julho 03, 2007

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EQUÍVOCO – Quando as coisas se fazem à pressa eleva-se o risco da asneira – esta frase está a começar a ser uma descrição recorrente do estilo de governação socratiano. O que se passou no CCB veio mostrar a precipitação da decisão de impor um corpo estranho à instituição e de acabar com a programação autónoma da área de exposições, para lá colocar, a qualquer custo, a colecção Berardo. Percebe-se agora que, como muita gente disse na altura, tinha feito muito mais sentido autonomizá-la, instalá-la em edifício próprio, como o Pavilhão de Portugal, que vai acabar por ser palco de mostras menores e eventos variados, desvirtuando a natureza da sua concepção arquitectónica. O custo não seria muito diferente, as vantagens seriam várias e ainda se está a tempo de avançar nesse sentido, desde que se pense em vez de se ceder aos caprichos do Comendador Berardo, que melhor faria em não se comportar como uma imitação riquíssima de Alberto João Jardim, ao passear arrogância e ignorar a primeira das lições da arte que colecciona – o poder da diferença e da diversidade face às imposições.


DISPARATES – Na inauguração da Colecção Berardo no CCB a distraída Ministra da Cultura disse no seu enfadonho discurso que assim se podiam ver aquelas obras pela primeira vez, esquecendo-se que muitas delas foram passando por Sintra, no Museu de Arte Moderna, ao longo dos últimos anos. Mas mais infeliz ainda foi a descoberta do Primeiro Ministro, ao referir que agora já não era necessário ir ao estrangeiro para ver arte contemporânea – esquecendo-se levianamente do papel de referência, em termos internacionais, que a Fundação de Serralves tem tido neste campo. Enfim, distracções de quem aprendeu à pressa.


OUVIR – A norueguesa Silje Nergaard está num ponto de intersecção entre a pop e o jazz vocal, um pouco como Joni Mitchell há uns anos atrás. É Silje que compõe as suas próprias canções, com a colaboração de Mike McGurk nas palavras, é ela ainda a responsável por boa parte dos arranjos e pela produção, e o disco conta com uma conjunto de sólidos músicos suecos e noruegueses, saídos da dinâmica cena jazzistica dos países nórdicos. Destaco os temas «Darkness Out Of Blue», «Wasteland», «Before You Called Me Yours», «Let Me Be Troubled» e o deliciosamente simples «What Might Have Been» onde a voz de Silje mostra bem a subtileza de entoações que coloca na interpretação. CD Universal Music.


LER – A mais recente edição da revista «Egoísta» é, mais uma vez, um objecto de colecção, desta vez dedicado à Arte. Logo de início um belo desenho de Henrique Cayatte, seguido de uma tripla página de ilustração de Rodrigo Saias que parece quase uma instalação colocada no meio da revista. De registar os portfolios de David Lynch, Pedro Proença, Jordi Burch, António Paixão e, sobretudo, mais uma vez, Pedro Cláudio. Muito visual, esta edição da «Egoísta», conta com um texto curiosíssimo de António Mega Ferreira, meio ficção-meio ensaio, intitulado «Why Is This Art?», absolutamente imperdível e muito adequado ao tempo presente.


PROVAR – Boas surpresas num restaurante recente, Masstige, nas Avenidas Novas. O Masstige faz parte de uma nova geração de casas que é, no bom sentido, a sucessão natural da moda dos snack-bares dos anos 70. Há vários casos destes em Lisboa, por acaso mais dois só na zona das Avenidas Novas e têm alguns pontos comuns: uma aposta no design e na arquitectura, uma ementa simples mas com alguns toques de criatividade, boa música ambiente, preços acessíveis, serviço informal mas simpático. Como a casa se apresenta como restaurante-bar, à noite por vezes há um DJ em funções. Da lista do almoço fazem parte boas saladas e massas simpáticas, além de propostas de raiz bem portuguesa como um delicado folhado de alheira sobre arroz de espargos. Masstige, Av. Barbosa du Bocage 107 A, tel. 21 794 11 48.


NAVEGAR – Mais um blogue do universo da LPM, desta vez com o título ROC – Revisora Oficial de Conteúdos, da autoria de Teresa Loureiro, uma colaboradora de Luís Paixão Martins, que se dedica a pôr ordem na escrita e no português. O blogue, http://blogroc.lpmcom.pt/ tem muitas indicações e ligações bem úteis. É curioso como a LPM está a utilizar a blogosfera, não apenas para espalhar informações sobre a sua actividade, mas também para reflectir e fornecer informações sobre a natureza do trabalho de comunicação e relações públicas, como faz o próprio blogue de Luís Paixão Martins, Lugares Comuns, disponível em http://bloglpm.lpmcom.pt e que tem duas deliciosas áreas, «Mordidelas Silenciosas» e «Estados de Alma».


BACK TO BASICS – «O Cinema português é tão conhecido como o cinema esquimó», António-Pedro Vasconcelos

junho 29, 2007

SOCRATE'S PORTUGAL

The portuguese Prime Minister presides over a Government which persecutes people who criticize the way the country is ruled or who make jokes about the Prime Minister himself. In the last months high ranking civil servants have been punished either because they joked about Mr. Socrates university degree (altough the alleged joke was made in a private conversation) or because they allowed public criticism over the health policy and its Minister, Mr. Correa de Campos.
In these last weeks important industrialists said that some of the sponsors of a technical report about the placement of a new international airport - which contradicts Mr. Socrates decision - wished to remain incognito because they feared retaliation from the government in contracts with their companies.
In general there are worrying signs of political harassment by over zealous officials, but until now none of the ministers or the prime minister himself have condemned what happened.
Instead, the Prime Minister decided to persecute in Court the author of a Blog that led and first hand released an investigation about the academic degree of Mr. Socrates and the way it was obtained. All the national press followed the leads in that blog, and some of the newspapers digged deeper than the blogger. It was clear there were contradictions between Mr. Socrates official CV and the University archives. Following the investigation, the private University where Mr. Socrates obtained his degree was shut down by Government decision, in the middle of an unexpected turmoil.

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SOCRATE'S PORTUGAL

The portuguese Prime Minister presides over a Government which persecutes people who criticize the way the country is ruled or who make jokes about the Prime Minister himself. In the last months high ranking civil servants have been punished either because they joked about Mr. Socrates university degree (altough the alleged joke was made in a private conversation) or because they allowed public criticism over the health policy and its Minister, Mr. Correa de Campos.
In these last weeks important industrialists said that some of the sponsors of a technical report about the placement of a new international airport - which contradicts Mr. Socrates decision - wished to remain incognito because they feared retaliation from the government in contracts with their companies.
In general there are worrying signs of political harassment by over zealous officials, but until now none of the ministers or the prime minister himself have condemned what happened.
Instead, the Prime Minister decided to persecute in Court the author of a Blog that led and first hand released an investigation about the academic degree of Mr. Socrates and the way it was obtained. All the national press followed the leads in that blog, and some of the newspapers digged deeper than the blogger. It was clear there were contradictions between Mr. Socrates official CV and the University archives. Following the investigation, the private University where Mr. Socrates obtained his degree was shut down by Government decision, in the middle of an unexpected turmoil.
QUE FAZER COM O ARRUINADO
PAVILHÃO DOS DESPORTOS?

No meio destas eleições lisboetas há uma série de tópicos que parecem esquecidos, depois de nos últimos anos terem sido motivo de polémica. Um deles é a (boa) ideia de ter em Lisboa uma construção assinada pelo arquitecto Frank Gehry. Eu acho que as cidades vivem de emblemas, sou dos que pensam que a obra dos arquitectos contemporâneos é uma mais valia para a imagem das cidades e para a sua capacidade de atracção de visitantes.
Por isso sempre me agradou que Gehry deixasse a sua assinatura em Lisboa, de forma bem evidente, da mesma forma que nunca achei grande ideia que ele o fizesse num recanto escondido por detrás de uns prédios da Avenida da Liberdade – que é o que o Parque Mayer é de facto.
Acontece no entanto que existe um edifício, propriedade do Município, num local central, muito visível, bem servido de transportes, que está no sítio certo para fazer um desafio aos arquitectos – e talvez se pudesse renegociar com Gehry, para que nem tudo o que já lhe foi pago em estudos seja investimento perdido.
Falo do Pavilhão dos Desportos, Pavilhão Carlos Lopes, no alto do Parque Eduardo VII. Para quem não sabe, o estado da construção é mau, tem sérias limitações de utilização por razões de segurança, e hoje em dia a sala é perfeitamente desadequada para o que quer que seja – desde desporto a música. Dizem-me (e parece-me evidente) que nada daquilo tem interesse arquitectónico a preservar e, com a excepção de uns painéis de azulejos, não há muito para guardar.
Ora acontece que Lisboa tem falta de uma boa sala de música com capacidade para uns 2500 a 3000 lugares, o que viabilizaria, do ponto de vista comercial, muitos e bons concertos dos mais variados géneros. E já que Gehry tem construído alguns dos mais espantosos (e eficazes) auditórios modernos ao longo da sua carreira, porque não propor-lhe uma reconversão da sua intervenção em Lisboa e colocar, no alto daquela colina, dominando o parque Eduardo VII, uma obra que marque Lisboa de forma bem evidente?
E não venham com o deficit, esta é daquelas obras que pode ser paga com as contrapartidas do Casino de Lisboa. É só uma questão de vontade.

(publicado na edição de dia 27 de Junho do diário gratuito «Meia Hora»

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QUE FAZER COM O ARRUINADO
PAVILHÃO DOS DESPORTOS?

No meio destas eleições lisboetas há uma série de tópicos que parecem esquecidos, depois de nos últimos anos terem sido motivo de polémica. Um deles é a (boa) ideia de ter em Lisboa uma construção assinada pelo arquitecto Frank Gehry. Eu acho que as cidades vivem de emblemas, sou dos que pensam que a obra dos arquitectos contemporâneos é uma mais valia para a imagem das cidades e para a sua capacidade de atracção de visitantes.
Por isso sempre me agradou que Gehry deixasse a sua assinatura em Lisboa, de forma bem evidente, da mesma forma que nunca achei grande ideia que ele o fizesse num recanto escondido por detrás de uns prédios da Avenida da Liberdade – que é o que o Parque Mayer é de facto.
Acontece no entanto que existe um edifício, propriedade do Município, num local central, muito visível, bem servido de transportes, que está no sítio certo para fazer um desafio aos arquitectos – e talvez se pudesse renegociar com Gehry, para que nem tudo o que já lhe foi pago em estudos seja investimento perdido.
Falo do Pavilhão dos Desportos, Pavilhão Carlos Lopes, no alto do Parque Eduardo VII. Para quem não sabe, o estado da construção é mau, tem sérias limitações de utilização por razões de segurança, e hoje em dia a sala é perfeitamente desadequada para o que quer que seja – desde desporto a música. Dizem-me (e parece-me evidente) que nada daquilo tem interesse arquitectónico a preservar e, com a excepção de uns painéis de azulejos, não há muito para guardar.
Ora acontece que Lisboa tem falta de uma boa sala de música com capacidade para uns 2500 a 3000 lugares, o que viabilizaria, do ponto de vista comercial, muitos e bons concertos dos mais variados géneros. E já que Gehry tem construído alguns dos mais espantosos (e eficazes) auditórios modernos ao longo da sua carreira, porque não propor-lhe uma reconversão da sua intervenção em Lisboa e colocar, no alto daquela colina, dominando o parque Eduardo VII, uma obra que marque Lisboa de forma bem evidente?
E não venham com o deficit, esta é daquelas obras que pode ser paga com as contrapartidas do Casino de Lisboa. É só uma questão de vontade.

(publicado na edição de dia 27 de Junho do diário gratuito «Meia Hora»

junho 25, 2007

DESERTO – As candidaturas à Câmara de Lisboa têm desgraçadamente três pontos em comum: a completa ausência de posicionamento estratégico para a cidade; a obsessão pelo défice que cega qualquer rasgo de visão e desenvolvimento; e políticas culturais mais preocupadas em servir clientelas do que em contribuir para o desenvolvimento e reconhecimento da cidade. Cada vez mais me inclino para a abstenção nestas eleições.


OUVIR – O novo disco da norte-americana Jane Monheit vem confirmá-la como uma das grandes vocalistas de jazz da actualidade. «Surrender», o seu terceiro disco, é um exemplo de produção clássica e eficaz, com orquestrações envolventes. O disco inclui um dueto com Ivan Lins num tema do próprio cantor brasileiro, «Rio de Maio», uma bela interpretação de «Só Tinha de Ser Com Você» de Aloysio de Oliveira e Tom Carlos Jobim, e uma inesperada forma de abordar «Moon River», de Henry Mancini. «Caminhos Cruzados», outro original de Jobim, recebe uma ajuda preciosa da harmónica de Toots Thielemans e completa um leque invulgar de selecções. CD Concord, Universal Music.


LER - «Na Praia de Chesil», o novo romance do britânico Ian McEwan, é mais uma incursão num dos domínios que ele mais gosta de explorar, a dissecação das relações entre pessoas. Passado no início dos anos 60, o romance conta a história de duas personagens, da sua maneira de estar e dos seus fantasmas, a partir do relato da noite de núpcias não consumada, passada num hotel à beira mar. Essa noite muda a vida das personagens, cada uma partindo em direcções opostas daquela praia onde finalmente se descobriram. Ewan gosta de dizer que, quando escreve, gosta de pensar nas suas novelas em termos de projecto arquitectónico: tem que se entrar por um portão e aceder a um hall que seja suficientemente aliciante para o leitor querer descobrir o resto do edifício. Foi o que mais uma vez conseguiu, com êxito, neste novo romance, com edição portuguesa da Gradiva (128 páginas).


VER – Por estes dias, para a semana, de 28 a 30 de Junho, a Torre de Belém acolhe a terceira edição do Africa Festival, um dos poucos momentos em que Lisboa é uma plataforma de relacionamento cultural multi-disciplinar com o continente africano. Depois dos dias à beira Tejo, o Cinema S. Jorge acolhe de 2 a 8 de Julho uma série de iniciativas, desde apresentações de livros, a um ciclo de cinema, passando por música e dança. Permito-me destacar a 7 de Julho às 22h00 os filmes «Muxima» de Alfredo Jaar e o belíssimo «Mãe Ju» de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves. Outro destaque vai para o filme «Bamako», de um realizador do Mali, que tem sido elogiado internacionalmente e que aqui surge em estreia nacional. Por uns poucos dias o Africa Festival recorda-nos do continente a que temos mais fortes ligações e mostra o que devia ser um dos eixos da política cultural da cidade e do país.


SUBLINHAR – O Biography Channel está a produzir e exibir uma série de documentários sobre figuras portuguesas, da música à moda, passando pela literatura e artes plásticas, de uma forma exemplar e que devia servir de modelo para o serviço público de televisão, que deixou de se interessar por esta área, nomeadamente na 2:, onde uma série de parcerias conseguiram em dois anos (2004 e 2005) produzir mais uma dezena de documentários, infelizmente sem seguimento desde que Santos Silva resolveu acabar com a autonomia do canal.


DESCOBRIR – O novo site de um dos melhores jornais do mundo, o britânico The Guardin (www.guardian.co.uk) , muitoi fácil de navegar, mais «limpo» e muito mais elegante que a maioria dos sites de jornais. Quem fez o absurdo novo site do «Público» bem podia vir aqui aprender como se pode fazer um trabalho asseado. E vale a pena assinar a newsletter diária «Guardian Unlimited Today», uma forma inteligente de acompanhar o que se passa no mundo.


PROVAR – Nadas melhor que uma Água das Pedras – passe a publicidade. Numa edição recente da revista «Time», a marca portuguesa era elogiada por ser uma das poucas águas minerais a ter uma gaseificação natural que, dizia a revista, a tornam num bom acompanhamento para propostas gastronómicas com sabores subtis.


BACK TO BASICS – O betão, na forma terrestre e aeronáutica, está a tornar-se no símbolo nacional do país.

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DESERTO – As candidaturas à Câmara de Lisboa têm desgraçadamente três pontos em comum: a completa ausência de posicionamento estratégico para a cidade; a obsessão pelo défice que cega qualquer rasgo de visão e desenvolvimento; e políticas culturais mais preocupadas em servir clientelas do que em contribuir para o desenvolvimento e reconhecimento da cidade. Cada vez mais me inclino para a abstenção nestas eleições.


OUVIR – O novo disco da norte-americana Jane Monheit vem confirmá-la como uma das grandes vocalistas de jazz da actualidade. «Surrender», o seu terceiro disco, é um exemplo de produção clássica e eficaz, com orquestrações envolventes. O disco inclui um dueto com Ivan Lins num tema do próprio cantor brasileiro, «Rio de Maio», uma bela interpretação de «Só Tinha de Ser Com Você» de Aloysio de Oliveira e Tom Carlos Jobim, e uma inesperada forma de abordar «Moon River», de Henry Mancini. «Caminhos Cruzados», outro original de Jobim, recebe uma ajuda preciosa da harmónica de Toots Thielemans e completa um leque invulgar de selecções. CD Concord, Universal Music.


LER - «Na Praia de Chesil», o novo romance do britânico Ian McEwan, é mais uma incursão num dos domínios que ele mais gosta de explorar, a dissecação das relações entre pessoas. Passado no início dos anos 60, o romance conta a história de duas personagens, da sua maneira de estar e dos seus fantasmas, a partir do relato da noite de núpcias não consumada, passada num hotel à beira mar. Essa noite muda a vida das personagens, cada uma partindo em direcções opostas daquela praia onde finalmente se descobriram. Ewan gosta de dizer que, quando escreve, gosta de pensar nas suas novelas em termos de projecto arquitectónico: tem que se entrar por um portão e aceder a um hall que seja suficientemente aliciante para o leitor querer descobrir o resto do edifício. Foi o que mais uma vez conseguiu, com êxito, neste novo romance, com edição portuguesa da Gradiva (128 páginas).


VER – Por estes dias, para a semana, de 28 a 30 de Junho, a Torre de Belém acolhe a terceira edição do Africa Festival, um dos poucos momentos em que Lisboa é uma plataforma de relacionamento cultural multi-disciplinar com o continente africano. Depois dos dias à beira Tejo, o Cinema S. Jorge acolhe de 2 a 8 de Julho uma série de iniciativas, desde apresentações de livros, a um ciclo de cinema, passando por música e dança. Permito-me destacar a 7 de Julho às 22h00 os filmes «Muxima» de Alfredo Jaar e o belíssimo «Mãe Ju» de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves. Outro destaque vai para o filme «Bamako», de um realizador do Mali, que tem sido elogiado internacionalmente e que aqui surge em estreia nacional. Por uns poucos dias o Africa Festival recorda-nos do continente a que temos mais fortes ligações e mostra o que devia ser um dos eixos da política cultural da cidade e do país.


SUBLINHAR – O Biography Channel está a produzir e exibir uma série de documentários sobre figuras portuguesas, da música à moda, passando pela literatura e artes plásticas, de uma forma exemplar e que devia servir de modelo para o serviço público de televisão, que deixou de se interessar por esta área, nomeadamente na 2:, onde uma série de parcerias conseguiram em dois anos (2004 e 2005) produzir mais uma dezena de documentários, infelizmente sem seguimento desde que Santos Silva resolveu acabar com a autonomia do canal.


DESCOBRIR – O novo site de um dos melhores jornais do mundo, o britânico The Guardin (www.guardian.co.uk) , muitoi fácil de navegar, mais «limpo» e muito mais elegante que a maioria dos sites de jornais. Quem fez o absurdo novo site do «Público» bem podia vir aqui aprender como se pode fazer um trabalho asseado. E vale a pena assinar a newsletter diária «Guardian Unlimited Today», uma forma inteligente de acompanhar o que se passa no mundo.


PROVAR – Nadas melhor que uma Água das Pedras – passe a publicidade. Numa edição recente da revista «Time», a marca portuguesa era elogiada por ser uma das poucas águas minerais a ter uma gaseificação natural que, dizia a revista, a tornam num bom acompanhamento para propostas gastronómicas com sabores subtis.


BACK TO BASICS – O betão, na forma terrestre e aeronáutica, está a tornar-se no símbolo nacional do país.

junho 21, 2007

UMA OPORTUNIDADE PERDIDA
(publicado no diário «Meia Hora»

No início do próximo mês Lisboa vai ser invadida por milhares de jornalistas e opinion-makers de todos os cantos do mundo, que regularmente visitarão a cidade, até final do ano, durante o semestre que durar a Presidência portuguesa da Comunidade Europeia. Como sempre acontece nestas alturas serão numerosos os artigos sobre a cidade e o país que acolhem a Presidência.

Pois aqui é exactamente onde a porca começa a torcer o rabito: mandava a boa lógica que face a uma ocasião de exposição mediática desta natureza tivesse havido cuidado e seriedade na preparação das coisas. Para além do lado patrimonial que merecia ser evocado, esta era uma oportunidade única de dar a conhecer a criatividade portuguesa, os novos artistas, o que existe de novo em Portugal, a nossa vocação multicultural. Há poucos dias o crítico de arte Alexandre Melo, assessor para a Cultura de José Sócrates, dizia numa entrevista que um dos problemas maiores para a visibilidade dos criadores portugueses no exterior era «nunca se terem organizado, de forma sistemática, visitas de críticos e comissários internacionais a Portugal». A afirmação é certeira, claro que qualquer pessoa se interrogará sobre a razão que leva a senhora Ministra da Cultura a não reparar no que diz um assessor do Primeiro Ministro. O artista plástico Pedro Cabrita Reis, que tem uma rara lucidez a olhar para o país, dizia numa entrevista recente que a causa de todo o imobilismo nestas matérias era a total falta «de visão e de vontade estratégica de afirmação no exterior». Nada é mais verdade e o que está prestes a acontecer é a demonstração de uma oportunidade desperdiçada.

Ao longo do semestre da Presidência, Lisboa acolhe 300 eventos que receberão 50.000 participantes. Num tempo de afirmação do multiculturalismo esta podia ser a oportunidade de mostrar a nossa vocação de plataforma de relacionamento com África, projectando cruzamentos entre artistas contemporâneos portugueses e de países africanos. Mas isto, claro, é uma ilusão – na realidade nada se passa. Mais uma vez.

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UMA OPORTUNIDADE PERDIDA
(publicado no diário «Meia Hora»

No início do próximo mês Lisboa vai ser invadida por milhares de jornalistas e opinion-makers de todos os cantos do mundo, que regularmente visitarão a cidade, até final do ano, durante o semestre que durar a Presidência portuguesa da Comunidade Europeia. Como sempre acontece nestas alturas serão numerosos os artigos sobre a cidade e o país que acolhem a Presidência.

Pois aqui é exactamente onde a porca começa a torcer o rabito: mandava a boa lógica que face a uma ocasião de exposição mediática desta natureza tivesse havido cuidado e seriedade na preparação das coisas. Para além do lado patrimonial que merecia ser evocado, esta era uma oportunidade única de dar a conhecer a criatividade portuguesa, os novos artistas, o que existe de novo em Portugal, a nossa vocação multicultural. Há poucos dias o crítico de arte Alexandre Melo, assessor para a Cultura de José Sócrates, dizia numa entrevista que um dos problemas maiores para a visibilidade dos criadores portugueses no exterior era «nunca se terem organizado, de forma sistemática, visitas de críticos e comissários internacionais a Portugal». A afirmação é certeira, claro que qualquer pessoa se interrogará sobre a razão que leva a senhora Ministra da Cultura a não reparar no que diz um assessor do Primeiro Ministro. O artista plástico Pedro Cabrita Reis, que tem uma rara lucidez a olhar para o país, dizia numa entrevista recente que a causa de todo o imobilismo nestas matérias era a total falta «de visão e de vontade estratégica de afirmação no exterior». Nada é mais verdade e o que está prestes a acontecer é a demonstração de uma oportunidade desperdiçada.

Ao longo do semestre da Presidência, Lisboa acolhe 300 eventos que receberão 50.000 participantes. Num tempo de afirmação do multiculturalismo esta podia ser a oportunidade de mostrar a nossa vocação de plataforma de relacionamento com África, projectando cruzamentos entre artistas contemporâneos portugueses e de países africanos. Mas isto, claro, é uma ilusão – na realidade nada se passa. Mais uma vez.

junho 19, 2007

AEROPORTO – O Governo diz agora estar disposto a estudar alternativas à Ota – a abertura de espírito surge em altura oportuna – descomprime as relações com a Presidência da República e pretende aliviar a pressão que esta questão estava a causar na candidatura de António Costa. Mas como de boas intenções está o inferno cheio, cá para mim continua a valer a pena, no âmbito da campanha autárquica de Lisboa, debater de facto qual a melhor localização para o Aeroporto de Lisboa, o aeroporto que serve a capital – e é neste domínio que vale a pena debater: não estamos a falar de um aeroporto nacional, mas sim do aeroporto que serve a capital de um país, as empresas que lá estão, os turistas que vêm à cidade - porque os que quiserem ir descobrir os encantos do Douro aterrarão no Porto e os que querem ir a banhos para o Algarve escolhem Faro. É bom ter isto em conta, e é bom que cada candidato diga claramente que solução prefere e que assuma o compromisso de a defender: se a Ota, se Alcochete, ou se a extensão da Portela, que são as três alternativas em cima da mesa. A maior parte dos candidatos já se pronunciou. António Costa quer agora evitar ter posição sobre a matéria – o que é inaceitável para quem aspira ser Presidente da Câmara de Lisboa. Que quer Costa? Defender o Governo ou os interesses da cidade que aspira dirigir?


VER/LER – Há livros que são objectos visuais, que ultrapassam os textos que publicam e que vivem baseado nas imagens, na forma como elas estão organizadas. Em Portugal não há muitos ensaios fotográficos editados, vale a pena destacar a excelência fotográfica do mais recente trabalho de Inês Gonçalves, aqui com Kiluanje Liberdade. O livro chama-se «Agora Luanda», tem 188 páginas e foi editado pela Almedina. É de uma rara intensidade e é dos melhores livros de fotografia portugueses.


OUVIR – O novo disco de Mário Laginha tem uma história curiosa: parte de um desafio lançado por José Mateus, o Comissário da Trienal de Arquitectura de Lisboa, actualmente em curso. Laginha conta nas notas de capa do disco que Mateus o levou a ver algumas das obras mais significativas da arquitectura portuguesa e que confirmou, nessas visitas, o que já pensava – que existe uma relação entre a arquitectura e a música, assumindo assim de onde veio a inspiração para este disco, a que significativamente deu o nome de «Espaço». Contada a história, passemos ao disco: tem oito composições originais de Laginha, interpretadas por ele próprio ao piano, por Alexandre Frazão na bateria e por Bernardo Moreira no contrabaixo – para mim o trio de piano, bateria e baixo é a formação preferida do jazz, reabilitada nos últimos anos muito por força dos primeiros discos de Brad Mehldau. Este «Espaço» do Trio de Mário Laginha é uma das boas surpresas da edição nacional na área do jazz, mais uma vez da responsabilidade da editora Clean Feed/Trem Azul.



REGISTO – Francisco Amaral é o responsável por um dos melhores programas de rádio, na área musical, alguma vez feitos em Portugal. O programa chama-se «Íntima Fracção» e já passou por algumas frequências. Há uns anos esteve na TSF, depois perdeu-se numa qualquer reestruturação de grelha e nos últimos tempos vivia exclusivamente, mas organizadamente, na Internet no blog que o seu autor criou para o efeito, http://intima.blogspot.com/ . No meio das recentes alterações que o Rádio Clube Português tem vindo a fazer, eis que o «Íntima Fracção» regressou ao formato rádio e volta a estar disponível para todos os que quiserem ouvir uma das mais perfeitas seleccções musicais que é possível descobrir nas ondas hertzianas. O «Intima Fracção» vai para o ar nas noites de Domingo para Segunda, à meia noite. Obrigado, Rádio Clube Português.


PETISCO – Tenho a mania de provar salgadinhos nos cafés, gosto de experimentar como são os croquetes, as empadas, os rissóis, as merendinhas que tão boas memórias me trazem. Um dos salgadinhos que tento sempre provar, em havendo, dá pelo nome bem português de pastel de massa tenra. São célebres os do restaurante Papa-Açorda em Lisboa, há tempos descobri uns num café do largo de Marvila que eram bem bons, mas por estes dias dei com uns outros que merecem referência. A massa é perfeita, nem muito grossa, nem muito fina, o recheio é bem temperado, o tamanho é honesto. Podem ser provados na Pastelaria Sá, esquina da Conde de Valbom com a Miguel Bombarda, às avenidas novas, em Lisboa.



BACK TO BASICS - A simplicidade é o auge da civilização, Jessie Sampter.

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AEROPORTO – O Governo diz agora estar disposto a estudar alternativas à Ota – a abertura de espírito surge em altura oportuna – descomprime as relações com a Presidência da República e pretende aliviar a pressão que esta questão estava a causar na candidatura de António Costa. Mas como de boas intenções está o inferno cheio, cá para mim continua a valer a pena, no âmbito da campanha autárquica de Lisboa, debater de facto qual a melhor localização para o Aeroporto de Lisboa, o aeroporto que serve a capital – e é neste domínio que vale a pena debater: não estamos a falar de um aeroporto nacional, mas sim do aeroporto que serve a capital de um país, as empresas que lá estão, os turistas que vêm à cidade - porque os que quiserem ir descobrir os encantos do Douro aterrarão no Porto e os que querem ir a banhos para o Algarve escolhem Faro. É bom ter isto em conta, e é bom que cada candidato diga claramente que solução prefere e que assuma o compromisso de a defender: se a Ota, se Alcochete, ou se a extensão da Portela, que são as três alternativas em cima da mesa. A maior parte dos candidatos já se pronunciou. António Costa quer agora evitar ter posição sobre a matéria – o que é inaceitável para quem aspira ser Presidente da Câmara de Lisboa. Que quer Costa? Defender o Governo ou os interesses da cidade que aspira dirigir?


VER/LER – Há livros que são objectos visuais, que ultrapassam os textos que publicam e que vivem baseado nas imagens, na forma como elas estão organizadas. Em Portugal não há muitos ensaios fotográficos editados, vale a pena destacar a excelência fotográfica do mais recente trabalho de Inês Gonçalves, aqui com Kiluanje Liberdade. O livro chama-se «Agora Luanda», tem 188 páginas e foi editado pela Almedina. É de uma rara intensidade e é dos melhores livros de fotografia portugueses.


OUVIR – O novo disco de Mário Laginha tem uma história curiosa: parte de um desafio lançado por José Mateus, o Comissário da Trienal de Arquitectura de Lisboa, actualmente em curso. Laginha conta nas notas de capa do disco que Mateus o levou a ver algumas das obras mais significativas da arquitectura portuguesa e que confirmou, nessas visitas, o que já pensava – que existe uma relação entre a arquitectura e a música, assumindo assim de onde veio a inspiração para este disco, a que significativamente deu o nome de «Espaço». Contada a história, passemos ao disco: tem oito composições originais de Laginha, interpretadas por ele próprio ao piano, por Alexandre Frazão na bateria e por Bernardo Moreira no contrabaixo – para mim o trio de piano, bateria e baixo é a formação preferida do jazz, reabilitada nos últimos anos muito por força dos primeiros discos de Brad Mehldau. Este «Espaço» do Trio de Mário Laginha é uma das boas surpresas da edição nacional na área do jazz, mais uma vez da responsabilidade da editora Clean Feed/Trem Azul.



REGISTO – Francisco Amaral é o responsável por um dos melhores programas de rádio, na área musical, alguma vez feitos em Portugal. O programa chama-se «Íntima Fracção» e já passou por algumas frequências. Há uns anos esteve na TSF, depois perdeu-se numa qualquer reestruturação de grelha e nos últimos tempos vivia exclusivamente, mas organizadamente, na Internet no blog que o seu autor criou para o efeito, http://intima.blogspot.com/ . No meio das recentes alterações que o Rádio Clube Português tem vindo a fazer, eis que o «Íntima Fracção» regressou ao formato rádio e volta a estar disponível para todos os que quiserem ouvir uma das mais perfeitas seleccções musicais que é possível descobrir nas ondas hertzianas. O «Intima Fracção» vai para o ar nas noites de Domingo para Segunda, à meia noite. Obrigado, Rádio Clube Português.


PETISCO – Tenho a mania de provar salgadinhos nos cafés, gosto de experimentar como são os croquetes, as empadas, os rissóis, as merendinhas que tão boas memórias me trazem. Um dos salgadinhos que tento sempre provar, em havendo, dá pelo nome bem português de pastel de massa tenra. São célebres os do restaurante Papa-Açorda em Lisboa, há tempos descobri uns num café do largo de Marvila que eram bem bons, mas por estes dias dei com uns outros que merecem referência. A massa é perfeita, nem muito grossa, nem muito fina, o recheio é bem temperado, o tamanho é honesto. Podem ser provados na Pastelaria Sá, esquina da Conde de Valbom com a Miguel Bombarda, às avenidas novas, em Lisboa.



BACK TO BASICS - A simplicidade é o auge da civilização, Jessie Sampter.

junho 11, 2007

ALVO – O Partido Popular anunciou que vai trazer da Madeira o actor que andou na campanha eleitoral regional a serrazinar a cabeça de Alberto João Jardim cada vez que ele aparecia em público. Na minha ingenuidade julguei que iria colar o homem ao candidato António Costa, pensei eu que para o PP o alvo principal seria o PS, que o actor iria andar á procura do caminho para a Ota. Parece que me enganei, Costa vai ser deixado em paz pelo PP, Telmo Correia está mais interessado em combater outros candidatos – por estas e por outras é que o PP, nestas eleições de Lisboa, tem um ar tão pouco credível como o medonho cartaz que andou a espalhar, réplica perfeita da estética dos cartazes dos filmes indianos produzidos em Bollywood.



INÚTIL – O único voto útil nas próximas autárquicas é qualquer voto contra António Costa: votar nele é inútil, é concordar com o silêncio do Governo no caso da perseguição a um cidadão por delito de opinião na Direcção Geral de Educação Norte; votar nele é concordar com Mário Lino na questão da Ota; votar nele é concordar com as diatribes do Ministro das Finanças contra os contribuintes, do Ministro da Saúde contra os doentes e da Ministra da Educação contra o ensino do Português. Qualquer voto em António Costa será politicamente aproveitado como um voto referendário a favor do Governo. Se Costa ganhar, o Governo, que se finge arredado do processo eleitoral, aparecerá a dizer que a população apoia a sua acção. Costa não é um candidato, é um putativo embaixador do Governo de José Sócrates em Lisboa.


NOVIDADE – Continuamente preocupado com a desertificação de grandes zonas do país, o Ministro das Obras Públicas está a estudar a construção de uma maternidade rodoviária, na A 14. Depois do encerramento da maternidade da Figueira da Foz já nasceram três bebes no transporte de ambulância entre aquela cidade e Coimbra.


OUVIR – São norte-americanos, do Oregon, parecem europeus, um pouco parisienses até, existem desde 1994 e chamam-se Pink Martini, têm uma diva plástica por vocalista, China Forbes, que estudou pintura em Harvard. Cada um dos seus álbuns parece uma colectânea de propostas de hinos para uma imaginária Sociedade das Nações onde seja a música a mandar. O disco mais recente chama-se «Hey Eugene!» e não foge à regra. Revelaram-se com uma canção que fez êxito em França, «Je Ne Veux Pas Travailler», e a este novo álbum traz sons do cabaret francês, misturado com a época de ouro de Hollywood. O disco percorre sonoridades que vão da Europa de Leste até ritmos latinos e um dos temas, «Mar Desconocido» podia bem figurar num filme de Almodôvar. A faixa que dá o nome ao disco é um velho êxito da banda em concertos, mas nunca havia sido gravada. E é impossível não ficar arrebatado com o dueto entre Forbes e Jimmy Scott, um histórico do jazz, na faixa que encerra o disco, «Tea For Two». («Hey Eugene!» - CD Heinz Records, Naive, disponível na FNAC).


LER – Nestes últimos tempos uma arreliadora tendinite tem-me impedido de jogar golfe, uma masoquista rotina de fim-de-semana já com alguns anos. Nestas semanas as voltas ao campo têm sido substituídas pela leitura de um dos mais fascinantes livros sobre o jogo que já tive ocasião de ler – e confesso que li imensos. Como quem de nós gosta nos quer aliviar o sofrimento, este livro foi-me oferecido para eu reflectir sobre o golfe e sobre algumas coisas que, vindas do jogo, se podem aplicar na vida em geral. «The Inner Game Of Golf» faz parte de uma série de livros de W. Thimothy Gallwey sob a designação genérica «The Inner Game», dos quais o mais célebre é o «The Inner Game Of Tennis». Gallway concentra-se nos princíoios de formação do «coaching», utilizados nos quadros de grandes empresas. A sua aproximação ao desporto parte destes princípios, trabalhando no desenvolvimento do que ele chama «concentração descontraída». A leitura é entusiasmante e só posso agradecer a quem me fez descobrir este livro - espero que quando recomeçar a jogar se vejam os efeitos desta leitura. «The Inner Game Of Golf», de W. Timothy Gallwey, edição Random House, 211 páginas. Disponível na Amazon.


BACK TO BASICS - «As ideias são mais poderosas do que armas, se não deixamos os nossos inimigos terem armas, porque razão os deixaremos falar das suas ideias?» - José Estaline, dedicado à Directora-Geral de Educação do Norte, a Hugo Chávez, a Augusto Santos Silva e a Mário Lino.

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ALVO – O Partido Popular anunciou que vai trazer da Madeira o actor que andou na campanha eleitoral regional a serrazinar a cabeça de Alberto João Jardim cada vez que ele aparecia em público. Na minha ingenuidade julguei que iria colar o homem ao candidato António Costa, pensei eu que para o PP o alvo principal seria o PS, que o actor iria andar á procura do caminho para a Ota. Parece que me enganei, Costa vai ser deixado em paz pelo PP, Telmo Correia está mais interessado em combater outros candidatos – por estas e por outras é que o PP, nestas eleições de Lisboa, tem um ar tão pouco credível como o medonho cartaz que andou a espalhar, réplica perfeita da estética dos cartazes dos filmes indianos produzidos em Bollywood.



INÚTIL – O único voto útil nas próximas autárquicas é qualquer voto contra António Costa: votar nele é inútil, é concordar com o silêncio do Governo no caso da perseguição a um cidadão por delito de opinião na Direcção Geral de Educação Norte; votar nele é concordar com Mário Lino na questão da Ota; votar nele é concordar com as diatribes do Ministro das Finanças contra os contribuintes, do Ministro da Saúde contra os doentes e da Ministra da Educação contra o ensino do Português. Qualquer voto em António Costa será politicamente aproveitado como um voto referendário a favor do Governo. Se Costa ganhar, o Governo, que se finge arredado do processo eleitoral, aparecerá a dizer que a população apoia a sua acção. Costa não é um candidato, é um putativo embaixador do Governo de José Sócrates em Lisboa.


NOVIDADE – Continuamente preocupado com a desertificação de grandes zonas do país, o Ministro das Obras Públicas está a estudar a construção de uma maternidade rodoviária, na A 14. Depois do encerramento da maternidade da Figueira da Foz já nasceram três bebes no transporte de ambulância entre aquela cidade e Coimbra.


OUVIR – São norte-americanos, do Oregon, parecem europeus, um pouco parisienses até, existem desde 1994 e chamam-se Pink Martini, têm uma diva plástica por vocalista, China Forbes, que estudou pintura em Harvard. Cada um dos seus álbuns parece uma colectânea de propostas de hinos para uma imaginária Sociedade das Nações onde seja a música a mandar. O disco mais recente chama-se «Hey Eugene!» e não foge à regra. Revelaram-se com uma canção que fez êxito em França, «Je Ne Veux Pas Travailler», e a este novo álbum traz sons do cabaret francês, misturado com a época de ouro de Hollywood. O disco percorre sonoridades que vão da Europa de Leste até ritmos latinos e um dos temas, «Mar Desconocido» podia bem figurar num filme de Almodôvar. A faixa que dá o nome ao disco é um velho êxito da banda em concertos, mas nunca havia sido gravada. E é impossível não ficar arrebatado com o dueto entre Forbes e Jimmy Scott, um histórico do jazz, na faixa que encerra o disco, «Tea For Two». («Hey Eugene!» - CD Heinz Records, Naive, disponível na FNAC).


LER – Nestes últimos tempos uma arreliadora tendinite tem-me impedido de jogar golfe, uma masoquista rotina de fim-de-semana já com alguns anos. Nestas semanas as voltas ao campo têm sido substituídas pela leitura de um dos mais fascinantes livros sobre o jogo que já tive ocasião de ler – e confesso que li imensos. Como quem de nós gosta nos quer aliviar o sofrimento, este livro foi-me oferecido para eu reflectir sobre o golfe e sobre algumas coisas que, vindas do jogo, se podem aplicar na vida em geral. «The Inner Game Of Golf» faz parte de uma série de livros de W. Thimothy Gallwey sob a designação genérica «The Inner Game», dos quais o mais célebre é o «The Inner Game Of Tennis». Gallway concentra-se nos princíoios de formação do «coaching», utilizados nos quadros de grandes empresas. A sua aproximação ao desporto parte destes princípios, trabalhando no desenvolvimento do que ele chama «concentração descontraída». A leitura é entusiasmante e só posso agradecer a quem me fez descobrir este livro - espero que quando recomeçar a jogar se vejam os efeitos desta leitura. «The Inner Game Of Golf», de W. Timothy Gallwey, edição Random House, 211 páginas. Disponível na Amazon.


BACK TO BASICS - «As ideias são mais poderosas do que armas, se não deixamos os nossos inimigos terem armas, porque razão os deixaremos falar das suas ideias?» - José Estaline, dedicado à Directora-Geral de Educação do Norte, a Hugo Chávez, a Augusto Santos Silva e a Mário Lino.

junho 08, 2007

ISTO ANDA TUDO LIGADO
(publicado na edição nº1 do jornal «Meia Hora»

Os principais candidatos à Câmara de Lisboa andam legitimamente inquietos com as contas da autarquia. Falam muito do passado e pensam muito pouco sobre o futuro. Do muito que têm dito, pouco tenho ouvido sobre qual a sua estratégia para o posicionamento da cidade, nenhum se arrisca a dizer como tenciona fazer outras coisas além da limpeza das ruas e da reparação dos buracos do pavimento.

Isto é capaz de ser uma injustiça – o Dr. António Costa provou este fim-de-semana que quer pistas para bicicletas, certamente uma justíssima preocupação para um posicionamento de Lisboa como a cidade do pedal…Será que vai construir uma ciclovia daqui até à Ota?

Adiante: nesta nossa Europa há um número crescente de turistas que prefere as cidades às praias ou a possibilidade de visitar uma exposição a dormir debaixo de um coqueiro. Todos os indicadores mostram que o turismo de «short-break», de fim de semana, é o que mais tem aumentado em Lisboa, criando um fluxo regular ao longo de todo o ano. Há duas coisas que podem destruir esta tendência: colocar o aeroporto a caminho de Coimbra e desinvestir na área da criatividade e do investimento cultural. No último ano Lisboa já perdeu a Experimenta Design e a Lisboa Photo, e a Moda Lisboa foi reduzida em dimensão. Qualquer destes eventos, em conjunto com o África Festival, gerava mais páginas sobre Lisboa na imprensa internacional que todas as outras iniciativas autárquicas juntas. Se Lisboa sair do mapa das cidades onde se passam coisas diferentes, morre para este novo turismo urbano e não há sol nem clima que nos salve.

Em todo o mundo, cada vez mais, o posicionamento internacional e a imagem das grandes cidades passa pela definição de políticas culturais e de uma estratégia de criatividade, assumidas como um motor de desenvolvimento, e não como um mero serviço social de atribuição de subsídios. A política cultural de uma cidade pode ser encarada como uma fonte de receitas, e não apenas como um centro de custos. Que pensam os candidatos sobre este assunto? E que se propõem fazer, para além de cultivar o silêncio?

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ISTO ANDA TUDO LIGADO
(publicado na edição nº1 do jornal «Meia Hora»

Os principais candidatos à Câmara de Lisboa andam legitimamente inquietos com as contas da autarquia. Falam muito do passado e pensam muito pouco sobre o futuro. Do muito que têm dito, pouco tenho ouvido sobre qual a sua estratégia para o posicionamento da cidade, nenhum se arrisca a dizer como tenciona fazer outras coisas além da limpeza das ruas e da reparação dos buracos do pavimento.

Isto é capaz de ser uma injustiça – o Dr. António Costa provou este fim-de-semana que quer pistas para bicicletas, certamente uma justíssima preocupação para um posicionamento de Lisboa como a cidade do pedal…Será que vai construir uma ciclovia daqui até à Ota?

Adiante: nesta nossa Europa há um número crescente de turistas que prefere as cidades às praias ou a possibilidade de visitar uma exposição a dormir debaixo de um coqueiro. Todos os indicadores mostram que o turismo de «short-break», de fim de semana, é o que mais tem aumentado em Lisboa, criando um fluxo regular ao longo de todo o ano. Há duas coisas que podem destruir esta tendência: colocar o aeroporto a caminho de Coimbra e desinvestir na área da criatividade e do investimento cultural. No último ano Lisboa já perdeu a Experimenta Design e a Lisboa Photo, e a Moda Lisboa foi reduzida em dimensão. Qualquer destes eventos, em conjunto com o África Festival, gerava mais páginas sobre Lisboa na imprensa internacional que todas as outras iniciativas autárquicas juntas. Se Lisboa sair do mapa das cidades onde se passam coisas diferentes, morre para este novo turismo urbano e não há sol nem clima que nos salve.

Em todo o mundo, cada vez mais, o posicionamento internacional e a imagem das grandes cidades passa pela definição de políticas culturais e de uma estratégia de criatividade, assumidas como um motor de desenvolvimento, e não como um mero serviço social de atribuição de subsídios. A política cultural de uma cidade pode ser encarada como uma fonte de receitas, e não apenas como um centro de custos. Que pensam os candidatos sobre este assunto? E que se propõem fazer, para além de cultivar o silêncio?

junho 04, 2007

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COINCIDÊNCIA – Nas últimas eleições na Venezuela Hugo Chávez usou um cartaz de propaganda onde aparecia ao lado de José Sócrates; O Ministro português Santos Silva criou uma Lei de Televisão que restringe a liberdade de actuação dos operadores e condiciona fortemente a actividade; Hugo Chavez ordenou esta semana o encerramento do canal RCTV, que se opunha ao seu Governo; Hugo Chavez- José Sócrates: a mesma luta! (ou como o Governo de Lisboa começa a ficar estranhamente parecido com o de Caracas no que ao exercício das liberdades diz respeito).


NAVEGAR – Há um ano, por iniciativa do coleccionador e galerista Victor Pinto da Fonseca (VPF Creamarte e Plataforma Revólver), nascia a única publicação portuguesa exclusivamente dedicada às artes plásticas, nomeadamente à arte contemporânea. É um revista on-line, disponível em www.artecapital.net e proporciona extensa informação sobre exposições em Portugal e no estrangeiro, noticiário actualizado permanentemente, links para museus e galerias. Sem apoios oficiais, apenas com o apoio mecenático da Alcatel e de alguns, poucos, anunciantes, a Artecapital tornou-se indispensável para os milhares de visitantes que mensalmente navegam por este site. Estranha-se, é claro, como a Gulbenkian, o CCB, a Culturgest e o Insituto das Artes, que bastante investem em publicidade, não se esforçam por também utilizar este canal – mas há razões que a razão desconhece. Ontem mesmo a Artecapital festejou o seu primeiro aniversário com uma bela festa nos Jardins do Museu do Chiado, ponto de arranque para o segundo ano de publicação. Naveguem na arte, é uma boa experiência.

OUVIR – Hoje em dia existe na música clássica uma geração de novos intérpretes que se assumem como verdadeiras estrelas pop. O pianista chinês Lang Lang é um dos exemplos mais marcantes dessa geração, o seu talento é reconhecido, e a sua carreira tem evoluído perante alguma surpresa dos críticos mais conservadores e menos dados a atitudes e vestes pouco ortodoxas num intérprete de música erudita. O seu novo disco regista os concertos para piano nºos 1 e 4 de Beethoven, acompanhado pela Orquestra de Paris, dirigida por Christoph Eschenbach. Trata-se da primeira incursão de Lang Lang na obra de Beethoven e o resultado é de uma intensidade pouco comum. Esta edição da Deustch Grammophon inclui o CD com a gravação das peças referidas e um DVD que inclui imagens do trabalho em estúdio, uma entrevista com o pianista e o registo do encontro entre Lang Lang e Eschenbach.

LER – Um livro de cozinha que vale bem a pena ler é «Cozinha Divina», de um dos cozinheiros, digamos, informais, da nova vaga – Chakall, um argentino radicado há muitos anos em Portugal, criador do restaurante «Afreudite» de cozinha afrodisíaca, responsável da empresa de catering homónima do livro, Cozinha Divina, e animador habitual de cursos de cozinha com boas ideias - mesmo para os cozinheiros mais desajeitados. Chakall é um personagem, as suas criações culinárias, sobretudo na área do catering, são muito interessantes e este livro é um manancial de ideias para jantares diferentes que cada um pode preparar em casa. Só o grafismo e as fotografias fazem água na boca, os géneros abordados são diversos, das massas às sopas, passando pelas saladas e sobremesas e especialidades de várias proveniências, bem temperadas de especiarias. Edição Oficina do Livro, 204 páginas.

BIFE – Bifes há muitos, uns mais sofisticados que outros. Mas um bife como deve ser é suposto ter tradição e mistério. É o que se passa no Café Império – o molho tem um ar suspeito mas revela qualidades inesperadas quando misturado com umas honestas batatas fritas e um pão quente que se deixa comer bem. E, espante-se, a carne é de boa qualidade, melhor que a maioria que surge em algumas cadeias de cervejarias. O Café Império foi integralmente renovado há quase um ano, mantendo no entanto as características principais do projecto de Cassiano Branco, datado de 1955, nomeadamente o mural de Luís Dourdil e o painel de azulejos de Jorge Barradas. Destaque para a qualidade, rapidez e simpatia do serviço. As atracções são diversas, o restaurante do piso inferior vira bar a partir das onze da noite, os ecrãs mostram música, espectáculos e desporto, volta e meia há música ao vivo. Tel. 91 902 90 12, www.cafeimperio.com, Av. Almirante Reis 205.


BACK TO BASICS - «Todos os dias os ministros dizem ao povo como é difícil governar. Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima» - Bertolt Brecht.
COINCIDÊNCIA – Nas últimas eleições na Venezuela Hugo Chávez usou um cartaz de propaganda onde aparecia ao lado de José Sócrates; O Ministro português Santos Silva criou uma Lei de Televisão que restringe a liberdade de actuação dos operadores e condiciona fortemente a actividade; Hugo Chavez ordenou esta semana o encerramento do canal RCTV, que se opunha ao seu Governo; Hugo Chavez- José Sócrates: a mesma luta! (ou como o Governo de Lisboa começa a ficar estranhamente parecido com o de Caracas no que ao exercício das liberdades diz respeito).


NAVEGAR – Há um ano, por iniciativa do coleccionador e galerista Victor Pinto da Fonseca (VPF Creamarte e Plataforma Revólver), nascia a única publicação portuguesa exclusivamente dedicada às artes plásticas, nomeadamente à arte contemporânea. É um revista on-line, disponível em www.artecapital.net e proporciona extensa informação sobre exposições em Portugal e no estrangeiro, noticiário actualizado permanentemente, links para museus e galerias. Sem apoios oficiais, apenas com o apoio mecenático da Alcatel e de alguns, poucos, anunciantes, a Artecapital tornou-se indispensável para os milhares de visitantes que mensalmente navegam por este site. Estranha-se, é claro, como a Gulbenkian, o CCB, a Culturgest e o Insituto das Artes, que bastante investem em publicidade, não se esforçam por também utilizar este canal – mas há razões que a razão desconhece. Ontem mesmo a Artecapital festejou o seu primeiro aniversário com uma bela festa nos Jardins do Museu do Chiado, ponto de arranque para o segundo ano de publicação. Naveguem na arte, é uma boa experiência.

OUVIR – Hoje em dia existe na música clássica uma geração de novos intérpretes que se assumem como verdadeiras estrelas pop. O pianista chinês Lang Lang é um dos exemplos mais marcantes dessa geração, o seu talento é reconhecido, e a sua carreira tem evoluído perante alguma surpresa dos críticos mais conservadores e menos dados a atitudes e vestes pouco ortodoxas num intérprete de música erudita. O seu novo disco regista os concertos para piano nºos 1 e 4 de Beethoven, acompanhado pela Orquestra de Paris, dirigida por Christoph Eschenbach. Trata-se da primeira incursão de Lang Lang na obra de Beethoven e o resultado é de uma intensidade pouco comum. Esta edição da Deustch Grammophon inclui o CD com a gravação das peças referidas e um DVD que inclui imagens do trabalho em estúdio, uma entrevista com o pianista e o registo do encontro entre Lang Lang e Eschenbach.

LER – Um livro de cozinha que vale bem a pena ler é «Cozinha Divina», de um dos cozinheiros, digamos, informais, da nova vaga – Chakall, um argentino radicado há muitos anos em Portugal, criador do restaurante «Afreudite» de cozinha afrodisíaca, responsável da empresa de catering homónima do livro, Cozinha Divina, e animador habitual de cursos de cozinha com boas ideias - mesmo para os cozinheiros mais desajeitados. Chakall é um personagem, as suas criações culinárias, sobretudo na área do catering, são muito interessantes e este livro é um manancial de ideias para jantares diferentes que cada um pode preparar em casa. Só o grafismo e as fotografias fazem água na boca, os géneros abordados são diversos, das massas às sopas, passando pelas saladas e sobremesas e especialidades de várias proveniências, bem temperadas de especiarias. Edição Oficina do Livro, 204 páginas.

BIFE – Bifes há muitos, uns mais sofisticados que outros. Mas um bife como deve ser é suposto ter tradição e mistério. É o que se passa no Café Império – o molho tem um ar suspeito mas revela qualidades inesperadas quando misturado com umas honestas batatas fritas e um pão quente que se deixa comer bem. E, espante-se, a carne é de boa qualidade, melhor que a maioria que surge em algumas cadeias de cervejarias. O Café Império foi integralmente renovado há quase um ano, mantendo no entanto as características principais do projecto de Cassiano Branco, datado de 1955, nomeadamente o mural de Luís Dourdil e o painel de azulejos de Jorge Barradas. Destaque para a qualidade, rapidez e simpatia do serviço. As atracções são diversas, o restaurante do piso inferior vira bar a partir das onze da noite, os ecrãs mostram música, espectáculos e desporto, volta e meia há música ao vivo. Tel. 91 902 90 12, www.cafeimperio.com, Av. Almirante Reis 205.


BACK TO BASICS - «Todos os dias os ministros dizem ao povo como é difícil governar. Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima» - Bertolt Brecht.

maio 28, 2007

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TIRANETES - Neste Governo há meia dúzia de Ministros que dizem o que lhes vem à cabeça, para defender interesses particulares ou apenas por autismo profundo e sistemático desrespeito pelos cidadãos, em repetidos exercícios de prepotência, ignorância e má-fé: Santos Silva, Mário Lino, António Pinho, Correia de Campos, Jaime Silva e Isabel Pires de Lima são bons exemplos do síndrome tiranete, atávico na sociedade portuguesa, galopante no elenco executivo em boa parte porque o próprio Primeiro Ministro gosta de ser arrogante e detesta ser contrariado. A Sócrates, o português, dava-lhe jeito aprender com Sócrates, o grego, alguns rudimentos da civilização e do pensamento.

VERGONHA - O que se passa na Direcção Regional de Educação do Norte é fruto deste clima. Sabe-se agora que a senhora que dá cobertura a denúncias e persegue opiniões divergentes saiu da incubadora do Ministro Santos Silva, de quem foi adjunta no Ministério da Educação. É todo um estilo, toda uma maneira de agir. Esta gente, como voz insuspeita me disse por estes dias, acha que a Constituição da República é um mero livro de sugestões. Neste triste caso de denúncia, perseguição e abuso de poder, quem tem razão é o Professor Jorge Miranda: a haver insulto, o caso é do foro dos Tribunais e não de processos administrativos, quem devia ser demitida e alvo de processo disciplinar era a senhora Margarida Moreira. Que o Primeiro Ministro num caso destes fique silencioso, e que até o tenha tentado desvalorizar, diz tudo sobre o seu carácter.

LISBOA – No meio da confusão instalada, o melhor era transformar as eleições autárquicas intercalares de Lisboa num referendo sobre a localização do aeroporto na Ota. Quem são os candidatos a favor, quem são os candidatos contra? António Costa, no Governo, era a favor da solução que mais penaliza Lisboa. E agora, candidato a Preseidente da Câmara, que diz sobre o tema? Se for a favor, quem nele votar, votará também contra os interesses da cidade. Se há coisa que estas eleições mostram, com o elevado número de candidatos, é que a quantidade não quer dizer qualidade. Mas o mais curioso é se, entre os vários cenários possíveis, acontecer que no dia 15 de Julho Carmona Rodrigues e Helena Roseta fiquem em posição de constituir uma coligação pós-eleitoral maioritária. Nestas eleições nada é impossível…



OUVIR – Confesso-me fã de música africana e tenho muita curiosidade pela música de Moçambique, diversa de algumas sonoridades a que estamos mais habituados, mais festiva, e muito mais desconhecida por cá. Recentemente dei com uma nova edição e desde essa altura ouço-a duas ou três vezes por dia. O disco chama-se «Madrugada no Zanzibar», é assinado pelo grupo Canela, liderado por Mingo Rangel. Acho que é dos melhores discos africanos editados em Portugal nos últimos anos, com grandes canções originais, às vezes com a particularidade de os temas serem dedicados a figuras bem conhecidas, originárias de Moçambique – como Ricardo Chibanga e Eusébio. Gosto do ar festivo do tema de abertura, «Mademoiselle Antillaise», da intensidade de «Luar do Poeta» (que conta com a colaboração de Tito Paris), do ritmo e trabalho vocal de «Djembé» e do inesperado «Fado Mulato». O mais curioso é que este é um disco contemporâneo, nos arranjos, nos temas, não é um disco etnográfico ou tradicionalista – e esse é um dos seus grandes encantos. CD editado por Afrikana/Valentim de Carvalho.


COMER – Os olhos também comem mas há casos em que são mesmo os únicos que ficam a ganhar. Em Lisboa o restaurante Faz Figura fica num belo sítio, com uma fantástica esplanada, mas a vista sobre o rio é mais convincente que tudo o resto. A lista de vinhos não corresponde às existências e tem truques desnecessários como vender ao mesmo preço colheitas de anos diferentes (e bem diversas entre si), o local faz fraca figura no serviço mal a sala fica um bocadinho cheia, e no que toca à comida tive mesmo azar: a lista tem boas ideias mal conseguidas – como um tentador arroz de caras de bacalhau com gambas e coentros – que no final se revelou ensonso e desenxabido e provavelmente usando gambas descongeladas à pressa. Valeu a companhia dos amigos, e, mais uma vez a vista. Restaurante Faz Figura, Rua do Paraíso 15 B (a Santa Apolónia), Tel. 218868981.


NAVEGAR – Bela ideia a de Luís Paixão Martins ao criar um site dedicado às ONG’s. Chama-se Causas.Net e lá se pode encontrar muita informação sobre as Organizações e novidades do sector, com actualização permanente. Complementarmente a LPM propõe-se prestar gratuitamente a ONG’s serviços de assessoria de comunicação, a título gratuito, numa operação que é apoiada pelo Banco Espírito Santo, que assim reforça a sua actividade na esfera social e no apoio ao desenvolvimento da sociedade civil. Para ver mais vá a www.causas.net .


BACK TO BASICS - É preferível lixo nas ruas que lixo nas almas - Rui Ramos, a propósito das eleições em Lisboa e do processo disciplinar a um professor no norte do país.
TIRANETES - Neste Governo há meia dúzia de Ministros que dizem o que lhes vem à cabeça, para defender interesses particulares ou apenas por autismo profundo e sistemático desrespeito pelos cidadãos, em repetidos exercícios de prepotência, ignorância e má-fé: Santos Silva, Mário Lino, António Pinho, Correia de Campos, Jaime Silva e Isabel Pires de Lima são bons exemplos do síndrome tiranete, atávico na sociedade portuguesa, galopante no elenco executivo em boa parte porque o próprio Primeiro Ministro gosta de ser arrogante e detesta ser contrariado. A Sócrates, o português, dava-lhe jeito aprender com Sócrates, o grego, alguns rudimentos da civilização e do pensamento.

VERGONHA - O que se passa na Direcção Regional de Educação do Norte é fruto deste clima. Sabe-se agora que a senhora que dá cobertura a denúncias e persegue opiniões divergentes saiu da incubadora do Ministro Santos Silva, de quem foi adjunta no Ministério da Educação. É todo um estilo, toda uma maneira de agir. Esta gente, como voz insuspeita me disse por estes dias, acha que a Constituição da República é um mero livro de sugestões. Neste triste caso de denúncia, perseguição e abuso de poder, quem tem razão é o Professor Jorge Miranda: a haver insulto, o caso é do foro dos Tribunais e não de processos administrativos, quem devia ser demitida e alvo de processo disciplinar era a senhora Margarida Moreira. Que o Primeiro Ministro num caso destes fique silencioso, e que até o tenha tentado desvalorizar, diz tudo sobre o seu carácter.

LISBOA – No meio da confusão instalada, o melhor era transformar as eleições autárquicas intercalares de Lisboa num referendo sobre a localização do aeroporto na Ota. Quem são os candidatos a favor, quem são os candidatos contra? António Costa, no Governo, era a favor da solução que mais penaliza Lisboa. E agora, candidato a Preseidente da Câmara, que diz sobre o tema? Se for a favor, quem nele votar, votará também contra os interesses da cidade. Se há coisa que estas eleições mostram, com o elevado número de candidatos, é que a quantidade não quer dizer qualidade. Mas o mais curioso é se, entre os vários cenários possíveis, acontecer que no dia 15 de Julho Carmona Rodrigues e Helena Roseta fiquem em posição de constituir uma coligação pós-eleitoral maioritária. Nestas eleições nada é impossível…



OUVIR – Confesso-me fã de música africana e tenho muita curiosidade pela música de Moçambique, diversa de algumas sonoridades a que estamos mais habituados, mais festiva, e muito mais desconhecida por cá. Recentemente dei com uma nova edição e desde essa altura ouço-a duas ou três vezes por dia. O disco chama-se «Madrugada no Zanzibar», é assinado pelo grupo Canela, liderado por Mingo Rangel. Acho que é dos melhores discos africanos editados em Portugal nos últimos anos, com grandes canções originais, às vezes com a particularidade de os temas serem dedicados a figuras bem conhecidas, originárias de Moçambique – como Ricardo Chibanga e Eusébio. Gosto do ar festivo do tema de abertura, «Mademoiselle Antillaise», da intensidade de «Luar do Poeta» (que conta com a colaboração de Tito Paris), do ritmo e trabalho vocal de «Djembé» e do inesperado «Fado Mulato». O mais curioso é que este é um disco contemporâneo, nos arranjos, nos temas, não é um disco etnográfico ou tradicionalista – e esse é um dos seus grandes encantos. CD editado por Afrikana/Valentim de Carvalho.


COMER – Os olhos também comem mas há casos em que são mesmo os únicos que ficam a ganhar. Em Lisboa o restaurante Faz Figura fica num belo sítio, com uma fantástica esplanada, mas a vista sobre o rio é mais convincente que tudo o resto. A lista de vinhos não corresponde às existências e tem truques desnecessários como vender ao mesmo preço colheitas de anos diferentes (e bem diversas entre si), o local faz fraca figura no serviço mal a sala fica um bocadinho cheia, e no que toca à comida tive mesmo azar: a lista tem boas ideias mal conseguidas – como um tentador arroz de caras de bacalhau com gambas e coentros – que no final se revelou ensonso e desenxabido e provavelmente usando gambas descongeladas à pressa. Valeu a companhia dos amigos, e, mais uma vez a vista. Restaurante Faz Figura, Rua do Paraíso 15 B (a Santa Apolónia), Tel. 218868981.


NAVEGAR – Bela ideia a de Luís Paixão Martins ao criar um site dedicado às ONG’s. Chama-se Causas.Net e lá se pode encontrar muita informação sobre as Organizações e novidades do sector, com actualização permanente. Complementarmente a LPM propõe-se prestar gratuitamente a ONG’s serviços de assessoria de comunicação, a título gratuito, numa operação que é apoiada pelo Banco Espírito Santo, que assim reforça a sua actividade na esfera social e no apoio ao desenvolvimento da sociedade civil. Para ver mais vá a www.causas.net .


BACK TO BASICS - É preferível lixo nas ruas que lixo nas almas - Rui Ramos, a propósito das eleições em Lisboa e do processo disciplinar a um professor no norte do país.

maio 22, 2007

NOTAS SOBRE A POLÍTICA CULTURAL EM LISBOA
Em Outubro e Novembro de 2005 escrevi no «Jornal de Negócios» uma série de artigos sobre a política cultural da cidade, os quais estão aliás neste blog.
Resolvi agora agrupá-los e actualizá-los, contributo para um debate sobre o triste estado a que se chegou nessa matéria.

LISBOA E CULTURA

A política cultural de uma cidade como Lisboa deve ser pensada em termos dos públicos a que se destina, tendo em conta a actividade dos diversos agentes e produtores na área das artes e espectáculos que existem na cidade. Não pode ser pensada só para o teatro, nem só para a música. Deve ser uma linha de acção que cative os cépticos e dote Lisboa de novos pólos de atracção. O caso de Serralves, de uma festa constante construída em torno da arte contemporânea, deve fazer reflectir. Quem acha que a arte contemporânea não atrai públicos bem pode pensar nesse exemplo.

Lisboa não pode ser só a capital e sede de instituições culturais, tem que se ganhar a cidade para ser a montra do novo, o palco do espectáculo, a feira das artes, uma permanente festa dos sentidos.

Nesta cidade os criadores modernos devem coexistir naturalmente com a tradição, a recuperação do património pode e deve estar ao lado do apoio a novas formas de expressão e de experimentação. Lisboa é a cidade do S. Carlos, do D. Maria, do S. Luiz, mas também a cidade da Bedeteca ou da Videoteca, de um S. Jorge retomado pelo público, de museus vivos e dinâmicos, de novos equipamentos para novos públicos, em circuitos naturais onde os visitantes possam descobrir uma nova razão para voltar a Lisboa, uma cidade virada para o Tejo e o futuro.

PROPOSTAS ESTRUTURANTES:
Criar um Conselho Metropolitano da Cultura e Turismo que fomente o destino turístico Lisboa na componente cultural e crie mecanismos de consensualização dos grandes Festivais e Festas dos diversos concelhos, articulando datas e fomentando um calendário sempre com atractivos.
A criação de uma Lisbon Film Commission podia estar ligada a esta entidade.

Lisboa concentra o maior número de equipamentos culturais de todo o país e, simultaneamente, o maior número de criadores e produtores artísticos – entre eles a maioria das instituições oficiais na área da museologia, música, teatro, dança e cinema para falar apenas de algumas áreas.

Em Lisboa, mas também e sobretudo nos concelhos limítrofes, nos anos mais recentes, surgiram uma série de novos equipamentos, desde bibliotecas a auditórios, passando por museus e galerias, diversos espaços dedicados a criadores e algumas iniciativas de carácter regular que têm vindo a ganhar crescente peso.

O objectivo não é fazer Lisboa entrar em competição com Oeiras, Cascais, Sintra, Almada, Loures ou Vila Franca, é antes fomentar a cooperação e proporcionar aos públicos de toda esta região uma oferta ainda mais diversificada, uma possibilidade de actuação mais alargada, uma maior utilização de recursos comuns.

Da mesma forma justifica-se criar um órgão permanente de articulação entre organismos do Ministério da Cultura e a autarquia, nomeadamente o IPPAR, IPM, Instituto das Artes e Instituto do Património Arqueológico.

Finalmente é urgente promover uma maior colaboração entre a Câmara e os operadores privados na área do espectáculo, nomeadamente em épocas determinadas como a das Festas da Cidade, fomentando a integração e não a separação de esforços.

PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO LOCAL:
Transformação do Pavilhão de Portugal num pólo museológico que se torne numa das imagens de marca da cidade de Lisboa.

Conversão do Cinema S. Jorge numa sala multifuncional para música, cinema e conferências com 1500 lugares;

Recuperação do Pavilhão dos Desportos para sede e sala da Orquestra Metropolitana de Lisboa e afectação do edifício da Standard Eléctrica a áreas expositivas e ateliers.

Intervenção no Parque da Belavista para implantação de uma estrutura permanente de acolhimento de concertos ao ar livre (rockódoromo).

Intervenção num dos pavilhões ribeirinhos para criar um espaço vocacionado para as músicas alternativas com capacidade para cerca de 1000 lugares em pé, que coexista com um conjunto de salas de ensaio que possam ser alugadas à horas ou ao dia.

Criação de um espaço onde se desenrolem actividades que sublinhem a multiculturalidade da cidade e permita às várias etnias uma ocupação regular.

NOVAS PROPOSTAS DE ACÇÃO:
Lisbon Film Commission – O objectivo é ganhar notoriedade para Lisboa como destino de filmagens de publicidade, séries de televisão e cinema; Assegurar a participação em certames internacionais da indústria em moldes profissionais e abrangentes, assegurando uma efectiva representatividade nacional; Proporcionar um conjunto de instrumentos capazes de fornecer aos profissionais do sector todas as informações necessárias para a sua actividade;

Bienal Jovens Criadores da Lusofonia – Reforçar o papel dinâmico de Lisboa no relacionamento com as comunidades e países lusófonos, estabelecendo um ponto de encontro e reflexão de jovens criadores de áreas como as artes plásticas, a música, as artes cénicas e performativas, a fotografia, o vídeo, a moda e o design.

Poesia - Promover o grande Encontro dos Poetas Vivos como a melhor homenagem a Fernando Pessoa e introduzir a poesia na vida da cidade.

Criar um regime especial de Mecenato, em articulação com as Finanças, que permitam Lisboa fazer face aos custos que em matéria cultural ser uma Capital implica, nomeadamente no tocante a novas actividades.

Recuperar as Colectividades de Cultura e Recreio e torná-las no eixo de ligação da política cultural da autarquia aos bairros da cidade.

Manter a Lisboa Photo, a Moda Lisboa , a Experimenta Design e o Africa Festival. Retomar o Festival Internacional de Teatro ou, em substituição, criar a Mostra Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa.».

Definir a vocação de cada uma das salas e equipamentos culturais que a Câmara possui é urgente. Várias vezes ensaiada, essa definição nunca foi concretizada e por isso subsiste a maior confusão quanto à tipologia de utilização de cada um dos teatros e salas municipais. Há dois modelos em confronto: ou a Câmara garante ela própria toda a programação, ou se associa a privados que queiram utilizar o espaço dentro de situações normais de mercado, que estão absolutamente tipificadas. A Câmara já tem aliás salas demais – e um dos esforços deve ir no sentido de aumentar a colaboração com os privados e não de criar mais estruturas internas.

O CINEMA SÃO JORGE
Antes de mais uma pequena e pouco edificante história: No final do mandato autárquico do Dr. João Soares, em Lisboa, a Câmara Municipal comprou o Cinema São Jorge a promotores imobiliários, obviamente sem saber o que lhe fazer, que utilização lhe dar. Fez uma obras e pôs lá cinema a exibir. As obras foram de cenário: tinta nas paredes, limpeza geral, máquinas de projectar e sistema de som modernizados. O grosso do problema ficou por resolver: o sistema eléctrico, as infiltrações na cobertura que agravam o perigo de um curto-circuito, climatização inexistente de facto. Pelo meio há umas pantominices engraçadas: os políticos que obrigaram técnicos a certificar a segurança de sistemas (nomeadamente na área eléctrica) que notoriamente a não tinham, uma programação de cinema ao sabor das disponibilidades das distribuidoras, etc. É claro que a equipa do Cinema era esforçada e tentava fazer o melhor, vendendo a ilusão de que a sala podia funcionar.
O S. Jorge é o exemplo acabado de como as pressões de lobbys e de uma pretensa opinião pública, em nome de uma mística salvaguarda do património e das memórias, podem levar a becos sem saída. Sem estratégia definida, em más condições físicas, o Cinema S. Jorge acabou por fechar, provavelmente tarde demais, em nome de conceitos elementares de segurança, antes que aquilo tudo ardesse a meio de uma cerimónia qualquer. E para o fechar, mesmo com o risco que existia, foi preciso bater o pé e contrariar velhos do Restelo. No último ano fizeram-se mais uns retoques, melhorou-se para os mínimos a instalação eléctrica e remodelaram-se vagamente as slas existentes para poderem acolher eventos variados.
O que foi feito não resolve a questão. Temos ali a sala. Enorme. A precisar de obras estruturais. Com um edifício ao lado, que faz parte do Cinema, os antigos escritórios da Rank, vazio e a arruinar-se. Qualquer intervenção tem que ter isto em conta. Se persistir a mania de fazer do Parque Mayer um cemitério de elefantes (equipamentos culturais, delineados sem cuidar de saber se são necessários), há que pensar seriamente o que pode ser o S. Jorge no meio de uma selva de salas. Deve reconstruir-se a sala na sua dimensão original, de cerca de 1100 lugares? O destino principal deve ser a música, ou um centro de audiovisuais (por exemplo sediar a Videoteca na zona dos escritórios devoluta) – apesar de a Cinemateca estar mesmo ali ao lado? Justifica-se aquele imobilizado para isto? Ou, como durante algum tempo se tentou, faz mais sentido traçar um cadernos de encargos e abrir concurso para concessão da sala a privados, que a mantenham como sala de espectáculos, garantam a sua recuperação e utilização – como é o Coliseu, por exemplo?

O PARQUE MAYER
Quando se começou a falar na recuperação do Parque Mayer e surgiu o nome do arquitecto norte-americano Frank Gehry, convém recordar que o que estava em causa era construir uma envolvente para um Casino. Eu sempre achei que um Casino, ali, podia fazer sentido. Iria gerar um fluxo de públicos que alimentaria todo o novo Parque Mayer e que voltaria a dinamizar a Avenida da Liberdade, tornando-a simultaneamente mais divertida e segura à noite. Frank Gehry seria, através da imagem que se esperava criar, um argumento de marketing importante do local. Para a actividade que se esperava, era um investimento que fazia sentido.
Depois, quando no meio das confusões que se conhecem o Casino acabou por deixar de poder ser feito ali, a boa lógica e o bom senso mandavam que se voltasse a equacionar o assunto. Sem Casino a possibilidade de circulação de públicos seria infinitamente menor e o programa de ocupação de espaços anterior estava claramente desajustado. Por si só os novos equipamentos, por melhores que fossem, não teriam grande atracção e, muito provavelmente, seria um sugadouro de dinheiros manter tudo a funcionar. Sem Casino o Parque Mayer, perdoem-me a comparação, seria como um Centro Comercial sem salas de cinema e sem supermercado: perdia a âncora. Valia a pena pensar num plano B, que mantivesse o Capitólio e recuperasse o espaço, em sintonia com o Jardim Botânico.
Arquitectos como Gehry servem para criar ícones, são os cenógrafos das cidades, o pretexto para forçar novas paisagens urbanas - acresce que as suas intervenções geram um considerável fluxo turístico, como tem sido sobejamente demonstrado. Com o Parque Mayer sem casino, para quê colocar o ícone num recanto escondido, atrás da avenida? – Esta é a pergunta a que vale a pena dar resposta, pensando nisto: se o objectivo é construir um ícone, que sirva de novo emblema a Lisboa, então porque não se coloca num local bem visível, obsessivamente visível e que altere a silhueta da cidade? Eu acho que é o que faz mais lógica e que existe um sítio ideal para isso, o local onde está o arruinado e já inútil Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII.

O PAVILHÃO DOS DESPORTOS
Quando o Pavilhão dos Desportos de Lisboa foi construído a cidade não tinha infra-estruturas de grande dimensão para a prática desportiva. O Pavilhão, mais tarde baptizado de «Carlos Lopes», foi o local dos grandes jogos de hóquei e de muitas disputas entre colectividades e clubes populares. A utilização do Pavilhão Carlos Lopes para espectáculos começa de uma forma mais sistemática nos anos 70, antes ainda do 25 de Abril . Logo a seguir ele tornou-se no ponto obrigatório de comícios e congressos partidários e no palco do culminar de campanhas eleitorais. Isto até ter ficado impossível de utilizar, que é a situação em que agora se encontra.
Devido à forma como foi concebido e aos materiais de construção utilizados, o Pavilhão sempre teve má acústica (péssima, de facto), e em função da época em que foi feito apresenta graves problemas estruturais. Actualmente o Pavilhão, para além de estar em ruína porque desde há décadas não lhe é feita uma conservação eficaz (na realidade há risco de utilização por causa do estado em que está o tecto), não tem o mínimo de condições de comodidade, nem condições técnicas e de segurança. As bancadas não têm cadeiras, não há ventilação nem aquecimento e muito menos ar condicionado, a instalação eléctrica é insuficiente segundo os padrões actuais, os camarins/cabinas/vestiários são obsoletos, o sistema de incêndios é de anedota, o tecto técnico é inexistente. Além disso foi construído numa época em que não se pensava que uma sala destas poderia ter utilizações diversas e a sua própria estrutura dificulta qualquer recuperação séria segundo padrões contemporâneos – a começar pelo problema das colunas que destroem a visibilidade e dificultam a operação do espaço. Em suma, como está, não serve para nada.
Por outro lado a infraestrutura de equipamentos desportivos da cidade evoluíu. Com os novos estádios construíram-se novos pavilhões bem equipados e o Pavilhão Atlântico é hoje a sala de referência equivalente ao que o Carlos Lopes foi há 30 anos – já para não falar dos vários pavilhões de bairro que foram surgindo aqui e ali. Por isso acho que faz sentido pensar numa utilização não desportiva para o local. Sentimentalismos à parte, a estrutura tem de facto pouco interesse do ponto de vista arquitectónico e mesmo uns azulejos decorativos que posssui podem ser salvaguardados num outro contexto. Pensemos pois que o local pode – e deve - ser utilizado para outra coisa.
Retomemos agora o tema de uma obra arquitectónica emblemática, que seja parte da linha de horizonte de Lisboa, e que possa ser a alternativa de imagem aos planos actuais para o Parque Mayer. Querem melhor local que o alto do Parque Eduardo VII? Bem dotado de acessos e com área e possibilidade de estacionamento, qualquer obra que ali se faça pode contribuir para dar nova dinâmica à cidade, em local de grande visibilidade e comodidade.
A questão das valências, que deve ser bem estudada, pode ter em conta a necessidade de uma estrutura que possa acolher música, conferências, reuniões; ou, em alternativa, que possa por exemplo alojar uma orquestra como a Metropolitana (que assim poderia deixar livre o local onde está, na Junqueira); ou, então, que possa ser o local de eleição para a instalação de um novo Museu, a grande sala de exposições da capital, onde alguma grande colecção possa encontrar o seu destino: já imaginaram ali um espaço como a Tate Modern? Em qualquer caso, a estrutura pode e deve prever equipamentos que permitam ser o ponto central de animação da Feira do Livro, em vez das estruturas provisórias que se vêm construindo há anos e que já consumiram, tudo incluído, cerca de dois milhões de euros, absolutamente a fundo perdido.
No fundo é uma questão de contas: como está, o Pavilhão não serve para nada. Para o remodelar, não faz sentido manter nem a estrutura, nem a finalidade desportiva face à oferta entretanto surgida e à que há-de desenvolver-se a nível de freguesias e clubes. Por isso é importante pensar no assunto agora, sem preconceitos e, sobretudo, de forma integrada: esta é uma peça da construção da cidade; temos que ver como se encaixa e relaciona com outras, para que cada uma fique com uma função diferente, complementar e útil.



ESTADO, CIDADES E CULTURA
Em véspera de autárquicas o caso da Experimenta Design é um bom pretexto para falar um pouco da relação das autarquias com as formas contemporâneas de arte e cultura. O caso ganha ainda mais importância quando a gestão de Carmona e Amaral Lopes decidiram asfixiar a Experimenta.
Vejamos: dois acontecimentos ajudaram a projectar desde há bastantes anos uma imagem de Lisboa diversa dos choradinhos, da luz e dos carris dos eléctricos: falo da Moda Lisboa e da Experimenta. Depois, em 2005, iniciou-se o África Festival, que se propôs fazer assumir a Lisboa o papel de plataforma giratória de contacto entre as culturas de África e da Europa, abrangendo música, artes plásticas, lietratura e audiovisuais.
Estes três projectos são estruturantes, estratégicos em áreas que vão para além da moda, do design ou da música e artes plásticas: a sua repercussão na imprensa internacional produz uma imagem positiva da cidade, moderna e activa, empenhada. Lisboa precisa de mais alguns projectos de dimensão que a façam projectar além-fronteiras como uma cidade de diálogo e de acolhimento.
É nestes projectos, escolhidos e preparados com critério, que vale a pena investir – e não disseminando os fundos públicos em pequenos subsídios que aumentam a dependência e não premeiam, nas mais das vezes, o trabalho sério e de qualidade.

Untitled

NOTAS SOBRE A POLÍTICA CULTURAL EM LISBOA
Em Outubro e Novembro de 2005 escrevi no «Jornal de Negócios» uma série de artigos sobre a política cultural da cidade, os quais estão aliás neste blog.
Resolvi agora agrupá-los e actualizá-los, contributo para um debate sobre o triste estado a que se chegou nessa matéria.

LISBOA E CULTURA

A política cultural de uma cidade como Lisboa deve ser pensada em termos dos públicos a que se destina, tendo em conta a actividade dos diversos agentes e produtores na área das artes e espectáculos que existem na cidade. Não pode ser pensada só para o teatro, nem só para a música. Deve ser uma linha de acção que cative os cépticos e dote Lisboa de novos pólos de atracção. O caso de Serralves, de uma festa constante construída em torno da arte contemporânea, deve fazer reflectir. Quem acha que a arte contemporânea não atrai públicos bem pode pensar nesse exemplo.

Lisboa não pode ser só a capital e sede de instituições culturais, tem que se ganhar a cidade para ser a montra do novo, o palco do espectáculo, a feira das artes, uma permanente festa dos sentidos.

Nesta cidade os criadores modernos devem coexistir naturalmente com a tradição, a recuperação do património pode e deve estar ao lado do apoio a novas formas de expressão e de experimentação. Lisboa é a cidade do S. Carlos, do D. Maria, do S. Luiz, mas também a cidade da Bedeteca ou da Videoteca, de um S. Jorge retomado pelo público, de museus vivos e dinâmicos, de novos equipamentos para novos públicos, em circuitos naturais onde os visitantes possam descobrir uma nova razão para voltar a Lisboa, uma cidade virada para o Tejo e o futuro.

PROPOSTAS ESTRUTURANTES:
Criar um Conselho Metropolitano da Cultura e Turismo que fomente o destino turístico Lisboa na componente cultural e crie mecanismos de consensualização dos grandes Festivais e Festas dos diversos concelhos, articulando datas e fomentando um calendário sempre com atractivos.
A criação de uma Lisbon Film Commission podia estar ligada a esta entidade.

Lisboa concentra o maior número de equipamentos culturais de todo o país e, simultaneamente, o maior número de criadores e produtores artísticos – entre eles a maioria das instituições oficiais na área da museologia, música, teatro, dança e cinema para falar apenas de algumas áreas.

Em Lisboa, mas também e sobretudo nos concelhos limítrofes, nos anos mais recentes, surgiram uma série de novos equipamentos, desde bibliotecas a auditórios, passando por museus e galerias, diversos espaços dedicados a criadores e algumas iniciativas de carácter regular que têm vindo a ganhar crescente peso.

O objectivo não é fazer Lisboa entrar em competição com Oeiras, Cascais, Sintra, Almada, Loures ou Vila Franca, é antes fomentar a cooperação e proporcionar aos públicos de toda esta região uma oferta ainda mais diversificada, uma possibilidade de actuação mais alargada, uma maior utilização de recursos comuns.

Da mesma forma justifica-se criar um órgão permanente de articulação entre organismos do Ministério da Cultura e a autarquia, nomeadamente o IPPAR, IPM, Instituto das Artes e Instituto do Património Arqueológico.

Finalmente é urgente promover uma maior colaboração entre a Câmara e os operadores privados na área do espectáculo, nomeadamente em épocas determinadas como a das Festas da Cidade, fomentando a integração e não a separação de esforços.

PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO LOCAL:
Transformação do Pavilhão de Portugal num pólo museológico que se torne numa das imagens de marca da cidade de Lisboa.

Conversão do Cinema S. Jorge numa sala multifuncional para música, cinema e conferências com 1500 lugares;

Recuperação do Pavilhão dos Desportos para sede e sala da Orquestra Metropolitana de Lisboa e afectação do edifício da Standard Eléctrica a áreas expositivas e ateliers.

Intervenção no Parque da Belavista para implantação de uma estrutura permanente de acolhimento de concertos ao ar livre (rockódoromo).

Intervenção num dos pavilhões ribeirinhos para criar um espaço vocacionado para as músicas alternativas com capacidade para cerca de 1000 lugares em pé, que coexista com um conjunto de salas de ensaio que possam ser alugadas à horas ou ao dia.

Criação de um espaço onde se desenrolem actividades que sublinhem a multiculturalidade da cidade e permita às várias etnias uma ocupação regular.

NOVAS PROPOSTAS DE ACÇÃO:
Lisbon Film Commission – O objectivo é ganhar notoriedade para Lisboa como destino de filmagens de publicidade, séries de televisão e cinema; Assegurar a participação em certames internacionais da indústria em moldes profissionais e abrangentes, assegurando uma efectiva representatividade nacional; Proporcionar um conjunto de instrumentos capazes de fornecer aos profissionais do sector todas as informações necessárias para a sua actividade;

Bienal Jovens Criadores da Lusofonia – Reforçar o papel dinâmico de Lisboa no relacionamento com as comunidades e países lusófonos, estabelecendo um ponto de encontro e reflexão de jovens criadores de áreas como as artes plásticas, a música, as artes cénicas e performativas, a fotografia, o vídeo, a moda e o design.

Poesia - Promover o grande Encontro dos Poetas Vivos como a melhor homenagem a Fernando Pessoa e introduzir a poesia na vida da cidade.

Criar um regime especial de Mecenato, em articulação com as Finanças, que permitam Lisboa fazer face aos custos que em matéria cultural ser uma Capital implica, nomeadamente no tocante a novas actividades.

Recuperar as Colectividades de Cultura e Recreio e torná-las no eixo de ligação da política cultural da autarquia aos bairros da cidade.

Manter a Lisboa Photo, a Moda Lisboa , a Experimenta Design e o Africa Festival. Retomar o Festival Internacional de Teatro ou, em substituição, criar a Mostra Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa.».

Definir a vocação de cada uma das salas e equipamentos culturais que a Câmara possui é urgente. Várias vezes ensaiada, essa definição nunca foi concretizada e por isso subsiste a maior confusão quanto à tipologia de utilização de cada um dos teatros e salas municipais. Há dois modelos em confronto: ou a Câmara garante ela própria toda a programação, ou se associa a privados que queiram utilizar o espaço dentro de situações normais de mercado, que estão absolutamente tipificadas. A Câmara já tem aliás salas demais – e um dos esforços deve ir no sentido de aumentar a colaboração com os privados e não de criar mais estruturas internas.

O CINEMA SÃO JORGE
Antes de mais uma pequena e pouco edificante história: No final do mandato autárquico do Dr. João Soares, em Lisboa, a Câmara Municipal comprou o Cinema São Jorge a promotores imobiliários, obviamente sem saber o que lhe fazer, que utilização lhe dar. Fez uma obras e pôs lá cinema a exibir. As obras foram de cenário: tinta nas paredes, limpeza geral, máquinas de projectar e sistema de som modernizados. O grosso do problema ficou por resolver: o sistema eléctrico, as infiltrações na cobertura que agravam o perigo de um curto-circuito, climatização inexistente de facto. Pelo meio há umas pantominices engraçadas: os políticos que obrigaram técnicos a certificar a segurança de sistemas (nomeadamente na área eléctrica) que notoriamente a não tinham, uma programação de cinema ao sabor das disponibilidades das distribuidoras, etc. É claro que a equipa do Cinema era esforçada e tentava fazer o melhor, vendendo a ilusão de que a sala podia funcionar.
O S. Jorge é o exemplo acabado de como as pressões de lobbys e de uma pretensa opinião pública, em nome de uma mística salvaguarda do património e das memórias, podem levar a becos sem saída. Sem estratégia definida, em más condições físicas, o Cinema S. Jorge acabou por fechar, provavelmente tarde demais, em nome de conceitos elementares de segurança, antes que aquilo tudo ardesse a meio de uma cerimónia qualquer. E para o fechar, mesmo com o risco que existia, foi preciso bater o pé e contrariar velhos do Restelo. No último ano fizeram-se mais uns retoques, melhorou-se para os mínimos a instalação eléctrica e remodelaram-se vagamente as slas existentes para poderem acolher eventos variados.
O que foi feito não resolve a questão. Temos ali a sala. Enorme. A precisar de obras estruturais. Com um edifício ao lado, que faz parte do Cinema, os antigos escritórios da Rank, vazio e a arruinar-se. Qualquer intervenção tem que ter isto em conta. Se persistir a mania de fazer do Parque Mayer um cemitério de elefantes (equipamentos culturais, delineados sem cuidar de saber se são necessários), há que pensar seriamente o que pode ser o S. Jorge no meio de uma selva de salas. Deve reconstruir-se a sala na sua dimensão original, de cerca de 1100 lugares? O destino principal deve ser a música, ou um centro de audiovisuais (por exemplo sediar a Videoteca na zona dos escritórios devoluta) – apesar de a Cinemateca estar mesmo ali ao lado? Justifica-se aquele imobilizado para isto? Ou, como durante algum tempo se tentou, faz mais sentido traçar um cadernos de encargos e abrir concurso para concessão da sala a privados, que a mantenham como sala de espectáculos, garantam a sua recuperação e utilização – como é o Coliseu, por exemplo?

O PARQUE MAYER
Quando se começou a falar na recuperação do Parque Mayer e surgiu o nome do arquitecto norte-americano Frank Gehry, convém recordar que o que estava em causa era construir uma envolvente para um Casino. Eu sempre achei que um Casino, ali, podia fazer sentido. Iria gerar um fluxo de públicos que alimentaria todo o novo Parque Mayer e que voltaria a dinamizar a Avenida da Liberdade, tornando-a simultaneamente mais divertida e segura à noite. Frank Gehry seria, através da imagem que se esperava criar, um argumento de marketing importante do local. Para a actividade que se esperava, era um investimento que fazia sentido.
Depois, quando no meio das confusões que se conhecem o Casino acabou por deixar de poder ser feito ali, a boa lógica e o bom senso mandavam que se voltasse a equacionar o assunto. Sem Casino a possibilidade de circulação de públicos seria infinitamente menor e o programa de ocupação de espaços anterior estava claramente desajustado. Por si só os novos equipamentos, por melhores que fossem, não teriam grande atracção e, muito provavelmente, seria um sugadouro de dinheiros manter tudo a funcionar. Sem Casino o Parque Mayer, perdoem-me a comparação, seria como um Centro Comercial sem salas de cinema e sem supermercado: perdia a âncora. Valia a pena pensar num plano B, que mantivesse o Capitólio e recuperasse o espaço, em sintonia com o Jardim Botânico.
Arquitectos como Gehry servem para criar ícones, são os cenógrafos das cidades, o pretexto para forçar novas paisagens urbanas - acresce que as suas intervenções geram um considerável fluxo turístico, como tem sido sobejamente demonstrado. Com o Parque Mayer sem casino, para quê colocar o ícone num recanto escondido, atrás da avenida? – Esta é a pergunta a que vale a pena dar resposta, pensando nisto: se o objectivo é construir um ícone, que sirva de novo emblema a Lisboa, então porque não se coloca num local bem visível, obsessivamente visível e que altere a silhueta da cidade? Eu acho que é o que faz mais lógica e que existe um sítio ideal para isso, o local onde está o arruinado e já inútil Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII.

O PAVILHÃO DOS DESPORTOS
Quando o Pavilhão dos Desportos de Lisboa foi construído a cidade não tinha infra-estruturas de grande dimensão para a prática desportiva. O Pavilhão, mais tarde baptizado de «Carlos Lopes», foi o local dos grandes jogos de hóquei e de muitas disputas entre colectividades e clubes populares. A utilização do Pavilhão Carlos Lopes para espectáculos começa de uma forma mais sistemática nos anos 70, antes ainda do 25 de Abril . Logo a seguir ele tornou-se no ponto obrigatório de comícios e congressos partidários e no palco do culminar de campanhas eleitorais. Isto até ter ficado impossível de utilizar, que é a situação em que agora se encontra.
Devido à forma como foi concebido e aos materiais de construção utilizados, o Pavilhão sempre teve má acústica (péssima, de facto), e em função da época em que foi feito apresenta graves problemas estruturais. Actualmente o Pavilhão, para além de estar em ruína porque desde há décadas não lhe é feita uma conservação eficaz (na realidade há risco de utilização por causa do estado em que está o tecto), não tem o mínimo de condições de comodidade, nem condições técnicas e de segurança. As bancadas não têm cadeiras, não há ventilação nem aquecimento e muito menos ar condicionado, a instalação eléctrica é insuficiente segundo os padrões actuais, os camarins/cabinas/vestiários são obsoletos, o sistema de incêndios é de anedota, o tecto técnico é inexistente. Além disso foi construído numa época em que não se pensava que uma sala destas poderia ter utilizações diversas e a sua própria estrutura dificulta qualquer recuperação séria segundo padrões contemporâneos – a começar pelo problema das colunas que destroem a visibilidade e dificultam a operação do espaço. Em suma, como está, não serve para nada.
Por outro lado a infraestrutura de equipamentos desportivos da cidade evoluíu. Com os novos estádios construíram-se novos pavilhões bem equipados e o Pavilhão Atlântico é hoje a sala de referência equivalente ao que o Carlos Lopes foi há 30 anos – já para não falar dos vários pavilhões de bairro que foram surgindo aqui e ali. Por isso acho que faz sentido pensar numa utilização não desportiva para o local. Sentimentalismos à parte, a estrutura tem de facto pouco interesse do ponto de vista arquitectónico e mesmo uns azulejos decorativos que posssui podem ser salvaguardados num outro contexto. Pensemos pois que o local pode – e deve - ser utilizado para outra coisa.
Retomemos agora o tema de uma obra arquitectónica emblemática, que seja parte da linha de horizonte de Lisboa, e que possa ser a alternativa de imagem aos planos actuais para o Parque Mayer. Querem melhor local que o alto do Parque Eduardo VII? Bem dotado de acessos e com área e possibilidade de estacionamento, qualquer obra que ali se faça pode contribuir para dar nova dinâmica à cidade, em local de grande visibilidade e comodidade.
A questão das valências, que deve ser bem estudada, pode ter em conta a necessidade de uma estrutura que possa acolher música, conferências, reuniões; ou, em alternativa, que possa por exemplo alojar uma orquestra como a Metropolitana (que assim poderia deixar livre o local onde está, na Junqueira); ou, então, que possa ser o local de eleição para a instalação de um novo Museu, a grande sala de exposições da capital, onde alguma grande colecção possa encontrar o seu destino: já imaginaram ali um espaço como a Tate Modern? Em qualquer caso, a estrutura pode e deve prever equipamentos que permitam ser o ponto central de animação da Feira do Livro, em vez das estruturas provisórias que se vêm construindo há anos e que já consumiram, tudo incluído, cerca de dois milhões de euros, absolutamente a fundo perdido.
No fundo é uma questão de contas: como está, o Pavilhão não serve para nada. Para o remodelar, não faz sentido manter nem a estrutura, nem a finalidade desportiva face à oferta entretanto surgida e à que há-de desenvolver-se a nível de freguesias e clubes. Por isso é importante pensar no assunto agora, sem preconceitos e, sobretudo, de forma integrada: esta é uma peça da construção da cidade; temos que ver como se encaixa e relaciona com outras, para que cada uma fique com uma função diferente, complementar e útil.



ESTADO, CIDADES E CULTURA
Em véspera de autárquicas o caso da Experimenta Design é um bom pretexto para falar um pouco da relação das autarquias com as formas contemporâneas de arte e cultura. O caso ganha ainda mais importância quando a gestão de Carmona e Amaral Lopes decidiram asfixiar a Experimenta.
Vejamos: dois acontecimentos ajudaram a projectar desde há bastantes anos uma imagem de Lisboa diversa dos choradinhos, da luz e dos carris dos eléctricos: falo da Moda Lisboa e da Experimenta. Depois, em 2005, iniciou-se o África Festival, que se propôs fazer assumir a Lisboa o papel de plataforma giratória de contacto entre as culturas de África e da Europa, abrangendo música, artes plásticas, lietratura e audiovisuais.
Estes três projectos são estruturantes, estratégicos em áreas que vão para além da moda, do design ou da música e artes plásticas: a sua repercussão na imprensa internacional produz uma imagem positiva da cidade, moderna e activa, empenhada. Lisboa precisa de mais alguns projectos de dimensão que a façam projectar além-fronteiras como uma cidade de diálogo e de acolhimento.
É nestes projectos, escolhidos e preparados com critério, que vale a pena investir – e não disseminando os fundos públicos em pequenos subsídios que aumentam a dependência e não premeiam, nas mais das vezes, o trabalho sério e de qualidade.