julho 17, 2015

ENTRE TELEVISÕES E SUGESTÕES - COM POUCA GRÉCIA PELO MEIO

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TELEVISÕES - Nesta semana o Governo britânico deverá divulgar um documento sobre a BBC, incidindo na análise do seu funcionamento, na avaliação do cumprimento da sua missão e na dimensão que a organização tem alcançado nalgumas áreas – nomeadamente no digital. Há duas questões cruciais em cima da mesa: saber se a BBC tem procurado audiências massivas em detrimento da sua fidelidade à missão original de serviço público, que é a sua razão de ser e a justifcação de receber a taxa paga pelos telespectadores britânicos; e a outra questão é saber se a BBC está  fazer concorrência a organizações de media privadas e se, sobretudo no digital, com a extensão da informação que proporciona, está a prejudicar os jornais e especialmente a imprensa regional e local – acusações que têm vindo a crescer nos últimos tempos. Finalmente há uma questão no financiamento que está a levantar uma série de polémicas e que é o fim do pagamento da taxa aos 75 anos de idade, o que tirará vários milhões de libras anuais ao orçamento recebido pela BBC. O conjunto destes temas promete ser escaldante - ainda por cima com os conservadores a assumirem sem receios a defesa de um serviço público que não ceda às tentações de variedades e de imitadores manifestadas em programas como “The Voice”. Com o atraso habitual discussões destas hão-de chegar um dia a Portugal, mas neste momento o Conselho Dependente, utilizado pela tutela como espantalho do audiovisual, anda bem longe delas. O princípio que norteia a BBC é tem uma excelente síntese nesta frase “não caçar audiências mas procurar que a qualidade seja popular e que o popular tenha qualidade”. É claro que isto se passa no país da cultura pop, onde a popularidade mostrou o seu potencial criativo e transformador e não é mal vista pelas elites. Sex Pistols, topam?


 


SEMANADA - Até final de Maio registou-se, em relação ao período homólogo do ano anterior, um aumento de exportações de 3,5%, mas verificou-se um aumento das importações de 6,2%, sobretudo devido ao sector automóvel;  António José Seguro recusou integrar as listas de candidatos a deputados propostas por António Costa; o processo de José Sócrates já vai em mais de 20 mil páginas; a sede histórica do Grupo Espírito Santo, na Lapa, está à venda numa agência imobiliária; o novo Governo Regional da Madeira anunciou ir demolir a Marina do Lugar de Baixo, inactiva desde a sua construção por problemas de segurança, obra que custou 100 milhões de euros, quase quatro vezes o seu orçamento inicial; Portugal pode tornar-se em 2050 no segundo país mais envelhecido do mundo - actualmente está na sétima posição; a investigação judicial à farmacêutica Bial inclui uma alegada simulação de estudos científicos para justificar pagamentos no valor de um milhão de euros a médicos, na realidade incentivos para receitarem medicamentos fabricados pelo laboratório; o consumo dos portugueses fora de casa aumentou no primeiro semestre do ano e há uma redução de produtos alimentares na ordem dos 3,8% nas compras nos supermercados; há menos 5% de pessoas a levar comida para o emprego; teoria dos jogos: a oposição grega votou a favor do Syriza e uma parte do Syriza votou contra o seu partido.


 


ARCO DA VELHA - Um emigrante português no Luxemburgo teve que se deslocar a Portugal para testemunhar num processo relativo a um acidente de automóvel porque o consulado português no Luxemburgo não tem Skype e a embaixada em Paris negou-lhe o direito de o usar porque não residia em França.


 


FOLHEAR - A revista “Epicur”, fundada em 1998 por Eduardo Saramago, Eduardo Miragaia e José Matos Cristovão, tem tido uma vida atribulada e incerta nos últimos anos, muitas vezes longe dos padrões iniciais. A 3ª série da revista começa agora, com novos responsáveis (Mário Rui de Castro e Filipa Melo), e as mudanças, para melhor, são bem visíveis - desde logo no grafismo,  mas também nos temas, ou seja, em toda a edição. A revista é sazonal e sai com as estações do ano, de três em três meses. Apropriadamente este número de verão tem na capa uma melancia estilizada, fruto que é referido várias vezes que tem direito a um texto imperdível de Vergílio Loureiro que desmistifica a velha maldição de não se poder comer melancia depois de beber vinho. Além de comidas e bebidas a nova série da revista evoca viagens - e melhorou também substancialmente na edição fotográfica. Uma das novidades é um bom roteiro de sugestões de exposições internacionais, o pior momento é a tentação do cruzamento de estrelas, aqui entre o autor de “Equador” e uma cançonetista; se,  como dizia Epicuro, o filósofo grego que inspirou o nome da revista, “o homem sensato não evita os prazeres”, também vale a pena deixar dito que o homem sensato não deve estar sujeito a maçadas. Adiante que este é um incidente menor na revista - que traz umas inesperadas receitas (das quais destaco os pickles de melancia de Sá Pessoa), boas sugestões de livros e uma interessante evocação de Auguste Escoffier, o criador dos crêpes Suzette e organizador de dez mil receitas. Dos colunistas destaco Manuel S. Fonseca e os escritos de comidas de Francisco Seixas da Costa. A melancia de verão já está nas bancas, a edição de Outono chegará a 21 de Setembro. Esta “Epicur” melhorou e tem espaço para crescer.


 


VER - Poucas vezes uma exposição impressiona tanto como esta de Cristina Ataíde, “Ser Linha Ser”, inaugurada na semana passada no espaço da Fundação Carmona e Costa, onde ficará até 3 de Outubro. As amplas salas da Fundação permitem acolher a dimensão das peças de Cristina Ataíde, que permanentemente invoca a sua condição de escultora, em simultâneo com a sua paixão pelo desenho e pela montagem de instalações - os três vectores em que a exposição assenta. Alguns do desenhos, vários deles fora do que tem sido a linha mais presente em obras recentes da artista, completam-se com um assinalável atrevimento a desafiar a utilização habitual de pedra nas suas esculturas, mostrando que elas tanto podem ser parte do chão como existir suspensas.  Cristina Ataíde manipula ideias manipulando materiais e conta histórias combinando suportes diversos - numa confronto permanente entre obras a duas dimensões e outras tridimensionais. Fundação Carmona e Costa, Rua Soeiro Pereira Gomes lote 1, 6º Direito.


 


OUVIR - Robert Glasper fez nome em cruzar o jazz com o hip hop e o Rhythm ‘n’n Blues, como se viu no seu disco anterior, “Black Radio”. Mas quando este pianista decide revisitar o passado do jazz consegue fazer coisas espantosas, quer seja nas versões de temas como “Reckoner” (dos Radiohead), “Barangrill” (de Joni Mitchell) ou de standards como “Good Morning” ou “Stella By Starlight”, quer seja nos seus temas originais como “I Don’t Even Care” ou em “In Case You Forgot”, cheio de citações e evocações que vão da forma de tocar piano de nomes como Keith Jarrett, Thelonious Monk e Art Tatum , passando por apontamentos de temas tornados populares por Cyndi Lauper ou Bonnie Raitt. O trio de Glasper inclui ainda Vincent Archer no baixo e Damion Reid na bateria - um trio acústico, portanto, em que a secção rítmica é avassaladora e o entendimento com o piano é total - o trio existe com esta formação há largos anos. Gravado ao vivo, em estúdio, perante público, o registo tem uma vivacidade e energia invulgares, ao mesmo tempo que é uma lição de técnica ao serviço da  interpretação. “Covered”, de Robert Glasper, é um dos melhores discos de jazz que ouvi este ano. CD Blue Note, produção de Don Was, distribuição Universal.  


 


PROVAR - Até ao fim de semana passado ainda não tinha comido este ano umas sardinhas frescas satisfatórias - eram melhores as de conserva que a maioria das que me serviram em restaurantes de vários locais, incluindo esse ex-templo do peixe grelhado que era o Último Porto, em Lisboa. Em Julho a sardinha está na melhor fase, gorda mas firme, saborosa. Em Setúbal costuma comer-se boa sardinha mas a procura já é tanta que a coisa nem sempre corre bem. De maneira que voltei a um restaurante de beira de estrada, entre Azeitão e Palmela, em Cabanas, o Retiro do Gama. Todos os dias o responsável pela grelha, o Sr. Carlos, traz de Setúbal peixe fresquíssimo que ele escolhe com cuidado - os salmonetes por exemplo, são especiais. Mas quando ele diz que as sardinhas estão boas, não há que hesitar. Além da qualidade da matéria prima que ele escolhe, a maneira como sabe tratar o peixe na grelha deixa-o impecável, e no caso da sardinhas que provei, mantém o sabor a mar, coisa bem rara. A acompanhar  veio uma salada rica, batatas novas e açorda. Antes veio uma salada de polvo temperada na perfeição e umas boas azeitonas, além do excelente pão da casa que é sempre necessário para fazer uma cama para as sardinhas. A rematar, a escolha é entre a reputada mousse de moscatel e, este ano, a novidade de uma tarte de alfarroba que é um pouco pecaminosa. A dirigir as operações estão o proprietário, Carlos Gama, e, na cozinha, a sua mulher, Fátima - a casa não tem só grelhados, há petiscos de tacho que são muito apreciados. A equipa é atenta no serviço e regressar ao Gama é sempre um prazer - saboroso ainda por cima. Retiro do Gama, Avenida Visconde do Tojal 33, telefone 915 826 567.


 


DIXIT - Exemplo de separação entre a Igreja e o Estado:  “Se o Papa Francisco votasse em Portugal, votaria no PS” - Ascenso Simões, Director de campanha dos socialistas.


 


GOSTO - Das imagens que chegam de Plutão, do que se vai descobrindo sobre este planeta, da aventura da exploração espacial, da persistência dos cientistas que exploram o desconhecido.


 


NÃO GOSTO - Das cedências do próprio Passos Coelho às pressões de Luis Braga da Cruz, Presidente de Serralves, que assim fez andar para trás, por motivos estritamente burocráticos,  a política cultural que tinha sido estabelecida para a coleção de arte moderna da Secretaria de Estado da Cultura no Museu do Chiado.


 


BACK TO BASICS - “Nunca pensei que fosse possível estabelecer um valor monetário à democracia, que é o que acontece quando se limita o custo da justiça. Quando um Estado não funciona com base na lei, deixa de haver democracia” - excerto de uma frase uma juíza, personagem do livro “”The Man From Beijing”, de Hanning Mankell.




NOVELAS E PROGRAMAS INFANTIS MARCAM O VERÃO

Na semana passada o conjunto de canais de cabo alcançou a maior audiência das últimas semanas, com 32,8% de share, bem à frente de qualquer dos canais generalistas – a TVI, que lidera, teve 21,2% de share – por aqui se vê a diferença. Na realidade o conjunto dos canais de Cabo só perde a liderança durante o horário 20h-24h, para a TVI – em todos os outros horários está à frente. Se olharmos para a lista dos dez programas mais vistos nas generalistas verificamos que cinco deles são telenovelas da SIC e TVI, há um programa de apanhados da SIC e os quarto restantes são espaços informativos diários – três das 20h00 e um da hora de almoço, o “Primeiro Jornal”, da SIC. Passando para os canais informativos, a TVI24 continua a aparecer à frente da SIC Notícias, apesar de já ter acabado a Copa America cujas transmissões directas animaram o canal informativo da TVI. Soube-se esta semana que a RTP Informação se irá passer a chamar RTP3 e aguarda-se perceber quais as mudanças que surgirão nos seus conteúdos. A CMTV, apesar de estar apenas na plataforma MEO, continua a aparecer entre os 20 canais mais vistos. Nesta altura do ano há quatro canais infantis neste Top 20 e nas séries a FOX ultrapassou a AXN. Com o futebol no defeso o grande programa desportivo da semana é a Volta a França em bicicleta, cujas transmissões na RTP2 garantiram a este canal a sua melhor audiência dos últimos meses.


 


(Publicado na Sexta TV & Lazer do Correio da Manhã de 17 de Julho)

julho 10, 2015

SONDAGENS, DISPARATES & SUGESTÕES AVULSAS

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TRETAS - Até ao final do Verão vamos viver rodeados por sondagens. Esta semana conheceram-se várias, que analisaram desde as preferências de votos nas próximas legislativas até à opinião dos inquiridos sobre o comportamento da justiça no caso Sócrates e sobre o comportamento do cidadão Sócrates no seu caso com a Justiça - estas últimas com curiosos resultados que podem fazer os advogados pensar os efeitos das suas estratégias na opinião pública. Tudo indica portanto que este vai ser um bom ano de facturação para as empresas de sondagens. Os próximos estudos de opinião, quando a partir de final do corrente mês ficarem mais desenhadas as candidaturas presidenciais, vão também ser empolgantes. Pelas minhas contas é provável que à primeira volta se apresentem praticamente uma dezena de candidatos, talvez com ligeira vantagem numérica dos do lado direito sobre os que estão do lado esquerdo do barómetro político, Se isto se confirmar a primeira volta vai ser uma espécie de primárias simultâneas da esquerda e da direita, para ver quem vai ao combate final. A partir de fim do mês vão começar as requisições de apoio, o desfilar de notáveis a opinar e os painéis de comentadores partidários nas televisões vão fazer prodígios de ainda maior equilibrismo e vacuidade de pensamento para conseguirem sobreviver sem ofenderem demasiado nenhum dos candidatos das suas áreas político partidárias - o que vai ser sobretudo saliente no PSD e no PS. Vai ser engraçado ver como os opinadores de serviço se vão repartir. Os candidatos serão tantos que os comentadores partidários vão ter muitas solicitações nos próximos tempos, divididos entre puxarem a brasa às suas sardinhas nas legislativas e procurarem evitar tomar compromisso antecipado nas presidenciais. A coisa promete - já deve haver alguém a treinar equilibrismo.


 


SEMANADA - Entre 2010 e 2014, ou seja durante o período da troika, as dívidas à segurança social dispararam 60%; a produtividade portuguesa equivale a 64% da média europeia; desde 2011 que os bancos portugueses não concediam tantos empréstimos à aquisição de casa própria; a concessão do crédito à habitação subiu 50% nos primeiros cinco meses de 2015, em relação ao período homólogo do ano passado; em 2014 Portugal tinha a 4ª maior dívida pública da OCDE, apenas atrás do Japão, Grécia e Itália; as importações à Alemanha foram as que mais aumentaram em 2014, cerca de 12%; o Porto de Sines movimentou mais 25% de mercadorias no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado; desde Janeiro faliram 2484 empresas e o comércio a retalho é o mais afectado; o intermediário da venda da PT, amigo pessoal do seu novo Presidente, que lhe encaminhou o assunto para a Altice, reclama uma comissão de 69 milhões de euros à OI pela concretização do negócio; com mais de cinco milhões de pessoas de origem portuguesa espalhadas pelo mundo, Portugal apresenta atualmente a taxa de população emigrada mais elevada da União Europeia e é o sexto país em número de emigrantes; no ano passado emigraram 387 médicos especialistas e um inquérito recente indica que 65% dos médicos que estão a fazer o internato da especialidade consideram a possibilidade de emigrarem; o PS conseguiu travar a proposta de que os registos de interesse dos responsáveis das secretas fossem públicos, para que assim não se saiba se pertencem ou não a associações secretas, como a maçonaria.


 


ARCO DA VELHA - O Conselho Superior da Magistratura considerou que a proposta do governo, que visa alterar o regime jurídico do Sistema de Informações da República Portuguesa, viola a Constituição em matéria de inviolabilidade de correspondência, telecomunicações e demais meios de comunicação.


 


FOLHEAR - A arte do editor é procurar formas de reinventar obras antigas e criar para elas focos de atenção. A editora Guerra & Paz, dirigida por Manuel S. Fonseca, tem feito isso ao longo da sua existência, num trabalho cuidado, que concilia a edição de novos autores com edições populares divulgadas com o apoio da SIC, mas também com edições especiais muito trabalhadas. Um dos grandes exemplos deste espírito de paixão pela edição é o belíssimo “Livro de Viagem”, que nos traz como viajantes Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Ousando uma heresia, é como se o espírito do poeta tomasse de assalto um tuc tuc voador e através dele fosse percorrendo paragens diversas. A edição original, cuidadosamente elaborada por Manuel S. Fonseca, é de 2009, e é um exemplo do muito que se pode fazer com pouco desde que haja imaginação - “Para que precisa de viajar com o corpo quem tão bem viaja com a alma!” - com esta citação resume o editor o seu trabalho no posfácio que encerra este livro dedicado a quem acha que a melhor maneira de viajar é sentir, lema comum da associação secreta de viajantes que agrupa os autores dos relatos publicados. Disponível, além das livrarias, no site da editora - www.guerraepaz.net .


 


VER - Todos os anos, por esta altura, a Galeria João Esteves de Oliveira revisita o seu acervo e expõe obras de artistas com quem tem trabalhado ao longo dos anos, desde consagrados a novos talentos. Especializada em trabalhos em papel, a Galeria ganhou um espaço próprio pela escolha cuidada dos trabalhos que apresenta. Sob o título “Regresso Ao Acervo”, são mostradas obras de nomes que vão de Álvaro Lapa a Sofia Areal, passando por António Palolo, Cecília Costa, Jorge Martins, Jorge Nesbitt, José Pedro Croft, Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes ou Pedro Calapez (na imagem). Incluídas na exposição estão também obras de três dos finalistas do Prémio EDP Novos Artistas deste ano - Vasco Futscher, Manuel Caldeira e Marco Pires. “Regresso Ao Acervo” fica até 11 de Setembro, na Rua Ivens 38, frente ao Grémio Literário e permite ter uma visão de conjunto, rara, do trabalho de uma série de grandes nomes da arte contemporânea portuguesa. Além das duas aguarelas de Calapez merecem destaque o desenho a carvão de Cecília Costa, um tríptico de José Pedro Croft, os desenhos de Cabrita Reis e Rui Sanches e os trabalhos de Vasco Futscher.


 


OUVIR - Tenho especial apreço pelos músicos que ensaiam fusões de géneros, pelos que não hesitam em ser herejes e contrariam os princípios estabelecidos. O pianista norueguês Bugge Wesseltoft gosta de descobrir novas texturas sonoras a partir de sonoridade ambientes e combina jazz tradicional com música de dança electrónica, funk, ritmos latinos ou soul. A combinação pode parecer estranha mas o resultado é bem conseguido. Sob o título “Bugge & Friends” e a referência “Nº3 Jazzland Norway”, este grupo de músicos de várias nacionalidades, liderados por Bugge, vai buscar influências muito diversas, numa sucessão de cruzamentos de inspirações. Para  citar Bugge, imaginem, por exemplo, que Miles Davis toca a passear por Cuba ou que Monk está em Ipanema. No trabalho incluído neste CD, que nasceu da evolução de actuações ao vivo ao longo de dois anos, há  também a influência de DJ’s - e a síntese mais resumida do que se ouve é um cruzamento conseguido de jazz com música de dança , ou club music se preferirem. Como diz o mentor do projecto, “este género de música é exclusivamente sobre o prazer que os artistas e a sua audiência podem ter em conjunto, sobre a partilha de forças com o objectivo de criar boa energia e viver um bom momento”. O CD é distribuído em Portugal pela Universal Music.


 


PROVAR - Nestes bons dias de verão uma esplanada com vista e desafogada, se possível abrigada do vento, é sempre uma benção. Se tiver alguma coisa para petiscar enquanto a tarde acaba e a noite começa, ainda melhor. É o caso do Le Chat, uma estrutura basicamente de vidro, mas aberta, com um grande terraço, ao lado da entrada lateral do Museu Nacional de Arte Antiga, com uma vista única do estuário do Tejo, de Alcântara até ao desenhar da baía de Cascais em dias de boa visibilidade. E, claro, também se vê a margem sul - agora extraordinariamente batizada por South Bay num assomo de americanismo de algum autarca local. O Le Chat é protegido do vento que às vezes dificulta os fins de tarde lisboetas neste mês de Julho, tem um serviço simpático e é garantidamente uma das melhores esplanadas de Lisboa - ainda por cima a construção, colocada num sítio magnífico, é muito bem conseguida e não se sobrepõe à paisagem. Nesta recente incursão provou-se um pica pau de lombo de atum fresco com molho cítrico, que estava excelente, mal passado no ponto, e muito bem temperado, acompanhado de chips de batata doce. É este aliás também o acompanhamento do hamburguer da casa, boa carne, sem ser compactada em demasia e também bem temperada. Bebeu-se uma imperial bem tirada e um Assobio tinto, do Douro, servido a copo. Belo fim de tarde. Le Chat, no Jardim 9 de Abril, à Rua das Janelas Verdes, tel. 213 963 668. A revista do New York Times considerou-o como um dos locais a não perder numa visita a Lisboa, por mais rápida que seja. E acertou em cheio.


 


DIXIT - “Você passa a vida a falar de reformas mas nunca vemos propostas concretas”, afirmou esta semana o deputado europeu belga Guy Verhofstadt, dirigindo-se Alexis Tsipras


 


GOSTO - A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa  comprou a antiga Casa de Saúde Militar, na Estrela, para aí instalar unidades de cuidados paliativos e cuidados continuados para os mais carenciados.


 


NÃO GOSTO - Que os CTT me entreguem avisos ilegíveis de cartas registadas, que ainda por cima não me eram dirigidas e que foram parar à minha caixa de correio - está a piorar a entrega de correspondência postal aos seus destinatários.


 


BACK TO BASICS - O sucesso e os resultados não se medem pela dimensão que se apregoa, mas pela riqueza das ideias e contributos que se oferecem - Robin S. Sharma.


 

UMA ESPREITADELA NAS AUDIÊNCIAS DE TV

Apesar de ser distribuído somente através da plataforma MEO, abrangendo portanto apenas cerca de metade do mercado de televisão por cabo, o CM TV esteve esta semana entre os 20 canais mais vistos em todas as regiões do país e em 18º lugar a nível nacional. A audiência dos canais de cabo tem vindo a aumentar e hoje em dia já representa 31,5% do total de espectadores – num universo televisivo em que a TVI lidera com 21,6% de share, a SIC voltou a cair para 18,1%, a RTP1 está com 15,4% e a RTP2 com 2,3%. Os bons resultados de audiência da RTP devem-se às transmissões do Europeu de Sub21, e sobretudo à final entre Portugal e a Sucédia e as da RTP2 têm uma grande influência das transmissões da volta à França em bicicleta. O desporto também jogou pela TVI24 graças à Copa América, conseguindo assim ser o canal mais visto do cabo. Esta semana a “A Única Mulher” conseguiu pontualmente ultrapassar “Mar Salgado”, contribuindo assim para o reforço do domínio da TVI em todos os horários. Apesar da situação grega e do referendo os canais e espaços informativos não foram especialmente beneficiados nestes dias. Se tivesse que fazer um resumo da semana diria que cada vez mais gente vê cabo, que o desporto continua a ser um dos grandes pólos de atracção de audiências e que as novelas produzidas em Portugal são o programa preferido do horário nobre.


(Publicado na revista Sexta TV & Lazer)

ESTAÇÕES DE TELEVISÃO CAÇAM ESPECTADORES NO ONLINE

O consumo de imagens video em dispositivos móveis está a alterar a nossa relação com todo o universo das imagens. Hoje em dia o conceito de televisão começa a separar-se do aparelho que invadiu as casas a partir de meados do século passado. A mudança de hábitos de visionamento passa pelo progressivo afastamento das estações tradicionais, graças à possibilidade de escolha e consumo de conteúdos online. A proliferação de ligações de banda larga veio permitir que empresas como a Netfliz, a Hulu e a Amazon passassem a disponibilizar o acesso a filmes e séries em streaming, em detrimento da programação tradicional dos canais de televisão. Nos Estados Unidos há já 10 milhões de casas que deixaram de assinar TV por cabo ou por satélite e que vêm TV através de banda larga em plataformas de streaming.


Um estudo recente do IAB (interactive Advertising Bureau), que também contemplou Portugal, mostra que  este ano, a nível europeu, há mais 35% de pessoas a verem videos em smartphones e que22% das pessoas afirmam verem menos televisão tradicional em relação ao que faziam há um ano atrás. 60% dos inquiridos admite que tem frequentemente em utilização simultânea dois ecrãs (o da TV e o de um dispositivo móvel). No caso português os conteúdos mais vistos em dispositivos móveis, nomeadamente smartphones, são trailers de filmes e sketches de humor e, só muito depois, aparecem videoclips musicais – uma tendência pouco frequente a nível internacional, onde a música costuma ocupar um lugar mais relevante. Numa outra perspectiva de análise cerca de 60% dos utilizadores de smartphones vê video através do YouTube mas há já 40% que utilizam o Facebook para o mesmo efeito.


Esta nova realidade coloca uma questão importante aos produtores de conteúdos audiovisuais: como promover as suas novas produções? Recentemente o serviço de streaming video da Amazon escolheu o Facebook para fazer o lançamento da sua nova série “Catastrophe”, oferecendo o primeiro episódio gratuito na rede social. A HBO fez o mesmo com duas séries também recentes: “Ballers” e “The Brink”. Até aqui o YouTube era a plataforma que garantia maior visibilidade e audiência aos videos. Mas com as recentes novidades introduzidas no Facebook a sua capacidade de encontrar audiência para os videos está  a aumentar exponencialmente – na realidade o algoritmo do Facebook, com as analogias e a informação que permite utilizar, é mais eficaz a encontrar os destinatários certos de determinado conteúdo – e essa vantagem permite-lhe posicionar-se de maneira diferente já que no YouTube, por eqnauanto, apenas se consegue encontrar o conteúdo por pesquisa.


O que as novas organizações de distribuição de conteúdos video estão a fazer é perceber que já não chega usarem a publicidade convencional nos espaços comerciais das estações de televisão – e por isso estão a tomar a dianteira no rastrear da mudança de comportamento dos consumidores. Se as próprias estações de televisão estão a começara fazer isto, os anunciantes que hoje ainda as utilizam vão rapidamente aperceberem-se das alterações significativas que começam a existir. O mundo está sempre em mudança. E quando as estações de televisão vão á procura de audiências fazendo publicidade online e nas redes sociais, vale a pena começar a pensar no tema.

julho 03, 2015

A ÚLTIMA COISA QUE QUERO É SENTIR-ME GREGO

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ATENAS - A 26 de Junho de 1963, há 52 anos, Kennedy fez um discurso frente ao muro de Berlim, que ficou célebre por estas palavras: Ich bin ein Berliner - eu sou um berlinense. Esse discurso sublinhava a diferença entre as democracias ocidentais e as ditaduras da europa oriental, na órbita de Moscovo. “There are many people in the world who really don’t understand, or say they don’t, what is the great issue between the free world and the communist world. Let them come to Berlin. Freedom has many difficulties, and democracy is not perfect, but we have never had to put a wall up to keep our people in. Two thousand years ago, the proudest boast was ‘Civis Romanus sum,’ Today, in the world of freedom, the proudest boast is ‘Ich bin ein Berliner!’ ”Tenho-me lembrado muito deste discurso nas últimas semanas. Olho para o que se passa na Grécia e vejo como o Governo de Atenas tem vindo a construir um  muro à sua volta, cuja única abertura aponta para Moscovo, deliberadamente voltando a colocar o espectro da guerra fria sobre a Europa. Tsipras está a criar um cenário construído para que um dia destes Putin possa proclamar, do alto da Acrópole, que se sente um Ateniense. A História dá voltas terríveis, mas o que se passa é infernal. As posições do Governo grego inspiram-se num catavento e são um petisco para quem gosta de apostar no que poderá ser o passo seguinte. De opositor feroz, em 2011, a um referendo sobre tema semelhante ao que agora propôs, Tsipras torna-se agora no seu maior defensor, querendo, no fundo, apenas referendar-se a si próprio e aos seus métodos. À hora a que escrevo, quarta à noite, é muito difícil imaginar o que se vai passar até Domingo. Mas não resisto a sublinhar que um exemplo da verdadeira noção de democracia de Tsipras está na forma como tem utilizado a estação pública de televisão, que reabriu exclusivamente para a usar como o seu canal de comunicação e amplificador das suas posições - Chavez não teria feito melhor. A televisão publica grega é agora apenas a extensão audiovisual do governo. Esta coisa da teoria dos jogos no poder dá cabo de qualquer um. Com um desgoverno assim, a última coisa que quero é sentir-me grego.


 


SEMANADA - Augusto Santos Silva ficou aborrecido por a transmissão de jogos da Copa América na TVI24 ter maior audiência que os seus comentários e ficou incomodado com as várias alterações de programação justificadas pelos jogos; os dados de um novo Inquérito Social Europeu indicam que Portugal é o país da Europa que menos se interessa por política, com 40% dos inquiridos a dizerem que não têm interesse nenhum no tema; Pinto Balsemão afirmou preferir Rui Rio como candidato a Belém; Cavaco Silva demonstrou que ainda é capaz de fazer contas de subtrair; segundo um estudo da Marktest 1,4 milhões de portugueses acedem a notícias e informação através das redes sociais; António Costa não quis comentar a entrevista dada por José Sócrates esta semana, na qual insinuava que a sua detenção seria um factor negativo para a estratégia eleitoral dos socialistas; segundo o Correio da Manhã o vice presidente do Grupo Lena admitiu no inquérito judicial ter servido de barriga de aluguer na transferência de 12 milhões para a conta de Carlos Santos Silva, quantia que seria destinada a José Sócrates;  a Comissão Nacional de Protecção de Dados acusou o Governo de querer dar carta branca às secretas para vasculhar a vida das pessoas; a crise em Angola já fez regressar 3 mil portugueses; mais de 100 agentes da PSP são arguidos no caso da troca dos passes de transporte por dinheiro; entre Janeiro e Junho, foram vendidos 100.656 automóveis ligeiros de passageiros, um aumento de 32,8% em relação ao primeiro semestre do ano passado; a editora de livros aos quadradinhos Marvel anunciou que a mulher-aranha está grávida, tornando-se assim na primeira super-heroína a assumir esse estado.


 


ARCO DA VELHA - Os bombeiros já combateram 3355 fogos em 47 dias, o pior registo desde 2003, e dos dez helicópteros que compunham a frota do Estado para combate a incêndios apenas estão a voar um aparelho pesado e dois ligeiros -  a ministra da Administração Interna foi alertada para a situação há cinco meses.


 


FOLHEAR - Esta é uma excelente altura para ler um livro sobre Winston Churchill, que morreu há 50 anos e foi um factor decisivo na resolução de um dos piores conflitos que varreu a europa no século passado. O autor é Boris Johnson, agora Mayor de Londres, mas antes editor da revista The Spectator, e que chegou a ser considerado como um possível rival de David Cameron nos conservadores britânicos. Mas o que interessa aqui é o estilo bem humorado de Johnson, muito bem apanhado pela tradução nesta biografia de Winston Churchill, que a D. Quixote agora editou em Portugal, “O Fator Churchill”, a maneira como conta histórias e episódios e, também, como os enquadra na História. Se gosta de biografias e se, como eu, acha que Churchill foi decisivo para salvar a nossa civilização este é um bom livro para ler neste Verão. Não é uma biografia clássica, como as que Roy Jenkins ou Martin Gilbert escreveram sobre o estadista, mas é um relato irresistível sobre Winston Churchill. Excessivo em tudo, brilhante na oratória, rápido na decisão, corajoso nas escolhas, Churchill foi o Primeiro-Ministro que levou o Reino Unido e os seus aliados à vitória sobre os alemães. Nestes tempos difíceis que estamos a viver de uma Europa em crise faz ainda mais sentido ler a História desse tempo e descobrir como Churchill a viveu. A tradução é de José Mendonça da Cruz e merece ser elogiada.


 


VER - Não tenho memória de uma exposição recente de fotografia de um autor português me ter marcado de forma tão saliente como “Posto de Trabalho”, de Valter Vinagre, que abriu na Fundação EDP/Museu da Electricidade e estará patente até 20 de Setembro (na imagem). Como Valter Vinagre diz estas suas fotografias “não mostram gente, mas é de gente que falam”. As fotografias, feitas entre 2010 e 2103, reflectem o mundo da prostituição da beira de estrada, mostrando com um enquadramento e iluminação singulares construções de aspecto efémero que abrigam essa actividade ao mesmo tempo evidente e escondida. Há um misto de miséria e de carinho, de desprendimento mas também de  procura de criação de um espaço de intimidade, que mostra uma realidade ainda mais dura do que se poderia imaginar. A exposição é acompanhada por uma boa edição, da XYZ Livros, que a vai fazer perdurar no tempo. Ainda na Fundação EDP podem ser vistas, também até 20 de Setembro, mais duas exposições - a dos finalistas do prémio EDP Novos Artistas, entre os quais destaco Vasco Futscher, e uma revisitação, muito bem concebida e montada,  do que era, há exactamente um século, a vida no ano em que nasceu a Orpheu - 1915.


 


OUVIR - Em cima de um piano de cauda Steinway, na sala da casa de Amália Rodrigues, em S. Bento, havia uma fotografia autografada, com dedicatória à fadista, de Anthony Quinn. Refiro isto não só porque Amália amava ver filmes, mas também porque Quinn se imortalizou em “Zorba, O Grego” - que muitos por estes dias de tempestade têm recordado. Amália gostava de Quinn - e reza a lenda que ele gostava dela. Lembrei-me de tudo isto por causa de uma edição especial de “Fado Português, um dos seus discos históricos, editado em 1965, agora lançada para assinalar o cinquentenário da edição original. Esta nova edição foi coordenada por Frederico Santiago, que tem trabalhado, bem, nos últimos anos, no catálogo de gravações de Amália Rodrigues para a Valentim de Carvalho. “Fado Português” foi um álbum fundamental na afirmação do génio  musical de Alain Oulman e, através dele, da divulgação e popularização de poetas maiores da línguia portuguesa, de Camões a Régio, passando por Alexandre O’Neil, Pedro Homem de Mello e David Mourão Ferreira, que foi um dos autores que mais influenciou a obra da fadista.Esta nova edição inclui dois CD’s - o primeiro junta ao alinhamento original do LP de Junho de 65 o material entretanto publicado posteriormente dessas sessões de gravação; e o segundo reúne gravações que até agora tinham permanecido inéditas dessas sessões, feitas por Hugo Ribeiro, o técnico que mais acompanhou Amália em estúdio. Finalmente regista-se que a opção de edição respeitou o som mono primitivo, até aqui nunca disponível em CD. Esta é uma edição que ajuda a compreender melhor o processo criativo de Amália, de Oulmann e daqueles que mais de perto com ela trabalharam e onde é justo referir Rui Valentim de Carvalho.


 


PROVAR - Se por estes dias de brasa europeia quiser ir ter um ar de Grécia pode experimentar um dos dois restaurantes gregos que são mais conhecidos em Lisboa. Um deles é o Santorino Coffe, na Rua Manuel da Maia 19A (para o lado da Rovisco Pais), e que tem fama de ter a melhor Moussaka de Lisboa e bons patés gregos. Tem também vinhos, cerveja e digestivos gregos. Vai estar fechado no Domingo do referendo mas experimente ligar para marcar noutro dia que os lugares são escassos - os entendidos dizem que é o melhor e mais simpático sítio para se provar boa comida grega em Lisboa - o telefone é o 218 472 748.  Outra opção fica na Rua das Trinas 22, é o Ilhas Gregas, que se destaca pelo prato creta, que para além de Bifteki, tem costeleta de borrego, souvlaki e gyros. Este restaurante gaba-se de ter uma sobremesa sempre elogiada, iogurte grego batido com doce de azeitona e de ter produtos gregos em todos os items da lista. Tem também um menu de degustação grego mas as opiniões dos utilizadores no Zomato são muito irregulares. Domingo que vem, dia do referendo, conta estar aberto.  O telefone é o 210 993 288.


 


DIXIT - “Se o segredo de justiça é para violar, então acabe-se com ele “ - Elina Fraga, bastonária da Ordem dos Advogados


 


GOSTO - Do Festival do Silêncio, que decorre até 5 de Junho na zona do Cais do Sodré e Largo de S. Paulo.


 


NÃO GOSTO - Da ideia de Rui Rio ser candidato à Presidência da República


 


BACK TO BASICS - “Um fanático é alguém que não muda de ideias nem consegue mudar de assunto” - Winston Churchill


 


 

O QUE É MESMO O INTERESSE PÚBLICO?

 


Esta semana a RTP2 voltou a ser o quarto canal mais visto. E que aconteceu para o segundo canal do Serviço Público ter ultrapassado os vários canais de cabo que têm conseguido melhores audiências que ele? Pois a resposta é simples – foi a transmissão do Campeonato do Mundo de hóquei em patins. E, em simultâneo, os jogos do Europeu de Sub 21 foram também os responsáveis pelas melhores audiências da RTP1. Temos assim uma semana em que os canais generalistas da RTP fizeram audiências graças à transmissão de provas desportivas e em que os privados as conseguiram graças a produções nacionais de ficção – as novelas “Mar Salgado” e “A ]Unica Mulher”.


Claro que num caso e noutro estavam em causa as selecções nacionais e esse é sempre o argumento que a RTP usa para vestir de serviço público aquilo que é apenas um catalisador de audiências com base na transmissão de um espectáculo desportivo, que pela certa também interessaria aos privados.


Esta discussão está longe de terminar – o serviço público de televisão deve ter em conta o interesse dos públicos que dão bons números de audiência ou o interesse público no fomento de uma indústria audiovisual? Qual o interesse público que deve ser dominante numa estação de televisão: concorrer com os privados em tipologias de programação que eles também queiram emitir ou procurar complementar a paisagem audiovisual com outras tipologias que não são desenvolvidas pelas estações privadas?


 


(publicado na Sexta, revista de televisão do Correio da Manhã, de 3 de Julho)

junho 26, 2015

ENTRE LISBOA E O MUNDO - UMA SEMANA INQUIETA

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LISBOA - Aqui está uma coisa que me intriga: porque é que o actual Presidente da Câmara de Lisboa, o tal que foi nomeado por António Costa sem ter sido eleito para o cargo, não diz nada sobre o extraordinário projecto de arrasar com a estação de Santa Apolónia, defendido pelo seu compagnon de route Manuel Salgado? O Sr. Medina anda caladinho que nem um rato, a ver se passa na chuva sem se molhar. Claro que o Sr. Medina devia pôr ordem na Câmara e, quanto mais não fosse, salvar as aparências - o atelier do Sr. Salgado, antes de ele ser vereador, tinha imaginado a estação de Santa Apolónia eliminada, como parte de uma reestruturação que, sob o manto diáfano da proximidade do rio e dos espaços verdes, possibilitasse criar um corredor onde, entre arbustos, nascessem mais uns empreendimentos imobiliários, comerciais ou hoteleiros. Diga-se aliás que o vereador Salgado, familiar do Dr. Ricardo Salgado, na sua anterior encarnação como arquitecto, teve numerosas ocasiões de cruzar negócios com o BES, banco que por acaso estava ligado a esses empreendimentos. A sua preocupação com a jardinagem da frente ribeirinha é tudo menos ecológica ou paisagística. Vamos a ver se o Sr. Medina tem opinião própria ou se segue apenas as conveniências.


 


MUNDO - Eu fico muito preocupado com a situação grega e europeia embora ache que quem semeia ventos colhe tempestades. Mas não consigo deixar de achar extraordinário que não haja uma preocupação proporcional com a barbárie das execuções do ISIS esta semana conhecidas -  crucificar crianças que foram apanhadas a comer durante o Ramadão,  afogar homens em jaulas com gravações subaquáticas dos seus últimos momentos a afogarem-se, ou colocar colares explosivos noutros, comandados à distância. E também me incomodo com as limitações e perseguições que existem em países africanos, asiáticos ou da América do Sul. Queria só lembrar que há mais no mundo para além do caos grego e das encenações do Sr. Tsipras.


 


SEMANADA - Este verão metade dos portugueses fica em casa nas férias ;  o numero de apartamentos portugueses no airbnb é de 26.700, mais 65% que há um ano;  a população estrangeira residente em Portugal diminuiu 1,5 por cento em 2014, totalizando 395.195  imigrantes; em 2014, a comunidade estrangeira que mais aumentou foi a chinesa, que passou a ser a quinta mais representativa (21.402), com um crescimento de 14,8% face a 2013, ultrapassando a angolana, que diminuiu 2,3 por cento; mais de cinco mil empresas dependem em exclusivo de Angola em matéria de exportações; a taxa de poupança das famílias recuou para 6,8% do rendimento disponível nos primeiros três meses deste ano, a mais baixa desde o último trimestre de 2008; a exposição de Portugal à Grécia é de 4,6 mil milhões de euros, quase o dobro da Irlanda; as fábricas de conservas portuguesas estão a comprar metade da sardinha que utilizam a Espanha, França e Marrocos por falta de oferta no mercado nacional; o relatório provisório de incêndios florestais do ICNF indica que, entre 1 de Janeiro e 15 de junho, registaram-se 6.113 fogos, mais 3.578 do que no mesmo período de 2014;  os 6.113 incêndios resultaram em 14.971 hectares de área ardida, mais 9.446 do que no mesmo período de 2014, quando as chamas consumiram 5.525 hectares; 2015 vai ter o arranque de aulas oficial mais tardio da última década; Miguel Relvas comparou-se a Mouzinho da Silveira em matéria de dimensão das reformas autárquicas que ambos fizeram - a de Mouzinho da Silveira foi feita em 1832.


 


ARCO DA VELHA - Os serviços de informações enviaram um email a 383 candidatos a espiões pedindo-lhes que confirmassem o interesse numa vaga a que tinham concorrido - mas na mensagem enviada  estavam os endereços de todos os concorrentes que assim ficaram expostos numa acção muito pouco secreta dos nossos serviços secretos.


 


FOLHEAR - O disfarce é uma arte, a ilusão é  o segredo de qualquer mistério. Ao colocar na capa um transexual a Vanity Fair mostra como continua a conseguir conciliar o seu lado iconoclasta com o facto de ser uma das bandeiras do melhor grupo editorial de revistas,  Condé Nast. Não é por acaso que capas destas nascem - a Vanity Fair tem à frente um dos mais marcantes editores de revistas das últimas décadas, Graydon Carter, e uma das dores de cabeça da Condé Nast vai ser escolher o seu substituto quando ele atingir o limite de idade imposto pela empresa aos seus quadros superiores. Com Carter a Vanity Fair dedicou-se a explicar o que se passava à sua volta - fosse na finança, na política, na guerra ou nos costumes. Editou investigações, reportagens, perfis de pessoas influentes, contou histórias. Esta capa, que retrata o ex atleta olimpico Bruce Jenner depois de ter operado a sua transformação de género e se ter passado a chamar Caitlyn, é um exemplo de como a Vanity Fair é diferente do resto. Não aborda o tema com sensacionalismo, mas publica uma história muito bem escrita e superiormente fotografada por Annie Leibowitz. Nesta edição, de Julho, há muito mais para ler - dos cenários de guerra aos do ballet, passando pelos das novas séries de televisão.


VER - A galeria Mário Sequeira, em Braga, é um caso raro no panorama português da arte contemporânea. Nascida em 1994 no rés do chão de uma antiga casa de quinta do final do século XIX, a Galeria tem exibido ao longo destas duas décadas de vida, nomes como Richard Long, Gerhard Richter, Anselm Kiefer, Sigmar Polke, Georg Baselitz, Andy Warhol e Rachel Witheread, entre outros. Em 2000, a galeria inaugurou um novo edifício projectado por Carvalho Araújo, rodeado por um  jardim onde já foram apresentadas exposições de escultura de exterior de artistas como  como Anish Kapoor, Richard Long, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis, Serge Spitzer,Gary Webb, Gavin Turk, Aaron Young e Liam Gillick, entre outros. A partir deste sábado a Galeria acolherá “E Não Havia Nada Que Não Viesse do Olhar”, uma exposição individual de Pedro Calapez, a partir das suas pinturas sobre alumínio. Segundo Pedro Calapez, as obras, na sua maioria inéditas, são trabalhos datados de 2013 a 2015, em suporte de alumínio (na imagem) e mostram diferentes séries de trabalhos. A exposição ficará patente até 30 de Agosto na Galeria Mário Sequeira, Quinta da Igreja, Parada de Tibães, Braga. Mais informações sobre a Galeria e suas exposições em www.mariosequeira.com .


OUVIR - Mão amiga fez-me chegar um disco que regista uma das incursões que Keith Jarrett tem feito pelo território da música clássica. Já conhecia as suas incursões pela obra de Bach, confesso que desconhecia estas “Suites For Keyboard”, de Handel, que Keith Jarrett gravou, em piano, em Setembro de 1993 e que foram originalmente editadas pela ECM em 1995. A gravação foi feita em Nova York e o próprio Jarrett explica nas notas de capa como considera Handel um dos mais interessantes compositores barrocos, cujas composições para teclas são pouco conhecidas. Foi precisamente para chamar a atenção para esses trabalhos de Handel que Jarrett se dispôs a fazer esta gravação, seleccionando ele próprio o repertório que decidiu interpretar. Originalmente estas composições foram tocadas pelo próprio Handel num cravo, um instrumento bem diferente do piano em que Jarrett optou por as gravar. Na época a opção foi polémica, mas a ideia era mostrar como elas poderiam viver em termos contemporâneos. Os puristas não receberam bem este disco, mas aqueles que gostam de ouvir música sem preconceitos, como acho que é o meu caso, ficam seduzidos pela forma como Keith Jarrett aborda as extravagâncias musicais de Handel. Uma delícia, à venda na FNAC.


 


PROVAR - O nosso ritmo de trabalho e a persistente mania de começar a trabalhar tarde - e acabar ainda mais tarde - impede um dos maiores prazeres destes dias longos que é um cocktail ao fim de tarde tomado com calma em volta de uma boa conversa, de preferência numa esplanada. Diga-se em abono da verdade que em Portugal a tradição de cocktails é fraca e as long drinks são frequentemente derrotadas pela cerveja. A excepção a isto nasceu da moda do Gin Tónico, que nos últimos anos se enraizou. Por estes dias tenho-me convertido ao Campari - uma bebida licorosa, com cerca de 24º, feita a partir de toranja, limão, laranja e especiarias, oriunda do noroeste de Itália, onde começou a ser popular por volta de 1860. Pode ser bebido com soda (uma parte de Campari para duas de soda, muito gelo e uma rodela de laranja), ou um Negroni (uma parte de Campari, uma de gin e uma de vermute tinto, uma rodela de laranja e gelo - bebida apreciada por Orson Welles quando estava em Itália),  ou ainda o Sbagliato - uma parte de Campari, uma de vermute e outra de prosecco, tudo com gelo e a rodela de laranja. Há quem na versão com soda inclua também uma medida de vermute - o resultado uma vez misturada a soda, dá pelo nome de Americano. Em dias quentes a minha preferência vai para o Campari Soda simples -  o sabor ácido da bebida ajuda a refrescar o espírito.


 


DIXIT - "O problema que neste momento afeta a Segurança Social chama-se pura e simplesmente desemprego", disse Manuela Ferreira Leite, notando que a sustentabilidade do sistema depende mais da situação económica do país do que do envelhecimento da população.


 


GOSTO - O CCB vai promover neste Outono uma mostra sobre o que foi a Exposição do Mundo Português, de Junho de 1940, realizada na zona de Belém, incluindo aquela onde o Centro foi construído.


 


NÃO GOSTO - De ver o centro de Lisboa, seja no Parque Eduardo VII ou noutro sítio,  transformado numa feira de gado e de hortaliças ao serviço de uma acção publicitária apoiada pela Câmara Municipal.


 


BACK TO BASICS - O respeito pelas tradições  nunca enfraqueceu uma nação e na realidade é algo que as fortalece nos momentos de perigo - Winston Churchill.


 

CABO COM MUDANÇAS À VISTA

Até final do corrente ano poderemos ter uma alteração dos canais de cabo portugueses. A entrada da Altice na PT, onde procurará reduzir o valor dos contratos com os canais, poderá levar a médio prazo a alterações na paisagem audiovisual portuguesa – já que é natural que os outros distribuidores aproveitem a ocasião para procurarem igualmente renegociar em baixa os valores que pagam. Já na Cabovisão a Altice fez isso e desta vez o mercado televisivo aguarda com alguma expectative o que se irá passer – sendo que alguns canais têm como única fonte de rendimento o que recebem dos distribuidores já que as suas receitas publicitárias são residuais. As audiências obtidas passam assim a ser determinantes para aferir o valor negocial de um canal. Por exemplo o CMTV tem vindo a melhorar os seus resultados – na semana passada esteve em 18º lugar a nível nacional e em 8º na região sul, sendo que é distribuído através de uma única plataforma, a MEO. A TVI 24, graças aos jogos da Copa América, esteve à frente da SIC Notícias , tornando-se no segundo canal de cabo com maior audiência, logo atrás do Hollywood. Tudo isto acontece na semana em que o conjunto dos canais de cabo obteve o seu melhor resultado dos ultimos dois meses, ao conseguir captar 31,5% do total de audiências. O programa mais visto da semana continuous a ser a novella “Mar Salgado”, da SIC, o único canal aberto que não teve transmissões desportivas – matéria em que a RTP foi recordista.


 


(Publicado originalmente na revista "Sexta TV & Lazer" do Correio da Manhã)

junho 19, 2015

SOBRE O EFEITO QUE A GRÉCIA TEM NO AQUECIMENTO GLOBAL... DA POLÍTICA

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QUENTE - O verão promete ser escaldante não só na nossa política interna, mas também em Bruxelas. A razão desta onda de calor politico que agita a Europa está, claro, na Grécia. O que irá acontecer? O primeiro-ministro grego, Tsipras, estará a fazer bluff e recua na recta final? Ou o bluff parte do Eurogrupo, que agora estabelece como objectivo retomar as negociações e não um objectivo palpável de acordo nessas mesmas negociações? Quem, irá recuar? O Eurogrupo continuará colado a Berlim e ao FMI ou vai distanciar-se? Ou, no fim, ninguém recua? Por mais especialistas que surjam a dizer que uma saída da Grécia da Zona Euro não terá perigo de contágio a outros países, a verdade é que, se isso acontecer, o conceito de Comunidade Europeia até aqui existente mudará substancialmente. E, no meio disto, como ficará,a situação em Portugal, nas várias versões possíveis da evolução dos acontecimentos? Se a Grécia retomar negociações e conseguir alguma coisa - e já nem é preciso muito neste ponto - ficam com razão os que defendem que era possível outra via de negociação. Se a Grécia sucumbir, ficam sem saber o que fazer os que viam no Syriza o farol que lhes guiava o caminho. Uma solução negociada alimentará os que querem alterar as políticas de austeridade; uma ruptura não deixará de condicionar o eleitorado português nas suas decisões. Os próximos dias, as próximas semanas, vão ser escaldantes. Seja o que fôr que aconteça, existirão implicações na situação portuguesa, implicações que contaminarão as próximas eleições, poderão levar os partidos a alterar propostas já apresentadas e poderão, sobretudo, fazer o eleitorado pensar. Vai ser um verão quente.


 


SEMANADA - Há quatro queixas por dia apresentadas contra seguranças privados e 80% são por agressão; os agentes das secretas vão poder usar identidades falsas, vigiar e localizar telemóveis, ter acesso a dados fiscais e bancários e consultar facturações detalhadas; há 19 202 cães perigosos registados em Portugal; o PS, PSD e CDS devem um milhão de euros à Assembleia da República por terem recebido subvenções a mais nas eleições autárquicas de 2009; a segurança social recusou 1359 pedidos de reforma antecipada, um terço do total apresentado; as exportações portuguesas de vinho cresceram 20% nos últimos quatro anos; o peso do Turismo na balança comercial está a crescer 20% em 2015; os call centers instalados em Portugal empregam mais de 40 mil pessoas; trabalhadores precários ganham em média 730 euros por mês; em apenas cinco anos Portugal perdeu 200 mil habitantes; os transportes públicos totalizaram sete meses de greve ao longo dos sete ultimos anos; só este ano já se realizaram sete greves no Metropolitano de Lisboa; Donald Trump é o 13º candidato que se propõe às presidenciais norte-americanas pelo Partido Republicano; no fim de semana saíu a história de que Passos Coelho quer Fernando Nogueira como candidato presidencial em Portugal; o PS anunciou que a evolução da situação grega pode levar a alterar o seu programa eleitoral; Sérgio Sousa Pinto, deputado socialista, afirmou que não é impossível um acordo entre o PS e PSD; o Verão começa oficialmente dentro de momentos.


 


ARCO DA VELHA - A Ministra francesa da Ecologia fez um apelo público para que diminua o consumo de Nutella e, em resposta, o Ministro italiano do Ambiente defendeu o produto fabricado no seu país e anunciou que planeava jantar pão com Nutella.


 


FOLHEAR -  Diz a tradição que o fruto proibido é o mais apetecido. Por isso mesmo todas as proibição são em si mesmas um desafio - seja em que civilização fôr, seja em que época da História nos estejamos a focar. Proibir não é apenas uma questão ideológica - a segunda metade do século XX está cheia de proibições de um lado e outro das ideologias - ou até do Muro de Berlim, para falarmos numa coisa mais física. A  principal limitação do livro de António Costa Santos, “Proibido!”, originalmente editado em 2007 e com sucessivas reedições ao longo dos anos, é que atribui implicitamente apenas a razões ideológicas e c políticas a carga de proibições que atravessaram a sociedade portuguesa até 1974, descontextualizando-a dos brandos usos e costumes de então - fosse no tamanho dos fatos de banho, no comportamento público ou na protecção dos monopólios, como a Fosforeira Nacional. A lista de proibições  passava por beijos em público, casar com uma enfermeira ou usar isqueiro na rua (em casa era permitido). A favor do livro está o espírito de humor com que é escrito, mas também o rigor dos factos relatados. Tudo somado é uma peça fundamental para perceber como se vivia em Portugal antes de 1974, O livro foi escrito por António Costa Santos, tem 196 páginas e foi agora relançado pela Guerra & Paz.





VER - Enquanto não têm oportunidade de visitar o novo Whitney Museum, em Nova Iorque (na imagem), vale a pena passar algum tempo a navegar no seu também novo site -  http://whitney.org . Além de poder conhecer a história da instituição, criada em 1930 por Gertrude Vanderbilt Whitney, poderá também conhecer todos os detalhes do novo edifício projectado por Renzo Piano para o Meatpacking District, junto ao rio Hudson (originalmente estava em Greenwich Village). O site está cheio de imagens dos arredores do museu, muitas acompanhadas por descrições e pequenas histórias, e até por programas desenvolvidos em parceria com outras entidades do Meatpacking District e Chelsea e a já célebre Highline, um parque público que está a uma dezena de metros do nível da rua, onde anteriormente passava uma linha férrea de transporte de mercadorias que abastecia a cidade. E para além de toda a informação possível sobre as exposições em curso (o novo edifício foi inaugurado no princípio da primavera), é possível visitar virtualmente a colecção própria da instituição - o site anterior mostrava apenas 700 das suas obras e este permite visualizar 21 mil. Mais do que uma instituição única no panorama da arte, o Whitney é um exemplo de trabalho com a comunidade, e, neste caso,  sobretudo de integração na reconversaão urbana de uma parte importante e emblemática da cidade. Como poderão ver, tudo foi pensado e nada foi deixado ao acaso. Outras vidas - como diria alguém ao meu lado.


 


OUVIR - O segundo disco dos Real Combo Lisbonense é uma homenagem a Carmen Miranda -  a cantora que nasceu no  Marco de Canavezes em 1909, que foi para o Brasil com apenas dez meses e que, depois de aí ter feito carreira a partir de 1928, acabou por ir para os Estados Unidos, estreando-se na Broadway em 1939. Daí foi para Hollywood, onde fez 14 filmes. Criou a imagem da baiana extravagante e morreu aos 46 anos, em 1955. Em pouco mais de duas décadas de carreira deixou sua voz em 279 gravações no Brasil e mais 34 nos EUA, num total de 313 gravações. Onze dos seus temas, seleccionados entre os  mais conhecidos, foram recriados pelo colectivo "Real Combo Lisbonense" para o CD “Saudade de Você”, lançado há poucas semanas. Entre esles estão o célebre “Escrevi Um Bilhetinho”, mas também “Saudade de Você, “O Que É Que Você Fazia”, “Salada Mixta” e “Adeus Batucada”, entre outros. O Real Combo Lisbonense, uma aventura única na música portuguesa contemporânea, foi fundado por João Paulo Feliciano e inclui, entre outros, Tomás Pimentel (o trompetista que fez os arranjos), Bruno Pernadas, Sérgio Costa, David Santos, João Pinheiro, Rui Alves, Mário Feliciano e, nas vozes, Ana Brandão, Margarida Campelo, Joana Campelo e Ian Mucznik. Cá por casa o disco roda em alta rotação, sobretudo nos fins de tarde, quando a luz começa a esvair-se. “Saudade de Você- às voltas com Carmen Miranda”, CD Pataca, à venda nos sítios do costume.





PROVAR -  Confesso que este ano ainda não apanhei sardinhas daquelas que ficam na memória por boas razões. Mas em compensação esta semana provei umas cavalas em molho picante, acompanhadas por uma salada simples, que hei-de repetir ao longo do verão. O melhor de tudo é que qualquer um pode ter estas cavalas, inteiras, óptimas, à disposição - são produzidas numa das mais tradicionais fábricas de conservas de Portugal, a Pinhais, de Matosinhos. A fábrica exporta a maior parte da sua produção, apenas composta de conservas de sardinha e cavala, e em Portugal  pode ser encontrada em lojas seleccionadas. A produção é feita apenas a partir de peixe fresco pelo método tradicional, sem recurso a camaras congeladoras. O processo é baseado na salmoura , no cuidado manuseamento do peixe e depois na sua cozedura a vapor. Só depois de arrefecer ao ar, é que o peixe é enlatado e a única parte do processo em que são utilizadas máquinas é na esterilização e na cravação das latas, para as fechar. Este ritual de produção repete-se desde a fundação da Pinhais, em 1926.


Azeite virgem, molho de tomate e azeite virgem com picante são as variedades utilizadas e, até serem abertas, as conservas ficarão a apurar o sabor na companhia de uma rodela de cenoura fresca (descascada e cortada também na fábrica), uma rodela de pepino em salmoura, uma malagueta tratada em salmoura também, um pedaço de folha de louro, um traço de cravinho e uma bolinha de pimenta preta. Uma lata leva quatro cavalas saborosíssimas e dá uma refeição de verão absolutamente deliciosa.


 


DIXIT - “Só em Estados autoritários é que as Forças Armadas podem desempenhar funções policiais ou de segurança interna” - Jorge Bacelar Gouveia, constitucionalista, sobre o projecto de colocar militares em escolas.


 


GOSTO - O Prémio Camões deste ano foi atribuído a Hélia Correia - poucas vezes a escolha foi tão certeira.


 


NÃO GOSTO - O Instituto Nacional de Estatística considera que em 2014 o número de emigrantes temporários portugueses ultrapassou os 85 mil, o maior número desdxe que há registos.


 


BACK TO BASICS - Volta e meia surgem uns homens que pensam que o mundo pode ser mudado graças a um qualquer panfleto que escreveram - Benjamin Disraeli.

junho 12, 2015

AS APARÊNCIAS E A POLÍTICA

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APARÊNCIAS - Enquanto a política andar a reboque da justiça a coisa, neste país, vai funcionar mal. Não deixa de ser irónico que tenha sido a esquerda, através de José Sá Fernandes por exemplo, a iniciar o périplo da transposição da luta política para decisões dos tribunais, numa evocação inconsciente do que o anterior regime fazia. Todos sabemos como a justiça funciona mal em Portugal, todos nos lembramos dos dislates, dos últimos anos, da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal em matérias delicadas, tentando apagar ou modificar o rumo da História, evitando que se investigasse, apagando provas. Este ainda adolescente século tem sido abundante em demonstrações de influência política na justiça - mas esta realidade nunca nos deve toldar o pensamento. Todos são inocentes até prova em contrário. Mas o senso comum, que permite olhar para a vida das pessoas e observar a forma como elas se comportam, faz parte da análise que fazemos do mundo: à mulher de César não bastam as aparências. E, das aparências, os políticos não se podem livrar. Nem a electrónica os salva.


 


SEMANADA - A cimeira do G7 custou 90 mil euros por minuto; o menu da cimeira, ocorrida na Baviera, teve em destaque salsichas e cerveja; o regime de pulseira electrónica proposto a José Sócrates foi criado pelos Governos PS, quando António Costa era Ministro da Justiça; Sócrates foi o primeiro detido a recusar pulseira electrónica; António Capucho apoia António Costa e anunciou que se o PS o convidar para “voos mais altos não digo que não”; o pastel de nata já se vende em dezena e meia de países - volta Álvaro Santos Pereira, que estás perdoado; são penhorados 833 mil euros por dia em depósitos bancários sem despacho de um juiz por dívidas em cobrança nos tribunais; atestar o depósito de um carro a gasolina está 10,35 euros mais caro do que no início do ano; três em cada cem casamentos celebrados em Portugal este ano foram de noivos estrangeiros; desde 2013 registam-se quase quatro queixas por dia contra seguranças privados; os prejuízos das empresas públicas aumentaram 23% no final de 2014; a coligação PSD-PP adoptou a sigla PàF; 40% dos médicos dizem que a falta de material nos hospitais está a interferir no seu trabalho; Portugal vendeu 37 mil milhões de activos a estrangeiros; a casa de Jorge Jesus foi colocada sob protecção policial; o primeiro parque de campismo naturista abriu em Marvão, uma iniciativa privada sob o lema “economia da felicidade”; o PS tem um passivo de 18 milhões e é responsável por mais de metade da dívida total dos partidos.


 


ARCO DA VELHA - António Costa reivindicou ter diminuído a dívida da Câmara Municipal de Lisboa em 40%, e acusou o Governo de ter aumentado a dívida do país em 18%. Esqueceu-se de dizer que a razão principal da sua proclamada diminuição de dívida veio do negócio dos terrenos do Aeroporto, que o Estado pagou à Câmara - que significou 43% do montante em dívida, libertando o município do pagamento de mais de 22 milhões de euros de juros anuais.


 


FOLHEAR - Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo, nascido em 1195, quem é? Pois fiquem sabendo que é um conhecido nosso, que o correr dos tempos foi associando às festas dos santos populares. Amanhã, sábado, dia 13, recordo, é Dia de Santo António, o padroeiro de Lisboa e de Pádua, o inicial Fernando deste parágrafo. O Santo tem uma História que se cruza com lendas e atravessa os séculos. O Papa Leão XIII chamou-lhe o santo de todo o mundo e reza a história que, com os seus sermões da Quaresma, inspirou a “Divina Comédia”, de Dante. António Eça de Queiroz publicou em 2010 a primeira edição de “Santo António - A História do Santo mais popular de Portugal”, Na introdução o autor conta como ficou surpreendido pelo facto de Santo António exceder largamente aquilo que o comum dos lisboetas pensa. Vale a pena ler este livro, reedição recente da “Guerra & Paz” - devora-se de um trago e aprende-se muito.


 


VER - Não é nada frequente uma grande empresa prestar uma homenagem assim à arte de ver. Essa é uma das razões que me leva a dizer que a nova campanha da EDP, “Um século de energia”, inspirada num trabalho de Manoel de Oliveira, extravasa a noção tradicional que temos de publicidade. E, no entanto a ideia - arriscada- foi da MSTF Partners, uma agência de publicidade portuguesa, que ousou desafiar o cineasta a pegar numa sua obra antiga e fazer dela ponto de partida para uma campanha publicitária. Em 1932 Manoel de Oliveira filmou o arranque da central do Ermal, em Guilhofrei, no Rio Ave, obra na qual o pai teve um papel importante. O pai, Francisco José Oliveira,  tem aliás uma história ligada  à energia - foi também o impulsionador da primeira fábrica de lâmpadas eléctricas. Com a central do Ermal, Manoel de  Oliveira fez um documentário chamado “Hulha Branca”, a preto e branco, com planos magníficos, a recordarem o que de melhor na época se fazia no cinema - utilizando restos de película do seu marcante “Douro, Faina Fluvial”. A partir dessas imagens antigas, Oliveira mostra a evolução na criação de energia. Esta era uma ideia no fio da navalha, que ainda por cima cruzava com a música e a dança, e que se arriscava a correr mal. Mas a verdade é que Oliveira, já nos últimos meses de vida, filmou o que quis, e embora a edição final tenha sido feita após a sua morte, ele deixou também uma recomendação: queria que este filme fosse divulgado numa dezena de cidades portuguesas, projectado ao ar livre, numa grande parede branca, para que as pessoas, todas as pessoas, o pudessem ver. A iniciativa - e o filme - podem criar sentimentos divididos - mas esta campanha fez mais pelo cinema português e por um dos seus maiores do que múltiplas declarações de intenção. A versão integral pode ser vista em https://1seculodeenergia.edp.pt ,  assim como o making of do filme. Que me lembre é a primeira vez que uma grande empresa portuguesa fez uma campanha publicitária que divulga a obra de um grande artista.





OUVIR - Depois da incursão pela World Music feita no seu disco “The Absence”, de 2012, Melody Gardot dedica-se agora à tradição musical americana dos anos 60 e 70, sob o manto da soul e do funk, numa série de novas canções originais  temperadas com letras que mostram as suas preocupações sociais. Este seu quarto álbum de estúdio mostra-a na melhor forma, vocalmente madura, servida por arranjos  do francês Clément Ducol e por uma produção exemplar de Larry Klein. Ouve-se bem o baixo a cruzar-se com um orgão Hammond, os arranjos são a prova de como a tradição não deve ter medo de se abrir à inovação. Este novo álbum, “Currency Of Man”, é um passo exemplar na carreira de Gardot, que não evita escrever e cantar sobre temas difíceis, alguns de clivagem - um passo arriscado para quem vem de uma zona de soft jazz candidata a prémios Grammy. Mas embora as letras sejam empenhadas, é sobretudo na experimentação musical que este álbum se destaca e é aí que ele mostra que Melody Gardot acabou de abrir as portas para um novo posicionamento na sua carreira musical. (CD Decca/ Universal)


 


PROVAR - A época dos caracóis abriu e o assunto deve ser olhado com atenção, Este ano regressei a um local onde não ía há anos, o Tico Tico, na Avenida Rio de Janeiro 19, esquina com a Avenida da Igreja. É um dos restaurantes históricos de Alvalade. A ementa vai de cabidela de frango a peixes grelhados, escolha ampla. Nesta época do ano a maior parte das mesas, ao fim da tarde, na esplanada, ostenta belíssimos caracóis. É preciso dizer que, nesta casa, os caracóis não são temperados em demasia nem afogados em ervas. O tempero é q.b., por forma que o sabor do animal saia na sua plenitude. Bem sei que há por aí uma campanha contra o hábito de comer caracóis - porque eles são cozidos vivos e há umas almas que se indignam sobre o tema. Mas a minha impressão é que o ridículo mata e prefiro provar caracóis bem cozidos a ouvir dislates. A seguir aos caracóis a tradição manda um prego, mas aqui pode pedir-se um bitoque do lombo a meias, cada metade com seu ovo estrelado, uma travessa de batatas fritas aos palitos, não congeladas, como acompanhamento. O resultado final está a par da cerveja de pressão, que é magnífica. Uma pratada de caracóis custa sete euros, o serviço é sempre atento e a carne tinha boa qualidade. Eu gostei destes caracóis.


 


DIXIT - “É preciso ter confiança no país de contas certas. Com o PS há sempre o risco de as contas deixarem de ser certas” - Paulo Portas


 


GOSTO - O nordeste transmontano foi classificado como reserva da biosfera.


 


NÃO GOSTO - Os taxistas propuseram que a bandeirada de 20 euros dos aeroportos fosse estendida dos portos de cruzeiros marítimos.


 


BACK TO BASICS - “Quanto mais evidentes são os  actos que envergonhem um homem,  mais ele é temido” - George Bernard Shaw


 

junho 05, 2015

FRAGILIDADES DEMOCRÁTICAS

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(pormenor da exposição Inside-Outside de José Barrias e Bárbara Fonte) 


 


GEOGRAFIAS - O mundo está num processo de mudança complexo e um dos sinais disso mesmo é a percepção de que a democracia liberal se está a tornar num regime geograficamente limitado, e progressivamente mais minoritário. A noção ocidental de regime democrático é um conceito que países como a China, a Rússia, grande parte dos países árabes (para não falar do Estado Islâmico e da Coreia do Norte) não pratica. A chamada democracia liberal está confinada geograficamente a uma porção da Europa e à maioria do continente Americano - mas é muito frágil ou inexistente em vastas regiões da Ásia, de África e da Europa Central e Oriental. Hoje em dia é cada vez mais frequente observar que líderes de alguns países não hesitam em proclamar o seu autoritarismo - um contraste significativo com uma época, recente, em que por todo o mundo novos líderes políticos diziam rever-se no retrato das democracias liberais. A crise económica, conflitos, o fracasso das reformas e a quebra de desenvolvimento de muitas dessas democracias e a proliferação de conflitos abriram campo para o ressurgir dos nacionalismos e dos autoritarismos, assim como de novos fenómenos como o jihadismo - bons pretextos para, em nome da segurança, alguns estados limitarem a democracia. Mesmo em países onde o regime democrático existe assiste-se a uma crise latente no modo de funcionamento do sistema político. O sistema apodreceu e o mais perigoso de tudo é não o perceber a tempo.


 


SEMANADA - Rui Rio atacou os jornalistas que noticiaram que ele pretendia ser candidato à Presidência da República; Segundo a newsletter “Confidencial” Rui Rio já começou a contactar potenciais financiadores da sua campanha às presidenciais; Jorge Jesus passou do Benfica para o Sporting quinze dias depois de se sagrar campeão; quatro dias depois de ter insistido na realização do congresso que o reelegeu, Blatter demitiu-se de Presidente da FIFA; a posição das empresas patrocinadoras dos eventos da FIFA, que ameaçaram retirar todos os patrocínios perante os escândalos revelados, terá sido a razão para o recuo de Blatter; as apostas ilegais nos resultados da I Liga portuguesa devem representar 30 milhões de ano por ano e estima-se que três milhões de euros sejam destinados a subornos para manipulação de resultados - revela um estudo do Parlamento Europeu; os ratings dos bancos nacionais foram cortados 60 vezes desde 2011; segundo o Bareme Imprensa Crossmedia 2015, da Marktest, 82.1% dos portugueses contactam com a imprensa, quer seja em papel ou no meio digital; Miguel Relvas vai lançar um livro intitulado “O Outro Lado da Governação” que será apresentado por Durão Barroso; polícias da PSP queixaram-se da Ministra da Administração Interna ao Primeiro Ministro; num debate sobre políticas culturais a vocalista dos Óquestrada disse a  Sampaio da Nóvoa que ele tinha”uns olhos muito bonitos para colocar em outdoors”.


 


ARCO DA VELHA - As celebrações do Dia Mundial da Criança organizadas pela Câmara Municipal de Portalegre, com o apoio da PSP, incluíram a simulação  de um motim por crianças em idade pré-escolar, e enquanto umas faziam de polícia com escudos e capacetes, outras representavam  manifestantes que lançavam “pedras” feitas de papel às autoridades.


 


FOLHEAR - “As Mulheres que fizeram Roma - 14 histórias de poder e violência”  - agrupa de uma forma aliciante outras tantas narrativas sobre a vida de mulheres que estiveram ligadas a episódios que marcaram a História do Império Romano, como Reia Sílvia, Lucrécia, Cleópatra, Valéria Messalina, Agripina ou Helena de Constantinopla. Carla Hilária Quevedo conta episódios de luta pelo poder e descreve a importância que as mulheres tiveram em diversas fases do Império, como eram encaradas, qual o seu papel na sociedade e como eram vistos temas como o casamento, a maternidade ou o adultério. Através da sucessão de episódios, e do seu permanente enquadramento na época em que ocorreram, é possível perceber como evoluíu a noção de poder imperial, como se alteraram os hábitos e costumes, como a própria lei e a moral se vão adaptando e como as religiões se cruzam com o andar dos tempos e como a nossa própria compreensão do passado se foi modificando. É sempre o poder - seja a sua conquista, seja o seu exercício - que baliza as histórias aqui contadas e, no fundo, a História ao longo dos séculos. Para quem gosta de ler os pormenores da História e os seus episódios menos conhecidos este é um livro aliciante. Edição Esfera dos Livros


 


VER - José Barrias é um importante artista português que desde 1968 vive em Milão. Utiliza o desenho, a pintura, a fotografia e a escultura, que frequentemente conjuga na criação de instalações. As suas exposições têm um acentuado cuidado na apresentação e encenação das obras, uma atenção ao detalhe e um cuidado visual, que por vezes parece quase  cinematográfico, como foi bem evidente quando apresentou “In Itinere”, na Fundação de Serralves, em 2011. Uma outra característica de José Barrias é o seu interesse em conhecer a obra de novos artistas e a vontade que tem de trabalhar em conjunto com eles, explorando as diferenças de gerações e de linguagens, mas procurando as complementaridades e os pontos de contacto. É o que acontece com a exposição “Inside Outside”, o cruzamento entre a obra de uma quase estreante, Bárbara Fonte, e o trabalho do próprio José Barrias, que inaugurou na passada semana na Plataforma Revólver. No fundo esta é, para ambos, uma exposição de desenhos, que por vezes assumem outras formas, esculturas, instalações, fotografias - mas é o imaginário do desenho que permanece como fio condutor. É aliás o próprio desenho que foi usado para criar o cenário de acolhimento nas paredes das salas do edifício onde decorre a exposição. É uma exposição surpreendente - por alguns dos desenhos de Bárbara Fonte e pelo ambiente criado pelas obras de José Barrias, marcantes, e pela própria envolvente que ele criou com numerosos pormenores e que obrigam a uma constante revisão da forma de ver o que está à vista - criando a deliberada dúvida sobre onde é o começo e o fim da exposição. Na Rua da Boavista 84, informações em www.transboavista-vpf.net .


 


OUVIR - Terence Blanchard é um dos grandes trompetistas de jazz norte-americanos e nos últimos anos tem feito algumas incursões na fusão com outros géneros musicais. Com Don Was a dirigir agora a Blue Note as experiências de fusão são encorajadas e daí esta incursão que passa também pelos rhythm’n’blues e o funk, não perdendo as referências no jazz contemporâneo. Trata-se da primeira gravação de Blanchard com o seu novo quinteto, o E-Collective. O título do álbum, segundo o próprio Blanchard, evoca as três últimas palavras pronunciadas por Eric Garner, “I can’t breathe”, quando foi imobilizado e asfixiado por um polícia em Nova Iorque num polémico caso ocorrido em Julho de 2014. O disco começa com uma surpreendente versão de “Compared To What”, um tema de Les McCann e Eddie Harris onde o trompete de Blanchard se cruza com a voz de PJ Morton (que aparece em mais faixas do disco) e as percussões de Oscar Seaton. É um inesperado começo para um disco onde o trompetista se aventura também em versões de “I Ain’t Got Nothin’ But Time” de Hank Williams ou “Midnight” dos Coldplay, que encerra o CD. A E Collective dá uma marcante sonoridade funky, capaz de inquietar quem esperava um disco mais tradicional de um trompetista de jazz da escola de Nova Orleães. A minha faixa favorita é “Everglades”, um instrumental composto pelo pianista do E Collective, Fabian Almazan, mas entre os vários originais de Terence Blanchard destacaria “Confident Selfleness” e “Tom & Jerry”. CD Blue Note, distribuído por Universal Music.


 


PROVAR - Aberto há pouco tempo, o restaurante do Hotel Porto Bay Liberdade corre o risco de se tornar num ponto incontornável na zona da Avenida. O restaurante Bistrô 4 tem uma carta preparada pelo Chefe Benoit Sinthon, um francês que vive há largos anos na Madeira e que aí ganhou uma estrela Michelin, a única do arquipélago, no restaurante Il Gallo D’Oro do Hotel Cliff Bay, que pertence ao mesmo grupo desta nova unidade que abriu em Lisboa. A sala é ampla, embora incaracterística, mas o páteo adjacente, situado entre prédios, bem protegido do vento, é verdadeiramente um local à parte no centro da cidade. A lista propõe um sortido de petiscos frios e quentes de entrada e uma carta com opções muito variadas. Na mesa estava um cesto de pão de boa qualidade, manteiga  com flor de sal e patê de atum com azeitona, a preparar a chegada das entradas escolhidas - um ceviche muito bem temperado e uma cavala marinada com legumes, ambos a exceder as expectativas. Passando a coisas mais sérias a escolha recaíu num tártaro de vitela com cebola confitada e batata frita em rodelas finíssimas rendilhadas, e num couscous chow mein, quente, com camarão, verdadeiramente surpreendente. A garrafeira tem uma ampla e cuidada selecção e a copo existem boas opções - no caso provou-se um Morgado da Calçada Branco Reserva de 2010 e um Ninfa Escolha de 2012, do enólogo Rui Reguinga, que se revelou uma opção acertada. A terminar partilhou-se a sobremesa Paris- Lisboa- Funchal, ou seja massa chou com recheio de pastel de nata, raspas e pedaços de bolo de mel. O Bistro 4 fica na Rua Rosa Araújo 6, junto à esquina com a Avenida da Liberdade, telefone 210 015 700.


 


DIXIT - “Décadas depois de Abril, alguém de direita ainda causa espanto e indignação” - Maria de Fátima Bonifácio, n’Observador


 


GOSTO - Da aplicação web opontodoparlamento.org, que permite seguir a assiduidade e tipo de trabalho desenvolvido pelos deputados - útil em ano eleitoral.


 


NÃO GOSTO -  De não poder escolher entre usar um táxi mal disposto ou um Uber atencioso.


 


BACK TO BASICS - Num regime democrático cada partido dedica o melhor das suas energias a dizer que o outro partido é incapaz de governar - e ambos têm razão e acertam de forma alternada - H.L. Mencken

maio 29, 2015

SOBRE A CAPACIDADE EDITORIAL DOS POLÌTICOS E PARLAMENTARES

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POLÍTICAS - Os parlamento anda há anos a tentar fazer uma nova lei que regule a cobertura das eleições. Num curto espaço de tempo tivemos uma troika de deputados eméritos do PP, PSD e PS a proporem uma comissão de visto prévio à metodologia de cobertura do acto eleitoral por cada redacção. Depois evoluíram e as águas separaram-se - PSD e PP querem privilegiar os partidos com assento parlamentar e o PS lá decidiu não se meter em mais alhadas fomentadas pela sua deputada Medeiros e  fez uma proposta que basicamente permite que sejam critérios editoriais a prevalecer. Esta não é uma questão menor. Em 1975, quando foi feita a Lei ainda em vigor,  a maior parte dos mass media estavam estatizados e o legislador quis impôr normas iguais para todos - a informação era ainda altamente regulada, não havia praticamente orgãos de comunicação privados, muito menos televisões, e a internet era uma coisa inimaginável. Acontece que agora é legitimo perguntar se nas próximas eleições é mais interessante, de um ponto de vista editorial, cobrir o que diz o Bloco de Esquerda, com assento parlamentar, do que o Livre, que está a concorrer pela primeira vez às legislativas - os exemplos podiam ser outros, mas num ambiente de transformação e alargamento do espectro de concorrentes (mais de 20 certamente) é utópico pensar que todos têm que ter tratamento igual - porque a audiência tem alternativas e não ficaria à espera de ver 20 auto-iluminados a debitar promessas. Arrisco dizer que é preciso ter em conta um princípio que deveria nortear toda esta discussão: quando se trata de comunicação e informação os políticos e os partidos em geral, e os orgão de soberania e os governos em particular, são péssimos editores. Não sei se os senhores dos partidos já terão percebido que, agora, há um remédio simples para os evitar: carrega-se no botão e muda-se de canal. Ou então vai-se à internet buscar o que se quer. No fundo não acreditam ainda que os eleitores saibam procurar e escolher o que querem ver - agora já não há só um canal de televisão como há 40 anos atrás. Melhor fariam se garantissem total transparência aos seus actos e se pensassem melhor no que querem propôr aos eleitores. De preferência sem mentiras.


 


SEMANADA - O Partido Democrático Republicano, de Marinho Pinto, não conseguiu proceder à eleição do seu Conselho Nacional devido a alegadas irregularidades e distúrbios internos; 55 motoristas de taxi foram condenados em 2014 por burlas a turistas no aeroporto de Lisboa; os pedidos de vistos gold de chineses caíram 20% após o caso de corrupção descoberto em Novembro passado; neste primeiro trimestre os portugueses dedicaram mais de 8 milhões de horas a sites de comércio electrónico - de viagens a livros - uma média de 1 hora e 45 minutos por utilizador; Sampaio da Nóvoa afirmou-se como “um candidato improvável” e garantiu que, sendo eleiteo Presidente da República, não seria “omisso e ausente”; o défice público desceu 31% entre de Abril de 2014 e Abril desde ano exclusivamente devido ao aumento da receita fiscal; os centros de emprego chegaram ao fim de Abril com 20 849 ofertas de emprego que estão por preencher devido a falta de interessados; o metropolitano de Lisboa realizou a sua sétima greve só este ano - uma média superior a uma por mês; desde 2010 a banca cortou 15% dos balcões e 13% do número de colaboradores; a lista dos contribuintes VIP estava a funcionar 11 dias antes de ser aprovada; existem actualmente 1111 empresas portuguesas a exportar para a China; um relatório da Inspecção Geral das Finanças obriga o Fisco a proteger dados dos contribuintes;  o Hospital de Santa Maria, o maior do país, está minado por uma teia de interesses e lealdades a partidos políticos, à maçonaria e organizações católicas como a Opus Dei, conclui um estudo que avaliou a qualidade e funcionamento de seis instituições nacionais.


 


ARCO DA VELHA - Nesta história da FIFA o que é mais surpreendente é que há uma lista de notáveis, um pouco por todo o mundo, a dizerem que não é surpresa que tenham sido presos tantos dirigentes da organização sob acusações de corrupção, encarando com naturalidade que tudo tivesse continuado na mesma durante anos.


 


FOLHEAR - A edição de Junho da revista “Monocle” é dedicada aos transportes, às novidades que surgiram no sector em todo o mundo, às tendências emergentes e à análise da qualidade de serviço dos principais operadores - desde fabricantes de bicicletas até linhas aéreas, passando por companhias de comboios ou as novas tendências dos carros auto-pilotados. Como sou fã de publicidade não resisto a registar que os primeiros anúncios desta edição, são de marcas como a Rolex, a Cadillac, os jactos privados Bombardier, o novo carro da Lexus,os relógios Panerai e a Nike. A “Monocle” atingiu o estatuto de incontornável suporte de comunicação de marcas em poucos anos graças à determinação e perseverança do seu fundador Tyler Brulé em manter o posicionamento sem cedências. Esta é talvez a maior prova de que em alguns segmentos ainda faz sentido pensar em publicações impressas em papel - a vida digital da Monocle é feita à margem da revista e baseada na rádio em streaming. A qualidade dos conteúdos, o sentido de descoberta e de comunidade que foi criado entre os leitores da revista são a chave do seu sucesso e aquilo que mês após mês me faz voltar a cada nova edição, que dedicadamente folheio ao longo de vários dias, à procura do que não conheço.


 


VER - Vamos a uma síntese do que há para ver, apontando desde já que a curiosidade me impele a descobrir o que José Barrias apresentou esta quinta.feira na Plataforma Revólver - mas a isso regressarei na próxima semana. Esta semana começo por recomendar que se afoitem até Sacavém, ao Museu da Cerâmica, na Praça Manuel Joaquim Afonso, onde poderão descobrir uma exposição sobre os Móveis Olaio, porventura a unidade industrial na área do mobiliário que mais procurou a inspiração modernista e mais se inspirou no design nórdico. Acabou por criar móveis para o Ritz, o Estoril-Sol, o Hotel Tivoli, mas também os teatros Monumental e Éden, o Capitólio e os cafés Império e a Mexicana. Eu, que cresci com móveis da Olaio em casa, e ainda guardo uma estante e um cadeirão, fico sempre entusiasmado com esta memória da marca. Outra exposição a ver , no Museu Berardo, é “O Olhar do Coleccionador”, que mostra algumas das peças da colecção pouco conhecidas, nomeademnte o telão de cena criado por Marc Chagall para a Flauta Mágica, de Mozart, ou a obra Severambia, de Frank Stella . Ainda no Museu Berardo vale a pena ver a obra”Due Ragazzi alla Fonte” de Michaelangelo Pistoletto (na imagem), no ciclo “A Escolha dos Críticos”, uma iniciativa do serviço educativo do museu, aqui comissariada por Sérgio Mah.





OUVIR - Nada melhor que um fim de tarde desta fase da Primavera para pôr a tocar um disco com os standards de Frank Sinatra. Acompanham bem qualquer cocktail, encaixam no pôr-do-sol, apreciam o tempo quente e, em havendo espaço e companhia, desafiam à dança. Sinatra faria cem anos em Dezembro, morreu aos 82 em Maio de 1998. A efeméride foi o motivo para o lançamento de uma compilação, “The Ultimate Sinatra”,  que agrupa 25 das mais importantes interpretações de Sinatra, desde “All Or Nothing At All”,. de 1939, até “New York ,New York” de 1979, passando por temas tão incontornáveis como “”Young At Heart”, “In The Wee Small Hours Of The Morning”, “I’ve Got You Under My Skin”, “The Way You Look Tonight” ou “Fly Me To The Moon” e “My Way” - além de uma versão inédita de “Just In Time”. Este ano promete muitas edições de livros e discos que assinalarão o centenário, mas o fundamental mesmo é recordar a capacidade de interpretação, a forma como pegou em grandes compositores do cancioneiro popular norte-americano e os tornou numa linguagem universal. (CD Universal na FNAC e El Corte Ingles).


 


PROVAR - Mesmo no centro de Azeitão está um daqueles segredos bem guardados que apenas os locais e frequentadores habituais conhecem - a esplanada da Casa das Tortas, coberta e cercada por vegetação. Não há muitos lugares, há mesas e bancos corridos e sobretudo há um grande cuidado com a selecção da matéria prima utilizada para a confecção dos pratos, seja de carne ou peixe. A cozinha é tradicional, de fogão e de grelha, sem concessões. Tudo se joga na frescura do que é apresentado. A comandar as operações está o Sr. Paulo, que não se faz rogado a contar as suas próprias excursões gastronómicas pelo país à demanda da lampreia ou do sável nos dias em que está de folga. Para além dos grelhados, de peixe e carne, é aqui conhecida a arte dos pratos de tacho, como o frango à bordalesa, mas, também no fogão, o peixe assado no forno, das douradas ao pargo, sempre fresquíssimo. Além disso há petiscos, tábuas de queijo e de enchidos, e, para sobremesas, a incomparável A Tarte de amêndoa ou os pastéis de moscatel- acompanhados claro por moscatel roxo. A casa está aberta do pequeno almoço ao jantar. O telefone é o 969 146 996 e a morada é  Praça da República 37, Azeitão.


 


DIXIT - “A nossa democracia está cheia de cáries e, se nada fizermos, daqui a pouco está sem dentes” - Pedro Bidarra


 


GOSTO - Dos 70 anos do Centro Nacional de Cultura, uma instituição única em Portugal.


 


NÃO GOSTO - O Parlamento continua sem conseguir legislar sobre o enriquecimento ilícito, qualquer dia está igual à FIFA.


 


BACK TO BASICS - “Quando se educa uma pessoa muda-se uma vida mas quando se educam muitas podemos mudar o mundo” - Shai Reshf, fundador da University Of The People, Tel Aviv, Israel.