julho 29, 2011

Popey tinha um amigo chamado Wimpy - deixou marca em Portugal

FIADO - Todos os dias aparecem nos jornais relatos de dívidas acumuladas em todo o género de organismos públicos – da saúde à segurança, passando pelos próprios serviços centrais dos ministérios. Ao longo dos últimos anos é como se alguém se tivesse esquecido de fazer contas ou, então, tivesse decidido passar a viver fiado.  Esta estranha forma de vida depressa passou do Estado para a sociedade e o resultado está à vista. Wimpy, uma personagem das histórias de Popey, parece ter sido o inspirador da maneira de viver do Estado nos últimos anos. Uma das frases preferidas de Wimpy era : terei todo o prazer em te pagar para a semana o hambúrguer que quero comer hoje. Tirar o síndroma Wimpy da vida portuguesa, e sobretudo do Estado, vai demorar tempo mas é fundamental. Popey comia espinafres para ficar mais forte – reduzir custos no Estado todos os dias é a dose de espinafres que se recomenda ao Governo.


 


MEMÓRIA - Acho muita graça a todos os que agora aparecem cheios de pruridos em relação à Caixa Geral de Depósitos. Não me recordo de ver esses notáveis críticos de hoje muito preocupados quando a Caixa tinha Armando Vara como figura de destaque, quando a CGD financiou especuladores bolsistas, quando financiou o ataque ao BCP – para onde Santos Ferreira, então presidente da Caixa, havia de transitar, ou quando se meteu como parceira financeira de negócios mais que privados. No tempo da especulação andaram muito caladinhos, agora que se prepara o arrumar da casa apareceram logo aos gritinhos.


 


FIDELIDADES - Uma coisa extraordinária nestas recentes eleições do PS é a forma como nenhum dos candidatos ousou sequer fazer o balanço da última década do partido a cuja liderança ambicionavam ascender. De Seguro e Assis não ouvi uma palavra sobre Sócrates. Apesar das loas tecidas ao anterior Primeiro Ministro e ao seu estilo de governação no último congresso do PS, não ouvi nenhum dos candidatos a líder proclamar-se como sucessor de José Sócrates. Não ouvi nenhum dos candidatos elogiar nada do que o anterior chefe do governo tenha feito. Não ouvi nenhum dizer que quereria retomar o seu projecto para Portugal – aliás não ouvi nenhum falar de qualquer projecto que não fosse fazer oposição. Mas já ouvi, esta semana, depois de ser eleito, António José Seguro a atacar as medidas do Governo e a distanciar-se dos planos de austeridade. Pareceu-me um discurso muito parecido com os momentos de desvario, afastados da realidade , a que Sócrates nos habituou. E é sempre curioso verificar como Seguro opta por nada dizer do que Sócrates fez e estar já todo entusiasmado a atacar o que se começa a fazer. Seguro vai mostrando como prefere a politiquice à política. Nada que me espante.


 


FACILIDADES - Um dos mistérios do processo da recomposição do mapa das freguesias de Lisboa é descobrir como é que António Costa se conseguiu entender com a distrital do PSD de Lisboa, mas não conseguiu um entendimento com os seus camaradas de partido, de Loures, para a criação da necessária freguesia da Expo. Será que não a acha necessária ou esqueceu-se que aqueles que lá vivem, na sua maioria, são lisboetas que votam aqui? Tenho para mim que há uma explicação – mais vale uma negociata partidária debaixo da mesa do que uma discussão séria sobre matérias importantes. 


 


ARCO DA VELHA – Alfredo Barroso, muito enfastiado e aborrecido, considerando-se ofendido por não ser tratado por «Dr.» num debate televisivo.


 


VER – Muito interessante a exposição «New World Parkville» de Margarida Correia, que estará até 18 de Setembro no Museu da Electricidade. Através de fotografias e objectos Margarida Correia revisita a comunidade portuguesa em Parkville, Hartford,  no Connecticut. O projecto começou em 2009 como um projecto de arte pública encomendado pela Real Art Ways, uma organização alternativa de artes de Hartford. Margarida Correia mergulhou na comunidade emigrante portuguesa, fotografou-a, recolheu objectos, copiou documentos e no fim deteve-se em algumas figuras marcantes, como o locutor de uma rádio local, Manuel Gaspar, ou o filho da fadista Maria Alves. A fotografia é neste projecto apenas um parte dos meios utilizados para retratar a memória desta comunidade, numa exposição que, no fundo, mostra um dos lados da saudade.


 


LER – Quem financiou o ataque às Torres Gémeas de Nova York? A revista «Vanity Fair» de Agosto dedica 13 páginas ao assunto e explora detalhadamente as várias possibilidades, na pré-publicação do livro «The Eleventh Day» de Anthony Summers e Robbyn Swan. Os autores falam dos estados árabes que ao longo dos anos foram dando dinheiro a Bin Laden, e revelam que um relatório de 28 páginas da comissão de inquérito do senado continua a ter partes censuradas e secretas, dez anos depois do atentado. Já para não falar dos expedientes da casa Branca, nessa altura habitada por George Bush, para afastar algumas provas levantadas pelos investigadores.


 


OUVIR – Neste caso a melhor palavra seria OUVER – porque o destaque desta semana vai para um DVD que agrupa o melhor das três históricas exibições de Elvis Presley, em 1956 e 57, no célebre programa de televisão norte-americano «The Ed Sullivan Show». Foi aí que Elvis passou a ser um fenómeno – no primeiro dos programas de Ed Sullivan em que apareceu Elvis teve uma audiência de 80% do total dos espectadores, aproximadamente um em cada três americanos seguiu a apresentação. Transmitido no Domingo à noite o programa era destinado às famílias –e a sensualidade de Elvis chocou puritanos e ganhou-lhe o reconhecimento de toda uma geração. Um mês e pouco depois, a 28 de Outubro, repetiu a dose e mostrou como as suas ancas se moviam, ao som de «Hound Dog». Rebentou a escala das audiências e nos Estados mais conservadores queimaram-se retratos de Elvis. A sua derradeira presença no «The Ed Sullivan Show» foi a 6 de Janeiro de 1957 e o realizador teve o cuidado de filmar Elvis Presley apenas da cintura para cima – só não contou com os trejeitos que ele fez com a boca. «Elvis – The Ed Sullivan Show Classic Performances» agrupa ainda imagens inéditas de uma das primeiras actuações do cantor em 1955 e alguns filmes que o mostram, anos depois, com Priscilla e vários amigos.


ound Dog ou Heartbreak HotelH


 


NAVEGAR – Já imaginou o que é estar na praia, num belo banho de mar, e passar ao pé de si um carrinho de gelados anfíbio? Naqueles dias de muito calor nada como um magnum sem ter que ir ao areal, não é? Se folhearem a mais deliciosa revista portuguesa online – www.magneticamagazine.com – poderão ler o especial sobre gelados e esta geladaria anfíbia.


 


PROVAR – Numa destas noites de Agosto vale a pena ir ao Faz Gostos, o restaurante que Duval Pestana fez em Lisboa para mostrar o que é a melhor cozinha do Algarve. Baseado em peixe e mariscos fresquíssimos, o Faz Gostos, nesta época do Verão, só funciona aos jantares. Se  gostam de frituras de peixe, experimentem os filetes de peixe galo com arroz de amêijoas e peixinhos da horta, ou as lasquinhas de pescada com açorda, uma verdadeira especialidade. Nas entradas deixem-se levar por um cone de massa folhada finíssima recheado de sapateira fresca e, na sobremesa, experimentem o semi frio de alfarroba. Seguramente este é hoje em dia dos melhores sítios em Lisboa para comer bom peixe muito bem cozinhado. Serviço eficaz, sala muito confortável e bonita. Rua Nova da Trindade nº11 (frente à Cervejaria Trindade), telefone 213 472 249


 


BACK TO BASICS – Só podemos realmente ter opiniões imparciais quando se trata de coisas que não nos interessam – Oscar Wilde


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 29 de Julho)


 

julho 28, 2011

REINVENTAR O FUTURO

À minha volta vejo que vários amigos meus este ano optaram por não fazer as férias que nos últimos anos faziam. Vários tiveram diminuições consideráveis de rendimento – ou pelo desemprego ou simplesmente porque a crise lhes tocou à porta.  Alguns optam por praias perto de Lisboa e outros redescobriram as suas origens no interior - e em vez de partirem para fora, resolvem ir mostrar Portugal aos seus filhos. Alguns voltam mesmo às aldeias que eram dos seus pais ou avós.


 


Este é o lado positivo da crise – as pessoas agarram-se ao que têm e não se deixam deslumbrar com fantasias. Andámos anos demais a imitar as telenovelas – e as telenovelas não são a vida real. Portugal criou um padrão de consumo que nos era estranho. Começámos a importar frutas tropicais e esquecemos a pêra rocha, os abrunhos, as laranjas do Algarve. O Miguel Esteves Cardoso fala muito destes prazeres portugueses a que virámos costas. Na edição de ontem do Público um produtor das belas laranjas do Algarve, José Mendonça, fazia uma boa descrição do que se passa: «O problema deste país não é produzir, que nós sabemos fazê-lo, o problema é comercializar, é vender. Os grandes grupos - Sonae, Jerónimo Martins, Auchan - abafaram tudo o que havia de retalho, as mercearias de bairro. Morreu tudo. São eles que ditam as regras. E nós temos que produzir como eles querem e ao preço a que querem».


 


Crescemos de forma desequilibrada – permitimos demasiados centros comercias dentro das cidades, ajudámos a destruir o comércio tradicional e deixámos de querer os produtos nacionais, preferindo laranjas envernizadas e sensaboronas às da nossa própria produção. Também isto tem que mudar – e o regresso às raízes, que aos poucos se nota, pode ajudar-nos a pensar como é importante mudarmos alguns dos nossos hábitos de vida. Algumas pessoas, como este produtor de laranjas, mostram que é possível voltar a trabalhar a terra. E que é nas coisas simples que se pode reinventar o futuro.


 


(publicado no diário Metro de 27 de Julho)

julho 22, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de dia 22)

POLÍTICA – As eleições no PS são um bom pretexto para reflectir sobre a política, sobre a relação dos cidadãos com os partidos e sobre a forma destes se relacionarem com a sociedade. No caso do PS, no início deste processo eleitoral para escolher o novo secretário-geral, percebeu-se que existia um número relativamente reduzido de militantes de facto activos e com quotas pagas e, por outro lado, percebeu-se que foram liminarmente rejeitadas duas propostas de Francisco Assis que visavam uma tentativa de maior ligação do aparelho partidário à sociedade civil  – uma espécie de primárias em que pudessem votar simpatizantes (e não apenas militantes) e a presença de jornalistas nos debates internos. Nestas eleições tudo segue como habitualmente, a arregimentar apoios de responsáveis distritais, de dirigentes do aparelho e de notáveis. O maior argumento de eleições internas – no PS e no PSD – é de facto o bom uso do telemóvel para conquistar os votos da máquina do aparelho. Não vislumbrei (apesar do esforço de Assis, diga-se em abono da verdade), nenhum esforço sério para discutir ideias ou estratégias para o país e não apenas para a forma de fazer oposição e politiquice.


 


Um outro sinal dos novos tempos políticos tem sido dado por dois comentadores da área do PSD – Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa, que estão a passar por uma fase em que gostam de ser portadores de notícias e não apenas de opinião. É o reflexo, ao espelho, daqueles jornalistas que escrevem notícias com opiniões em vez de factos. Agora, é de bom tom que nas notícias haja opinião e que na opinião haja notícias – esta é a verdadeira tabloidização da comunicação em Portugal.


 


LISBOA – António Costa foi eleito pela primeira vez Presidente da Câmara há quatro anos, completados no dia 15 de Julho. A cidade não está melhor; na realidade está mais degradada. Vou dar um exemplo do que é incompreensível: a Elias Garcia está interrompida no sentido Av. 5 de Outubro- Av da República, devido a um prédio em ruína, mas, desde Dezembro, altura em que a faixa foi encerrada, ainda não foi colocado um único sinal a avisar do sucedido à entrada do troço interrompido. No cruzamento têm sido frequentes as travagens bruscas e os acidentes.


 


Os cidadãos deixaram de ser a prioridade, que tem sido a reforma administrativa da cidade, feita aliás de forma polémica, desde o conteúdo até aos nomes escolhidos para as novas freguesias. Lisboa está paralisada, à excepção das manifestações folclóricas dinamizadas pelo vereador Zé que não faz falta.  Em quatro anos António Costa fez muito pouco pela cidade e pelos munícipes que aqui pagam impostos. A cidade está mais desconfortável para quem cá vive, ele tem sido um mau Presidente.


 


SEMANADA – A Secretaria de Estado da Cultura conseguiu resolver, em poucas semanas, o diferendo que se arrastava desde há mais de um ano entre os herdeiros de Jorge de Brito e o Estado, a propósito da obras de Vieira da Silva depositadas na fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva, uma coisa que o Ministério de Canavilhas não conseguiu durante mais de um ano - caso para dizer que mais vale uma Secretaria de Estado que decida, que um Ministério indeciso. 


 


Noutro contexto, a imprensa relatou que, numa reunião de organismos distritais do PSD, na semana passada, pelo menos três líderes distritais chamaram a atenção para a necessidade de ter um interlocutor que "agilize" os contactos, não só do partido, mas também dos presidentes de câmara eleitos pelo PSD, com os ministérios, em especial aqueles que são tutelados por independentes ou pelo CDS.  Julgava que o Governo devia falar com eleitos de todos os partidos de forma igual, mas pelos vistos enganei-me.


 


ARCO DA VELHA – As transferências que a Segurança Social faz para o fundo que garante o pagamento das pensões no futuro pararam há quatro meses. Que mais iremos descobrir escondido debaixo dos tapetes?


 


LER – Muito oportuno o livro «A Televisão e o Serviço Público», na colecção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O seu autor , Eduardo Cintra Torres, investigador universitário e crítico de televisão, foi um dos redactores do Relatório elaborado em 2002 sobre o serviço Público de Televisão (declaração de interesse: também integrei o mesmo grupo de trabalho). Numa centena de páginas o autor faz uma boa resenha histórica da evolução da televisão em Portugal, nalguns momentos com comparações com o cenário internacional; a parte final é mais focada no conceito do serviço público e chega mesmo a apresentar uma proposta programática para um funcionamento futuro da RTP.


 


Pessoalmente gostaria de ver reflectido, neste contexto, qual deve ser o papel estratégico do Serviço Público no fomento de uma indústria audiovisual, sobretudo na área do desenvolvimento da produção independente – por exemplo não se analisa o facto de em Portugal as estações serem elas próprias, ou através de empresas instrumentais em que participam, as produtoras da maior parte dos conteúdos nacionais de ficção, ao contrário do que acontece nos países mais desenvolvidos do ponto de vista da indústria audiovisual.  No essencial o livro é um bom levantamento da situação e um contributo para um debate que vai aquecer os ânimos daqui a algum tempo, mesmo que nalgumas questões de audiometria e de programação tenha pequenas falhas ou omissões.


 


OUVIR – A colecção Original Jazz Masters Remastered, que a Concord/Universal edita, acaba de disponibilizar uma versão remasterizada a 24 bits do disco «Something Else!!!», a gravação de 1958 que colocou o saxofonista  Ornette Coleman definitivamente no primeiro plano dos músicos de jazz. A acompanhá-lo, outros quatro grandes músicos: Don Cherry no trompete, Walter Norris no piano, Don Payne no baixo e Billy Higgins na bateria. Este disco, o primeiro da carreira de Ornette Coleman, foi considerado na altura algo de muito inovador e surpreendente, através das ligações que retomava, de forma livre, dos blues com o jazz  -  é mesmo considerado um dos trabalhos que mais contribuíu para abrir novos caminhos na música. Todos os temas são originais do próprio Coleman, que tinha 28 anos e cujo trabalho principal, na época, era ser ascensorista num dos grandes armazéns comerciais de Nova Iorque.


 


VER – Desde o passado dia 4 de Julho é possível ver a nova proposta de exposição permanente do Museu Berardo, baseada na sua própria colecção.  Ao todo são 250 obras, de nomes como Picasso, Duchamp, Dali ou Francis Bacon, entre outros, e que permitem fazer uma viagem pelas principais tendências das artes plásticas ao longo do século XX. Esta é a primeira selecção de peças da colecção já orientada pelo novo responsável do Museu, Pedro Lapa. Além desta, permanente, existem mais três exposições temporárias patentes até finais de Agosto ou início de Setembro: «Five Rings», de Olga Barry e Rui Chafes; «Cem Vezes Nguyen», de Alfredo Jaar; e «One After Another, a Few Silent Steps», de Pedro cabrita Reis – todas têm entrada gratuita, domingo a sexta das 10h00 às 19h00 e sábados das 10 às 22h00. Até ao fim de Julho, às sextas, sábados e domingos, assinalando o 4º aniversário, o Museu Berardo fica aberto até às 24h00 com bar esplanada, DJ’s, no terraço do Piso 2.


 


PROVAR – Encontrar um bom bitoque, ainda por cima sem batatas fritas pré-congeladas, não é coisa fácil. Há casas que fazem gala em utilizar uma peça da carne de vaca derivada da sola de sapato para a confecção do referido prato; outras têm acessos súbitos de criatividade nos molhos, destinados a esconder a falta de qualidade dos ingredientes. Na Marisqueira Roma o bitoque é de lombo, confeccionado como deve ser, com gordura q.b., alho e louro, e a carne vem cozinhada como se pede. O corte da carne é apropriado e a altura e dimensão do naco são adequados ao preço, razoável e simpático. A acompanhar vêm batatas fritas às rodelas, finas e caseiras, sem óleo a mais, estaladiças. A casa tem fama de ter umas boas amêijoas e há quem lhe elogie a sapateira e a imperial é bem tirada. Num destes almoços de verão outonal constatou-se a qualidade do bitoque do lombo, e o conforto da pequena esplanada,  abrigada do sol e do vento. Para sobremesa recomenda-se uma visita à Casa do Gelado, mesmo ao lado, no número 28. A Marisqueira Roma fica na sempre agradável Avenida de Roma, 30-A , tel. 218446100


 


BACK TO BASICS – Todos os impostos pagos por um cidadão, de rendimento médio, ao longo de toda a sua vida, são consumidos pelo Governo enquanto o diabo esfrega um olho – vox pop


 

julho 19, 2011

DESEMPREGO: SOLUÇÕES PRECISAM-SE

Este ano tem sido frequente encontrar pessoas entre os 50 e os 60 anos que, por uma razão ou por outra, se encontram subitamente no desemprego. Muitos fazem parte de um novo grupo de desempregados - são pessoas qualificadas, com experiência, e que não conseguem encontrar trabalho. Alguns estão numa situação em que nem conseguem trabalho, nem têm qualquer espécie de apoio e não atingiram a idade da reforma. Estão a viver de algumas poupanças que tinham de lado e que um dia destes acabarão. Olham para o futuro com apreensão, depois de terem trabalhado muitos anos. Sentem que a sociedade não aproveita o que sabem fazer.

Nos últimos anos tem crescido este tipo de desemprego qualificado e o nosso sistema de apoio aos desempregados não está preparado para os receber e para conseguir dar-lhes ajuda. O sistema que temos está vocacionado para empregos pouco diferenciados, com níveis de instrução baixos.


 


Quando aparece alguém com 20 anos de experiência em cargos de coordenação ou direcção, formação superior e diversas especializações, não sabe o que fazer e é incapaz de dar qualquer resposta - e não tem sequer enquadramento possível. Com o que aí vem e já começou – insolvências, fusões, redução de custos – este leque de desempregados da classe média vai crescer de forma rápida.


 


Nos próximos meses vamos começar a assistir ao drama de algumas destas pessoas – e às vezes famílias inteiras -  que deixam de ter subsídio de desemprego, não conseguem mesmo encontrar trabalho, porventura podem ainda estar acima dos limiares de continuar a receber apoio, e não sabem o que hão-de fazer. Estes novos desempregados são atirados para a inactividade forçada, até porque as leis laborais que temos não facilitam a contratação de pessoas assim – de forma temporária, sem contratos a termo. Se a sociedade não criar formas de os enquadrar – com vantagens especiais aos empregadores e outros mecanismos de incentivo – os próximos tempos vão ser terríveis.


 


(publicado no Metro de 19 de Julho)


 

julho 15, 2011

(publicado nbo Jornal de Negócios de 15 de Julho)

CRISE – A crise é o que é e nasceu como todos sabemos. Mas mesmo assim seria curioso saber que notação seria dada à Moodys e a outras agências de rating pelo seu desempenho na avaliação dos riscos do subprime e de tudo o que se lhe seguiu. As agências de rating são um fruto do sistema e replicam os comportamentos especulativos alimentados pelo próprio sistema. Se o sistema não ganhar racionalidade, não serão certamente as agências de rating a implementar essa racionalidade, que em boa verdade é contrária à sua razão de ser. Mas também é escusado imputar todas as culpas da crise a organismos como essas agências, que na realidade funcionam mais como grupos de pressão do que como barómetros da realidade.


 


Gostava de deixar aqui uma nota. O foco no comportamento das agências de rating é certamente importante – mas não pode obscurecer nem desviar as atenções de uma outra coisa:  actualmente vivemos, sofrendo, o resultado dos disparates de uma geração de políticos deslumbrados que colocaram a Europa, e os negócios que ela proporcionou, à frente de Portugal. São os mesmos políticos que hoje se queixam que a Europa é mal governada porque já não são eles nem os seus contemporâneos que lá estão – e sobretudo não querem assumir que foram ingénuos ao acreditar que a Alemanha e a França seriam solidárias quando nunca o foram na História. A Europa, como hoje está, é fruto da forma como foi construída, para beneficiar a ambição da Alemanha e o posicionamento da França. O problema foi que por cá se espalhou a ideia de que seríamos os grandes beneficiários – sem ninguém verdadeiramente se ter preocupado em fazer bem as contas.


 


LISBOA – A gestão do espaço público em Lisboa começa a ser um caso de polícia. Já nem vou falar do despudor com que se aluga a Avenida da Liberdade a uma cadeia de supermercados. Vou-me limitar a falar sobre a forma arbitrária como se trata da questão das esplanadas. Aparentemente há critérios diferentes em vários pontos da cidade; os regulamentos, quando existem, são confusos e por vezes contraditórios; os tempos de resposta da Câmara, no pelouro do vereador Sá Fernandes, a pedidos e licenciamentos ultrapassam o razoável; há decisões que parecem persecutórias e baseadas em critérios pessoais.


 


O resultado de tudo isto é que o espaço público da cidade está transformado num caos onde nalguns sítios as esplanadas são apenas suporte publicitário a marcas de refrigerantes ou de cerveja, e noutros locais, onde até há cuidado com o mobiliário utilizado, tudo é proibido e dificultado. As coisas não estão a funcionar bem e há suspeitas, legítimas, de parcialidade ou perseguição na apreciação e nas decisões tomadas. O Presidente da Câmara de Lisboa faria bem em retirar a Sá Fernandes a gestão dos espaços públicos da cidade, antes que ele faça mais estragos e comece a provocar situações graves do ponto de vista da vida económica de Lisboa.


 


 


SEMANADA – A Moody’s desceu o rating de Portugal; a Moody’s desceu o rating de empresas e bancos portugueses; a Moody’s desceu o rating da Irlanda; os bons espíritos só se começaram a preocupar por essa Europa fora quando Espanha e Itália começaram a aparecer como potenciais futuros alvos; os dirigentes Europeus continuaram, após meses de degradação da situação, sem ser capazes de tomar uma posição política ou sequer de chegarem a um acordo sobre medidas conjuntas a tomar.


 


ARCO DA VELHA – O Provedor de Justiça recebeu desde 2009 até agora tantas queixas contra a EMEL como nos seis anos anteriores.


 


LER – Quem deve gerir uma empresa? Aqueles que sabem do produto que origina a facturação da empresa, ou aqueles que contam os feijões? A discussão é antiga mas é o tema central de um livro de Robert Lutz, « Car guys vs bean counters - the battle for the soul of american business». Lutz foi vice-presidente da General Motors, da Ford, da BMW e da Chrysler e esteve 47 anos na indústria automóvel, sempre com bons resultados. No livro defende a tese de que os contadores de feijões, oriundos dos MBA’s (sim, chama os bois pelos nomes…), estão apenas focados nos resultados de curto prazo, em vez de se preocuparem com o produto e os consumidores – e que a corrida à obtenção de resultados trimestrais está a destruir o tecido produtivo sem criar nada de valor. Lutz aponta Sillicon Valley como um local onde se criam empregos, se aumenta a produtividade e riqueza, exactamente porque o foco está na criação da relação entre os produtos desenvolvidos e os consumidores. E cita, a propósito, o caso da Apple, que há uns anos atrás ía sendo levada ao tapete quando foi gerida essencialmente por MBA’s e que foi salva com base na criação de novos produtos e na relação com os consumidores, os sagrados mandamentos de Steve Jobs. O livro pode ser polémico, mas nestes tempos em que toda a gente se queixa da falta de crescimento económico, tem a vantagem de voltar a colocar na ordem do dia a velha questão de saber quem pode melhor desenvolver o negócio.


 


 


VER – As galerias da Rua da Boavista 84 são um dos melhores locais de Lisboa onde, em matéria de arte, se podem vislumbrar pistas diversas para ver o mundo e a criação artística. Por estes dias a Plataforma Revólver espalhou-se por dois espaços do edifício Transboavista. No primeiro está a exposição «At The Edge Of Logic», que agrupa obras de sete artistas com utilizações muito diversas da fotografia, com destaque para Ania Dabrowska, Benjamin Baker, Rita Soromenho e Tess Hurrell. Um piso acima, no mesmo edifício, a fotografia é de novo o tema de «Quinze Ensaios», uma mostra de trabalhos realizados na primeira edição da pós graduação «Fotografia, projecto e arte contemporânea», de alunos do Instituto Superior de Estudos Politécnicos. São trabalhos estimulantes, com destaque para Cátia Mingote, Cláudia Rita Oliveira, Jorge Gonçalves e Diogo Simões. Finalmente este ciclo de exposições tem o ponto alto, na VPF Creamarte, com uma instalação de Gustavo Sumpta, «Um Sopro na Valeta», que é um trabalho verdadeiramente surpreendente, intimamente ligado com os tempos que vivemos e com a imposição de normas cada vez mais apertadas.


 


OUVIR – A ideia de partida era arriscada: Aldina Duarte pediu a uma série de autores, como Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, José Mário Branco e José Luis Gordo, para construírem letras escritas a partir de obras literárias, mas que obedecessem á métrica e à rima das estruturas poéticas das melodias do fado tradicional.  Aldina Duarte, que também se meteu à escrita, seleccionou as melodias para as letras entretanto criadas a partir de obras de Eurípedes, Tennesse Williams, Herman Hesse ou Eugene O’Neill, para citar apenas algumas das inspirações. O resultado é que nasceram alguns belos novos fados e permito-me destacar «Fogo Sem Fumo», de José Mário Branco e «Ainda Mais Triste», de Manuela de Freitas. Desde 2008 que Aldina Duarte não gravava e este CD «Contos de Fado» mostra uma voz mais segura e contida, exemplarmente sóbria numa época em que, nos mais recentes discos de fado, abunda a exuberância excessiva e desnecessária.



PROVAR – Finalmente fui experimentar o Darwin Café, o restaurante da Fundação Champallimaud, junto ao rio, antes da antiga Docapesca. Este é um daqueles locais que começa por se comer com os olhos - a arquitectura do edifício, a forma como se relaciona com o rio e com a Torre de Belém, mas também a arquitectura da sala, com o pé direito imponente e a luminosidade ribeirinha. A sala é confortável e ampla, a decoração é inspirada – desde os candeeiros às paredes falsas. Uma vez bem sentados (desde que tenha sido feita reserva atempada), passamos à comida. Nada é excepcional, mas tudo pareceu bem – nomeadamente o lombo de bacalhau fresco em crosta de broa e os tentáculos de polvo com échalottes. Nos doces a torta de cenoura com gengibre estava acima da média. A carta de vinhos é puxadota no preço, nalguns casos de forma desproporcionada. O serviço é hesitante, às vezes distraído, mas o local é tão agradável e confortável que o sofrimento é minorado. Tel. 210 480 222


 


BACK TO BASICS – Neste mundo circulam muitas mentiras, mas o pior de tudo é que metade delas são de facto verdades – Winston Churchill

julho 12, 2011

E os peões, Dr. António Costa?

(publicado no diário Metro de 12 de Julho)


 


Aqui há umas semanas um artigo que escrevi sobre a forma como a utilização de bicicletas em Lisboa é desproporcionalmente protegida gerou alguns protestos, uma boa parte deles em tom de fanatismo fundamentalista. Sendo os fundamentalistas o que são – a começar pelo vereador José que não faz falta – esclareço já que este texto não lhes é dirigido. É dirigido áqueles que na Câmara Municipal de Lisboa ainda tenham algum bom senso.


 


Nada me move contra a utilização de bicicletas – cada um é livre de pedalar como quiser. O que não me parece muito curial é que pelo facto de pedalar tenham mais direitos que outros.


 


Peguemos no caso dos peões – aposto que o investimento feito em ciclovias é menor do que aquele feito para melhorar a conservação e segurança dos passeios pedonais. Todos sabemos que a nossa linda calçada lisboeta é tão bonita de ver como incómoda, e por vezes perigosa. Podia falar dos passeios que abatem e fazem covas que são autênticas armadilhas, dos passeios que desnivelam e se tornam escorregas de difícil equilíbrio, podia falar das pessoas que vejo cair porque a calçada é escorregadia e muitas vezes é complicado manter o equilíbrio, sobretudo em ruas inclinadas.


 


Sobre estes temas não vejo ninguém levantar-se a pedir mais direitos para os peões. Em vez disso constato que há uma nova ciclovia, na Marquês da Fronteira, que vai da zona do El Corte Ingles até ao Palácio da Justiça, que notoriamente tirou espaço ao passeio pedonal e remeteu os peões para um zigue zague entre candeeiros. Essa pista, onde passo quase todos os dias, e bastantes vezes a pé, é na realidade mais usada por pessoas que fazem corrida do que por bicicletas.


 


Mas quando um ciclista se cruza com um peão numa ciclovia o mais frequente é ouvir, do ciclista, um raspanete, nem sempre muito polido. E já nem falo da forma como circulam, sem cuidado com os peões, como atravessam sinais vermelhos pedalando por cima das passadeiras e ignorando o mundo à sua volta. 

(Publicado no Jornal de Negócios de 8 de Julho)

DUELO - Aquilo a que temos assistido nos últimos meses é a uma guerra entre o dólar e o euro, entre os Estados Unidos e a Europa. Aqui há uns anos a Europa teve a veleidade de atacar a hegemonia do dólar e dos Estados Unidos, por trás de uma construção chamada União Europeia e de uma moeda única decretada e criada com base em economias muito diferentes entre si. O objectivo desta moeda, impulsionada pela França e a Alemanha, velhas inimigas dos Estados Unidos, era chamar para os dois países europeus o controlo de um novo modelo económico internacional, alternativo ao modelo americano e à margem do sistema financeiro norte-americano. A montagem burocrática da conspiração está a falhar porque é isso mesmo: uma montagem burocrática que parte dos egoísmos nacionalistas de Paris e de Berlim. Como qualquer maquinação de burocratas, esta baseia-se num projecto sem rumo, com falta de liderança, ao sabor das conveniências e do equilíbrio do momento. A Europa, solidária e bondosa, de que nos falam os velhos sábios ou os ingénuos, com um misto de saudade e desgosto, era uma lamentável ficção, como hoje se vê. O resultado desta perigosa aventura em que fomos envolvidos está à vista: a Alemanha está de óptima saúde e os países periféricos do sul da Europa estão péssimos.


 


Há quase dois anos que assistimos à contínua forma de actuação das agências de rating americanas e ao desenvolvimento da crise das dívidas soberanas, e a Europa ainda não foi capaz de dar uma resposta, as mais das vezes devido à oposição alemã, e por vezes francesa, em criar mecanismos alternativos e eficazes. Foram os estados, as cidades, organismos públicos até, que durante anos deram força às agências de rating, ao utilizarem então as suas optimistas avaliações, para conseguirem ir aumentando a dívida. Agora queixam-se, com razão aliás, dos seus métodos. É capaz de ser um bocado tarde. As agências de rating olham para os países europeus em crise e têm um argumento difícil de combater – mesmo quando esses países conseguem, com mais impostos, aumentar as receitas, nunca conseguem um ritmo de diminuição da despesa que permita fazer voltar o contador a zeros. Passos Coelho foi sincero quando comparou a avaliação da Moody’s a Portugal a um murro no estômago. O problema é que neste ringue de boxe ninguém consegue pôr as agências de rating em KO técnico.


 


SEMANADA – Na semana passada o então deputado Fernando Nobre não esteve no debate do programa do Governo; na altura fez saber que estava indisposto, febril; segunda feira soube-se que na sexta-feira havia enviado à direcção do PSD carta a anunciar a renúncia ao mandato, ao contrário daquilo a que se havia comprometido antes das eleições; terça-feira soube-se que decidiu renunciar sem sequer ter avisado o grupo parlamentar pelo qual foi eleito; o PSD não teve uma palavra para comentar o assunto.


 


ARCO DA VELHA – Deve estar em alta a procura de estádios de futebol vazios: o de Leiria ficou esta semana à venda pela módica quantia de 63 milhões de euros. Tinha custado 83,2 milhões quando foi construído para o Euro 2004. Assim se foi construindo a dívida…


 


MEMÓRIA – Quando dirigi a equipa que começou a construir a 2:, na RTP, numa tentativa ainda hoje mal compreendida de colaboração entre o serviço público de televisão e a sociedade civil, Maria José Nogueira Pinto, então Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi das primeiras que, com gestos e não apenas com palavras, acreditou no projecto, separando de forma franca o essencial, que era a 2:, das várias divergências que tínhamos. Falámos muito sobre a forma como instituições, como a que ela então dirigia, podiam colaborar – e das suas palavras saíram bons conselhos. Gosto de recordar o entusiasmo que ela colocava no que dizia e no que fazia e na abertura que manifestava para além das suas convicções pessoais.


 


LER – Volta e meia a revista francesa «Les Inrockuptibles», vulgo «Les Inrocks», publica umas edições especiais dedicadas a temas da história da cultura popular contemporânea. Em Junho saíu uma destas edições – ainda em banca nas lojas especializadas – dedicada aos 50 anos de rock em Nova York. Na capa estão, triunfantes, os Ramones, em 1995. Lá dentro, repartidos por quatro capítulos, abordam-se as quatro décadas desde 1961, com enfoque nos principais artistas, de Bob Dylan a TV on the Radio, passando por Velvet Undergground, Patti Smith, Talking Heads ou LCD Soundsystem. Muitas histórias de bastidores, muitas boas fotografias, a relação entre estilos e épocas constituem um belo trabalho para guardar. Em brinde um CD com 14 faixas do catálogo da ZE Records nos anos 80 – de Bill Laswell com os Material a Kid Creole, passando por Alan Vega, Arto Lindsay e John Cale. Tudo isto por 12 euros.


 


VER – Pedro Cabrita Reis é um dos maiores artistas plásticos da sua geração - criativo, excessivo, provocador, arrojado, cosmopolita. Além disso é um dos que melhor sabe trabalhar a sua obra enquanto marca - prova disto mesmo são as duas exposições diferentes e complementares, mas simultâneas, com cerca de 700 obras suas, agora inauguradas. Quase quatro centenas, todas desenhos, estão na Fundação Carmona e Costa, no antigo edifício da Bolsa, ao Rego, sob o título «The Whispering Paper». Nesta exposição, em cada uma das salas estão misturadas as diversas fases da sua carreira num aparente caos, cheio de humor, que nos encaminha para coincidências e ajuda a perceber rumos. No Museu Berardo estão cerca de três centenas de peças, pinturas, esculturas e instalações rigorosamente ordenadas por épocas cronológicas e fases criativas. Esta exposição, "One after another, a few silent steps", tem por base uma retrospectiva do artista, que desde 2009 está em itinerância pela Europa, tendo já passado pela Kunsthalle de Hamburgo, na Alemanha, pelo museu Carré d'Art de Nîmes, em França, e pelo museu M de Lovaina, na Bélgica. Em Lisboa há mais peças, duas delas inéditas. As duas exposições mostram a diversidade da sua obra, a constante evolução, a permanente experiência. Pela forma como foram pensadas e executadas, em simultâneo, estas exposições ganham outra dimensão e outra repercussão - e marcam o verão lisboeta. Ambas estarão até aos primeiros dias de Outubro.


 


OUVIR – Gosto muito de ouvir guitarra eléctrica no jazz e um dos mestres deste instrumento é Joe Pass, que alia a imaginação ao virtuosismo, fazendo esquecer, graças ao improviso, que tudo é baseado num superior domínio técnico da guitarra. Nos anos 80 ele gravou pelo menos em duas ocasiões com Ella Fitzgerald, então já com 50 anos, e no auge da sua carreira e das suas capacidades vocais. «Easy Living» é o álbum que resultou dessas gravações e cuja edição original data de 1986 – e que há muito se encontrava esgotado. O programa «Original Jazz Masters Remasters», que a Universal Music tem estado a fazer nos seus diversos selos editoriais, foi buscar este disco à Pablo Records e voltou agora a disponibilizá-lo, numa remasterização de 24 bits. Grande parte dos temas são standards dos anos 30 e 40 e neles está marca da autenticidade de Joe Pass e de Ella Fitzgerald.


 


PROVAR – Perto da porta lateral do Museu Nacional de Arte Antiga, ao fundo do jardim, fica um dos melhores locais para ver o pôr do sol em Lisboa, com uma vista de rio completamente aberta. É um bar, construído com base num cubo de vidro, no terraço de um edifício, e que dá pelo nome de Le Chat Qui Pêche. Oferece cocktails variados, alguns originais, e tem também propostas de refeições rápidas, mas interessantes – destaco os mini-burguers, feitos na chapa, carne de boa qualidade, e cozinhados no ponto, que podem ser acompanhados de vários molhos e recheios à escolha. Também há tostas diversas (uma muito elogiada é a de lombo de porco fumado), saladas e alguns petiscos avulsos. Encerra à segunda-feira e está aberto do meio dia à meia noite, mas às quintas, sextas e sábado a coisa prolonga-se mais um bocado. É o ideal para um copo ao fim da tarde, para um lanche tardio ou para um jantar ligeiro antes de partir para outro destino. Rua das Janelas Verdes, Jardim 9 de Abril, telefone 917797155.


 


BACK TO BASICS – Governar é sempre escolher entre várias desvantagens – Charles De Gaulle


 

julho 05, 2011

PAGADORES DE PROMESSAS

(publicado no jornal Metro de 5 de Julho)


 


Vamos levar com mais impostos. Ninguém gosta de uma notícia destas. Já pagamos muito e vamos pagar ainda mais – e o equilíbrio das contas é sempre a razão invocada. Durante anos gastámos demais e durante anos foram-nos sempre aumentando os impostos. Cada vez que nos apetecer protestar contra novas medidas de austeridade é por isso saudável que todos nos lembremos de como aqui chegámos e quem nos trouxe – quem ajudou ao crescimento do Estado, ao romance das grandes obras públicas de utilidade duvidosa, quem fomentou parcerias público-privadas e quem preferiu ignorar a realidade das contas.


 


Sabemos agora que o défice orçamental no primeiro trimestre foi afinal de 7,7%, acima dos 5,9% que constam do memorando de entendimento com a troika e daquilo que em vésperas de deixar o Governo o Ministério das Finanças afirmava. Continuo a achar que os responsáveis políticos devem ser criminalmente responsabilizados pela má gestão da coisa pública – um exemplo nesta matéria seria bem vindo. Mas em vez disso vemos os dois candidatos à liderança do PS a abrigarem-se da chuva e a criticarem um imposto cujo efeito prático é igual a uma medida que Mário Soares tomou ele próprio, há uns anos, em circunstâncias semelhantes. Em política a falta de memória ou a irresponsabilidade devem ser punidas – o PS fez muito mal as contas enquanto governou e pelos vistos não se arrepende do assunto.


 


Temos pela frente um novo imposto extraordinário, que vai permitir arrecadar cerca de 800 milhões de euros – um considerável aumento de receita que vai sair do bolso de todos. Eu gostava muito que este pedido de sacrifício fosse acompanhado de um corte de despesa também significativo. De cada vez que o Governo nos carrega de taxas e impostos, devia apresentar um plano de redução de despesa idêntico, a curto prazo e calendarizado.


 


Este Governo podia dar o exemplo nessa matéria – cortar primeiro e pedir depois. Se isso não começar a acontecer ficamos com a sensação de que o Governo serve para vender ilusões e os contribuintes cá estarão para serem pagadores de promessas.

julho 04, 2011

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PROGRAMA – Um programa de Governo é uma declaração de intenções. O programa apresentado esta semana é uma declaração bem intencionada. Como qualquer programa bem intencionado, o que interessa é ver como as coisas se passarão, nomeadamente em áreas como a justiça, a saúde, a educação e a solidariedade social. A vontade reformista dos dois partidos da coligação é grande e isso, além de bom, é necessário.


 


O facto deste ser um programa de uma coligação é também, como agora já se pode ver claramente, um avanço em relação ao programa isolado de qualquer dos dois partidos do Governo. Por isto mesmo é que as coligações são importantes, e bem melhores que um Governo de maioria absoluta de partido único. O facto de ser um programa negociado entre parceiros de coligação permitiu introduzir algum realismo e pragmatismo, sem tirar clareza de objectivos e sem deixar de definir metas concretas. Mas sobretudo evidenciou que um programa de governo não pode ser entendido como uma cartilha imutável, como uma declaração dogmática de uma qualquer fé.


 


Um programa de Governo, fundamentalmente, não pode ser encarado como um business plan de uma empresa – porque aqui os resultados não são só medidos do ponto de vista dos resultados quantitativos, mas também, e fundamentalmente, dos resultados qualitativos alcançados na vida das pessoas e no país. Mobilizar os portugueses para os maus momentos que aí vêm passa por demonstrar que as medidas duras se destinam a criar condições para podermos, daqui a uns anos, voltar a estar de cabeça erguida e com menos dificuldades. A importância da política de comunicação, verdadeira e constante, nestes tempos difíceis, é enorme. O mundo está cheio de exemplos de boas e más práticas em circunstâncias destas. Esperemos que por aqui o Governo saiba separar o trigo do joio e escolha as boas práticas, sem sorrisos de conveniência, nem mentiras, nem desfasamento da realidade. Disso, já estamos todos fartos.


 


AUDIOVISUAL– O Programa do XIX Governo consagra um capítulo de 275 palavras para a Comunicação Social e a principal novidade é que a privatização de um dos canais da RTP será feita «oportunamente e em modelo a definir face às condições de mercado», o que exclui, aparentemente, um cenário de privatização a curto prazo, que chegou a ser anunciada já para este ano. Para o assunto em causa a dimensão é adequada e o abandono de ideias feitas é louvável.


 


Mais adiante, no Programa de Governo da área da Cultura, é feita uma referência à ligação do cinema ao serviço público e privado de televisão em Portugal. Mas ainda não foi desta que, em vez de se pensar apenas numa redutora política de cinema, se passou a falar de uma necessária política de audiovisual que integre as várias componentes que utilizam imagem em movimento e que são, no mundo contemporâneo, fundamentais para a preservação da Cultura e da língua.


 


SEMANADA – No Domingo Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que Bernardo Bairrão seria Secretário de Estado; na segunda-feira de manhã o indigitado anunciou a sua renúncia aos cargo de Administrador na Media Capital, para assumir um cargo no Governo; na segunda-feira à tarde o seu nome não aparecia na lista oficial dos novos secretários de Estado; na terça-feira o Ministro Miguel Macedo confirmou que o tinha convidado e lamentou que ele não integrasse o elenco do executivo; começaram os rumores de que teria sido excluído por ser contrário à privatização da RTP; na terça-feira à tarde é conhecido o programa do Governo, que não aponta modelo nem datas para a dita privatização.


 


ARCO DA VELHA – O mundo está a mudar: em apenas quinze dias Marcelo Rebelo de Sousa falhou palpites políticos duas vezes seguidas: quando vaticinou como certa a eleição de Fernando Nobre para a presidência da assembleia da República e quando deu como certo Bernardo Bairrão no cargo de Secretário de Estado da Administração Interna. Ficarei sempre na dúvida se foi uma falha ou uma ilusão de óptica.


 


LER – A edição britânica da revista «Wired» está a ficar mais interessante para os europeus que a sua congénere americana. Por um lado aborda temáticas que nos são mais próximas, por outro, mesmo a nível das informações sobre novas tendências ou produtos, tem claramente em conta o mercado europeu. A edição de Julho, que recomendo, tem vários pontos de interesse mas o maior de todos é um levantamento das características e métodos acção que fazem de Steve Jobs um dirigente excepcional. A «Wired» chama a este conjunto de artigos «The Steve Jobs MBA». Os seus autores vêm de diversas áreas, da filosofia à gestão, passando pelo design, a invenção ou o marketing e incluem nomes como Alain de Botton, Richard Seymour, Guy Kawasaki, Tim Wu e Leander Kahey, além de citações do próprio Jobs. São 37 observações que constituem os pontos fulcrais da forma de agir de Jobs ao longo de 12 páginas que incluem ainda um cronograma da evolução da Apple no mundo digital.


 


OUVIR – Bill Evans gravou em 1961 o disco «Explorations», o seu segundo registo sob a designação Bill Evans Trio, que integrava o contrabaixista Scott LaFaro e o baterista Paul Motian – uma formação de uma qualidade superior. Evans tinha 32 anos e tinha ganho reputação como músico de estúdio(por exemplo em «Kind Of Blue», de Miles Davis) e dava os primeiros passos para se afirmar como o intérprete que em pouco tempo se afirmaria como um dos mais talentosos e criativos pianistas de jazz. No ano que antecedeu esta gravação os três músicos trabalharam intensamente e estabeleceram a base do que seria uma nova forma de interagir em trio,  abrindo o campo à improvisação individual, mas mantendo uma sólida base de grupo. La Faro e Motian, eles próprios também músicos geniais, compreendiam exactamente o que Bill Evans pretendia e este disco é um histórico registo de um momento de rara criatividade, em torno de originais de Irving Berlin, Miles Davis e Dizzie Gillespie, entre outros. Para além dos oito temas que constituíam o LP original, este CD, inclui quatro temas extras, dois dos quais permaneciam inéditos até agora, tudo integralmente remasterizado digitalmente a partir das fitas originais. «Explorations», CD Original Jazz Classics Remasters, da Riverside/Universal.


 


VER – A ideia é engraçadíssima  - dar a um conjunto de fotógrafos uma consola de jogos portátil, com capacidade de fazer fotografias a três dimensões e desafiá-los a usarem o brinquedo para mostrarem como é o mundo visto por eles sem ser através de uma máquina fotográfica normal. A ideia foi da Nintendo, que desafiou  cinco fotógrafos profissionais a trocarem as suas máquinas habituais por uma consola Nintendo 3DS. O resultado dos trabalhos feitos por Mário Princípe (Moda), António Luis de Campos (Natureza), José Carlos Carvalho (Família) , Rodrigo Cabrita (Fotojornalismo) e Miguel Barreira (Desporto), podem ser vistos até 10 de Julho no MUDE, na Rua Augusta 24. Em mero dez anos a fotografia deixou de ser um resultado das máquinas fotográficas – que passaram de objectos independentes para funções incorporadas em outros aparelhos, como telemóveis e estas consolas de jogos. Fascinante.


 


PROVAR- No género salgados ao balcão há uma pequena maravilha que é um ex- libris do Chiado e de Lisboa. Falo da pequena empada de vitela da Pastelaria Bénard, na Rua Garrett 104. Por apenas um euro e vinte podem avaliar se estou a exagerar. Não conheço outro salgadinho igual em qualidade e sabor como este. Quanto ao resto, sobre a Bénard, limito-me a reproduzir esta deliciosa história contada por Lourenço Viegas, que já escreveu neste jornal:  «Tinha um amigo que fazia o seguinte número: telefonava a perguntar “não te está a apetecer ir comer um bife à Bénard?”. Era normalmente no Inverno e raramente recuso propostas. Quando lá chegávamos, eu pedia um bife e ele dizia que não queria nada, só uma água das pedras, por favor, mas que me fazia companhia. Ele gostava de ir à Bénard. Não de almoçar na Bénard. Era um sábio.».


 


BACK TO BASICS – O fundamental não é discutir se devemos ter um Governo grande ou um Governo pequeno, mas sim como conseguiremos que governe melhor e com mais inteligência – Barack Obama


 

junho 28, 2011

BICICLETAS (do diário Metro de 28 Junho)

Eu gosto de bicicletas, nada me move contra elas e são uma bela forma de passear, descontrair e fazer exercício físico. Mas as principais cidades portuguesas têm no entanto um incontornável obstáculo à utilização de bicicletas no dia-a-dia: nestas cidades, nomeadamente em Lisboa e no Porto, elas são apenas uma boa opção de transporte quotidiano, nos dias de trabalho, para especialistas em mountain-bike. Querer adoptar, para cidades cheias de subidas e descidas, onde grandes áreas planas são raras, a utilização regular e numericamente significativa de bicicletas é manifestação de falta de realismo.


 


Vem isto a propósito das célebres ciclovias promovidas em Lisboa pelo vereador Zé que não faz falta. Eu gostava de saber quanto já se gastou nestas ciclovias e gostava de ter um estudo isento sobre a sua utilização. Como se sabe a esmagadora maioria delas está construída em função de actividades de lazer. De um ponto de vista prático, de utilização dia a dia, as ciclovias não levam a lugar algum – e não têm que levar. Junto ao rio e em algumas áreas residenciais podem fazer sentido, mas fora disso compreendem-se mal. Por exemplo, a menos que a ideia seja divulgar as mountain-bikes em Portugal, não se entende a construção de uma ciclovia na íngreme subida pela Marquês da Fronteira acima.


 


Eu gostava de saber o impacte ambiental da construção destas ciclovias – nos materiais usados para as asfaltar, na maquinaria utilizada, e no caso concreto acima referido, no aumento da emissão de gases de escape nos intermináveis engarrafamentos que durante meses a sua construção implicou.


 


Em Londres, cidade plana, onde a autarquia implementou um interessante esquema de aluguer de bicicletas ao dia, e que funciona muito bem,  não existem ciclovias destas, antes uma faixa de circulação, assinalada por uma linha contínua, junto ao passeio e ao lado do corredor de Bus. Ou seja – soluções práticas e inteligentes, em vez de megalomania, desperdício e falta de realidade.

junho 24, 2011

Elogios, registos, experiências, sugestões

ELOGIO - Hoje começo esta coluna a elogiar Jorge Coelho.  Na noite de terça-feira ele deu uma notável entrevista à RTP N na qual deixou uma série de recados importantes para dentro do PS – nomeadamente salientando que agora começa um novo ciclo, que terá novas metas e que obrigará o PS a reorganizar-se. Que diferença fazem estas palavras das ameaças veladas emitidas por Santos Silva à saída da posse do novo Governo ou, ainda, da permanente arrogância e pesporrência de Jorge Lacão, no mesmo dia, nas mesmas circunstâncias. Jorge Coelho falou do futuro e recomendou ao PS que pense no que fez e no quer agora fazer. Tenho admiração por homens que são capazes de se retirar como Jorge Coelho retirou, assumindo responsabilidades politicas e saindo de cena em circunstâncias tão graves como foi a queda da ponte em Entre Os Rios.


 


E, quero dizê-lo  (e perdoem-me os leitores o estilo confessional) tenho uma verdadeira e sincera admiração pelos homens e mulheres que aceitaram a responsabilidade de integrar este Governo nesta altura tão complicada, com um programa de acção em boa parte imposto de fora, mas que é provavelmente o estreito caminho que ainda nos pode levar a um futuro melhor. Espero que nesta legislatura se façam menos disparates, que não existam deputados a sonegar gravadores que registam perguntas incómodas de jornalistas, espero que haja responsabilidade, que haja atenção à realidade e, sobretudo, que exista menos arrogância e menos teimosia.


 


A actividade cívica e politica não pode ser entregue a um bando de carreiristas e oportunistas – é bom saber que existe quem saiu do seu conforto para tentar resolver os problemas, Eles estão num batalhão que já partiu para a frente de batalha. Têm o seu quê de guerrilheiros , têm coragem, merecem respeito e oportunidade para mostrar o que valem. Estou à vontade – não votei em quem venceu, pela primeira vez optei pelo CDS e divulguei-o em tempo oportuno. Mas espero que a solução que se encontrou permita uma governação equilibrada e sobretudo eficaz. Porque essa eficácia é a única coisa que nos permite pensar que existe uma oportunidade de vivermos, todos, num país melhor.


 


REGISTO - Uma coisa é certa – já se percebeu que Pedro Passos Coelho é adepto de experimentar, errar, avaliar, corrigir. Não é um método impossível, em politica, mas tem custos elevados e um prazo de validade relativamente curto. Começou a campanha eleitoral neste registo – com a indicação de Fernando Nobre para cabeça de lista pelo círculo de Lisboa – e começou a actividade Parlamentar arriscando – e sofrendo – uma derrota, exactamente pela persistência em manter Fernando Nobre. Algumas pessoas dizem que é sinal de carácter e de fidelidade aos compromissos. Aceito isso, mas também acho que há alguma dose de teimosia – e a teimosia em politica (e noutras coisas da vida), não é boa conselheira.


 


No entanto convém dizer que uma grande parte da responsabilidade do mau começo parlamentar da maioria tem a ver com a falta de carácter do próprio Fernando Nobre – um facto curioso porque foi baseado no seu suposto carácter que ele terá sido escolhido. No entanto o seu percurso, na política e na forma como organizou e dirigiu a AMI, não é o melhor indicador de um bom carácter. Sei que isto poderá chocar alguns, mas é o que penso. No mínimo criou demasiadas situações dúbias. Quando ele foi candidato, felizmente derrotado, às Presidenciais, escrevi que ele fez carreira à custa de um bom aproveitamento mediático do sofrimento alheio – e mais tarde quis prolongar esse aproveitamento na política e foi aí que se perdeu. Que as duas derrotas seguidas sofridas o façam pensar e corrigir a forma como se comporta.


 


SEMANADA – No fim de semana Fernando Nobre esteve com Paulo Portas, nesses dias terá feito contactos com pessoas próximas do PS e seus companheiros de outras lides; depois de todas estas conversas fez constar que teria possibilidades de ser eleito Presidente da Assembleia da República; dirigentes experientes do PSD acreditaram nele e vieram afirmá-lo e até Marcelo Rebelo de Sousa lhe vaticinou vitória. Segunda-feira foi a votos e tornou-se no primeiro candidato a Presidente da Assembleia da República a ser derrotado em duas votações seguidas. A sua expressão facial no momento do anúncio da segunda votação não escondeu a raiva.


 


Resta a dúvida: enganou ou foi enganado? Eu acho apenas que foi ingénuo e que a única coisa que lhe cabia, desde o dia em que foi eleito deputado, era desvincular o líder do PSD do acordo que terão feito. Aí teria dado prova de grandeza. Persistindo na ambição, acabou humilhado. E não ajudou quem, em má hora, o escolheu para deputado. A cara que fez quando percebeu o resultado de Assunção Esteves diz tudo sobre a sua pessoa. Felizmente está registada em fotografia, publicada na imprensa.


 


ARCO DA VELHA – Os gastos públicos ilegais quase triplicaram em 2010 face a 2009 – o Tribunal de Contas detectou quase 3 mil milhões de euros de despesa pública irregular.


 


CULTURA – Interessam-me mais os actos do que os símbolos. Em matéria de politica cultural o que sei é que nestes últimos anos tivemos muito simbolismo mas muito pouca obra. Tivemos um Ministério que fez menos que muitas Secretarias de Estado. O Ministério da Cultura teve titulares com menos poder ou capacidade politica do que muitos Directores-Gerais. Uma Secretaria de Estado da Cultura na dependência directa do Primeiro-Ministro tem maior peso politico e capacidade de interlocução com as áreas com que tem de se entender (Finanças, Negócios Estrangeiros, Turismo, Educação,, Economia, Audiovisual), do que um Ministério que é o último na lista das precedências do Estado.


 


Espero que Francisco José Viegas desempenhe bem o lugar, embora não resista a uma maldade: não é preciso muito para fazer melhor que Gabriela Canavilhas. Espero que a diferença seja sensível e que, sobretudo, tenha em conta as novas áreas da criatividade e não apenas o património, edificado ou editado.


 


LER – A Monocle de Julho tem a lista das 25 melhores cidades para viver. Lisboa lá está, ainda entre as cinco últimas. Lê-se o que a revista publica sobre Lisboa (e as notas que surgem sobre o país no site) e percebe-se que a Monocle é, quanto a Portugal, felizmente para nós, vítima de uma descriminação positiva que se constata na forma como os seus correspondentes engolem a propaganda dos poderes. Tenho alguma curiosidade em ver como esses correspondentes se adaptam à alteração política no país. O entrevistado português desta edição é o vereador Zé que não faz falta, muito elogiado por fazer corredores para bicicletas que não levam a lugar algum e só servem para enfeitar as ruas – basta ver o movimento que têm. Mas como diz o outro, mais vale que falem mentiras do que se esqueçam que existimos.


 


OUVIR – “Dois Lados” é o título de uma interessante colecção de música brasileira lançada pela Universal. Num dos discos estão as melhores interpretações de quem compôs as canções e, no outro, estão as melhore versões de quem interpretou canções desse compositor. Eu escolhi o disco de originais de Toquinho, que me é particularmente grato – ele é um dos grandes compositores brasileiros, experimentou novos arranjos e foi quem melhor soube traduzir em música os poemas de Vinicius de Moraes. O segundo disco tem versões de nomes como Chico Buarque, Quarteto em Cy com os MPB4, Trio Mocotó e Maria Bethania, entre vários outros. No caso de Toquinho, confesso, as suas versões originais, são as melhores interpretações, a todos os níveis.


 


PROVAR- Já que começou a nova legislatura não fica mal recomendar aos senhores deputados que, quando tiverem vontade de um bom bife, têm, mesmo ao pé do Parlamento, uma histórica e venerável instituição que dá pelo nome de Café de S. Bento., no 212 da rua com o mesmo nome. O serviço é atencioso e rápido, a qualquer hora até bem tarde, as batatas fritas são estonteantes e a carne é garantida. A não ser para apetites vorazes, o meio bife chega muito bem para saciar o apetite dos nossos eleitos. Se quiserem uma coisinha mais comedida podem escolher o prego do lombo, um a peça exemplar desse género tão português. Claro que correm o risco de ter por perto jornalistas e deputados de outras bancadas, mas isso faz parte do convívio democrático. Pormenor importante – a cerveja é de estalo. O telefone é 213 952 911.


 


 


BACK TO BASICS – Devemos sempre expor as nossas opiniões permitindo uma razoável dose de dúvida – Bertrand Russell

junho 21, 2011

O PICNIC DO ABUSO E MÁ GESTÃO

(Publicado no diário Metro de hoje)


 


Esta coluna de hoje destina-se a dar os parabéns aos hipermercados Modelo/Continente e à sua agência de publicidade, a EURO-RSCG. De uma assentada conseguiram criar um evento que paralisou o centro de Lisboa durante quatro dias, transformando a avenida da Liberdade num misto de arraial publicitário e estúdio da TV Rural,  convencendo a RTP a transmitir a coisa em directo  durante quase quatro horas. Esta iniciativa devia entrar directa para o Guinness – um spot publicitário de quatro horas na televisão do Estado, em sinal aberto é obra.


Claro que o Modelo e a sua agência publicitária sabiamente usaram argumentos politicamente correctos, como o apoio aos produtores nacionais ou a entrega de produtos a instituições de solidariedade social. Estas iniciativas publicitárias – porque é de publicidade pura e dura que se trata e é bom ter isso presente – são na aparência muito interessantes, mas só vivem quando há utilização abusiva de bens públicos, facilitada por diversos poderes.


 


O que me revolta é a desfaçatez com que António Costa e José Sá Fernandes tomaram a decisão de utilização de um espaço público crucial à vida da cidade, ainda por cima argumentando que teriam feito bom negócio – gabaram-se de terem recebido 100.000 euros de contrapartidas. Além de abuso de poder, fazem gestão danosa: quatro dias de utilização total no pavilhão Atlântico teriam custado mais, quatro dias de um estúdio de televisão de grande dimensão teriam custado bem mais. E nem me ocorre querer saber quanto levaria a SONAE pela utilização em exclusivo dos corredores de um dos seus hipermercados durante quatro dias, se porventura o autorizasse.


 


O Continente e a Sonae fizeram um grande negócio –a cidade é que não. Os que cá pagam impostos, os que têm lojas abertas na Avenida e pagam contribuições à autarquia, o comércio de rua que é esmagado pelas grandes superfícies é que saem a perder destas coisas. Sá Fernandes já não é o emplastro de António Costa, agora passou a ser o contrário. A criatura tomou conta do seu criador.

junho 17, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 17)

LIBERAIS & AUDIOVISUAIS – Ciclicamente vem à baila o tema da privatização da RTP, sempre em nome de boas práticas liberais. Estamos num destes ciclos e mais vale encarar o assunto de frente. Geralmente existe alguma confusão entre a privatização da RTP e a concessão a privados do serviço público de televisão. Parece-me que o assunto está, nesta fase muito mal estudado. Se é a empresa RTP que se pretende privatizar vai ter que se fazer uma análise do que pode ser interessante vender, em termos de mercado, com o objectivo de conseguir um bom preço: As frequências de que tem concessão? As licenças de cabo? Os estúdios? Os meios técnicos? Os recursos humanos? O arquivo? A operação de televisão? Um dos canais? A operação de rádio?


 


Eu sinceramente acho que ninguém está, neste momento, em condições de responder a estas questões. E acho que a resposta é muito difícil enquanto não houver uma decisão clara sobre o que deve ser o serviço público audiovisual. Em Setembro de 2002 foi divulgado um relatório com propostas concretas sobre o que devia ser o serviço Público de Televisão, elaborado por um Grupo de Trabalho que na altura integrei. No essencial as conclusões programáticas desse relatório mantêm-se actuais mas nãoi estão aplicadas. O primeiro passo para fazer o que quer que seja é definir aquilo que deve ser assegurado pelo serviço público, estabelecer uma missão, prioridades e objectivos. No essencial isto não está feito.


 


Há também que ter em conta a circunstância política de saber se o Estado quer exercer um papel regulador, quer no mercado da produção audiovisual, quer no mercado dos media em geral. Nos últimos dias tenho lido diversas opiniões favoráveis a que o Estado deixe de ter esse papel regulador, em nome do livre funcionamento do mercado. Aconselho os defensores do livre funcionamento do mercado, nesta matéria, a estudarem bem o caso dos Estados Unidos ou dos países nórdicos, muitas vezes apontados como referência – talvez tenham surpresas quanto às balizas estreitas que nesses países o Estado impõe à actividade de emissão de televisão e ao condicionamentos que existem nos media. Falar de cor com base em ideias feitas é um exercício fatal, que geralmente resulta numa teimosia que é má conselheira.


 


Quer em relação ao papel de regulador na área conteúdos (dizendo quais são as áreas prioritárias de desenvolvimento e investimento), quer de regulador dos media (garantindo uma saudável concorrência não só entre televisões mas entre todos os media em geral), gostaria de deixar aqui uma pequena nota sobre o mercado – e neste caso sobre o mercado português. O nosso mercado é pequeno, está em recessão e não em crescimento. Um filme português de sucesso faz 300.000 espectadores e, além de alguns festivais, não tem exibição internacional. O mesmo se poderia dizer quanto aos programas de televisão. A rentabilidade da produção audiovisual portuguesa está confinada ao nosso pequeno rectângulo, não por fatalismo mas por um conjunto de questões – que vão da fonética da língua, pouco dada à exportação mesmo para o Brasil, até à falta de maturidade da maior parte dos produtos. Por isso mesmo é que vale a pena estudar muito bem o assunto, evitar pressas, promessas e ideias feitas, e ver qual a melhor forma de desenhar um serviço público que possa ser motor de desenvolvimento da produção audiovisual – partindo do princípio de que esta é a única formas contemporânea de mantermos viva a língua e a cultura portuguesa no mundo.


Usando a imagem esta semana anunciada por Steve Jobs, da Apple, os idiomas e as culturas que não estiverem na cloud não existirão num futuro próximo. E sem uma produção audiovisual não estaremos lá de certeza.


 


LER –  Nada como um bom policial para nos reconciliar com a leitura. Há uns tempos descobri as aventuras escritas pelo italiano Andrea Camilleri e aos poucos ele está a tornar-se num dos meus autores preferidos. A escrita é concisa, não se perde em descrições maçadoras e o novelo da história é bem urdido – além disso polvilha cada romance com apetitosas descrições de refeições italianas, melhor dizendo sicilianas - que o herói das histórias é o comissário Montalbano, estabelecido em Vigata, uma vila imaginária mas que, pela descrição, fica na zona de Agrigento. «O Cheiro da Noite» é um original de 2001, editado em Portugal em 2002, pela Difel, que tem divulgado Camilleri em Portugal. Em poucas palavras é a história de um vigarista que imagina um esquema do género D.Branca/ Bernard Madoff e que engana as gentes de Vigata. O romance é a história da investigação em torno do desaparecimento do vigarista e de um seu auxiliar – e como acontece nos policiais de Camilleri, a meio dá-se um volte-face inesperado. Mas isso eu já não conto que não quero estragar a surpresa.


 


VER – A sugestão de hoje é para voyeurs compulsivos. Sugiro uma visita à exposição «The Last Sitting», que mostra 60 fotografias da célebre sessão realizada pelo fotógrafo norte-americano Bert Stern num hotel em Nova York, em Junho de 1962, para a revista «Vogue», apenas seis semanas antes da morte da actriz. A sessão de fotografias durou três dias e – reza a lenda - ter-se-ão bebido muitas garrafas de champage. Stern fez mais de 2500 imagens, muitas delas com Marylin nua – em 1992 foi publicado um livro com a maioria destas imagens e algumas pranchas de contacto anotadas pela própria Marylin. Esta exposição vai estar no Centro Cultural de Cascais até 17 de Julho, de terça a Domingo, entre as 10 e as 18h00.


 


OUVIR –  Se este disco se chamasse «Cavaquinho» podia ser do Júlio Pereira. Como se chama «Ukulele Songs» vem assinado pelo ex-Pearl Jam Eddie Vedder. É um disco tão simples que chega a ser desarmante e tão sóbrio que quase não se dá por ele. O ukulele é descendente do cavaquinho português, levado por emigrantes para o Hawai, e que aí se tornou imensamente popular. No fundo é um pequeno instrumento de cordas (apenas quatro cordas), muito fácil de tocar e com uma gama de acordes limitada. Parece que Vedder o descobriu numa viagem ao Hawai e, desde então, o instrumento acompanha-o para todo o lado. Todas as canções são de Eddie Vedder, a maior parte compostas no próprio ukelele e as participações – vocais ou instrumentais – são absolutamente minimalistas. «Sleeping By Myself», «More That You Know», «Satellite» , «Tonight You Belong To Me» e «Dream A Little Dream» são as minhas preferidas - mas devo dizer que este é daqueles discos a que se vai voltando audição após audição, cada vez com mais prazer. A simplicidade musical do álbum contrasta com o cuidado posto na capa e no pequeno livro, com cuidadas fotografias e um grafismo onde a simplicidade é aparente.  Já agora – na semana passada este «Ukelele Songs» foi o CD mais vendido em Portugal – o que não deixa de ser curioso. Cá por mim acho bem.


 


PROVAR – Cada vez que regresso ao Papa Açorda arrependo-me de não ir lá mais vezes. Já que agora, na cidade, me desloco numa scooter fica bem mais fácil visitá-lo sem perder muito tempo na deslocação, sobretudo à hora de almoço que é quando gosto mais do local. A escolha recaíu nuns filetes com arroz de berbigão e numa açorda de bacalhau, ambos em muito boa forma. Passaram-se as entradas mas havia uns belos figos com presunto de Parma e a carta oferecia ainda outras possibilidades como a deliciosa salada verde com caranguejo de casca mole. Na lista lá continuam os clássicos do Papa Açorda – pastéis de massa tenra com feijão verde,  morcela assada com grelos, costeletas de borrego panadas, fritura mista de peixe com aioli e, claro, a açorda real de gambas e lagosta. Nas sobremesas nunca resisto às queijadinha de requeijão (se não estivesse a tentar ser comedido teria ido para o pudim de ameixas pretas ou a mousse de chocolate). Rua da Atalaia 57, aberto de terça a sábado, telefone 213464811


 


BACK TO BASICS – Nunca devemos deixar que a persistência e a paixão se tornem em teimosia e ignorância – Anthony J. D’Angelo

junho 14, 2011

Adoro-vos! - Paguem a conta, sff

(Publicado no diário Metro)


 


Quando se soube quais eram os candidatos à liderança do PS, Francisco Assis e António José Seguro, o Dr. Almeida Santos, um homem de raro sentido de oportunidade, teve esta elucidativa afirmação: «temos que nos governar com aquilo que temos».


 


Estou em crer que este foi também o pensamento de José Sócrates quando percebeu que a probabilidade de levar uma coça eleitoral era grande.


 


Sabe-se agora que há uns meses, quando Dilma & Lula estiveram em Portugal estando já as eleições marcadas, convidaram José Sócrates para, quando saísse do Governo, ser um caixeiro viajante dos interesses das grandes empresas brasileiras junto da Comunidade Europeia. Numa dessas empresas já está um ilustre amigo de Sócrates, Armando Vara. O convite de Dilma & Lula, que Sócrates já conhecia quando disse adeus, pode ser uma das razões que o levou a dizer que, a partir desse momento, queria ser feliz.


 


Por este andar já nem me admirava que recebesse idêntico convite de outro dos seus grandes amigos, o venezuelano Hugo Chavez que também havia de agradecer os bons ofícios de Sócrates. Infelizmente já não deverá receber convite de um outro seu bom amigo, agora um bocadinho em maus lençóis, o líbio Khadafi.


 


Brincadeiras à parte a saída de Sócrates foi sentida com algum alívio no PS – não se ouviram grandes choros nem lamentações e rapidamente surgiram os candidatos. Têm uma missão difícil – em 2013 há eleições autárquicas, e esse vai ser um teste simultaneamente à nova maioria e ao PS, que terá de tentar recuperar a credibilidade que os devaneios de Sócrates destruíram.


 


Os próximos tempos vão ser duros e mais uma vez, como é nossa triste sina, o autor da dívida pirou-se quando chegou a altura de pagar a factura. Sócrates partiu dizendo «adoro-vos», mas a herança que ele deixou contraria as suas palavras. Não se faz isto a quem se adora. Razão tinha o cobrador do fraque que andou na campanha atrás de Sócrates – já adivinhava que alguém havia de pagar por ele.


 

junho 09, 2011

(publicado no Jornal de Negócios de 9 de Junho)

PASSADO - «Não há exemplo de alguém ter feito tanta coisa mal feita em tão pouco tempo» – assim se referiu Belmiro de Azevedo a José Sócrates, cuja actuação, sublinhou o empresário, não foi a de um Primeiro Ministro, mas de chefe de um grupo. Estas palavras, transpostas do Governo para o PS, são a exacta análise política do que aconteceu ao longo dos últimos anos e que agora está à vista. Sócrates serviu-se do PS para os seus interesses – para manter o seu poder pessoal – e, quando o perdeu, despediu-se com um lacónico «Adoro-vos» - um final que nem os mais criativos argumentistas de comédias de televisão imaginariam. Olha-se agora para o PS e vê-se um partido sem liderança, sem programa, com uma ideologia apenas residual e com um número reduzido de interessados em tentar resolver o problema. Sócrates na realidade secou tudo à sua volta, foi um parasita que se alimentou do aparelho, estiolando-o. Usou os seus amigos, os seus fiéis, para manter a máquina em respeito, usou o Estado para distribuir benesses a um nível que provavelmente ainda nem imaginamos. Fez tudo isto num metódico plano de tomada de poder que no início contou com a cumplicidade actuante do então Presidente da República, Jorge Sampaio, que manobrou a evolução política de forma a só convocar eleições quando Sócrates e o PS já se sentiam com condições para vencerem. Por isso, na hora da despedida, convém recordar que a incompetência de que Sócrates deu mostras como Primeiro Ministro tem origem no golpe palaciano que Jorge Sampaio montou enquanto Presidente da República, depois da saída de Durão Barroso, em Junho de 2004. Esta é também uma parte de tudo o que aconteceu e que a História um dia estudará. O derradeiro episódio do estilo Sócrates aconteceu terça-feira, quando finalmente o Ministério das Finanças anunciou oficialmente as medidas constantes do acordo com a troika, que prudentemente mantivera a recato durante a campanha eleitoral.


 


PRESENTE - O resultado das eleições mostra algumas alterações curiosas na demografia eleitoral – em primeiro lugar mostra a nível nacional uma clara maioria de centro-direita, com sinais de que uma parte deste reforço veio do segmento dos votantes mais novos – aqueles que já chegaram à idade adulta no início deste ciclo de poder do PS – e que o repudiaram. Por outro lado mostra que pouco mais de um ano, depois das autárquicas, a maioria da cidade de Lisboa vota agora no PSD e PP – e está por saber se este resultado não mostra, também, como nas autárquicas parte do PSD se absteve ou fez contra-vapor ou, até, optou por votar António Costa em vez de Santana Lopes – aliás a realidade é que a Distrital de Lisboa do PSD pouco se empenhou nessas eleições locais. Não há-se ser por acaso que o maior reforço de deputados do PP se deu em Lisboa precisamente – foi a reacção natural de muitos eleitores à escolha de Fernando Nobre para liderar a lista do PSD, o que também é outro dado curioso. Se é verdade que Passos Coelho conseguiu derrotar Sócrates, também é verdade – e deve ser salientado - que o fez com um programa de claro posicionamento mais à direita, contribuindo para separar as águas. Mesmo assim, ganhou – o que quer dizer, talvez, que também alguma coisa está a mudar no país. A análise de algumas sondagens pré-eleitorais permitia já perceber que a esquerda estava a reter o voto dos mais idosos e conservadores, que ainda vivem segundo os dogmas criados em 1974 – enquanto ao centro direita surgiam eleitores mais novos e mais abertos a mudanças. É muito interessante ver, a este nível, que o PP em 2005 elegeu 12 deputados e, agora, elegeu 24 – duplicou a sua representação parlamentar em meia dúzia de anos. Toda esta situação é nova em Portugal e representa um desafio adicional para os dirigentes políticos que em breve irão governar o país. As condições estão criadas para a coisa correr bem. Esperemos que haja o bom senso de não estragar o que a votação criou.


 


FUTURO - No rescaldo destas eleições é impossível contornar dois ou três factos que merecem estudo, resposta e eventuais alterações no funcionamento do sistema. O primeiro tem a ver com o aumento da abstenção, contrariando o apelo – aliás um pouco excessivo – de Cavaco Silva. A abstenção não se combate com apelos, combate-se com uma efectiva mudança no funcionamento dos políticos e na forma como os partidos conseguirem relacionar-se com os cidadãos, fomentando a participação cívica e não a limitando à militância nem ao cheque em branco. Estamos, como estas eleições mostram, a deixar a fidelidade absoluta aos partidos e a agir em função dos comportamentos dos políticos – Sócrates e Louçã sentiram isso mesmo nos resultados. Mas o funcionamento do sistema político há-de também passar pela reforma do Parlamento e pela revisão da Lei Eleitoral, cada vez mais desadequada da realidade actual. Os episódios lamentáveis das decisões de tribunais sobre os debates nas televisões devem fazer pensar no absurdo precedente que foi criado – e o melhor é encarar o problema de frente nos próximos actos eleitorais. Finalmente não deixa de ser estranho que esta campanha tenha acabado por ser das mais antiquadas em termos mediáticos – mesmo a presença dos partidos no mundo digital foi menos criativa e interessante que em algumas outras ocasiões.


 


ARCO DA VELHA – O que pensam os candidatos à liderança do PS sobre as declarações da eurodeputada Ana Gomes a propósito de Paulo Portas? - Aqui está um caso em que as respostas iriam ajudar a perceber de que fibra são feitos esses candidatos.


 


VER – Entre Setembro de 2010 e Janeiro de 2011 os trabalhos que integraram a exposição «Paula Rego Anos 70 – Contos Populares e Outras Histórias», que esteve na Casa das Histórias Paula Rego, foram fotografados, digitalizados e trabalhados em alta definição com recurso a duas tecnologias, chamadas Deep Zoom e Silverlight, em parceria com a Microsoft. Estas imagens estão agora disponíveis, para consulta gratuita, através de um link que está no site www.casadashistoriaspaularego.com e no Portal MSN da Microsoft e que permitiu criar uma plataforma online que reúne todas as obras apresentadas nessa exposição, intitulada «Deep Zoom Paula Rego Anos 70», o título que está nos links de acesso. Esta parceria com a Microsoft, que disponibilizou a tecnologia Deep Zoom e operacionalizou tecnicamente a exposição virtual, permite ter toda a informação sobre cada uma das obras, mas também explorar as peças, fazendo zooms parcelares, analisando até a textura e descobrindo pormenores até aqui escondidos. Para além de perpetuar a exposição deste conjunto de obras espalhado por diversos locais, a tecnologia proporciona uma possibilidade de descoberta e interacção capazes de poder atrair novos públicos para a obra de Paula Rego.


 


LER – Na edição de Junho da «Vanity Fair» destaque para um relato dos dias derradeiros de Elisabeth Taylor, um delicioso artigo sobre o que tem sido a vida de Hillary Clinton ao lado de Obama, uma viagem ao mundo da Zynga, a empresa que criou jogos como Farmville, Cityville e Zinga Poker, e por fim uma suculenta entrevista com a cantora Kate Perry (America’s most unconventional sweetheart),  fotografada por Annie Leibowitz. Revistas assim é que me fazem gostar da imprensa.


 


OUVIR –  Os apreciadores de World Music terão boas razões para comprarem «Anthology», uma recolha de temas que marcaram a carreira do músico Salif Keita, originário do Mali. Entre eles está um dos pontos altos da sua carreira, «Mandjou», do início dos anos 70, onde já se intuíam as formas de utilização da voz e dos teclados que haviam de marcar a sua carreira. Esta compilação inclui trabalhos dos anos 80 e 90 e também da primeira década do novo século, entre os quais «Yamore», o seu célebre dueto com Cesária Évora. (CD Universal, na FNAC).


 


BACK TO BASICS – A política não é a arte do possível, é a escolha entre o que é desastroso e o que é desagradável – John Kenneth Galbraith

junho 07, 2011

PARA MEMÓRIA FUTURA

(Publicado no diário Metro de 7 de Junho)


 


As eleições de Domingo foram o reflexo de um país cansado de mentiras e promessas vãs – e isso reflectiu-se de duas formas: por um lado pela elevada abstenção; e por outro pela rejeição fortíssima do PS, e de José Sócrates em particular.


 


Com a derrota do PS fecha-se um ciclo político e nestas alturas é bom fazer um exercício de memória, para que no futuro não esqueçamos o que aconteceu, para além do aumento da dívida, do aumento do desemprego e da crise em que o país foi mergulhado. Alguns lembrar-se-ão que Luis Campos e Cunha, o seu primeiro Ministro das Finanças, avisou bem cedo do rumo que as coisas iriam tomar. Mas o que veio a seguir ultrapassou tudo o que se esperava: utilização da CGD para patrocinar a tomada de poder no BCP e financiar guerras internas de accionistas, tentativas de compra de uma estação de televisão incómoda para o Governo, casos de corrupção uns atrás dos outros. Na noite das eleições uma jornalista corajosa perguntou a Sócrates se ele achava que os processos judiciais, que foram travados enquanto ele foi Primeiro Ministro, iriam agora avançar. Foi uma pergunta oportuna.


 


Mas há outro episódio que deve ficar para a memória – a queda de Sócrates é também a queda de um processo fabricado por Jorge Sampaio quando era Presidente da República. Na altura em que Durão Barroso partiu para Bruxelas, Sampaio recusou-se a convocar eleições antecipadas, contra a opinião de muita gente, porque sabia que Sócrates e o PS, nessa altura, ainda não estavam preparados para ir a votos. Seis meses depois, com a máquina do PS já a rodar, encontrou um pretexto para derrubar o Governo que ele nomeara e convocou eleições antecipadas. Sócrates chegou a Primeiro Ministro pela mão de Jorge Sampaio, num episódio político nebuloso que objectivamente favoreceu o PS. Por isso também Jorge Sampaio é co-responsável de tudo o que aconteceu e também ele foi um dos grandes derrotados de 5 de Junho.

junho 03, 2011

(publicado no Jornal de Negócios dia 3 de Junho)

MUDANÇA - A partir de segunda-feira nada será igual. Temos prazos apertados para cumprir. Metas difíceis de atingir. Equipas governativas para formar. Vão encontrar um país que precisa de voltar a ganhar confiança e energia – porventura o desafio mais difícil depois de anos de anestesia e depressão. O novo executivo vai ter de gerir melhor os recursos, dinamizar a economia e motivar as pessoas. Espero que os novos governantes tenham o bom senso de olhar para Portugal como um país e não como uma empresa integrada numa multinacional europeia. Espero que saibam que a governação e a política têm um lado racional e rigoroso, mas também um lado de paixão e desafio. Espero que combinem o cumprimento dos compromissos exteriores com as expectativas de quem cá vive. Temos um PIB reduzido, um crescimento anémico. Deixámos de produzir e concentrámo-nos a consumir e a alteração deste paradigma é decisiva para podermos sobreviver. Quem se sentar no Governo tem que ser realista, encarar os problemas de frente, não esquecer as dificuldades do país nem as dificuldades das pessoas. É no equilíbrio da gestão destas dificuldades – colectivas e individuais – que está a chave de podermos começar a resolver os nossos problemas mais importantes. E, sobretudo, de termos êxito a recuperar a economia e tornar melhor a vida dos portugueses – que é a única razão de existência de qualquer Governo. Muitos dos anteriores dirigentes políticos e partidários esqueceram-se deste objectivo, que parece simples. Por isso mesmo segunda-feira começa um desafio ao nosso sistema político e aos nossos partidos. Serão os partidos e os seus dirigentes capazes de vencer a descrença? Querem continuar, como até aqui, a lamentar o passado, ou estão mesmo interessados em mudar o futuro? Será possível que os partidos voltem a conquistar a confiança e a participação cívica dos portugueses?


 


COLIGAÇÃO – Miguel Relvas disse esta semana numa entrevista que «Passos Coelho será melhor Primeiro-Ministro do que candidato» - a frase resume o percurso zigue-zagueante do PSD nestes meses mais recentes, os erros de comunicação e a forma como geriu, mal, expectativas. Já aqui escrevi que sou incapaz de votar Fernando Nobre, que vou votar no CDS, por ter sido um exemplar grupo parlamentar na oposição a Sócrates e porque assim estou certo de reforçar o equilíbrio das forças num governo de coligação - que é necessário para tirar o país do pantanal onde foi colocado por anos de autismo de José Sócrates. Continuo sem perceber porque é que na conjuntura em que estávamos o PSD não quis fazer uma coligação eleitoral com o CDS-PP – provavelmente a campanha seria mais esclarecedora, o senhor engenheiro teria ficado antes numa situação mais incómoda e ter-se-iam evitado disparates como a candidatura de Fernando Nobre em Lisboa. Estava eu muito irritado com tudo isto quando, há umas três semanas, tive a sorte de assistir a uma conferência de Bob Wilson - ele veio a Lisboa falar sobre as cidades mas acabou a falar da vida. Mostrou como é importante parar para pensar, como falar devagar ajuda os outros a perceberem o que se passa. Falou do equilíbrio, da importância do vazio e do silêncio. Do palco, do teatro e do dia-a-dia. Da luz, e da sombra. Foi uma conferência absolutamente extraordinária, organizada por Luis Serpa. Foi um fim de tarde onde aprendi muito, e que me ajudou a tomar uma decisão. Nesse dia, à noite, lembrei-me de Bob Wilson ter dito que gostava de ver as notícias na televisão com o som desligado. Ele tem razão. Passei a perceber bem melhor as coisas.


 


ARCO DA VELHA – A sabedoria popular manifesta-se hoje em dia no Facebook, onde li esta pérola:  Espanha pede ajuda à União Europeia por causa dos pepinos – já Portugal pediu ajuda à União Europeia por causa de um nabo…


 


LER –  A edição de Junho da revista «Monocle» é dedicada à importância do transporte num mundo global. É um tema curioso – até nas nossas circunstâncias particulares, com a necessidade de articular ligações com Espanha e ser realista nos custos – a este propósito vale a pena ler o editorial de Tyuler Brulé, o director da revista.. Bons artigos sobre a nova música da Etiópia, uma reportagem sobre a vida em Tunes depois da revolução e a forma como os negócios estão a correr na Tunísia e, ainda, um ponto de situação sobre a evolução do design nos países nórdicos. A rematar um portfolio fotográfico sobre Berlim e as pessoas que para lá foram viver e trabalhar. Outros artigos interessantes: como os locais de trabalho são importantes para o equil´+ibrio das pessoas e como evolui o negócio da arte em Hong Kong. As cidades em destaque são Viena e Londres e para a ediçlão do m~es que vem já se anuncia Florença. Embora algumas vezes sem o fulgor das primeiras edições, a «Monocle» continua a ser o melhor guia de tendências.


 


AGENDA – No MUDE, em Lisboa, a colecção permanente tem uma nova exposição, que refresca o olhar sobre o acervo, com novas peças, novos autores e também uma maior presença de criadores portugueses – ao todo 200 peças em exposição até 2 de Setembro. «Seguindo o Traço», uma nova exposição de desenhos de Teresa Gonçalves Lobo, patente no Centro Cultural de Cascais até 26 de Junho; desenhos e fotografias de Pedro Tropa na Galeria Quadrado Azul, no Largo Stephens em Lisboa até 2 de Junho; «Cem Vezes Nguyen», uma exposição da PHotoEspaña 2011 no Museu Berardo até 28 de Agosto; até 17 de Julho na Fundação EDP «Vestígios - Memórias da antiga carpintaria da Central Tejo», um trabalho fotográfico de Luis Campos; na Módulo Tito Mouraz, apresenta, agora em Lisboa, o portofólio, Leitura(s), depois de uma primeira apresentação nos Encontros da Imagem 2010 em Braga, em Setembro passado. Já agora – visitem o site www.artecapital.net , que tem de longe o melhor guia sobre exposições de arte contemporânea em Lisboa.


 


OUVIR –  Um destes dias li, a propósito de «Here We Go Again», o disco de Willie Nelson e Wynton Marsalis que aborda o rertório de Ray Charles, com a colaboração de Norah Jones em algumas faixas, que Nelson cantava pessimamente e que dava cabo destas canções. Eu acho que afirmações destas são oriundas de concursos tipo «Ídolos» - em que se privilegia quem tem vozes perfeitas, descurando a forma como se pratica a música – de preferência certinha, cinzentinha e chatinha. Pois bem: o mundo está cheio de grandes vozes que cantam mal e tem muitos casos de fracas vozes que interpretam de forma superior – é o caso de Willie Nelson e são estas vozes imperfeitas que ficam para a história na música popular. Integrado na iniciativa «Jazz At The Lincoln Cener», este disco, gravado ao vivo, é uma mostra do que o jazz tem de melhor – a improvisação e o gôzo dos músicos e cantores. É um disco saudavelmente imperfeito, divertido como poucos hoje em dia, espontâneo e natural e, acima de tudo, uma grande homenagem ao talento de Ray Charles. CD Blue Note, na Amazon.


 


PROVAR – Confesso que gosto de conservas e nós em Portugal temos uma grande tradição, hoje em dia por vezes esquecida, na indústria conserveira. Nos Açores as conservas de atum são um clássico e uma das fábricas tradicionais da região – a Santa Catarina - acabou de ganhar um prémio da Greenpeace por boas práticas na pesca e tratamento do peixe. As conservas Santa Catarina apresentam algumas novidades pouco vulgares como filetes com orégãos, com batata doce e com tomilho. Qualquer das três variedades foge ao que estamos habituados e o ex-libris da marca é a conserva de ventresca de atum, a barrtiga do peixe, considerada a parte mais rica e saborosa. As conservas Santa Catarina podem ser encontradas em boas lojas gourmet e num no site www.azoresgourmet.com.pt , que aliás recomendo a quem quiser adquirir on line produtos da região.


 


BACK TO BASICS – A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes (Winston Churchill)