISBOETAS)

 


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 MALABARISMOS - Depois de um período inicial de bom senso, que há uns tempos anda desaparecido, os concursos públicos têm vindo a transformar-se num mundo de opacidade com vários escalões. Alguns escritórios de advogados especializaram-se em criar cadernos de encargos que são uma espécie de encomenda feita à medida para determinado interessado, obviamente a mando da entidade que organiza a consulta, sobrepondo habilidades jurídicas a questões técnicas básicas. Noutros casos as entidades que lançam os concursos resolvem sobrepor-se à apreciação técnica dos júris que nomearam e fomentam justificativos jurídicos, devidamente fundamentados em extensos pareceres que são elaborados de forma a encaminhar a decisão numa determinada direcção, mesmo que não seja aquela que melhor dá resposta técnica aos objectivos do concurso. Tornou-se rotina não haver coerência na apreciação das propostas, na interpretação das regras, não há sequer respeito pelo trabalho desenvolvido. O que nuns casos se aceita em relação a um concorrente, não se aceita noutros casos; o que se tornou regra numa série de concursos passa a ser penalizado noutros. Por isso conheço cada vez mais gente que hesita apresentar propostas a concursos públicos. É mais um sinal da degradação do Estado.


 


SEMANADA - A Comissão Nacional de Eleições já recebeu 450 queixas por causa das autárquicas, 160 delas sobre a “neutralidade e imparcialidade das entidades públicas”; apesar de Domingo ser o dia tradicional dos grandes jogos de futebol, a Comissão Nacional de Eleições desconhecia o facto e mostrou-se surpreendida pela realização de um Sporting-Porto no dia das autárquicas; segundo a Marktest, em Agosto, 52% do tráfego na internet em Portugal foi gerado por PCs (desktop ou portáteis) e 48% por equipamentos móveis, o que representa um aumento de dez pontos percentuais na utilização de smartphones e uma diminuição igual na de PC’s, em relação ao mesmo período do ano anterior; das dez câmaras mais endividadas, oito – Fornos de Algodres, Nordeste, Cartaxo, Vila Franca do Campo, Portimão, Nazaré, Alfândega da Fé e Paços de Ferreira – estão sob a alçada do PS e duas – Fundão e Vila Real de Santo António – do PSD; o número de jovens entre os 15 e os 29 anos que não trabalham nem estudam passou de 11 para 20,8% entre 2000 e 2016; mais de metade da população activa portuguesa não tem sequer o ensino secundário; 14 mil enfermeiros saíram de Portugal desde 2010; um julgamento sobre corrupção no futebol, envolvendo manipulação de jogos sobre os quais eram feitas apostas, está em risco de nulidade por falta de traduções; nos últimos seis meses os portugueses gastaram 1,5 mil milhões de euros em apostas e jogos diversos.


 


ARCO DA VELHA - Numa época de crescente especulação imobiliária em Lisboa Fernando Medina conseguiu inverter a tendência - vendeu o apartamento que tinha há dez anos com um ganho de 36%  e comprou outro por menos 23% do que a vendedora tinha pago por ele, também há dez anos. É o que se chama ter acesso a boas oportunidades.


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FOLHEAR - O British Journal of Photography foi fundado em 1854 e inovação e invenção são duas palavras que podem caracterizar a revista. Uma das melhores demonstrações desse espírito é a iniciativa “Portrait of Britain”, que este ano promoveu pela segunda vez. A ideia é simples: a revista pede aos seus leitores para enviarem imagens que mostrem a multiplicidade e diversidade da sociedade britânica este ano enviaram oito mil imagens.  A partir destes envios são seleccionadas cem fotografias que depois são exibidas, durante o mês de Setembro, numa rede de anúncios de exterior digitais, mupis da JC Decaux, em estações de transportes públicos, centros comerciais e nas ruas em todo o Reino Unido. Na sua edição de Setembro a revista mostra uma selecção dos melhores trabalhos e , acima de tudo, procura mostrar cidadãos vulgares no seu dia-a-dia, fotografados por outros cidadãos. Ainda na edição de Setembro pode ser visto um trabalho sobre alguns editores de fotografia cujo trabalho é escolher quem vai fazer as imagens de que necessitam e que critérios presidem às suas escolhas. Há também dois portfolios muito interessantes - Mathieu Pernot mostra o resultado do trabalho feito ao longo de duas décadas com uma família romena que emigrou para o sul de França e Rob Honstra fala de “Man Next Door”, um trabalho sobre o seu vizinho, que ele documentou fotograficamente ao longo de uma década. Finalmente outro destaque da edição é uma entrevista a Quentin Bajac, o novo responsável pela fotografia no MOMA de Nova Iorque. A revista já está à venda em lisboa e a edição digital pode ser adquirida em  http://www.bjp-online.com .


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VER - Esta semana todo o destaque vai para o Porto. Em primeiro lugar, Serralves, onde está até 7 de Janeiro a exposição Jorge Pinheiro: D'après Fibonacci e as coisas lá fora” (na imagem). Apresentada como um projecto de Pedro Cabrita Reis com o próprio Jorge Pinheiro, a exposição reúne desenhos, pinturas e esculturas do autor e a sua instalação foi concebida pelo arquitecto Eduardo Souto Moura. O diálogo estreito entre Jorge Pinheiro e Cabrita Reis conduziu à seleção de 80 obras datadas de períodos específicos do percurso de Pinheiro, desde os anos 1960 até ao presente. A exposição inclui ainda uma nova escultura produzida especialmente para ser mostrada em Serralves. O catálogo que acompanha a exposição reproduz, além das obras expostas em Serralves, os cerca de 90 desenhos que integram uma exposição na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, a partir de 23 de Setembro. contextualizadas por uma entrevista de Jorge Pinheiro conduzida por Cabrita Reis e um ensaio do poeta e crítico de arte João Miguel Fernandes Jorge. Ainda no Porto o Centro Português de Fotografia (na antiga Cadeia da Relação), lança um desafio: Quem é que já viu uma prisão do lado de dentro? Assim surgiu “the portuguese prison photo project” que procura  transmitir uma visão das prisões contemporâneas e históricas de Portugal.  A exposição é feita a partir de imagens contemporâneas captadas por dois fotógrafos, o português Luis Barbosa e o suíço Peter M. Schulthess, em 2016 e 2017, complementada por imagens históricas pertencentes aos arquivos nacionais. Até 3 de Dezembro. Podem ver várias das imagens expostas em www.prisonphotoproject.pt . Outras sugestões: na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38), a exposição Ouvidos No Deserto, trabalhos em papel de Marco Pires; na Fundação Gulbenkian videos, fotografias e serigrafias de Marie José Burki .


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OUVIR - Tori Amos leva quinze discos de originais no activo, desde que começou a sua carreira discográfica em 1988. Depois de em 2014 ter lançado o belíssimo “Unrepentant Geraldines”, Amos regressa agora com “Native Invider”, basicamente construído como reflexo da América que está a desenhar-se depois da vitória de Donald Trump nas presidenciais. Mas para além de uma visão sobre os Estados Unidos, “Native Invider” aborda também, como é tão presente na obra de Tori Amos, a sua relação com a vida e a dor. Amos conta que a ideia deste disco lhe começou a surgir numa viagem às Smoky Mountains, na Carolina do Norte, de onde a sua família é originária,e que a parte mais pessoal tem a ver com a sua própria mãe, que hoje tem dificuldade em comunicar com o mundo exterior. Incomodada com o estado da nação, entristecida pela decadência física da sua mãe, Tori Amos não poupa palavras neste disco e exprime com intensidade as suas emoções. “Native Invider” tem 15 faixas  e algumas das mais marcantes seguem a linha das intensas baladas de voz e piano que são a imagem de marca de Tori Amos - “Reindeer King” (talvez a mais arrebatadora), “Bang” e “Mary’s Eyes”. “Broken Arrow” e “Up The Creek” mostram uma incursão inesperada nas influências da música country e “Wildwood” e “Wings” somam considerações políticas com emoções pessoais, assim como “Breakway” ou “Chocolate Song”. O disco está disponível no Spotify.


 


PROVAR - Há uns tempos que andava com curiosidade de experimentar a Enoteca de Belém, local que me era recomendado por diversos amigos. O local é pequeno, tem poucas mesas, fica numa pequena travessa perto dos Pastéis de Belém, na mesma rua da Galeria da Ermida da Nossa Senhora da Conceição. Aliás a Galeria e a Enoteca são parte do projecto Travessa da Ermida que quer combinar arte com gastronomia e provas de vinhos. Quando se entra na Enoteca a primeira coisa que salta à vista é a variedade de bons vinhos expostos, em prateleiras que vão até ao cimo das paredes - os clientes são convidados a usar uns binóculos de ópera que a casa cede para lerem os rótulos das garrafas mais distantes. A casa tem cerca de uma centena de vinhos e muitos deles podem ser servidos a copo, proporcionando experiências diferentes ao longo da refeição. A cozinha é de inspiração portuguesa com confecção contemporânea - dispensavam-se as espumas da moda. Nesta incursão provou-se com agrado um atum fresquíssimo, no ponto, sobre uma cama de brócolos, anchovas e camarão e um lombo de garoupa muito bem confeccionado com arroz de ameijoas em molho bulhão pato. O chefe ofereceu um amouse bouche interessante - uma mini salada de polvo servida em cone e o couvert inclui uma belíssima manteiga de ovelha. O vinho escolhido foi um branco Casal Santa Maria, de Colares, que estava impecável - embora de início o serviço de vinho fosse desatento. Outras sugestões possíveis são polvo com batata doce, chouriço e molho de ervas ou, na carne, um magret de pato com risotto de cogumelos. O espaço reduzido e a invasão turística aconselham a que se faça reserva. Enoteca de Belém, Travessa do Marta Pinto, 6, Lisboa , todos os dias das 13 às 23,telefone 213 631 511.


  


DIXIT - “Não sei se alguém entrou em Tancos, no limite pode não ter havido furto” - José Alberto Azeredo Lopes, teoricamente Ministro da Defesa.


 


GOSTO - A encenação de “A Viúva Alegre”, que decorre em paris na Ópera da bastilha, tem cenografia de António Lagarto.


 


NÃO GOSTO - O planeta perde 15 mil milhões de árvores por ano.


 


BACK TO BASICS - “A qualidade é mais importante que a quantidade” - Steve Jobs


 


 

setembro 08, 2017

PEDIR O VOTO NÃO PODE SER PEDIR UM CHEQUE EM BRANCO

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COERÊNCIAS - Numa recente aula na Universidade de Verão do Partido Social Democrata, Cavaco Silva, falando das autárquicas, apelou ao voto genérico no PSD. Entendo que foi um mau serviço que prestou numa aula destinada a jovens aspirantes a políticos. A última coisa que queremos são mais zelosos funcionários que olham para a política como uma actividade clubística. A política exige lealdade de parte a parte - das pessoas com o que pensam, dos partidos com o que está no seu ideário, no seu programa e na sua acção. Nas autárquicas, sobretudo nas autárquicas, o voto deve ser nos candidatos, no seu perfil e no que propõem localmente - e quando possível na análise daquilo que fizeram se antes já tiveram cargos autárquicos. Em todos os partidos há casos em que outro candidato é a melhor escolha em determinada freguesia ou concelho. Se há eleição em que a fidelidade de voto cega não deve existir é nas autárquicas. Eu sei que não voto em Medina, não pelo partido por onde se apresenta, mas pelo mal que tem feito à cidade, pelo seu autoritarismo e auto-suficiência. E não me repugna votar numa lista que seja diferente do meu voto habitual se nela existirem pessoas cuja actividade anterior me agrade e propostas que me pareçam adequadas. Essa é a única maneira de cumprir a cidadania. Às vezes os partidos esquecem-se dos seus deveres para com os eleitores e, mesmo assim, querem um cheque em branco. A política não pode ser isso, seja qual fôr o nosso lugar no espectro partidário.


 


SEMANADA - Até 31 de Agosto arderam 214.000 hectares em 12.000 incêndios e 90% da área ardida deveu-se a 123 desses fogos; uma psicóloga da Polícia Judiciária, Cristina Soeiro, afirma que 58% dos incendiários agiram sob influência do álcool; 97% dos inquéritos a crimes de incêndio são arquivados e apenas 48 suspeitos foram condenados a prisão em cinco anos; um candidato à Câmara de Coimbra reivindicou a construção de um aeroporto internacional na cidade; roupa doada pela marca Salsa a uma instituição de solidariedade social para ser enviada para a Guiné foi encontrada à venda numa feira em Mafra: há onze acidentes por dia com carros sem seguro; o número de carros elétricos vendidos no primeiro semestre mais que duplicou face a igual período do ano passado; no primeiro semestre do ano 4 milhões e 713 mil portugueses acederam a sites de informação a partir de computadores pessoais; 91 por cento das famílias portuguesas subscrevem televisão por cabo e 76% têm acesso a mais de 100 canais; segundo um estudo da Marktest há 4 milhões e 871 mil indivíduos que se dizem sócio e/ou simpatizante de clube(s) desportivo(s), valor  que representa 56.9% dos residentes no Continente com 15 e mais anos;  José Sócrates tornou-se no mais recente youtuber português, mas a sua  novela “O Embuste da PT” teve apenas cerca de dez mil visualizações na primeira semana, muito longe dos valores dos mais vistos em Portugal.


 


ARCO DA VELHA - Todos os líderes partidários, à excepção de Jerónimo de Sousa que estava na festa do Avante, foram à feira das vacas em Vila do Conde


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FOLHEAR - Ele há livros que são sempre oportunos e cada vez mais adequados aos tempos - Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, é um deles. A autora morreu há 200 anos mas esta sua obra, editada em 1813, continua a alimentar polémicas, muito devido ao seu primeiro parágrafo: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, na posse de uma boa fortuna, precisa de uma esposa”. Orgulho e Preconceito é, nas palavras do autor de “O Cânone Ocidental”, Harold Bloom, um livro “ que rivaliza com qualquer romance jamais escrito”. No fundo esta é uma comédia sobre os perigos de fazer julgamentos precipitados e os benefícios de aprender a distinguir entre o superficial e o essencial. A história é simples, e é a da família Bennet: “cinco filhas por casar e uma mãe que só pensa em encontrar-lhes maridos”. Assim nasce o romance de Mr. Darcy e Elizabeth Bennet na Inglaterra do início do século XIX. Como referem as notas finais do livro, Orgulho e Preconceito “oferece uma ilustração poderosa dos efeitos prejudiciais para as pessoas e para a sociedade que o preconceito pode causar”. Editado na colecção de Clássicos da Guerra & Paz, o livro tem uma exemplar tradução de Diogo Ourique, a partir da fixação de texto da edição da Penguin Classics de 2014.


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VER - Com a entrada em Setembro as coisas começam a animar-se e também as galerias de arte começam a dar sinais de vida. Na Galeria Alecrim 50 (Rua do Alecrim 48-50), a artista brasileira Bettina Vaz Guimarães expõe “De Que Cor é o Universo” (na imagem) mostrando um conjunto de trabalhos que realizou em Lisboa ao longo dos últimos meses. Bettina interpretou formas e cores da arquitetura presente nas ruas de Lisboa numa visão muito pessoal. No Funchal Teresa Gonçalves Lobo abriu ao público o seu atelier para mostrar as ilustrações  que fez para o livro “unstill, inquieto” ( do poeta Roberto Vas Dias) e outros desenhos recentes - o atelier fica  na Rua da Carreira 39, 2ºB, junto ao Museu Vicentes. Em Lisboa, na Cristina Guerra Contemporary Art (rua de Santo António à Estrela 33) está patente “I speak to people on the telephone”, de Ryan Gander e Jonathan Monk. Na Giefarte (Rua da Arrábida   54 ), Francisco Ariztía apresenta “auto-retratos”. Outras sugestões: a partir desta semana, na Galeria do Torreão nascente da Cordoaria Nacional, e integrada na programação de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura, estará patente “Turbulências”, uma mostra de arte contemporânea de obras inéditas de 18 artistas da colecção “la Caixa”, que transmitem a sua visão deste mundo em convulsão permanente. Também a partir desta semana, no Palácio Nacional da Ajuda, em colaboração com a Fundação de Serralves, estará a exposição  “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”, que traz a Lisboa até 8 de janeiro o conjunto de 85 obras do artista catalão que integravam a colecção do BPN e que o Governo decidiu manter em Portugal, numa decisão que causou polémica, já que muitas das obras são consideradas de duvidosa relevância.


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OUVIR - O pianista Vijay Iyer, acompanhado pelo saxofonista Steve Lehman e pelo baterista Tyshawn Sorey têm feito, a solo e em grupo, alguma da música de jazz mais inovadora da costa leste dos Estados Unidos. Agora voltaram a encontrar-se em “Far From Over”, num sexteto onde participam também nos sopros Mark Shim e Graham Haynes e ainda o baixista Stephan Crump. Editado pela ECM o álbum foi considerado pela Rolling Stone como “uma amostra do jazz do futuro”. Como é hábito, as composições de Iyer, que ensina música em Harvard, são complexas e com um sentido de ritmo acentuado. A faixa inicial, “Poles” é um exemplo perfeito na organização dos músicos ao longo do desenvolvimento do tema, em crescendo. Em “Down To The Wire” os instrumentos de sopro são dominantes e evocam o bepop, enquanto em “Good On The Ground” a bateria de Sorey comanda claramente o sexteto. O líder, Iyer, tem também o seu quinhão de solos de piano, como em “Nope”, mas principalmente ocupa-se a proporcionar a entrada em acção dos outros músicos, nomeadamente os saxofones de Lehman e Shim ou o flugerhorn de Haynes, como acontece em “End 0f the Tunnel”. Em “for Amiri Baraka”, dedicado ao poeta do mesmo nome, os metais ficam de fora e o piano de Iyer, com a bateria e o baixo de Sorey e Crump constroem uma balada envolvente e poderosa, como também acontece em “Wake”. CD ECM, na Amazon.


 


PROVAR - Desde há muitos anos que a zona do Martim Moniz é uma espécie de sociedade das nações em termos gastronómicos e até de estabelecimentos onde se podem adquirir temperos e produtos alimentares de várias regiões do globo. Quer no Centro Comercial Mouraria, quer na praça ou nas ruas ali à volta há muito por descobrir e que escolher. Comecemos pelos supermercados e lojas. O Hua Ta Li, perto da Rua da Palma, tem uma larga oferta de produtos, de massas de arroz a guiozas, passando por algas e chás e tem uma zona de take away; no Amanhecer, do lado direito de quem desce para o hotel Mundial, os produtos chineses estão bem rotulados em português e muito bem arrumados; a Mercearia Indiana. no segundo piso do Centro Comercial Mouraria, é o paraíso das especiarias e, claro, tem várias variedades de caril. Passando para os restaurantes, no início da Rua do Benformoso há o Pho Pu, especialista em cozinha vietnamita; por falar em rua do Benformoso, essa é a zona onde pode encontrar restaurantes chineses improvisados em casas particulares, com menus esfuziantes - é uma questão de atenção e de ir procurando; dando um salto ao Brasil, na praça do Martim Moniz há um especialista num dos produtos da moda - a Toca do Açai, servido em smoothies ou em taças; também na praça recomenda-se o Shangai Cuisine onde a sopa wantan é muito elogiada; para um outro género, no Topo, que fica no sexto piso do Centro Comercial Martim Moniz e que tem uma vista magnífica, destaca-se o peixe branco cozinhado em caril ou o Tom Yun, um caldo picante com camarões, lulas, ameijoa e massa de arroz. A lista tem muitas opções. Mas o melhor mesmo é passear no fim da Rua da Palma, no meio da praça e nas ruas à volta, na zona da Mouraria. É descobrir um mundo novo em Lisboa.


 


DIXIT - “As claques nas redes sociais são o agitprop do século XXI” - Nuno Garoupa


 


GOSTO - Da decisão do TC que considerou inconstitucional a criação de uma taxa de protecção civil pelo Município de Gaia, o que pode levar a outras decisões, nomeadamente à eliminação de idêntica taxa que Medina impôs aos lisboetas.


 


NÃO GOSTO - Das opacidade e das dúvidas que rodeiam o destino dos donativos para as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande.


 


BACK TO BASICS - "Por melhor que a estratégia pareça ser é sensato olhar, de vez em quando, para os resultados que está a produzir" -  Winston Churchill

setembro 01, 2017

ANALOGIAS ENTRE A POLÍTICA E A FICÇÃO TELEVISIVA

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FANATISMOS - Mais de 40 anos de regime democrático não chegaram ainda para que  a política não seja entendida como uma espécie de  campeonato de futebol em que os partidos são os clubes. Existe em relação aos partidos um fanatismo que não tem a ver com razões ideológicas, tem a ver com a noção de ter que se defender sempre a agremiação, mesmo que os erros sejam tremendos, que o ideário e a prática de hoje não tenham nada a ver com o que os seus fundadores enunciaram. Na realidade a política não é um jogo de futebol. Claro que pode ser uma paixão, mas convém que seja racional - se for tão irracional como um auto-golo não vale a pena sequer dar-lhe atenção. Quando olho para o que se passa à volta tenho a sensação que vivemos, na política portuguesa, num ponto difuso entre duas séries de televisão - os jogos, traições e manobras de “House Of Cards” e as alianças inesperadas de “Borgen”. Em honra da produção audiovisual portuguesa às vezes “Madre Paula” também dá um ar da sua graça - quando o poder seduz e paga o que for preciso para fazer o que quer e ter o seu momento de prazer. O problema é que no meio de tudo isto há pessoas que são arrastadas por manobras que não têm a ver com os seus interesses, mas com jogos de poder. Penso que é o que se passa na Autoeuropa. Depois da saída de António Chora, que era do BE, o PCP apressou-se a ocupar o terreno. Em plena negociação, na geringonça, do orçamento de estado, o PCP usou os seus sindicatos para mostrar que ainda tem poder, com o claro objectivo de evidenciar que podia impôr condições com mais eficácia que o Bloco. A incógnita disto tudo é perceber como vai Costa terminar este episódio de “Borgen”. Vai para o Convento de Odivelas fugir à realidade ou procurará uma manobra de diversão para entalar os que lhe estão próximos, como faz Frank Underwood?


 


SEMANADA - O relatório de acesso à saúde de 2016 revela que no final do ano passado havia 211 mil pessoas à espera de cirurgia e que o tempo de espera médio foi de 3,3 meses, o maior desde 2011;  O Estado e várias entidades públicas têm cerca de 4.000 imóveis por registar;  desde janeiro houve 12 340 incêndios em todo o país, mais 3600 que em 2016 e ao todo já arderam mais 72 mil hectares que no ano passado; quase 40 por cento dos incêndios que deflagraram entre 22 e 28 de Agosto começaram à noite; falta de qualidade da comida, distribuição fora de horas e escassez de alimentos são as principais acusações dirigidas pelos bombeiros à forma como têm sido tratados pela Autoridade Nacional de Protecção Civil, que é a responsável por assegurar a alimentação no teatro de operações; a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) tinha registados 2920 orgãos de comunicação no final de 2016, menos 144 que no final de 2015; há 652 jornais e revistas, 289 empresas jornalísticas; actualmente existem registados 43 serviços de rádio exclusivamente por streaming e seis de televisão online;  de acordo com os resultados do primeiro semestre de 2017 do Bareme Rádio da Marktest, um em cada seis portugueses ouviu rádio pela Internet nos primeiros seis meses do ano.


 


ARCO DA VELHA - Uma operadora de telecomunicações aplicou uma penalização de 139 euros pelo cancelamento do contrato de uma vítima mortal do incêndio de Pedrógão Grande.


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FOLHEAR - A Photo España é o maior evento fotográfico da península ibérica e promove a realização de numerosas exposições em diversas cidades num período alargado - três meses, de início Junho a final de Agosto. A Photo España é produzida por uma associação, La Fabrica, dirigida por Alberto Anaut, um jornalista que entre meados dos anos 70 e meados dos anos 90 passou por alguns dos maiores jornais e revistas espanhóis. Em 1994 fundou a associação La Fabrica que, em 1995, começou a editar a revista Matador e em 1998 criou a Photo España. Passemos à revista: é editada uma vez por ano, tem 3000 exemplares destinados aos sócios do clube Matador e outros 4000 que são distribuídos em pontos de venda seleccionados. A Matador custa 70 euros, pode ser encomendada online e é um objecto impresso absolutamente precioso - uma qualidade gráfica impressionante, grande formato (40x30, 184 páginas). Uma escolha criteriosa de colaboradores, um tema por edição. O deste ano, cuja capa se reproduz, é “O Futuro”. A revista conta ter uma vida útil de 28 edições e terminará em 2022 se tudo correr como previsto. Entre os colaboradores estão médicos, arquitectos, futuristas, ambientalistas, cientistas, fotógrafos (como Juan Fontcuberta ou Edgar Martins), gestores culturais, músicos, artistas (como Ai Weiwei) ou biólogos (como Ana Patricia Gomes). Falta dizer que o Club Matador inclui um restaurante e tem um blog (http://clubmatador.com/en/blog/). Espreitem se puderem.


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VER - Setembro está aí e já se anuncia o reinício da actividade de diversas galerias. Até lá, aqui ficam algumas sugestões. Começo pelo Centro de Arte Manuel de Brito, em Algès, onde  até 17 de Setembro podem ser vistas três exposições: “O Legado de Mário Henrique Leiria”, “Os artistas surrealistas na colecção de Manuel de Brito” com obras de, entre outros, António Dacosta, Cruzeiro Seixas, António Quadros, Cesariny e Vespeira (na imagem); e


“O Afecto”, que agrupa obras oferecidas a Manuel de Brito por nomes como  Sonia Delaunay, Arpad Szenes, Vieira da Silva ou Júlio Pomar. Para as três montras do British Bar, ao Cais de Sodré, Pedro Cabrita Reis escolheu para este novo ciclo obras de Miguel Palma, Rosa Ramalho e Pedro Gomes, que ali ficarão até final de Setembro. Na Galeria Zé dos Bois (Rua da Barroca 59, Bairro Alto), está até 23 de Setembro a exposição Cartazes Cubanos do período entre 1960-1980,. Na Galeria Pedro Cera (Rua do Patrocínio 67E) está a colectiva “Where and when”,  com trabalhos de  Ana Jotta, Daniel Gustav Cramer, Gil Heitor Cortesão, Luis Paulo Costa e Paulo Brighenti. E finalmente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado (Rua Serpa Pinto 4), sugiro duas exposições feitas a partir do acervo da instituição: “Vanguardas e neovanguardas na arte portuguesa dos séculos XX e XXI” e “A Sedução da Modernidade”, que aborda a influência da literatura na criação artística portuguesa em meados do Século XIX.


 


 


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OUVIR - Randy Newman, 73 anos, é um compositor, produtor e intérprete norte-americano que se tornou conhecido pela sua voz e pela forma de cantar, pela ironia das suas canções e pelas numerosas bandas sonoras de filmes que compôs ao longo da vida. O seu disco de maior sucesso “Trouble In Paradise”, data de 1983 e tem uma das suas canções mais populares - “I Love L.A.”.  Nos filmes pôs a sua assinatura nas bandas sonoras de “Ragtime” e em sete produções da Disney/Pixar, entre elas a série de “Toy Story” e ainda no filme de animação “O Sapo E A Princesa”, também da Disney. Paralelamente nunca deixou de fazer canções acutilantes sobre temas actuais, com forte cariz social e político. Em 2016 divulgou uma canção sobre Donald Trump intitulada “What a Dick” que fazia comparações entre o tamanho do orgão sexual de Trump e o do próprio cantor (“My dick’s bigger than your dick”….) e anunciou que ela estaria no seu próximo disco - “Dark Matter”, agora publicado. Acabou por não a incluir e em vez da canção sobre Trump há no entanto uma outra, que data igualmente de 2016, “Putin”, que ao som de música tradicional russa, ironiza sobre o presidente Putin . “Dark Matter” é um disco povoado de reflexões - muitas delas enunciadas na faixa de abertura, “The Great Debate”, onde ao longo de oito minutos, numa mini opereta, se degladiam opiniões entre personagens que vão do fundamentalismo religioso aos que não acreditam nas transformações climáticas. Nos nove temas do disco destaca-se a capacidade de arranjos orquestrais de Newman, mas também a sua maneira de fazer canções marcantes, como, além das já citadas , em “Sonny Boy” , “Wondering Boy” e “She Chose Me”. E não posso deixar de destacar os arranjos de “Lost Without You” e sobretudo a epopeia musical que é “On The Beach”. CD Nonesuch/ Warner.


 


PROVAR -  Habituados que estamos aos supermercados por vezes esquecemo-nos do encanto dos antigos mercados tradicionais. Num destes fins de semana fui a Setúbal, ao belo edifício do Mercado do Livramento, na Avenida Luisa Todi. Logo à entrada uma placa avisa-nos que o jornal norte-americano USA Today considerou este local como um dos melhores mercados do mundo. Nesta praça o peixe é rei - ou não fosse Setúbal terra de pescadores. Os balcões de pedra cheios da colheita do mar são uma tentação: chocos, lulas, pregados, garoupas, cantaril e, claro, atum acabado de pescar, de fazer inveja aos japoneses que por ele pagam fortunas. Pedir para cortar bifes de lombo de atum, grossos, e depois braseá-los em casa é uma experiência que não tem comparação possível com o que se consegue em supermercados - fresco ou congelado. Mas os encantos não se esgotam no peixe nem no marisco. As bancadas de legumes e frescos têm molhos de rabanetes com rama, as alfaces são viçosas e fresquíssimas, com uma textura e paladar que também não se compara com o que se vende em sacos de plástico. Em pequenas bancas descobrem-se temperos, sementes comestíveis, um mundo de sabores. E, claro, há bancadas de pães e de doces, que adequadamente convivem com as de queijos e fumados. E o preço? comparando peça a peça o que se comprou, gasta-se menos no mercado que num supermercado mesmo em dia de promoções e a frescura e o sabor são outra conversa.


 


DIXIT -  “Orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil, contrariamente a muitos sindicatos que entraram com 11 mil trabalhadores e saíram com ninguém, como na Lisnave, CUF ou Quimigal. Tenho muito orgulho no meu trabalho” - António Chora, ex coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa entre 1996 e 2016.


 


GOSTO - Vai haver uma série de selos de correio em Portugal baseados na saga “Star Wars” .


 


NÃO GOSTO - Que o Governo se ponha a recomendar o que uma editora de livros deve ou não publicar.


 


BACK TO BASICS - “ Não é boa ideia alguém ter ciência superior e moral inferior” - Arthur C. Clarke

agosto 31, 2017

PROBLEMAS NOVOS NÃO SE RESOLVEM COM FÓRMULAS ANTIGAS (as notícias já não vendem papel)

Na semana passada aconteceu o que há muito se esperava – um dos maiores grupos de comunicação anunciou que vai encerrar ou vender a maior parte dos seus títulos de imprensa. A braços com um endividamente gigantesco acaba por reconhecer que as receitas que obtém, quando existem, são insuficientes para inverter a situação criada ao longo de anos. O cenário actual complica tudo:
é devastador folhear um jornal – qualquer que seja – e ver o reduzido número de páginas de publicidade que apresenta em cada edição. Pegamos nas revistas e o panorama não é muito diferente. Vamos de carro a ouvir rádio e percebemos que ali a publicidade continua abundante. Ouvimos com atenção o noticiário e, quando paramos e pegamos nos jornais ou passamos num quiosque, percebemos que as notícias que ouvimos são, em grande parte, as que estão em destaque nas edições dos diários. Se entretanto estivermos a ver um dos canais de informação na televisão o panorama é semelhante. E nos sites, idem. Que quer isto dizer? – Os jornais diários continuam muitas vezes a marcar a agenda, trazem noticiário que marca a actualidade e depois quem recolhe audiências e, consequentemente a publicidade, são outros meios.  A imprensa – jornais e revistas – criou ao longo de séculos marcas de informação que têm prestígio, reputação e são encaradas com confiança pelos consumidores. Por isso os jornais são uma fonte de informação de outros meios de comunicação que entretanto os ultrapassaram em dimensão e relevância.  Este é o paradoxo actual da industria de mídia.


Essas marcas de imprensa  têm um valor que neste momento está em risco - e vou dizer uma coisa que vai desagradar a bastante gente: a primeira culpa do assunto é da imprensa e das empresas que editam jornais e revistas. Primeiro deixaram-se deslumbrar pela internet e, na maioria dos casos, passaram a disponibilizar os seus conteúdos, que são o seu bem mais precioso, de forma gratuita e generalizada; depois demoraram muito tempo a compreender a alteração de paradigma de consumo de informação, sobretudo nas gerações mais novas; na grande maioria dos casos continuaram a criar conteúdos da mesma forma e com as mesmas características, mesmo quando deixaram de poder competir na rapidez da notícia; pressionados pela quebra de receitas degradaram a qualidade das redacções e dos conteúdos que apresentam; finalmente têm sido lentos demais a utilizar a tecnologia e rápidos demais a deixarem-se asfixiar dentro dela.


Há quem acredite piamente que se pedirmos às pessoas para comprar informação elas estão dispostas a pagar. Na realidade, depende: nunca vão pagar para lerem aquilo que já ouviram ou viram e esse é o grande problema da imprensa. É muito fácil passar de pago a gratuito, é muito difícil passar de gratuito a pago – sobretudo se os conteúdos não forem substancialmente diferentes do que se pode ter à borla. Por isso os melhores casos de sucesso na conciliação entre as edições offline e online vêm dos que perceberam de forma rápida que as edições em papel devem ter conteúdos que não sejam canibalizados por outros mídia, que têm de depender menos do noticiário imediatista de actualidade do que da explicação dos factos, da informação especializada, do jornalismo de investigação e da informação local e regional – que dificilmente se encontra noutras plataformas.


E, no entanto, como a publicidade anda escassa nos jornais e revistas, uma boa campanha publicitária na imprensa tem hoje mais visibilidade e notoriedade no papel que em outros meios e pode ser bem segmentada para diversos públicos, ou a nível nacional ou regional – aliás cada vez mais surgem por esse mundo fora publicações segmentadas, por interesses ou regiões. O problema é que a imprensa saíu de moda, saíu dos hábitos dos responsáveis de marketing, e cabe às empresas de media voltar a mostrar que ela tem cabimento para a comunicação publicitária de uma série de produtos que procuram públicos específicos ou novos posicionamentos. O papel vai desaparecer da paisagem mediática? Não creio – tem é que ter uma oferta diferente, mais rasgo e imprevisibilidade, uma maior atenção aos públicos e aos temas de proximidade. As pessoas só vão comprar aquilo que não podem ver noutro sítio. 


E, finalmente, os jornais precisam de mostrar que sabem comunicar comercialmente e que sabem usar a publicidade de que eles próprios precisam: se os jornais e revistas funcionarem em circuito fechado, se não divulgarem foram das suas páginas o que têm de diferente, publicitando os seus conteúdos nos pontos de contacto com os públicos que querem conquistar, dificilmente podem querer que outras marcas os usem a eles para comunicar.


Uma nota final: os conteúdos, e em primeiro lugar os conteúdos informativos, são fundamentais para que as marcas de consumo encontrem canais de contacto com os seus consumidores. Se a qualidade se deteriora, a audiência desaparece, a comunicação piora e a sociedade em geral fica mais pobre. Os mídia precisam dos anunciantes e estes precisam que os mídia cumpram o seu papel de ponto de contacto com os consumidores. O destino dos dois está cada vez mais ligado.


(Publicado originalmente na newskletter e no site da Meios & Publicidade - http://www.meiosepublicidade.pt/ )


Manuel Falcão


Director-Geral da Nova Expressão – Planeamento de Media e Publicidade


 


 

agosto 25, 2017

OS CANDIDATOS INDEPENDENTES INCOMODAM MUITO OS PARTIDOS

AUTÁRQUICAS - Esta semana soube-se que os candidatos às eleições autárquicas vão gastar um total próximo de cinco milhões de euros em brindes para a campanha eleitoral -  só o PS gasta quase dois milhões por sua conta.  Os brindes vão de sacos de plástico a bandeirinhas, emblemas e toda uma parafernália que acaba no lixo. Não posso deixar de citar, sobre esta matéria, aquilo que Rui Calafate, um consultor de comunicação, escreveu no Facebook em jeito de conselho aos candidatos: “recomendei a todos o que recomendo às pessoas com quem trabalho: comprem três pares de sapatos confortáveis - uma campanha é para se dar a conhecer, ganhar a confiança das pessoas e andar no terreno. A proximidade é que dá votos”. Nestas próximas autárquicas já passámos por guerras de secretaria, as mais evidentes foram as que pretendiam impedir Rui Moreira de se candidatar no Porto e Isaltino de Morais em Oeiras. Estas manobras acontecem claramente ligadas a um aumento das candidaturas independentes, nomeadamente por parte de ex-presidentes de Câmara. Num artigo de opinião Nuno Garoupa abordou a questão da importância eleitoral crescente dos independentes e prevê mesmo que, nas próximas autárquicas, os grupos de cidadãos e listas independentes possam alcançar 10% dos votos, podendo ser a terceira força autárquica, abaixo do PS e do PSD. E chama a atenção para o facto de uma subida expressiva dos resultados dos grupos de cidadãos ter como consequência inevitável uma descida percentual do PS e PSD. “As listas independentes são a única ameaça real à hegemonia do PS e do PSD no nosso sistema partidário, tudo o resto não mexe”  - escreve Nuno Garoupa, prevendo igualmente que os partidos institucionais farão todo o possível para, no futuro, dificultar ainda mais a apresentação de candidaturas independentes como já se está agora a ver.


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SEMANADA - A Estrada Nacional 125 no Algarve, tem 64 rotundas em 150 quilómetros; as empresas portuguesas são as que, em 29 países europeus, têm uma demora maior no pagamento de faturas a fornecedores, com um prazo médio de 66 dias; o número de abonos de família pagos este no primeiro semestre deste ano desceu cerca de 10% em comparação com igual período do ano passado; a dívida externa líquida de Portugal era de 176,1 mil milhões em Junho, mais mil milhões que no final de 2016; no final de Junho o endividamento público era de 317,7 mil milhões, um aumento de 9,9 mil milhões em relação ao início do ano;  os gastos dos turistas estrangeiros em Portugal subiram 21,1% no primeiro semestre deste ano; o valor do IMI cobrado pelas Câmaras Municipais cresceu 632 milhões de euros nos últimos dez anos; cerca de oito milhões de euros por dia é o valor das apostas nos jogos da Santa Casa nos primeiros meses deste ano; segundo a DECO um quarto dos utentes do Serviço Nacional de Saúde recebe tratamento fora do prazo legal;  segundo a Marktest há agora  6,5 milhões de pessoas em Portugal que possuem smartphone, o que representa mais de dois terços do total de possuidores de telemóvel; a Festa do Avante! vai abrir este ano com música clássica russa para celebrar os 100 anos da revolução bolchevique de 1917.


ARCO DA VELHA - Centenas de candidaturas a fundos comunitários, de projectos de defesa da floresta e de prevenção contra incêndios, foram rejeitados por falta de dotação orçamental no Ministério da Agricultura, o tal onde Capoula Santos se comparou a D. Dinis.


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FOLHEAR - Tyler Brulé, o fundador da Wallpaper e da Monocle é um  convicto defensor do papel impresso. A Monocle, lançada há dez anos, nunca teve  uma versão para iPad e, embora tenha uma forte actividade digital, no streaming de áudio e vídeo, assim como em newsletters, permanece contrária a edições on line. Para além da revista, que se publica dez vezes por ano há duas publicações sazonais - The Escapist no verão e The Forecast no inverno. Este ano Tyler Brulé decidiu voltar ao formato de jornal que já tinha ensaiado em 2010, e criou Monocle - The Summer Weekly Edition. O primeiro jornal saíu dia 10 de Agosto e todas as semanas deste mês sairá mais um - o projecto tem data de encerramento com a última edição, em 31 de Agosto, mas Brulé já disse que o projecto é para continuar. O novo jornal está dividido em três cadernos - o principal onde se falam de assuntos correntes de interesse geral, o segundo que é dedicado às artes, cultura, media, arquitectura, design e desporto e o terceiro que aborda moda, viagens, comida e bebida. O alinhamento é curioso, a utilização gráfica do formato jornal é conservadora mas muito sóbria e elegante. O resultado final é um misto de actualidade com sugestões concretas. Na primeira edição do semanário era abordado o excesso de turistas em algumas cidades europeias e um artigo falava do boom imobiliário em Lisboa e do investimento francês nessa área; na segunda edição semanal um dos destaques vai para a cortiça portuguesa e as novas aplicações que tem, enquanto se elogiavam o design das cadeiras de ferro tradicionais ADICO nas esplanadas lisboetas; na revista de Setembro, a primeira pós-férias, o tema de capa é como  conseguir alcançar o equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho. “Escape The Office” é o título principal.


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VER - O Arquivo Municipal de Fotografia é uma das instituições com um trabalho mais interessante de entre as várias que estão sob a alçada da autarquia na área da Cultura - e isto vem desde que foi criado, nos anos 40, e, sobretudo, quando foi instalado em 1994 na Rua da Palma, onde continua. O que se perdeu entretanto, no início desta década, foi a autonomia de que gozou - a sua integração como um mero departamento dos Arquivos Municipais é algo de incompreensível, sobretudo se atendermos a que este arquivo fotográfico transcende em muito o âmbito municipal, devido às colecções, de vários autores e fotógrafos, que lá foram colocadas em depósito e que hoje integram o seu acervo. O Arquivo Fotográfico merecia maior autonomia e a sua equipa bem se esforça por conseguir manter uma actividade regular, através de exposições, do serviço educativo e também da sala de leitura. De entre as suas numerosas colecções, o Arquivo dispõe de um grande inventário de imagens documentais sobre o mundo do espectáculo, desde retratos de actores até registos de ensaios de peças de teatro, de rodagens de filmes, imagens de montagens, etc. Presentemente o Arquivo Fotográfico apresenta a segunda parte da série (ANTE)câmara, dedicado à actriz Amélia Rey Colaço (na imagem), exposição que foi montada a partir da colecção da família Rey Colaço, e que inclui fotografias do convívio familiar, da preparação para a sua primeira representação teatral na peça Marianela, de 1917, e um pequeno conjunto de fotogramas do filme O Primo Basílio, de 1923. Vale bem a pena ver esta exposição, que está patente até 14 de Outubro na Rua da Palma 246.


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OUVIR - June Tabor é um dos nomes - e vozes - incontornáveis da folk britânica. Para além de uma extensa carreira a solo, trabalhou com Maddy Prior e com a Oyster Band e participou pontualmente em registos de nomes como Fairport Convention. Em 2013 criou um trio com o pianista Huw Warren e o saxofonista Iain Ballamy, músicos de jazz com quem já tinha colaborado pontualmente ao longo dos anos. O trio recebeu o nome de Quercus e o seu primeiro álbum foi editado em 2013, pela ECM. Este ano surgiu o segundo disco do projecto Quercus, “Nightfall”. O novo trabalho inclui uma abordagem musical inesperada a temas tradicionais do folk inglês  (The Manchester Angel, Once I Loved You Dear (The Irish Girl), The Cuckoo), e também a  temas da tradição popular como Auld Lang Syne ou On Berrow Sands, onde o diálogo entre a voz de Tabor e o saxofone de Ballamy tem um ponto alto. Um dos momentos mais curiosos é a versão de um tema de Dylan, Don’t Think Twice It’s Alright. O mais interessante é a combinação de repertório popular com a improvisação que os dois músicos de jazz imprimem ao som de Quercus. Destaque ainda para o standard "You Don't Know What Love Is" e para “Somewhere” (de West Side Story). CD ECM, na Amazon.


 


PROVAR -   Com o verão ainda no activo deixo aqui a sugestão de uma das minhas saladas preferidas deste ano: laranja às rodelas com filetes de cavala, aromatizada com hortelã e salpicada de nozes sobre uma cama de rúcula, temperada com azeite e balsâmico. Primeiro abro e escorro a lata dos filetes de cavala em azeite, no prato coloco algumas folhas de rúcula temperadas com flor de sal, azeite de boa qualidade e vinagre balsâmico. Por cima disponho as rodelas de laranja descascada, cada uma com um filete de cavala. Algumas folhas de hortelã dão bom aroma e gosto, meia dúzia de nozes grosseiramente partidas complementam. No final um fio de azeite e fica pronta a salada. Os meus preferidos são os filetes de cavala fumada em azeite da Comur mas os simples, em azeite, de La Gondola nunca desapontam. E agora um pouco de enquadramento: da família da sarda e do atum, a cavala tem um sabor intenso, é um peixe azul, rico em ácidos gordos benéficos para a saúde e, ainda por cima, sendo muito abundante na costa atlântica portuguesa, tem bom preço. Acrescento outro argumento: é muito saboroso e os seus filetes em conserva podem ser utilizados de múltiplas formas - até há quem faça sanduíches, misturando-os, cortados, com maionese ou então sob a forma de bruschetta, em cima de um pão grelhado, previamente temperado de azeite, ervas e tomate.


 


DIXIT - As candidaturas independentes nas autárquicas são um factor de renovação do pessoal político e aumentam a competitividade eleitoral” - José Pacheco Pereira, na Sábado.


 


GOSTO - O Turismo Centro de Portugal fez um grande filme promocional da sua região, que já ganhou dois prémios, o mais recente há dias em Los Angeles.


 


NÃO GOSTO - Fiz uma encomenda de dois livros à Wook a 2 de Agosto,  que ainda não recebi, e só soube as razões do atraso depois de reclamar. No entretanto já cobraram o pagamento.


 


BACK TO BASICS - “Não quero ser recordado - prefiro receber os elogios enquanto os puder ouvir” - Jerry Lewis