janeiro 22, 2016

DÚVIDAS PRÉ ELEITORAIS & SUGESTÕES AVULSAS

 


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 DÚVIDAS - Nas eleições presidenciais do próximo Domingo tenho apenas estas duas dúvidas: Como evoluirá a abstenção em relação a anteriores eleições para a Presidência da República? Conseguirá Marcelo Rebelo de Sousa ser eleito à primeira volta? As duas perguntas, no fundo, estão ligadas - já que uma variação sensível da abstenção, no sentido do seu aumento, pode colocar uma decisão logo à primeira volta mais difícil. Se no entanto não existir uma evolução sensível da abstenção, e se a eleição ficar decidida já no Domingo, então estaremos perante um caso em que a mais estranha e cinzenta das campanhas produziu resultados. Eu há meses que decidi em quem irei votar (e aqui deixo dito que será em Marcelo Rebelo de Sousa), mas fico surpreendido pela forma como todas as candidaturas usaram de forma rotineira a internet, abdicando de um território online interactivo e criativo, apenas com conteúdos meramente informativos sem grande chama - menosprezando assim a possibilidade de comunicar eficazmente com a geração que tem entre 18 e 25 anos, segmento demográfico onde a abstenção é maior, e que provavelmente poderia votar pela primeira vez para a Presidência. Outra coisa que esta campanha mostrou é que o modelo dos debates em rádio e televisão, com todos os concorrentes, está esgotado. As audiências foram fracas, o esclarecimento foi próximo do zero. Cada debate limitou-se  a ser uma montra de chavões e, por vezes, de pequenas disputas, maioritariamente sem interesse. O debate de televisão alargado, de terça feira à noite, na RTP1, obteve um share de audiência de 11,3%. No mesmo horário, nesse dia,  a SIC registou 24,8% e a TVI obteve 29,7%. O conjunto dos canais de cabo teve 24,1% . Em termos práticos a média de espectadores durante o debate ficou nos 564 mil espectadores. Não entrou sequer no Top 15 dos programas mais vistos do dia. É curto e poderá ser a maior prova de que a liberdade editorial deve prevalecer sobre as imposições do sistema, estabelecidas há mais de 40 anos, quando o consumo dos media era completamente diferente do que é hoje.


 


SEMANADA - Os juros da dívida portuguesa já começaram a subir por efeito das medidas mais recentes do Governo; o risco dos bancos portugueses disparou após as intervenções recentes no Novo Banco e Banif; alguns dos maiores Bancos do mundo reuniram-se esta semana para coordenarem a oposição às decisões do Banco de Portugal no caso das obrigações do Novo Banco; o prémio de risco português está a atingir máximos, reflexo da fuga de investidores em dívida da República; também fruto da saída de investidores, a Bolsa portuguesa está em queda, tendo perdido mais de 12% já este ano; a dívida da Parque Escolar está perto dos mil milhões de euros; um estudo do Commerzbank defende que medidas do Governo de António Costa põem em causa "a competitividade" e o ‘rating’ de Portugal e alerta para hipótese de um novo resgate; Bruxelas exigiu ao Governo um corte no défice para um valor abaixo dos 2,8% previstos pelo executivo; a CGTP vai ficar de fora do acordo de concertação social promovido pelo Governo; Catarina Martins, a propósito do Orçamento de Estado, disse que a Comissão Europeia não tinha percebido que em Portugal o Governo era de esquerda;  Jerónimo de Sousa avisou que acordo com António Costa pode cair se houver recuo nas medidas acordadas; António Costa avisou Bruxelas que não abdica de promessas eleitoriais e disse que a negociação com Bruxelas estava a ser difícil; o contrabando de tabaco vindo do Leste já provocou ao Fisco  perdas de 6,3 milhões de euros; as insolvências de empresas aumentaram 7,6% em 2015 face ao ano anterior;  só seis países têm a gasolina mais cara que Portugal; um estudo divulgado esta semana mostra que no sector privado, os trabalhadores por conta de outrem ganham, em média, 1.140,4 euros, menos do que os funcionários públicos, e o vencimento das mulheres é inferior ao dos homens em mais de 20%; sinal dos tempos: em Portugal o filme “A Queda de Wall Street” superou em receitas de bilheteira o mais recente “Star Wars”.


 


ARCO DA VELHA - O embaixador em Paris, Moraes Cabral, ex chefe de gabinete de Jorge Sampaio, negou autorização para que o artista português, Tony Carreira, recebesse na embaixada de Portugal a condecoração “Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres”, que lhe foi atribuída pelo Ministério da Cultura de França. A ideia de receber a condecoração na embaixada foi do cantor,  já que havia precedentes em casos semelhantes. O embaixador Cabral não achou adequado. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, S. Silva, comentou o assunto dizendo que um dos seus sonhos era assistir a um concerto de Carreira.


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FOLHEAR -  Neste tempo de coisas imediatas, uma das revistas mais curiosas que descobri chama-se “Delayed Gratification”, vai no seu 20º número e apresenta-se como “The Slow Journalism Magazine”. Criada em 2011 a revista, editada quatro vezes por ano, não dá notícias, mas investiga e desenvolve factos que decorreram num trimestre anterior. O objectivo é ganhar distância em relação à actualidade, deixar passar a espuma dos dias, reflectir sobre os factos, fazer investigação, preparar cuidadosas infografias, fazer análise, publicar opinião contextualizada, editar fotografia com cuidado. Podem descobrir mais sobre esta publicação em www.slow-journalism.com . O Huffington Post considera “Delayed Gratification” como “uma fantástica publicação que ajuda a colocar os acontecimentos em perspectiva”. É assim como um almanaque sobre um passado ainda próximo, mas que nos permite encará-lo de outra forma.


 


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VER - Nesta semana destaco a exposição «The behaviour of being» de Pauliana Valente Pimentel, que está na Galeria das Salgadeiras até 5 de Março (Rua da Atalaia 12 a 16, ao bairro Alto).  «The behaviour of being» é fruto de uma residência em que Pauliana Valente Pimentel participou em Junho de 2015, no Algarve, juntamente com outros 12 artistas internacionais, uma organização da “The Beekeppers” and “The Cob gallery”. A exposição foi apresentada nesta reconhecida galeria londrina em Setembro último e retrata um ambiente de produção artística colectiva, fora dos grandes centros urbanos. Anteriormente Pauliana Valente Pimentel tinha desenvolvido «The Passenger», em que retratou uma viagem de comboio com diversos artistas pela Europa e, depois, «Jovens de Atenas», um olhar sobre a juventude grega durante a crise que atingiu o país. Paulina Valente Pimentel tem desenvolvido um olhar fotográfico muito particular sobre momentos aparentemente banais, num tom intimista que evoca quase a estética dos velhos álbuns pessoais de fotografia familiar ou de viagem.


 


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OUVIR - Tenho uma tendência para gostar de todos os discos de Neil Young - ele é a coisa mais próxima do indiscutível que conheço, musicalmente falando. Há poucos dias recebi via Amazon o duplo CD Neil Young And Bluenote Café, uma edição de final de 2015 saída dos arquivos do músico. Aqui estão gravações realizadas ao vivo em 1968 durante a digressão de Young com os Bluenote Café um pouco por todos os Estados Unidos e Canadá. Ao todo são 23 canções - sete delas até agora inéditas em disco e ainda uma versão de19 minutos do clássico “Tonight’s The Night”, que encerra o CD2 deste álbum - uma versão gravada em Nova York “numa noite louca”, como está dito nas notas de capa. Os Bluenote Café eram uma banda de nove músicos que, além do baixo, bateria e teclas incluía uma secção de seis metais. Esmagador é mesmo a única palavra que me ocorre para este álbum que me tem acompanhado nestas semanas.


 


PROVAR - Uma das mais inesperadas e mais úteis prendas que recebi ultimamente foi um objecto que dá pelo nome de “spiralizer”. Há-os de vários formatos mas aquele que eu prefiro, e que foi o que recebi,  é uma espécie de afia lápis gigante onde se podem colocar courgettes ou pedaços de abóbora por exemplo, rodando-os como um lápis num afia. O resultado surge com a forma de fios de esparguete, só que é vegetal. A minha preferência vai para o “esparguete” de courgette: uma vez cortado salteio levemente, em azeite, tempero com gengibre, sal, pimenta e cebolinho. Muitas vezes junto tomate cherry biológico cortado aos quartos e no fim adiciono ou atum de lata (ao natural) desfeito grosseiramente, ou pedaços de frango assado ou grelhado. Também fica muito bem como suporte a um tradicional molho de bolonhesa. Conte com courgette e meia por pessoa. Pode encomedar na Amazon, onde encontra vários modelos destes aparelhos.


 


DIXIT - “Não uso a palavra corrupto, não gosto da fonética, é um bocado apardalada” - Bruno de Carvalho, numa entrevista à RTP 3


 


GOSTO - A editora Guerra & Paz iniciou a publicação de três obras históricas e polémicas, em novas edições particularmente cuidadas do ponto de vista gráfico: o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels (já à venda), o “Mein Kampf” de Adolf Hitler e o “Livro Vermelho” de Mao Ze Dong. Todas as obras têm um texto de introdução e contextualização do editor Manuel S. Fonseca.


 


NÃO GOSTO - O Ministério dos Negócios Estrangeiros comprou por cerca de cem mil euros um faqueiro alemão para eventos protocolares, em detrimento de diversos fabricantes portugueses que podiam fornecer idêntico material.


 


BACK TO BASICS - “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original” -  Albert Einstein


 


 






janeiro 15, 2016

UMA BOA MANEIRA DE MOSTRAR A IMPORTÂNCIA DAS ELEIÇÕES

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OUTRAS ELEIÇÕES - Se pensam que a única campanha que está a decorrer é a das Presidenciais, estão muito enganados. Por numerosas escolas deste país decorrem campanhas eleitorais para as respectivas Associações de Estudantes. Circunstâncias familiares levaram-me a ter contacto com uma delas, no caso as eleições para a Associação de Estudantes do Colégio Moderno, em Lisboa. A coisa que mais me surpreendeu, pela positiva, foi como estas eleições, as primeiras em que muitos são chamados a votar, são encaradas como um incentivo à participação das pessoas em processos de decisão. A minha neta mais velha explicou-me que o Colégio acompanha e  incentiva o processo eleitoral, ajuda que se promovam debates entre as listas e que os alunos percebam bem a diferença entre elas; e a irmã, mais nova, fez-me saber que nos boletins de voto não se deviam desenhar corações nem smiles ou deixar outros escritos, mas apenas fazer a cruzinha no sítio certo, para que o voto não seja anulado. As diversas listas têm manifestos eleitorais bem construídos, na maioria com reivindicações adequadas à situação, que vão da prática desportiva à rádio interna da escola. Uma das listas, ecologista, defende que se use mais papel reciclado, por exemplo nos testes. Várias apresentam, nos seus folhetos de propaganda, as indicações das contas de facebook, instagram e snapchat onde as respectivas actividades de campanha podem ser seguidas - e estão assim anos luz mais avançadas que vários candidatos presidenciais. Mas o ponto essencial é este: estas eleições não são encaradas como apenas uma disputa, mas como uma aprendizagem da importância da participação das pessoas na vida colectiva. Espero que a percentagem de abstenções na escola seja baixa e que os alunos vão votar - e ainda acalento a esperança que os candidatos das outras eleições, as presidenciais, percebam que os seus discursos e as suas acções ignoram e deixam de lado o segmento daqueles que agora têm entre 18 e os 25 anos, os que nasceram na última década do milénio passado e já cresceram a ver o mundo de maneira digital. Mas na maioria dos casos o que vejo é a réplica do que passa nas televisões, nas rádios e nos jornais, com uma forma de comunicação que não os cativa. A maioria dos candidatos presidenciais comunicam para os que já estão convertidos, não dão um passo para procurar que novos eleitores votem. E isto faz-me muita impressão. Depois não digam que a abstenção é um problema.


 


SEMANADA - Os filmes portugueses estreados em 2015 foram vistos por 904 mil espectadores, o valor mais elevado desde 1975; ao longo do ano passado registaram-se 14,5 milhões de espectadores nas salas de cinema de todo o país; em Portugal a escuta de música em streaming cresceu 60% em 2015; os pilotos de aviação alertam para o perigo de haver maior numero de pássaros na segunda circular, nas imediações do aeroporto, se o plano de arborização do local fôr para a frente;  a Comissão Europeia exigiu que os activos problemáticos do Banif sofressem uma desvalorização de 66%, contra os 50% propostos pelas autoridades nacionais, agravando assim o prejuízo do banco em 400 milhões de euros; em oito anos o Estado injetou dinheiros públicos em sete bancos; as ajudas do Estado a bancos portugueses já superaram o montante do resgate da troika; o petróleo desceu esta semana abaixo dos 30 dólares por barril; de Janeiro de 2015 até agora o petróleo caíu 31,6% mas a gasolina subiu 3%; a Bolsa de Lisboa teve nesta semana o pior ciclo de quedas desde 2011; até 2025 estima-se que 26% das oportunidades de emprego sejam na agricultura; um estudo recente aponta que os doentes que são internados de urgência num hospital ao fim de semana têm um risco de morte mais elevado; CGTP, PCP e BE reivindicam semana de 35 horas também para o sector privado e ameaçam o seu Governo de Costa com uma greve geral; Francisco Louçã tomou posse como Conselheiro de Estado.


 


ARCO DA VELHA - Segundo o jornal “i”, o cirurgião Eduardo Barroso terá vetado a primeira escolha do Ministro da Saúde, levando-o a desconvidar os novos responsáveis hospitalares da região de Lisboa que tinham sido inicialmente convidados por aquele membro do Governo e que desagradavam ao cirurgião.


 


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FOLHEAR - Um dos livros que ultimamente entrou no meu dia-a-dia é “A Dieta Ideal - receitas familiares e saborosas”, de Francisco José Viegas. Conhece-se a devoção do autor à boa cozinha portuguesa, a sua escolha de restaurantes que a praticam, mas também o prazer que tem em cozinhar para amigos. São receitas dessas incursões na cozinha que aqui estão, explicadas de maneira simples, a maioria de origem nacional a evocar sabores e tradições familiares, mas também umas quantas de inspiração estrangeira, sobretudo italiana. A sua actividade como crítico de restaurantes valeu-lhe um prémio da Academia Portuguesa de Gastronomia e a sua actividade de escritor levou a que um dos heróis dos seus policiais se deliciasse também com petiscos. Desde ervilhas com ovos, ao cozido à portuguesa, passando pelo empadão de carne, um arroz de romã com frango de escabeche (os arrozes são uma das perdições do autor…), um cuscuz com salmão fumado e legumes ou ainda uma massa com feijão, até uns ovos rotos com azeite de trufa, aqui se encontram receitas para todas as ocasiões, seja de entradas ou pratos principais. A culinária, diz o autor na introdução do livro, é uma invenção decisiva da nossa civilização. Esta “Dieta Ideal” fez-me lembrar um dos livros que também consulto com regularidade - “The Family Meal, home cooking with Ferran Adriá”, o livro onde o Chef do extinto El Bulli relatava os cozinhados que eram feitos diariamente para a equipa do seu restaurante, destinados à refeição partilhada por toda a equipa - com zero molecular e muita tradição. Com livros assim nem apetece ir comer fora.


 


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VER - Esta semana tive a sorte de ver duas exposições que me marcaram.  A primeira é uma surpreendente mostra de pinturas de Rui Sanches, que tem tido essencialmente uma actividade regular, e marcante, na área da escultura. Estas obras, a que chamou “suite alentejana”, numa referência ao atelier onde as trabalhou e que fica na sua casa no Alentejo, foram  inicialmente expostas no Porto, em 2013, na Galeria Fernando Santos, e chegam agora a Lisboa, ao espaço da Fundação Portuguesa das Comunicações, por iniciativa da Giefarte, até 12 de Março  (Rua do Instituto Industrial 16). A utilização da côr, a criação de um espaço a duas dimensões bem diferente daquilo a que as suas esculturas remetem são elementos dessa surpresa (ver imagem no início desta coluna). A outra exposição é um conjunto de trabalhos em papel de José Pedro Croft, que está na Galeria João Esteves de Oliveira até 11 de Março (Rua Ivens 38). São cerca de três dezenas de obras, entre originais e múltiplos de pequena tiragem, sob o título genérico “Espaços de Configuração” (na imagem). Estes trabalhos, aparentemente simples, são uma prova de que é  precisamente na simplicidade que melhor se distingue o poder da criatividade - mesmo quando baseada em coisas tão elementares como linhas, formas, volumes. E, claro, com uma cuidadosa utilização dessa distração que pode ser a côr.


 


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OUVIR - Sinto-me um pouco vampiro a escolher para disco da semana “Blackstar”, a derradeira obra de David Bowie - até porque o essencial do que havia a dizer foi bem escrito neste jornal por Fernando Sobral. Mas, independentemente da evidência, hoje incontornável, de que o álbum foi pensado e produzido como uma carta de despedida, ele é sobretudo um testamento artístico - a indicação do caminho musical que Bowie achava interessante explorar. É curioso porque há aspectos do disco que fazem lembrar alguns pontos do início da sua carreira, nomeadamente nos arranjos e na utilização do saxofone, particularmente em “Tis a pity she’s a whore”. Mas é curioso também observar a diferença entre a edição original em single do tema “Sue (or the season of crime)”, lançado em 2104, com a nova versão, bem diferente , incluída no álbum - muito mais elaborada e homogénea, e que abre pistas sobre a forma como ele via a evolução da sua música. Um ponto importante do disco é a própria escolha do núcleo musical, o trio de Donny McCaslin, saxofonista e um importante músico de jazz de Nova Iorque, que Bowie conheceu através da sua amiga, igualmente música de jazz, Maria Schneider - que também tem uma participação no disco e que foi, sabe-se agora, uma conselheira musical regular de Bowie nos últimos tempos. A intensidade e originalidade do disco, independentemente do dramatismo das suas circunstâncias, evoca o período em que Bowie e Eno colaboraram em Berlim. “Blackstar” afasta-se do pop, larga amarras no jazz e mesmo a faixa mais tradicional, digamos, “Girl Loves Me”, sai da sua zona de conforto.  Para além da simbologia de “Lazarus”, ou da mensagem de preocupação com o estado do mundo da faixa-título de abertura, estou em crer que é na derradeira canção, “I Can’t Give Everything Away”, na forma como ela foi escrita, construída e cantada, que está verdadeiramente o recado de Bowie: “Saying no but meaning yes, this is all I ever meant, that’s the message that I sent”.


 


DIXIT - “A higiene na Roma antiga não evitou as lombrigas e outros parasitas” - título de um artigo do “Público”.


 


GOSTO - A livraria Lello, do Porto, que celebrou esta semana 110 anos de existência e que nos últimos seis meses vendeu uma média diária de 512 livros.


 


NÃO GOSTO - O novo Ministro da Educação mudou todo o sistema de avaliação depois de já ter passado um período escolar e sem antes dialogar com representantes dos pais ou das direcções das escolas.


 


BACK TO BASICS - “À medida que envelhecemos tudo se resume a duas ou três questões: quanto tempo nos resta, o que é que vamos fazer e como o faremos” - David Bowie

janeiro 08, 2016

ZIG ZAG, FAZ & DESFAZ

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ZIG ZAG -  Em Portugal o regime entrou na época do Zig Zag, Isto aplica-se, nomeadamente, à acção do Governo, que em apenas um mês já modificou várias medidas do anterior executivo, desde os feriados nacionais até privatizações na área dos transportes, passando por revogações e alterações na saúde, educação e justiça. O país entrou oficialmente na fase em que se desfaz o que se fez e em que se aumentam os gastos. A seu tempo virá o aumento das receitas pelo expediente do costume - o aumento da cobrança de impostos. Estou com alguma curiosidade de ver como isto evolui, do ponto de vista da despesa pública, da competitividade da economia, do PIB e, sobretudo, da melhoria efetiva das condições de vida que é o grande argumento para tudo o que o Governo está a fazer. Mas isto só se perceberá daqui a uns anos. Para já uma coisa é certa: mesmo que subjetivamente. há muita gente que se sente mais à vontade para fazer gastos, para contrair créditos. Há, como se viu nos números deste Natal, uma espécie de nova euforia consumista. Resta saber se foi uma atitude pontual ou se esta euforia vai virar epidémica. Mas o efeito Zig Zag não se passa só na acção do Governo. Aos poucos vai descendo pelo edifício do sistema partidário. O primeiro sinal veio de  Paulo Portas, que decretou o fim, pelo menos temporário, da sua época - o que vai atirar o CDS/PP necessariamente para outros rumos. Resta ver como o PSD evoluirá e como se reposicionará face às alterações à sua direita. Tudo se conjuga para uma tempestade perfeita cujo resultado seja uma tranquila governação de Costa ao longo de uma legislatura. Constata-se agora ainda mais que o anterior governo não fez reformas de fundo - apenas usou maquilhagem estrategicamente aplicada. Ao usar desmaquilhador em quantidades apreciáveis, António Costa mostra também a superficialidade de muito do que foi feito. Vamos a ver como fica o rosto do país no fim destes tratamentos de beleza.


 


SEMANADA - Começaram os debates presidenciais, com três características: fraca audiência, falta de brilho e enorme previsibilidade e monotonia; começa a desenhar-se o espectro de uma abstenção assinalável; um inquérito recente mostrava que os novos votantes, entre os 18 e 25 anos, na maioria dos casos, não ligam sequer à campanha que está a decorrer; segundo o Instituto Nacional de Estatística cerca de 35% da população portuguesa, e nestes a maioria com mais de 65 anos,  não tem acesso à internet; em 2015 foram registados mais de cinco mil nomes diferentes para recém nascidos; as receitas brutas de bilheteira de cinema a nível global ultrapassaram em 2015 os 34,8 mil milhões de euros, o maior valor de sempre; a venda de carros registou no ano passado um aumento de 24% e obteve o melhor resultado desde 2010; o investimento em imobiliário em 2015 atingiu o maior valor de sempre, 1,9 mil milhões de euros com os centros comerciais e lojas de rua a captarem a maior fatia do investimento estrangeiro na área; a banca portuguesa detecta por dia 15 operações suspeitas de lavagem de dinheiro; o Governo decidiu que quatro feriados civis e religiosos vão ser repostos já este ano, criando três “pontes” em 2016;  as compras com multibanco subiram 270 milhões de euros no período do natal; o fisco reteve 486 milhões de euros em reembolsos de IVA a empresas em 2015; a dívida pública portuguesa subiu dois mil milhões de euros num mês; especialistas de planeamento urbano de vias circulares às cidades afirmam que a decisão de ajardinar e arborizar a segunda circular, tomada pela Câmara Municipal de Lisboa, coloca questões de segurança e poderá ter um impacto considerável no aumento do trânsito (e da poluição) dentro da cidade; 21 dias é o tempo médio que o Ministério da Educação demora a substituir um professor, por doença ou outros motivos, o que na prática significa um mês inteiro sem aulas; no fim de semana passado a espera em urgências hospitalares chegou a atingir as 12h00; o Governo fez 154 nomeações em 41 dias.


 


ARCO DA VELHA - Há um ano a eurodeputada Ana Gomes propôs ao PS que apoiasse a candidatura presidencial de Maria de Belém, sublinhando que era tempo de ter uma mulher na presidência; agora decidiu aceitar ser a mandatária de Sampaio da Nóvoa.


 


 


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FOLHEAR - Neste Natal houve uma prenda que me tocou especialmente: a nova edição de “Lisboa - cidade triste e alegre”, de Victor Palla e Costa Martins, que foi publicada no último trimestre de 2015 pela Pierre Von Kleist, uma editora consagrada a livros de fotografia. Originalmente o livro foi editado em 1959, na sequência de uma exposição na Galeria Diário de Notícias. A edição original foi feita em fascículos, publicados entre Novembro de 1958 e Fevereiro de 1959. Mais tarde, em 1982, António Sena fez uma exposição chamada “Lisboa e Tejo e Tudo”, na sua galeria Ether, e recuperou e encadernou algumas das colecções integrais de fascículos - e vários exemplares tiveram circulação internacional. O livro agora reeditado reproduz exactamente o original e reúne cerca de 200 fotografias, em que os autores incluíram excertos de poesia Fernando Pessoa, António Botto, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Alberto de Serpa, Cesário Verde, Gil Vicente, e inéditos de Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, Jorge de Sena, entre outros, com destaque também para o texto de abertura de José Rodrigues Miguéis. A reputação internacional do livro surgiria depois, associada à sua inclusão em 'The Photobook: A History, Vol. 1', de Gerry Badger e Martin Parr que o descrevem assim: "Lisboa, Cidade Triste e Alegre é particularmente notável pelo uso de ideias gráficas desenvolvidas por fotógrafos como William Klein ou Ed van der Elsken, criando um livro vibrante, com uma sequência cinemática". Em 2009, para assinalar o cinquentenário da edição original a Pierre Von Kleist fez uma reedição reproduzindo exactamente a original, edição que rapidamente esgotou. E no final do ano passado fez nova reedição, igualmente com uma impecável impressão, desta vez feita na Alemanha. E é esta que folheio regularmente com gosto, deliciando-me com os textos que, no indíce, os autores escreveram sobre a forma como cada imagem foi feita.


 


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VER - Esta semana recomendo três exposições de fotografias. Começo por Lisboa onde “A Pequena Galeria” (Av 24 de Julho 4C, junto à Praça D. Luis), reabre com uma nova montagem da exposição “Sete Fotógrafas & Inéditos”, que apresenta trabalhos de Clara Azevedo, Cristina H.Melo, Diana Laires, Inês Cruz, Letícia Zica, Luísa Ferreira e Maria Simão. Em Cascais, na Fundação D. Luis I - Centro Cultural de Cascais, até 17 de Abril, está a exposiçãoNicolás Muller.Obras-Primas” que integra a programação da MOSTRA ESPANHA 2015 e que fez parte do PhotoEspaña de 2015. Muller foi um fotógrafo húngaro que se fixou em Espanha, depois de ter passado por França – onde conheceu Brassaï e Robert Capa – e ainda por Portugal, onde permaneceu apenas uns meses e realizou um trabalho sobre a zona ribeirinha do Porto, que é parte integrante da exposição em Cascais (na imagem). Finalmente, em Braga, no Teatro Circo, uma exposição de fotografias de António Variações, parte de uma coleção de 300 imagens do cantor que ao longo dos anos foi recolhida por Teresa Couto Pinho , desde ensaios a concertos, passando pelas sessões para as capas de discos. Dentro em breve será editado um livro que reúne a colecção.


 


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OUVIR - Frank Zappa foi um dos génios da música norte-americana da segunda metade do século passado. Percorreu vários géneros musicais, sozinho ou com os Mothers Of Invention, fez canções, encenou provocações, e escreveu peças de música contemporânea, muitas sob a influência de Edgard Varèse, algumas interpretadas por nomes como Pierre Boulez, desaparecido esta semana. Uma delas, a mais célebre, é a ópera “200 Motels”, inicialmente editada em 1971 numa versão rock, e que agora foi gravada pela orquestra Filarmónica e Côro de Los Angeles, dirigidos por Esa-Pekka Salonen. 22 anos depois da sua morte Zappa continua a surpreender, quando nos reencontramos com o seu talento musical nesta reinterpretação de uma das suas peças mais emblemáticas, escrita ao longo de cinco anos e que relata a passagem de uma banda rock por uma cidade imaginária, Centerville, pretexto para um retrato irónico sobre o quotidiano da América de então, desde os habitantes da cidade aos membros da banda, passando pelo próprio Zappa ou os jornalistas que escrevem sobre a digressão. A versão de Salonen fez algumas alterações  na ordem de apresentação das diversas cenas e privilegiou a abordagem orquestral. Menos enérgica que  a versão original, ela é no entanto mais coerente do ponto de vista da narrativa e, sobretudo, permite divulgar e dar nova vida a uma das maiores obras de Zappa, mostrando toda a sua genialidade, quer na escrita musical quer na ironia do libretto. A gravação foi efectuada em 2013, editada no final do ano passado e produzida por Frank Filipetti e Gail Zappa, a filha do compositor.(“200 Motels- The Suites”, duplo CD Zappa Records, Edição Universal Music, na FNAC e El Corte Ingles).


 


DIXIT -  “Não estou a concorrer a líder partidário” - Marcelo Rebelo de Sousa


 


GOSTO - Das reflexões e opiniões que podem ser vistas no novo site www.clubedeimprensa.pt


 


NÃO GOSTO - Num debate televisivo o candidato do PCP, Edgar Silva, evitou responder frontalmente quando interrogado sobre se considerava a Coreia do Norte uma democracia.


 


BACK TO BASICS - “Numa disputa sem sentido não há qualquer espécie de valor” - William Shakespeare.


 

dezembro 30, 2015

COISAS DO ANO QUE ESTÁ A ACABAR

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PRESIDENTE - Se há alguém que no sistema político português precisa de ter uma apurada sensibilidade política e uma capacidade negocial e de influência considerável, esse alguém é o Presidente da República. Um Presidente não pode ser um anti-político nem um tecnocrata - a sua função é conciliar os cidadãos com o país, os dirigentes partidários com os seus eleitores, os governantes com o equilíbrio e o bom senso. Quem conseguir desempenhar assim o seu mandato, ficará na História, já que nestas últimas quatro décadas, e sobretudo nas duas últimas, com Sampaio e Cavaco, andou-se bem distante de tudo isto que um Presidente deveria ser. Quando o Governo não tem a sensibilidade social no seu DNA cabe ao Presidente fazer-lhe esse diagnóstico e recordar que a sociedade só pode evoluir a bem e nunca à força. Vem tudo isto a propósito das reflexões que o caso da morte ocorrida no Hospital de S. José despoletaram. Um Presidente que exerça o seu mandato deve ponderar a forma como são feitos cortes orçamentais em sectores essenciais, sobretudo quando se constata que os cortes verificados no sector da saúde não são nada quando comparados com o custo suportado pelos contribuintes em sucessivos escândalos com bancos ao longo dos últimos anos. Independentemente das guerras corporativas que também explicam o mau funcionamento de alguns hospitais, e em particular este caso, esta frase, dita por Marcelo Rebelo de Sousa numa visita recente ao Hospital de S. José, é o melhor manifesto eleitoral de qualquer dos candidatos presidenciais: “Pode-se poupar em muita coisa, mas poupar na saúde dos portugueses não é um bom princípio para quem quer afirmar a justiça social e construir um Estado democrático mais justo".


 


SEMANADA - Em 2015 os piropos tornaram-se crime puníveis até três anos de prisão, no seguimento de uma proposta legislativa do PSD; em contraste, os piropos recíprocos entre PS, PCP e Bloco deram na formação de um Governo;  nos últimos quatro anos 400 mil portugueses emigraram, tantos quanto a totalidade dos emigrantes nos últimos 40 anos; ao fim do primeiro mês de Governo PS, o PSD viabilizou o orçamento rectificativo apresentado por António Costa e disse que não quer crises políticas; Paulo Portas anunciou que abandona a liderança do PP; nos últimos quatro anos os serviços básicos subiram 25% e os salários nem 2%; um em cada onze empregos em todo o mundo está no sector do turismo; em 2014 a Cultura representou 1,7% da riqueza produzida em Portugal, próxima de sectores como as telecomunicações, que representaram 1,9%, enquanto a construção valia 4%; as duas principais operadoras de telecomunicações   anunciaram, nos últimos dois meses do ano, investimentos de quase novecentos milhões de euros em direitos de transmissão de jogos de futebol, valor que deverá ainda subir nas próximas semanas;  para começar bem o novo ano o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário convocou uma greve para sexta-feira dia 1 de Janeiro.


 


ARCO DA VELHA - A Refer foi condenada a pagar uma  indemnização de 80 mil euros a um seu ex-funcionário que foi despedido da empresa, por  falsificar pesagens de carris a favor do sucateiro Manuel Godinho. O mesmo ex-funcionário foi condenado a cinco anos e três meses de prisão pelo Tribunal de Aveiro, no âmbito do processo Face Oculta. Mesmo assim a empresa terá de o indemnizar por um outro tribunal o ter considerado despedido sem justa causa.


 


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FOLHEAR - Este ano que passou trouxe-nos alguns factos curiosos em matéria de leituras. Se é certo que a queda de circulação das edições impressas dos jornais diários continua a verificar-se, também é certo que o tempo médio gasto na leitura das suas edições digitais tem aumentado, sobretudo nas suas versões para dispositivos móveis. Por outro lado, e curiosamente, além das notícias de actualidade, os artigos mais longos, mais explicativos - aquilo que se enquadra na classificação de “long reading”, estão a captar mais leitores. Hoje em dia, numa edição digital, é possível ver quais os artigos e os assuntos que os leitores vão ler com maior frequência, mas também aqueles a que consagram maior tempo de leitura. Finalmente as publicações digitais mais actualizadas desenvolveram sistemas de interacção com os seus leitores, baseadas no que são o comportamento e as preferências típicas de cada um. Um dos mais flagrantes exemplos disso vem de um facto recente: apesar da sofisticação técnica e da qualidade do jornalismo do New York Times, e que o levou a ser um exemplo e um líder mundial na imprensa digital, nos últimos meses o Washington Post tem alcançado números de circulação digital já superiores ao do NYT. Para compreender o porquê desta surpreendente recuperação do WT é preciso andar um pouco para trás, quando o criador da Amazon, Jeff Bezos (na imagem), o adquiriu. Sem grandes alardes nem ruído, com uma reestruturação interna relativamente pequena e sem interferências conhecidas na sua orientação editorial, a verdade é que Bezos mudou uma coisa: o departamento digital do WT foi alvo do trabalho dos engenheiros e programadores da Amazon, que criaram sistemas de rastreamento e acompanhamento de cada leitor digital do jornal, fornecendo-lhes sistematicamente sugestões e envolvendo-os cada vez mais - tal como a Amazon faz aos seus clientes. Os resultados estão à vista, ao fim de poucos meses. Na maior parte dos indicadores digitais o Washington Post supera agora o New York Times. Começa a perceber-se o que Jeff Bezos queria fazer. Aguardam-se os próximos episódios.


 


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VER - Fundado em 1774, o British Museum tornou-se numa referência mundial. Recentemente fez uma parceria com o Google Cultural Institute e dessa parceria saíu um novo site do museu, que é absolutamente revolucionário e permite que, em qualquer ponto do mundo, a partir de um computador, tablet ou smartphone, se possa literalmente percorrer o interior do museu, voltando atrás ou parando frente a uma obra. O novo site fez do British Museum o maior espaço coberto visível pelo Google Street View , a tecnologia que permite visitar os nove andares e 85 galerias permanentes do museu, exibindo cerca de 80.000 peças, tal como ela estão apresentadas ao público no local. Adicionalmente foi construída uma timeline que incorpora cerca de 4500 objectos ao longo da cronolgia,  que permite ampliações de cada uma das peças e a sua localização nas épocas da História em que foram produzidas. Se quiser visitar este British Museum virtual basta ir a www.google.com/culturalinstitute/collection/the-british-museum .


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OUVIR - Neste Natal os responsáveis pelo catálogo dos Beatles disponibilizaram finalmente todas as suas gravações nas plataformas de streaming - Spotify, Apple Music, Google Play, Amazon Prime, Slacker, Tidal, Groove, Rhapsody e Deezer. Independentemente da plataforma utilizada o streaming é a nova forma de ouvir música que cada vez cativa maior número de utilizadores - e este ano o lançamento da Apple Music veio alargar ainda mais esta tendência. Eu continuo a comprar discos e a ouvir CD’s, mas muitas vezes vou primeiro ouvir um disco acabado de lançar em streaming a ver se vale a pena. Por exemplo, já fui ouvir uma das novas canções de David Bowie, “Lazarus” do álbum “Blackstar” que sairá em Janeiro. Depois fui à descoberta do quarteto do saxofonista Donny McCaslin, cujos músicos participam em “Blackstar” e em pouco tempo fiquei a perceber a nova direcção de Bowie, que aos 69 anos permanece sempre atento. No carro continuei a ouvir o Spotify com a gravação de um concerto de Rufus Wainright e quando à noite resolvi ler coloquei uma das playlists de jazz que o Spotify me propõe. O iPad ou o iPhone que utilizo estão ligados ao sistema de som do carro e ao de casa por Bluetooth. E as minhas descobertas de novas músicas, de repente, ficaram mais fáceis.


 


PROVAR -  Portugal vai tendo novos bons restaurantes, há mais chefs portugueses que são apreciados e distinguidos com as ambicionadas estrelas Michelin, mas a verdade é que nas coisas mais simples, de dia-a-dia, há muito pouca inovação. Por exemplo, as sanduíches: comer uma boa sanduíche em Lisboa é difícil. Na esmagadora maioria dos casos apresentam-nos uma carcassa aborrachada - ou um pão de forma cheio de ar - com tímidas e transparentes fatias de fiambre ou de queijo indistinto. As mais das vezes nem o fiambre é do melhor nem o queijo passa do flamengo mais barato - mas são sempre em quantidade mínima. Numa terra de bons enchidos e fumados são raras as casas que apresentam uma sanduíche que misture um bom paio ou uma boa paiola, em quantidade honesta, com um pão fresco e estaladiço de qualidade, que possa também receber um queijo da ilha ou um queijo de serpa curado, enriquecido por algum legume adequado e com algum tempero que passe da simples manteiga - e isto quando escapamos ao calvário da margarina. Recordo om inveja as fotografias das sanduíches de abundante pastrami, em pão estaladiço. Os cafés e as cafetarias portuguesas não sabem usar os nossos melhores produtos para fazer uma sanduíche condigna e os nossos padeiros não sabem fazer um pão adequado a essa função - que não tenha demasiado miolo, que seja possível trincar sem deslocar o maxilar. Boas sanduíches, precisam-se.


 


DIXIT - “ O resultado, na minha opinião, foi desastroso” - Jorge Tomé sobre a medida de resolução aplicada ao Banif, que liderou.


 


GOSTO - Em 2014 os turistas deixaram em Portugal 32,6 milhões de euros por dia.


 


NÃO GOSTO - Da ineficácia, dos erros, dos disparates, da falta de bom senso, dos lapsos e dos atrasos de todo o sistema judicial, porventura o pior de todos os males do Estado português.


 


BACK TO BASICS - “Um optimista fica acordado para viver a entrada do novo ano; um pessimista quer ter a certeza que o ano velho se vai de vez” - Bill Vaughan


 


(Publicado no Jornal de Negócios de30 de Dezembro de 2015)


 

dezembro 23, 2015

POLÍTICA IBÉRICA: RESISTÊNCIA FEITA DE IMOBILISMO, ALIMENTADA A CORRUPÇÃO

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MUDANÇAS - As eleições realizadas em Espanha no fim de semana passado mostram um alteração total do que era o espectro partidário do país. O PSOE caíu estrondosamente, o bipartidarismo foi desfeito, há novas forças políticas que se vão tornando as charneiras possíveis do regime e cuja participação no jogo político é fundamental para existirem entendimentos governativos. Como bem notou Nuno Ribeiro, no Público, “o modelo bipolar falhou porque não fez reformas, no imobilismo residiu a sua resistência e a corrupção foi o seu alimento”. Estas palavras podiam ser aplicadas letra por letra a Portugal. Aqui  ainda não chegámos ao tempo em que surgem novas forças políticas que ganhem relevância - o Bloco de Esquerda de certa forma é um partido já do regime, mas que renasceu, talvez graças a ser “picado” por essa invenção falhada de Boaventura Sousa Santos e de Rui Tavares que acabou por ser um balão cheio de ar, e que no dia das eleições se esvaziou rapidamente sem efeito nem consequência. Em Espanha e em Portugal os partidos do arco da governação, como se chamou aos protagonistas do regime, alimentaram-se reciprocamente e especializaram-se em fazer uma gestão política das maiorias absolutas, arregimentando hordas de fiéis que viviam das suas benesses e rodavam entre si, chamando a isso diálogo político. Na realidade quase nunca se praticou em Portugal a política como uma negociação permanente entre as forças partidárias, único factor que pode garantir uma estabilidade de políticas além dos ciclos eleitorais e que permite que a sociedade desenvolva as suas dinâmicas próprias. Em 40 anos de democracia isso ainda não se conseguiu.


 


SEMANADA - Obama organizou um visionamento do novo Star Wars para famílias de militares americanos mortos em combate e robots Stormtroopers estiveram no palco das conferências de imprensa da Casa Branca;  PSD e PP separaram-se depois de a coligação que constituíram ter vencido as eleições e mesmo assim ter perdido o Governo; José Sócrates regressou à cadeia de Évora para fazer uma visita de Natal aos seus ex companheiros de detenção; num almoço comício em Vila do Conde José Sócrates acusou o PS de estar a ter nas presidenciais uma estratégia que favorece Marcelo Rebelo de Sousa; as autoridades brasileiras pretendem investigar a actividade de José Sócrates na empresa Octapharma por negócios realizados naquele país; Manuel Alegre sentiu-se traído por António Costa na questão do Conselho de Estado; o FMI admitiu que o programa da troika em Portugal foi mal pensado e que teria sido melhor uma reestruturação da dívida; a quota de pesca de sardinha que Portugal perdeu em cinco anos anda perto das 50 mil toneladas; em Portugal há 130 barcos e 2500 pescadores a viverem da pesca da sardinha; a Banca perdeu 7 mil postos de trabalho em cinco anos; nos últimos anos os contribuintes foram chamados a pagar 13 mil milhões de euros devido a problemas surgidos em três bancos e agora vão também ter de pagar o preço das eventuais reversões das privatizações de empresas como a TAP; Paulo Portas considerou que os custos da suspensão da venda da TAP são “um imposto ideológico”; o Banco de Portugal resolveu sempre os problemas surgidos por deficiências da sua própria supervisão ao sistema financeiro atirando a conta para os contribuintes; algo vai mal no funcionamento do Banco de Portugal.


 


ARCO DA VELHA - O ex-espião Jorge Silva Carvalho garantiu em tribunal que 90% do funcionamento dos serviços de informação se baseia em actos ilegais que foram uma constante nos mandatos de vários responsáveis pelas secretas ao longo dos últimos anos.


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FOLHEAR - A revista “Egoísta” distingue-se pelo seu grafismo cuidado, por uma qualidade de impressão acima da média e, claro, por uma riqueza e diversidade de conteúdos que são no fundo a sua razão de ser. Bons conteúdos mal paginados e pior impressos há muitos, conseguir conjugar tudo de uma forma quase perfeita é que é mais difícil e é isso que a “Egoísta” faz há vários anos. A edição agora publicada  tem na capa Sofia Aparício em pose natalícia e lá dentro um magnífico portfolio fotográfico a desenvolver o tema de capa, assinado por Carlos Ramos. Entre os artigos a destacar chamo a atenção para “Hannah”, de Maria do Rosário Pedreira e para o ensaio de António Mega Ferreira sobre as interpretações que, ao longo da História, alguns artistas fizeram da Sagrada Família. Outros destaques para  “Acerca do Bom Despacho”, que tem magníficas ilustrações de Ivone Ralha e palavras de Francisco Duarte Azevedo, para “Sem Remorso”, uma mini banda desenhada de Rodrigo Prazeres Saias com texto de Luisa Jardim e para “E desde então não morri”, de Dulce Maria Cardoso. Finalmente destaque também para os portfólios fotográficos de Luís Barreira e Maria João Gonçalves. A responsabilidade destas coisas vai para o Director e impulsionador da revista, Mário Assis Ferreira, para a editora Patricia Reis, e para a designer gráfica Joana Miguéis, do atelier 004, que assegura a edição e produção da “Egoísta”.


 


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VER - Para quem gosta de artes plásticas, três ideias para prendas de última hora nas áreas da fotografia, azulejo, e múltiplos. Comecemos pela fotografia e pela Barbado Gallery (na imagem), na Rua Ferreira Borges 9A, que mostra actualmente “Facing The Camera: From 1970 to Tomorrow”, obras do finlandês Arno Rafael Minkkinen, pouco conhecido entre nós mas cuja obra tem ganho importância entre os coleccionadores de fotografia - e esta é uma galeria que se dedica a comercializar nomes de referência. Proponho ainda uma visita a O Gabinete, um espaço na Rua Ruben A Leitão 2B, ao Princípe Real, que   edita e promove múltiplos de arte em séries exclusivas e limitadas. Actualmente estão em exposição peças de Hugo Almeida Pinho, para além das novas edições de Rui Toscano e André Cepeda e do acervo fazem parte obras de Joseph Beuys, Michael Biberstein, Helena Almeida, Lawrence Weiner e Julião Sarmento, entre outros. A terminar, e passando para os azulejos, proponho uma ida à Galeria Ratton, na Rua da Academia das Ciências 2C, onde poderá encontrar deliciosos azulejos feitos por Pedro Proença e Andreas Stocklen, além de obras de muitos outros artistas que ao longo dos anos desenharam para esta Galeria como Paula Rego, Júlio Poma, Costa Pinheiro, René Bertholo, Eduardo Batarda, Joana Rosa, José Barrias, Jorge Martins ou Lourdes Castro, entre outros.



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OUVIR - Aline Frazão é angolana e compõe e interpreta, na voz e guitarra as suas próprias composições.É um dos nomes grandes da nova música de Angola, onde nasceu em 1988, vivendo actualmente em Lisboa. A sua estreia discográfica, “Clave Bantu” foi em 2011 e incluía poemas de José Eduardo Agualusa e de Ondjaki. Mas foi em 2013, com o álbum “Movimento”, onde, além das suas composições, cantou textos de Alda Lara e Carlos Ferreira, que ganhou mais notoriedade e começou a fazer espectáculos em África e na Europa. “Insular”, este  seu terceiro disco de originais, foi gravado na Escócia, na ilha de Jura. A capa e as ilustrações do interior são  de António Jorge Gonçalves, no disco participam nomes como Pedro Geraldes, dos Linda Martini. O álbum mistura ritmos envolventes e quentes de origem africana, com sonoridades duras e eléctricas do norte da Europa e inclui poemas de Ana Paula Tavares e Capicua. A maneira de cantar de Aline Frazão e os arranjos que escolheu contêm um ritmo próprio e conferem uma identidade especial ao seu trabalho, diferente dos cânones politicamente correctos da world music. E ainda bem. Edição NorteSul/ Valentim de Carvalho.


 


PROVAR -  O Biomercado é um novo espaço que conjuga um supermercado biológico com um restaurante que se apresenta igualmente biológico. Do lado do comércio estão pães da marca Miolo em várias variedades, desde a alfarroba à espelta. Há uma extensa zona de compotas e de cereais, conservas feitas com produtos biológicos, portuguesas e importadas - e nas portuguesas destaco as da fábrica la Gondola onde, por exemplo, o atum é enlatado em azeite extra virgem biológico. A garrafeira também tem algumas escolhas que suscitam curiosidade. O princípio seguido no Biomercado é ter apenas produtos frescos da época. Nalguns casos há surpresas como um bolo rei feito sem açúcar, apenas adoçado com concentrado de maçã e frutose e sem frutas cristalizadas. Há a possibilidade de encomendar peru biológico, ou seja não submetido a aviário e que cresce como nos tempos antigos. O espaço inclui uma cafetaria com uma boa oferta de saladas, sanduíches e de sumos naturais - o de maçã e gengibre é uma óptima surpresa e ao fim de semana há brunch. Avenida Duque de Ávila 141B, entre a 5 de Outubro e a Avenida da República.


 


DIXIT - “É muito difícil para algumas pessoas darem o braço a torcer”  - José Sócrates.


 


GOSTO - Os sorteios do Fisco deixam de atribuir automóveis e passam a sortear certificados de aforro.


 


NÃO GOSTO - Dos resultados da actuação de supervisão do Banco de Portugal ao longo dos anos


 


BACK TO BASICS - “Uma coisa é certa - os perus não gostam de saber que o Natal está a chegar” - provérbio irlandês.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Dezembro de 2015)

dezembro 18, 2015

A IMPORTÂNCIA DO PEQUENO COMÉRCIO NAS CIDADES


Small business, big city



Image: Nikola Strbac



It’s no surprise that New Yorkers love their bodegas and independent coffee shops but a new study from JP Morgan Chase Institute, which analysed spending habits in more than a dozen cities across the US, shows just how much. A colossal 74.7 per cent of money spent by New Yorkers goes to small and medium-sized shops. (Small businesses in Los Angeles are almost as popular, taking in 71.4 per cent of the spend share in the city.) Contrast this to smaller cities such as Dallas or Columbus where small and medium shops only get 56.5 and 54.4 per cent of the spending share. Thriving small businesses play a vital role in creating jobs and economic growth, which New York and LA have certainly enjoyed. Local governments in smaller cities should take heed and do what they can to encourage and support their small and medium businesses.


 


(extraído da newsletter The Monocle Minute


O EFEITO DO BURACO DO BOLO REI NA GOVERNAÇÃO DO PAÍS

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PINHEIRINHOS   - Vamos imaginar assim uma coisa de boa vontade, natalícia: temos governo, é redondo, tem frutas cristalizadas para adoçar, uns frutos secos para temperar, uns brindes para agradar e uma fava para alguém pagar. Parece mesmo um Bolo Rei. Diz-me a história recente que a fava calha sempre aos mesmos - aos contribuintes. Imbuído de espírito natalício só vejo pais natais a escorregarem nas chaminés dos ministérios com montanhas de prendas. Por todo o lado os pinheiros estão engalanados com blocos de bolas e estrelas vermelhas. Vejo a despesa a crescer e sei que, se a receita não crescer agora, vai ter que crescer a dobrar a seguir. Recordo-me de me terem ensinado que só se pode repartir o que existe, repartir o que não há é dar o buraco do meio do Bolo Rei como prenda. Oferecer o vazio é a pior das prendas a não ser que a intenção seja enganar. O que estes primeiros dias indicam são falinhas doces, montanhas de diálogo caramelizado, sonhos de abóbora amargos e coscorões que começam a enrijar. Resta saber quando as filhoses amolecem e  azedam . Será a fase seguinte do processo em curso. Não há almoços grátis e não há benesses sem que o preço seja pago por alguém. Vamos ver quando as renas que puxam este Pai Natal, que nos saíu em brinde como Primeiro Ministro, começam a escoicear.


 


SEMANADA - Sócrates teve dois tempos de antena na TVI, acusou António Costa de não ter saído em sua defesa e afirmou que o PS estava objectivamente a favorecer a candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa; António Costa convidou Manuel Alegre para o Conselho de Estado e depois desconvidou-o, substituindo-o por Carlos César; o grande amigo autárquico de António Costa, Rui Rio, fez constar que se prepara para suceder a Passos Coelho e avisa que “será difícil Passos ganhar eleições”; Passos Coelho optou por contrariar o que estava agendado e falou ele próprio no primeiro debate Parlamentar com Costa, substituindo-se ao líder parlamentar do PSD; no entretanto Passos anunciou que a PAF acabou;  o Futebol Clube do Porto impediu Rui Rio de entrar no seu pavilhão desportivo e obrigou a SIC Notícias a alterar o local de emissão de um programa para o qual Rio estava convidado; Arnaldo Matos retomou o comando do MRPP e anunciou-se defensor do Estado Islâmico; a comissão de honra de Henrique Neto parece um sortido de bolachas araruta constituído por ex-governantes e ex-dirigentes partidários: Campos e Cunha, Nuno Crato, Daniel Bessa, João Salgueiro e Ribeiro e Castro, entre outros; o Nobel Paul Krugman considerou “problemático” o aumento do salário mínimo na situação portuguesa e os rapazes de esquerda, que nos últimos anos o andaram a louvaminhar, ficaram a modos que engasgados; ao longo deste ano foram abertos 65 hotéis novos e remodelados; o petróleo atingiu o menor preço desde 2008; há oito anos que não há escolas públicas no top 10 do ensino secundário.


 


ARCO DA VELHA - José Sócrates disse que não sabe quanto dinheiro deve ao seu amigo Santos Silva.


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FOLHEAR - Pela segunda vez a Monocle edita, nesta altura, a sua antevisão do que será o ano seguinte. Chama-se “The Forecast” e a ideia é fornecer conteúdo que vá sendo folheado ao longo do tempo. Digamos que é uma espécie de versão “The Force Awakens” do portuguesíssimo almanaque “Borda de Água”, cuja nova edição também já está nas bancas. “The Forecast” tem 250 páginas com tendências, ideias de negócios que estão a começar a funcionar e pensamentos para tornar o mundo um bocadinho melhor - desde as casas onde vivemos até ao regresso ao campo ou a alteração nos hábitos e veículos que usamos para nos deslocarmos. Mas, além disso há debate de ideias - como por exemplo o artigo sobre think tanks e em especial a parte sobre a britânica Chatam House, cujas regras foram muito (mal) invocadas por aqui em meados do anterior governo. Adiante. Há um artigo muito interessante sobre uma questão que está cada vez mais na ordem do dia - a persistência da utilização dos livros nesta época de ecrãs, e a proliferação de pequenas editoras independentes com edições surpreendentes. Finalmente, como 2016 vai ser o ano do macaco a página final dá-nos pista sobre o que o símio nos pode trazer.


A finalizar não resisto a umas sugestões de prendas livreiras: “Crónica da Manhã - Um Apontamento de Todos os Dias” que publica 22 crónicas que Agustina Bessa-Luís fez para a RDP em 1978. E, para quem gosta de citações,“O Grande Livro dos pensamentos & das citações”, compilado por Oscar Mascarenhas.


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VER -  O documentário televisivo, bem feito, com bom research, acesso a bons materiais audiovisuais de arquivo e uma boa realização, é algo que me fascina. Se voltasse a fazer alguma coisa em televisão era esta a área a que me dedicava, um segmento da programação infelizmente tão maltratado e esquecido em Portugal, nomeadamente pelo operador de serviço público - apesar de ser daqueles que menor investimento requer. Por ocasião do centenário de Frank Sinatra o canal norte-americano HBO encarregou o realizador Alex Gibney de mostrar a vida da Voz. O resultado é “Sinatra - All Or Nothing At All”, felizmente disponível entre nós num duplo DVD que proporciona quase quatro horas de entretenimento e conhecimento. O documentário reúne entrevistas com Sinatra feitas em vários momentos da sua vida, gravações de concertos e depoimentos de quem o conheceu de perto. Um dos lados curiosos é que parte da construção é feita em torno das canções que Sinatra escolheu para o célebre “Retirement Concert”, de 1971, em Los Angeles, canções que o realizador sinaliza como os marcos que guiaram a vida de Frank Sinatra. Disponível na FNAC e El Corte Ingles ou via Amazon.


 


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OUVIR - Ao longo da História foram surgindo discos que retrataram apenas parcialmente as respectivas sessões de gravação em que foram feitos. Felizmente que muitos arquivos foram sendo salvaguardados e permitem retomar o que na altura ficou como que escondido. No Outono de 1965, há 50 anos, Amália estava a gravar um álbum de canções em inglês, standards do cancioneiro popular norte-americano, acompanhada de orquestra e sob a direcção do grande maestro Norrie Paramor - um projecto que entusiasmava o seu editor, Rui Valentim de Carvalho. A ideia inicial nunca foi finalizada e,  das 12 canções orquestradas por Paramor, apenas oito foram finalizadas e deram origem ao álbum “Amália na Broadway”, editado finalmente 19 anos depois, em 1984, quando Amália se refugiou em Nova Iorque  - foi uma fase difícil da sua vida, entrou em depressão, tentou mesmo suicidar-se e, numa carta de despedida que escreveu, pedia para que “continuassem, na mesma, a seguir com o disco das canções americanas” - assim surgiu “Amália na Broadway”. Agora, graças ao persistente trabalho que Frederico Santiago tem feito nos arquivos da Valentim de Carvalho, esses temas são completados com mais nove faixas, entre elas versões orquestrais gravadas nessa altura de “Ai Mouraria”, “Solidão”, “Lisboa Antiga” e “Coimbra”, que na época funcionaram como experiência quer para os arranjos de Paramor, quer para a relação da voz de Amália com o som da orquestra, e que antes nunca foram editadas. A essas acrescem versões alternativas de temas utilizados no “Broadway” e ainda a gravação incompleta, que Amália sempre deixou inacabada, de “The Man I Love”, um símbolo de uma época que nunca foi verdadeiramente concluída. “Someday”, assim se chama esta nova edição, tem na capa uma fotografia de Eduardo Gageiro e, no interior, um texto de Vítor Pavão dos Santos sobre esses tempos. Quando se ouve, percebe-se como Amália era um talento à parte e à frente do seu tempo.


 


PROVAR - Tinha lá ido uma vez ao princípio, quando o sushi ainda não era uma praga como hoje são os hamburguers gourmet. Lembro-me que na época achei alguma graça à diferença total em relação ao Aya, que era o meu termo de comparação possível. Não era bem sushi - percebi depois que era um sushi bossa-nova, assim, tropicalizado - e diga-se que não deliro com brasileirices. Estou a falar do restaurante “Estado Líquido”. Ao fim de quase uma década regressei lá um destes dias e fiquei agradavelmente surpreendido. Anos depois não está decadente, a mobília não range nem se desconjunta, a parede está sem mossas, a comida mantém a qualidade, os sabores ainda surpreendem, o serviço é absolutamente exemplar e atrás o balcão a concentração e dedicação dos sushimen que estão a preparar os pratos só podem significar que gostam do que estão a fazer e que estão empenhados em servir o cliente. Estas duas coisas são raras nos restaurantes lisboetas e quanto mais da moda, pior. No que toca ao cenário, os sofás do lounge no andar de cima provocam pensamentos atrevidos e espicaçam a curiosidade, Não sei se já repararam mas na maioria dos restaurantes da moda os clientes são vistos como ovnis incómodos, uma espécie de mosquitos fora de época. Balanço final: o “Estado Líquido” continua a merecer uma visita  - Largo de Santos 5A, telefone 213 972 022. Eu acho que a deslocação vale a pena, mas a casa tem um serviço de entregas que pode ajudar a fazer um festival sushi em casa. O telefone é o mesmo e em www.estadoliquido.com pode tirar as dúvidas.


 


DIXIT - “Em 2015 não devemos esperar muito do futuro, porque nós próprios somos responsáveis pelo nosso destino e a nossa responsabilidade, talvez não por nossa exclusiva culpa, não é muita” - Vasco Pulido Valente.


 


GOSTO - De  o Prémio Pessoa ter sido atribuído a Rui Chafes.


 


NÃO GOSTO - Da situação que os estivadores criaram no Porto de Lisboa.


 


BACK TO BASICS - “Aqueles que dizem que o dinheiro é a solução para tudo são os mesmos que  defendem que se pode fazer tudo por dinheiro” - Benjamin Franklin

dezembro 11, 2015

A dúvida de sempre: como colocar os mais novos a votar?

PRESIDENCIAIS - Daqui a pouco mais de um mês realiza-se a primeira volta das eleições presidenciais. Sobre ela paira o espectro de um Governo feito em circunstâncias pouco usuais e que reflecte uma leitura diferente, mas possível, dos resultados eleitorais das legislativas, num corte súbito em relação ao que era feito desde há quatro décadas. Por isso veio para primeiro plano a definição daquilo que os  candidatos pretendem fazer deste Governo, o que é, no mínimo, um exercício redutor - e perigoso - sobre a função presidencial. Os candidatos presidenciais não apresentam, por definição, um programa político - defendem um comportamento face à evolução da situação social e da realidade nacional, uma metodologia para que o regime funcione dentro do descalabro crescente do sistema político, do descrédito dos partidos e, se possível, que se consiga conquistar para a participação cívica, a começar pelo voto, as gerações mais novas que não vêem à sua volta grandes motivos de júbilo nem de participação. Ora este ponto - o do voto das gerações -  é, no caso das presidenciais, absolutamente crucial. Quem conseguir mobilizar o eleitorado abaixo dos 35 anos pode subverter as tradicionais maiorias sociológicas do voto, os dogmas instalados e exercer um mandato diferente. Estamos sobretudo a falar daquilo a que os americanos chamam a geração Z, criada já no mundo digital. São eles, se votarem, que podem alterar o jogo tradicional. Mas isso só acontecerá se os candidatos conseguirem comunicar com esses eleitores - e, do que vejo a ser feito, ninguém está a trabalhar neste assunto.


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SEMANADA - A Frente Nacional ganhou a primeira volta das eleições regionais francesas menos de um mês depois dos atentados de Paris; a greve do Metro foi desconvocada dando o primeiro sinal de como vai ser o jogo do gato e do rato entre sindicatos e Governo PS; todos os meses dão entrada na Procuradoria Geral da República cem novos casos de corrupção; o Bloco de Esquerda anunciou pretender assento no Conselho de Estado; o PCP ficou publicamente calado sobre o tema; o PS deseja que a sua área política eleja três membros do Conselho de Estado;  o PS precisa de negociar à direita para efectuar diversas nomeações para cargos políticos; o Oscar da hipocrisia foi para o sorridente aperto de mão do Ministro Mário Centeno com  Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo; os parceiros comunitários indicaram a Mário Centeno, na reunião do Eurogrupo, a necessidade da redução do défice português; o risco do crédito malparado no Sul do país supera os 30% e é quase o dobro da média nacional - um terço das empresas algarvias com empréstimos não paga à Banca; Pacheco Pereira foi desafiado a sair do PSD por ter estado num debate com a candidata presidencial do Bloco; numa entrevista, Pacheco Pereira elogiou Marcelo Rebelo de Sousa; Marcelo disse que “faria o possível para o governo ser duradouro”; ao longo do ultimo quarto de século os Governos alteraram impostos 19 vezes por ano; o poder de compra em Lisboa é 45,5% inferior ao de Nova Iorque;  23% dos portugueses entre os 64 e 74 anos utilizam regularmente o computador; 600 pessoas foram ver Cicciolina, de 64 anos, a despir-se, em Lisboa,  no Café Teatro Santiago Alquimista; o álbum “Rubber Soul”, dos Beatles, fez 50 anos.


 


ARCO DA VELHA - O secretário Geral do PCP, Jerónimo de Sousa, disse que o actual Governo é da responsabilidade do PS, rejeitando que possa ser considerado como um Governo de coligação ou de esquerda.


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FOLHEAR - Há meses que vou seguindo no Facebook uma página intitulada “Humans Of New York”. A página do Facebook deriva, por sua vez,  de um  blog. O seu autor, Brandon Stanton, vem a desenvolver este trabalho há cinco anos. Humans of New York começou por ser um projecto de fotografia e depois evoluíu para um local onde se contam histórias de quem vive na cidade. Ao longo de cinco anos foram mais de dez mil fotografias, muitas delas com pequenas histórias sobre os fotografados. Stanton conta que muitas vezes fica a conversar 15 a 20 minutos depois de cada fotografia para perceber o que pode escrever sobre cada pessoa. O que ele faz é contar histórias de pessoas que lhe são completamente estranhas e que encontra por acaso nas ruas. Numa cidade como Nova Iorque há gente de todo o mundo e o blog, a página do Facebook e o segundo livro que daí saíu, publicado há pouco tempo, e que é o motivo destas linhas, fala disso mesmo. Se o primeiro livro era quase só fotográfico, este é um repositório de histórias e de imagens, bem diferente. O blog e as redes sociais de Humans Of New York são seguidos diariamente por mais de 15 milhões de pessoas em todo o mundo. “Humans Of New York - Stories”, o livro, com cerca de 400 páginas, foi editado há poucos meses pela St. Martin’s Press e é um dos melhores exemplos da ligação cada vez maior entre o online e o offline e como ambos os mundos se podem cruzar e complementar. Está disponível na Amazon inglesa. Resta dizer que Brandon Stanton foi considerado uma das 30 pessoas mais influentes na Internet pela revista Time. Termino com uma citação de um dos fotografados : “O melhor de Nova Iorque é que, se ficarmos tempo suficiente sentado num mesmo local, parece que o mundo inteiro vem ter consigo”.


 


VER - A Magna Carta foi elaborada em 1215 em Inglaterra pelo Rei João e hoje em dia é tida como o pilar da democracia. Foi graças a ela que, séculos mais tarde, em 1628, se garantiu que os impostos deviam ter aprovação parlamentar, que não se podiam fazer prisões de forma arbitrária, que toda a gente tinha direito a um julgamento e que os poderes do Estado têm que ter limites. É pois particularmente simbólico, e uma feliz coincidência, que por estes dias um exemplar do original da Magna Carta esteja em exposição em Lisboa, na Torre do Tombo. Era bem bom que os dirigentes partidários percebessem a essência do histórico documento: o Poder tem limites - uma descoberta que está por fazer, na generalidade dos casos, em Portugal. A passagem do documento por Lisboa, onde chegou no início da semana, prolonga-se apenas até dia 12, mas a sua exibição foi pretexto para que dela se falasse e para que muitos protagonistas políticos, que a desconhecem ou, conhecendo-a, a ignoram, fossem confrontados com a sua existência e o seu significado.


Outra sugestão: uma exposição de fotografias dedicada a autores, intérpretes e músicos  do Fado - são ao todo 128 imagens de outras tantas personalidades. Chama-se Álbum de Família, parte de um trabalho de Aurélio Vasques, e está no Museu do Fado, Largo do Chafariz de Dentro nº1.


 


OUVIR - Sérgio Godinho e Jorge Palma são dois dos músicos portugueses mais marcantes das últimas décadas. As suas canções são conhecidas por várias gerações e muitas delas merecem figurar no lote do que de melhor se compôs em Portugal. O facto de os dois, que são personalidades diferentes, com estilos musicais diversos e abordagens poéticas distintas, se terem juntado para um concerto conjunto é um desafio que ultrapassa a mera soma de talentos. “Jorge Palma & Sérgio Godinho - Juntos ao Vivo no Theatro Circo” foi gravado em Setembro deste ano em Braga e foi agora editado pela Universal. Inclui 17 temas, 9 de Sérgio Godinho e 8 de Jorge Palma, todos com a participação do mesmo grupo de seis músicos que, através da interpretação que fazem, muitas vezes distante das canções originais, contribuem para que este disco seja um bom exemplo de uma gravação ao vivo exemplar. Devo dizer que nos últimos dias este CD está no primeiro lugar dos mais ouvidos cá em casa. Há uma edição especial que inclui um DVD com a gravação video do concerto.


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PROVAR -  A Touriga Nacional é uma das castas portuguesas de uvas mais importantes e daquelas que tem uma individualidade mais marcada nos vinhos em que é utilizada. José Bento dos Santos, o produtor dos vinhos da Quinta do Monte D’Oiro, é um homem dado a desafios. Daí veio a ideia de fazer um vinho - o Aurius - que utilizasse primordialmente a casta nacional e incorporasse outras estrangeiras, inicialmente Syrah e Petit Verdot, e, mais recentemente, apenas Touriga Nacional e Syrah, que são a matéria prima do Aurius 2011, agora lançado no mercado. A Touriga é dominante e bem presente, o Syrah dá-lhe um toque inesperado e o resultado é surpreendente. O vinho foi elaborado apenas com uvas da propriedade, sob a orientação da enóloga Graça Gonçalves, com o apoio técnico de Grégory Viennois, que tem acompanhado a produção da Quinta do Monte D’Oiro. O vinho foi feito por vindima manual com desengace sem esmagamento, fermentação em cubas de inox e estágio de 14 a 16 meses em barricas de carvalho francês, das quais um terço eram novas, a estrear. Foram produzidas 4.000 garrafas. Vai ficar a ganhar se o provar.


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DIXIT - “Trágico movimento o dos que julgam amar o poder, quando só amam os seus conflitos! São muito menos de temer os que amam o poder do que aqueles que só o servem” - Agustina Bessa Luis


 


GOSTO - Sobrinho Simões foi considerado o patologista mais influente do mundo.


 


NÃO GOSTO -Portugal queimou 700 milhões de toneladas de combustíveis fíosseis em 125 anos.


 


BACK TO BASICS - “Os partidos políticos não são todos iguais. Só quando chegam ao poder” - Pedro Santos Guerreiro

dezembro 04, 2015

PODERÃO CRESCER FLORES NUM CAMPO DE MINAS & ARMADILHAS ?

MINAS & ARMADILHAS - A CGTP regressou esta semana, com estrondo, ao centro da actividade política. O pontapé de saída foi dado, com a elegância que se lhe conhece, por Arménio Carlos à porta do Conselho Permanente da Concertação. Ali defendeu que aquele organismo, onde a CGTP participa, não vale para nada e o que interessa é o Parlamento, Segundo o líder da CGTP só os deputados devem ter palavra a dizer sobre aumentos, impostos, reformas ou leis laborais e não há necessidade de acordos de concertação social. Este pronunciamento mostra o estado de espírito deste sector político: alteram-se as regras do jogo conforme as conveniências e aproveitam-se as circunstâncias para subverter o funcionamento anteriormente aceite e até perfilhado. As declarações de Arménio Carlos mostram o guião que o PCP vai seguir: pressionar o PS, fazer depender o seu voto parlamentar do cumprimento de medidas que serão apresentadas por reivindicações populares, desde que, bem entendido, venham da CGTP. É como se fosse Arménio Carlos a comandar Jerónimo de Sousa, confirmando que a CGTP reverteu a relação com o PCP e que foi este partido que passou a ser a correia de transmissão da central sindical e não o contrário, como aconteceu durante anos. A nova narrativa mostra desta vez um PCP que está sossegado, sentado no Parlamento, parecendo empenhado em actuar de forma construtiva na nova maioria mas, claro, atento ao clamor popular. Na dúvida a CGTP já começou a criar amplificadores para o fabrico do seu muito próprio e dedicado clamor popular, convocando greves no sector dos transportes, na CP, SGTP e Metro de Lisboa, ao longo deste mês de Dezembro, por acaso com início uma escassa dezena de dias depois da votação do programa de Governo da nova coligação na Assembleia. O pontapé de saída está dado. Vamos ver como Costa joga em campo minado depois de lá ter semeado flores.


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SEMANADA - A economia portuguesa continua baseada na procura interna e são o consumo e o investimento que marcam o ritmo do país - revelam números divulgados esta semana pelo INE; os lucros das empresas portuguesas do PSI 20 aumentaram 1,1 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano;  o investimento em produtos associados à inovação caíu nos primeiros três trimestres deste ano face ao período homólogo de 2014; segundo um estudo da OCDE e da UE, os portugueses, sobretudo os mais jovens, estão mais confiantes que a média europeia na capacidade de lançar negócios; o desemprego está estável nos 12,4%; os portugueses compraram mais 39 mil carros em 2015; a receita mensal dos operadores de telecomunicações com pacotes de serviços subiu 18%, segundo a ANACOM; a NOS fechou um negócio que pode chegar aos 400 milhões de euros pelos direitos televisivos do Benfica; os prejuízos das empresas públicas no primeiro semestre de 2015, recuou 30% face ao mesmo período de  2014; os portugueses são quem mais recorre às urgências hospitalares entre os 21 países da OCDE; a nova Ministra da Justiça defende correcções ao mapa judiciário implementado pelo anterior Governo; Sampaio da Nóvoa prometeu ser aliado do novo Governo;  foram instaladas 2,1 milhões de lampadas nas iluminações de Natal em Lisboa; o aeroporto do Porto quadriplicou passageiros numa década; o fabrico de chocalhos no Alentejo foi classificado como Património Imaterial da Humanidade depois de chocalheiros de Alcáçovas terem ido tocar à Namíbia.


 


ARCO DA VELHA - Cerca de 100 pessoas estão inscritas para uma corrida nocturna a realizar nos túneis do Metropolitano de Lisboa, entre as estações de São Sebastião e o Aeroporto, na madrugada do dia 13, logo a seguir à greve.


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FOLHEAR - A edição de Dezembro da revista Wallpaper tem esta belíssima capa desenhada pelo Studio Job, uma dupla de designers holandeses, sob o mote House Of Fun, desenvolvido no interior da edição - que tem por tema o entretenimento. Revista de design e arquitectura por excelência, a Wallpaper (que foi fundada por Tyler Brulé, hoje a dirigir a Monocle), ocupa um lugar único, acompanhando as mais modernas tendências e divulgando novos criadores, que seja em Amsterdão, no México ou em Miami, como se pode ver nesta edição. Como parte do entretenimento passa pela mesa, a Wallpaper de Dezembro dedica parte da sua edição a utensílios relacionados com o vinho, sugestões de bebidas, restaurantes e até algumas receitas culinárias. Esta é também a edição onde está a selecção dos melhores cinco novos hotéis de 2015 que são a Soho House em Istambul, o Aman em Tóquio, , a Blossom Hill Inn em Hangzhou, o Riad Goloboy de Marrakech e o Miami Beach Edition, em Miami. Há ainda 30 dezenas de sugestões de hotéis a seguir, entre os quais está o Vincci Hotel do Porto e o Principal, de Madrid.


 


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VER - Hoje proponho uma exposição invulgar. É feita a partir de marcas portuguesas e dos seus autores, no caso Carlos Coelho e Paulo Rocha, da Ivity Brand Corp, que antes, há 30 anos, fundaram a Novodesign, e depois, a Brandia. A aventura dos dois data portanto de há três décadas e esse foi o pretexto para esta exposição onde Catarina Piteira, uma artista portuguesa que trabalha em Londres, reinterpretou algumas dessas marcas feitas ao longo dos tempos. De facto foram Carlos Coelho e Paulo Rocha, ambos também retratados por Carolina Piteira, que nos puseram na memória as imagens que hoje temos de marcas como o Multibanco, a Fidelidade, a Telecel, a Yorn, a RTP, a Leya, a TAP, os cafés Delta, a Sonae, o Licor Beirão ou os papéis Navigator, entre outros. A venda destas obras de Carolina Piteira reverte para a Associação Portugal Genial, fundada por Carlos Coelho e Paulo Rocha, e que vai apoiar projectos que contribuam para uma economia mais criativa e para a divulgação do melhor que Portugal tem para oferecer. A exposição está patente até 20 de Janeiro no Espaço Fidelidade, Largo do Chiado 8.


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OUVIR - Vladimir Horowitz foi um dos mais brilhantes pianistas do século XX, Nascido na Ucrânia, ele fez carreira primeiro na Alemanha e depois, fundamentalmente, a partir dos Estados Unidos. Em Chicago actuou 37 vezes entre 1928 e 1986. O seu derradeiro concerto na cidade foi precisamente em 1986 - e três anos depois ele morria aos 86 anos. Como homenagem ao seu público de Chicago, Horowitz quis que esse derradeiro concerto na cidade fosse transmitido por uma rádio local, focada na música erudita, a WFMT. O recital foi transmitido em directo , a 26 de Outubro de 86, e emitido apenas mais uma única vez. Desde então a gravação estava nos arquivos da estação, de onde foi descoberta em Outubro de 2013 pelo produtor Jon M. Samuels, que se entregou à sua edição. A gravação, restaurada e agora editada pela Deutsche Grammophon, num duplo CD, é um tributo à última fase da carreira de Horowitz, que interpreta com a sua forma vibrante, Scarlatti, Mozart, Scriabin, Schumann, Liszt, Chopin e Moszkowski. O segundo CD inclui ainda duas entrevistas com Horowitz, uma feita na véspera do recital e da sua transmissão e outra, realizada anos antes, e conduzida pelo crítico de música clássica do Chicago Tribune. Ambas são documentos excepcionais.


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PROVAR - Nos últimos anos assistimos ao ressurgir da indústria conserveira portuguesa e algumas marcas praticamente extintas ressurgiram. As conservas Nero fizeram história com marcas como a Georgette, a Naval, a Luças e a Catraio. José Nero decidiu há alguns anos regressar à actividade e voltar a comercializar as marcas que fizeram a história da família, não descurando de inovar. É o caso da Georgette que comercializa petiscos como um delicioso salmão em azeite, temperado com tomilho bela-luz da serra da Arrábida, e a marca Nero que apresenta filetes de anchova em moscatel do Douro. Ambas são um petisco que recomendo. Acompanhadas de bom pão e uma salada simples fazem uma belíssima entrada. Sugiro que se juntem a um vinho jovem, de qualidade, como o Lybra, da Quinta do Monte d’Oiro, feito a partir da casta Syrah e envelhecido pelo menos 12 meses em barricas de carvalho francês. Vão ver que a combinação resulta bem.


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DIXIT - “A culpa (da demora na indicação de António Costa para Primeiro Ministro) é do sistema republicano e semipresidencialista, que torna obrigatória a interferência do Chefe de Estado no exercício democrático e parlamentar dos partidos eleitos” - Miguel Esteves Cardoso


 


GOSTO - Da escolha de Maria José Morgado para Procuradora Geral Distrital de Lisboa


 


NÃO GOSTO - Em Portugal as mulheres que, para cuidar dos filhos, ficam durante dez anos fora do mercado de trabalho, perdem até um quinto da valor da reforma e são as mais prejudicadas nos 34 países da OCDE.


 


BACK TO BASICS - Há diferenças significativas entre o ser humano e outros animais: os animais têm instintos, nós temos impostos - Erving Goffman   

novembro 27, 2015

A VELHA POLÍTICA É O PRINCIPAL ADVERSÁRIO

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REGIME - Desde a passada terça-feira é oficial: mudou o modo de funcionamento do regime. A partir de agora pode formar Governo não necessariamente quem ganhe as eleições, mas quem conseguir maiorias parlamentares, mesmo que de geometria variável. Lembram-se de “Borgen”, a série de TV que tantos aplaudiram? Pois António Costa parece que a viu com particular atenção. Efectivamente é ao Parlamento que cabe aprovar ou rejeitar o Governo e o seu programa - e foi nisso que Costa apostou. Na realidade ele conseguiu formar uma coligação pós eleitoral que tem uma maioria sobre a coligação pré-eleitoral. Goste-se ou não se goste, é assim - e esta é uma experiência que em quatro décadas de democracia ainda não se tinha vivido. Se a coligação PCP-BE-PS consegue aguentar-se é outra conversa: depende em primeiro lugar dos sindicatos da CGTP e de como eles conseguirem manobrar o PCP. E, nos dias que correm, estou convencido que é mais o PCP a fazer o papel de  correia de transmissão dos sindicatos que o contrário; e a queda do Governo depende também de algum destes partidos agora coligados querer ter o ónus de deixar cair o executivo. Além disso, daqui a uns meses,  depende também, e bastante, do novo Presidente da República. Acredito que, ao contrário do que se tem dito, se for Marcelo Rebelo de Sousa aposto que ele poderá construir pontes que ninguém imaginou possíveis. Mas há outro argumento a favor de Marcelo - esta alteração de funcionamento do regime vai mostrar a necessidade de rever o sistema político e partidário. Marcelo Rebelo de Sousa é o candidato mais preparado e aquele que está disposto a procurar que os partidos se entendam numa nova lei eleitoral e eventualmente numa revisão constitucional que incida no funcionamento do sistema - por natureza Marcelo gostaria de conseguir coligar o que não parece coligável e construir alguma coisa de novo. Albert Rivera, o líder do interessante partido espanhol Ciudadanos, formulou esta semana uma pertinente questão: “é possível mudar um país sem o governar?”. Ele aposta que sim, e aponta que “a velha política é o principal adversário”. Parece-me que tem razão.


 


SEMANADA - José Sócrates anunciou, num almoço que reuniu 400 apoiantes em Lisboa, que está de volta à política; UGT reconheceu ter perdido 80 mil filiados em quatro anos e a CGTP não divulgou números sobre este tema; existem 23 candidatos anunciados à Presidência da República, que já só têm menos de 30 dias para formalizar a candidatura junto do Tribunal Constitucional; um em cada três inquilinos gasta mais de 40% do rendimento com a casa; 89% das empresas do país empregam menos de 10 pessoas e têm um volume de negócios inferior a 2 milhões de euros; o crédito em risco no BPI, BCP e CGD ascende a 25 mil milhões de euros; as empresas exportadoras significam 6% do tecido empresarial português e concentram mais de um terço do total de todo o volume de negócios; os nove casinos portugueses faturaram 214,7 milhões de euros nos nove primeiros meses do ano, um aumento de 7,2% face ao ano passado; já existem onze candidaturas para operar o jogo online em Portugal; as iluminações de Natal em todo o país custam cercam de um milhão de euros; Cavaco Silva ouviu 31 entidades e no fim fez seis perguntas a António Costa, que lhe respondeu, por carta, no mesmo dia; decorreram mais de 50 dias desde as eleições legislativas; o Presidente da República marcou a posse do novo Governo para a mesma hora de uma sessão plenária do Parlamento.


 


ARCO DA VELHA - A protecção a José Sócrates anda a ser feita por uma empresa que não tem alvará para essa actividade e cujos seguranças não têm a certificação obrigatória emitida pela polícia.


 


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FOLHEAR - Chegou a  edição especial da Monocle de Dezembro/Janeiro, com 300 páginas e dois suplementos - um guia de Viena e o jornal “Monocle Alpine”. Entre as várias entrevistas destaco a do secretário geral da NATO, Jens Stoltenberg, e a da Alcaide de Madrid, uma juíza reformada de 71 anos que saíu da sua zona de conforto para combater a corrupção. De um ponto de vista mais egoísta destaco a entrevista com o editor da New York Review Of Books, Robert B Silvers, que explica como a crítica é uma forma de criatividade. Na lista anual dos países analisados pela forma como o poder funciona Portugal subiu para a10ºa posição, com a recomendação de que o crescimento interno é a próxima meta a alcançar, depois dos resultados das medidas de austeridade. A melhor reportagem da edição é sobre a Baviera - com fotografias que mostram outra vida. Mas a grande peça da revista é a converrsa com o artista norte-americano Ed Ruscha - só isso valia a revista inteira. Finalmente esta Monocle tem ainda o Top 50 das viagens, desde comboios a aeroportos, passando por linhas aéreas, carros, hotéis, roupas e até bicicletas. Portugal consegue uma entrada na posição 45 - a escapadela mais bucólica,  com o Hotel São Lourenço do Barrocal, em Monsaraz, um projecto de recuperação arquitetónica assinado por Souto Moura.


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VER - O destaque esta semana é para a Gulbenkian, que apresenta um conjunto invulgarmente aliciante de exposições - seis para ser mais exacto. Comecemos pelo edifício principal.  Calouste S. Gulbenkian e o Gosto Inglês permite ter uma perspetiva sobre o coleccionismo de Calouste Sarkis Gulbenkian, através de obras que se encontram habitualmente nas reservas do Museu e que evidenciam a sua ligação ao Reino Unido onde estudou e viveu largos anos. Outra exposição é Wentworth-Fitzwilliam. Uma Coleção Inglesa, que agrupa 56 obras de diverso artistas de várias épocas, pertencentes  a uma importante coleção particular, iniciada em 1630 por Thomas Wentworth, 1º Conde de Strafford, e onde se incluem obras de Anton van Dyck, Sir Thomas Lawrence, Canaletto, Claude Lorrain, Claude Joseph Vernet, Hans Memling e George Stubbs, entre outros.  Passando para o Centro de Arte Moderna, destaque para  O Círculo Delaunay (na imagem). Sonia e Robert Delaunay viveram em Portugal desde Agosto de 1915 até Dezembro de 1916, aprofundando as relações, que já mantinham em Paris, com alguns portugueses, nomeadamente Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, José Pacheko e Almada Negreiros e evoca o ambiente criativo que se vivia à época. Hein Semke. Um alemão em Lisboa, apresenta aspetos menos  conhecidos da produção artística de Hein Semke, um alemão nascido em Hamburgo, que em 1932 radica-se em Linda a Pastora e, depois, em Lisboa, e que se torna-se presença regular em exposições coletivas de vulto da capital portuguesa. Willie Doherty. Uma e outra vez, também no CAM, é uma das grandes exposições deste Outono em Lisboa. Willie Doherty é um dos artistas contemporâneos mais proeminentes,  já foi seleccionado duas vezes para o Turner Prize e representou a Irlanda duas vezes na Bienal de Veneza. Trabalhando sobretudo com vídeo e fotografia, explora as relações entre o indivíduo e sociedade e entre natureza e espaço urbano. Finalmente, As Casas na Coleção do CAM mostra como as  casas continuam a distinguir-se por constituirem lugares de intimidade e abrigo. A exposição percorre o século XX, com trabalhos de escultura, pintura, vídeo, fotografia e instalação, de artistas como Ana Vieira, Rachel Whiteread ou José Pedro Croft, entre outros.


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OUVIR - Em 2013 o pianista de jazz Júlio Resende fez um disco com revisitações de temas que haviam sido interpretados e popularizados por Amália Rodrigues, entre os quais uma versão de “Medo” em que o piano de Resende, graças à tecnologia digital, se cruza com a voz de Amália. Desde então o pianista tem feito numerosos concertos, dos quais resultou um registo ao vivo, “Fado & Further”, que conta com a voz de Silvia Perez Cruz, nomeadamente em temas como “Lágrima” e “Cucurrucucu” e novas versões, das quais destaco “Uma Outra Mariquinhas” e “Enfrentar o Medo”. O disco tem uma edição especial, em que além do CD existe um DVD gravado em directo com o título “Amália por Júlio Resende”. “Fado & Further” vai ser apresentado já neste sábado 28 no CCB, com Silvia Perez Cruz e Moreno Veloso como convidados especiais. A edição do disco é da Valentim de Carvalho.


 


PROVAR -  No edifício do Mercado da Ajuda fica o Espaço Açores, que como o nome indica é dedicado à gastronomia do arquipélago. A sala é ampla e luminosa, com vista que desce pela colina da Ajuda até ao rio. Na mesa o couvert inclui queijo da ilha de cura recente, cortado aos cubos, azeitonas indistintas, manteiga bem temperada, pão sem grande história para além de vir a escaldar. As coisas começam bem com umas lapas grelhadas, que estavam no ponto. A seguir vieram uns filetes de abrótea demasiado fritos, o que secou o peixe e lhe apagou o sabor, acompanhado por um esparregado com inhame e batata doce, que acabou por ser o melhor do prato. Na carne o lagarto à micaelense, com batata doce às rodelas revelou uma carne de primeira qualidade e foi o melhor do almoço. O vinho foi servido a copo, branco e tinto da ilha do Pico, a merecer atenção. Inexplicavelmente em vez de ananás dos Açores a casa serve abacaxi de algures. O chá de funcho fez um bom final. A casa serve cozido à moda das furnas às sextas e domingo ao almoço e todas as quintas-feiras há um buffet açoriano. Fica no Largo da Boa-Hora, à Ajuda, e tem o telefone 213 640 881.


 


DIXIT - “Costa antecipa o milagre - dá primeiro as rosas, e depois logo se vê” - Nuno Morais Sarmento


 


GOSTO - Da 6ª Feira do Livro de Fotografia, que se realiza este fim de semana no Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa, na Rua da Palma.


 


NÃO GOSTO - Da confusão armada à volta da devolução da sobretaxa do IRS


 


BACK TO BASICS - “A democracia é um mecanismo que assegura que seremos governados da forma que merecemos” - George Bernard Shaw