abril 16, 2007

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SEMANA – José Sócrates fez duas declarações diferentes à Assembleia da República sobre as suas habilitações em 13 de Fevereiro de 1992 … Regista-se que, para esclarecer a trapalhada criada, o Primeiro Ministro escolheu um registo de «Conversa Em Família» na RTP a uma sessão parlamentar com transmissão em directo…O Supremo Tribunal de Justiça considerou que publicar uma notícia verdadeira é acto que merece castigo… Se a moda pega os jornais que investigaram as trapalhadas à volta do percurso académico de Sócrates vão ser todos punidos… Se calhar é isso que os juízes do Supremo pretendem…


EXPERIÊNCIAS – O novo site da revista «Wired» (www.wired.com ) , um exemplo para o que pode ser a evolução gráfica na relação entre o papel e o digital…Constatando que os museus do Reino Unido tinham falhado completamente na aquisição de obras de arte contemporânea no século XX, a estrutura independente Art Fund lançou um ambicioso projecto que aplicará cinco milhões de libras em novas aquisições, garantindo que gerações futuras possam ter nos museus britânicos uma selecção do que de mais inovador se produz no mundo inteiro e não apenas localmente – o site do Art Fund tem muitos motivos de interesse e está em www.artfund.org... Para quem gosta de fotografia o site da agência portuguesa Kamera Photo tem uma boa escolha, quer em termos de trabalhos recentes, quer de trabalhos em arquivo – www.kameraphoto.com


AGENDA – Aqui há uns anos a Câmara Municipal de Lisboa começou a editar a «Agenda Lx», uma publicação mensal que elaborava um roteiro do que a cidade tinha para oferecer, desde a cultura a restaurantes, bares, ou sugestões sobre actividades diversas. O grafismo e boa parte dos conteúdos da publicação foram feitos pelo atelier de Jorge Silva, que criou um objecto com a sua marca bem própria, elogiado em diversas ocasiões. Sabe-se agora que a CML deve à Silva!Designers dez meses de produção da revista, o que torna inviável que ela continue a ser feita nos mesmos moldes. Confrontado com a situação o Director Municipal de Cultura Rui Pereira, afirmou aos jornais que a saída de Jorge Silva do projecto pode proporcionar «uma mudança para melhor». Em qualquer lugar os burocratas serão sempre o mesmo: liquidatários de tudo o que se distinga pela diferença e qualidade.


REGISTO – Em cinco anos e meio a Apple vendeu cem milhões dos diversos modelos de iPod, cuja comercialização começou em Novembro de 2001. Hoje em dia a iTunes Store aloja mais de cinco milhões de canções, 350 programas de televisão e mais de 400 filmes, tendo vendido 2,5 mil milhões de downloads de canções, 50 milhões de programas de televisão e 1,3 milhões de filmes. Não foi só a maneira de ouvir e ver que o iPod e Steve Jobs mudaram – o principal reflexo foi na forma de distribuição da indústria do entretenimento, que conseguiu encontrar uma forma de rentabilizar os seus activos no mundo digital.


OUVIR – Uma gravação histórica de jazz, efectuada em três sessões diferentes, entre1961 e 1962 nos estúdios Van Gelder, com John Coltrane no sax tenor, McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. Na mesma época em que Coltrane se fazia notar pela sua ousadia e intensidade na exploração de novos caminhos para o jazz, este disco dá-nos um registo mais suave, em torno de baladas muito bluesy, irremediavelmente cativantes. «Ballads», CD Impulse Classics, distribuição Universal Music.


LER – A edição de Março da revista «Egoísta» é dedicada à escrita, com a curiosidade de ter nas imagens, nas fotografias, os seus pontos altos. Destaque para os pessoalíssimos retratos que Daniel Mordzinski fez de ums série de grandes escritores, como Manuel Vázquez Montalban, Zoe Valdês, Enrique Vila-Matas, Agustina Bessa-Luís ou Luís Sepúlveda. Outro grande portfolio sobre escritores vem assinado por Alfredo Cunha e aí destaco dois intensos retratos, de Eugénio de Andrade e de David Mourão Ferreira. E finalmente destaque ainda para um provocador ensaio fotográfico sobre as palavras escritas na noite das cidades, assinado por João Vilhena e outro, belíssimo, sobre locais do livro e da palavra, por Candida Hofer. O menos interessante é uma banal entrevista com José Saramago feita pela previsível Ana Sousa Dias. Os melhores textos são de Hugo Gonçalves e Pedro Mexia.


BACK TO BASICS – Amem a verdade e perdoem o erro, Voltaire.

abril 09, 2007

A PUBLICIDADE NO SERVIÇO PÚBLICO


Com as audiências dos três principais canais cada vez mais coladas, há uma questão que vale a pena voltar a colocar: até que ponto é lícito que a RTP tenha publicidade e faça concorrência aos canais privados?

A existência de publicidade na RTP é uma das mais fortes razões para que algumas das razões da existência de um serviço público de televisão, financiado pelo Estado e os cidadãos, se percam pelo meio. A questão é esta: a publicidade só é valiosa, em termos de negócio, se existirem audiências. Sem audiências ela perde o seu valor comercial. Para poder ter publicidade e ela ser rentável, qualquer estação do mundo tem que fazer concessões para captar públicos. Por isso é que o serviço público devia ser uma espécie de regulador indirecto do mercado, assegurando conteúdos complementares (e não concorrenciais…) em relação aos outros canais, fomentando o desenvolvimento da produção independente portuguesa em áreas como a ficção, o documentário, e assegurando serviços noticiosos de referência. Todos sabemos que não é isto exactamente o que acontece.

Em Portugal passa-se um fenómeno estranho: a RTP capta uma fatia do investimento publicitário em televisão, que é complementada, de forma cada vez maior, com o que recebe do Estado em termos de indemnização compensatória e dos cidadãos por via da taxa que recai sobre o consumo de electricidade. Na realidade a RTP captou 13,6% do investimento publicitário em televisão em 2006, contra 44,3% da TVI, 32,9% da SIC e 9,2% de todos os outros canais disponíveis no Cabo. É esta situação que suscita dúvidas: é aceitável que um canal de serviço público acumule as receitas comerciais ao apoio financeiro do Estado e ao dinheiro das taxas cobradas aos cidadãos?

As estações privadas que se queixam de que a RTP faz concorrência desleal têm razão – se a RTP usa os seus meios financeiros para fomentar uma programação que se destina a fazer concorrência de audiência aos privados, então o mercado fica distorcido. Se a RTP ainda por cima concorre no mercado publicitário, está a roubar espaço aos privados – e nomeadamente está a dificultar o aparecimento de um novo operador privado. A introdução próxima da Televisão Digital terrestre vai voltar a colocar esta discussão na ordem do dia.

Agora, uma coisa é certa: quando a RTP cresce de audiências, qualquer Governo sorri e fica tranquilo; o mesmo não se pode dizer quando quem está a subir são os operadores privados.

(Publicado na Revista Atlântico de Abril)

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A PUBLICIDADE NO SERVIÇO PÚBLICO


Com as audiências dos três principais canais cada vez mais coladas, há uma questão que vale a pena voltar a colocar: até que ponto é lícito que a RTP tenha publicidade e faça concorrência aos canais privados?

A existência de publicidade na RTP é uma das mais fortes razões para que algumas das razões da existência de um serviço público de televisão, financiado pelo Estado e os cidadãos, se percam pelo meio. A questão é esta: a publicidade só é valiosa, em termos de negócio, se existirem audiências. Sem audiências ela perde o seu valor comercial. Para poder ter publicidade e ela ser rentável, qualquer estação do mundo tem que fazer concessões para captar públicos. Por isso é que o serviço público devia ser uma espécie de regulador indirecto do mercado, assegurando conteúdos complementares (e não concorrenciais…) em relação aos outros canais, fomentando o desenvolvimento da produção independente portuguesa em áreas como a ficção, o documentário, e assegurando serviços noticiosos de referência. Todos sabemos que não é isto exactamente o que acontece.

Em Portugal passa-se um fenómeno estranho: a RTP capta uma fatia do investimento publicitário em televisão, que é complementada, de forma cada vez maior, com o que recebe do Estado em termos de indemnização compensatória e dos cidadãos por via da taxa que recai sobre o consumo de electricidade. Na realidade a RTP captou 13,6% do investimento publicitário em televisão em 2006, contra 44,3% da TVI, 32,9% da SIC e 9,2% de todos os outros canais disponíveis no Cabo. É esta situação que suscita dúvidas: é aceitável que um canal de serviço público acumule as receitas comerciais ao apoio financeiro do Estado e ao dinheiro das taxas cobradas aos cidadãos?

As estações privadas que se queixam de que a RTP faz concorrência desleal têm razão – se a RTP usa os seus meios financeiros para fomentar uma programação que se destina a fazer concorrência de audiência aos privados, então o mercado fica distorcido. Se a RTP ainda por cima concorre no mercado publicitário, está a roubar espaço aos privados – e nomeadamente está a dificultar o aparecimento de um novo operador privado. A introdução próxima da Televisão Digital terrestre vai voltar a colocar esta discussão na ordem do dia.

Agora, uma coisa é certa: quando a RTP cresce de audiências, qualquer Governo sorri e fica tranquilo; o mesmo não se pode dizer quando quem está a subir são os operadores privados.

(Publicado na Revista Atlântico de Abril)
PENSAMENTOS OCIOSOS


O regime, na sua ânsia reformadora, vai juntar numa só entidade a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro Nacional de S. Carlos. A nova companhia estatal de produção artística, estou a crer que de inspiração soviética, vai chamar-se OPART e tem o parto previsto para Junho. Vozes avisadas já chamaram a atenção para os perigos desta manobra aventureira, que se arrisca a deitar por terra o trabalho de duas entidades que estavam a funcionar bem autonomamente.

Penso que a ideia não será criar uma nova forma de expressão artística, o bailado cantado – não estou a ver bailarinos e bailarinas a fazerem de tenores e sopranos, e não me parece que, inversamente, os cantores e as cantoras pulem levemente de nenúfar em nenúfar. Se assim não é, a coisa não se percebe – tal a distância entre os dois tipos de produção: o da Ópera, que é um dos mais complexos (talvez o mais complexo) no mundo do palco; e o do bailado, que exige tempos e ensaios como nenhuma das outras artes cénicas. Por este andar ainda se arrisca a nascer, neste rincão á beira mar plantado, o tal bailado cantado – variante erudita do Vira do Minho, fonte inspiradora da política do Mistério da Cultura.

(Publicado na Revista Atlântico, edição de Abril)

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PENSAMENTOS OCIOSOS


O regime, na sua ânsia reformadora, vai juntar numa só entidade a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro Nacional de S. Carlos. A nova companhia estatal de produção artística, estou a crer que de inspiração soviética, vai chamar-se OPART e tem o parto previsto para Junho. Vozes avisadas já chamaram a atenção para os perigos desta manobra aventureira, que se arrisca a deitar por terra o trabalho de duas entidades que estavam a funcionar bem autonomamente.

Penso que a ideia não será criar uma nova forma de expressão artística, o bailado cantado – não estou a ver bailarinos e bailarinas a fazerem de tenores e sopranos, e não me parece que, inversamente, os cantores e as cantoras pulem levemente de nenúfar em nenúfar. Se assim não é, a coisa não se percebe – tal a distância entre os dois tipos de produção: o da Ópera, que é um dos mais complexos (talvez o mais complexo) no mundo do palco; e o do bailado, que exige tempos e ensaios como nenhuma das outras artes cénicas. Por este andar ainda se arrisca a nascer, neste rincão á beira mar plantado, o tal bailado cantado – variante erudita do Vira do Minho, fonte inspiradora da política do Mistério da Cultura.

(Publicado na Revista Atlântico, edição de Abril)
SEMANA – Depois das maternidades e dos centros de saúde, a febre da extinção vai chegar aos tribunais – agora espera-se que o Estado se auto-extinga por falta de objecto social… Sobre o novo aeroporto, o Ministro da tutela diz estar disposto a ouvir tudo o que lhe disserem, mas esclarece que já decidiu não mudar de opinião… O país está mesmo diferente: no final do primeiro trimestre a TVI é a estação de televisão mais vista, a RTP passou para segundo lugar e a SIC, que durante anos liderou, caiu para a última posição… Alguma coisa vai mal quando o tema político mais falado é o grau académico do Primeiro Ministro…Notícia da semana: em Lisboa dono de pitbull mordeu o polícia que perseguia o cão.


OUVIR –Tito Paris é um dos grandes músicos de Cabo Verde a prova está no seu novo disco, «Acústico», a gravação de um concerto de 2004 na Aula Magna de Lisboa. Para este concerto Tito Paris rodeou-se de uma secção de cordas, para além de um grupo de nove músicos escolhidos a dedo, sob a direcção musical de Tomás Pimentel – que com Tito Paris fez os magníficos arranjos. O resultado é uma sonoridade cheia, envolvente, ainda mais acentuada pelos ritmos e pela forma de cantar de Tito Paris, que aqui interpreta grandes temas como «Morna», «Nha Sina», «Sodade» e «Que Vida». O resultado são versões baseadas na tradição, mas com um pé na descoberta. CD World Connection.


TER – Agora todos podem ter «Um Minuto de Silêncio» - basta comprar o livro com o mesmo nome baseado numa ideia da jornalista Marisa Moura e do fotógrafo António Coelho – ambos juntaram textos, imagens e desenhos de 60 pessoas mais ou menos públicas, uma iniciativa da Associação Portuguesa de Surdos, que visa financiar a actualização de um dicionário de língua gestual. Destaques para os textos de Francisco Pinto Balsemão, Alexandra Lencastre, Paulo Teixeira Pinto, Olga Roriz, Maria do Céu Guerrae Pedro Bidarra. Por gentileza da organizadora eu também lá tenho um texto, e deu-me muito prazer pensá-lo, escrevê-lo, dedicá-lo. Edição Guerra e Paz


LER – Aqui está ela, a nova revista de Tyler Brulé, o homem que inventou a «Wallpaper». A sua nova criação chama-se «Monocle» e parece inesperadamente fora de moda, mas a ditar o estilo. É um misto de atlas do mundo com as Selecções do Reader’s Digest, tem muito para ler, alguma coisa para ver, subalterniza a imagem e fornece imensa informação. O editor avisa que a revista se dedica à política internacional, aos negócios, à cultura e ao design. O tema de capa na edição número 2 é uma reportagem detalhada sobre a Noruega, a sua riqueza, a sua maneira de ver, o seu posicionamento no mundo. Mas também pode ler um belo artigo sobre telenovelas japoneses para telemóvel, um curioso inventário de necessidades dedicado aos consumistas ferozes e uma história de «manga», a banda desenhada japonesa. Ao todo são 200 páginas com muito que ler, por cerca de 11 euros. A «Monocle» é impressa em papel reciclado e tem um formato cómodo para a leitura. É uma revista para ler e não apenas para ver, uma revista que gosta de observar, e que está feita para se ir descobrindo.


COMER– De entre os restaurantes vegetarianos que apareceram nos últimos tempos em Lisboa, o Paladar Zen merece uma boa nota. Bom buffet de saladas, boas alternativas quentes, muito bem temperadas e saborosas, sumos naturais, mas também cerveja e refrigerantes. Boa escolha de música ambiente, aberto aos almoços e jantares, preço do buffet abaixo dos 10 euros. Av. Barbosa du Bocage 107C, tel. 217950009


VER – Em finais de Fevereiro João Tabarra inaugurou na Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto (Rua da Barroca 59) a primeira parte de uma exposição a que chamou «G». Na semana passada , na Galeria Graça Brandão, também no Bairro Alto (Rua dos Caetanos 26), abriu a segunda parte da mesma ideia. Enquanto na Zé dos Bois se assume um lado mais conceptual, de cruzamento assumido de imagens com sons, na Graça Brandão assume-se a provocação e apela-se ao voyeurismo. A Zé dos Bois fecha às 23 horas, a Graça Brandão às 20. Com esta invulgar dupla exposição – quase um caso de dupla personalidade - João Tabarra atinge a maturidade criativa e afirma-se claramente como um dos melhores artistas da sua geração, que tem feito um percurso iniciado na fotografia e se tem vindo a conceptualizar em torno da exploração da utilização das imagens, fixas ou em movimento, de uma forma cada vez mais elaborada.


BACK TO BASICS – Um visionário mente a si próprio, um mentiroso aos que o rodeiam, Friedrich Nietzsche

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SEMANA – Depois das maternidades e dos centros de saúde, a febre da extinção vai chegar aos tribunais – agora espera-se que o Estado se auto-extinga por falta de objecto social… Sobre o novo aeroporto, o Ministro da tutela diz estar disposto a ouvir tudo o que lhe disserem, mas esclarece que já decidiu não mudar de opinião… O país está mesmo diferente: no final do primeiro trimestre a TVI é a estação de televisão mais vista, a RTP passou para segundo lugar e a SIC, que durante anos liderou, caiu para a última posição… Alguma coisa vai mal quando o tema político mais falado é o grau académico do Primeiro Ministro…Notícia da semana: em Lisboa dono de pitbull mordeu o polícia que perseguia o cão.


OUVIR –Tito Paris é um dos grandes músicos de Cabo Verde a prova está no seu novo disco, «Acústico», a gravação de um concerto de 2004 na Aula Magna de Lisboa. Para este concerto Tito Paris rodeou-se de uma secção de cordas, para além de um grupo de nove músicos escolhidos a dedo, sob a direcção musical de Tomás Pimentel – que com Tito Paris fez os magníficos arranjos. O resultado é uma sonoridade cheia, envolvente, ainda mais acentuada pelos ritmos e pela forma de cantar de Tito Paris, que aqui interpreta grandes temas como «Morna», «Nha Sina», «Sodade» e «Que Vida». O resultado são versões baseadas na tradição, mas com um pé na descoberta. CD World Connection.


TER – Agora todos podem ter «Um Minuto de Silêncio» - basta comprar o livro com o mesmo nome baseado numa ideia da jornalista Marisa Moura e do fotógrafo António Coelho – ambos juntaram textos, imagens e desenhos de 60 pessoas mais ou menos públicas, uma iniciativa da Associação Portuguesa de Surdos, que visa financiar a actualização de um dicionário de língua gestual. Destaques para os textos de Francisco Pinto Balsemão, Alexandra Lencastre, Paulo Teixeira Pinto, Olga Roriz, Maria do Céu Guerrae Pedro Bidarra. Por gentileza da organizadora eu também lá tenho um texto, e deu-me muito prazer pensá-lo, escrevê-lo, dedicá-lo. Edição Guerra e Paz


LER – Aqui está ela, a nova revista de Tyler Brulé, o homem que inventou a «Wallpaper». A sua nova criação chama-se «Monocle» e parece inesperadamente fora de moda, mas a ditar o estilo. É um misto de atlas do mundo com as Selecções do Reader’s Digest, tem muito para ler, alguma coisa para ver, subalterniza a imagem e fornece imensa informação. O editor avisa que a revista se dedica à política internacional, aos negócios, à cultura e ao design. O tema de capa na edição número 2 é uma reportagem detalhada sobre a Noruega, a sua riqueza, a sua maneira de ver, o seu posicionamento no mundo. Mas também pode ler um belo artigo sobre telenovelas japoneses para telemóvel, um curioso inventário de necessidades dedicado aos consumistas ferozes e uma história de «manga», a banda desenhada japonesa. Ao todo são 200 páginas com muito que ler, por cerca de 11 euros. A «Monocle» é impressa em papel reciclado e tem um formato cómodo para a leitura. É uma revista para ler e não apenas para ver, uma revista que gosta de observar, e que está feita para se ir descobrindo.


COMER– De entre os restaurantes vegetarianos que apareceram nos últimos tempos em Lisboa, o Paladar Zen merece uma boa nota. Bom buffet de saladas, boas alternativas quentes, muito bem temperadas e saborosas, sumos naturais, mas também cerveja e refrigerantes. Boa escolha de música ambiente, aberto aos almoços e jantares, preço do buffet abaixo dos 10 euros. Av. Barbosa du Bocage 107C, tel. 217950009


VER – Em finais de Fevereiro João Tabarra inaugurou na Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto (Rua da Barroca 59) a primeira parte de uma exposição a que chamou «G». Na semana passada , na Galeria Graça Brandão, também no Bairro Alto (Rua dos Caetanos 26), abriu a segunda parte da mesma ideia. Enquanto na Zé dos Bois se assume um lado mais conceptual, de cruzamento assumido de imagens com sons, na Graça Brandão assume-se a provocação e apela-se ao voyeurismo. A Zé dos Bois fecha às 23 horas, a Graça Brandão às 20. Com esta invulgar dupla exposição – quase um caso de dupla personalidade - João Tabarra atinge a maturidade criativa e afirma-se claramente como um dos melhores artistas da sua geração, que tem feito um percurso iniciado na fotografia e se tem vindo a conceptualizar em torno da exploração da utilização das imagens, fixas ou em movimento, de uma forma cada vez mais elaborada.


BACK TO BASICS – Um visionário mente a si próprio, um mentiroso aos que o rodeiam, Friedrich Nietzsche

abril 01, 2007

CULTURA – Há uns meses o Ministério da Cultura suspendeu a exumação do que se presume serem os restos mortais de D. Afonso Henriques, iniciativa que estava a ser levada a cabo por uma equipa de cientistas, liderados por Eugénia Cunha. A importância da investigação é evidente, a desculpa para a proibição pareceu esfarrapada e mostrou mais dor de cotovelo e inveja provinciana pelo protagonismo e relevância de um estudo científico que, do Ministério da Cultura, apenas precisava de uma autorização. Apesar de, na altura, o Governo ter criado um enquadramento especial para a situação, o pedido continua sem resposta, o Ministério da Cultura continua sem decidir o que deixar fazer, e ouvi esta semana a cientista Eugénia Cunha dizer aos microfones de uma rádio que continuava sem saber quando poderia prosseguir a sua investigação. Alguém me pode informar que anda a Ministra a fazer, além de perseguir as pessoas que tentam fazer alguma coisa desde os museus à ópera, passando pela investigação?


TEATRO – O edifício do novo Teatro Municipal de Almada, inaugurado no ano passado e desenvolvido pelo arquitecto Manuel Graça Dias é um raro exemplo de um projecto bem conseguido, que teve em linha de conta as necessidades do espaço para a função, muito bem pensado em termos das zonas de trabalho e de apoio, bem pensado em termos do acolhimento e conforto dos espectadores e no prolongamento dos espectáculos (com um café teatro confortável onde se pode ouvir música ao vivo). Acima de tudo o edifício – que não é óbvio nem monótono - surge simples e funcional, embora do ponto de vista técnico e de condições de trabalho seja sofisticado e bem equipado em termos de infra-estruturas – o que mostra como houve colaboração entre Joaquim Benite, que dirige este equipamento, e o arquitecto que concebeu o edifício. Além da sala principal existe uma sala experimental, uma bela sala de ensaios onde grupos de crianças são levadas a descobrir os segredos da produção teatral, uma galeria e uma sala de multimédia. Vê-se que o edifício é vivido e além do Teatro, exposições e colóquios por ali passam concertos, ópera e dança. Neste Domingo, às 16h00 poderá ir lá ouvir o Requiem de Vivaldi e no sábado da próxima semana o Stabat Mater. Pode ver a programação em www.ctalmada.pt .


SEMANA – Graças ao encerramento das maternidades, Portugal está em vias de se tornar recordista europeu de partos em ambulâncias no primeiro semestre deste ano. Em contrapartida a corrupção escasseia: em Portugal só existem oito pessoas detidas por delito de corrupção. Agora até Cravinho vem colocar reservas à Ota como localização do novo Aeroporto – a vida não é fácil para Mário Lino, o Ministro que teve a insensatez de classificar a opção Ota como uma questão pessoal que levaria até ao fim.


COMER – Saladas ricas, sanduíches bem pensadas e pratos tradicionais com um toque de originalidade é a proposta de almoços no City Café, na Av Miguel Bombarda 133 B. Aberto desde manhã até às 20h30, o City Café é um bom sítio para um almoço leve e tranquilo nas Avenidas Novas, ou para uma pausa a meio da tarde. Bom serviço, preços razoáveis, boa decoração, jornais e revistas para ler. Tel. 213 155 282 .


OUVIR – O pianista Brad Mehldau e o guitarrista Pat Metheny juntaram-se de novo, pela segunda vez, num disco invulgar e cativante, e adoptaram a forma de um quarteto, acompanhados por Larry Grenadier no baixo e Jeff Ballard na bateria. O resultado é um daqueles raros discos onde se vão descobrindo novos detalhes em cada nova audição, apesar da simplicidade da produção. A química que se estabeleceu neste novo encontro entre Mehldau e Metheny resulta num disco cativante, exemplo da capacidade de adaptação de grandes músicos quando em prazenteiro confronto. «Metheny, Mehldau, Quartet», CD Nonesuch.


CTT – As minhas duas últimas encomendas à Amazon inglesa foram devolvidas pelos correios portugueses à origem, com a indicação de que a entrega tinha sido impossível de concretizar. Facto: Não foi deixado nenhum aviso, não foi colocado nada na caixa de correio. Usar a Amazon fica mais difícil graças à indigência do serviço dos correios portugueses.



BACK TO BASICS – Para que é que interessa estar a falar de pequenos problemas quando a Antártida está a derreter? – André Gomes.

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CULTURA – Há uns meses o Ministério da Cultura suspendeu a exumação do que se presume serem os restos mortais de D. Afonso Henriques, iniciativa que estava a ser levada a cabo por uma equipa de cientistas, liderados por Eugénia Cunha. A importância da investigação é evidente, a desculpa para a proibição pareceu esfarrapada e mostrou mais dor de cotovelo e inveja provinciana pelo protagonismo e relevância de um estudo científico que, do Ministério da Cultura, apenas precisava de uma autorização. Apesar de, na altura, o Governo ter criado um enquadramento especial para a situação, o pedido continua sem resposta, o Ministério da Cultura continua sem decidir o que deixar fazer, e ouvi esta semana a cientista Eugénia Cunha dizer aos microfones de uma rádio que continuava sem saber quando poderia prosseguir a sua investigação. Alguém me pode informar que anda a Ministra a fazer, além de perseguir as pessoas que tentam fazer alguma coisa desde os museus à ópera, passando pela investigação?


TEATRO – O edifício do novo Teatro Municipal de Almada, inaugurado no ano passado e desenvolvido pelo arquitecto Manuel Graça Dias é um raro exemplo de um projecto bem conseguido, que teve em linha de conta as necessidades do espaço para a função, muito bem pensado em termos das zonas de trabalho e de apoio, bem pensado em termos do acolhimento e conforto dos espectadores e no prolongamento dos espectáculos (com um café teatro confortável onde se pode ouvir música ao vivo). Acima de tudo o edifício – que não é óbvio nem monótono - surge simples e funcional, embora do ponto de vista técnico e de condições de trabalho seja sofisticado e bem equipado em termos de infra-estruturas – o que mostra como houve colaboração entre Joaquim Benite, que dirige este equipamento, e o arquitecto que concebeu o edifício. Além da sala principal existe uma sala experimental, uma bela sala de ensaios onde grupos de crianças são levadas a descobrir os segredos da produção teatral, uma galeria e uma sala de multimédia. Vê-se que o edifício é vivido e além do Teatro, exposições e colóquios por ali passam concertos, ópera e dança. Neste Domingo, às 16h00 poderá ir lá ouvir o Requiem de Vivaldi e no sábado da próxima semana o Stabat Mater. Pode ver a programação em www.ctalmada.pt .


SEMANA – Graças ao encerramento das maternidades, Portugal está em vias de se tornar recordista europeu de partos em ambulâncias no primeiro semestre deste ano. Em contrapartida a corrupção escasseia: em Portugal só existem oito pessoas detidas por delito de corrupção. Agora até Cravinho vem colocar reservas à Ota como localização do novo Aeroporto – a vida não é fácil para Mário Lino, o Ministro que teve a insensatez de classificar a opção Ota como uma questão pessoal que levaria até ao fim.


COMER – Saladas ricas, sanduíches bem pensadas e pratos tradicionais com um toque de originalidade é a proposta de almoços no City Café, na Av Miguel Bombarda 133 B. Aberto desde manhã até às 20h30, o City Café é um bom sítio para um almoço leve e tranquilo nas Avenidas Novas, ou para uma pausa a meio da tarde. Bom serviço, preços razoáveis, boa decoração, jornais e revistas para ler. Tel. 213 155 282 .


OUVIR – O pianista Brad Mehldau e o guitarrista Pat Metheny juntaram-se de novo, pela segunda vez, num disco invulgar e cativante, e adoptaram a forma de um quarteto, acompanhados por Larry Grenadier no baixo e Jeff Ballard na bateria. O resultado é um daqueles raros discos onde se vão descobrindo novos detalhes em cada nova audição, apesar da simplicidade da produção. A química que se estabeleceu neste novo encontro entre Mehldau e Metheny resulta num disco cativante, exemplo da capacidade de adaptação de grandes músicos quando em prazenteiro confronto. «Metheny, Mehldau, Quartet», CD Nonesuch.


CTT – As minhas duas últimas encomendas à Amazon inglesa foram devolvidas pelos correios portugueses à origem, com a indicação de que a entrega tinha sido impossível de concretizar. Facto: Não foi deixado nenhum aviso, não foi colocado nada na caixa de correio. Usar a Amazon fica mais difícil graças à indigência do serviço dos correios portugueses.



BACK TO BASICS – Para que é que interessa estar a falar de pequenos problemas quando a Antártida está a derreter? – André Gomes.

março 26, 2007

AEROPORTO – No meio de toda a polémica sobre a OTA, um amigo meu, atento observador, interrogava-se: com a polémica e a suspeição instaladas e com o processo já irremediavelmente atrasado, porque não pensar numa solução Portela 2, com uma ampliação do aeroporto existente, e uma preparação mais cuidada da solução de futuro? Tal ampliação, em havendo boa vontade e cooperação intergovernamental, seria por exemplo possível com o recurso à área do aeroporto militar de Figo Maduro, que pega com a Portela, e que tem condições de espaço e pistas construídas suficientes para melhorar radicalmente a Portela e aumentar-lhe a vida útil. A sugestão é boa e parece fazer sentido – e se o Governo conseguir vencer os interesses de grupo e admitir que é melhor estudar mais a fundo o tema da OTA, sairá ganhador de uma contenda que de outra maneira se arrisca a passar por inexplicável teimosia.

SEMANA – É oficial, o Direito é um talento familiar: no Tribunal Constitucional duas juízas que acabaram o mandato vão ser substituídas pelos respectivos maridos; o regresso de Paulo Portas ao PP deixa o cenário de uma batalha campal – seria esta a imagem que ele queria fazer passar? o momento mais alto da semana do líder do PSD foi a sua ida à Costa da Caparica ver os efeitos das marés vivas – já no Parlamento esteve piorzito (não se pode ser bom em tudo…); Salazar lidera votações no programa televisivo sobre os grandes portugueses está 22 mil votos à frente de D. Afonso Henriques, com Álvaro Cunhal em terceiro lugar.

LER – A edição deste mês da revista «Wired» é dedicada às novas formas de entretenimento, que aparecem com o tamanho e a rapidez de uma dentada num biscoito. A nova snack culture cria êxitos de um minuto, e o snack attack, como a revista lhe chama, inclui filmes, programas de televisão, canções e jogos. Na televisão um dos exemplos que está a ganhar mais fama é a micro-série desenvolvida pelo autor de «Hill Sreeet Blues», Steven Bocho, para o site www.metacafe.com. A série, com episódios de um minuto, escritos e produzidos, mas que assumem a forma de depoimentos espontâneos de pessoas anónimas, chama-se «Café Confidential» e dizer que é interessante é subestimar a importância do que ali está. A cultura pop, diz a «Wired», vem agora empacotada como embalagens de doces ou salgados em bocados do tamanho de uma dentada, suficientemente pequenos para permitirem downloads de alta velocidade – o resultado é entretenimento instantâneo e muito saboroso.

OUVIR – No meu top pessoal desta semana esteve mais um disco da coleccção de reedições do catálogo Impulse!, distribuído pela Universal Music, Desta vez o escolhido foi «The Blues And The Abstract Truth», uma histórica gravação de 1961, liderada pelo saxofonista Oliver Nelson (que fez os arranjos) e juntou ao seu lado nomes como Bill Evans, Roy Haynes, Eric Dolphy, Paul Chambers e Freddie Hubbard. Destaque para a faixa de abertura, «Stolen Moments», enérgica, muito bluesy e duas chamadas de atenção suplementares para o irresistível ritmo de «Hoe Down» e para os envolventes «Yearnin’» e «Teenie’s Blues».

VER – O jardim das Amoreiras é dos mais bonitos de Lisboa e convida mesmo, nestes dias, para uma visita à hora de almoço. É lá que fica o Museu da Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva. Para além da colecção permanente, podem ver até dia 17 de Junho próximo uma belíssima exposição sobre a obra de Arpad, esse pintor injustamente pouco reconhecido, que voluntariamente se apagou face a Vieira da Silva. Esta exposição faz-lhe justiça, mostra com detalhe o seu processo criativo, a sua forma intensa de preparar, criar e transformar as imagens até chegar à sua opção final na tela. É uma pena que em Portugal os museus estejam tão desertos como este – e se há exposição que merecia ser mostrada pelas escolas aos seus alunos é esta, precisamente por causa do que se pode ver sobre a forma como um grande pintor prepara o seu trabalho – a criatividade não é fruto do acaso, essa é a grande lição desta exposição.

COMER – Um dos bons sítios para comer pizzas na melhor tradição italiana, com bons igredientes, saborosas no tempero e cuidadas na confecção da massa – fininha e estaladiça – experimente o Lucca, perto da Avenida de Roma, na Travessa Henrique Cardoso 19 B. Encerra às quartas, ambiente simpático, serviço bom, telefone 217972687 ou 217971051.


BACK TO BASICS – A Economia é extremamente útil como uma garantia de emprego para os economistas – John kenneth Galbraith.

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AEROPORTO – No meio de toda a polémica sobre a OTA, um amigo meu, atento observador, interrogava-se: com a polémica e a suspeição instaladas e com o processo já irremediavelmente atrasado, porque não pensar numa solução Portela 2, com uma ampliação do aeroporto existente, e uma preparação mais cuidada da solução de futuro? Tal ampliação, em havendo boa vontade e cooperação intergovernamental, seria por exemplo possível com o recurso à área do aeroporto militar de Figo Maduro, que pega com a Portela, e que tem condições de espaço e pistas construídas suficientes para melhorar radicalmente a Portela e aumentar-lhe a vida útil. A sugestão é boa e parece fazer sentido – e se o Governo conseguir vencer os interesses de grupo e admitir que é melhor estudar mais a fundo o tema da OTA, sairá ganhador de uma contenda que de outra maneira se arrisca a passar por inexplicável teimosia.

SEMANA – É oficial, o Direito é um talento familiar: no Tribunal Constitucional duas juízas que acabaram o mandato vão ser substituídas pelos respectivos maridos; o regresso de Paulo Portas ao PP deixa o cenário de uma batalha campal – seria esta a imagem que ele queria fazer passar? o momento mais alto da semana do líder do PSD foi a sua ida à Costa da Caparica ver os efeitos das marés vivas – já no Parlamento esteve piorzito (não se pode ser bom em tudo…); Salazar lidera votações no programa televisivo sobre os grandes portugueses está 22 mil votos à frente de D. Afonso Henriques, com Álvaro Cunhal em terceiro lugar.

LER – A edição deste mês da revista «Wired» é dedicada às novas formas de entretenimento, que aparecem com o tamanho e a rapidez de uma dentada num biscoito. A nova snack culture cria êxitos de um minuto, e o snack attack, como a revista lhe chama, inclui filmes, programas de televisão, canções e jogos. Na televisão um dos exemplos que está a ganhar mais fama é a micro-série desenvolvida pelo autor de «Hill Sreeet Blues», Steven Bocho, para o site www.metacafe.com. A série, com episódios de um minuto, escritos e produzidos, mas que assumem a forma de depoimentos espontâneos de pessoas anónimas, chama-se «Café Confidential» e dizer que é interessante é subestimar a importância do que ali está. A cultura pop, diz a «Wired», vem agora empacotada como embalagens de doces ou salgados em bocados do tamanho de uma dentada, suficientemente pequenos para permitirem downloads de alta velocidade – o resultado é entretenimento instantâneo e muito saboroso.

OUVIR – No meu top pessoal desta semana esteve mais um disco da coleccção de reedições do catálogo Impulse!, distribuído pela Universal Music, Desta vez o escolhido foi «The Blues And The Abstract Truth», uma histórica gravação de 1961, liderada pelo saxofonista Oliver Nelson (que fez os arranjos) e juntou ao seu lado nomes como Bill Evans, Roy Haynes, Eric Dolphy, Paul Chambers e Freddie Hubbard. Destaque para a faixa de abertura, «Stolen Moments», enérgica, muito bluesy e duas chamadas de atenção suplementares para o irresistível ritmo de «Hoe Down» e para os envolventes «Yearnin’» e «Teenie’s Blues».

VER – O jardim das Amoreiras é dos mais bonitos de Lisboa e convida mesmo, nestes dias, para uma visita à hora de almoço. É lá que fica o Museu da Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva. Para além da colecção permanente, podem ver até dia 17 de Junho próximo uma belíssima exposição sobre a obra de Arpad, esse pintor injustamente pouco reconhecido, que voluntariamente se apagou face a Vieira da Silva. Esta exposição faz-lhe justiça, mostra com detalhe o seu processo criativo, a sua forma intensa de preparar, criar e transformar as imagens até chegar à sua opção final na tela. É uma pena que em Portugal os museus estejam tão desertos como este – e se há exposição que merecia ser mostrada pelas escolas aos seus alunos é esta, precisamente por causa do que se pode ver sobre a forma como um grande pintor prepara o seu trabalho – a criatividade não é fruto do acaso, essa é a grande lição desta exposição.

COMER – Um dos bons sítios para comer pizzas na melhor tradição italiana, com bons igredientes, saborosas no tempero e cuidadas na confecção da massa – fininha e estaladiça – experimente o Lucca, perto da Avenida de Roma, na Travessa Henrique Cardoso 19 B. Encerra às quartas, ambiente simpático, serviço bom, telefone 217972687 ou 217971051.


BACK TO BASICS – A Economia é extremamente útil como uma garantia de emprego para os economistas – John kenneth Galbraith.

março 18, 2007

ASNEIRA - O Ministério da Cultura pouco tem feito , mas ganhou ao longo do último ano o estatuto de intermediário de negócios. Esta nova competência ministerial veio de braço dado com o Comendador Berardo e com as regras que ele impôs ao Estado para garantir um bom negócio na venda da sua colecção privada ao Centro Cultural de Belém. É curioso notar que ao mesmo tempo que se tornou ágil nos negócios, o Ministério da Cultura tem-se revelado inábil e incompetente naquilo que devia ser a sua primeira função. Um sinal é o afastamento de Paolo Pinamonte do S. Carlos basicamente porque ele se pronunciou (e bem) contra a aberração de gestão que promete ser a fusão entre a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro Nacional de S.Carlos , com a criação da OPART, uma empresa mista de dança e de ópera. Outro sinal, ainda mais preocupante, é a forma como são retirados fundos ao Museu Nacional de Arte Antiga, fundos provenientes de mecenas que queriam apoiar o museu de determinada forma, fundos retirados de forma arbitrária e autoritária pela tutela que os resolveu aplicar noutros locais. O Ministério da Cultura passou dois anos sem nada fazer. Agora começou a fazer asneiras, das grandes, e dando prova de grande teimosia e arrogância



FOGACHO - Depois da operação mediática de colocar uns reboques nas Avenidas Novas a retirar carros mal estacionados, eis que desde há quinze dias nada se passa e tudo está na mesma. A EMEL, essa aberração que persegue os cidadãos de Lisboa, continua exactamente na mesma: passa multas mas não disciplina o estacionamento. Afinal foi tudo fogo de vista, um fogacho para inglês ver.


CLIENTE- Quando queremos subscrever um serviço da TV Cabo basta utilizar o telefone, o mesmo telefone que a empresa usa e abusa para maçar os seus clientes com ofertas e campanhas às horas mais inconvenientes. Mas quando o queremos desligar começa um rosário de dificuldades – tem que ser por fax, por telefone não pode ser, por email também não. Enfim, um compliquex – por alguma razão a TV Cabo é a líder de queixas na DECO.


LER – A edição especial da revista «Egoísta» integralmente dedicada a Agustina Bessa-Luís. Nesta número extra-série, permito-me destacar a entrevista que Inês Pedrosa fez à escritora. Mas merecem também destaque as extraordinárias fotografias de Maria Carapeto e Augusto Brázio, os desenhos e fotografias do marido de Agustina, Alberto Luís, e ainda dois textos, «O Amor É Fácil Demais» , de Francisco José Viegas e «Como Ninguém», de Lídia Jorge. São 88 páginas de excepção que nos são oferecidas graças à generosidade e à visão de Mário Assis Ferreira e ao talento de Patrícia Reis. Não resisto a deixar uma citação de Agustina, destacada na «Egoísta» : «Até ao fim somos amantes uns dos outros»,



OUVIR – Tenho as melhores razões para ter boas memórias dos Heróis do Mar, a banda que nos anos 80 fez Portugal aparecer na imprensa internacional, me fez ver uns concertos divertidos, me pôs a dançar e a cantar. Boas noites passei eu ao som dos Heróis… Coincidindo com a exibição do documentário «Brava Dança», de José Pinheiro e Jorge Pereirinha Pires, a EMI lançou uma colectânea com 16 temas da banda, do «Amor» à «Saudade», passando pela «Paixão», o «Fado» , a injustamente desprezada «Africana» e a sempre muito oportuna «Só Gosto de Ti». CD EMI Music Portugal.



VER – A exposição «Lisboa-Luanda-Maputo», uma iniciativa da Plataforma Revólver que junta na Cordoaria Nacional, até 24 de Abril, artistas plásticos contemporâneos de Portugal, Angola e Moçambique. Aqui está um bom exemplo do que pode ser feito graças ao esforço de uma galeria que tem procurado descobrir novas fronteiras, com o apoio de um patrocinador privado, a Alcatel.



PROVAR – Nestes dias de sol há um sítio simpático para se almoçar, mesmo no meio de Alvalade, mais precisamente por detrás do Liceu Padre António Vieira. O restaurante chama-se «A Giralda» e fica no complexo do Lisboa Racket Centre, Rua Alferes Malheiro, por detrás do Liceu Padre António Vieira. A sala é luminosa , com um varandim amplo a dar para os courts de ténis. A nova gerência assegura um serviço simpático, peixe fresco, um buffet de saladas e de pratos do dia mais substanciais, além de uma lista bem composta. A confecção e o tempero são bons, os preços razoáveis, o telefone é o 969847920, está aberto das nove às nove, só serve almoços e é muito fácil estacionar.



BACK TO BASICS –O segredo da criatividade é saber esconder as suas fontes – Albert Einstein.

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ASNEIRA - O Ministério da Cultura pouco tem feito , mas ganhou ao longo do último ano o estatuto de intermediário de negócios. Esta nova competência ministerial veio de braço dado com o Comendador Berardo e com as regras que ele impôs ao Estado para garantir um bom negócio na venda da sua colecção privada ao Centro Cultural de Belém. É curioso notar que ao mesmo tempo que se tornou ágil nos negócios, o Ministério da Cultura tem-se revelado inábil e incompetente naquilo que devia ser a sua primeira função. Um sinal é o afastamento de Paolo Pinamonte do S. Carlos basicamente porque ele se pronunciou (e bem) contra a aberração de gestão que promete ser a fusão entre a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro Nacional de S.Carlos , com a criação da OPART, uma empresa mista de dança e de ópera. Outro sinal, ainda mais preocupante, é a forma como são retirados fundos ao Museu Nacional de Arte Antiga, fundos provenientes de mecenas que queriam apoiar o museu de determinada forma, fundos retirados de forma arbitrária e autoritária pela tutela que os resolveu aplicar noutros locais. O Ministério da Cultura passou dois anos sem nada fazer. Agora começou a fazer asneiras, das grandes, e dando prova de grande teimosia e arrogância



FOGACHO - Depois da operação mediática de colocar uns reboques nas Avenidas Novas a retirar carros mal estacionados, eis que desde há quinze dias nada se passa e tudo está na mesma. A EMEL, essa aberração que persegue os cidadãos de Lisboa, continua exactamente na mesma: passa multas mas não disciplina o estacionamento. Afinal foi tudo fogo de vista, um fogacho para inglês ver.


CLIENTE- Quando queremos subscrever um serviço da TV Cabo basta utilizar o telefone, o mesmo telefone que a empresa usa e abusa para maçar os seus clientes com ofertas e campanhas às horas mais inconvenientes. Mas quando o queremos desligar começa um rosário de dificuldades – tem que ser por fax, por telefone não pode ser, por email também não. Enfim, um compliquex – por alguma razão a TV Cabo é a líder de queixas na DECO.


LER – A edição especial da revista «Egoísta» integralmente dedicada a Agustina Bessa-Luís. Nesta número extra-série, permito-me destacar a entrevista que Inês Pedrosa fez à escritora. Mas merecem também destaque as extraordinárias fotografias de Maria Carapeto e Augusto Brázio, os desenhos e fotografias do marido de Agustina, Alberto Luís, e ainda dois textos, «O Amor É Fácil Demais» , de Francisco José Viegas e «Como Ninguém», de Lídia Jorge. São 88 páginas de excepção que nos são oferecidas graças à generosidade e à visão de Mário Assis Ferreira e ao talento de Patrícia Reis. Não resisto a deixar uma citação de Agustina, destacada na «Egoísta» : «Até ao fim somos amantes uns dos outros»,



OUVIR – Tenho as melhores razões para ter boas memórias dos Heróis do Mar, a banda que nos anos 80 fez Portugal aparecer na imprensa internacional, me fez ver uns concertos divertidos, me pôs a dançar e a cantar. Boas noites passei eu ao som dos Heróis… Coincidindo com a exibição do documentário «Brava Dança», de José Pinheiro e Jorge Pereirinha Pires, a EMI lançou uma colectânea com 16 temas da banda, do «Amor» à «Saudade», passando pela «Paixão», o «Fado» , a injustamente desprezada «Africana» e a sempre muito oportuna «Só Gosto de Ti». CD EMI Music Portugal.



VER – A exposição «Lisboa-Luanda-Maputo», uma iniciativa da Plataforma Revólver que junta na Cordoaria Nacional, até 24 de Abril, artistas plásticos contemporâneos de Portugal, Angola e Moçambique. Aqui está um bom exemplo do que pode ser feito graças ao esforço de uma galeria que tem procurado descobrir novas fronteiras, com o apoio de um patrocinador privado, a Alcatel.



PROVAR – Nestes dias de sol há um sítio simpático para se almoçar, mesmo no meio de Alvalade, mais precisamente por detrás do Liceu Padre António Vieira. O restaurante chama-se «A Giralda» e fica no complexo do Lisboa Racket Centre, Rua Alferes Malheiro, por detrás do Liceu Padre António Vieira. A sala é luminosa , com um varandim amplo a dar para os courts de ténis. A nova gerência assegura um serviço simpático, peixe fresco, um buffet de saladas e de pratos do dia mais substanciais, além de uma lista bem composta. A confecção e o tempero são bons, os preços razoáveis, o telefone é o 969847920, está aberto das nove às nove, só serve almoços e é muito fácil estacionar.



BACK TO BASICS –O segredo da criatividade é saber esconder as suas fontes – Albert Einstein.

março 12, 2007

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HABILIDADE – Agora é oficial: a utilização das polícias como arma política foi formalmente anunciada pelo Governo. A concentração das várias forças policiais na dependência directa do Primeiro-Ministro é uma preocupante notícia para quem se inquiete com abusos de poder, coisa a que infelizmente o Estado nos tem sobejamente habituado em Portugal.


DESASSOSSEGO – Bastou Paulo Portas anunciar que quer liderar o CDS para o PSD entrar em pré-convulsão. É um estranho fenómeno este que leva o principal partido da oposição a preocupar-se mais com disputas de poder noutros partidos do que em encontrar formas de combater o partido do Governo.


ÚTIL – A Rádio Renascença edita agora diariamente, ao fim da manhã e ao meio da tarde, uma newsletter electrónica chamada «Página Um» (o nome de um dos históricos programas da estação em idos da década de 70), que se destina a fazer a síntese da actualidade. Os assinantes (inscrição fácil no site www.rr.pt) recebem por e-mail, cerca das 12h30 e das 17h30, um ficheiro PDF com noticiário nacional e internacional, previsão metereológica e , no caso da edição da tarde, uma completa agenda dos principais acontecimentos previstos para o dia seguinte. Quem quiser pode imprimir o ficheiro para levar para ler ao almoço ou para folhear no regresso a casa.


CAFÉ-RESTAURANTE – Há poucos dias revisitei um local onde não se pode dizer que se coma muito bem, mas que, em contrapartida, é um belo posto de observação do que é hoje em dia a população de uma zona da cidade famosa nos anos 60, e nessa época bem retratada nos «Verdes Anos», um filme de Paulo Rocha. Falo do café-restaurante «Luanda», num dos prédios simétricos do cruzamento entre a avenida dos Estados Unidos e a avenida de Roma. Cheguei tarde para almoçar ao «Luanda», por volta das três da tarde, já tinha passado a lufa-lufa dos escritórios. A essa hora, percebi, enquanto olhava para a lista, discutem-se os lugares da janela para o chá entre as clientes habituais. E, curioso, mesmo senhoras de grupinhos de lanche diferente, juntam-se na heróica tarefa de guardarem as mesas umas para as outras, tudo com um mapa muito bem definido. Na parte de cima, para além de um pequeno varandim, claramente no final do almoço, um casal dormitava lado a lado, pescoço dobrado, era a sesta – eis então que o «Luanda» é perfeito para uma soneca. À minha frente sentou-se um cavalheiro impecavelmente arranjado, protegido do frio com um sobretudo de gola de astracã, como eu já não via há anos. Foi nessa altura que o meu almoço chegou – e era bem menos agradável que tudo aquilo que se passava à minha volta.


LER – Agora que a noite dos Óscares já dorme, vale a pena devorar a edição especial da Vanity Fair dedicada a Hollywood, um bom hábito que se repete todos os anos. A Vanity Fair de Março é a maior de sempre, com 316 páginas, onde é justo destacar um belíssimo portfolio de quatro dezenas de fotografias de tantos outros nomes grandes do cinema, tudo feito por Annie Leibowitz. Que prazer dá ver/ler uma revista assim onde ainda se encontram imagens do álbum pessoal que Sammy Davis fotografou ao longo da vida, com imagens inéditas de Sinatra, Marilyn ou Robert Kennedy. Ainda na mesma edição portfolios de Mário Testino (o homem que fez a imagem de marca da Benetton) e de Herb Ritts. É difícil ter melhor.


OUVIR – A etiqueta de jazz norte-americana Verve iniciou um programa de reedições do seu catálogo histórico que conta com algumas preciosidades, uma delas a gravação, de estúdio, do encontro de Dizzy Gillespie com Charlie Parker e Thelonius Monk, em 6 de Junho de 1950, encontro que nunca mais se repetiu. Dizzy e Parker tocaram juntos muitas vezes e tinham um enorme respeito mútuo – ambos ajudaram a definir o jazz no pós-guerra. A maior parte dos registos são gravações ao vivo, esta é das raras sessões de estúdio. A presença do piano de Monk (e da bateria de Buddy Rich, já agora), criam um ambiente de swing e uma vivacidade invulgares. O disco levou o título original de «Bird And Diz» e esta reedição da Verve mantém a capa original da Clef Records. CD Verve Classics, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – O ponto de vista dos Governos sobre a economia é simples: se ela se mexe, apliquem mais impostos; se apesar de tudo ela ainda resiste, implementem regulações; quando ela finalmente pára, preparem a atribuição de subsídios – Ronald Reagan.
HABILIDADE – Agora é oficial: a utilização das polícias como arma política foi formalmente anunciada pelo Governo. A concentração das várias forças policiais na dependência directa do Primeiro-Ministro é uma preocupante notícia para quem se inquiete com abusos de poder, coisa a que infelizmente o Estado nos tem sobejamente habituado em Portugal.


DESASSOSSEGO – Bastou Paulo Portas anunciar que quer liderar o CDS para o PSD entrar em pré-convulsão. É um estranho fenómeno este que leva o principal partido da oposição a preocupar-se mais com disputas de poder noutros partidos do que em encontrar formas de combater o partido do Governo.


ÚTIL – A Rádio Renascença edita agora diariamente, ao fim da manhã e ao meio da tarde, uma newsletter electrónica chamada «Página Um» (o nome de um dos históricos programas da estação em idos da década de 70), que se destina a fazer a síntese da actualidade. Os assinantes (inscrição fácil no site www.rr.pt) recebem por e-mail, cerca das 12h30 e das 17h30, um ficheiro PDF com noticiário nacional e internacional, previsão metereológica e , no caso da edição da tarde, uma completa agenda dos principais acontecimentos previstos para o dia seguinte. Quem quiser pode imprimir o ficheiro para levar para ler ao almoço ou para folhear no regresso a casa.


CAFÉ-RESTAURANTE – Há poucos dias revisitei um local onde não se pode dizer que se coma muito bem, mas que, em contrapartida, é um belo posto de observação do que é hoje em dia a população de uma zona da cidade famosa nos anos 60, e nessa época bem retratada nos «Verdes Anos», um filme de Paulo Rocha. Falo do café-restaurante «Luanda», num dos prédios simétricos do cruzamento entre a avenida dos Estados Unidos e a avenida de Roma. Cheguei tarde para almoçar ao «Luanda», por volta das três da tarde, já tinha passado a lufa-lufa dos escritórios. A essa hora, percebi, enquanto olhava para a lista, discutem-se os lugares da janela para o chá entre as clientes habituais. E, curioso, mesmo senhoras de grupinhos de lanche diferente, juntam-se na heróica tarefa de guardarem as mesas umas para as outras, tudo com um mapa muito bem definido. Na parte de cima, para além de um pequeno varandim, claramente no final do almoço, um casal dormitava lado a lado, pescoço dobrado, era a sesta – eis então que o «Luanda» é perfeito para uma soneca. À minha frente sentou-se um cavalheiro impecavelmente arranjado, protegido do frio com um sobretudo de gola de astracã, como eu já não via há anos. Foi nessa altura que o meu almoço chegou – e era bem menos agradável que tudo aquilo que se passava à minha volta.


LER – Agora que a noite dos Óscares já dorme, vale a pena devorar a edição especial da Vanity Fair dedicada a Hollywood, um bom hábito que se repete todos os anos. A Vanity Fair de Março é a maior de sempre, com 316 páginas, onde é justo destacar um belíssimo portfolio de quatro dezenas de fotografias de tantos outros nomes grandes do cinema, tudo feito por Annie Leibowitz. Que prazer dá ver/ler uma revista assim onde ainda se encontram imagens do álbum pessoal que Sammy Davis fotografou ao longo da vida, com imagens inéditas de Sinatra, Marilyn ou Robert Kennedy. Ainda na mesma edição portfolios de Mário Testino (o homem que fez a imagem de marca da Benetton) e de Herb Ritts. É difícil ter melhor.


OUVIR – A etiqueta de jazz norte-americana Verve iniciou um programa de reedições do seu catálogo histórico que conta com algumas preciosidades, uma delas a gravação, de estúdio, do encontro de Dizzy Gillespie com Charlie Parker e Thelonius Monk, em 6 de Junho de 1950, encontro que nunca mais se repetiu. Dizzy e Parker tocaram juntos muitas vezes e tinham um enorme respeito mútuo – ambos ajudaram a definir o jazz no pós-guerra. A maior parte dos registos são gravações ao vivo, esta é das raras sessões de estúdio. A presença do piano de Monk (e da bateria de Buddy Rich, já agora), criam um ambiente de swing e uma vivacidade invulgares. O disco levou o título original de «Bird And Diz» e esta reedição da Verve mantém a capa original da Clef Records. CD Verve Classics, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – O ponto de vista dos Governos sobre a economia é simples: se ela se mexe, apliquem mais impostos; se apesar de tudo ela ainda resiste, implementem regulações; quando ela finalmente pára, preparem a atribuição de subsídios – Ronald Reagan.

março 05, 2007

MONOTONIA – O PSD anda a ficar tão politicamente correcto e previsível que mais se parece com um frasco de soporíferos do que com um partido político. Por este andar não há novo programa que chegue para abanar as hostes e despertar entusiasmo. A forma como se gerem as crises é sintomática das capacidades das lideranças – o que se está a passar, no PSD, no caso da Câmara Municipal de Lisboa é um manual do que se deve evitar.


FANTASIA – O balanço do sector da Justiça feito esta semana pelo Governo é um retrato perfeito da essência do socratismo: manipulação da realidade, tomar os desejos por factos, encher um balão de ar e chamar-lhe inovação e progresso.


COBRANÇA – Ainda sem saber se o Director Geral dos Impostos continua no lugar permito-me chamar a atenção para uns detalhes: o que ele fez foi cobrar dívidas ( e não é pouco), mas cobrou-as a quem já pagava impostos, não me consta que tenha tido grande êxito em ir cobrar a quem foge ao fisco, oculta rendimentos e pura e simplesmente não contribui para o Estado; teve os resultados que teve com recurso a perigosas invasões da privacidade dos cidadãos e com recurso a ameaças, das quais a publicação das célebres listas de devedores, são o mais flagrante exemplo de uma prática que levanta as mais sérias dúvidas. Os fins não justificam os meios – pelo menos ensinaram-me que em democracia, entre gente civilizada, era assim que devia ser.


COISAS – Desagrada-me sempre que se usem modas sociais para fazer negócio e temo bem que seja o que se passa na cadeia de supermercados Pingo Doce com a introdução dos novos sacos de plástico. A ideia é que os novos sacos podem ser usados várias vezes e que, portanto, causam menos lixo. Na prática ninguém traz os sacos usados de volta para levar as compras e a esmagadora maioria dos clientes quer novos sacos cada vez que vai às compras: detalhe – os sacos antigos eram oferecidos, os novos custam dois cêntimos cada. Quantos sacos vende o Pingo Doce no total por dia? E quanto dá isso ao fim do ano? Por detrás de uma bela preocupação ecológica lá está uma nova fonte de receitas… ai aquecimento global, serves para muito…


LER – O novo romance de um jornalista bem conhecido destas páginas, Fernando Sobral. Chama-se «O Navio do Ópio» e parte de algumas situações verdadeiras para tecer uma intriga que cruza uma história de amor com uma análise do espírito lusitano. A coisa é feita de forma natural, passando-se no início do século XIX. A história é simples – o Ouvidor de Macau (cargo na época correspondente a Governador), desesperava da indolência da decisão de Lisboa , temia os avanços dos britânicos na região, e urdiu um plano para fazer da Madeira um entreposto entre Macau e o Brasil – uma situação em que todos teriam, a ganhar. Para testar as coisas decidiu fazer uma plantação de papoilas de ópio em Porto Santo, rompendo assim o monopólio do produto, nas mãos dos ingleses. No Brasil, onde estava a Corte portuguesa exilada, o produto seria recebido de braços abertos, esperava ele. O diagnóstico do país, mortífero, está nestas escassas linhas, logo no início: « Portugal não tem uma visão de futuro. A sua única estratégia é a que cada pessoa consegue concretizar. Vive de contactos. De relações pessoais. E de nada mais. Somos pequeninos. A pensar e a fazer». «O Navio do Ópio», de Fernando Sobral, edição «Oficina do Livro», 241 páginas.


OSCARES – A academia de Hollywood resolveu por uma vez abandonar o politicamente correcto e reduziu o anti-bushismo militante do favorito «Babel» ao prémio para uma banda sonora original interessante (já disponível em Portugal via Universal Music). Este ano os Óscares privilegiaram o grande cinema, as grandes produções, as grandes receitas de bilheteira. E assim os triunfadores da noite foram os históricos estúdios da indústria do cinema, os criadores de «The Departed», com Martin Scorsese à cabeça, o musical «Dreamgirls» e o histórico «The Queen». O nicho do politicamente correcto ficou para o powerpoint de Al Gore, mascarado de documentário sobre o aquecimento global, «Uma Verdade Inconveniente». Há muito tempo que uma noite de Óscares não corria tão bem.


OUVIR – Uma inesperada versão das Variações Goldberg, de Bach, para trio de cordas – sim , leram bem – uma peça composta para teclas interpretada por um violinistas (Julian Rachlin), um viola (Nobuko Imai) e um violoncelista (Mischa Maisky). As melodias das Variações ganham nova dimensão neste arranjo para trio de cordas feito pelo maestro e violinista Dmitry Sithovetsky. Edição Deustche Grammophon, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – Justiça adiada é justiça negada, William Gladstone.

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MONOTONIA – O PSD anda a ficar tão politicamente correcto e previsível que mais se parece com um frasco de soporíferos do que com um partido político. Por este andar não há novo programa que chegue para abanar as hostes e despertar entusiasmo. A forma como se gerem as crises é sintomática das capacidades das lideranças – o que se está a passar, no PSD, no caso da Câmara Municipal de Lisboa é um manual do que se deve evitar.


FANTASIA – O balanço do sector da Justiça feito esta semana pelo Governo é um retrato perfeito da essência do socratismo: manipulação da realidade, tomar os desejos por factos, encher um balão de ar e chamar-lhe inovação e progresso.


COBRANÇA – Ainda sem saber se o Director Geral dos Impostos continua no lugar permito-me chamar a atenção para uns detalhes: o que ele fez foi cobrar dívidas ( e não é pouco), mas cobrou-as a quem já pagava impostos, não me consta que tenha tido grande êxito em ir cobrar a quem foge ao fisco, oculta rendimentos e pura e simplesmente não contribui para o Estado; teve os resultados que teve com recurso a perigosas invasões da privacidade dos cidadãos e com recurso a ameaças, das quais a publicação das célebres listas de devedores, são o mais flagrante exemplo de uma prática que levanta as mais sérias dúvidas. Os fins não justificam os meios – pelo menos ensinaram-me que em democracia, entre gente civilizada, era assim que devia ser.


COISAS – Desagrada-me sempre que se usem modas sociais para fazer negócio e temo bem que seja o que se passa na cadeia de supermercados Pingo Doce com a introdução dos novos sacos de plástico. A ideia é que os novos sacos podem ser usados várias vezes e que, portanto, causam menos lixo. Na prática ninguém traz os sacos usados de volta para levar as compras e a esmagadora maioria dos clientes quer novos sacos cada vez que vai às compras: detalhe – os sacos antigos eram oferecidos, os novos custam dois cêntimos cada. Quantos sacos vende o Pingo Doce no total por dia? E quanto dá isso ao fim do ano? Por detrás de uma bela preocupação ecológica lá está uma nova fonte de receitas… ai aquecimento global, serves para muito…


LER – O novo romance de um jornalista bem conhecido destas páginas, Fernando Sobral. Chama-se «O Navio do Ópio» e parte de algumas situações verdadeiras para tecer uma intriga que cruza uma história de amor com uma análise do espírito lusitano. A coisa é feita de forma natural, passando-se no início do século XIX. A história é simples – o Ouvidor de Macau (cargo na época correspondente a Governador), desesperava da indolência da decisão de Lisboa , temia os avanços dos britânicos na região, e urdiu um plano para fazer da Madeira um entreposto entre Macau e o Brasil – uma situação em que todos teriam, a ganhar. Para testar as coisas decidiu fazer uma plantação de papoilas de ópio em Porto Santo, rompendo assim o monopólio do produto, nas mãos dos ingleses. No Brasil, onde estava a Corte portuguesa exilada, o produto seria recebido de braços abertos, esperava ele. O diagnóstico do país, mortífero, está nestas escassas linhas, logo no início: « Portugal não tem uma visão de futuro. A sua única estratégia é a que cada pessoa consegue concretizar. Vive de contactos. De relações pessoais. E de nada mais. Somos pequeninos. A pensar e a fazer». «O Navio do Ópio», de Fernando Sobral, edição «Oficina do Livro», 241 páginas.


OSCARES – A academia de Hollywood resolveu por uma vez abandonar o politicamente correcto e reduziu o anti-bushismo militante do favorito «Babel» ao prémio para uma banda sonora original interessante (já disponível em Portugal via Universal Music). Este ano os Óscares privilegiaram o grande cinema, as grandes produções, as grandes receitas de bilheteira. E assim os triunfadores da noite foram os históricos estúdios da indústria do cinema, os criadores de «The Departed», com Martin Scorsese à cabeça, o musical «Dreamgirls» e o histórico «The Queen». O nicho do politicamente correcto ficou para o powerpoint de Al Gore, mascarado de documentário sobre o aquecimento global, «Uma Verdade Inconveniente». Há muito tempo que uma noite de Óscares não corria tão bem.


OUVIR – Uma inesperada versão das Variações Goldberg, de Bach, para trio de cordas – sim , leram bem – uma peça composta para teclas interpretada por um violinistas (Julian Rachlin), um viola (Nobuko Imai) e um violoncelista (Mischa Maisky). As melodias das Variações ganham nova dimensão neste arranjo para trio de cordas feito pelo maestro e violinista Dmitry Sithovetsky. Edição Deustche Grammophon, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – Justiça adiada é justiça negada, William Gladstone.

fevereiro 24, 2007

INSUCESSO - O Governo completou esta semana dois anos de mandato, é certo que apresentou muitos powerpoints e projectos, que divulgou muitas listas de coisas a fazer, mas na verdade poucos planos estão cumpridos, muitos dos itens das listas estão ainda por ser iniciados. Quase que é possível dizer que o Governo fez mais no seu primeiro ano de vida do que no segundo, onde se nota que começou a perder capacidade de concretização. Nestes próximos dois anos a aritmética pré-eleitoral vai começar a interferir nas contas. É inevitável, e no PS não falta – já se viu esta semana – quem vá chamando a atenção para o assunto. A marca que o Primeiro Ministro gostaria de deixar é a de um fazedor – não é certo que o consiga. Tem tido êxito a fazer o que não disse (aumentar os impostos), tem tido pouco sucesso a concretizar o que tem andado a prometer – emprego, obras públicas, diminuição da despesa. A ver vamos se alguma reforma estruturante fica feita.


COBRADOR - Aquilo em que o Governo mais coisas tem feito é na área dos impostos – um dos seus primeiros actos foi ir contra uma promessa eleitoral, de os não aumentar. Aumentou o IVA, diminuíu a competitividade, tornou a vida do comum cidadão mais difícil tornando a carga fiscal maior e mais injustamente distribuída, com o argumento das cobranças atingiu um ponto de invasão da esfera privada de que está a tocar o limite do suportável. O governo tem um apetite devorador sobre impostos e sobre os rendimentos dos cidadãos, mas não mostra a mesma energia a cortar o peso da máquina do Estado. Em matéria de impostos a acção do Governo parece-se com a dos cobradores do fraque – tenho as minhas dúvidas de que seja um bom método.


INVENTOR - Depois de andar meses a fechar serviços de saúde, há no Governo quem comece a sugerir que poderá ser criado um novo imposto exclusivamente para os custos do sistema de saúde. Isto é pôr o mundo ao contrário: os cidadãos aceitam pagar impostos sobre o trabalho para que o Estado lhes forneça algumas coisas básicas – saúde, educação, segurança e justiça. Não é exagero dizer que estas questões básicas são aquelas que o Estado precisamente garante pior. Querer agora inventar impostos sectoriais é roubo à mão armada.


LITIGANTE - Na acção do Governo existe um lado de permanente litigância – esta semana o Ministro da Saúde atacou autarcas simplesmente por não concordarem com ele e se manifestarem publicamente e o Ministro das Obras Públicas veio atacar, de forma violenta, o bastonário da Ordem dos Engenheiros por este ter dito que talvez a Ota não fosse a melhor solução para o novo aeroporto. Um curioso perfil de José Sócrates publicado no «Público» dizia que ele odiava ser contrariado – se calhar está a passar para os seus Ministros esta sua característica.


RESPONDER - Por muito que Alberto João Jardim seja excessivo e desbragado, a verdade é que a sua atitude desta semana veio chamar a atenção para uma coisa: a acção política tem regras básicas e uma delas é não perder a iniciativa e responder aos ataques de forma atingir o adversário. A lógica da acção política de Jardim, ao demitir-se e agir por forma a provocar eleições na Região Autónoma da Madeira, mostra isso mesmo: resposta rápida e firme, marcar agenda, tirar a iniciativa ao adversário, obter apoio popular. De repente, a iniciativa passou a estar do seu lado e não do Governo. É uma lição sobre a forma de fazer política na oposição.


LER – A edição de Fevereiro da revista «Wired» dedicada aos grandes mistérios que continuam a dominar a nossa existência no mundo. De que é feito o universo? Porque é que o corpo-humano não se auto-regenera? Será que o passar do tempo é uma ilusão?


OUVIR – Um belo disco de Harry Connick Jr. Baseado nos sons de New Orleans, nas melodias populares dos velhos bairros. Acompanhado por uma banda de 16 músicos, Connick surpreende pelo gozo que a gravação transmite – e sente-se como os músicos gostaram de a fazer. «Chanson Du Vieux Carré», Harry Connick Jr., edição Marsalis Music, distribuição Universal.


VISITAR – A Garrafeira Internacional, na Rua da Escola Politécnica nºos 15 a 17. Boa selecção de vinhos, preços razoáveis, serviço simpático, petiscos variados para complementar.


BACK TO BASICS –É muito perigoso querer ter razão quando o Governo está errado – Voltaire.

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INSUCESSO - O Governo completou esta semana dois anos de mandato, é certo que apresentou muitos powerpoints e projectos, que divulgou muitas listas de coisas a fazer, mas na verdade poucos planos estão cumpridos, muitos dos itens das listas estão ainda por ser iniciados. Quase que é possível dizer que o Governo fez mais no seu primeiro ano de vida do que no segundo, onde se nota que começou a perder capacidade de concretização. Nestes próximos dois anos a aritmética pré-eleitoral vai começar a interferir nas contas. É inevitável, e no PS não falta – já se viu esta semana – quem vá chamando a atenção para o assunto. A marca que o Primeiro Ministro gostaria de deixar é a de um fazedor – não é certo que o consiga. Tem tido êxito a fazer o que não disse (aumentar os impostos), tem tido pouco sucesso a concretizar o que tem andado a prometer – emprego, obras públicas, diminuição da despesa. A ver vamos se alguma reforma estruturante fica feita.


COBRADOR - Aquilo em que o Governo mais coisas tem feito é na área dos impostos – um dos seus primeiros actos foi ir contra uma promessa eleitoral, de os não aumentar. Aumentou o IVA, diminuíu a competitividade, tornou a vida do comum cidadão mais difícil tornando a carga fiscal maior e mais injustamente distribuída, com o argumento das cobranças atingiu um ponto de invasão da esfera privada de que está a tocar o limite do suportável. O governo tem um apetite devorador sobre impostos e sobre os rendimentos dos cidadãos, mas não mostra a mesma energia a cortar o peso da máquina do Estado. Em matéria de impostos a acção do Governo parece-se com a dos cobradores do fraque – tenho as minhas dúvidas de que seja um bom método.


INVENTOR - Depois de andar meses a fechar serviços de saúde, há no Governo quem comece a sugerir que poderá ser criado um novo imposto exclusivamente para os custos do sistema de saúde. Isto é pôr o mundo ao contrário: os cidadãos aceitam pagar impostos sobre o trabalho para que o Estado lhes forneça algumas coisas básicas – saúde, educação, segurança e justiça. Não é exagero dizer que estas questões básicas são aquelas que o Estado precisamente garante pior. Querer agora inventar impostos sectoriais é roubo à mão armada.


LITIGANTE - Na acção do Governo existe um lado de permanente litigância – esta semana o Ministro da Saúde atacou autarcas simplesmente por não concordarem com ele e se manifestarem publicamente e o Ministro das Obras Públicas veio atacar, de forma violenta, o bastonário da Ordem dos Engenheiros por este ter dito que talvez a Ota não fosse a melhor solução para o novo aeroporto. Um curioso perfil de José Sócrates publicado no «Público» dizia que ele odiava ser contrariado – se calhar está a passar para os seus Ministros esta sua característica.


RESPONDER - Por muito que Alberto João Jardim seja excessivo e desbragado, a verdade é que a sua atitude desta semana veio chamar a atenção para uma coisa: a acção política tem regras básicas e uma delas é não perder a iniciativa e responder aos ataques de forma atingir o adversário. A lógica da acção política de Jardim, ao demitir-se e agir por forma a provocar eleições na Região Autónoma da Madeira, mostra isso mesmo: resposta rápida e firme, marcar agenda, tirar a iniciativa ao adversário, obter apoio popular. De repente, a iniciativa passou a estar do seu lado e não do Governo. É uma lição sobre a forma de fazer política na oposição.


LER – A edição de Fevereiro da revista «Wired» dedicada aos grandes mistérios que continuam a dominar a nossa existência no mundo. De que é feito o universo? Porque é que o corpo-humano não se auto-regenera? Será que o passar do tempo é uma ilusão?


OUVIR – Um belo disco de Harry Connick Jr. Baseado nos sons de New Orleans, nas melodias populares dos velhos bairros. Acompanhado por uma banda de 16 músicos, Connick surpreende pelo gozo que a gravação transmite – e sente-se como os músicos gostaram de a fazer. «Chanson Du Vieux Carré», Harry Connick Jr., edição Marsalis Music, distribuição Universal.


VISITAR – A Garrafeira Internacional, na Rua da Escola Politécnica nºos 15 a 17. Boa selecção de vinhos, preços razoáveis, serviço simpático, petiscos variados para complementar.


BACK TO BASICS –É muito perigoso querer ter razão quando o Governo está errado – Voltaire.

fevereiro 17, 2007

ELUCIDATIVO - No dia 24 de Janeiro os jornais noticiavam que uma vereadora da Câmara Municipal de Lisboa havia sido constituída arguida. Já lá vão 24 dias, quase um mês, e nada mais se sabe sobre o assunto. Os factos resumem-se a isto: a polícia conseguiu que ela saísse de funções, a polícia induziu uma crise política nessa autarquia e sobre a essência do caso nada mais se ouviu falar. Na mesma altura fontes policiais disseram à cada vez mais oficial agência Lusa que outro vereador iria ser constituído arguido nos dias seguintes; nada se passou até agora. O Ministro da Justiça e o Procurador Geral da República não acham esta situação estranha? Não consideram que a actuação judiciária teve até agora mais consequências políticas que policiais? Acham estes procedimentos normais? Na minha modesta opinião isto que temos não é justiça – é uma fantochada, cobardia política mascarada de vendetta. Resta saber quem ganha com o assunto – alguém há-de ganhar, de alguma forma, com o que se está a passar.


CASTIGADOR - Há um outro caso judicial esta semana que mostrou em que mãos anda a Justiça em Portugal: um juiz conselheiro aproveitou um programa de televisão para fazer uma interpretação muito pessoal da lei e, em tom de ameaça, preconizou que cada um dos 10 000 cidadãos que subscreveram um pedido de «habeas corpus» no caso do militar Luís Gomes, seriam punidos com um pagamento – como se estivesse efectivamente a clamar por castigo, uma coima a bem dizer. Mais tarde a hierarquia, o Supremo, veio desautorizar o juiz e repor a verdade dos factos. O que interessa aqui é que um juiz conselheiro reage em público como se um pedido de «habeas corpus» merecesse punição – porque foi disso que efectivamente se tratou – o tal juiz conselheiro acha que os cidadãos que tentarem evitar abusos de poder devem ser como que multados. Chocante.


REGIME - No Domingo passado a maioria dos eleitores voltou a abster-se. Independentemente da natureza da pergunta o facto é este: o sistema está desacreditado. Bem sei que agora não era este o caso, mas em muitos dos actos eleitorais recentes os eleitores votaram em determinadas promessas que depois foram esquecidas, sendo que os eleitos se têm habituado a fazer, em alguns temas fundamentais – como a carga fiscal – o oposto daquilo que prometem em campanha eleitoral. Chamo a isto a nova demagogia – basear uma campanha em posições que depois não têm correspondência com a realidade. Por este andar, mais cedo ou mais tarde o regime vai viver - em geral e não só nos referendos – dos votos de uma minoria do universo de eleitores. Meter a cabeça na areia, atirar as culpas para cima dos temas ou da sintaxe das perguntas não ajuda a resolver o que de facto é um sinal de doença do regime.


PARLAMENTO – Não percebo porque é que em Portugal se perdeu o hábito das crónicas parlamentares, porque é que nenhum jornal coloca alguém a relatar o dia a dia do Parlamento, dos seus corredores, das comissões, em jeito de crónica, de olhar aguçado e observador. Bem sei que o nosso Parlamento não é grande coisa – mas faz-me um bocado de impressão que sejamos um dos poucos países europeus onde os media só dão pelo Parlamento em dia de bronca ou em dia de debate mensal com o Governo. Talvez uma presença mais assídua fosse boa para toda a gente.


OUVIR – Hoje e amanhã podem ouvir o trio de Jef Neve no Hot Club, à Praça da Alegria. Pelas 23h00 os belgas Jef Neve no piano, Piet Verbist no contrabaixo e Teun Verbruggen na bateria vão dar a conhecer o seu disco mais recente, «Nobody Is Illegal», uma bela gravação já disponibilizada em Portugal pela Universal. Jef Neve tem-se destacado como um dos mais criativos e interessantes músicos de jazz na cena europeia e este seu últimos disco, largamente aclamado pela crítica, veio confirmar o seu estatuto – razão adicional para os concertos do Hot gerarem boa dose de expectativa.


PETISCAR – Nove da noite, não apetece jantar e só apetece petiscar? Uma boa solução pode ser o tapas bar do Restaurante Luca , na Rua de Santa Marta 35. Por trás da sala do restaurante, em cima, num espaço amplo, com decoração de inspiração no norte de África, pode-se experimentar um buffet de antipasti italianos, com matéria prima de primeiríssima qualidade e variedade abundante. Na boa companhia, é um belo princípio de noite.


BACK TO BASICS – A repetição não transforma uma mentira em verdade – Franklin D. Roosevelt.

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ELUCIDATIVO - No dia 24 de Janeiro os jornais noticiavam que uma vereadora da Câmara Municipal de Lisboa havia sido constituída arguida. Já lá vão 24 dias, quase um mês, e nada mais se sabe sobre o assunto. Os factos resumem-se a isto: a polícia conseguiu que ela saísse de funções, a polícia induziu uma crise política nessa autarquia e sobre a essência do caso nada mais se ouviu falar. Na mesma altura fontes policiais disseram à cada vez mais oficial agência Lusa que outro vereador iria ser constituído arguido nos dias seguintes; nada se passou até agora. O Ministro da Justiça e o Procurador Geral da República não acham esta situação estranha? Não consideram que a actuação judiciária teve até agora mais consequências políticas que policiais? Acham estes procedimentos normais? Na minha modesta opinião isto que temos não é justiça – é uma fantochada, cobardia política mascarada de vendetta. Resta saber quem ganha com o assunto – alguém há-de ganhar, de alguma forma, com o que se está a passar.


CASTIGADOR - Há um outro caso judicial esta semana que mostrou em que mãos anda a Justiça em Portugal: um juiz conselheiro aproveitou um programa de televisão para fazer uma interpretação muito pessoal da lei e, em tom de ameaça, preconizou que cada um dos 10 000 cidadãos que subscreveram um pedido de «habeas corpus» no caso do militar Luís Gomes, seriam punidos com um pagamento – como se estivesse efectivamente a clamar por castigo, uma coima a bem dizer. Mais tarde a hierarquia, o Supremo, veio desautorizar o juiz e repor a verdade dos factos. O que interessa aqui é que um juiz conselheiro reage em público como se um pedido de «habeas corpus» merecesse punição – porque foi disso que efectivamente se tratou – o tal juiz conselheiro acha que os cidadãos que tentarem evitar abusos de poder devem ser como que multados. Chocante.


REGIME - No Domingo passado a maioria dos eleitores voltou a abster-se. Independentemente da natureza da pergunta o facto é este: o sistema está desacreditado. Bem sei que agora não era este o caso, mas em muitos dos actos eleitorais recentes os eleitores votaram em determinadas promessas que depois foram esquecidas, sendo que os eleitos se têm habituado a fazer, em alguns temas fundamentais – como a carga fiscal – o oposto daquilo que prometem em campanha eleitoral. Chamo a isto a nova demagogia – basear uma campanha em posições que depois não têm correspondência com a realidade. Por este andar, mais cedo ou mais tarde o regime vai viver - em geral e não só nos referendos – dos votos de uma minoria do universo de eleitores. Meter a cabeça na areia, atirar as culpas para cima dos temas ou da sintaxe das perguntas não ajuda a resolver o que de facto é um sinal de doença do regime.


PARLAMENTO – Não percebo porque é que em Portugal se perdeu o hábito das crónicas parlamentares, porque é que nenhum jornal coloca alguém a relatar o dia a dia do Parlamento, dos seus corredores, das comissões, em jeito de crónica, de olhar aguçado e observador. Bem sei que o nosso Parlamento não é grande coisa – mas faz-me um bocado de impressão que sejamos um dos poucos países europeus onde os media só dão pelo Parlamento em dia de bronca ou em dia de debate mensal com o Governo. Talvez uma presença mais assídua fosse boa para toda a gente.


OUVIR – Hoje e amanhã podem ouvir o trio de Jef Neve no Hot Club, à Praça da Alegria. Pelas 23h00 os belgas Jef Neve no piano, Piet Verbist no contrabaixo e Teun Verbruggen na bateria vão dar a conhecer o seu disco mais recente, «Nobody Is Illegal», uma bela gravação já disponibilizada em Portugal pela Universal. Jef Neve tem-se destacado como um dos mais criativos e interessantes músicos de jazz na cena europeia e este seu últimos disco, largamente aclamado pela crítica, veio confirmar o seu estatuto – razão adicional para os concertos do Hot gerarem boa dose de expectativa.


PETISCAR – Nove da noite, não apetece jantar e só apetece petiscar? Uma boa solução pode ser o tapas bar do Restaurante Luca , na Rua de Santa Marta 35. Por trás da sala do restaurante, em cima, num espaço amplo, com decoração de inspiração no norte de África, pode-se experimentar um buffet de antipasti italianos, com matéria prima de primeiríssima qualidade e variedade abundante. Na boa companhia, é um belo princípio de noite.


BACK TO BASICS – A repetição não transforma uma mentira em verdade – Franklin D. Roosevelt.

fevereiro 10, 2007

JUSTIÇA? – O sistema judicial português – em particular a Procuradoria da República e a Polícia Judiciária - tornaram prática corrente uma forma muito século XXI da justiça popular pós revolucionária de má memória: insinua-se uma acusação a alguém, de alguma coisa, não se apresentam provas nem acusação concreta, constituem-se arguidos ad-hoc, dá-se boa cobertura jornalística ao sucedido avisando de buscas domiciliárias, inquirições, e arguições, atenta-se ao bom nome das pessoas de forma metódica e sistemática. Depois, o processo não anda, as provas não surgem, a acusação não é concretizada – mas o mal está feito e as pessoas vão sendo afastadas do que faziam. A utilização destas práticas em processos de matriz política é assunto corrente. Kafka escreveu sobre isto no século passado, mas é no século XXI que o sistema judicial português e a sua justiça popular pós-moderna são cada vez mais kafkianos.


ACASO – Estou para ver se por algum acaso do destino as entidades judiciais resolvem constituir arguido mais algum vereador da Câmara Municipal de Lisboa, ou o seu próprio Presidente, precisamente na altura em que o PS já estiver pronto para apresentar candidato – processo turbulento, difícil e de calendário complicado. O caso, recordo aqui, não seria inédito na forma: o ex-Presidente da República, o socialista Jorge Sampaio, só encontrou razões para convocar eleições antecipadas quando o seu partido já estava pronto para as disputar. Ele há métodos que fazem escola…


IMPOSTOS – O insuspeito Medina Carreira disse na semana passada, em entrevista ao Rádio Clube Português, que a via administrativa para cobrar mais impostos estava a ficar esgotada – é um alerta para o que começam a ser sinais de abuso de poder da administração fiscal contra os cidadãos, reflexo de uma atitude generalizada do Estado. Na realidade fica cada vez mais evidente que, incapaz de concretizar reformas estruturais, o socratismo utiliza o Estado para perseguir os cidadãos e não para os servir. É o mundo ao contrário.


LIVRO – Uma fantástica e muitíssimo oportuna edição de um dos mais divertidos e certeiros escritos de Arthur Schopenhauer, «A Arte De Ter Sempre Razão». Eu oferecia de bom grado este livro ao Ministro António Pinho e ao Primeiro-Ministro José Sócrates – havia de lhes ser muito útil. Esta bela edição da Frenesi tem a vantagem de incluir ainda excertos de outro texto fundamental do autor, «O Fundamento da Moral», outro tema muito desconhecido pelo Estado nos dias que correm. A edição da Frenesi tem uma boa tradução e um certeiro prólogo de Jorge Pereirinha Pires intitulado «Da Linguagem Como Arte Marcial».


FOTOGRAFIA – Olho para a exposição dos seleccionados para o prémio BES Photo e fico com a sensação de que, em três quartos do que está exposto, estou no reino da Floribella. De facto são uma desilusão os seleccionados para o prémio BES Photo de 2006: com a excepção de Daniel Blaufuks, o resto das escolhas do júri revela um provincianismo gritante, a adesão ao kitsch como abordagem estética, a subalternização da fotografia como forma de expressão e a sua consagração como mero suporte e meio técnico de cópia. É uma pena que esta iniciativa tenha escorregado para a lógica dos jogos florais pictóricos onde contam mais as influências que o talento. No CCB até 18 de Março.


OUVIR – O disco mais tropicalista alguma vez feito em Portugal chama-se «JP Simões 1970» e acabou de ser editado. Os temas originais de JP Simões, que foi a voz e boa parte do espírito dos Bellechase Hotel, são deslumbrantes. A forma de dizer, mais do que cantar, isola a música das palavras de uma forma quase provocatória, que contribui para tornar este disco uma das mais importantes gravações portuguesas dos últimos anos. É impensável não salientar a genial versão de um original de José Mário Branco, «Inquietação». Há muitos anos que fora do hip-hop não havia um disco de originais portugueses com esta qualidade e vigor. CD edição Nortesul.


REFERENDO – Voto pela liberdade individual de escolha e contra a hipocrisia. Voto sim.


BACK TO BASICS – Devemos fazer encolerizar o oponente, pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse – A.Schopenhauer.

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JUSTIÇA? – O sistema judicial português – em particular a Procuradoria da República e a Polícia Judiciária - tornaram prática corrente uma forma muito século XXI da justiça popular pós revolucionária de má memória: insinua-se uma acusação a alguém, de alguma coisa, não se apresentam provas nem acusação concreta, constituem-se arguidos ad-hoc, dá-se boa cobertura jornalística ao sucedido avisando de buscas domiciliárias, inquirições, e arguições, atenta-se ao bom nome das pessoas de forma metódica e sistemática. Depois, o processo não anda, as provas não surgem, a acusação não é concretizada – mas o mal está feito e as pessoas vão sendo afastadas do que faziam. A utilização destas práticas em processos de matriz política é assunto corrente. Kafka escreveu sobre isto no século passado, mas é no século XXI que o sistema judicial português e a sua justiça popular pós-moderna são cada vez mais kafkianos.


ACASO – Estou para ver se por algum acaso do destino as entidades judiciais resolvem constituir arguido mais algum vereador da Câmara Municipal de Lisboa, ou o seu próprio Presidente, precisamente na altura em que o PS já estiver pronto para apresentar candidato – processo turbulento, difícil e de calendário complicado. O caso, recordo aqui, não seria inédito na forma: o ex-Presidente da República, o socialista Jorge Sampaio, só encontrou razões para convocar eleições antecipadas quando o seu partido já estava pronto para as disputar. Ele há métodos que fazem escola…


IMPOSTOS – O insuspeito Medina Carreira disse na semana passada, em entrevista ao Rádio Clube Português, que a via administrativa para cobrar mais impostos estava a ficar esgotada – é um alerta para o que começam a ser sinais de abuso de poder da administração fiscal contra os cidadãos, reflexo de uma atitude generalizada do Estado. Na realidade fica cada vez mais evidente que, incapaz de concretizar reformas estruturais, o socratismo utiliza o Estado para perseguir os cidadãos e não para os servir. É o mundo ao contrário.


LIVRO – Uma fantástica e muitíssimo oportuna edição de um dos mais divertidos e certeiros escritos de Arthur Schopenhauer, «A Arte De Ter Sempre Razão». Eu oferecia de bom grado este livro ao Ministro António Pinho e ao Primeiro-Ministro José Sócrates – havia de lhes ser muito útil. Esta bela edição da Frenesi tem a vantagem de incluir ainda excertos de outro texto fundamental do autor, «O Fundamento da Moral», outro tema muito desconhecido pelo Estado nos dias que correm. A edição da Frenesi tem uma boa tradução e um certeiro prólogo de Jorge Pereirinha Pires intitulado «Da Linguagem Como Arte Marcial».


FOTOGRAFIA – Olho para a exposição dos seleccionados para o prémio BES Photo e fico com a sensação de que, em três quartos do que está exposto, estou no reino da Floribella. De facto são uma desilusão os seleccionados para o prémio BES Photo de 2006: com a excepção de Daniel Blaufuks, o resto das escolhas do júri revela um provincianismo gritante, a adesão ao kitsch como abordagem estética, a subalternização da fotografia como forma de expressão e a sua consagração como mero suporte e meio técnico de cópia. É uma pena que esta iniciativa tenha escorregado para a lógica dos jogos florais pictóricos onde contam mais as influências que o talento. No CCB até 18 de Março.


OUVIR – O disco mais tropicalista alguma vez feito em Portugal chama-se «JP Simões 1970» e acabou de ser editado. Os temas originais de JP Simões, que foi a voz e boa parte do espírito dos Bellechase Hotel, são deslumbrantes. A forma de dizer, mais do que cantar, isola a música das palavras de uma forma quase provocatória, que contribui para tornar este disco uma das mais importantes gravações portuguesas dos últimos anos. É impensável não salientar a genial versão de um original de José Mário Branco, «Inquietação». Há muitos anos que fora do hip-hop não havia um disco de originais portugueses com esta qualidade e vigor. CD edição Nortesul.


REFERENDO – Voto pela liberdade individual de escolha e contra a hipocrisia. Voto sim.


BACK TO BASICS – Devemos fazer encolerizar o oponente, pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse – A.Schopenhauer.

fevereiro 05, 2007

DESPUDOR - Da maneira que as informações sobre investigações em curso, sobre buscas domiciliárias e sobre os trâmites do sistema judicial se tornam publicitadas, valia a pena pedir ao senhor Procurador da República para ordenar escutas aos telefones e vigilância aos computadores de agentes, magistrados e juízes, para ver quem anda a fazer o que não deve. Se há justiça, ela deve ser para todos e o Procurador não pode ficar sob a suspeita de deixar utilizar investigações e investigadores como um elemento de pressão na opinião pública nem como arma de contendas políticas - a menos que esteja disposto a continuar as linhas mestras do triste mandato do seu antecessor.


REGISTAR – Este ano a Câmara Municipal de Lisboa acabou com duas bienais – a Lisbon Photo e a Experimenta Design, dois momentos diferentes na vida da cidade, que a valorizavam e projectavam internacionalmente. Mais do que acabar conjunturalmente com uma edição dessas bienais, o gesto da vereação da Cultura da Câmara deita para o caixote de lixo o investimento feito nos últimos anos nestas duas iniciativas, e que ao longo do tempo foi dando os seus frutos. O mais curioso é que o anúncio do fim destas duas bienais coincide com o anúncio de um investimento numa nova iniciativa, uma trienal de arquitectura, para a qual se vai utilizar o Pavilhão de Portugal. Não vejo problema nenhum em criar uma mostra de arqutectura, vejo é com muita desconfiança uma gestão que prefere delapidar investimentos passados e extinguir o que ía bem existindo, apenas para deixar uma obrinha sua. Estas manias persecutórias e este afã de deixar obra arrasando o passado são uma das maiores demonstrações do nosso atávico provincianismo, dos orgulhos pacóvios de paróquia, dos joguinhos de interesses que desprezam o interesse público, que delapidam os investimentos anteriormente realizados com o dinheiro dos contribuintes e que revelam apenas uma completa ausência de estratégia de posicionamento cultural da cidade. A coisa, já agora, é tanto pior quanto é certo que, na segunda metade do ano, Lisboa recebe a presidência da Comunidade Europeia e ninguém parece ter-se preocupado com o assunto.


VER – As fotografias de Annie Leibowitz, num dos mais fantásticos álbuns dos últimos tempos, feito a propósito da exposição que entre 20 de Outubro do ano passado e 21 de Janeiro esteve no Brooklyn Museum, de Nova York: «A Photographer’s Life, 1990-2005». A exposição (e o álbum) traçam paralelos entre o trabalho de Leibowitz para revistas como a «Vanity Fair» e a «Rolling Stone», ao mesmo tempo que mostram o seu percurso pessoal, nomeadamente a relação com a ensaísta Susan Sontag – e a doença que acabou por a derrotar no final de 2004. É curioso contrastar a produção colocada em fotografias de moda e publicidade, com a simplicidade de algumas imagens a preto e branco, muito íntimas, delicadamente pessoais. Leibowitz é uma das grandes retratistas da segunda metade do século XX e uma das fotógrafas que melhor seguiu o mundo do entretenimento, nomeadamente das estrelas do rock e das estrelas do cinema. O álbum foi um delicioso e inesquecível presente que me deram e alivia-me a mágoa de não ter partilhado a exposição propriamente dita. Edição Random House.


OUVIR - É engraçado notar como a estratégia editorial de uma das maiores etiquetas de música clássica – a Deutsche Grammophon – se tem agilizado nos últimos anos. A mudança é curiosa porque incorpora alguns dos truques editoriais da música pop num repertório clássico, em gravações e interpretações com o elevado padrão de qualidade a que a editora habituou o seu público. Depois de em Novembro ter lançado o disco da soprano Anne Netrebko dedicado aos compositores russos, que há semanas lidera o top clássico na Europa central, o disco de estreia da meio-soprano Elina Garanco, «Ária Cantilena», editado em Dezembro (e que inclui uma deliciosa interpretação da «Cantilena» das «Bachinas Brasileiras» de Villa-Lobos, segue carreira similar e obtém críticas elogiosas. A culminar, escassas duas semanas depois do tradicional concerto de Ano Novo de Viena, eis que a Deutsche lançou já no mercado a gravação desse mesmo concerto deste ano, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Zubin Mehta, com valsas de Johan e Josef Strauss, incluindo uma interpretação inédita da arrebatadora valsa «Wo die Zitronen bluh’n».


BACK TO BASICS –As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas - Otto von Bismark

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DESPUDOR - Da maneira que as informações sobre investigações em curso, sobre buscas domiciliárias e sobre os trâmites do sistema judicial se tornam publicitadas, valia a pena pedir ao senhor Procurador da República para ordenar escutas aos telefones e vigilância aos computadores de agentes, magistrados e juízes, para ver quem anda a fazer o que não deve. Se há justiça, ela deve ser para todos e o Procurador não pode ficar sob a suspeita de deixar utilizar investigações e investigadores como um elemento de pressão na opinião pública nem como arma de contendas políticas - a menos que esteja disposto a continuar as linhas mestras do triste mandato do seu antecessor.


REGISTAR – Este ano a Câmara Municipal de Lisboa acabou com duas bienais – a Lisbon Photo e a Experimenta Design, dois momentos diferentes na vida da cidade, que a valorizavam e projectavam internacionalmente. Mais do que acabar conjunturalmente com uma edição dessas bienais, o gesto da vereação da Cultura da Câmara deita para o caixote de lixo o investimento feito nos últimos anos nestas duas iniciativas, e que ao longo do tempo foi dando os seus frutos. O mais curioso é que o anúncio do fim destas duas bienais coincide com o anúncio de um investimento numa nova iniciativa, uma trienal de arquitectura, para a qual se vai utilizar o Pavilhão de Portugal. Não vejo problema nenhum em criar uma mostra de arqutectura, vejo é com muita desconfiança uma gestão que prefere delapidar investimentos passados e extinguir o que ía bem existindo, apenas para deixar uma obrinha sua. Estas manias persecutórias e este afã de deixar obra arrasando o passado são uma das maiores demonstrações do nosso atávico provincianismo, dos orgulhos pacóvios de paróquia, dos joguinhos de interesses que desprezam o interesse público, que delapidam os investimentos anteriormente realizados com o dinheiro dos contribuintes e que revelam apenas uma completa ausência de estratégia de posicionamento cultural da cidade. A coisa, já agora, é tanto pior quanto é certo que, na segunda metade do ano, Lisboa recebe a presidência da Comunidade Europeia e ninguém parece ter-se preocupado com o assunto.


VER – As fotografias de Annie Leibowitz, num dos mais fantásticos álbuns dos últimos tempos, feito a propósito da exposição que entre 20 de Outubro do ano passado e 21 de Janeiro esteve no Brooklyn Museum, de Nova York: «A Photographer’s Life, 1990-2005». A exposição (e o álbum) traçam paralelos entre o trabalho de Leibowitz para revistas como a «Vanity Fair» e a «Rolling Stone», ao mesmo tempo que mostram o seu percurso pessoal, nomeadamente a relação com a ensaísta Susan Sontag – e a doença que acabou por a derrotar no final de 2004. É curioso contrastar a produção colocada em fotografias de moda e publicidade, com a simplicidade de algumas imagens a preto e branco, muito íntimas, delicadamente pessoais. Leibowitz é uma das grandes retratistas da segunda metade do século XX e uma das fotógrafas que melhor seguiu o mundo do entretenimento, nomeadamente das estrelas do rock e das estrelas do cinema. O álbum foi um delicioso e inesquecível presente que me deram e alivia-me a mágoa de não ter partilhado a exposição propriamente dita. Edição Random House.


OUVIR - É engraçado notar como a estratégia editorial de uma das maiores etiquetas de música clássica – a Deutsche Grammophon – se tem agilizado nos últimos anos. A mudança é curiosa porque incorpora alguns dos truques editoriais da música pop num repertório clássico, em gravações e interpretações com o elevado padrão de qualidade a que a editora habituou o seu público. Depois de em Novembro ter lançado o disco da soprano Anne Netrebko dedicado aos compositores russos, que há semanas lidera o top clássico na Europa central, o disco de estreia da meio-soprano Elina Garanco, «Ária Cantilena», editado em Dezembro (e que inclui uma deliciosa interpretação da «Cantilena» das «Bachinas Brasileiras» de Villa-Lobos, segue carreira similar e obtém críticas elogiosas. A culminar, escassas duas semanas depois do tradicional concerto de Ano Novo de Viena, eis que a Deutsche lançou já no mercado a gravação desse mesmo concerto deste ano, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Zubin Mehta, com valsas de Johan e Josef Strauss, incluindo uma interpretação inédita da arrebatadora valsa «Wo die Zitronen bluh’n».


BACK TO BASICS –As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas - Otto von Bismark