TIROTEIO - Ouvi dizer que o PSD está no Governo, mas há dias em que, quando abro os jornais, acho que estará na oposição- todas as semanas há um novo episódio daquela fantástica história “Eu gosto de dar tiros nos pés”. A coisa é de tal forma que já existem guionistas e produtores a prepararem uma série de ficção para o serviço público com o título “Sapatos furados deixam entrar água”. Por causa disso mesmo um dos pontos fortes da reindustrialização, ultimamente muito acarinhada, é a construção de uma fábrica de sapatos à prova de bala. Os primeiros protótipos estão já em ensaio na Presidência do Conselho de Ministros e no Ministério das Finanças. Estes sapatos blindados serão distribuídos a membros do governo, seus assessores de comunicação, líderes da oposição, deputados e membros seleccionados dos gabinetes governamentais e de algumas autarquias - António Costa já manifestou também intenção em oferecer um par ao vereador Nunes da Silva e consta que antes de ir para o Largo do Rato enviará uns ao seu amigo José Lello (que aliás já tinha pedido uns para António José Seguro). Os sapatos saídos desta nova indústria serão também resistentes ao efeito de ricochete ocorrido esta semana na conferência do silêncio, perdão, “Pensar o Futuro”. Existirão vários modelos destes sapatos à prova de bala, para homem e senhora. Está em estudo também um modelo de sapatos de corrida, blindados, que será oferecido a José Sócrates no seu próximo período de férias escolares em Portugal, e o modelo de havainas com blindagem transparente, para os políticos que gostam do verão brasileiro, também deverá ser disponibilizado em breve.
SEMANADA - O Banco de Portugal previu o desaparecimento de 88.500 postos de trabalho este ano; há 34 mil pedidos de reforma pendentes na Função Pública, dos quais 25 mil são de reformas antecipadas; um inquérito recente mostra que 49% dos portugueses não conseguem poupar para a reforma; no quarto trimestre de 2012 a economia alemã registou uma contracção de 0,5% devido ao abrandamento considerável na actividade económica dos parceiros europeus; as salas de cinema portuguesas perderam 8% de receitas em 2012 e registaram menos 12,3% de espectadores que no ano anterior; os novos escalões do IRS provocam diminuição dos rendimentos a perto de 300.000 lares; o Primeiro Ministro prometeu um “alívio fiscal permanente” na mesma semana em que foram publicadas as tabelas de retenção do IRS, com os maiores valores de sempre; 10,5% dos portugueses têm falta de interesse sexual, sendo o grupo etário mais afectado o dos 30 aos 39 anos (mais de 24%), e o cansaço e o stress são as principais causas apontadas.
ARCO DA VELHA - Em Lisboa há cada vez mais lugares vagos no estacionamento mas o Presidente da Câmara conseguiu observar que existem mais viaturas em circulação - que devem andar em movimento contínuo e nunca estacionam, provavelmente com medo das tarifas da EMEL.
VER - Enquanto não começa o novo ciclo de exposições, dedico-me a ver fotografia num dos melhores sítios que conheço para o efeito. Chama-se ASX e pode ser localizado em www.americansuburbx.com. Aí pode encontrar uma diversidade de notícias, portfolios e ensaios sobre fotógrafos e a fotografia. Há uma e-newsletter diária, que recebo há uns meses, cuja visualização é sempre um dos pontos altos do meu dia. A diversidade de material disponível é impressionante, e vai desde obras recentes de Eggleston até revisitaçlões de trabalhos de Nan Goldin ou de Ralph Eugene Meatyard. Cá pelo burgo tenho curiosidade em ver as “Casas Vazias”, de Filipe Condado, que inaugura no fim do mês na Sala do Veado (rua da Escola Politécnica) e cujas amostras já publicadas no Facebook são muito curiosas. E, já agora, a curiosidade também existe em relação à exposição “O Rio É Uma Festa”, do fotógrafo brasileiro José Medeiros, que abre por estes dias no espaço BES Arte & Finança, no maltratado Marquês do Pombal.
PROVAR - Hoje vou falar de um restaurante de que gostava muito, o Gemelli, por cima do Mercado de S. bento, frente à Assembleia da República. Pois o Gemelli fechou portas e o seu proprietário, o chef Augusto Gemelli, explicou Domingo passado no Facebook as razões que o levaram a fechar aquele que para mim era o melhor restaurante italiano da cidade, a milhas de todos os outros. Ficam aqui as suas palavras, que eu tomo a liberdade de dedicar aos deputados, que no palacete frente ao local do restaurante, consentem este estado de coisas. “Sem querer alegar desculpas, quero só dizer que a pressão exercida desde o ano 2008 sobre a indústria da restauração e o mundo do turismo no geral chegou a um ponto limite insuportável e o reflexo disto é a autêntica razia que está a levar ao encerramento de tantos restaurantes de bom nível, em todo o país. Nós também temos as nossas culpas e sem dúvida fizemos alguns erros de gestão, mas em situações complicadas, às vezes é difícil tomar a decisão certa. Quando o negócio começou a entrar em crise, nunca fiquei à espera passivamente e sempre tentei modificar a minha proposta como restaurante com o objetivo de continuar a dar-vos a melhor qualidade possível, mas agora que já não consigo fazer isto mais, tomei a decisão de fechar as portas.”
OUVIR - Maria Rita anda há uma década a construir uma carreira graças ao seu talento - mesmo que a semelhança das vozes evoque sempre a sua mãe, Elis Regina. Ao fim destes dez anos, Maria Rita resolveu dar o passo que faltava - perder o medo de cantar as canções que tornaram célebre Elis. Para isso montou um espectáculo, “Redescobrir”, que fez digressão no Brasil, foi gravado e depois editado em duplo CD, com 28 temas clássicos (existe também um DVD). O jornal brasileiro “Globo” fez a descrição exacta deste “Redescobrir” : “Elis está sempre com ela, no seu timbre, nos arranjos e interpretações que, a despeito de serem efectivamente novos, remetem às gravações clássicas da mãe. Há um desejo consciente de humildade e de adequação ao projeto-tributo, mas que tira um tanto das possibilidades artísticas do show.”.
FOLHEAR - Como é costume a “Monocle” fez uma edição especial em meados de Dezembro, em formato de jornal, dedicada ao inverno. Este ano tive a bela surpresa de receber uma assinatura da revista como prenda de Natal, e isso é a garantia de que aqui continuarei a falar de uma publicação que me fascina desde o início, faz em Fevereiro sete anos. A revista de Tyler Brulé dedica uma atenção especial à evolução das tendências de vida e tem um fascínio pelas cidades, mas também pela manutenção das tradições. Nesta edição especial “Monocle-Alpine” há um artigo que eu verdadeiramente gostava que fosse lido por alguns dos obreiros das nossas desgraças económicas. O artigo fala da recuperação da Islândia, depois do colapso de 2008, uma recuperação baseada em pequenos negócios focados nas comunidades onde estão inseridos, recuperando postos de trabalho e dinamizando a economia. A revista tem feito reportagens regulares sobre a evolução da Islândia depois do colapso dos seus três maiores bancos, e tem seguido algumas pessoas que têm tentado dar a volta à vida. Uma delas, de que esta reportagem fala, era concessionário de boas marcas automóveis até 2008, ano em que o seu negócio se tornou redundante; depois dedicou-se a uma pequena empresa de serviços na área do turismo, que acabou por se especializar no apoio à produção audiovisual internacional, que, graças aos incentivos fiscais, está a ir para a ilha. De concessionário falido até interlocutor de Ridley Scott, como foi o caso recente, vai um belo passo. A reportagem tem outros bons exemplos de pessoas que mudaram de vida e criaram coisas novas - como um arquitecto que agora se dedica a vender bicicletas que ele próprio transforma e personaliza. Sem financiamentos do Estado mas com uma fiscalidade que ajuda quem começa um negócio.
PERGUNTINHA - Costa vai ficar a inventar mais rotundas ou segue direito para o Largo do Rato?
GOSTO - De ser rectificado o trânsito na faixa central da Avenida, voltando ao que era antes do caos Costista;
NÃO GOSTO - Da persistente teimosia do caos Costista nas rotundas do Marquês;
BACK TO BASICS - “Aqueles que não se conseguem disciplinar a si próprios,
depressa encontrarão alguém que o faça por eles.” - Friedrich Nietzsche
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
janeiro 18, 2013
INTENSO TIROTEIO NO SEIO DO PODER, PERGUNTAS E DESABAFOS
janeiro 15, 2013
QUERO, POSSO E MANDO
O Governo anda há 18 meses a desbaratar tempo. Em vez de ter logo começado, em Junho de 2011, a trabalhar na reforma do Estado, foi deixando sempre isso para segundo plano; preferiu ir aumentando os impostos, com os resultados que se conhecem, e que não são bons – nem mesmo a nível da receita fiscal, que não é a esperada.
Pelo caminho dificultou a vida às pequenas empresas – muitas tiveram que fechar, outras vêem-se aflitas para conseguirem cumprir tudo o que lhes é obrigado. Pelo meio encerram estabelecimentos, cria-se mais desemprego, numa cascata que agrava a situação económica em que vivemos.
O Governo, em vez de ir analisando onde e como cortar no Estado, deixou o assunto para o fim. Não negociou cortes de boa fé com os parceiros sociais, habituou-se a anunciar medidas pela comunicação social, em vez de as debater e consensualizar primeiro. Para os devidos efeitos práticos é como se agisse segundo o princípio do “Quero, posso e mando”, sem atender às consequências dos seus atos.
O triste espetáculo da semana passada, em que os ministros se contradisseram sobre o relatório do FMI, e a forma como finalmente foi apresentado, são fatais. Se quisessem boicotar qualquer mudança séria do Estado, não fariam melhor.
A reforma do Estado tem que se fazer. Tem que perder peso, regimes de exceção e ganhar racionalidade. Não vale a pena querer negá-lo, como faz o PS; nem vale a pena querer faze-lo de qualquer maneira, como o Governo tem evidenciado. Cada vez mais se percebe que lidar com a realidade é um problema para o Governo, mas também para o PS - por razões distintas, mas o resultado é o mesmo.
(Publicado no diário Metro de 15 de Janeiro)
janeiro 11, 2013
A POLÍTICA, A FANTASIA, SUGESTÕES AVULSAS
POLÍTICA - O expediente é conhecido: quando uma administração de uma empresa quer tomar uma decisão, que já sabe poder provocar rupturas, pede a uns consultores para analisarem a situação a seu contento. E, depois, anuncia que os sábios opinaram naquele sentido e lamenta dizer que, para garantir a sobrevivência, o único caminho é aquele. Isto foi o que o Governo fez com os consultores do FMI - lêem-se os agradecimentos do estudo e percebe-se como saíu este resultado. Não é uma surpresa: quando Passos Coelho anunciou a refundação do memorando, no início de Novembro, era dos preliminares deste estudo que falava, como agora se percebe.
O Estado tem que ser cortado - isso já se sabe. Mas sendo assim, porque é que o Governo de Passos Coelho, que tomou posse a 21 de Junho de 2011, durante um ano e meio nada fez para diminuir o peso do Estado? O curioso é que, quando se lê o estudo do FMI, não se encontram novidades na análise da situação. Para fazer isto, bem podiam ter feito logo o serviço em 2011 - mas isso era desagradável, porque Passos Coelho tinha ganho as eleições com um programa onde não falava em nada disto e tinha escrito um livro, “Mudar”, editado há precisamente três anos, onde o cenário agora traçado não se vislumbrava.
Ninguém se pode queixar de falta de informação. Em 2005, Miguel Cadilhe, num artigo no “Expresso”, explicava como a reforma do sistema remuneratório da função pública, implementada no final dos anos 80 por influência directa de Cavaco, era responsável pelo crescimento do défice das contas do Estado. Segundo o historiador António José Telo, na sua “História Contemporânea”, o lema central do cavaquismo era "Menos Estado, Melhor Estado" - mas a realidade foi completamente diferente: Cavaco aumentou os funcionários em salário e em número, e criou um monstro despesista que foi continuado por António Guterres. Desde 1985, ano em que chegou ao governo, até 1995, no terceiro e último executivo de Cavaco Silva, os funcionários públicos passaram de 464.321 para 639.044, um crescimento de 174.723 funcionários em dez anos - 87 mil por legislatura, mais do que os 75 mil de Guterres (os números são da Pordata). Como tudo isto já era conhecido, o relatório do FMI foi largado na velha táctica política de atirar o barro à parede. Diz-se o pior cenário possível, para depois qualquer recuo dar a sensação de uma vitória aos seus opositores. Não deixa de ser curioso notar que este atirar de barro à parede é feito no dia a seguir ao discurso optimista de Passos Coelho sobre o QREN, por acaso também no dia a seguir a Paulo Portas ter constatado que “há sintomas de desalento e desânimo da sociedade que é preciso contrariar com sensibilidade”. A sensibilidade viu-se - e o mínimo que se pode dizer é que de certeza esta não é a melhor forma de começar uma discussão séria sobre a redução do peso do Estado - que de facto é necessária. Temos vivido numa ilusão, e querem dar-nos outra. Um país, por muito que tenha que ser bem gerido, não é exatamente uma empresa. José Adelino Maltez fez notar que o relatório do FMI apenas numa única nota de pé de página utiliza a expressão “democracia”. E não usa as palavras “justiça”, “nação” ou “igualdade”, já para nem mencionar “liberdade”. Isto traz-nos à questão de fundo: temos que reduzir o peso do Estado, mas temos que o fazer dentro dos mecanismos do regime em que vivemos. Quem se mete na política tem que conhecer as suas regras.
SEMANADA - Os transportes públicos de Lisboa registaram uma quebra de 25% de utilizadores; nas autoestradas portuguesas circulam menos 245.000 carros por dia que há um ano; a Segurança Social registou um défice de 857 milhões em 2012; a receita fiscal continua muito abaixo das previsões; o Presidente da Republica enviou o Orçamento para o Tribunal Constitucional; o PS mandou o Orçamento ao Tribunal Constitucional; o Bloco de Esquerda, os Verdes e o PC deixaram o Orçamento no Tribunal Constitucional; o Provedor de Justiça entregou o Orçamento ao Tribunal Constitucional; o Secretário de Estado do Orçamento fez uma declaração a avisar o Tribunal Constitucional dos perigos em que pode incorrer se rejeitar o Orçamento; Vital Moreira escreveu no seu blog que o Orçamento, na sua opinião, não é inconstitucional; a taxa de desemprego em Portugal é de 16,3% e a média da União Europeia é 10,7%; a taxa de desemprego entre os jovens com menos de 25 anos é de 38,7%; as Presidenciais são em 2016 e Guterres regressou a funções em Portugal, no Conselho de Administração da Gulbenkian.
ARCO DA VELHA - Josualdo Ferreira é o quarto treinador do Sporting nesta época em que o clube, em sete jogos, leva apenas duas vitórias na Liga. Traduzindo por miúdos: treinadores - 4; Sporting - 2.
OUVIR - Gosto muito de ouvir discos só de guitarra e “Mel Azul”, de Norberto Lobo, é uma bela descoberta. Não é fundamentalista, é arriscado, oscila de ritmos e influências, passa dos sos de Lisboa para os de África, os tropicais ou os blues com à vontade e sem visrtuosismos de pacotilha. É garantidamente um belo trabalho - dá prazer a ouvir e percebe-se ter sido feito com igual prazer e empenho.
VER - Alguns livros, como os que mostram obras de fotografia, são uma espécie de exposições portáteis, que podemos revisitar em casa quando apetece. “A Cortina dos Dias”, de Alfredo Cunha, é um desses livros. Mostra imagens do foto-jornalista Alfredo Cunha, feitas entre 1970 e 2012 e é uma espécie de compêndio visual da História recente de Portugal. Alfredo Cunha foi testemunha de excepção de muitos dos momentos marcantes das últimas quatro décadas - primeiro no “Século”, depois nas agências noticiosas, mais tarde no Público, na Visão e no Jornal de Notícias, para além de uma passagem como fotógrafo oficial dos Presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. No prefácio do livro, João Silva, fotojornalista do new York Times, cita Richard Avedon: “Todas as fotografas são verdadeiras. nenhuma delas é a verdade”. As centenas de imagens deste livro são a preto e branco - como eram impressos muitos dos jornais e revistas onde originalmente foram publicadas. Alfredo Cunha tem uma maneira de ver - não se limita a registar. E é precisamente a existência desta maneira de ver que faz dele um dos grandes foto-jornalistas portugueses.
FOLHEAR - “Debaixo das Tílias” é o segundo volume das poesias de Henrique Segurado, de 1990 a 2010. Há um ano tinha surgido o primeiro volume, que ía de 1969 a 1989 e tinha por título “Almocreve das Palavras”. À semelhança do primeiro volume este tem também ilustrações de Rui Sanches, mas há uma clivagem entre os dois - fruto das épocas e dos momentos de escrita, fruto das diferenças dos tempos e situações. São poesias do quotidiano, um bloco notas de emoções, como um diário que se vai espalhando por folhas soltas.
PROVAR - Durante alguns anos habituei-me, por facilidade logística e genuíno prazer, a almoçar no Cervejanário, um restaurante situado no passeio de Neptuno, loja 9 e 10, em frente à marina da Expo. Além de bifes diversos, a casa fazia jus ao nome com uma boa colecção de cervejas de várias geografias e com uma cozinha portuguesa que tinha sempre bons pratos do dia. Há pouco tempo Joaquim Amaral Marques, o fundador, um homem com história na televisão, passou o testemunho a Carlos Rodrigues. O novo responsável optou por não mexer no que estava a funcionar bem. A casa usa boa matéria prima e a confecção é cuidada - como um polvo à lagareiro atestou um destes dias. Outros pratos usuais são salsichas frescas com couve lombarda, bacalhau à Braz, arroz de polvo. A garrafeira tem preços sensatos e além disso o serviço é atento e expedito, mesmo quando existe um grupo grande na sala, como era o caso. Gozando de uma localização privilegiada, junto ao rio, com vista directa para a marina, o local é ideal para espairecer ideias a meio de um dia de trabalho ou para juntar amigos ao fim de semana. Aberto sempre para almoços, e para jantares mediante marcação prévia, o Cervejanário às vezes mostra os seus pratos do dia no Facebook e pode ser contactado pelo telefone 218 946 044.
GOSTO - Do video do tema “Incomplete”, com Rodrigo Leão e Scott Matthew.
NÃO GOSTO - Do video “Lisbon Soul Of The World” que pretende apresentar a cidade como destino ideal para a instalação de criadores e de indústrias criativas.
BACK TO BASICS- «O que é ilegal faz-se rapidamente; o que é inconstitucional leva um bocadinho mais de tempo» - Henry Kissinger
janeiro 08, 2013
UMA ESTRADA DESCONHECIDA
Poucas alturas do ano têm tantas mensagens como esta. O Natal, o novo ano e até o Dia de Reis (pelas Janeiras), são pretexto para declarações diversas. Nas últimas semanas assistimos a um verdadeiro ping-pong de palavras entre o Presidente da República, o Primeiro Ministro, o líder da oposição e até alguns ministros e secretários de Estado. O tema andou sempre entre o Orçamento de Estado, o futuro próximo, o prazo de permanência da troika e todo o pano de fundo que conhecemos – privatizações, as novas nacionalizações, a falta de rumo e a incógnita cada vez maior que nos cerca.
Não quero parecer pessimista, mas por estes dias, cada vez que ouvia um dos nossos distintos políticos a falar, só me lembrava de uma canção dos Talking Heads, chamada “Road To Nowhere” e que rezava assim:
“They can tell you what to do
But they’ll make a fool of you
And it’s all right baby, baby it’s allright
We’re on a road to nowhere.”
O problema é este mesmo: é raro o dia em que não sentimos que o caminho que está a ser trilhado não tem direcção nem destino e é muitas vezes contraditório.
Por exemplo, percebo o que leva o Governo a prestar apoio a Bancos – mas são de qualquer forma um apoio a empresas privadas. E choca-me que ao mesmo tempo que apoia umas empresas privadas, dificulte tanto a vida a tantas outras – em tantos sectores. Às vezes, para apoiar tantos sectores produtivos, e geradores de emprego e de actividade, nem era preciso financiá-los, como à Banca – bastava que o seu dia a dia fiscal fosse mais leve, que existissem incentivos em vez de constrangimentos, que o Estado fosse menos tirânico.
Este país está a viver a dois pesos e a duas medidas. E é esse o caminho seguro para um beco sem saída.
(Publicado no diário Metro de 8 de Janeiro)
janeiro 04, 2013
O FUTURO, ORTOGRAFIA, AQUILO & SUGESTÕES AVULSAS
FUTURO - Esta primeira “Esquina” de 2013 é dedicada ao futuro. A primeira coisa que me ocorre dizer é que, de certeza, isto não vai ser pêra doce; a segunda, é que o futuro se vai fazer com algumas coisas do passado e muito poucas do presente - e isto também se aplica ao Sporting...; e a terceira é que ou mudamos de método, de protagonistas e de funcionamento, ou o nosso futuro vai ser mesmo amargo. Começo a estar um pouco farto de aprendizes de políticos que utilizam a palavra “colossal” em discursos, como se estivessem a resolver apenas um problema de palavras cruzadas. Para seguir com a linha de palavreado como colossal, eu gostava de dizer que tenho um titânico desprezo pelos falhanços descomunais das previsões, além de um gigantesco desagrado pelas manifestações de hercúleo desrespeito das promessas eleitorais. As eleições, que, permito-me recordar, regressarão neste ano, são, recorrentemente, uma barrigada de promessas. Acontece que estas barrigadas têm sido avassaladoramente indigestas nos últimos anos. O cúmulo é que neste Natal não houve sequer sonhos para provar: umas rabanadas...., e basta. O futuro é pensar quanto custa um mau Governo e ver se descubro porque é que a factura cai em cima de mim e não deles. Estar no Governo, quer-me parecer, é a única situação em que quem cava o buraco consegue evitar cair nele e escapar-se a tapá-lo. O meu desejo é que o sistema mude, que os partidos mudem e que os políticos de serviço se reformem - compulsivamente, de preferência. E quando se reformarem, que fiquem caladinhos por favor para não fazerem a triste figura dos seus antecessores.
ESCREVER - Desde há uns meses ando a ver se aprendo a escrever de acordo com as novas regras. E, sinceramente, já não tenho idade para tanta imposição nova. Ainda se fossem regras lógicas, podia entender - mas, absurdas como são, só me fazem desprezar ainda mais quem as criou. Foi com um sorriso, confesso, que esta semana dei por mim a abençoar as autoridades brasileiras que tiveram o bom senso de dizer o óbvio - que o novo acordo ortográfico tresanda a asneira e vai ter que esperar para ser aplicado. É assim como que uma imensa bofetada de luva branca, tão grande que atravessou o Atlântico. Já não sou crédulo que chegue para imaginar que quem nos governa se preocupe com estas minudências do idioma ou da gramática. Mas gostava que ao menos não aplicassem à língua portuguesa o que estão a fazer a Portugal, que é deixá-lo cair aos poucos.
AQUILO - Prometi a mim mesmo que não iria escrever sobre aquilo. O tabu anunciado. Isso. A mensagem na véspera do anúncio. A decisão na véspera da revelação. A maneira de dizer e não dizer. A forma de não fazer, fazendo. O estilo de deixar correr sem remorsos.
SEMANADA - Em 2012, venderam-se menos de 100 mil ligeiros de passageiros novos, o que não acontecia desde 1985; o custo potencial das dúvidas constitucionais colocadas pelo Presidente da República rondará os 1,7 mil milhões de euros, mais ou menos 0,7% do PIB; Estão a ser declaradas 52 falências judiciais por dia; registaram-se 30 casos graves provocados por drogas legais em dois meses; segundo o INE, em 2011, os jornais diários registaram menos cinco títulos e os não diários menos 152, enquanto as revistas perderam 162 títulos; na área da cultura, o Instituto Nacional de Estatística regista a diminuição de 5,2% do número de espectadores no cinema em 2011, relativamente a 2010; no mesmo período o número de sessões aumentou ligeiramente (0,1%); entre 2005 e 2011, o número médio de espectadores que assistiram a espectáculos ao vivo baixou 11,2%; existem perto de cinco milhões de emigrantes portugueses espalhados pelo mundo;
em 2011 saíram cem mil emigrantes e o destino mais procurado foi Angola, seguido do Reino Unido, França e Suiça ; o Brasil veio no fim da lista. a par com a Holanda.
ARCO DA VELHA - “Balas & Bolinhos” foi o filme português mais visto em 2012, com 255 548 espectadores, seguido de “Morangos com Açucar” com 236 856, enquanto o “Consul de Bordéus” registou 50 740, as “Linhas de Wellington” conseguiu 49 343 e “Florbela” ficou-se nos 40 875.
VER - Uma maneira fácil de ir seguindo boa fotografia é ver o site do British Journal Of Photography. Apesar da solenidade do nome, e do peso histórico que carrega, o conteúdo é bem contemporâneo, a atenção à evolução da forma e da técnica é constante, e a maneira como são mostrados novos talentos e obras consagradas é assinalável. A revista em papel é luxuosa, o site é dinâmico e a aplicação para iPad funciona bem. Mas nada seria relevante se a dedicação à fotografia não fosse tão exemplar como de facto é.
OUVIR - Não usei muitas vezes a expressão “the next big thing” referindo-me à música. Mas desde que ouvi um disco chamado “Manuel Fúria contempla os Lírios do Campo” que ela não me sai da cabeça. Manuel Fúria é o nome do homem de sete instrumentos que fez este disco, estas nove músicas. Soube ouvir, sabe pensar e sabe fazer. E sabe escrever canções que se podiam dizer vestidas de metralhadora - tiros em rajada, certeiros, com palavras que ficam. Eu gosto disto e é um belo começo para a música portuguesa em 2012.
FOLHEAR - Volta e meia regresso à “Wallpaper” e a edição deJaneiro é precisamente dedicada ao futuro - e registo, contente, que um dos locais recomendados é a Miss’Opo, uma guest house, ou casa de hóspedes para usarmos o vernáculo antes que se perca. Não me vou demorar a dizer o que a revista tem - e tem muito - e fico-me pelo editorial. O escrito pega num triângulo com três vértices: bom, barato e rápido. E conclui aquilo que nunca devemos esquecer: posso fazer as coisas bem e de forma rápida, mas não vai ser barato; posso fazer as coisas muito bem e por bom preço - mas não vai ser rápido; e finalmente podemos ter as coisas feitas depressa e por bom preço - mas então raramente serão boas. Há quem se esqueça disto - desde pedidos de propostas até medidas de Governo. O resultado está à vista e podia chamar-se Portugal.
PROVAR - Num tempo de contenção, um restaurante com boa onda e que vive do reaproveitamento gastronómico das conservas portuguesas, merece aplauso e destaque. Os leitores destas páginas sabem do apreço que tenho pelas boas conservas portuguesas. Folgo em registar que é o mesmo sentimento que Rui Pregal da Cunha, o vocalista dos Heróis do Mar, mais tarde publicitário e homem de vários ofícios, resolveu professar no seu restaurante “Can The Can”. O nome é uma graçola feita a partir de uma canção da época “glam-rocak”, por Suzi Quatro, uma rapariga notoriamente à frente do seu tempo. Já agora o trocadilho da canção aplica-se que nem uma luva às latinhas das conservas. Tenho ouvido louvaminhar a tiborna de atum e um dia destes vou mesmo passar pelo “Can The Can”. É fácil, fica no Terreiro do Paço, ali pelo número 82, para os lados do Ministério das Finanças. Dizem-me que nem a Troika nem o Raspar (perdão, Gaspar...) por lá costumam passar, o que é sempre uma boa carta de apresentação. O telefone é o 914007100, que pode ser usado para marcações, para também para saber se na noite em que lá quiserem ir canta alguém, o que por vezes acontece - sem causar indigestões.
GOSTO - De assistir à série “The Hour” na Fox Life.
NÃO GOSTO - De nenhum dos putativos candidatos autárquicos em Lisboa.
BACK TO BASICS- A gente tem sempre tempo de esperar algum tempo, de saber quem é que se afunda e desaparece, quem é que fica - Jorge de Sena
dezembro 28, 2012
UM REGIME BURLESCO
BURLESCO - O ano acabou com duas novelas: o estranho caso da venda da TAP, que não aconteceu depois de estar prometida a Germán Efromovich, por este não ter prestado a garantia bancária exigida para o negócio, após ter andado semanas a encher a boca e os nossos ouvidos de milhões e milhões que nos iria dar; e o estranho caso do orador Artur Baptista da Silva, que vigarizou meio mundo e teve uma meteórica carreira em eventos, de conferências no insigne Grémio Literário ao Congresso da Felicidade, no Porto, onde foi convidado a botar faladura. Vivemos num país crédulo - alguma razão há-de existir para os actos eleitorais das últimas décadas terem dado os resultados que estão à vista. Não sei porquê, encontro parecenças entre os dois. Ambos sugerem milagreiros de ocasião, actores de uma comédia falhada. Mas o que é certo é que ambos conseguiram protagonizar momentos decisivos, ambos encheram páginas de jornais, ambos tiveram honras de televisão. Alguma coisa vai terrivelmente mal quando tudo isto acontece. Num dia destes Adelino Maltez afirmava que vivíamos no reino do burlesco. Com a devida vénia, cito uma entrada no seu Facebook, colocada em jeito de comentário a posts politico-natalícios contemporâneos: “No primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores" (expressão do Almirante Américo Tomás nas suas memórias e que inspira todos os teatros de Estado das mensagens de Natal e Ano Novo dos anos subsequentes...)”
REGIME - Quando vejo o que se passa e quando pensa no que tem acontecido fico com a certeza que o regime está caduco e que os partidos que o sustentam caducos estão. Por estes dias dei comigo a pensar que, entre 1969 e 1974, Marcelo Caetano teve mais consciência das limitações do regime que herdou, do que os políticos actuais - que como os velhos do regime querem perpetuar o estado das coisas porque esse é o garante do compadrio de influências que é a sua razão de ser. 2012 fica para a História como o ano em que se agudizou o desrespeito do Estado pelos contratos implícitos que estabelece com a sociedade e os contribuintes. A narrativa política oscilou mais que um barco à vela no meio de uma tempestade. Em numerosos casos, de sectores e de importância diversas, o Estado desdisse o que tinha anunciado. Temos um Ministro das Finanças que é pior a fazer previsões que um quiromante de vão de escada a fazer horóscopos. Gaspar já não consegue acertar nem numa folha de excel, quanto mais no mundo real. Em cada mês que passa, por cada nova previsão falhada, confirma-se que nem bom técnico deve ser. Um político é suposto ter visão e não ser conformista. Não é isso que se passa com os políticos que temos no activo, em todos os quadrantes. Vivemos um reality show político tão mau que consegue perder audiências em vez de suscitar interesse. Há uma dupla perca de credibilidade - pela falta de cumprimento das promessas e pelas sucessivas falhas nas previsões, que se usam para justificar as políticas. Há muito que deixámos de ter uma estratégia, limitamo-nos a um zigue -zague.
SEMANADA - Depois de um ano bem atribulado e pouco secreto, o Diretor do SIS propôs a fusão das secretas; mais de um milhão de portugueses emigraram desde 1998 e a vaga de emigração está nos níveis dos anos 60; o regresso aos mercados pode ser adiado para 2014; o Governo prepara cortes nos salários se o Orçamento derrapar no próximo ano; Vitor Gaspar continua a falhar previsões de receita e de défice; Passos Coelho disse no parlamento que 2013 vai ser um ano de grandes dificuldades e comparou os portugueses a soldados num cenário de guerra; dias mais tarde Passos Coelho escreveu no Facebook que “este não foi o natal que merecíamos”; em 2012 estão a vender-se menos 30 mil jornais por dia que no ano passado; Joe Berardo deu uma entrevista para dizer que “este governo está a perseguir as pessoas do dinheiro” e para garantir que a sua “verdadeira situação financeira é muito boa”; 75% das codornizes consumidas em Portugal são criadas na freguesia do Landal, nas Caldas da Rainha, e são vendidas pelos criadores a cerca de 70 cêntimos cada animal - ao todo são cerca de três milhões de aves por ano; os calotes a condomínios já atingem mil milhões de euros ; no ano passado, em Lisboa, 1203 idosos morreram sozinhos, sem qualquer tipo de assistência medica.
ARCO DA VELHA - “Vertigo”, de Alfred Hitchcok, considerado o melhor filme de todos os tempos pelo British Film Institute, não foi considerado filme de qualidade pela Inspecção Geral das Actividades Culturais.
FOLHEAR - Pelo caminho que as coisas levam, vou começar a coleccionar derradeiras edições de revistas. O começo da colecção não podia ser melhor: “#LAST PRINT ISSUE” - este é o título da derrradeira edição em papel da revista semanal “Newsweek”, letras a branco e vermelho colocadas por cima de uma fotografia a preto e branco com o arranha-céus de Manhattan, que alojou a redacção da revista, em primeiro plano. A partir de Janeiro a Newsweek passará exclusivamente a ter vida em edição digital - na realidade é a primeira revista de informação global a migrar do papel para o digital. Acredito que esta não é uma derrota, mas um acto de visão. A célebre página “Perspectives”, que ao longo dos anos recolheu citações e observações, recorda nesta edição especial uma ideia defendida em 1995 por Nicolas Negroponte, o director do Media Lab do Massacchussets Institute of Technology. Dizia ele, há quase duas décadas, perante o cepticismo de quem o ouvia, que dentro de pouco tempo as pessoas passariam a comprar e a ler livros , jornais e revistas na Internet. Pois esse tempo foi chegando e agora não há muita volta a dar e, em vez de erguer um muro de lamentações, mais vale aproveitar as potencialidades do mundo novo que está à nossa volta. Tina Brown, a carismática directora da revista, que lhe pegou numa época difícil há cerca de um ano, assina um editorial onde afirma o que devia já ser óbvio para todos: “às vezes a mudança não é somente positiva, é necessária”.
OUVER (Não é gralha, é para ver e ouvir...) - Acho muito engraçado ver a evolução das listas de discos mais vendidos nos últimos anos. Quem seguir as tabelas da FNAC em Portugal verá que em muitas semanas, à frente da tabela, estão discos de fado, de jazz vocal e, como aconteceu há pouco tempo, até de música clássica. Isto tem uma razão: são as pessoas acima dos 35 anos que hoje em dia mais compram discos em suporte físico, em vez de fazerem o seu download - porque ainda não se sentem confortáveis a fazê-lo. Por isso mesmo Cecilia Bartoli liderou há pouco tempo a tabela de vendas com o seu “Mission”, uma produção dedicada à música de Agostini Steffani, um compositor barroco, além de diplomata, espião e missionário. Depois do sucesso alcançado pelo CD, eis que agora aparece o DVD, numa estratégia de edição pensada ao pormenor desde o início. Na realidade o DVD é um filme, rodado em Versailles, partindo de uma visita ficcionada do compositor à corte do Rei Sol no final do século XVII. Bartoli tem-se dedicado a fazer descobrir compositores quase desconhecidos e este seu trabalho, completo e apaixonado, sobre Agostino Steffani é exemplar do ponto de vista da capacidade de um intérprete em explorar diversos meios para fazer chegar a sua obra a diversos públicos. O filme, co-produzido pela ARTE, foi escrito e realizado por Olivier Simonnet (e dá que pensar sobre a utilidade de incentivar a produção audiovisual - mas isso, são outras músicas, por cá bastante desafinadas). O DVD “Mission” já está disponível por cá e é a minha sugestão para a noite de fim de ano.
PROVAR - A bem do equilíbrio da nossa balança de pagamentos sugiro que em vez de comprarem sucedâneos de caviar (já nem falo do verdadeiro...) experimentem as ovas de bacalhau e de sardinha, ambas da fábrica conserveira “la Gondola”, em Perafita, Matosinhos. Garanto que não se arrependem se no fim de ano experimentarem este petisco, acompanhado, por exemplo, por um Alvarinho, como o Deu La Deu. Eu pessoalmente prefiro as de sardinha, mas reconheço que ambas são muito boas - nomeadamente com um bocadinho da indispensável e saudável broa de milho. A todos um 2013 melhor do que aquilo que esperamos e nos prometem!
GOSTO - Dos elogios às novas formas de utilização da cortiça por criadores portugueses, numa recente edição do Wall Street Journal.
NÃO GOSTO - Da maneira atabalhoada como foi feita a reforma do poder local.
BACK TO BASICS - “Não me façam perguntas; assim não me ouvirão mentir” - Oliver Goldsmith
dezembro 21, 2012
UMA ESPÉCIE DE BALANÇO
MUNDO - Começo por vos dizer que, se me estão a ler, é sinal que o mundo ainda não acabou, apesar da profecia que vem do tempo dos Maias. Mas, se isso é verdade, não é menos verdade que este final de ano está cheio de sinais de rupturas. O mundo pode não ter acabado, mas, este ano, para muita gente, mudou de uma forma tal que o modo de vida que tinham acabou mesmo. Nuns casos isso é bom, noutros nem por isso. No espaço de pouco mais de um ano um número assinalável de indicadores regrediu para valores de há uma década, e esse movimento de regressão vai continuar. É um ajustamento que está a ter repercussões no dia a dia, nas questões mais básicas. Atinge também áreas que muitos consideram marginais, como a criatividade, a expressão artística, a cultura. Gostava, quase a começar um ano que quero encarar como o princípio inevitável de um novo mundo, de recordar estas palavras de Mario Vargas Llosa: “É muito importante que haja participação cívica, fiscalização constante do poder e que este esteja impregnado de ideias, não só de paixões. Para isso, é indispensável a cultura, que dá à política padrões morais.”
PRÉMIOS - Prémio “não sei quem é o Sócrates” para António José Seguro; prémio “Quem? Eu?” para Miguel Relvas; prémio “vou fazer do serviço público um canal horeca” para Alberto da Ponte; prémio “já vos tramo a todos que vos ponho às voltas no Marquês” para António Costa; prémio “não sei porque não gostam de mim” para Godinho Lopes; prémio “eu faço tudo bem e vocês não me compreendem” para Pedro Passos Coelho”; prémio “o melhor da raspadinha” para Vitor Raspar, perdão, Vitor Gaspar; prémio “mais vale tarde que nunca” para Cavaco Silva; prémio “a ver se não me molho” para Paulo Portas; prémio “onde está o Louçã” para Daniel Oliveira; prémio “lá vamos cantando e rindo” para o grupo parlamentar do PSD; prémio “em busca do tempo perdido” para Álvaro dos Santos Pereira.
ARCO DA VELHA - Na mesma noite em que o Conselho Nacional do PSD se reunia em Lisboa, num hotel da capital, soube-se que António Nogueira leite se havia demitido da vice-presidência da caixa Geral de Depósitos. João Gonçalves, um blogger acutilante, escreveu estas palavras que aqui reproduzo, com a devida vénia: “A saison, não o horrível natal, vai "animada" com uma sucessão de demissões. Do director de informação de um operador televisivo a um director-geral de outro, de um inspector-geral passando pela administração da Casa da Música e por um administrador executivo da CGD, constato que nem todos os que pedem a demissão a deviam ter pedido, ao mesmo tempo que alguns que a deviam pedir o não fazem. O pensamento que calcula, para recorrer à expressão de Heidegger, pesa mais que qualquer outro pensamento nos tempos que correm. Muitas vezes, nem sequer vale a pena falar em pensamento, para não ofender o conceito. A ver vamos como dizia o cego.”
OUVIR - Estamos num tempo em que existe uma oscilação, por vezes confusa, entre nostalgia e repetição. Mas é muito curioso que alguns dos melhores registos do ano venham, em várias áreas da música popular, de nomes, digamos, antigos. Neil Young fez um disco absolutamente brilhante com “Psychedelic Pill”; Bob Dylan mostrou que continua surpreendente com “Tempest”. Bruce Springsteen mostrou como continua atento com “Wrecking Ball”. Bobby Womack ressuscitou com “The Bravest Man In The Universe” , Bill Fay volta a dar uma lição em “Life Is People”. Leonard Cohen, coerentemente, mostrou a vitalidade de “Old Ideas”. E, mesmo com o ano a chegar ao fim, Caetano Veloso ofereceu-nos um “Abraçaço” que confirma a sua criatividade e o seu génio. Mas há também outros grandes discos - “Blunderbuss” de Jack White, “Idler Wheel....” de Fiona Apple, “Sun”, de Cat Power. No jazz gostava de recordar “The Cherry Thing” de Neneh Cherry, “Ode” de Brad Mehldau. Por cá, Orelha Negra, Wray Gunn, António Zambujo e Ana Moura foram os portugueses cujos discos mais me fizeram vibrar neste ano de 2012, mas há várias bandas novas, a despontar, que merecem atenção. Bem vistas as coisas, os mais antigos deram uma boa prova de vida, mas a música popular, nas suas várias vertentes, continua vibrante. Muito do que este ano ouvi já não foi em suporte físico - foram discos comprados no iTunes, por impulso, no momento, porque me apetecia descobri-los. Conseguir tê-los tão facilmente mostra também a mudança que vivemos.
FOLHEAR - O que li este ano? Alguns policiais, alguns livros de História, e, claro, muitas revistas e jornais. O kindle e o iPad mudaram de facto a minha vida. Agora vou descobrindo os novos policiais graças ao Kindle e vou folheando revistas e jornais no iPad - algumas descubro em agregadores como o Zite ou o Pulse, que me permitem estar mais informado que pensava possível. Volto e meia descubro também alguma coisa no Twitter. Divirto-me com prazer com boas edições digitais como a da “Wired”, ou a “Intelligent Life”, mesmo que os seus efeitos sonoros inesperados provoquem sobressaltos no dormir de outrem - problemas de quem gosta de ler na cama. Mas não desprezo boas surpresas em papel como a Monocle, que continua a ser um exemplo e uma referência, a portuguesa “Egoísta” e, se tiver que escolher um livro em papel, vou pelo álbum do ano, que é o LX 60, uma viagem a Lisboa na década de 60.
VER - A Estação Imagem, de Mora, fruto do entusiasmo do fotojornalista Luis Vasconcelos, merece destaque este ano - pela persistência do seu trabalho, pela forma como tem divulgado a fotografia, como tem promovido exposições e edições, como tem estado activa e presente, sem beneficiar nem de financiamentos extraordinários nem de recorrer a lamechices na praça pública. O seu lema, bem presente no site, é uma frase de W. Eugene Smith: “Nunca encontrei limites ao potencial da fotografia”. Nos dias que correm é engraçado vermos como as novas formas de fotografia, como o Instagram, provocam adesão e polémica, como a vulgarização da fotografia digital permite tornar ainda mais realidade o facto de ela ser a forma de expressão visual mais democrática, no sentido de ser acessível a todos. Da mesma forma que com os sms, os messenger, os emails e o Facebook a escrita voltou a ganhar um lugar na comunicação, a fotografia, a imagem fixada do instante, a forma de ver, voltaram a estar na ordem do dia. Esta organização, que hoje destaco, chama-se “Estação Imagem” porque a sua sede é numa antiga estação de caminhos de ferro, entretanto desactivada, em Mora. É de lá que ela irradia actividade, como uma bem visivel em Lisboa, agora por estes dias: na Fábrica de Braço de Prata está a participação portuguesa no projeto Aday - 15 fotógrafos visitaram - documentando-o - um dia na vida de mulheres em Portugal. Dali nasceu um livro e uma exposição. Eu gosto de quem, no meio da crise, encontra espaço para trabalhar e fazer - sejam canções, discos, livros, revistas ou exposições. Apesar do Estado, muitas vezes contra o Estado, tudo isto existe.
PROVAR - Ao pé do escritório onde trabalho, nas Avenidas Novas, fecharam nos últimos meses meia dúzia de restaurantes. Alguns tinham aberto há menos de um ano, eram tentativas, algumas bem engraçadas, de criar pequenas empresas que geravam meia dúzia de empregos. Nasceram no momento errado e não sobreviveram. Em alguns deles passei bastantes almoços solitários este ano - uma experiência que gosto de ter, a olhar para os sítios e as pessoas que os frequentam, a provar o que nos põem na mesa. A vida dos restaurantes é dura - um dos livros que me divertiu e educou nestas férias foi “Cozinha Confidencial” de Anthony Bourdain. Depois de o ler passei a olhar para os restaurantes e para quem lá trabalha de outro modo. Por isso mesmo, nestes tempos em que fecham restaurantes, apetece-me elogiar quem se mete a essa aventura, num projecto que ao fim de poucos meses ganhou logo uma estrela Michelin. Não é que eu ligue muito a estas condecorações - mas reconheço que José Avillez e o seu Belcanto merecem elogios - pela coragem de um investimento destes nesta altura, mas também pelo cuidado posto para que cada cliente se sinta especial. E porque lá se come de facto muito bem.
GOSTO - Dos que, em todas as áreas, se esforçam por criar ou manter empresas, postos de trabalho e actividade, apesar de tudo o que o Estado inventa.
NÃO GOSTO - Do estado da Justiça, da banalidade com que a responsável do Departamento de Investigação e Acção Penal considera que não se conseguem combater as fugas de informação.
BACK TO BASICS- “Eis ao que leva o intervencionismo do Estado: o povo converte-se em carne e massa que alimenta o simples artefacto e máquina que é esse Estado” - José Ortega Y Gasset
dezembro 18, 2012
A CALCULADORA AVARIADA
Este Natal não posso deixar de pensar em quem nos trouxe até aqui – nos políticos, que, por boas ou más intenções, embarcaram na desgraça do Euro e da Comunidade Europeia, que desmantelaram a nossa indústria, a nossa agricultura e as nossas pescas, comprometeram o futuro a troco de subsídios de Bruxelas e do seu quinhão na partilha do poder. Olho para os últimos 20 anos e tenho a sensação de olhar para uma farsa, para uma espiral de demência, em que os políticos se entretiveram a brincar.
Olho para trás e vejo como a justiça não melhorou, como a nossa sociedade se continua a basear em atropelos, atrasos, julgamentos na praça pública, fugas de informação e toda a espécie de desmandos – onde se pretende fazer justiça pouco mais existe que um arremedo. Olho para o aparelho judicial e não acredito nele – do Ministério Público aos juízes. Em Portugal a justiça é uma estado de espírito mas nunca chega a ser uma realidade – e este é bem capaz de ser o maior dos problemas que temos para conseguir mudar o funcionamento do país. Ninguém é responsabilizado, só os fracos são punidos.
Olho para estes partidos que existem e vejo como estão fechados em si mesmos, mais interessados no seus próprios aparelhos do que em delinear medidas, reformas, soluções. A política deixou de ser um fim nobre e passou apenas para um jogo, tipo monopólio, onde se repartem fatias do país.
Eleição após eleição assisto a programas e promessas que são imediatamente deitadas para o lixo e contrariadas mal se conhecem os resultados e os novos inquilinos chegam ao poder. Em cada eleição deteriora-se a forma como os cidadãos são tratados, aumenta o engano e aumenta o peso do Estado. Tudo o resto diminui. O país tornou-se numa calculadora que só tem uma função ativa: a subtração.
(Publicado no diário Metro de 18 de Dezembro)
dezembro 14, 2012
O VELHO FUTEBOL, AS GARGANTAS FUNDAS E IDEIAS AVULSAS
FUTEBOL - Um estudo divulgado esta semana indica que as dívidas à banca dos três maiores clubes de futebol - Porto, Benfica e Sporting - já ultrapassam os 400 milhões de euros, tendo aumentado 60 milhões de euros desde o final da época passada, já este ano. Há outros dados curiosos: as despesas operacionais do Sporting são quase iguais às do Porto, mas as receitas operacionais dos leões são muito mais reduzidas. Para além das aparências todos os clubes perdem dinheiro, mas continuam alegremente a fazer contratações e todos gastaram mais em compras de jogadores do que realizaram em vendas. Vem tudo isto a propósito da analogia entre os clubes de futebol e a maneira como Portugal tem sido governado - sempre a gastar mais do que se pode, sempre a ficar em dívida. O futebol entusiasma multidões, mas é bem o espelho do país, mesmo no descalabro financeiro. O retrato do futebol, traçado neste estudo de um professor do ISEG, António Samagaio, divulgado pelo “Público”, é o retrato dos velhos vícios, dos velhos exageros e do velho desgoverno. Esta semana em Alvalade muitos se terão interrogado sobre o sentido de tanto dinheiro atirado à rua, sobre o facto de o Sporting ser o clube em pior situação financeira e , também, o que pior resultados tem alcançado entre os três grandes. Uma fábrica pode ter boa matéria prima, mas se for mal gerida não coloca no mercado bons produtos que desafiem a concorrência. Passa-se exactamente o mesmo no futebol.
INVESTIGAÇÕES - Uma das lendas do foto-jornalisno norte-americano é Weegee, o pseudónimo de Arthur Fellig. No final dos anos 30 as suas fotografias da vida noturna de Nova Iorque fizeram escola. Dizia-se que ele chegava ao local de um crime mais depressa que a polícia, e às vezes era verdade. O segredo era simples - Weegee tinha no seu carro um rádio sintonizado na frequência da polícia e quando ouvia o relato de uma ocorrência que lhe parecia poder dar fotografia, corria para o local. No enorme porta bagagens do seu carro tinha um mini laboratório fotográfico onde revelava as imagens, de forma a conseguir entregá-las nos matutinos ainda a tempo da edição. Quando esta semana li os relatos das buscas em casa de várias pessoas, em duas operações distintas, foi em Weegee que pensei. No seu tempo ele ouvia as notícias num rádio que tinha pirateado para ouvir a polícia; hoje em dia em Portugal há evidentemente alguém na polícia ou no ministério público que, há anos, se entretém a dar indicações sobre onde e quando vão ser feitas operações contra figuras conhecidas. Independentemente do que vier a ser apurado, há pessoas que são expostas na praça pública sem lhes ser dada a presunção da inocência. Estes braços perversos do sistema judicial e policial são um atentado à justiça. E vivem há demasiado tempo na impunidade, trocando favores e influências. E fazendo, imagino eu, umas vingaçazinhas a soldo de quem dá mais a estas gargantas fundas,
SEMANADA - O crédito malparado nas empresas exportadoras aumentou 45%; crédito em incumprimento ultrapassou a fasquia dos 5 mil milhões de euros; 6,4% das famílias já não conseguem pagar o crédito da casa; consumo de combustível caíu mais de 13%;Lula acusado de benficiar do “mensalão”; o Papa estreou-se no twitter; o Brasil adiou para 2016 o acordo ortográfico; a análise do ACP às alterações no trânsito do Marquês do Pombal e Avenida da Liberdade é arrasadora das experiências da Câmara e pode ser consultada no site da instituição; o Governo quer reduzir o numero de camas nos hospitais; 10% das compras on line foram em sites de apostas e jogos; as compras na internet mais que duplicaram desde 2007, mas ainda representam apenas 1,2% do total de pagamentos; uma declaração de um responsável de uma empresa de capitais públicos, no Parlamento, na comissão de ética, cidadania e comunicação, valeu-lhe um processo disciplinar com vista a despedimento e a interdição de entrar nas instalações da empresa e toda a gente no parlamento acha o sucedido normal; em saúde investimos 7% do PIB, menos que a média da OCDE, que é 7,5%; em Portugal os apoios sociais levam 18,7% do PIB, a média da OCDE é de 20,5%; só o Chipre gasta mais que nós em defesa e segurança - 4,7% contra os nossos 4,1%; temos 1182 empresas públicas, 29 mil carros, 356 institutos públicos, 343 empresas municipais, e 13 740 instituições sentadas à mesa do orçamento.
ARCO DA VELHA - A Associação Empresarial de Penafiel, por intermédio do Centro de Emprego da localidade, contratou desempregados, a 43 cêntimos à hora, para se vestirem de Pai Natal, pagando um total de 83 euros por 30 dias seguidos de trabalho. “Desenvolvimento e promoção de ações de animação do comércio local no centro histórico de Penafiel durante o período natalício” é a descrição do trabalho contratado.
PALAVREADO - “Qualquer apoio do Ministro Miguel Relvas a uma candidatura é um beijo da morte” - Marcelo Rebelo de Sousa
PROVAR - Há alguns meses abriu no Centro Comercial das Amoreiras o segundo restaurante da cadeia alemã Block House em Portugal. A cadeia nasceu em Hamburgo, no ano de 1968 e tornou-se uma referência pela qualidade das carnes que serve, provenientes de novilhos das raças Angus e Hereford. Os acompanhamentos são simples - saladas frescas e batatas assadas recheadas de sour cream polvilhado de cebolinho, mas para quem queira há a clássica batata frita ou legumes salteados por exemplo. Quem quiser tem cordeiro, peru ou salmão, mas quem aqui vem procura mesmo bife - e há sete variedades diferentes, cada uma com o seu corte e preparação, do filet mignon de 180 gramas até ao rib-eye mastercut de 350 gr. E, claro, também há um bom hamburguer. Nas sobremesas há uma tarte de maçã à austríaca muito boa e um New York Cheesecake com molho de frutos vermelhos, que é um sucesso entre os mais gulosos. Pode parecer estranho este entusiasmo por um restaurante de centro comercial - mas a verdade é que este Block House é atualmente dos melhores sítios onde se pode comer um bom bife, cortado e cozinhado como deve ser. Para quem goste as batatas assadas são uma delícia e devo dizer que o serviço é acima da média.
OUVIR - Andei uns tempos a ouvir este disco até escrever sobre ele. Ao princípio estranhei. Depois, entranhou-se. António Zambujo canta de forma desprendida - às vezes quase se pode dizer que não canta, conta-nos histórias corriqueiras, às vezes brejeiras, com um tratamento musical completamente inesperado mas que resulta muito bem. Há aqui influências de muitas músicas deste mundo, o Fado passeia-se como pano de fundo sem ser dogma. Gosto muito de algumas canções de João Monge, de Maria do Rosário Pedreira, de Pedro de Silva Martins. E gosto das sonoridades das guitarras de José Manuel Neto e Bernardo Couto; e da guitarra eléctrica do Mário Delgado, da bateria do Alexandre Frazão, do contrabaixo de Ricardo Cruz, do clarinete de José Miguel Conde, do trombone de André Conde. O resultado de tudo isto é uma boa mistura explosiva. E gosto dos arranjos, e gosto deste disco tão despretencioso e divertido, descarado mesmo, um disco como há muito não ouvia igual. Chama-se”Quinto”, pelas óbvias razões de ser o quinto disco da carreira de António Zambujo.
VER - Muito para ver por estes dias. Começo por Coimbra onde, no Círculo de Artes Plásticas (Rua Castro Matoso 18), está até 31 de Janeiro uma retrospectiva de fotografias de Albano Silva Pereira, 40 anos de trabalho reunidos na exposição “Atlas S. 1972-2012”. Salto para Lisboa - na Sala do Veado, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Rua da Escola Politécnica 56) está “Vuoto”, de Miguel Telles da Gama, um trabalho metódico e invulgar cheio de surpresas. No Porto, claro, está em Serralves até 3 de Março a retrospectiva“Noites Brancas”de Julião Sarmento. E, finalmente, também em Lisboa, no Palácio Galveias, está uma curiosa mostra de fotografias intitulada “12.12.12” - doze fotógrafos retratam o ano que corre, cada um com 12 páginas no livro que acompanha a exposição. É um reatrto do país num ano terrível, mas é também o retrato do trabalho de 12 nomes da nova geração de reporteres fotográficos. E vale a pena.
GOSTO -A Leya criou e disponibiliza uma plataforma de autopublicação - www.escrytos.com - que permite aos autores criar os seus próprios ebooks.
NÃO GOSTO - A dívida pública portuguesa deverá chegar aos 119,1% do PIB este ano, e aos 123,7% em 2013.
BACK TO BASICS- Se não formos capazes de dizer a verdade acerca de nós próprios, somos incapazes de o fazer em relação a outras pessoas” - Virginia Woolf
dezembro 11, 2012
CRONOLOGIA DO CASO RTP
Quando as coisas parecem complicadas não há nada como alinhar os factos. Na penúltima semana de Novembro Nuno Santos, Diretor de Informação da RTP, foi chamado à Administração por causa do visionamento de imagens de uma manifestação por parte da PSP. No decurso dessa reunião Nuno Santos sentiu que se devia demitir do seu cargo, invocando sentir falta de confiança da Administração.
A mesma Administração mandou instaurar um inquérito aos factos ocorridos, e os responsáveis por esse inquérito entenderam não pedir o depoimento de Nuno Santos e do seu Diretor-Adjunto, Vitor Gonçalves, sobre o ocorrido.
No dia 28 o Presidente do Conselho de Administração da RTP, citado por vários jornais, disse: “a empresa concluiu que não há motivos para um processo disciplinar, pois o apurado configura uma deslealdade e uma falta processual, mas não é o suficiente para proceder a um processo disciplinar”.
No dia 5 de Dezembro, em audição numa Comissão Parlamentar da Assembleia da República, Nuno Santos disse aos deputados considerar que a sucessão de factos ocorridos configurava, na sua opinião, “um saneamento político”.
No dia 6 de Dezembro, a Administração da RTP, informa Nuno Santos que as suas declarações no Parlamento são razão para desencadear um processo disciplinar com vista a despedimento e proíbe a sua entrada nas instalações da RTP.
No dia 10 de Dezembro, à hora a que escrevo este artigo, a Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, ainda não falou sobre o facto de alguém ser suspenso por causa de declarações numa comissão parlamentar. Também nenhum líder parlamentar da maioria se inquietou sobre o significado de um processo disciplinar originado por declarações proferidas numa Comissão Parlamentar.
Fica uma pergunta: passou a ser aconselhável não responder às perguntas dos deputados numa Comissão Parlamentar?
(Publicado no diário Metro)
dezembro 07, 2012
TVs, POLÍTICAS, DESABAFOS & SUGESTÕES
TV - Quando daqui a uns tempos olharmos para trás e pesquisarmos o que, neste ano da graça de 2012 se passou na RTP, teremos alguma dificuldade em compreender como de forma tão rápida se destrói a reputação de uma estação, se afastam pessoas, e se desvaloriza uma empresa. Pondo de lado a questão do modelo de privatização, gostava apenas de recordar que a manutenção de um serviço público de rádio e televisão se mede não apenas por listagens de conteúdos, sempre polémicas, mas, sobretudo por um papel de catalisador da presença audiovisual da língua e da cultura portuguesas. No mundo digital em que vivemos já não faz sentido olharmos para as obrigações de um serviço público como há duas décadas ou mesmo há uma. Mas faz sentido termos em conta que o papel de um serviço público de rádio e de televisão é garantir diversidade e fomentar a produção nacional, não a produção interna, da casa, mas sim a produção externa, de produtores independentes, que dinamize a existência de um sector industrial dedicado ao audiovisual, única forma de nos mantermos linguisticamente vivos no mundo electronico do qual fazemos parte. Não sou dos que acredita que a solução da criatividade está no interior das estações, e muito menos na do serviço público, mas sim na boa gestão das encomendas e dos fornecedores, na combinação entre os conteúdos que se pretendem e as melhores pessoas e organizações para os fazer. No fundo, no desafio que é conseguir a combinação da criatividade com a capacidade de comunicar e de atrair públicos. Gostava que, seja qual fôr a solução encontrada, o serviço público de rádio e de televisão se vire para fora e não se deixe consumir em querelas internas. Vendo o que se passou nestas duas semanas, quanto mais cedo o Estado sair de cena, melhor. Perigoso é mesmo ficar ainda com 51% - vai sempre ter a tentação de mandar, instruir, condicionar - tudo aquilo que tem sido este longo rosário. Nesta matéria o actual Governo nem é inovador, limita-se a seguir os passos do anterior.
PARTIDOS - Estamos a chegar ao fim de um ciclo político. Os partidos, organizados neste regime há 38 anos, são um poço de contradições internas e externas. Vêm de um tempo em que o sistema de comunicação e de ligação das pessoas era completamente diverso e de um período em que as prioridades da sociedade eram outras - e alguns deles têm raízes ainda mais atrás. Com o passar dos anos cristalizaram, tornaram-se autistas, e especializaram-se em criar um eco-sistema onde só eles vivem, cada vez mais distantes dos eleitores, com cada vez menos gente a votar. O sistema privilegia a mentira nas campanhas eleitorais, não responsabiliza as políticas executadas, nem os desvios cometidos. Nos países da norte da Europa os partidos que hoje existem não têm nada a ver com os que existiam há 40 anos. Começa a ser boa altura para este assunto ser tema de debate. Não são só os políticos que não nos servem - eles são apenas frutos dos partidos onde nasceram e cresceram. Este eco-sistema político está poluído demais.
SEMANADA - O agravar de quadros de ansiedade entre idosos provoca aumento das idas às urgências de psiquiatria no Porto; Lisboa desceu três lugares no ranking da qualidade de vida em grandes cidades e está agora na 44ª posição; mercado cervejeiro deve cair 10% este ano em Portugal; Bancos têm de assumir perdas de 474 milhões de euros no imobiliário; dívidas incobráveis disparam para 488 milhões de euros; quase metade dos tribunais estão em estado de degradação; todos os dias 25 empresas pedem insolvência; vendas de automóveis caem 40% nos 11 primeiros meses do ano; tráfego na Via do Infante caíu 44,6% desde a introdução de portagens; tráfego nas auto estradas a nível nacional caíu 16%; 15 famílias por dia pedem ajuda à DECO para pagarem créditos; Portugal piorou na última década, em termos de percepção e combate à corrupção - caíu dez lugares em dez anos e, na Europa, atrás de nós, só Malta, Grécia e Itália.
PERGUNTINHA:
ARCO DA VELHA -
PROVAR - “A Tarte” nasceu há uns meses e tem feito sucesso. Com base numa receita tradicional algarvia, e tendo como matéria prima a amêndoa, “A Tarte” tornou-se rapidamente uma sobremesa incontornável. Está no Facebook e vende-se em vários locais. Quem a prova diz que é viciante. Pois por alturas deste Natal os criadores da Tarte decidiram fazer uma edição especial, limitada ao tempo da consoada. A novidade é que, em vez de amêndoa, leva pinhão, que é cada vez mais uma espécie de diamante dos frutos secos. O resultado é pinhão doce, com aquela massa dura para trincar. Nasceu mais um clássico. Se forem ao Facebook” e escreverem “A Tarte” poderão saber tudo sobre esta delícia.
OUVIR - “Iridescente” é o resultado, em disco, do desafio que a Fundação Gulbenkian lançou a Mário Laginha e Maria João para integrarem o projeto “Músicas do Mundo”. A cantora explica como nasceu este disco: «Surgiu-nos a ideia de compor originais e conjugar instrumentos que gostamos numa formação invulgar: voz, piano, acordeão, harpa e percussão». Desde 2008, do CD “Chocolate”, que Maria João e Mário Laginha não faziam um disco. O resultado, mantendo traços característicos da extensa obra gravada dos dois, tem arranjos invulgares, graças à inclusão de instrumentos como a harpa (Eduardo Raon) ou o acordeão (João Frade) e a uma percussão (Helge Norbakken) mais evidente que em discos anteriores.
FOLHEAR - A versão inglesa da revista “Wired” fez uma edição especial dedicada às principais tendências para 2013 em campos tão diversos como os media, política, tecnologia, ciência, negócios ou arquitetura. São 132 páginas bem recheadas de ideias e opiniões por algumas dezenas de personalidades, com revelações sobre novos aparelhos em fase de protótipos ou o rumo que algumas áreas de actividade estão a tomar, com base no reforço da actuação em rede. De Richard Branson a James Dyson, passando por Anne-Marie Slaughter, uma série de artigos de leitura indispensável para estes últimos dias do ano. David Baker, o editor deste número especial, sublinha que para além das áreas tecnológicas que a Wired costuma cobrir, quis com esta edição mostrar como existe, cada vez mais, fruto do funcionamento em rede, uma polinização cruzada de ideias em campos que vão das artes à política, passando pela bio-engenharia ou a política. “O mundo, diz ele, está demasiado interligado para que nos possamos dar ao luxo de ignorar o que se passa à nossa volta.”
VER - Rodrigo Amado tem uma vida dupla - de um lado o jazz (músico, sempre, por vezes também crítico, às vezes produtor e até editor) e, do outro lado, fotógrafo. É engraçado porque as duas atividades andam ligadas. Fotografa outros músicos, faz fotos para capas e cartazes da Clean Feed, a editora que ajudou a fundar, e vai documentando o que vê, em viagens. Para assinalar os 30 anos desta vida dupla fez por estes dias dois concertos e juntou imagens de cidades, como Moscovo, Varsóvia, Berlim e Copenhaga e juntou-as com o título “Un Certain Malaise”. As imagens deram uma exposição, que está na Fundação EDP (Central Tejo, sala Cinzeiro 8) até 10 de Fevereiro, e um livro no qual as fotografias coexistem com um texto de Gonçalo M. Tavares. Fico-me pela exposição, de que gostei muito: as paisagens urbanas que Rodrigo Amado fotografou são como que o palco daquilo que poderiam ser naturezas mortas contemporâneas. No seu olhar, aqui fixado nas fotografias, existem instantes decisivos, construídos a partir de pessoas que aparecem, mas mal se vêem.
GOSTO - Do spot “Aldeia Global”, versão deste Natal da Optimus - e de todos os outros pequenos filmes feitos a partir desse spot para o YouTube
NÃO GOSTO - Da forma como a greve dos estivadores está a decorrer e dos seus efeitos.
BACK TO BASICS- A pobreza é a origem do crime e das revoluções - Aristóteles
dezembro 04, 2012
O LABIRINTO DA AVENIDA
Na semana passada acompanhei, numa volta por algumas zonas de Lisboa, um responsável estrangeiro de um grupo de grandes marcas de moda. É francês, vive entre Paris e Londres, e tinha interesse em ver como são as lojas no Chiado e na Avenida da Liberdade. Quando saímos do Chiado e descemos para a Avenida, ele não queria acreditar no cenário: o trânsito das laterais ao contrário da via principal, constantemente a fazer círculos, filas imensas, confusão de pára-arranca a meio da manhã, de um dia de semana, com trânsito moderado mas engarrafado. Escusado será dizer que o visitante não ficou bem impressionado.
Com tanto motor ao ralenti e tanto pára-arranca não acredito que haja descida significativa da poluição e não me admirava mesmo que, nalgumas zonas, tenha aumentado. A entrada das laterais nos cruzamentos e no troço central da avenida é um foco constante de filas - a situação do cruzamento da Barata Salgueiro é um bom exemplo do que não devia acontecer.
O autor deste esquema de circulação na Avenida da Liberdade, em que se têm de dar voltas sucessivas a quarteirões, em que não se consegue fazer percursos de modo linear, em que não há sinalização de semáforos no encontro das vias laterais com as perpendiculares, de certeza que não mediu bem as coisas, não teve capacidade de previsão. Fez um desenho muito bonito no papel, mas não contou com a realidade.
Se a Câmara de Lisboa não quer carros a circular tem bom remédio: proíba zonas inteiras, mas já agora deixe também de cobrar o respectivo imposto de circulação. O que existe é um labirinto maquiavélico capaz de dar cabo da paciência a um santo. Estamos todos perante um desvario que custou caríssimo e que prejudica a vida aos lisboetas. É para isto que serve um executivo municipal? É com esta obra que Costa se recandidata?
(Publicado no diário Metro de 4 de Dezembro)
novembro 30, 2012
As contradições da RTP, uma desilusão eleitoral, notas e sugestões avulsas
RTP - Não me apetecia voltar a este tema, mas tem de ser. Não sei se os leitores sabem mas o departamento jurídico da RTP tem um rol de falhanços em tribunal verdadeiramente assinalável. Os inquéritos internos que promove, e que são muitas vezes pretexto para processos disciplinares, são frequentes espelhos de encomendas, rumores, invejas e guerrilhas internas e, assim, falham na justiça. Talvez consciente disso mesmo o Presidente da RTP apressou-se a dizer que, embora o inquérito instaurado a Nuno Santos o desse como culpado exactamente daquilo que um comunicado inusitadamente violento do Conselho de Administração insinuara dias antes, não iria ser feito nenhum procedimento disciplinar. É a admissão, implícita, das precipitações verificadas neste caso. Desde o início a gestão da RTP ouviu, permitiu e construíu uma narrativa onde se apontavam culpados antes de julgamento. Em nenhum momento ouvi a administração da RTP criticar a PSP, por ter feito, na sua opinião, pedidos de legalidade duvidosa; em nenhum momento a ouvi queixar-se do sucedido ao Ministro da Administração Interna ou à sua tutela; em vez disso utilizou a sua energia e os seus recursos e hierarquias não na defesa da empresa face a abusos do exterior, mas numa ofensiva interna que deu um resultado que, coincidência das coincidências, produziu o conveniente resultado de substituir a Direcção de Informação. De repente percebi: quando se espreita a folha, deixa de se ver a árvore.
VOTO - Nas últimas eleições votei conscientemente no PP, para que fosse um elemento de diferença, para que tivesse mais peso político na coligação, para que se batesse pelos cidadãos, contra o peso do Estado e o assalto aos contribuintes, pela moderação da deriva neo-liberal e pela responsabilidade política. A entrevista do Primeiro Ministro e o Orçamento de Estado mostram que o PP é encarado como pouco mais que um ornamento parlamentar. Um dos problemas mais graves que temos no funcionamento do sistema político das nossas sociedades tem a ver com a deturpação da comunicação e relação entre eleitores e eleitos nos períodos entre actos eleitorais. A regra tem sido que, a partir do dia das eleições, começa um ciclo pouco virtuoso de alteração das promessas efectuadas e de construção de uma nova irrealidade, teoricamente legitimada pelo voto obtido com base nessas promessas. É isto que faz desacreditar na política.
SEMANADA - O esforço fiscal relativo dos portugueses situa-se, em 2012, em média, cerca de 15% acima da média europeia; o esforço fiscal relativo subirá para 20% acima da média europeia no próximo ano e será o quinto mais elevado de entre os 27 países da União Europeia; em Outubro havia 10495 casais em que ambos estavam desempregados, o dobro do registado em Outubro de 2011 e quase sete vezes mais do que em Outubro de 2010; apenas um quinto dos funcionários públicos fez greve no passado dia 14; a dívida pública está a subir 61 milhões de euros por dia ao longo deste ano; em Portugal as empresas demoram em média 275 horas para conseguir processar todos os impostos e a média europeia é de 184 horas; a crise atingiu a Coca Cola que teve uma quebra de vendas de 10% em Portugal; segundo o novo relatório trimestral da Anacom, 78,8 em cada 100 famílias utiliza os serviços de televisão por subscrição e mais de metade tem acesso a mais de 80 canais; Cavaco Silva, enquanto primeiro ministro, deixou cair a agricultura e a pesca e esta semana, como Presidente da República, defendeu que nos devemos virar para a terra e o mar.
ARCO DA VELHA - Empresas de transportes estão a ter um aumento significativo das receitas graças ao aluguer de autocarros para deslocação de manifestantes, por encomenda de sindicatos.
VER - A Arte Lisboa, que costumava decorrer na FIL por esta altura do ano, foi cancelada. Em vez disso a Associação de Galerias de Arte propõe as Noites de Arte Contemporânea - galerias abertas até às dez da noite hoje sexta e amanhã, sábado. Destaque para os desenhos de Souto Moura na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38), as fotografias de David Infante na Módulo (Calçada dos Mestres 34), José Luis Neto na Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Espantoso é que na conjuntura actual abra mais uma galeria, como aconteceu esta semana, com a Galeria Belo-Galsterer que inaugurou com exposições de Miguel Branco & Mel O'Callaghana (Rua Castilho 71).
FOLHEAR - Como é costume, a edição da “Monocle” que sai por esta altura refere-se aos meses de Dezembro e Janeiro. O tema central da edição de 270 páginas é o levantamento de novos talentos em várias áreas de actividade, desde designers a politicos, passando por especialistas em urbanismo, agricultura, transportes - são 20 pessoas que podem fazer a diferença. O mote é fornecer ideias frescas para aplicar ao longo de 2013 - nomeadamente reforçar a colaboração entre talentos, esquecer o passado, sair de casa e descobrir coisas novas, manter o raciocínio simples. Esta edição inclui uma lista de países que influenciam os outros, com o Reino Unido à cabeça, seguido dos Estados Unidos, Alemanha, França, Suécia, Japão, Dinamarca, Suiça, Austrália e Canadá, para só citar os dez primeiros. Espanha está na 16ª posição e o Brasil na 17ª, enquanto Portugal aparece na 23ª, logo atrás da China e antes da Irlanda. Há um artigo muito interessante sobre o renascimento de Madrid, a partir das iniciativas de jovens empreendedores que retomam tradições e profissões antigas, várias mesas redondas ( relações internacionais, o futuro da imprensa, design, tendências da culinária...), um roteiro do turismo australiano e um Guia de viagem da Turquia, a par com sugestões de Helsínquia e de Viena, completam a edição. Já agora - para as peças de colecção da Monocle entrou um pequeno móvel de madeira, arquivador de revistas, fabricado em Portugal e desenhado por Hugo Passos.
OUVIR - Para assinalar os 50 anos de existência, os Rolling Stones patrocinaram a edição de uma colectânea, de três discos, simbolicamente com 50 faixas, e que agrupa a maioria das grandes canções do grupo, incluindo raridades relativas como o primeiro single, “Come On”. Os dois primeiros discos mostram o trabalho dos 16 primeiros anos dos Rolling Stones e as 17 faixas do terceiro são o que existe dos restantes 34 anos de vida - incluindo os dois últimos temas, feitos expressamente para este disco, “Doom And Gloom” e “One More Shot”. De um modo geral podemos dizer que o primeiro disco cobre a primeira fase de êxitos da banda, com temas que vão de “Satisfaction” a “Ruby Tuesday” ou “Let’s Spend The Night Together”. No segundo disco está a fase que eu considero mais criativa da banda, do final dos anos 60 até ao início dos anos 70, a fase em que arrisco dizer que se tornaram no melhor grupo rock do mundo, senhores de pérolas como “Street Fighting Man”, “She’s A Rainbow”, “Sympathy For The Devil” ou “Wild Horses”. O terceiro disco mostra a época de “Beast Of Burden”, “Undercover Of The Night”, “Harlem Shuffle” ou “Anybody Seen My Baby”.É fastidioso elencar todos os temas, e alguns acharão que existem omissões - mas na realidade esta é uma colectânea que retrata bem a evolução musical dos Rolling Stones através da sua carreira, incluindo praticamente todos os seus pontos altos. E é uma bela demonstração das melhores razões que os fazem ficar na História. (triplo CD Universal).
PROVAR - O restaurante Salsa & Coentros é uma escolha regular destas notas, já desde 2005, quando abriu portas. Esta semana volta à ribalta graças à sua recente empada de cozido - que consegue reproduzir os aromas e paladares do cozido à portuguesa dentro de uma empada de tamanho comedido, leve e muito saborosa. Fiquei freguês. É servida sozinha e na realidade não precisa de acompanhamento, o seu recheio tem todos os principais ingredientes do cozido, cortados aos pedaços. Não está sempre na lista, tive a sorte de a apanhar a uma sexta-feira. Foi uma bela surpresa, a rivalizar com outras especialidades da casa como o arroz de lebre, a perdiz de escabeche ou o arroz de míscaros. A casa continua a ter uma excelente relação de preço/qualidade e um serviço exemplar sob o comando atento de José Duarte. Fica em Alvalade, na Rua Coronel Marques Leitão 12, telefone
218 410 990.
GOSTO - A Fundação EDP ofereceu duas obras de Pedro Cabrita Reis à Tate Modern, de Londres, com o objectivo de apoiar a internacionalização de artistas portugueses.
NÃO GOSTO - Lisboa quer gastar 250 mil euros em iluminações de Natal, mais 100 mil que no ano passado.
BACK TO BASICS - Cada vez que estou muito alinhado com a maioria das pessoas sinto que é tempo para parar e refletir - Mark Twain.
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de Outubro)
novembro 27, 2012
RTP: TEORIA DO DANO COLATERAL
Na passada semana o Ministro Miguel Relvas, no que foi entendido como uma reprimenda publica ao Conselho de Administração, avisou preferir que a RTP fizesse notícias em vez de ser, ela própria, notícia. Pois passadas 48 horas eis que a RTP se tornou notícia devido à forma como Nuno Santos foi levado a apresentar o seu pedido de demissão de Diretor de Informação, tendo por pano de fundo um comunicado da Administração no mínimo inusitado. Para quem está de fora, a aparência é que na televisão pública se passou mais um golpe palaciano, uma sucessão de conspirações e jogos de corredor que evidenciaram a tentação do abismo em que tantas vezes a RTP se deixa cair.
Para quem tem falta de memória aqui deixo a indicação de que Nuno Santos esteve na fundação de estações de rádio, na fundação da SIC Notícias, e que tem obtido bons resultados nos projetos em que se tem envolvido. Quando há cerca de dois anos foi convidado a dirigir a informação da RTP, substituindo José Alberto Carvalho que tinha ido para a TVI, a ideia foi mal acolhida na RTP por Luis Marinho, um ex-Director de Informação da estação que foi o único elemento da administração da RTP que se pronunciou contra esse convite. Na sequência da sua posição acabou por sair do Conselho de Administração e foi para Diretor Geral, um cargo que não estava previsto na estrutura da estação de serviço público. Os relatos surgidos mostram que Luis Marinho foi uma peça chave no processo que agora levou ao afastamento de Nuno Santos.
Gostava de perceber a razão de fundo que levou a que Nuno Santos fosse levado a demitir-se. Um mau trabalho na informação não foi. Mas havia quem, no Governo, se queixasse de falta de protagonismo nos telejornais. Chama-se, ao sucedido, efeito colateral de uma reprimenda. Ou, como tapar o sol com uma peneira.
(Publicado no diário Metro de hoje)
novembro 23, 2012
A política, a fantasia, a semana e sugestões avulsas
POLÍTICA - Um artigo recente da revista norte-americana “The Atlantic”, escrito por Barry Schwartz, defende que, como uma grande parte da acção governativa envolve prever qual será o comportamento das pessoas face a determinadas medidas, ou como levar as pessoas a alterar os seus comportamentos, os advogados e economistas que geralmente são maioritários nos elencos governativos teriam um bom contributo se ao seu lado se sentassem psicólogos. Ele defende que, tal como existem conselheiros económicos do governo, também deviam existir conselheiros psicológicos, que ajudassem a formular políticas de saúde, de educação e até económicas, tudo com o objectivo de colocar no centro das decisões especialistas em comportamento humano. Schwartz afirma que o bem estar e a realização pessoal são mais importantes para o desenvolvimento de um país que a evolução do PIB e propõe que a acção política se centre nesses aspetos. Aqui está matéria que dá que pensar - se o nosso governo ouvisse alguns conselheiros como Schartz teria feito tudo como até aqui?
FANTASIA - Os incidentes ocorridos na zona de S. Bento, no dia da greve dos serviços públicos, desencadearam uma onda de informações contraditórias a propósito da intervenção da polícia e do comportamento de alguns manifestantes. O ponto sobre o qual acho importante reflectir tem a ver com a forma como actualmente se passa opinião por informação e, sobretudo, pela forma como se fornecem dados e relatam situações cuja veracidade não é avaliada nem questionada. Quase nada do que li nas redes sociais passaria no velho crivo de verificar os factos. O que se passou, nos actos e relatos, não foi um incentivo a quem quer intervir na acção política. O que se passou cria apenas uma fantasia.
SEMANADA – Alberto da Ponte, presidente da RTP, manifestou a convicção de que a estação pública manterá os dois canais generalistas de TV e os três de rádio; Miguel Relvas garantiu que o Governo ainda não tomou uma decisão sobre a RTP e preconizou que a empresa devia fazer notícias em vez de ser notícia; Nuno Santos demitiu-se do cargo de Director de Informação da RTP; a crise do Euro já contagiou de alguma forma sete dos 17 países da zona euro; a retoma em 2014 será três vezes inferior à previsão inicial da troika; a quebra de encomendas vai fechar a Auto-Europa um mês; Portugal está entre os dez países da União Europeia em que mais pessoas trabalham para além dos 65 anos; salários em atraso mais que duplicaram até Setembro; a taxa de desemprego juvenil em Portugal chegou aos 39%; os desempregados de longa duração já atingem 56% do total; o desemprego atinge 1.120 milhões de pessoas; a população desempregada aumentou nos últimos 12 meses a uma média diária de 540 pessoas; quase metade das urgências podiam ser transferidas para centros de saúde; perto de 20.000 viaturas circulam sem seguro, mais 4,3% que no ano passado; Lisboa e Castelo Branco são as capitais de distrito com maior percentagem de idosos, 24%; no novo censo, a idade média dos portugueses subiu 3 anos, para 41,8 anos, em relação ao censo anterior; 19% dos portugueses têm mais de 65 anos.
ARCO DA VELHA – O aeroporto de Beja, que Sócrates mandou construir e custou 35 milhões de euros, pode vir a ser utilizado como central de sucata aeronáutica, uma base para desmantelar e reciclar aviões em fim de vida .
OUVIR- Nos dias que correm não é muito confortável a rótulo de promessa do fado. E, no entanto, é esse rótulo que persegue Ana Moura desde o início da sua carreira. Para contrariar mais uma vez as coisas ela chamou um produtor norte-americano, Larry Klein, que gravou com Joni Mitchell, Herbie Hancock, Madeleine Peyroux ou Luciana Souza, e que conseguiu perceber que, além de fadista, Ana Moura é uma grande cantora e uma grande intérprete. Como os artistas que não vivem de rótulos, ela gosta de arriscar. Felizmente, como os melhores antes dela, não vê o fado como uma coisa imóvel, sempre com os mesmos arranjos. Experimenta outros instrumentos, ensaia outros ritmos. O resultado, em “Desfados”, o seu novo disco, é arrebatador. Grandes canções, grandes fados inesperados, grandes surpresas como o arranjo de “A Case Of You”, de Joni Mitchell ou a heresia das palavras e do tempo rápido do tema título, “Desfado”. E o “Havemos de Acordar” de Pedro Silva Martins, e o “Fado Alado” de Pedro Abrunhosa, e a musicalidade de “Como Nunca Mais” de Tó Zé Brito, ou a força de “Dream Of Fire” da própria Ana Moura. Há quem não goste deste disco e lhe chame nomes. Eu, por mim, limito-me a ouvir. Com o prazer e a alegria da descoberta que se tem quando se ouve música assim.
VER – Esta semana a Galeria Baginski assinalou o seu 10º aniversário - desde que começou perto da faculdade de Ciências, num rés de chão de um prédio antigo da Rua da Imprensa Nacional, com enfoque na fotografia e no desenho. As atuais instalações, num armazem bem recuperado no Beato, têm proporcionado um série de exposições de referência, algumas arriscadas. Ao mesmo tempo Andrea Baginski, que dirige a galeria, tem apostado na divulgação internacional dos artistas portugueses que representa e tem trazido a Lisboa a obra de alguns nomes estrangeiros, sobretudo da América Latina, e em especial do Brasil, que é o seu país de origem. Para assinalar estes dez anos apresenta uma exposição de Lúcia Prancha e Sara Nunes Fernandes, com Sérgio Carronha, três artistas portugueses que vivem em S:paulo, Londres e Lisboa, contemporâneos no estudo em Belas Artes, uma instalação de sensibilidades e formas diferentes. Na outra sala está uma intrigante e atraente exposição do peruano Jose Carlos Martinat, uma experiência sobre materiais e superfícies que dá que pensar. E ao fundo, na sala do acervo, como uma pequena oferta especial, extra-exposição, está um conjunto de obras - tentadoras - com a marca do humor cáustico e observador de Ana Vidigal. Rua Capitão Leitão 51 a 53 (www.baginski.pt)
FOLHEAR – Desde 2011 a Fundação Francisco Manuel Dos Santos edita todos os anos a revista “XXI Ter Opinião”. É um espaço editorial único, onde se confrontam ideias, se publicam opiniões mas também pequenos ensaios e investigações. O editor é António Barreto e o director é José Manuel Fernandes. Nesta nova edição, agora em distribuição (livrarias e bons quiosques de jornais, 6,5 €), destaco os artigos “Como Recuperar A Liberdade Perdida” de José Manuel Félix Ribeiro e “O Custo de Uma Utopia” de João Ferreira do Amaral. Há mais bons motivos, claro, como um apanhado do censo de 2011, um portfolio de fotografas de Praga em 1967, de Gerard Castello Lopes, apresentado por José Calado, ou ainda uma reflexão sobre a nova emigração e a Alemanha contemporânea. Num país onde hoje em dia se publica pouco debate de ideias e onde em geral se procura o consenso e os panos quentes em vez de uma discussão franca e de umas pedradas no charco, esta revista sabe bem. Noto com agrado que o tamanho da edição deste ano está mais cómodo para o leitor, mas lamento que nalguns aspectos gráficos (a começar pela capa) e temáticos a revista seja tão século XX - uma contradição com o seu próprio título.
PROVAR – Um cozido à portuguesa quer-se rico de legumes e de carnes. Quer-se caldoso, no ponto sem ser espapaçado, saboroso e diversificado. A qualidade dos enchidos é decisiva para a coisa correr bem, mas admito que para mim as couves são também um bom argumento. Por estes dias tenho visitado a Cozinha Real, que fica no Hotel Real Parque. É um espaço remodelado há poucos anos (o hotel data de 1994), e embora fique numa cave, é bem iluminado, é amplo, confortável, com alguns recantos tranquilos. A cozinha é de inspiração tradicional portuguesa e hoje em dia é um dos bons sítios para almoçar nas avenidas novas. Às terças-feiras aparece o tal cozido - bons enchidos, boas carnes, abundante, saboroso. Devo dizer que o cozido da Cozinha Real é dos melhores que tenho provado nos últimos tempos. De tal maneira que sempre que posso lá vou à terça. E já percebi que nesse dia vou vendo que há mais gente a ficar fã. Avenida Luis Bivar 67, telefone 213 199 000.
GOSTO – Do exemplo dos mil voluntários que se organizaram em Silves, após o tornado, para em apenas um dia conseguirem limpar a sua terra dos destroços.
NÃO GOSTO – Os gastos com material militar em Portugal estão acima da média europeia.
BACK TO BASICS – "O castigo por não participares na politica é acabares a ser governado por quem te é
inferior." Platão
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 23 de Novembro)
novembro 20, 2012
35 MILHÕES PARA A SUCATA
Nunca hei-de perceber bem a história do aeroporto de Beja – inaugurado há cerca de um ano e meio, e que basicamente tem estado vazio – cerca de centena e meia de voos registados nesse tempo e cerca de 2000 passageiros no total. O aeroporto custou mais de 35 milhões de euros, dispõe de todas as infra-estruturas necessárias, acontece é que não tem procura. Entre Julho a Setembro deste ano nem um só passageiro lá desembarcou.
É para mim um mistério porque é que alguém se lembrou de construir tal coisa no meio de Beja, zona que, para além de ter certamente muitos encantos, não é propriamente um destino turístico procurados por palettes ou resmas de estrangeiros, de qualquer nacionalidade. As estimativas que basearam a decisão da construção apontavam para um milhão de passageiros nos primeiros 4 anos de funcionamento.Quer-me parecer que alguém se enganou de forma muito grosseira para legitimar a decisão da construção, tomada no primeiro governo de Sócrates.
Claro que nestas coisas alguém ganha – quem fez o estudo ganhou alguma coisa, os construtores deverão também ter ganho alguma coisa, quem vendeu equipamentos também terá tido o seu lucro (e nem quero pensar que quem tomou a decisão possa ter tido também uns incentivos…) – mas na realidade todos nós contribuintes só temos prejuízo a registar.
Para todos os efeitos Beja é um aeroporto com muito poucos aviões – ou pelo menos tem sido. Digo isto porque um dos planos para rentabilizar o aeroporto passa por o transformar numa estrutura destinada a desmantelamento e reciclagem de aeronaves em fim de vida. Dito por outras palavras, um aeroporto moderno, construído e equipado para receber turistas, vai ser utilizado como central de sucata – sucata sofisticada, mas sucata à mesma. Não me parece nada normal.
(Publicado no Metro de 20 de Novembro)
novembro 16, 2012
AS DUAS LINHAS DO GOVERNO, CURIOSIDADES E OBSERVAÇÕES
CURIOSIDADE I – É muito interessante seguir o pingue-pongue entre Santos Pereira e Vítor Gaspar. Quando Santos Pereira defende uma fiscalidade mais competitiva que possa atrair investimento para a economia, Vítor Gaspar aplica uma fiscalidade mais apertada. É rara a semana em que não se sentem divergências públicas entre a Economia e as Finanças e a imagem que fica é a de um duelo em que Santos Pereira quer sobretudo preparar o futuro e Vítor Gaspar quer só resolver o passado. Mas é também curioso observar como, além de Santos Pereira, ministros como Nuno Crato e Paulo Macedo actuam a pensar no que está para a frente e fazem efectivas reformas. Começa a ser evidente que no Governo existem duas linhas, que seguem rumos diferentes. Uma história a seguir.
CURIOSIDADE II – Esta semana António Costa deu o tiro de partida para o seu reposicionamento: ao propor uma redução de 2% no IRS dos contribuintes residentes em Lisboa mostra uma iniciativa e uma capacidade politicas que o colocam a milhas de António José Seguro. Com este sinal iniciou a campanha para a sua recandidatura em Lisboa, que já se percebeu irá ser baseada em causas sociais, usando o poder de que dispõe; e ao mesmo tempo torna-se num pólo de atracção dos socialistas e surge como uma alternativa clara se o seu partido quiser mudar de rumo. Foi um autêntico xeque mate duplo: à oposição em Lisboa (que continua sem candidato visível) e aos seus opositores no PS.
CURIOSIDADE III - Alberto da Ponte, que antes de ser Presidente da RTP foi durante anos um dos mais importantes anunciantes, bem informado sobre o sector, e com uma enorme experiência no marketing, solicitou a intervenção da ERC no processo de audimetria, considerando que “o mercado das audiências não está a funcionar”.
SEMANADA – A igreja congelou o preço das missas, casamentos e baptizados até final de 2013; pneumonia mata 16 portugueses por dia; portos de Lisboa e Setúbal perdem 38% das cargas com a greve de estivadores; há 79 queixas diárias por violência doméstica; 33 mil empresas foram notificadas para pagar a TSU dos recibos verdes; em 2010 apenas 17% das empresas com menos de 10 trabalhadores tinham uma página na internet; O Ministério das Finanças diz que a recessão em 2013 vai ser inferior a 1% e o Banco de Portugal prevê que atinja 1,6%; a arrecadação da receita fiscal em 2013 caíu 4,9% até Setembro deste ano, em comparação com o período homólogo do ano passado, e isto apesar do aumento dos impostos; o Banco de Portugal prevê que para o ano desaparecerão mais 82 mil postos de trabalho; entre julho e setembro, o INE contabilizou 870,9 mil desempregados, o que representa um acréscimo trimestral de 5,3%; taxa de natalidade deve cair 20% este ano; poder de compra cairá em 2013 para nível mais baixo desde 1999; No terceiro trimestre o PIB voltou a cair, e aprofunda uma recessão que já dura há sete trimestres consecutivos.
ARCO DA VELHA – O investimento líquido da Alemanha em Portugal recuou 112% este ano e a presença alemã na economia portuguesa atingiu o mínimo de duas décadas.
OUVIR- Uma coisa engraçada que está a acontecer com os músicos rock é que a sua criatividade e energia prolongam-se no tempo muito além daquilo que se esperaria no final dos anos 60 do século passado. O primeiro disco de Neil Young, na altura com os Buffalo Springfield, data de 1966, tinha ele 21 anos. Quem diria que agora, aos 67 anos de idade, ele editaria num só ano dois discos – um que revisita clássicos da música popular dos Estados Unidos (“Americana”) e outro, só com temas inéditos , “Psychedelic Pill”, surpreendente, enérgico, arrebatador, contemporâneo . Em ambos Neil Young está com os Crazy Horse, músicos que muito contribuem para a riqueza dos dois registos. Mas como se isto não chegasse, no início de Outubro foi publicada a sua autobiografia, “Waging Heavy Peace: A Hippy Dream”. Mas regressemos ao novo disco. A faixa de abertura, “Drifting Back”, tem 27 minutos, e é marcada por solos de guitarra como há muito não ouvia e por uma letra que revisita de forma dura a música que hoje se faz e o estilo que ela inspira. É um contraste bem marcado com “Twisted Road”, onde Neil Young evoca a primeira vez que ouviu “Like A Rolling Stone” de Bob Dylan e a forma como o som dos Grateful Dead o marcou. Mas há outros temas a reter, como “Ramada Inn”, “She’s Alaways Dancing” ou o impressionante “Walk Like A Giant”.Eu confesso que há muito tempo não ouvia um disco que me marcasse e impressionasse tanto como este. E não deixa de ser curioso que alguns dos discos mais notáveis deste ano são de nomes como Bob Dylan, Rolling Stones, Leonard Cohen, Beach Boys e este Neil Young. É como se estivéssemos perante um acesso de criatividade incontinente dos mais velhos, dos pioneiros, em resposta a alguma monotonia e conformismo de alguns dos mais novos. Duplo CD adquirido no iTunes.
VER – Em vez de uma exposição, sugiro que vejam a edição “Commemorative US Election Special” da revista “Time” que tem a data de 19 de Novembro na capa. Custa 4,50 euros e é um exemplo de uma grande edição – desde o trabalho de selecção das fotografias, maravilhosas imagens da campanha a preto e branco, a brilhante ideia dos 100 objectos que marcaram todas as candidaturas, as imagens do momento da vitória e do momento da derrota, as infografias exemplares, as boas e más ideias dos dois candidatos, um repositório de gaffes politicas e sobretudo a investigação “How He Did It”, que retrata a forma como Obama conseguiu ganhar, com destaque para uma visita aos bastidores da zona nevrálgica da campanha: os centros de dados dos democratas que permitiram estudar, segmentar, focar e finalmente conseguir os votos decisivos para a vitória, num exercício de marketing politico absolutamente extraordinário. E, claro, um balanço do grande protagonista desta campanha – a televisão, cuja morte anunciada foi mais uma vez negada pelas evidências e que, na cobertura em directo, nos debates e como veículo publicitário se revelou um meio absolutamente incontornável na estratégia dos dois candidatos.
FOLHEAR – Os livros/álbuns costumam ser grandes, pesados, previsíveis, graficamente monótonos e destinados apenas a servirem de tabuleiro para chávenas de café. Por alguma razão se chamam álbuns de mesa. “LX 60 – A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma” não é nada disso: tem um formato mais pequeno, pode ler-se na cama sem se ter a sensação de que se está a fazer halteres. E, sobretudo, está muito bem feito. Joana Stichini Vilela investigou, ouviu dezenas de pessoas, fez reviver a memória do que era a vida em Lisboa na década de 60, nos bairros, nos cafés, mas também nos teatros, na política, na geração de criadores que nascia no cinema, na música, na literatura, em todo o lado. Cita números, mostra dados, exemplifica situações. E tudo é ricamente ilustrado com imagens de época num trabalho gráfico invulgar de Nick Mrozowski, o norte-americano que veio fazer o grafismo do diário “i” e que se apaixonou por Lisboa. É um livro especial, este agora editado pela D. Quixote, mas também um trabalho meticuloso e raro. Exemplar.
PROVAR – Esta semana fui finalmente ao remoçado Belcanto, e a experiência correu muito bem. O chef José Avillez está agora a comandar as operações, mantendo um sábio equilíbrio entre as receitas tradicionais da casa e a forma contemporânea que gosta de imprimir à sua cozinha. O interior do restaurante foi modernizado, mas sem estragar o ar intemporal das salas do Belcanto – à entrada não fumadores, ao fundo, fumadores – pelo meio uma cozinha aberta para o corredor onde a azáfama é bem visível. Começo por destacar, no couvert, uma delícia absolutamente viciante que é um pão com azeitonas, mesmo sendo salgado mais perto dos caracóis de pastelaria que da focaccia tradicional.; a broa de milho também é respeitável. A entrada foi uma cavala marinada que esteve acima das expectativas e o prato foi um bacalhau à Braz levíssimo e irrepreensível. A acompanhar esteve um vinho do chef, bem servido a copo. O final foi também inesperado – um sorvete de tangerina, aromático, a revelar todo o sabor da fruta e com uma consistência e temperatura perfeitas. Largo de S. Carlos 10, tel. 213 420 607
GOSTO – Do Codebits, uma iniciativa do Sapo e da PT destinada a fomentar a criatividade dos programadores portugueses, sobretudo dos mais jovens, e que este fim de semana acontece mais uma vez – onde vai estar exposta uma impressora 3D e com um belíssimo painel de convidados para as conferências.
NÃO GOSTO – Dos erros que Vítor Gaspar continua a fazer nas previsões.
BACK TO BASICS – Um escândalo nada mais é que é intriga tornada fastidiosa pela moralidade – Óscar Wilde
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 16 de Novembro)