dezembro 09, 2011

Mudar de vida, política telecomandada e sugestões avulsas

TELECOMANDO - Esta semana o «Correio da Manhã» relatou uma curiosa intervenção pública de José Sócrates, numa Universidade, em Paris, onde defendeu a possibilidade de Portugal não pagar a sua dívida. «Pagar a dívida de um pequeno país como Portugal é uma ideia de criança, as dívidas dos Estados são por definição eternas» - cita o jornal. Imagino a vida de José Sócrates enquanto estuda Ciência Política e profere conferências destas sobre a sua experiência como Primeiro-Ministro para estudantes latino-americanos que, no fim, segundo o mesmo jornal, o aplaudiram. Não me custa imaginá-lo a passear nos Campos Elíseos, de telemóvel em punho, a fazer telecomando político para Lisboa, falando com José Lello, ou Carlos Zorrinho, ou Francisco Assis. Não custa imaginar o que dirá de António José Seguro, não custa imaginar que conversas terá tido nas vésperas do turbilhão que passou no Grupo Parlamentar do PS aquando da votação do Orçamento de Estado. O exilado político mais célebre de Portugal deve sorrir ao imaginar que as tecnologias que sempre o encantaram permitem que continue a ter influência no Largo do Rato, mesmo estando mais longe do que quando habitava na Rua Brancaamp.  


 


MUDAR – No período em que vivemos fico surpreendido cada vez que percebo que nas nossas escolas – nomeadamente nas universidades – se dedica muito pouca atenção à necessidade de preparar as pessoas para trabalharem e criarem alguma coisa, e não apenas para irem à procura de um emprego com um certificado na mão. Ainda vou a meio da biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson mas já deu para perceber que, mesmo nos anos 60, as universidades americanas inculcavam um espírito de desafio aos seus alunos que os levava a arriscar – em experiências ou em negócios próprios. Aqui há tempos fui convidado para falar numa escola superior, no âmbito da minha actividade, planeamento estratégico de publicidade, e fiquei espantado como alunos já no fim do curso ignoravam coisas básicas do dia a dia de uma empresa, na facturação ou nas cobranças – como dia um amigo meu, esta malta nem sequer sabe o que é o IVA e depois não conseguem fazer nada direito. Isto não é uma coisa menor – não estão preparados para, por exemplo, iniciarem uma actividade própria. Com a enorme mudança a que estamos a assistir, com o fim dos empregos garantidos, o que é preciso é estimular a capacidade de empreender, desenvolver ideias, arriscar, avançar. Um livro bem recente, «Mudar de Vida», conta as histórias de 17 pessoas, já com anos de experiência, que na actual conjuntura ficaram sem trabalho de um momento para o outro ou quiseram fazer algo de diferente. São 17 histórias de sucesso, de pessoas que arregaçaram as mangas e procuraram resolver os problemas – não ficaram à espera que ninguém os resolvesse por elas. É isto que nos falta, enquanto país – e sobretudo aos mais novos: procurar soluções em vez de ficar sentado à espera que elas caiam ao colo. Vou acabar com um exemplo, que pode ser aplicado ao sector da Cultura. Há poucos dias recebi um mail a anunciar que os túneis perto do teatro Old Vic, em Londres, vão estar neste Natal com animação – desde vendedores diversos até petiscos. Tudo se passa ao ar livre, com temperaturas bem mais baixas do que em Lisboa, mas as pessoas procuram fornecer motivos para atrair públicos e surpreendê-los, angariando receitas suplementares em vez de pedir mais subsídios. Da mesma forma alguns museus, em várias cidades europeias, sugerem como prenda de Natal cartões-assinatura de entrada nas suas exposições durante um período determinado – é uma prenda simpática e útil. Têm iniciativa, procuram clientes, dão sugestões, em vez de lamuriarem ou exigirem mais apoios. Há uns anos que aprenderam como é importante mudar de vida.


 



SEMANADA – Esta semana só títulos tirados jornais diários: Cátia Palhinha é evangélica e lê a Bíblia em casa;Craque do Benfica namora à beira rio; Carla Salgueiro perdeu peso a dançar flamenco; Irina Shayk aquece o Natal dos portugueses; PSP precisaria de 17 milhões para pagar todas as dívidas; Jardim promete rigor financeiro; enriquecimento ilícito pode ser crime para todos; Portugal é líder europeu no fosso entre ricos e pobres; Bárbara Guimarães preparada para o frio; Obama assume paixoneta antiga por Meryl Streep.


 


ARCO DA VELHA – O presidente da Câmara de Amares construíu, para si próprio, uma casa de consideráveis dimensões, numa zona de reserva agrícola nacional, em violação de toda a legislação existente, mas confessa-se tranquilo porque a revisão do PDM, da autarquia a que preside, regularizará a situação.


 


VER - Com curadoria do britânico Peter Cherry , «A Perspectiva das Coisas» dedica-se à natureza morta na Europa através de diversos artistas, a partir de obras produzidas entre 1840 e 1955, e estará na Fundação Gulbenkian até 8 de Janeiro. Antes de irem ver a exposição espreitem o magnífico mini-documentário realizado por Filipe Araújo e que está no You Tube. Basta pesquisar  «Documentário sobre a exposição A Natureza-Morta na Europa» e encontram-no logo – tem quase oito minutos e é magnífico. E a exposição ainda sabe melhor se o tiverem visto antes.


 


LER – Há muito tempo que não me passava um almanaque pelas mãos, de maneira que fiquei contente  com uma publicação intitulada XXI e que é uma espécie de almanaque dos tempos actuais – ou um resumo do estado da nação, se quiserem. Da responsabilidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com edição de António Barreto, direcção de José Manuel Fernandes e colaborações de nomes como Ricardo Cabral, Pedro Santos Guerreiro, António Pedro Ferreira, Jorge Calado e Jorge Barreto Xavier, entre outros, a publicação tem o título genérico de «Dias Inquietos» e é um testemunho da época conturbada que vivemos. Textos de referência (destaco os sobre a banca, sobre a dívida, sobre tibunais, sobre a cultura e sobre a criação), boa fotografia (destaco o portfolio sobre os  portugueses), boa ilustração e boa paginação (de Jorge Silva). Só tenho pena que o formato seja tão pouco dado a guardar uma edição que merece ser preservada. Podia ser mais pequena em altura, assim quase como um livro, que encaixasse na estante e se fosse guardando ao longo dos anos, nas sucessivas edições. Espero que o projecto continue que eu ando deliciado a ler as suas 200 páginas. Custa 5 euros e está nas bancas de jornais.


 


OUVIR – Hoje vou socorrer-me de uma nota do blogue de Pedro Rolo Duarte, a propósito do novo disco de Rodrigo Leão, «A Montanha Mágica»: « Já lí criticas absurdas sobre o Rodrigo Leão “refém” do estilo que criou – como se isso não fosse o melhor que um compositor pode ter e ser, ele próprio no universo musical que criou para si». Também já eu ouvi estes reparos e admito até que nos primeiros instantes pensei que a coisa estava muito igual. Mas depois fui descobrindo os momentos de encanto e, sobretudo, tenho tido o maior gôzo do mundo em ouvir o disco vezes sem fim – anda comigo sempre no iPhone, ouço-o literalmente por todo o lado. Confesso que quando o ía comprar numa discoteca e percebi que custava entre 17 e 20 euros, dependendo dos sítios, e tinha um DVD que não me interessava para nada, resolvi o problema no iTunes por menos de 10 euros e  tive o disco no minuto. Gosto cada vez mais de o ouvir – e é curioso que Rodrigo Leão tenha voltado a tocar baixo, como fazia nos Sétima Legião. Maioritariamente instrumental, com arranjos mais simples, o CD tem três temas cantados – um pelo brasileiro Thiago Pethit, outro pelo australiano Scott Matthew e finalmente, algo inesperadamente, o terceiro pelo autor da capa do disco, o ilustrador Miguel Filipe,  e que acaba por ser uma boa surpresa. E assim se vê que a aparente igualdade é afinal feita de muitas diferenças.


 


PROVAR – Vou fazer uma confissão: sou fã de caracóis – daqueles que se cosem com ervas e nalgumas localidades são conhecidos por “vagarosos”, mas também dos bolos – a massa suave, enrolada de forma concêntrica, com pequenos pedaços de fruta cristalizada pelo meio, de preferência levemente tostada. Até prova em contrário acho que os caracóis (bolos) da Versailles, na Avenida da República, são os melhores que há. Alguém devia lá ter levado o “chef” Anthony Bourdain, que nos últimos dias andou por Lisboa a filmar petisquices diversas – ainda para mais o prédio da Versailles está restaurado de novo em toda a sua grandeza, mostrando sem vergonhas como é um dos mais bonitos edifícios de Lisboa. E com o melhor caracol… Acho que tinha ficado bem no programa televisão que Bourdain cá veio filmar.


 


BACK TO BASICS –  O socialismo terá valor simplesmente porque levará ao individualismo – Oscar Wilde


 


 


 


 


 


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Dezembro) 


 


 


 

Voltar às origens

Experimentem ver com atenção as bancas de frutas, legumes e frescos dos supermercados. A maioria dos produtos vem de Espanha e de outras origens. São raros os casos de origem portuguesa. Por mais que me expliquem que a situação tem a ver com preço, uniformidade do tamanho, embalagens estandardizadas, nada disto me convence. Ainda por cima em muitos casos tenho que comprar uma quantidade que não me interessa ter, porque só se vendem as embalagens inteiras e não se pode comprar a peso. A coisa agrava-se quando se percebe que muita da fruta é descongelada e nunca atingirá o seu ponto de maturação ideal, passando a podre com enorme velocidade. Alguma da comida que se compra assim, embalada, acaba muitas vezes por se estragar antes de ser consumida.




Mas, em muitas lojas de bairro e nos pequenos mercados continuo a ver produtos portugueses, que se podem comprar ao peso. Os vendedores vão comprar os produtos frescos aos mercados abastecedores. No comércio de rua e nos mercados, ao contrário dos supermercados, a maioria dos produtos vem de Portugal. Muitas vezes as maçãs não são todas iguais, mas sabem melhor e são mais frescas – viveram sem a agressão do frio.


Vejo com agrado que nalgumas zonas, muitas bem perto de Lisboa, lentamente estão a ressurgir produtos artesanais – desde doces a queijos e a pão, passando por pequenas produções de fruta ou de legumes, que se podem comprar no comércio local e às vezes dentro das próprias explorações.


 


Vou dar o exemplo de um produtor de morangos que, na época,  vende na sua propriedade os melhores morangos que conheço, colhidos diariamente e vendidos por ele próprio. São incomparáveis, em sabor e textura aos que se vendem nos supermercados das proximidades e são mais baratos.  E mais -  ele criou quase por acaso uma rede de pequenos produtores nacionais e recebe fruta de outros locais, como do Algarve, em que a qualidade é também superior. E agora, mesmo quando não tem morangos, faz negócio.


 


(Publicado no diário Metro de 5 de Dezembro)

dezembro 02, 2011

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VIOLÊNCIA – A semana passada encerrou com os ecos da greve geral e das manifestações, com algumas pessoas preocupadas com a eventualidade de alastrarem confrontos violentos. Um dia depois percebia-se que a maior violência está, afinal, nos campos de futebol, nas claques acicatadas por dirigentes sem escrúpulos e por provocações grosseiras. Mas a violência é também mais preocupante nos crimes domésticos que crescem de dia para dia, nos assaltos violentos que proliferam – e a preocupação das autoridades deve estar mais dirigida para aí, para o combate à insegurança nas ruas, do que para conspirações saídas dos livros de espionagem ou de manuais de guerrilha urbana. O que as pessoas querem é maior segurança nas ruas, maior protecção às suas casas e aos seus bens, não é mais polícias nas manifestações. Se os responsáveis pelas autoridades alinharem nas conspirações, vão estar a desproteger os cidadãos do roubos e violência, e isso sim é que é grave. Quem manda nas polícias tem um clima de insegurança para resolver – mas esse clima não vem dos protestos, vem de actividades criminosas. Concentrem-se nisso – e em fazer funcionar a justiça, para evitar que os criminosos sejam soltos quase à velocidade a que são detidos - que os contribuintes agradecem.


 


SERVIÇO PÚBLICO – Os estudiosos do serviço público de televisão e os fanáticos da impossibilidade de mudar o que quer que seja fariam bem em olhar para o que se está a passar na PBS, o Public Broadcasting Service, criado nos Estados Unidos e que agora, espante-se, está também disponível no Reino Unido, terra da sacro santa BBC. O novo canal, com uma programação autónoma e distribuído pela British Sky Broadcasting e pela Virgin Media, chama-se PBS UK e tem uma participação a nível de investimento do Quadra Group. Pretende atingir um público com exigências a nível da cultura e da informação, educado e com capacidade económica e irá incluir serviço informativos produzidos localmente sob o princípio da objectividade e independência que caracterizam a estação norte-americana. Os nossos estudiosos também poderão reparar que a PBS planeia já distribuir o canal para outras regiões, incluindo a India, Escandinávia e África. Tudo isto acontece quando continuamos sem saber o que será no futuro o serviço público de televisão em Portugal – nem a questão da publicidade nem do número de plataformas de distribuição é factor essencial, o fundamental é acordar que tipo de conteúdos e de serviços queremos, nos programas e na informação, e depois podemos começar a perceber que canais podem e não podem existir, que estruturas são necessárias e como se organiza o modelo de gestão. O que eu sei é que agora estamos numa altura em que a RTP2, entre os espectadores do cabo, e que já são a maioria, fica atrás da SIC Notícias, Hollywood e Sport TV e praticamente empatada com o AXN. O que quer dizer que é mesmo importante repensar todos os modelos e começar a desenhar de novo o que se quer fazer – até porque falta apenas um ano – pouco tempo em matéria de televisão – para que algumas medidas concretas têm que ser tomadas – como a privatização, que também ainda ninguém explicou bem o que vai ser.


 


PROVA -  O recibo de salário de Dezembro deste ano vai ficar como prova e testemunho do que a irresponsabilidade e a megalomania de um homem podem fazer. Por mais crise internacional, por mais mau estado das finanças públicas, por mais heranças que tenha encontrado,  José Sócrates andou a alargar o buraco – e muito - em vez de o reparar. O PS, que agora brada aos céus, empurrado por Soares e comandado via telemóvel dos Campos Elíseos pelo próprio Sócrates, foi cúmplice e  entusiástico apoiante de todas as políticas mais ruinosas que vimos nos últimos anos – ou estão esquecidos do congresso unanimista que reelegeu Sócrates e o colocou num pedestal?




SEMANADA – Semanas antes de sair do Governo, o ex-secretário de estado da energia do muito ambientalista governo de Sócrates encomendou para o Governo um Audi de cilindrada elevada e motor de combustão e, apesar do entusiasmo retórico, não escolheu nem um híbrido nem um veículo de motor eléctrico; ao longo da última década a carga fiscal subiu em Portugal o dobro do que desceu na OCDE, ou seja o peso das receitas de impostos sobre o PIB subiu dois pontos percentuais; aos poucos recomeça o folhetim da regionalização – agora Rui Rio veio propor que além da região Norte seja também criada uma região Porto; o vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, Norberto Rosa, foi vítima de carjacking perto de Lisboa e obrigado a ir levantar dinheiro com os seus cartões a caixas multibanco.




ARCO DA VELHA – O Supremo Tribunal de Justiça comprou em 2004, para o gabinete do seu Presidente, um quadro da pintora Vieira da Silva por 80.000 euros e metade deste montante foi coberto por facturas falsas, com a conivência dos serviços, do Presidente e dos juízes que integravam o Conselho de Administração do STJ.


 


OUVIR –Editado em Outubro de 1973, «Quadrophenia» foi o sexto álbum de originais dos Who e a sua segunda opera rock – a primeira havia sido «Tommy» (1969). Localizada nos anos 60, «Quadrophenia» desenvolve-se em torno da história de um mod, de seu nome Jimmy - os mods eram os rivais dos rockers, gostavam de ryhtm’n’blues,  soul e reggae, casacos de bom corte e preferiam as Vespa às motos Triumph ou BSA. Mods e rockers envolviam-se frequentemente em zaragatas, e algumas, ocorridas em Brighton, ficaram célebres e inspiraram parte da história do disco. Jimmy é de facto a figura central da obra e é ele que conta a sua própria história, na primeira pessoa – as suas dúvidas, as suas angústias, as suas frustrações e as suas inseguranças. Marca de uma geração, montra do talento e do excesso de Pete Townshend, o líder dos Who, bem acompanhado por Keith Moon, Roger Daltrey e John Entwistle. Há temas históricos neste disco - «The Real Me», «o tema –título «Quadrophenia», «Cut My Hair», «Doctor Jimmy» e o intrigante «The Rock». Originalmente um duplo LP, surge agora uma edição em duplo CD que inclui todos os temas originais, remasterizados, e 11 versões demo inéditas e todo o material gráfico original da edição em LP.


 


LER – A edição especial Dezembro/Janeiro da revista «Monocle» já está nas boas bancas de revistas, tem 314 páginas e um suplemento especial sobre a Dinamarca, que é absolutamente para guardar e levar na próxima visita a Copenhaga. Além disto a revista estreia uma lista das 100 pessoas, produtos e lugares que influenciarão o próximo ano, um guia dos 50 locais a conhecer em viagem e um guia de presentes de natal. Esta é também a edição que faz o relatório dos 30 países com «soft power» - que no conceito dos editores da revista tem em conta os recursos naturais combinados com a criatividade e o pensamento contemporâneo. A revista testou os países em 50 segmentos de análise, desde a percentagem do PIB investida em ajuda externa até ao património classificado pela Unesco, passando pelo número de medalhas obtidas nos Jogos Olímpicos, número de utilizadores de internet ou taxa de criminalidade – são 20 indicadores ao todo. Os Estados Unidos estão no primeiro lugar, seguidos do Reino Unido, França, Alemanha, Austrália e Suécia. Portugal entrou este ano no ranking na 25ª posição, descrito como a potencial Califórnia da Europa (o Pedro Bidarra deve estar contentinho…) mas com um grave problema de falta de dinheiro. A Espanha ficou na 13ª posição, o Brasil na 21ª e atrás de nós ficaram Israel, Índia, Rússia, República Checa e Grécia.


 


PROVAR – Gostam de amêndoas? – não estou a falar das de Páscoa – mas de amêndoas cortadinhas, espalhadas numa bela massa, dura q.b. e tostada, formando uma gloriosa tarte? Se é esse o caso podem dar um salto à Mercearia Criativa às 16h00 de Domingo dia 4, Avenida Guerra Junqueiro 4A. Esta tarte tem marca: A Tarte, com o subtítulo A Melhor Tarte de Amêndoa. Eu já provei e garanto que é candidata ao título de sobremesa do ano. Para além da Mercearia Criativa, A Tarte está disponível no Gelato Mio de Miraflores e no QB Essence, em Oeiras. Mas o mais fácil é irem ao Facebook, onde está tudo explicado sobre A Tarte, como a comprar, onde a encontrar – basta ir a facebook.com/amelhortartedeamendoa e na secção de informações encontram o que é preciso para se viciarem neste doce. E não é exagero meu.


 


BACK TO BASICS –  O imposto é a arte de depenar o ganso fazendo-o gritar o menos possível e obtendo a maior quantidade de penas – John Pollard

novembro 29, 2011

COMO A EMEL ARRUÍNA LISBOA

No sábado passado resolvi aproveitar a manhã para ir fazer algumas compras em lojas de rua, no comércio tradicional. Quando ía a chegar, um carro que estava estacionado, saíu. Aproveitei e estacionei. Um pouco à frente estava um carro em dupla fila e um pouco atrás estava outro, em cima do passeio. A zona onde parei, Avenida António Augusto de Aguiar, tinha parquímetros e eu não tinha moedas. Ao lado havia um café e eu, pobre ingénuo, pensei assim: tomo um café, compro o jornal, fico com trocos e já cá venho. Ainda olhei à volta a ver se via algum EMEL, para o avisar, mas nada. Estacionei em cima das 11h00. Demorei no máximo dez minutos a tomar o café. Quando cheguei tinha um aviso no carro, com indicação de que era das 11h05. Não havia rasto de nenhum agente da EMEL. Presumo que estivesse emboscado antes, à espreita, e que depois tivesse zarpado, muito contente com o seu feito. O carro em dupla fila continuava no mesmo sítio e em cima do passeio estava o outro. Nenhum deles tinha multa nem aviso da EMEL.


 


Dei comigo a pensar que é assim que se dá cabo de uma cidade. António Costa prometeu há uns anos acabar com os carros em segunda fila. Como todos sabemos a segunda fila tem crescido ao mesmo ritmo do aumento de poderes da EMEL e da sua intransigente perseguição aos lisboetas.




Depois do incidente de sábado dei comigo a pensar nisto: o racional da EMEL é evitar que entrem tantos veículos para estacionar em Lisboa. Ora, ao sábado de manhã, a entrada de carros na cidade é muito diminuta quando comparada com os outros dias. E é legítimo pensar que a maioria dos carros que circulam ao sábado de manhã na cidade são de residentes. Por isso acho que seria uma medida positiva para o comércio de rua da cidade que ao sábado não se pagasse estacionamento – até porque é mais barato estacionar no parque de um centro comercial que na rua. Ao perseguir e punir munícipes ao sábado de manhã a EMEL acaba por ser inimiga do comércio tradicional e beneficiar os centros comerciais e as grandes superfícies. É Esta a cidade que queremos?


 


(Publicado no diário Metro de 29 de Novembro)

novembro 25, 2011

Frente Única, Mário Soares e a Espiral da Crise

FRENTISMO – Nos anos 30, muito por inspiração dos partidos comunistas, através dos sindicatos, e perante a cumplicidade dos partidos socialistas (ou social-democratas na época), desenvolveu-se a política da Frente Única, que se destinava a juntar as forças de esquerda contra a direita e o capitalismo. Nalguns países a Frente Única teve vitórias eleitorais, noutros ganhou identidade como forma de resistência, já a guerra despontava ou estava em pleno.


 


Assistimos nestes dias a um ressurgir das ideias e práticas da Frente Única, bem expressas no Manifesto encabeçado por Mário Soares contra as políticas de austeridade. Há aqui um fenómeno curioso – nos anos 30 a Frente Única reivindicava protecção social, melhores salários, horários mais reduzidos. Anos mais tarde, no pós-guerra, muitos desses objectivos foram conseguidos criou-se na Europa o Estado Social, que acabou por chegar a Portugal mesmo no anterior regime, e com a satisfação de reivindicações as águas separaram-se e as várias partes da Frente Única seguiram cada uma o seu rumo. O progresso social foi enorme – o problema foi ter deixado crescer a protecção do Estado muito para além das posses do próprio Estado – quase sempre com o pano de fundo do acenar promessas eleitorais. Quem rejeita a ideia de viver melhor? E quem disse quais os custos que muitas medidas teriam a longo prazo? Quase oito décadas depois, e um pouco por todas as economias em crise, ensaiam-se novas frentes únicas – com mais ou menos indignados.


 


Esta nova vaga de protestos acontece porque o Estado Social ameaça ruína e aquilo que se dava por garantido, afinal já não está seguro nem certo. A evolução das sociedades industriais na Europa e o próprio progresso tecnológico aceleraram de forma dramática o desemprego – sem grandes possibilidades de criação em massa de novos postos de trabalho. Em muitos países a produção industrial quase desapareceu. O abandono dos campos, a concentração nas cidades, a ilusão da abundância, alteraram o precário equilíbrio das sociedades – e Portugal, com a desertificação do interior, o abandono das pescas e da agricultura, a falência de sectores da indústria, é um case study do crescimento desorganizado – e fora de tempo – de uma sociedade. A Frente Única, ontem ensaiada na greve, quer que o papel do Estado não mude, apesar de o Estado manifestamente não ter dinheiro. ~


 


Aquilo a que assistimos – e que nos atinge a todos - resulta de anos de encargos excessivos, de deficits acumulados, de dívidas aumentadas. Não se pode distribuir aquilo que se não tem, e distribuir com base em dívida é sempre uma péssima solução como agora vemos – é isto que a Frente Única não percebe, e que Soares bem sabe mas que quer aproveitar em mais um esforço para voltar a ser protagonista da História. Acontece que, em boa parte, foram os seus amigos socialistas, por essa Europa fora, que inspiraram ou incentivaram esta economia cronicamente deficitária, em nome de uma ilusória distribuição da riqueza, que afinal não existia. E em Portugal foram eles que, nos últimos 15 anos, conduziram alegremente o aumento exponencial da dívida, dos encargos do Estado, da falsa prosperidade. A Frente Única é uma receita do passado – e numa certa medida a responsável pela situação que se desenvolveu e que nos conduziu aqui – a do Estado gastar mais do que aquilo que podia. A geração de políticos do pós guerra construiu este modelo e deixou de herança os encargos. E agora aparece, sobressaltada, a querer revisitar o passado sem se preocupar, mais uma vez, com o futuro.


 


ESPIRAL – O sistema financeiro tem evidentes culpas no cartório, os reguladores dos mercados têm evidentes culpas no cartório, mas é justo reconhecer que os Estados têm também uma boa parte dessas culpas. Para satisfazerem os compromissos crescentemente deficitários com as políticas sociais – desemprego, saúde, educação, subsídios diversos – e também para pagarem obras muitas vezes desnecessárias e políticas incompreensíveis, os Estados foram pedindo mais e mais dinheiro aos bancos, já que as receitas não chegavam para a despesa; os bancos acharam que emprestar aos diversos Estados era um negócio seguro, que rendia bons juros e, de certa forma infindável – os deficits aumentavam, o serviço da dívida aumentava, cada vez era preciso maior financiamento. Desta forma os bancos alegremente compraram dívida pública de vários países. Pior, toda a sociedade se habituou a viver de dinheiro que não existia – os particulares com créditos de consumo, as empresas com créditos para toda a espécie de projectos - muitas vezes baseados em planos de negócio utópicos. Criou-se a prosperidade aparente baseada num sistema de dívida crescente.


 


Quando alguém se lembrou de fazer contas e disse que os devedores não tinham dinheiro para pagar as dívidas, o mundo ficou em estado de choque. A espiral tinha tomado conta da situação. Essa é a situação em que nos encontramos e esse é o grande problema – que fez surgir o apetite cada vez maior pela especulação e que acelerou a crise na zona Euro – uma zona artificialmente criada e que, agora, para sobreviver, substitui governos eleitos por técnicos escolhidos. O aprofundamento da Democracia, que a Europa era suposta proporcionar, afinal está a cair por terra.




SEMANADA – Jardim vai gastar três milhões de euros em iluminações de Natal e fogo de artifício; Paulo Penedos recebeu 1,2 milhões de Manuel Godinho; funcionários do parlamento ponderam fazer greve no dia da votação do Orçamento de Estado; em 2010 a violação do segredo de justiça deu origem a um processo por semana.




ARCO DA VELHA – Parece que em 2012 vão desaparecer os incentivos para a compra de carros eléctricos. E agora para que servem os electrões que andam aí pelas ruas a ocupar bons lugares de estacionamento? E o dinheirão que se gastou naqueles equipamentos todos?  - há mais carregadores que carros…


 


VER– Até Domingo à noite, no Pavilhão 1 da FIL, no Parque das Nações, decorre a Arte Lisboa – ainda não percebi porque não realizam esta Feira na Junqueira; Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, fotografias de Pedro Medeiros e de Mauro Cerqueira; na Galeria Avenida 211 (Avenida da Liberdade 211, 1º-esq) fotografias de Álvaro Rosendo (que bom rever o seu trabalho!), de José Drummond e instalações de Edgar Massul; na re-searcher gallery (Rua da Madalena 80D), Luis Miguel Castro expõe curiosos retratos de figuras portuguesas, de Mário de Sá Carneiro ao Marquês do Pombal, num traço onde a ironia e a observação se complementam.


 


OUVIR – Gordon Sumner nasceu em 1951 e a partir de 1977 começou a ser conhecido como Sting, quando os Police iniciaram o seu percurso musical e rapidamente ganharam fama. Na sua carreira Sting tem mais de 100 milhões de discos vendidos e recebeu 16 grammys. A sua música foi oscilante, mas ele é indiscutivelmente um grande compositor de canções, daquelas que ficam associadas a épocas ou episódios da vida de cada um. Para assinalar os seus 25 anos de carreira a solo e 60 de idade foi agora editado um duplo CD com 31 temas dos seus discos, desde “If You Love Somebody Set Them Free», de 1985, até «End Of The Game» de 1910, passando por «Moon Over Bourbon Street», «Englishman In New York» ou «Mad About You». Todos os temas foram remasterizados e  algumas, do primeiro disco, foram remisturadas. Edição AM/Universal


 


LER – Na Vanity Fair deste mês a capa é uma bela fotografia de Scarlett Johansson feita por Mario Sorrenti. Lá dentro a actriz fala do seu novo filme «We Bought A Zoo» de Cameron Crowe, do trabalho com Woody Allen e até dos seus percalços na internet. Outros artigos de interesse abordam os mitos de Jacki Kennedy, uma revisitação dos anos em que Margaret Thatcher esteve no poder e as guerras de sucessão no império Murdoch. Finalmente, aqueles que se interessam pelos negócios do desporto gostarão de ler sobre o método de trabalho de Billy Beane, o homem que revolucionou a gestão da equipa de baseball Oakland A’s com base na psicologia cognitiva.


 


PROVAR – As Conservas Nero renasceram da cinza e propõem dois petiscos: a Muxama de Atum Catraio em conserva e o Peixe Espada Preto de Sesimbra em conserva de azeite. Ambas resultam muito bem em cima de pão tostado, com um bocadinho de azeite e umas gotas de limão. Nestes últimos anos a tradição conserveira portuguesa está a renascer e isso é uma boa notícia. Com estas conservas pode preparar-se uma bela entrada ou até, no caso do peixe espada preto,  uma salada com um toque inesperado. Em época de crise as conservas tradicionais são uma boa alternativa para manter o espírito gourmet numa versão low budget.


 


BACK TO BASICS –  Falar por soundbytes é o estado contemporâneo da política e isso não acrescenta informação nem enriquece o debate – Sting.


 


(publicado no Jornal de Negócios de 25 de Novembro)


 

novembro 22, 2011

GASTAR É FÁCIL

Na semana passada foram conhecidas as contas dos gastos partidários nas eleições legislativas deste ano. Poucos cumpriram, vários excederam, e, no caso do PS, a situação das finanças partidárias é caótica e se em vez de um partido político fosse uma empresa, teria que fechar portas.


 


É terrível ver como muitos dirigentes partidários e políticos, nos seus partidos e nas funções oficiais a que são chamados, seja em autarquias, no Governo ou em empresas públicas, geram mais despesa do que a receita que conseguem obter.


 


Penso que existe uma explicação para este estado de coisas, que corrói a sociedade portuguesa: o grande problema de muitos políticos é que o dinheiro que usam (e de que abusam), não é deles – seja no partido, seja no Estado. O princípio geral que é seguido nestes casos é que alguém há-de, um dia, pagar. Usam o dinheiro dos outros de uma forma despreocupada.


 


Estamos a viver as consequências deste laxismo – nas empresas públicas, no sistema de saúde, na educação, nas autarquias. E como o dinheiro dos outros vem sempre do mesmo sítio, o resultado é sempre o mesmo: aumentar taxas, impostos, inventar forma de ir buscar mais dinheiro ao bolso dos contribuintes. O Estado é mais criativo na forma de nos tirar dinheiro da algibeira do que em encontrar soluções para os gastos.


 


Nos últimos tempos tem sido evidente uma outra situação – muitos políticos que foram chamados a assumir funções de gestão em empresas ou que criaram os seus próprios negócios meteram-se em maus lençóis. Hoje em dia existem muitos casos em que se tornou claro que os maus hábitos e más práticas que tinham no Estado se passaram de armas e bagagens para a sua actividade privada. Mas porventura o mais chocante é a forma como alguns políticos centraram a sua actividade empresarial privada exclusivamente em actividades especulativas e em obtenção de contratos de favor.


 


Uma democracia, para funcionar, precisa de políticos, competentes, sérios e dedicados à causa pública. Nos últimos anos têm sido raros.


 


(Publicado no diário Metro de 22 de Novembro)

novembro 18, 2011

O Grupo de Trabalho, o Sr. Duque e sugestões avulsas

O GRUPO – Foi finalmente conhecido o relatório do Grupo de Trabalho sobre o serviço público de comunicação. Dedica mais atenção à televisão do que à rádio e agência noticiosa, mas isso reflecte o peso das audiências nas decisões políticas. De uma forma geral a primeira constatação é que o estudo é muito marcado pela conjuntura e é bastante mais pródigo em recomendações tácticas do que numa reflexão estratégica assente no estudo comparado de vários modelos e virada para o futuro. Embora use muito palavreado digital, a nova realidade dos media é de facto pouco analisada e, de uma forma geral, a repercussão desta realidade no futuro da comunicação é vista de passagem. É pena, porque se isto é para ser aplicado depois de 2012, como já disse o Ministro Miguel Relvas, este seria o caminho mais interessante a explorar, porque o resto já se encontra decidido pelo Governo – talvez por saber isto mesmo o estudo faz recomendações para o curto prazo, numa espécie de afirmação de demarcação do executivo. O melhor do estudo é apontar um caminho de não concorrência do serviço público aos operadores privados; o pior do estudo é uma sugestão de interferência demasiado grande nas políticas de programação e editoriais, algo que não se esperava. Para resumir de outra maneira, o estudo preocupa-se mais com a forma de distribuição dos conteúdos do que com os conteúdos em si – e essa é a sua maior falha.




SEMANADA – A propósito da audiência com Obama, o “Washington Post” fez esta tradução fonética do nome do Presidente português Anibal Cavaco Silva: ah-NEE’-bal ca-va-COO’ SEEL’-vuh; terça feira de manhã o Ministro Santos Pereira anunciou o fim da crise; no mesmo dia, já depois de almoço, anunciou que afinal era apenas o início do fim da crise;  segundo o Eurostat Portugal é o único país da zona Euro em recessão técnica; em Viseu a PSP não conseguiu efectuar uma perseguição porque todos os seus carros estavam avariados.


 


ARCO DA VELHA –  O coordenador e porta-voz do grupo de trabalho sobre o serviço público de televisão preconizou, na TSF, que  a informação emitida pela RTP Internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” pelo Governo, sublinhando que esse tratamento “não deve ser questionado” e tudo isto, como salientou, «a bem da nação».


 


VER – «Sangue do Meu Sangue», de João Canijo, é um dos mais brilhantes filmes portugueses que me lembro de ter visto. É uma crónica contemporânea do que se passa ao lado das grandes cidades. Eça de Queiroz escrevia sobre os conflitos na burguesia da província, mais de um século depois Canijo filma a tensão nos bairros periféricos. Mas, em épocas e com meios diferentes, ambos acabam por ter pontos comuns, fruto da condição humana e da persistência dos comportamentos. Este não é um filme passadista, é muito actual e real. Canijo é dos realizadores portugueses que mais filmou, graças aos anos em que trabalhou como assistente de realização de Manoel de Oliveira e isso sente-se no domínio da técnica, algo que, no cinema, só vem com o tempo. Mas sente-se nele também a influência da cultura popular urbana, que apareceu em filmes e na música inglesa nos anos 90, e cujos exemplo e linguagem visual João Canijo assume. A ideia do argumento funciona e os diálogos – escritos num processo colaborativo com os actores – são quase perfeitos e, mesmo nas cenas mais duras, são naturais. No filme é muito curiosa a opção, em diversos momentos, por fazer decorrer duas acções diferentes em simultâneo, com recurso a soluções de enquadramento ou de cenário que são uma mais valia da realização. A produção – exemplar, assinada por Pedro Borges – acompanha este esforço de realização ao garantir meios para uma captação sonora que facilitou a criação de ambientes diferentes, ou, ainda, pelo cuidado posto no guarda roupa. E, claro, o filme vive também da intensidade e qualidade da interpretação de Rita Blanco, Cleia Almeida, Rafael Morais, Anabela Moreira, Fernando Luís ou Nuno Lopes. E, também, deve muito à fotografia de Mário Castanheira. «Sangue do Meu Sangue» foge a moralismos fáceis ou cartilhas de encomenda. É um retrato do que se passa à nossa volta e que por vezes muitos não querem ver.


 


OUVIR – Jorge Palma é um dos maiores talentos da música portuguesa e um dos compositores que melhor sabe usar a língua portuguesa, uma fonética nem sempre fácil para canções. Muita gente considera que os melhores poetas dos tempos que correm são os que escrevem grandes canções. Se isso é assim – e eu acho que sim – Jorge Palma é um desses grandes poetas modernos da língua portuguesa. Mas neste disco fez questão de cantar outras escritas, como a de José Luis Peixoto em «Pensámos em nada», ou o marcante «Uma Alma Caridosa» de Carlos Tê, que começa logo assim: “Recebi um postal com carimbo do Estado/ Sem razão para tal senti-me logo culpado/fui a quem de direito pedir explicações/ninguém sabia do meu caso nas repartições.” Haverá melhor retrato do nosso Estado do que este? Este novo disco de Jorge Palma, «Com Todo o Respeito», é também surpreendente do ponto de vista musical, na mistura de gerações e influências, de Flak (ex Rádio Macau), que produziu, aos jazzmen Carlos Bica e Carlos Barreto, ao Gabriel Gomes e o seu acordeão, a voz fadista de Cristina Branco e o sólido rock d’Os Demitidos. Tenho o disco há uma semana e é raro o dia em que não o oiço. Destaques: «Página em Branco», «Tudo por Um Beijo», «Anjos de Berlim», «Pensámos em Nada», «Uma Alma Caridosa» e «Soltos do Chão». Aos 55 anos de idade Jorge Palma faz um dos seus melhores discos – e leva dezena e meia no activo.


 


LER – «Cartas do Meu Magrebe», de Ernesto de Sousa, é um livro que de início me aborreceu  – parecia a descrição de alguém encantado com os bons selvagens e irritado com o som dos transístores nas ruas de Marrocos e da Argélia. Depois a coisa suaviza, mas nunca se perde o sentimento do ocidental que foi ver uma revolução anti-colonial no terceiro mundo num estado de algum encantamento. O interessante da história é que tudo isto se passa no início dos anos 60, em crónicas de viagem ao estilo de curtas reportagens, enviadas para o «Jornal de Notícias» - que publicou 17 e guardou outras seis na gaveta porque entretanto começou a Guerra Colonial e a Argélia tinha uma posição contrária a Portugal. As crónicas mais interessantes são as menos políticas, as que derivam mais da observação e de conversas do que de reflexões. Mas na realidade o ponto alto do livro são algumas das fotografias do próprio Ernesto de Sousa, nomeadamente a da página 26, «o amigo marroquino». “Nunca fui um bom turista”, escreve Ernesto de Sousa numa das crónicas deste livro – não esperem por isso encontrar aqui o tradicional livro de viagens. No regresso a Portugal Ernesto de Sousa enveredou decididamente pelo cinema (nessa altura já tinha feito “Dom Roberto”), pela fotografia e pela vídeo arte, de que foi um precursor. Este é apenas um episódio curioso na sua vida.  Edição Tinta da China.


 


PROVAR – O SoulFood Café é aquilo a que se poderia chamar uma cafetaria moderna. Também serve cafés, umas boas empadas e uns apreciáveis pastéis de nata, mas basicamente é um belo sítio para almoçar, comer umas tapas ao fim da tarde e eventualmente fazer um sossegado jantar de amigos. Há sugestões de pratos do dia ao almoço e também uma lista com sanduíches, tostas, massas e saladas, além de hambúrgueres (bons, caseiros, bem temperados) e um honestíssimo pica-pau. Os pratos da lista podem ser pedidos a qualquer hora, das 11 às 23. Ao almoço há sopa de legumes sempre fresca e  nos pratos do dia o campeão das preferências é o Bacalhau SoulFood mas, para mim, o mais surpreendente é o arroz de pato, invulgar e cativante. Todos os dias há sobremesas diferentes, e do bar, além do trivial engarrafado,  pode pedir um smoothie ou um sumo natural, ou uma das boas sugestões de vinho a copo. O serviço é muito simpático, o trabalho da cozinha é atento e criativo e a matéria prima é boa. Os preços são adequados à crise. Falta dizer que a música ambiente é basicamente soul e jazz e que no ecrã de plasma passa muitas vezes a Fashion TV. O ambiente é agradável e confortável – a sala é comandada por Joana Costa e Pedro Pereira e a cozinha por Luísa Sousa. Av. Miguel Bombarda 133 B, telefone 213 161 163


 


BACK TO BASICS – O primeiro sinal da decadência de uma sociedade é fazer crer que os fins justificam os meios – Georges Bernanos


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 18 de Novembro)


 

novembro 15, 2011

Os transportes que temos e os tempos que vivemos

Se é utilizador de transportes públicos, provavelmente as greves recentes afectaram o seu conforto e prejudicaram o seu trabalho. Também se sente afectado pelas medidas de austeridade, e agora está na dúvida entre as medidas e os protestos contra essas medidas. Provavelmente já percebeu que a vida de todos nós está a mudar e que muito pouca coisa continuará como dantes.


 


Usando uma expressão popular, acabaram os anos das vacas gordas - só que essas vacas engordaram à custa de uma ilusão, de empréstimos atrás de empréstimos, para pagar despesas que nunca deviam ter sido criadas, encargos absurdos.


 


Os transportes públicos – comboios, metro, autocarros, estão todos numa situação próxima da falência. Se nada for feito o risco é que eles deixem de poder funcionar ou que funcionem em moldes muito mais reduzidos.


 


Os sindicatos também têm uma quota de responsabilidade na situação criada – aqui, como noutros sectores da esfera pública, reivindicaram remunerações, prémios, bonificações e subsídios que tornaram os custos de pessoal num pesadelo – nalgumas empresas de transportes, e nalgumas categorias profissionais operacionais, existe um prémio por comparecer ao trabalho, para além da remuneração normal. Além de poder ter havido má gestão, houve também uma total falta de noção da realidade. A recusa da realidade tem custos e são eles que aí estão agora, a pôr em causa um sistema e a comodidade dos passageiros.


 


Durante anos o Estado recusou-se a encarar o facto de os preços dos bilhetes e dos passes estar desactualizado face ao aumento dos custos de pessoal, de combustível e de exploração das redes existentes. Os prejuízos acumulados criaram esta situação insustentável. Uma parte dos impostos de todos é consumida a subsidiar estas empresas de transportes, que mesmo assim foram acumulando elevados prejuízos. Não é preciso ser vidente para perceber que as coisas não podem continuar assim. Os tempos mudaram e todos temos que nos adaptar a eles.


 


(Publicado no jornal Metro de hoje)


 


 

novembro 11, 2011

Sobre deveres, uma geração e sugestões avulsas

DEVERES – Cada vez que se fala em direitos lembro-me logo do pouco que se fala em deveres. Os direitos não são coisas abstractas – têm consequências práticas e fazem parte daquilo que deve ser o comportamento de cada um na sociedade – por isso mesmo não são imutáveis porque existem num conceito sujeito a mudanças. Muitas vezes não se pensa nisto, mas os direitos têm também muitas vezes repercussão económica - e devia ser um dever ter em consideração se eles são ou não suportáveis e sustentáveis.


 


Nos últimos dias assistimos a acções, no sector dos transportes, que me parecem carecer de algumas notas: muitos trabalhadores destes sectores acumularam ao longo dos anos uma série de prémios e bonificações, para além da sua remuneração contratada, que manifestamente os beneficia em relação a outros cidadãos; há casos em que existem prémios simplesmente por se comparecer ao trabalho – como no caso do Metro de Lisboa em algumas funções -  e, de uma forma geral, foi montado um sistema complexo de adicionais que contribuíu para levar as empresas de transportes ao estado de falência técnica em que se encontram, com custos fixos de pessoal incomportáveis.


 


O que me parece claro é que os direitos que alguns reclamam não vão de certeza existir se estas empresas falirem e fecharem. Os sindicatos, que patrocinaram e instigaram as reivindicações que levaram a esta situação ajudaram a pôr em causa o equilíbrio destas empresas e em boa lógica devem também ser responsabilizados por isso. E agora, sabendo perfeitamente o que se passa nessas empresas, no sector público e no país, alguns sindicatos estão a reproduzir o modelo clássico de oposição, persistindo em reivindicar o que já é utópico e com o mesmo método de sempre: greves em sectores críticos para agravar o descontentamento popular, preparando terreno para uma greve geral, anunciada para dia 24. Este esquema, tradicional, tem o objectivo de conseguir uma grande mobilização – daí as greves sectoriais, para criarem efeito bola de neve.


 


Acontece que  a evolução demográfica, o agravamento do desemprego, o progressivo afastamento das organizações sindicais das novas formas de trabalho e das novas profissões pode começar também a criar um efeito paradoxal – aumentar o número daqueles que são contra a greve geral e contra a ausência de perspectiva de realidade nas reivindicações apresentadas. Estou com curiosidade de ver como isto evolui – e de observar como fora dos sectores tradicionais, da órbita do Estado e das empresas públicas, a adesão à greve se concretiza. Os sindicatos estão a conduzir muitos cidadãos a desconfiarem cada vez mais de quem trabalha no sector público – e esse não é um bom serviço que estão a prestar a esses trabalhadores.



GERAÇÃO – Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, Jorge Moreira da Silva, Pedro Pinto e alguns outros menos conhecidos fazem parte de uma das primeiras gerações de quadros da JSD que têm uma coisa em comum: há muitos anos atrás participaram em acções de formação política patrocinadas e orientadas por parceiros internacionais do PSD e por organismos ligados aos social-democratas em Portugal.


 


No decurso desse período criaram sólidos laços uns com os outros, desenvolveram um corpo de pensamento, aperfeiçoaram um método de de actuação política e estabeleceram convicções ideológicas que hoje moldam de forma clara o posicionamento do PSD, mais do que na generalidade das anteriores direcções dos social-democratas.


 


De certa maneira quase se poderia dizer que esta é a direcção mais ideológica que o PSD tem, aquela que ensaia a ruptura com as questões paroquiais para se posicionar de uma forma mais globalizada. A minha dúvida é se esta ruptura e este posicionamento não vêm tarde, quando globalmente o posicionamento já é outro.


 


De qualquer forma é interessante seguir este percurso, observar como as formas de actuação são diferentes de anteriores Governos e como no PSD existe um posicionamento ideológico mais vincado e pouco tradicional no partido, por natureza eclético e muito mais táctico que estratégico. Será interessante também perceber como o PP conseguirá manter o seu terreno próprio, bem demarcado nos últimos anos, no meio desta nova forma de intervenção do PSD.


 


SEMANADA – Realizou-se a cimeira do G20; o primeiro ministro grego saíu de cena; os juros da dívida pública italiana continuaram a subir; o primeiro-ministro italiano anunciou ir sair de cena; a Espanha está em vias de mudar de Governo; o euro acentuou perdas face ao dólar; Armando Vara admitiu em tribunal ter recebido robalos e pão de ló de Manuel Godinho, que no anterior regime fez fortuna a comprar sucatas.


 


ARCO DA VELHA – Angela Merkel disse quarta-feira passada num discurso, em Berlim, que a Europa deve agir rapidamente para travar a crise.


 


VER – A pintora mexicana Frida Khalo é uma lenda – confunde-se às vezes o seu génio com a sua saga pessoal. No Museu da Cidade, ao Campo Grande, até 29 de Janeiro está patente uma exposição constituída por 250 fotografias do arquivo da Casa Azul/Museu Frida Kahlo, no México e que permite ter uma visão mais alargada da intimidade da artista. A exposição mostra ainda a forma como alguns fotógrafos viram a pintora – de Man Ray a Manuel Alvarez Bravo, passando por Edward Weston ou Brassai.


 


OUVIR – Isto é que nos faz velhos: perceber que um disco de que gostámos muito quando saíu, e que continua fresco na memória, afinal já foi editado há 20 anos. É isso que se passa com «Achtung Baby» dos U2, na minha opinião o seu melhor trabalho e o pico de uma carreira que a partir daí se centrou mais na glorificação de Bono e na criação de uma máquina bem oleada, mas bem menos criativa. Por ocasião deste 20º aniversário foi feita uma edição especial com dois CD’s, o primeiro a reproduzir os 12 temas da edição original e o segundo com lados B dos singles da época e misturas alternativas. Uma peça de colecção.


 


LER – A revista Monocle do mês de Novembro é muito oportunamente dedicada aos prazeres da comida – quase sem falar de restaurantes, mas abordando o aparecimento de lojas onde estão disponíveis produtos de qualidade, de produção local e biológicos, onde o serviço é um elemento diferenciador e onde a criatividade pode ser decisiva para captar clientes. De certa forma é o reverso da globalização encarnada pelos hipermercados onde existe tudo mas nada tem sabor. É parte do movimento do aproximar a produção de quem a consome. Para além deste tema de capa, a nova edição da revista tem outros pontos de interesse como o nascimento de novos negócios no Egipto, novas formas de trabalho e novas atitudes dos diplomatas (um artigo que seria muito útil para muitos embaixadores portugueses) e uma estimulante reportagem sobre a criação artística contemporânea em Los Angeles. Como a Monocle é essencialmente um sinalizador de tendências, vale a pena destacar a nova aventura dos editores da revista: depois da edição em papel e na internet, eis que surge uma aplicação para iPhone e iPad que permite ouvir a rádio Monocle, uma estação digital que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Consultem detalhes no site da revista, www.monocle.com, através do qual também podem ouvir as emissões.


 


PROVAR – O Tamarind (Rua da Glória 43) é um dos mais interessantes e peculiares restaurantes de gastronomia indiana em Lisboa, já aqui elogiado. É um espaço pequeno, que foi construindo a fama ao longo dos anos e que é dirigido pelo chef Hardev Walia, nascido na Tanzânia e com formação e experiência adquiridas em Londres. Há uns anos atrás rumou a Lisboa e abriu o Tamarind, que cedo deu que falar. Até dia 15, no âmbito da semana gastronómica da Índia, Hardev Walia mudou-se de armas e bagagens para o Restaurante Terraço, no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. Ao almoço funciona um buffet e ao jantar a lista é quem mais ordena – estimulada por danças indianas ao longo da noite. São já célebres as entradas vegetarianas, ou de carne e marisco, os papadums com molho de tamarindo, iogurte e chutney de manga, assim como o caril de camarão malai ou a galinha tikka masala. Podem ser feitas reservas para o Terraço do Tivoli para o telefone 213 198 934.


 


BACK TO BASICS – A forte convicção de que em todas as circunstâncias alguma coisa tem que ser feita, está na origem de muitas más decisões (Daniel Webster)


 


(Publicado dia 11 do 11 de 2011 no Jornal de Negócios)

novembro 08, 2011

SOBRE A RESPONSABILIDADE

Começo com uma citação, extraída de um artigo de opinião de Manuel Maria Carrilho, publicado na semana passada, sob o título “Opções Inadiáveis”.  Carrilho, que foi dirigente do PS e Ministro no Governo de Guterres, chama a atenção para a necessidade de os políticos assumirem as suas responsabilidades, “não tanto a responsabilidade pela assinatura do Memorando com a troika, mas a responsabilidade pelas opções que o tornaram incontornável e inegociável para Portugal”.


 


E sublinha: “A prolongada negação da crise e das suas consequências, em 2008, e a total desvalorização do endividamento do País e dos seus efeitos, em 2009 e 2010, fizeram o País perder tempo precioso. Foram erros nacionais, que a crise internacional não explica. E os portugueses não esquecerão tão cedo estas opções - nem o líder que as tomou, nem o Partido em nome do qual governava. Não há como contornar ou relativizar esta questão. Ela exige um sério exame de consciência e uma tão humilde como clara assunção de responsabilidades perante o País.”


 


Muitas vezes discordo de Carrilho, mas nisto ele tem toda a razão – no texto refere-se obviamente aos Governos de Sócrates, cuja actuação aliás criticou, mas eu tomo como boas as suas palavras em relação a todos os que tiveram responsabilidades políticas.


 


E é por achar estas palavras tão certeiras que fico chocado com a atitude daqueles que dentro do PS, como José Lello e outros, vieram apelar ao voto dos socialistas contra o orçamento, um voto que teria um duplo significado: em primeiro lugar sinaliza que o PS não quer cumprir o acordo com a troika; e em segundo lugar, e isso é que é mais interessante, mostra que aqueles que preferiam votar contra não vêem motivos de censura naquilo que o Governo do PS andou a fazer ao longo dos anos em que negou a realidade e permitiu que as coisas se degradassem ao ponto onde chegaram. Sabe-se que o próprio José Sócrates andou a instigar esta posição do voto contra, entre recados e encontros, mostrando assim que assumir responsabilidades é coisa que o continua a incomodar .


 


 (publicado no Metro de 8 de Novembro)

outubro 28, 2011

Sobre a reestruturação da RTP

TELEVISÕES - Que a RTP precisa de ser reestruturada – e muito – ninguém duvida. Que a reestruturação tem que ser feita por forma a não provocar danos irreversíveis no sector dos Media em Portugal é que é o ponto da questão, e esse é o tema que o Ministro Miguel Relvas persiste em iludir. A solução apresentada no início da semana pelo Presidente da RTP, Guilherme Costa, e que foi anunciada como tendo luz verde do Governo, é, a ser executada, uma bomba que deixará marcas em todas as áreas – provavelmente com maior intensidade na imprensa e na redução da diversidade dos orgãos de informação actualmente existentes.


 


Existem neste momento duas questões diferentes: a alienação da concessão de um canal e a forma como a RTP passará a viver e que tipo de serviço público prestará. Em relação à primeira, e se o Governo não puxar uns cordelinhos ou estimular uns accionistas, não se vislumbra grupo de media em Portugal interessado em correr o risco; em relação à segunda uma questão fulcral desde o início é libertar de vez o Serviço Público de publicidade, afastando-o do espectro de concorrência de audiências e da concorrência com os privados no mercado publicitário – basta aliás ver que as estações de rádio de serviço público não têm publicidade e que crescentemente as estações de televisão de serviço público de diversos países têm abandonado a venda de espaço publicitário, exactamente para evitar a concorrência com os privados e ajudar a manter a diversidade dos órgãos de informação.


 


Em termos de publicidade a questão é simples: actualmente a oferta de mercado é de 30 minutos por hora nos três canais (12 minutos na TVI e outros tantos na SIC e seis na RTP). Com a alienação de um canal, ele terá acesso aos 12 minutos que os outros privados também têm – e o lógico seria a RTP abandonar o mercado. Mas com a anunciada intenção de continuar com os seis minutos, a oferta total de espaço publicitário em canais de sinal aberto cresce dos actuais 30 minutos para 42, ou seja, um aumento de oferta de 40%. Não é preciso ser génio para perceber que quando a oferta aumenta desta maneira, o preço inevitavelmente cai. Acontece que o preço da publicidade de TV em sinal aberto já está tão baixo que a diferença em relação a outros Media, como a imprensa e a rádio, é menor que na generalidade dos mercados europeus – o que quer dizer que os canais portugueses de sinal aberto, que já captam 50% do total do investimento publicitário (o valor mais elevado da Europa), irão tendencialmente aumentar a sua quota de captação do investimento publicitário - mas paradoxalmente sem aumentar as suas receitas, já que o preço baixará (e já nem falo que muito provavelmente nem serão ocupados os 42 minutos disponíveis, porque na maior parte deste ano nem os 30 actuais têm sido integralmente utilizados). Convém aqui recordar que o investimento publicitário está a cair de forma acentuada há três anos seguidos, o que só por si deveria fazer pensar os responsáveis governamentais por estas medidas.


 


Tudo isto tem duas consequências – menos dinheiro nas estações para investir em conteúdos, que são a base de captação de audiências - o que provocará menor  eficácia das campanhas publicitárias e iniciará uma espiral de degradação de consequências imprevisíveis; e um desvio ainda mais acentuado do investimento publicitário da imprensa para a televisão, o que terá consequências na sobrevivência de uma série de títulos e na qualidade e diversidade dos títulos que ficarem. Por isso mesmo é que Francisco Balsemão se referia esta semana aos efeitos nefastos que esta medida, a ser cumprida, poderá ter em termos do pluralismo da informação e da qualidade da nossa democracia. Mas com um panorama destes também os anunciantes ficarão pior servidos – com queda de qualidade de conteúdos, a saída dos públicos dos media tradicionais para outros acentuar-se-à e nenhum, no imediato, lhes dará a cobertura e eficácia que as televisões de sinal aberto proporcionam quando têm boas audiências (qualitativas e quantitativas).


 


Aliás é o próprio Guilherme Costa, Presidente da RTP, quem faz um retrato certeiro do futuro ao admitir que, com o cenário de reestruturação do grupo RTP que anunciou, o impacte nas receitas de publicidade atingirá os 50% - e eu acho que este é um cenário optimista.


Só para sabermos do que estamos a falar, o total do investimento publicitário em Portugal deverá cair este ano na casa dos 10%, depois de ter caído 3% no ano passado e cerca de 15% em 2009. Mas este ano as televisões de sinal aberto já vão, nesta altura, a perder 11,5% e a imprensa vai a perder 15% .


 


Por tudo isto as decisões parecem ter sido tomadas à pressa, com pouca preparação e reflexão, apenas para fechar mais um dossier e, talvez, favorecer algum grupo interessado em entrar no mercado mesmo com os riscos que isso comporta. Será que o Governo está a levar ao colo algum potencial comprador?


 


Mas existe um outro aspecto do plano de reestruturação que é também, a outro nível, bastante inquietante. Daquilo que já foi revelado, o potencial comprador do canal da RTP que for alienado, terá que utilizar meios de produção da própria RTP, ficando mesmo obrigado a ser sócio de uma unidade autónoma que será criada para o efeito. Esta situação ataca directamente os produtores independentes de audiovisuais, que assim verão o mercado limitado – é um pouco paradoxal que o Governo utilize o argumento da concorrência nuns casos e que em outros o meta na gaveta. De qualquer forma, a confirmar-se esta situação, existirá um eventual incumprimento das normas europeias sobre as percentagens de produção independente que devem existir no mercado de produção audiovisual. A questão da produção independente é relevante porque ela já está a ser comprimida face aos cortes no investimento em conteúdos das televisões, e com este modelo de negócio previsto para a RTP e o eventual novo operador, o seu mercado ficará ainda mais limitado. Recordo apenas que a produção independente de audiovisual é fundamental para o crescimento de uma industria multimédia, a única forma de garantir que o português continue uma língua viva no novo mundo digital e que a nossa História e Cultura sejam salvaguardadas. Eu acho que o Governo nunca pensa nestas coisas – mas faz mal e vai deixar uma péssima herança se continuar nesta via.


 


SEMANADA – Business as usual:  Cavaco atacou as medidas do Governo; Cavaco reuniu o Conselho de Estado e de lá saiu um esfíngico comunicado a apelar ao diálogo; o PS entendeu logo isto como um puxão de orelhas ao Governo e elogiou Cavaco; Merkel vetou mais algumas propostas; Teixeira dos Santos anunciou que no início de 2010 esteve prestes a demitir-se; descobriu-se que há roupa de hospitais a ser vendida em feiras.


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, o deputado que roubou gravadores a jornalistas da “Sábado” quando foi confrontado com perguntas que não lhe agradavam, e que está por isso acusado, foi o escolhido pelo PS para seu representante no Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários. Quem diz que o crime não compensa?


 


VER – No Museu Berardo, CCB, a exposição “A Arte da Guerra”, que apresenta uma extraordinária colecção de cartazes e outras formas de propaganda, criadas em vários países durante a segunda guerra mundial. Como se recorda no catálogo, as obras ali expostas “cumprem com o objectivo de qualquer outra obra de arte: provocar emoções nas pessoas e mudar o mundo”.


 


OUVIR – “Biophilia”, o novo disco da islandesa Bjork, é um trabalho multidisciplinar, onde o CD convive com uma aplicação (fabulosa, aliás) para iPad. É um trabalho inesperado, ousado por um lado, complexo por outro, mas delicado e encantador no final. Há algum tempo que Bjork não mostrava de forma tão clara como consegue combinar sensibilidade com inovação.


 


PROVAR – As delícias da Castella do Paulo, uma casa de chá luso-japonesa, na Rua da Alfandega 120 em Lisboa, que também serve almoços. A sugestão é roubada ao  magnífico blogue Mesa Marcada que recomenda o Kare-paan, um salgado de brioche crocante recheado com caril japonês de vaca e legumes. O telefone é  218880019.


 


BACK TO BASICS – Com o tempo descobrirão que o Estado é o tipo de organização que, para além de fazer disparates nos grandes assuntos, também faz erros sucessivos nas mais pequenas coisas – John Kenneth Galbraith.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Outubro)


 

outubro 25, 2011

CRÓNICA DE UMA CIDADE ENCERRADA

Quando não chove, as ruas de Lisboa cheiram mal; em paradoxo, às primeiras chuvas, começam as inundações. Há muito tempo que a cidade não era tão maltratada no dia-a-dia como desde que António Costa se tornou Presidente da Câmara. Neste Outono quente, antes de chegarem as chuvas, havia ruas pestilentas, passeios sujos, detritos por todo o lado. Percebeu-se agora que as sarjetas, mais uma vez, não foram mantidas limpas.


Graças à forma como está organizada a recolha selectiva de lixo, há contentores cheios, dias seguidos,  a exalar maus cheiros e muitas vezes a derramar lixo. A Câmara Municipal trata Lisboa seguindo aquele velho truque dos meninos rabinos que não gostam de lavar as mãos: para quê lavar as ruas se elas se sujam a seguir? Tudo isto penaliza quem vive em Lisboa. Penaliza quem cá fica depois das sete da noite, quem persiste em viver numa cidade que se desabita ao fim de cada dia de trabalho.


 


 


 


 


Numa das noites quentes da semana passada, quem passeasse no Chiado via as esplanadas cheias – de estrangeiros. Mal se ouvia português. É claro que isto é simpático – embora as ruas estivessem sujas e alguns dos turistas comentassem isso. O que me custa é ver tão poucos lisboetas na rua a aproveitar o que a cidade lhes podia oferecer. À medida que a cidade se foi desertificando o comércio de rua foi fechando portas cada vez mais cedo – sem clientes, para quê estar aberto? O investimento e o trabalho de base para garantir conforto, limpeza e segurança foi sendo substituído por ciclovias, hortas e outras obras do regime. O essencial foi-se desleixando.


 


 


 


Cuidar de uma Câmara Municipal exige que se goste da cidade, exige que se goste dos seus habitantes. O Presidente de qualquer Câmara Municipal não pode olhar para os cidadãos apenas como eleitores – tem que os olhar como clientes, que efectivamente pagam, nos impostos e nas taxas, um serviço que, infelizmente, muitas vezes não lhes é dado. Suspeito que António Costa não gosta de servir clientes, prefere manipular eleitores.  (Publicado no diário Metro)


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

outubro 23, 2011

Com esta semana de chuva é que vamos ver se António Costa fez o trabalho de casa e limpou as sarjetas

outubro 21, 2011

INDIGNAÇÃO, RESPONSABILIDADE, SUGESTÕES; CITAÇÕES

INDIGNADO – Eu sinto-me indignado cada vez que estou a ver um telejornal e vejo uma série de pessoas, que agora se afirmam muitíssimo indignadas e chocadas, mas  que, nos últimos anos, no Governo ou em outras funções, na política ou nos sindicatos, contribuíram para o descontrolo orçamental, para a diminuição da produtividade, pessoas que anos a fio defenderam só direitos sem confirmarem deveres, que arquitectaram um sistema laboral onde o objectivo era trabalhar menos horas, produzir menos e ganhar e consumir mais. Estamos a viver a prova de que distribuir o que nāo temos ė uma pėssima ideia com catastróficos resultados.


Agora é preciso pôr um ponto final na fantasia e está a ser doloroso. Vai ser ainda mais doloroso e ninguém em seu perfeito juízo poderá dizer quanto tempo vai durar esta austeridade. Muitos dos protestos que se anunciam parecem ignorar a realidade em que estamos. Parecem nāo ter em conta a necessidade de mudar. Persistem em perseguir objectivos que têm pouco a ver com a realidade. Uma coisa é ter uma utopia, outra é fazer dela um programa político e convencer os cidadãos que essa utopia pode ser alcançada e é o milagre que nos pode salvar. Acontece que essa utopia é que nos levou até onde estamos. Brincar com os sentimentos das pessoas é sempre reprovável. Em política produz resultados péssimos.


 


 


RESPONSABILIDADE - Nos últimos dias tem-se falado muito na necessidade de averiguar responsabilidades pelo estado a que as finanças do país chegou. Algumas pessoas insurgem-se contra isso e, paradoxalmente, algumas sāo as mesmas que há meses atrás apontavam a Islândia como exemplo por ter julgado alguns dos responsáveis pela derrocada do sistema financeiro do país. É de facto importante avaliar quem fez o quê, atribuir responsabilidades políticas e, nalguns casos, eventualmente, responsabilidade civil. Investigar estas situações é um dever do regime - não por vingança, mas por dever de conhecimento e obrigação cívica. Para nāo repetirmos os mesmos erros e nāo permitirmos os mesmos comportamentos é fundamental sabermos o que de facto se passou. Retardar o encontro com a realidade, como durante meses o anterior Governo de Sócrates andou a fazer, é uma forma perigosa - e criminosa - de manipulaçāo. Ao longo dos anos Sócrates desempenhou um papel, criou ele próprio um personagem, uma espécie de avatar da modernidade, das reformas em causas fracturantes e politicamente correctas, ao mesmo tempo que evitava reformar o regime e fechava os olhos ao que se passava em nome da concretizaçāo dos seus projectos. Pessoas que entendem do assunto dizem que o comportamento de Sócrates tem pontos de contacto com a esquizofrenia. Seja como fôr, ele e o seu Governo nāo melhoraram a situaçāo em que encontraram Portugal. Entregaram-se a comprometer o futuro de todos para gáudio de alguns. E esse balanço tem que ser rigorosamente feito.


 


 


SEMANADA – Cavaco Silva teceu críticas ao orçamento de Estado; João César das Neves teceu duras críticas ao OE; António José Seguro teceu fortes críticas ao OE; Sarkozy e Merkel encontram-se a sós uma vez por semana; subsídios políticos às energias renováveis já representam 50% da despesa mensal da electricidade ; a Câmara de Lisboa não sabe quantos inquilinos tem; o número de desempregados ultrapassou os 700.000; Rui Rio defendeu reforma profunda e urgente do regime político; militares preparam protestos contra a austeridade.


 


ARCO DA VELHA – No Brasil, a equipa de Dilma Rousseff vai a caminho de perder o sexto ministro, em menos de um ano, por suspeita de corrupção.


 


LER – O tema de capa do número especial da Egoísta, com a data de capa de Setembro, não podia ser mais actual: “Juízo” – uma coisa que notoriamente nos tem faltado ao longo das últimas duas décadas . Logo no início da edição está uma “Tabuada de Multiplicar”, onde Rui Zink resume assim o estado da nação: “Se fores casto e mui cauto/E esperares sempre a tua vez/Não voarás talvez mui alto/ Mas serás um bom português”. Em termos de imagens o portfolio de Mark Laita é excepcional e o de Augusto Brázio uma colecção de preciosidades. Também gostei do “esta noite” de Maria Manuel Viana e de “A Bolsa E A Vista” de Ricardo Costa. Uma bela edição especial, esta da “Egoísta”.


 


VER – No Museu da Electricidade a Fundação EDP inaugurou na semana passada três exposições muito diferentes entre si e que se prolongam até Dezembro. José Loureiro apresenta uma gigantesca instalação pictórica – não encontro outro nome - com base em 162 fragmentos de tela pintada a óleo, que exploram as sensações de cor e de luz numa enorme parede. Julião Sarmento apresenta um muito curioso trabalho, “What Makes a Writer Great”, em que imagens, originais ou replicadas, privadas ou públicas, se combinam com frases e palavras, na construção de uma narrativa que faz lembrar por vezes o conceito de edição cinematográfica – diálogos curtos, constante mutação de planos. Finalmente Edgar Martins apresenta um trabalho de fotografia, encomendado pela própria EDP (bem encomendado, de resto), que tem o título “The Time Machine” e que faz uma viagem ao universo das barragens, mostrando o que se esconde para além da banalidade das máquinas, do cimento, dos espaços. É uma visão própria, cuidada, exemplarmente encenada e talvez uma das melhores exposições de fotografia, de autor português, dos últimos anos.


 


OUVIR – Quando ouço dizer que meia dúzia de nomes sonantes se juntam para fazer um super-grupo tenho uma tendência para ficar de cabelos arrepiados e esperar o pior – algo de chato, excessivo, uma feira de egoísmos. Foi um pouco de pé atrás que me meti a ouvir “SuperHeavy”, o disco que resulta da reunião de Mick Jagger com Dave Stewart, Joss Stone, Damian Marley e A.R. Rahman. Que esperar da junção de um Rolling Stone, com um Eurythmic, mais uma estrela britpop-soul, um herdeiro de reggae e o recordista indiano de composição de bandas sonoras? Mick Jagger disse numa recente entrevista que alinhou neste projecto porque queria juntar estilos musicais diferentes – e isso garantidamente conseguiu. O mais incrível é que o disco é divertido, tem meia dúzia de boas canções, sente-se que deu gôzo aos músicos gravarem, e o mais engraçado é que dá bastante gôzo ouvi-las – como o single “Miracle Worker”, a influência indiana em “Satyameva Jayathe”, o lado da mística rock de “One Day. One Night” ou a suavidade de”Never Gonna Change”. Boas canções, muito bem tocadas e interpretadas, ritmos inesperados e sonoridades supresa – há muito tempo que não encontrava isto tudo num só disco.


 


PROVAR – Vou confessar um dos meus pequenos vícios: enguias de conserva. Gosto delas sozinhas, como aperitivo, ou então numa salada de alface fresca ripada. Também vão bem com um pão escuro cortado fininho ou então acompanhadas de pickles. Aquelas de que gosto mais são as enguias em molho de escabeche da Murtosa, fabricadas pela Comur, orgulho da nossa indústria conserveira. A mesma fábrica tem uma proposta alternativa interessante: filetes de enguias fumados, em caixas um pouco maiores, e que ficam particularmente bem numa salada. As latas pequenas de enguias de escabeche também estão disponíveis numa versão picante, mas eu prefiro a normal. Se juntar muitos apreciadores de enguias também pode adquirir uma réplica dos antigos barris, com 1,250 kgs. Um festim!


 


BACK TO BASICSÉ absolutamente impossível ter uma nova crise na próxima semana, a minha agenda está completamente cheia – Henry Kissinger


 

outubro 18, 2011

Ai Lisboa...

António Costa é o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa há quatro anos, desde 2007. É o tempo de um mandato inteiro. Todos os autarcas gostam de dizer que quatro anos é o tempo para apresentar obra. O período dos quatro anos de um mandato costuma ser o horizonte temporal que os políticos gostam de usar para fazer uma apreciação da sua obra.


 


Olhemos então para Lisboa ao fim destes quatro anos e para estes mandatos presididos por António Costa. Conseguiu trazer população de volta para a cidade? Conseguiu criar um sistema de recuperação de imóveis degradados? Tem uma política de reabilitação urbana? Conseguiu fazer obras estruturantes? Conseguiu reanimar o comércio de rua? Conseguiu acabar com o estacionamento em dupla fila? Conseguiu reduzir custos?


Não me podem acusar de má vontade se disser que a resposta a estas perguntas é, em todas, um triste NÃO.


 


Mas olhemos de outro ponto de vista: Aumentou as taxas em Lisboa? Reforçou os poderes e a prepotência da EMEL? A cidade está mais suja? Há mais comércio fechado?  A cidade está mais incómoda para os seus habitantes? A cidade está mais insegura? Aqui, em todos os casos, a resposta é SIM.


 


Os mais optimistas dirão: no entanto a gestão de Costa faz parques hortícolas e ciclovias. E eu acrescento: essas obras decorrem  à mesma velocidade a que Lisboa perde munícipes. António Costa encara a cidade como uma rampa de lançamento político para  as suas ambições no PS  - o discurso que proferiu no 5 de Outubro foi o de um líder da oposição e não o de um autarca.


 


Pessoalmente simpatizo com António Costa, mas acho que ele tem sido um mau presidente da Câmara, muitas vezes a colocar interesses partidários à frente dos interesses da cidade. Por isso mesmo tem vivido politicamente graças a alianças espúrias e a compromissos muitas vezes incompreensíveis. António Costa é um honesto político à moda antiga: primeiro os seus objectivos, só depois o serviço aos cidadãos - esta é a razão de fundo para a cidade estar como está.


 


(Publicado no diário Metro de 18 de Outubro)

outubro 11, 2011

POLITIQUICES

Este mês de Outubro tem sido fértil em solavancos políticos. A celebração da intentona que instaurou a confusão republicana foi o pretexto para os primeiros dislates. Na ocasião o Presidente da República apelou ao fim do consumo fácil – mas esqueceu-se que o consumo fácil nasceu enquanto ele próprio era Primeiro Ministro. Também foi nesse tempo que a política do betão, da auto-estrada e da rotundomania se tornou a prioridade nacional e se começaram a liquidar as pescas e a agricultura.


 


Quem não se lembra das campanhas de arranque de vinha, de olival e até de sobreiros? Quem não se lembra das cedências em matéria de pescas a Bruxelas, em troca de dinheiro para o betão? O mesmo Cavaco Silva que se baseou numa estratégia de obras públicas, é o que agora vem falar da necessidade de desenvolver a agricultura e as pescas. Se isto não fosse dramático passava por anedota – ou por arrependimento de circustância, como há dias li numa bem humorada nota no Facebook.


 


Na mesma ocasião, em plena praça do Município, António Costa, em nome da cidade de Lisboa, fez o discurso de líder da oposição. Quem assistisse a isto tudo ficava siderado pela troca dos papéis, pela pinderiquice da cerimónia e pelo retrato de inconstância dos políticos. Ele há cerimónias que só agravam a má imagem que os políticos têm.


 


Dias depois, dos Açores veio a notícia que Carlos César não se recandidata nas próximas eleições regionais. Fico na dúvida se o faz por querer candidatar-se à liderança do PS nacional ou por ter em mente voos mais altos – sei lá, a Presidência da República. Esta decisão de Carlos César, palpita-me, é das que terá mais repercussões na política deste nosso pequeno rectângulo à beira-mar plantado.


 


Finalmente, a semana findou com a Madeira – com a descida de Jardim e a subida do PP, com a queda do PS, com o desaparecimento eleitoral do Bloco de Esquerda e com os resultados de pequenos partidos fora do núcleo tradicional da política à portuguesa. Aposto que também estas eleições deixam muitas pistas para o futuro – em todo o país.


 

outubro 04, 2011

LISBOA, UMA CÂMARA NOSTÁLGICA

Na semana passada fui ver o novo filme de Woody Allen, “Meia Noite em Paris”. O filme foi rodado na capital francesa,  com diversos apoios oficiais e a presença, num simbólico papel de guia, de Carla Bruni. Como se sabe Woody Allen anda há uns anos a realizar bilhetes postais sobre cidades europeias, aproveitando de forma hábil os financiamentos que as respectivas “film commissions” e outras entidades lhe prestam.


 


O filme não tem grande interesse e parte de uma situação de regresso ao passado. O personagem principal é um escritor norte-americano em crise criativa, farto de fazer guiões para Hollywwod, actividade que lhe dá sucesso e dinheiro mas de que ele não gosta. Num passe de mágica, ao bater da meia noite, ele é apanhado para dentro de um clássico modelo de carro francês dos anos 20, que o leva de volta a essa época – cruzando-se em ambientes boémios com nomes como Hemingway, Gertrude Stein, Cole Porter, Picasso, Dali e vários outros.


 


O ponto curioso de tudo isto é que o personagem principal, o tal escritor, é um apaixonado por aquilo a que chama “Lojas da Nostalgia” – onde pode viver como se estivesse no passado, rodeado de objectos de época, num universo de fantasia que lhe permite escapar da realidade.


Este Woody Allen tem no entanto um mérito: fez-me ver que vereadores lisboetas como José Sá Fernandes, Nunes da Silva ou Manuel Salgado, vivem com o objectivo de transformar Lisboa numa “Loja de Nostalgia”. Uma série de medidas que tomam parecem inspiradas no regresso ao passado, sem carros, com poucas pessoas, a forçar as suas obsessões pessoais no mundo contemporâneo, num delirante regresso ao passado que é a principal linha política da vereação de António Costa, em Lisboa.


 


É engraçado como um sector que se afirma de esquerda acaba por ser essencialmente conservador, incapaz de pensar em soluções contemporâneas, preferindo a ilusão romântica dos bons selvagens. Em Lisboa, tal como no filme, vamos comprovando que quando vivemos para mundos que já não existem, a coisa sai furada.


 


(publicado no diário Metro de 4 de Outubro)


 



setembro 30, 2011

Balanço centenário

GOVERNO – Nestes cem dias de governação ficou saliente um problema do regime: continua a existir uma grande contradição entre a energia na obtenção da receita, que a legitimidade dos votos proporciona, e a quebra das promessas que proporcionaram esses mesmos votos. Foram cem dias intensos – três aumentos de impostos, as primeiras decisões de redução do peso do Estado, o cumprimento do calendário do acordo com a troika. Cem dias que foram focados em criar uma imagem diferente, em termos internacionais, da governação de Portugal – espera-se agora que os próximos cem dias sejam dedicados a dar aos portugueses provas de que o país pode mudar para melhor. Observadores atentos de diversas áreas não se cansam de dizer que os próximos cem dias serão decisivos – o Governo tem sabido usar a palavra mudança, todos esperamos que possa começar a conjugá-la com a palavra esperança. Mais – é fundamental conseguir conciliar a austeridade, que tem de ser uma nova regra de vida, com o crescimento económico, sem o qual não há nem confiança nem esperança. Esta semana gostei de ouvir, numa conferência do «Jornal de Negócios», o Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, a dizer preto no branco que a energia tem que estar ao serviço da economia e não a economia ao serviço da energia. A frase sintetiza uma alteração de comportamento – esperemos que efectiva. E gostei de ouvir o mesmo Ministro defender um reforço da competitividade das exportações portuguesas com recurso a portos marítimos mais eficazes e a linhas ferroviárias de bitola europeia, pensadas para transporte de mercadorias, a norte e a sul. Foi a primeira hipótese alternativa ao TGV que me pareceu interessante e possível. O próximo desafio do Governo – e não é pequeno - é concretizar os planos que elaborou nestes 100 dias.



OPOSIÇÃO – Nestes cem dias de Governo o PS fez um Congresso e mudou de direcção. O Congresso foi uma espécie de reciclagem dos pecadores, sem o ritual da confissão. Bastou a presença  no templo e passaram de pecadores a perdoados sem necessidade de arrependimento. A nova direcção do PS está a caracterizar-se por um vazio ideológico total e tácticas surpreendentes – negativas, entre a falta de noção da realidade e a mais baixa demagogia. Em jeito de balanço dos cem primeiros dias da Governação, António José Seguro resumiu desta forma o Estado da Nação: «O Governo passou os 100 primeiros dias a discutir a tutela do AICEP». No Congresso, o PS recusou-se a olhar para a realidade, para as más políticas que implementou no país. Agora o seu novo líder recusa-se a olhar para aquilo que, concorde-se ou não, tem sido feito pelo actual Governo. A desonestidade intelectual não é um bom programa político para nenhum partido de oposição.


 


ASAE – Esta semana soube-se que uma multa imposta pela ASAE à Livraria Barata tinha sido anulada pelo Tribunal. Há muito que não se ouvia falar da ASAE, esse símbolo dos primeiros anos do Governo Sócrates. A acção contra a livraria Barata é exemplar da forma abusiva como a ASAE actuou e como criou uma imagem de intolerância e prepotência. António Nunes foi o rosto desses abusos, o rosto de uma forma de funcionar que visava criar o medo, mais que prevenir ou esclarecer. A ASAE que foi derrotada em Tribunal é um dos resquícios que temos da forma de agir de Sócrates – os fins justificam os meios. Também aqui há muita coisa para mudar.


 


TV – Cada vez que se pensa na definição e competências do serviço público de televisão deve-se ter em conta os dados do novo relatório da Anacom, relativo à evolução do serviço de televisão por subscrição no segundo trimestre deste ano mostra um crescimento de 7,4% no número de assinantes, em relação ao período homólogo de 2010. O total de assinantes é agora de 2,848 milhões, o que significa aproximadamente 70% das famílias. O grande motor do crescimento do mercado tem sido a instalação de fibra óptica - o número de utilizadores de fibra óptica mais que duplicou entre o segundo trimestre do ano passado e o segundo trimestre deste ano, com o MEO a ser o único operador a crescer em quota de mercado. O operador com maior número de clientes continua a ser a Zon, com 55,8% do total, seguida da PT/MEO com 32,3% e da Cabovisão com 9%. Actualmente mais de metade dos assinantes dispõe de acesso a mais de 80 canais. O mundo já mudou, o serviço público é que não.


 


ARCO DA VELHA – Joe Berardo revelou esta semana que, há uns anos atrás, quis contratar Pinto da Costa para dirigir o Benfica oferecendo-lhe  500.000 contos pela transferência das Antas para a Luz.


 


SEMANADA – Foi extinta a Fundação para as Comunicações, a gestora do projecto Magalhães, que terminou com 70 milhões de euros de dívidas; o número de particulares que pediram insolvência aumentou 156% em relação a 2010; o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu arquivar a queixa contra o Director da Revista Sábado, acusado pelo Ministério Público de ofensa à honra do Presidente da República por ter criticado o seu discurso de posse do segundo mandato; o homem mais rico da China, um industrial da Construção, está na lista para entrar no Comité Central do Partido Comunista Chinês; a frase da semana pertence a Augusto Mateus: «a Europa não pode continuar a ser uma fotografia de grupo de 27 pessoas sorridentes que, face a uma emergência, prometem uma solução para daqui a três meses».

LER – A «Wallpaper» assinalou a sua edição 150 com um número especial que revisita algumas das melhores escolhas da revista nos últimos 15 anos e a lista de 150 personalidades que marcaram a época. Fundada por Tyler Brulé, que depois a vendeu e, anos mais tarde, criou a «Monocle», a «Wallpaper» foi a partir do final dos anos 90 do século passado um guia sobre cidades, criadores, moda, designers – enfim, um manual de cultura urbana. Nesta edição destaco a reportagem dedicada ao renascimento de Roma, o clube privado concebido por David Lynch em Paris, um artigo sobre os directores de arte das grandes campanhas de moda dos últimos anos e. para terminar, as duas páginas sobre o L’And Vineyards, um projecto do arquitecto brasileiro Marcio Kogan, a quem o proprietário das vinhas, José Cunhal Sendim, encomendou o projecto, que fica perto de Montemor-o-Novo.


 


VER – Em termos de exposições a rentrée lisboeta está animada. No Museu Berardo (CCB) está uma exposição retrospectiva do brasileiro Vic Muniz, um cartão de visita á actividade deste artista que integra uma centena de obras; Rui Chafes mostra desenhos inéditos na Galeria João Esteves de Oliveira, ao Chiado; no espaço BES ARTE, no Marqu~es de Pombal, está uma exposição fantástica de fotografas de Gérad castello Lopes – absolutamente imprescindível;  e por vários locais da cidade, do MUDE ao Convento da Trindade, passando pelo antigo Tribunal da Boa Hora decorrem actividades da Experimenta Design, agora na sua semana inaugural – todas as informações em www.experimentadesign.pt .


 


OUVIR – Os Nirvana fizeram o histórico CD «Nevermind» há 20 anos. Canções como «Smells Like Teen Spirit», «Come As You Are» ou «Lithium» integravam os 12 originais que ajudaram a fazer de Kurt Cobain um mito. Para assinalar o 20º aniversário da edição  a Universal preparou uma edição com dois CD’s que reúne, para além do álbum original, nove temas que constituíram os lados B de outros tantos singles da banda. Além disso esta edição inclui registos antes nunca editados que passam por concertos ao vivo, actuações em programas de rádio, gravações de ensaios e demos de trabalho. Para encerrar, o booklet que acompanha esta edição inclui fotografias inéditas e diverso novo material gráfico. É uma edição magnífica, à venda na FNAC e El Corte Ingles.


 


PETISCAR  – Em Espanha, os presuntos 5J são sinónimo de qualidade. A marca remonta a 1879, e tem aberto alguns espaços de petiscar em locais seleccionados. O primeiro desses locais em Portugal abriu há uns meses no sétimo andar do El Corte Ingles, em Lisboa. Ali se pode provar o presunto, com um corte impecável  - já agora, porque é que por cá se corta tão mal o presunto? Mas também há outros petiscos, como lombo ibérico,  achovas de santona com queijo de cabra e beterraba, e ovos estrelados ou em tortilla, com várias possibilidades de ingredientes. Em suma uma casa de tapas onde não faltam uns deliciosos croquetes de presunto que por si só valiam uma deslocação. A carta de vinhos espanhóis é simpática e a cerveja de pressão é a magnífica Mahou. Aqui está um grande sítio para petiscar


 


BACK TO BASICS – Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo - Victor Hugo


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de setembro)


 

setembro 29, 2011

QUEM VÊ TV?

Cada vez mais portugueses vêem televisão através de serviços de subscrição – cabo, satélite, fibra, etc. Na realidade o número de clientes destes serviços não pára de aumentar – no primeiro semestre deste ano o número de assinantes cresceu 7,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O total de casas que compram o acesso a serviços de TV atinge já os 2,85 milhões, o que quer dizer que 70% das famílias tem acesso a pelo menos meia centena de canais. Apenas 30% da população vê TV através das velhas antenas – e sobretudo em zonas do interior do país.


 


Os espectadores estão cada vez mais divididos. Na semana passada cerca de 29% optaram por ver canais de cabo em detrimento dos canais de sinal aberto (RTP 1 e 2, SIC e TVI). A TVI, que continua a liderar obteve 26% de audiência, contra 22,5% da SIC e 18,9% da RTP 1 e 3,9% da RTP 2.


 


Secret Story, jogos de futebol, as novelas Remédio Santo e Laços de Sangue, telejornais e a entrevista a Pedro Passos Coelho ocuparam a lista dos dez programas mais visto, numa semana em que 80% dos portugueses seguiram nalgum momento emissões de televisão.


 


E no cabo, o que se passa? – A SIC Notícias é sistematicamente o canal mais visto – os outros canais de informação estão longe – a RTP N vem em 8º lugar no top do cabo e a TVI 24 surge em 10º lugar.


 


A seguir à SIC Notícias os mais vistos na semana passada foram AXN, Hollywood, Sport TV e Fox – os cinco magníficos do cabo que conquistam a atenção de mais portugueses – o sexto é o Panda, para os mais miúdos.


 


Há 20 anos ainda não existiam canais privados – a SIC nasceu em 1992, a TVI em 1993 e a TV Cabo surgiu em 1994. Em menos de duas décadas os hábitos de consumo de televisão e as exigências dos espectadores por mais oferta não pararam de aumentar. E hoje há canais para todos os gostos. A qualquer hora.


 


Quando se fala de serviço público e da reestruturação da RTP é bom ter estes números presentes. O mundo mudou muito em 20 anos – até que ponto faz sentido o Estado hoje deter estações de televisão?


 


 


(publicado no diário Metro de dia 25 de Setembro)