julho 16, 2006

Untitled

FUTEBOL - Constato que o Futebol continua a ser um dos poucos espectáculos de alta competição em que não são utilizados meios electrónicos para aferir situações dúbias em tempo real. Tudo fica na mão dos árbitros, no seu juízo subjectivo. Essa extraordinária entidade que é a FIFA tem rejeitado sucessivos apelos para que se possa proceder ao visionamento de imagens de jogadas polémicas. Na realidade, no sistema actual, como o recente Mundial bem mostrou, a verdade desportiva foi várias vezes posta em causa por decisões dos árbitros, por critérios pouco consistentes na marcação de faltas e atribuição de castigos. Da maneira como está, com grande parte dos resultados finais obtidos através da marcação de grandes penalidades, está a assistir-se à transformação do campeonato do mundo de futebol em campeonato do mundo de penalties. Já agora, convém recordar aquele belo documentário da BBC sobre a FIFA onde era mostrado como a organização se envolve em esquemas de pelo menos muito duvidosa legalidade. Continua esta dúvida no ar: as entidades que superintendem na modalidade querem que o futebol se desenvolva como negócio e espectáculo desportivo ou que se limite a ser um somatório de negociatas e arranjinhos?


PUBLICIDADE- Segundo a revista norte-americana «Advertising Age», a partir do próximo ano deverá ser introduzido um novo modelo de venda de publicidade em televisão, baseado não na audiência dos programas, mas na audiência atingida pelos próprios blocos publicitários. A decisão está a ser forçada quer pelo modelo de negócio desenvolvida na publicidade online (baseado no número de clicks), quer pelas implicações dos sistemas digitais de gravação e selecção, que permitem pôr de lado a publicidade e ver só os programas propriamente ditos, «limpando» os intervalos. A partir de Novembro a Nielsen Media Research vai começar a disponibilizar nos Estados Unidos ratings comerciais médios por programa, o que permitirá estabelecer qual a média de audiência de todos os intervalos para publicidade de determinado programa. Observadores da indústria prevêm uma descida dos preços da publicidade em televisão logo que o novo sistema for implementado.


ANEDOTA - Fica para o repositório do anedotário nacional a extraordinária intervenção do Ministério da Cultura num projecto científico que visava recolher informação sobre o primeiro Rei de Portugal. O que a Ministra da Cultura e o IPPAR fizeram foi porem-se em bicos dos pés para mostrar quem manda, sem cuidarem do trabalho que já estava desenvolvido, do investimento humano e material que havia sido feito. Se o incidente não revelasse a mentalidade despótica reinante no Palácio da Ajuda ainda teria alguma graça pelo profundo ridículo em que se colocaram. Assim fica apenas como prova de que a curiosidade e a investigação científica não são matéria relevante para quem tem a tutela da Cultura em Portugal.


RECLAMAÇÃO- À semelhança de algumas empresas de transportes, a Carris devia colocar na traseira dos seus autocarros a indicação de um número verde para onde se pudesse reclamar sobre a forma de condução de alguns dos seus motoristas. A coisa está cada vez pior, com desrespeito por peões e automobilistas, impondo, se necessário à força, o tamanho e o peso dos autocarros de transporte público. Talvez o simples facto de o número existir e estar afixado levasse alguns dos motoristas mais irresponsáveis a ter um pouco mais de cuidado.


VER – A exposição sobre o percurso da obra de Luc Tuymans, «Dusk/Penumbra», no Museu de Serralves. Até 15 de Outubro.


OUVIR - «Takk», o mais recente disco dos islandeses Sigur Rós, que domingo tocam no Pavilhão Atlântico.


COMER – Um jantar japonês em casa graças ao take-away do restaurante japonês Assuka , que pode ser encomendado pelo 213 528 027. Os entendidos dizem que o Assuka é o melhor restaurante japonês de Lisboa e o ambiente é muito simpático. Fica na Rua São Sebastião da Pedreira 150 e as reservas (aconselháveis) podem ser feitas pelo 213 149 345. Experimentem o combinado Sushi to Sashimi e remetem com um gelado de chá verde. Melhor que isto só uma princesa….


BACK TO BASICS – O ser humano é a única espécie animal que cora, melhor, que precisa de corar – Mark Twain.
A POLÍTICA DISTRITAL


Em tempos idos os partidos serviam para debater ideias, apresentar propostas, promover debates, mobilizar a intervenção cívica. O objectivo era poder concretizar, no poder, as propostas debatidas e elaboradas. Porque as pessoas pensam de maneira diferente, os partidos devem ter identidades diferentes e bem vincadas, posicionamentos claros. Nada de novo por aqui, excepto este pequeno assunto: nos últimos meses parece que o PS lançou uma OPA sobre o PSD, que amigavelmente se arrasta. Ao contrário de outras OPA’s, o opado não reage, não contra-ataca, não procura uma estratégia de afirmação alternativa. Por este andar o PSD é absorvido sem dar por isso, dilui-se, esvai-se. Cada dia que passa perde sentido a sua existência no paradigma actual.

Sou adepto de que as grandes mudanças começam por baixo, a partir de pequenos grupos activos e empreendedores, capazes de criar uma nova dinâmica – por isso as actuais eleições para a Distrital de Lisboa do PSD podem ser a oportunidade para criar uma nova forma de funcionar, para fazer uma vida partidária diferente, para intervir na sociedade de outra maneira, mais persistente e consistente.

À hora a que escrevo ainda não se conhece o resultado das eleições, se quem ganha é Carlos Carreiras, se Paula Teixeira da Cruz. Espero que tenha sido Paula Teixeira da Cruz, parece razoável concluir que ela pode significar alguma forma diferente de fazer política – apesar das demasiadas ligações ao aparelho e aos notáveis em boa parte responsáveis pela situação a que se chegou. Mas, talvez também por isso, ela possa fazer rupturas e desencadear acções que a outros seriam mais difíceis.

A política não é um mal, a intervenção cívica faz sentido através dos partidos – desde que eles funcionem nesse sentido, desde que queiram estimular a participação, desde que não vivam fechados num mundo onde ideias próprias, debates e criatividade sejam tidas como coisas bizarras e despropositadas. Infelizmente a história recente do PSD revela conformismo, falta de imaginação e uma enorme insensibilidade às tendências perceptíveis do futuro das sociedades. Se a Distrital de Lisboa for catalisadora da mudança, poderá vir a ser, afinal, a responsável pela sobrevivência de um projecto político. Se se acomodar, entra para a lista das entidades exóticas e desnecessárias

Untitled

A POLÍTICA DISTRITAL


Em tempos idos os partidos serviam para debater ideias, apresentar propostas, promover debates, mobilizar a intervenção cívica. O objectivo era poder concretizar, no poder, as propostas debatidas e elaboradas. Porque as pessoas pensam de maneira diferente, os partidos devem ter identidades diferentes e bem vincadas, posicionamentos claros. Nada de novo por aqui, excepto este pequeno assunto: nos últimos meses parece que o PS lançou uma OPA sobre o PSD, que amigavelmente se arrasta. Ao contrário de outras OPA’s, o opado não reage, não contra-ataca, não procura uma estratégia de afirmação alternativa. Por este andar o PSD é absorvido sem dar por isso, dilui-se, esvai-se. Cada dia que passa perde sentido a sua existência no paradigma actual.

Sou adepto de que as grandes mudanças começam por baixo, a partir de pequenos grupos activos e empreendedores, capazes de criar uma nova dinâmica – por isso as actuais eleições para a Distrital de Lisboa do PSD podem ser a oportunidade para criar uma nova forma de funcionar, para fazer uma vida partidária diferente, para intervir na sociedade de outra maneira, mais persistente e consistente.

À hora a que escrevo ainda não se conhece o resultado das eleições, se quem ganha é Carlos Carreiras, se Paula Teixeira da Cruz. Espero que tenha sido Paula Teixeira da Cruz, parece razoável concluir que ela pode significar alguma forma diferente de fazer política – apesar das demasiadas ligações ao aparelho e aos notáveis em boa parte responsáveis pela situação a que se chegou. Mas, talvez também por isso, ela possa fazer rupturas e desencadear acções que a outros seriam mais difíceis.

A política não é um mal, a intervenção cívica faz sentido através dos partidos – desde que eles funcionem nesse sentido, desde que queiram estimular a participação, desde que não vivam fechados num mundo onde ideias próprias, debates e criatividade sejam tidas como coisas bizarras e despropositadas. Infelizmente a história recente do PSD revela conformismo, falta de imaginação e uma enorme insensibilidade às tendências perceptíveis do futuro das sociedades. Se a Distrital de Lisboa for catalisadora da mudança, poderá vir a ser, afinal, a responsável pela sobrevivência de um projecto político. Se se acomodar, entra para a lista das entidades exóticas e desnecessárias

julho 12, 2006

A MARCA DO ZORRO
No nº6 da newsletter «azul», da RTP, o Ministro Santos Silva aparece em quatro fotografias a propósito de tr~es temas diversos: inauguração de um centro emissor, tomada de posse dos provedores do espectador e do ouvinte e de um protocolo com Timor-Leste. Independência, portanto...

Untitled

A MARCA DO ZORRO
No nº6 da newsletter «azul», da RTP, o Ministro Santos Silva aparece em quatro fotografias a propósito de tr~es temas diversos: inauguração de um centro emissor, tomada de posse dos provedores do espectador e do ouvinte e de um protocolo com Timor-Leste. Independência, portanto...

julho 11, 2006

NEGÓCIO – O futebol deixou de ser um desporto há bastante tempo e passou a ser um negócio. Tem as regras dos negócios. É, ainda por cima, um negócio global, o que quer dizer que Portugal não conta para qualquer campeonato – até porque, desgraçadamente, não temos mercado que se compare ao das ex-colónias ou zonas de influência de outros países. A FIFA não é uma entidade desportiva, é uma gestora de interesses e os árbitros não são juízes, são instrumentos de regularização artificial. O futebol é apenas suposto gerar lucro. Eu por mim acho bem, mas não lhe chamem um desporto. É uma operação montada com o conhecimento de todos, a começar por esse estranho mundo das Federações. A única coisa lamentável é que às vezes se depositem as esperanças de um país numa coisa deste género. Quem o trata como um negócio está no seu direito. Quem exacerba o nacionalismo à custa disto não tem ética nem dignidade.


ESTRATÉGIA – À medida que os consumidores começarem a optar, pagando, por assistirem a programas de televisão sem publicidade, os anunciantes terão que procurar novas estratégias. O papel das agências de meios, que procurarão formas de proporcionar o contacto fora dos modelos tradicionais, tenderá a crescer. Ao mesmo tempo as agências de publicidade tradicionais poderão ter dificuldade em encontrar veículos para escoar a sua produção. Do lado da publicidade o futuro vai ser interessante e necessariamente criativo, e não nos mesmos moldes que nos últimos 50 anos. Um estudo recente garante que até 2009 a publicidade em televisão continuará a crescer, desde que o meio deixe de ser passivo e se torne decididamente activo, quer dizer, interactivo. Uma das peças decisivas de tudo isto será a TV portátil (mobile TV), que há-de passar por telemóveis, consolas de jogos, sistemas de navegação em automóveis e computadores domésticos. Da mesma forma que a net está a mudar radicalmente a nossa forma de comunicar, viver e trabalhar, a mobile TV vai ser um catalisador de mudança na forma de atingir alvos comerciais e de ver o que hoje só a televisão tradicional nos proporciona. O mundo vai ser bem diferente, e muito mais depressa que pensamos. No futuro os dogmas actuais em que se baseiam os planos de meios vão deixar de existir com a relevância que têm hoje. E o problema vai ser mais dos meios tradicionais do que de quaisquer outros.


OUVIR – Coexisto entre os discos, o iPod e a rádio. Nesta última, depois de andar uns tempos a ouvir a Radar, mudei de frequência porque os locutores acham mais graça a ouvirem-se a eles próprios do que a colocarem música. Mudei para a Oxigénio nos últimos dias e estou bastante contente (102.6 FM, região de Lisboa ou www.oxigenio.fm em todo o mundo). A Radar, agora, parece a TSF de música – fala, fala, e não diz nada (com a devida vénia aos gatos fedorentos). Ultimamente tenho voltado ao prazer dos discos – escolher o que ouvir. E redescobri, graças à Amazon, uma preciosidade: o disco «Disraeli Gears» dos Cream onde estão canções como «Strange Brew» ou o único e inimitável «Sunshine Of Your Love». A gravação original é de 1967, da Atlantic Records. E tem uma capa que é provavelmente uma das melhores peças gráficas que a indústria discográfica colocou no mercado.


BEBER – Eu sei que não é exactamente a mesma coisa, mas se pegarem no novíssimo Compal Frutos Vermelhos e lhe adicionarem vodka e gelo em doses generosas, e Cointreau e sumo de lima em doses moderadas, verão que se aproximam da mística do «Cosmopolitan» , o cocktail tornado famoso pelas raparigas do «Sex In The City». A milhas das caipirinhas falcatruadas que se fazem por aí e a anos luz das caipiroshkas de trazer por casa. Por junto é a diferença entre ver um filme ou ficar pasmado a seguir uma telenovela.


COMER – «El Corte Inglês» é a salvação nestes dias de calor. É o único supermercado de Lisboa com carpaccio decente, rúcula saborosa, escolha alargada de queijo parmesano reggiano Além disso há framboesas frescas, figos maravilhosos, bom presunto serrano, e saborosíssimas vieiras para gratinar. Adicionem Murganheira bruto reserva e perceberão porque nestas noites de calor um jantar pode correr melhor em casa que num restaurante.


BACK TO BASICS – Não se preocupem em crescer devagar, preocupem-se apenas em ficarem imóveis (provérbio chinês).

Untitled

NEGÓCIO – O futebol deixou de ser um desporto há bastante tempo e passou a ser um negócio. Tem as regras dos negócios. É, ainda por cima, um negócio global, o que quer dizer que Portugal não conta para qualquer campeonato – até porque, desgraçadamente, não temos mercado que se compare ao das ex-colónias ou zonas de influência de outros países. A FIFA não é uma entidade desportiva, é uma gestora de interesses e os árbitros não são juízes, são instrumentos de regularização artificial. O futebol é apenas suposto gerar lucro. Eu por mim acho bem, mas não lhe chamem um desporto. É uma operação montada com o conhecimento de todos, a começar por esse estranho mundo das Federações. A única coisa lamentável é que às vezes se depositem as esperanças de um país numa coisa deste género. Quem o trata como um negócio está no seu direito. Quem exacerba o nacionalismo à custa disto não tem ética nem dignidade.


ESTRATÉGIA – À medida que os consumidores começarem a optar, pagando, por assistirem a programas de televisão sem publicidade, os anunciantes terão que procurar novas estratégias. O papel das agências de meios, que procurarão formas de proporcionar o contacto fora dos modelos tradicionais, tenderá a crescer. Ao mesmo tempo as agências de publicidade tradicionais poderão ter dificuldade em encontrar veículos para escoar a sua produção. Do lado da publicidade o futuro vai ser interessante e necessariamente criativo, e não nos mesmos moldes que nos últimos 50 anos. Um estudo recente garante que até 2009 a publicidade em televisão continuará a crescer, desde que o meio deixe de ser passivo e se torne decididamente activo, quer dizer, interactivo. Uma das peças decisivas de tudo isto será a TV portátil (mobile TV), que há-de passar por telemóveis, consolas de jogos, sistemas de navegação em automóveis e computadores domésticos. Da mesma forma que a net está a mudar radicalmente a nossa forma de comunicar, viver e trabalhar, a mobile TV vai ser um catalisador de mudança na forma de atingir alvos comerciais e de ver o que hoje só a televisão tradicional nos proporciona. O mundo vai ser bem diferente, e muito mais depressa que pensamos. No futuro os dogmas actuais em que se baseiam os planos de meios vão deixar de existir com a relevância que têm hoje. E o problema vai ser mais dos meios tradicionais do que de quaisquer outros.


OUVIR – Coexisto entre os discos, o iPod e a rádio. Nesta última, depois de andar uns tempos a ouvir a Radar, mudei de frequência porque os locutores acham mais graça a ouvirem-se a eles próprios do que a colocarem música. Mudei para a Oxigénio nos últimos dias e estou bastante contente (102.6 FM, região de Lisboa ou www.oxigenio.fm em todo o mundo). A Radar, agora, parece a TSF de música – fala, fala, e não diz nada (com a devida vénia aos gatos fedorentos). Ultimamente tenho voltado ao prazer dos discos – escolher o que ouvir. E redescobri, graças à Amazon, uma preciosidade: o disco «Disraeli Gears» dos Cream onde estão canções como «Strange Brew» ou o único e inimitável «Sunshine Of Your Love». A gravação original é de 1967, da Atlantic Records. E tem uma capa que é provavelmente uma das melhores peças gráficas que a indústria discográfica colocou no mercado.


BEBER – Eu sei que não é exactamente a mesma coisa, mas se pegarem no novíssimo Compal Frutos Vermelhos e lhe adicionarem vodka e gelo em doses generosas, e Cointreau e sumo de lima em doses moderadas, verão que se aproximam da mística do «Cosmopolitan» , o cocktail tornado famoso pelas raparigas do «Sex In The City». A milhas das caipirinhas falcatruadas que se fazem por aí e a anos luz das caipiroshkas de trazer por casa. Por junto é a diferença entre ver um filme ou ficar pasmado a seguir uma telenovela.


COMER – «El Corte Inglês» é a salvação nestes dias de calor. É o único supermercado de Lisboa com carpaccio decente, rúcula saborosa, escolha alargada de queijo parmesano reggiano Além disso há framboesas frescas, figos maravilhosos, bom presunto serrano, e saborosíssimas vieiras para gratinar. Adicionem Murganheira bruto reserva e perceberão porque nestas noites de calor um jantar pode correr melhor em casa que num restaurante.


BACK TO BASICS – Não se preocupem em crescer devagar, preocupem-se apenas em ficarem imóveis (provérbio chinês).
O ESTADO E O MEU BOLSO


Quando comecei a trabalhar, já lá vão praticamente 30 anos, o Estado propôs-me um contrato: todos os meses me retirava um tanto do meu ordenado para impostos e outro tanto para a Segurança Social. Era um contrato um bocado forçado – não tinha forma de lhe fugir. Vivendo exclusivamente do meu trabalho, não tenho por onde fazer fintas, não posso domiciliar-me na Holanda, nem praticar truques diversos que permitem a algumas entidades, legitimamente aliás, serem menos espoliadas pelo Estado.

Acontece que em contrapartida pelo que eu lhe pago, o Estado prometia assegurar algumas questões básicas – serviços de saúde, educação, e as pensões correspondentes ao retorno do meu investimento. No fundo o Estado queria funcionar como um gestor de fundos que cobra coercivamente – e nessa base nós somos todos estimados clientes. Ora o Estado trata muito mal os seus clientes – na verdade não tem respeito por eles. Anos de más governações criaram um monstro que devora recursos, proporciona serviços entre o mau e o sofrível, e ignora os seus compromissos. Mais, muda as regras quando lhe apetece, não informa os seus clientes das alterações, aumenta os preços e diminui os serviços, enfim um mau exemplo de relação fornecedor-cliente.

Eu acho muito bem todos os esforços no sentido de tornar o Estado mais eficaz e menos perdulário – desde que isso se reflicta de forma positiva nos cidadãos. O que se começa a ver é que, uma vez mais, os cidadãos são a derradeira das preocupações do Estado. Há um efectivo e continuado desprezo por quem desconta, para proteger serviços, privilégios, situações instaladas. O monstro público devora recursos e penaliza os clientes cumpridores – que são os primeiros a quem o Estado quer agora racionalizar à força.

Quando se fala em mudar as regras, apetece dizer que o Estado devia começar por interiorizar ele próprio uma mudança necessária: começar a tratar bem os seus estimados clientes, começar a respeitar os contribuintes, começar a considerar que as pessoas não são malfeitoras. Na verdade, se aqui existem malfeitorias, elas vêm por via de regra do Estado e de quem o gere.

Untitled

O ESTADO E O MEU BOLSO


Quando comecei a trabalhar, já lá vão praticamente 30 anos, o Estado propôs-me um contrato: todos os meses me retirava um tanto do meu ordenado para impostos e outro tanto para a Segurança Social. Era um contrato um bocado forçado – não tinha forma de lhe fugir. Vivendo exclusivamente do meu trabalho, não tenho por onde fazer fintas, não posso domiciliar-me na Holanda, nem praticar truques diversos que permitem a algumas entidades, legitimamente aliás, serem menos espoliadas pelo Estado.

Acontece que em contrapartida pelo que eu lhe pago, o Estado prometia assegurar algumas questões básicas – serviços de saúde, educação, e as pensões correspondentes ao retorno do meu investimento. No fundo o Estado queria funcionar como um gestor de fundos que cobra coercivamente – e nessa base nós somos todos estimados clientes. Ora o Estado trata muito mal os seus clientes – na verdade não tem respeito por eles. Anos de más governações criaram um monstro que devora recursos, proporciona serviços entre o mau e o sofrível, e ignora os seus compromissos. Mais, muda as regras quando lhe apetece, não informa os seus clientes das alterações, aumenta os preços e diminui os serviços, enfim um mau exemplo de relação fornecedor-cliente.

Eu acho muito bem todos os esforços no sentido de tornar o Estado mais eficaz e menos perdulário – desde que isso se reflicta de forma positiva nos cidadãos. O que se começa a ver é que, uma vez mais, os cidadãos são a derradeira das preocupações do Estado. Há um efectivo e continuado desprezo por quem desconta, para proteger serviços, privilégios, situações instaladas. O monstro público devora recursos e penaliza os clientes cumpridores – que são os primeiros a quem o Estado quer agora racionalizar à força.

Quando se fala em mudar as regras, apetece dizer que o Estado devia começar por interiorizar ele próprio uma mudança necessária: começar a tratar bem os seus estimados clientes, começar a respeitar os contribuintes, começar a considerar que as pessoas não são malfeitoras. Na verdade, se aqui existem malfeitorias, elas vêm por via de regra do Estado e de quem o gere.

julho 03, 2006

CURIOSO – No Canadá, o Governo Federal impõe desde 2003 uma legislação que obriga a que organismos públicos, entidades de capital público e concessionários de serviço público só possam recorrer a fornecedores na área da publicidade desde que o seu capital social seja detido, pelo menos a 80 por cento, por canadianos. Isto aplica-se a todas as áreas, desde a criatividade, passando pelo planeamento, até à compra de media. Desta forma a actividade das multinacionais do sector, que tradicionalmente esmagam as empresas locais e dificultam o seu desenvolvimento, fica fortemente condicionada. É engraçado ver o que se passa em Portugal e comparar – por aqui a mentalidade e a prática é exactamente a contrária, a começar pelos detentores de concessões de serviço público, que objectivamente dão mais vantagens aos grandes grupos multinacionais do sector que às empresas locais. Aqui está um tema para um dia destes aprofundar.

AGENDA – O mais antigo festival de Jazz que se realiza em Portugal, herdeiro directo do Cascais Jazz, regressa já a partir de dia 7 de Julho e prolonga-se até dia 16. O cartaz da edição deste ano do Estoril Jazz é tentador e inclui nomes como Tim Hagans, Dena de Rose, Pat Martino e Kenny Barron entre outros. Como sempre o Festival decorre no Parque Palmela e é dirigido por Duarte Mendonça, há mais de 30 anos a jazzar por aí.

OUVIR – Arturo Benedetti Michelangeli foi um dos grandes maestros e pianistas do século XX. Discreto, vivendo quase em reclusão, com contínuos problemas de saúde, o seu nome nunca foi muito popular, mas a sua técnica e a força das suas interpretações criaram uma lenda, um culto de fiéis. Isso explica talvez porque há relativamente poucas edições suas, desde que morreu em 1995. Mão muito amiga trouxe-me um miminho de recente viagem: um disco feito de gravações de emissões radiofónicas de um concerto para piano de Mozart (gravado em Estugarda em 1967) e da sonata no.3 de Beethoven, gravada na Sala Pleyel, em Paris, em 1975. É uma memória fortíssima de um talento que merece ser descoberto. CD Music & Arts.

VER – Quadros intensos que exploram o cruzamento entre a emoção e o impacto da cor com a obsessão geométrica do detalhe compõem a exposição «Grafos III», do catalão Eduard Arbós. Nas salas da galeria descobrem-se evocações de arquitectura e de desenho industrial, que desordenam a simplicidade original da cor e a transportam a outra dimensão. É das mais perturbantes –e marcantes- exposições que vi este ano. Galeria VPFCREAM Arte, Rua da Boavista 84, 2º, Lisboa. Até 9 de Setembro.

PROVAR – Petiscos variados num restaurante que herda a tradição de um dos bons locais de Campo de Ourique, o velho Tico Tico, que ficava precisamente na Rua de Campo de Ourique. A mesma cozinha é proposta desde há algum tempo no Cataplana & Companhia. Destaque para os mariscos e o peixe e para a qualidade das carnes. Uma solução para os jantares de Domingo, onde quase tudo o que vale a pena está fechado. Este é um porto seguro. Rua Ferreira Borges 193-A, Tel. 213 865 269.

LER – Na edição desta semana da «Newsweek», o artigo dedicado ao que a revista considera as «hottest cities» contemporâneas. A saber: Las Vegas nos Estados Unidos, Fukuoka no Japão, Munique na Alemanha, Londres no Reino Unido, Toulouse em França, Nanchang na China, Moscovo na Rússia, Ghaziabad na Índia, Goyang na Coreia do Sul, Florianopolis no Brasil. Na mesma edição é absolutamente imperdível o artigo de Richard Florida, já aqui citado nesta coluna várias vezes, sobre «As Novas Megalopolis» e com base nesta ideia: «o nosso enfoque nas grandes cidades tradicionais está errado – o crescimento e a inovação vêm de novos corredores urbanos, complexos cruzamentos de cidades e subúrbios, vastas zonas que são as novas Megalopolis». Bom artigo para esta altura do ano: pode ser uma ideia para viagens que fujam aos rituais das praias e ao frenesim da ponte aérea futebolística.

MODERNICE – O operador digital por satélite britânico Sky lançou um novo serviço que permite aos seus clientes programarem por telemóvel as caixas descodificadoras Sky Plus.

BACK TO BASICS – O problema com as anedotas políticas é que frequentemente acabam por ser eleitos. (Henry Cate).

Untitled

CURIOSO – No Canadá, o Governo Federal impõe desde 2003 uma legislação que obriga a que organismos públicos, entidades de capital público e concessionários de serviço público só possam recorrer a fornecedores na área da publicidade desde que o seu capital social seja detido, pelo menos a 80 por cento, por canadianos. Isto aplica-se a todas as áreas, desde a criatividade, passando pelo planeamento, até à compra de media. Desta forma a actividade das multinacionais do sector, que tradicionalmente esmagam as empresas locais e dificultam o seu desenvolvimento, fica fortemente condicionada. É engraçado ver o que se passa em Portugal e comparar – por aqui a mentalidade e a prática é exactamente a contrária, a começar pelos detentores de concessões de serviço público, que objectivamente dão mais vantagens aos grandes grupos multinacionais do sector que às empresas locais. Aqui está um tema para um dia destes aprofundar.

AGENDA – O mais antigo festival de Jazz que se realiza em Portugal, herdeiro directo do Cascais Jazz, regressa já a partir de dia 7 de Julho e prolonga-se até dia 16. O cartaz da edição deste ano do Estoril Jazz é tentador e inclui nomes como Tim Hagans, Dena de Rose, Pat Martino e Kenny Barron entre outros. Como sempre o Festival decorre no Parque Palmela e é dirigido por Duarte Mendonça, há mais de 30 anos a jazzar por aí.

OUVIR – Arturo Benedetti Michelangeli foi um dos grandes maestros e pianistas do século XX. Discreto, vivendo quase em reclusão, com contínuos problemas de saúde, o seu nome nunca foi muito popular, mas a sua técnica e a força das suas interpretações criaram uma lenda, um culto de fiéis. Isso explica talvez porque há relativamente poucas edições suas, desde que morreu em 1995. Mão muito amiga trouxe-me um miminho de recente viagem: um disco feito de gravações de emissões radiofónicas de um concerto para piano de Mozart (gravado em Estugarda em 1967) e da sonata no.3 de Beethoven, gravada na Sala Pleyel, em Paris, em 1975. É uma memória fortíssima de um talento que merece ser descoberto. CD Music & Arts.

VER – Quadros intensos que exploram o cruzamento entre a emoção e o impacto da cor com a obsessão geométrica do detalhe compõem a exposição «Grafos III», do catalão Eduard Arbós. Nas salas da galeria descobrem-se evocações de arquitectura e de desenho industrial, que desordenam a simplicidade original da cor e a transportam a outra dimensão. É das mais perturbantes –e marcantes- exposições que vi este ano. Galeria VPFCREAM Arte, Rua da Boavista 84, 2º, Lisboa. Até 9 de Setembro.

PROVAR – Petiscos variados num restaurante que herda a tradição de um dos bons locais de Campo de Ourique, o velho Tico Tico, que ficava precisamente na Rua de Campo de Ourique. A mesma cozinha é proposta desde há algum tempo no Cataplana & Companhia. Destaque para os mariscos e o peixe e para a qualidade das carnes. Uma solução para os jantares de Domingo, onde quase tudo o que vale a pena está fechado. Este é um porto seguro. Rua Ferreira Borges 193-A, Tel. 213 865 269.

LER – Na edição desta semana da «Newsweek», o artigo dedicado ao que a revista considera as «hottest cities» contemporâneas. A saber: Las Vegas nos Estados Unidos, Fukuoka no Japão, Munique na Alemanha, Londres no Reino Unido, Toulouse em França, Nanchang na China, Moscovo na Rússia, Ghaziabad na Índia, Goyang na Coreia do Sul, Florianopolis no Brasil. Na mesma edição é absolutamente imperdível o artigo de Richard Florida, já aqui citado nesta coluna várias vezes, sobre «As Novas Megalopolis» e com base nesta ideia: «o nosso enfoque nas grandes cidades tradicionais está errado – o crescimento e a inovação vêm de novos corredores urbanos, complexos cruzamentos de cidades e subúrbios, vastas zonas que são as novas Megalopolis». Bom artigo para esta altura do ano: pode ser uma ideia para viagens que fujam aos rituais das praias e ao frenesim da ponte aérea futebolística.

MODERNICE – O operador digital por satélite britânico Sky lançou um novo serviço que permite aos seus clientes programarem por telemóvel as caixas descodificadoras Sky Plus.

BACK TO BASICS – O problema com as anedotas políticas é que frequentemente acabam por ser eleitos. (Henry Cate).
CRÓNICA SOCIAL


Na semana passada foi inaugurada a primeira exposição da colecção da Fundação Ellipse, nas suas instalações próprias, no Alcoitão. Esta Fundação, integralmente privada, não recebeu –nem pedinchou – apoios do Estado. Reúne um grupo de investidores, que decidiram criar uma colecção representativa da arte contemporânea, com compras feitas segundo um critério que não teme em procurar momentos de ruptura e clivagem na criação artística actual. Ao mesmo tempo os responsáveis da colecção têm consagrado uma parte importante dos seus recursos a aquisições de artistas portugueses, o que vai sendo uma raridade até nas colecções oficiais ou em outras colecções nacionais mais dadas ao encantamento provinciano por um cosmopolitismo sintético.

O Centro de Artes da Fundação foi colocado numa zona industrial, num armazém transformado, e como sublinham os seus responsáveis, procurou-se encontrar uma solução eficaz e não faraónica nem de ostentação, que mantivesse em níveis de razoabilidade o investimento na sede, para libertar o máximo de recursos para a colecção propriamente dita.

Resumindo: bom senso, iniciativa privada, exemplo de uma dinâmica apreciável da sociedade civil na área da cultura – tudo motivos de alegria e contentamento. Seria pois de esperar que os poderes instituídos, a começar pelo funesto Ministério da Cultura, aplaudissem a iniciativa e dela fizessem exemplo.

Pois bem, na inauguração da exposição, sexta feira passada, carinhas do poder central – nem, vê-las. A intrigante Ministra da Cultura não esteve, nem nenhum dos seus ajudantes. Mas ela por acaso na sua apertada agenda encontrou espaço para poder estar numa espécie de arraial, em Azeitão, patrocinado por Joe Berardo. Há escolhas que mostram muito do carácter de uma pessoa: depois de ter andado a empatar a resolução da colecção Berardo, lá executou as ordens do Primeiro-Ministro, e agora surge obediente e conformada nos actos públicos a ele ligados.

Na realidade não é estranho – o poder não gosta de ser criticado e muito menos aprecia quem se atreve a revelar a sua nudez. Se quiserem ler a entrevista que o impulsionador da Fundação Ellipse, João Rendeiro, deu à revista virtual ArteCapital (www.artecapital.net) , poderão perceber um pouco do que está em jogo.

Untitled

CRÓNICA SOCIAL


Na semana passada foi inaugurada a primeira exposição da colecção da Fundação Ellipse, nas suas instalações próprias, no Alcoitão. Esta Fundação, integralmente privada, não recebeu –nem pedinchou – apoios do Estado. Reúne um grupo de investidores, que decidiram criar uma colecção representativa da arte contemporânea, com compras feitas segundo um critério que não teme em procurar momentos de ruptura e clivagem na criação artística actual. Ao mesmo tempo os responsáveis da colecção têm consagrado uma parte importante dos seus recursos a aquisições de artistas portugueses, o que vai sendo uma raridade até nas colecções oficiais ou em outras colecções nacionais mais dadas ao encantamento provinciano por um cosmopolitismo sintético.

O Centro de Artes da Fundação foi colocado numa zona industrial, num armazém transformado, e como sublinham os seus responsáveis, procurou-se encontrar uma solução eficaz e não faraónica nem de ostentação, que mantivesse em níveis de razoabilidade o investimento na sede, para libertar o máximo de recursos para a colecção propriamente dita.

Resumindo: bom senso, iniciativa privada, exemplo de uma dinâmica apreciável da sociedade civil na área da cultura – tudo motivos de alegria e contentamento. Seria pois de esperar que os poderes instituídos, a começar pelo funesto Ministério da Cultura, aplaudissem a iniciativa e dela fizessem exemplo.

Pois bem, na inauguração da exposição, sexta feira passada, carinhas do poder central – nem, vê-las. A intrigante Ministra da Cultura não esteve, nem nenhum dos seus ajudantes. Mas ela por acaso na sua apertada agenda encontrou espaço para poder estar numa espécie de arraial, em Azeitão, patrocinado por Joe Berardo. Há escolhas que mostram muito do carácter de uma pessoa: depois de ter andado a empatar a resolução da colecção Berardo, lá executou as ordens do Primeiro-Ministro, e agora surge obediente e conformada nos actos públicos a ele ligados.

Na realidade não é estranho – o poder não gosta de ser criticado e muito menos aprecia quem se atreve a revelar a sua nudez. Se quiserem ler a entrevista que o impulsionador da Fundação Ellipse, João Rendeiro, deu à revista virtual ArteCapital (www.artecapital.net) , poderão perceber um pouco do que está em jogo.

junho 25, 2006

COMEÇOU O BAILE…


Dois barulhentos avisos vieram esta semana perturbar o estado de graça do Governo: declarações do eurodeputado socialista Manuel dos Santos e do deputado socialista João Cravinho, ambas colocando directamente em causa a acção do primeiro-ministro. O primeiro criticou as políticas sociais e algumas reformas do Governo, o segundo pôs em causa que fosse possível inverter o processo de decisão que leva a General Motors a querer encerrar a sua fábrica na Azambuja.

É cedo, muito cedo, para perceber se as políticas anunciadas pelo Governo se transformam em reformas efectivas ou se ficam, uma vez mais, na categoria das declarações de intenções e anúncios pomposos não concretizados. Até agora, a verdade, é que as reformas mais visíveis se dirigem contra os que têm mais dificuldade em reagir. – na saúde e na segurança social por exemplo. O fisco persegue o óbvio (o trabalhador por conta de outrem e o consumidor de IVA), mas não molesta na mesma proporção a grande evasão – da mesma forma que o Governo não legisla no sentido de tornar mais apetecível o investimento em Portugal – para os portugueses nomeadameente - com uma política fiscal mais atraente. Na realidade a política fiscal continua opaca na reforma e costumeira nos hábitos – vai atrás do fácil.

As declarações de Manuel dos Santos mostram o descontentamento pela ausência de sensibilidade social de algumas medidas do Governo – e mesmo que essas declarações tenham uma base de demagogia para consumo da oposição interna, a verdade é que elas têm um fundo de verdade, o suficiente para serem ouvidas e darem que falar.

Já o caso de Cravinho é diferente, e mais sério. O que Cravinho vem dizer – e bem – é que os centros de decisão das grandes indústrias estão fora de Portugal e, a menos que se ofereçam vantagens que aos locais não se proporcionam, é difícil inverter o ciclo de procura de novas paragens. Cravinho coloca o problema de fundo: falta uma estratégia nacional, falta uma política de desenvolvimento sustentada. É certo que a falta não é de agora – mas o caso da General Motors veio dramaticamente colocá-la na ordem do dia.

Untitled

COMEÇOU O BAILE…


Dois barulhentos avisos vieram esta semana perturbar o estado de graça do Governo: declarações do eurodeputado socialista Manuel dos Santos e do deputado socialista João Cravinho, ambas colocando directamente em causa a acção do primeiro-ministro. O primeiro criticou as políticas sociais e algumas reformas do Governo, o segundo pôs em causa que fosse possível inverter o processo de decisão que leva a General Motors a querer encerrar a sua fábrica na Azambuja.

É cedo, muito cedo, para perceber se as políticas anunciadas pelo Governo se transformam em reformas efectivas ou se ficam, uma vez mais, na categoria das declarações de intenções e anúncios pomposos não concretizados. Até agora, a verdade, é que as reformas mais visíveis se dirigem contra os que têm mais dificuldade em reagir. – na saúde e na segurança social por exemplo. O fisco persegue o óbvio (o trabalhador por conta de outrem e o consumidor de IVA), mas não molesta na mesma proporção a grande evasão – da mesma forma que o Governo não legisla no sentido de tornar mais apetecível o investimento em Portugal – para os portugueses nomeadameente - com uma política fiscal mais atraente. Na realidade a política fiscal continua opaca na reforma e costumeira nos hábitos – vai atrás do fácil.

As declarações de Manuel dos Santos mostram o descontentamento pela ausência de sensibilidade social de algumas medidas do Governo – e mesmo que essas declarações tenham uma base de demagogia para consumo da oposição interna, a verdade é que elas têm um fundo de verdade, o suficiente para serem ouvidas e darem que falar.

Já o caso de Cravinho é diferente, e mais sério. O que Cravinho vem dizer – e bem – é que os centros de decisão das grandes indústrias estão fora de Portugal e, a menos que se ofereçam vantagens que aos locais não se proporcionam, é difícil inverter o ciclo de procura de novas paragens. Cravinho coloca o problema de fundo: falta uma estratégia nacional, falta uma política de desenvolvimento sustentada. É certo que a falta não é de agora – mas o caso da General Motors veio dramaticamente colocá-la na ordem do dia.
VALOR – Um relatório da PricewaterhouseCoopers divulgado esta semana prevê que as receitas globais da indústria de media e de entretenimento vão subir a um ritmo anual de 6,6% até 2010, ano em que atingirão o valor de 1.8 três mil milhões de dólares. O PricewaterhouseCoopers' Global Entertainment and Media Outlook: 2006-2010 sublinha que muito deste crescimento vai ser proporcionado pela banda larga e dispositivos móveis. A facturação global online e em dispositivos wireless e móveis atingiu 19 mil milhões de dólares em 2005 e deve aumentar até 67 mil milhões em 2010. O volume de publicidade vai aumentar a um ritmo anual de 6,2% durante o período estudado, passando dos 521 mil milhões de dólares de 2005 para 385 mil milhões em 2010. A Internet vai continuar a ser o suporte publicitário com maior crescimento, a um ritmo anual de 18,1%, atingindo o valor global de 52 mil milhões em 2010. A Internet representará cerca de 10% do total dos investimentos globais em publicidade, comparados com menos de 3 por cento em 2002.

LER – A imprescindível edição de Junho da revista «Wired», que traz a tradicional lista dos Rave Awards que a revista publica anualmente. Na lista de premiados deste ano estão Steve Jobs, George Clooney, a banda-revelação Clap Your Hands And Say Yeah. Como a revista gosta de afirmar, são 20 páginas com histórias de sonhadores, rebeldes e revolucionários. O futuro passa por aqui, algures – não lhe percam a pista.

OUVIR – Os Massive Attack são uma das mais inovadoras e influentes bandas britânicas dos últimos 20 anos. Um pouco de história: originários de Bristol, podem detectar-se as primeiras actividades musicais públicas de alguns dos seus membros nos anos 80 com o colectivo Wild Bunch, que agrupava rappers, compositores e DJ’s. Daddy G, o decano do grupo, ganha notoriedade quando integra os Soul II Soul e quando, depois, produz o primeiro disco de Bjork. Em Outubro de 90 surge o primeiro single, «Daydreaming» assinado por Massive Attack. A formação incluía, para além de Daddy G, Mushroom, 3-D, um rapper ainda desconhecido, Tricky, e a cantora Shara Nelson. O primeiro êxito vem meses mais tarde com «Unfinished Sympathy» e a carreira da banda começa a dar que falar a partir daí. Na colectânea editada este ano, «The Best Of Massive Attack» esse é exactamente o tema mais antigo que aparece. A história desenrola-se por faixas como «teradrop», «Protection», «Karmacoma»,«Angel» até ao bem recente «Live With Me». Ao todo 14 temas que retratam bem a carreira de um dos mais interessantes grupos dos últimos anos. CD EMI.

VER – O Centro de Artes da Fundação Ellipse, no Alcoitão, inaugura hoje a sua primeira exposição, com peças da sua colecção de arte contemporânea. Localizado num armazém industrial reconvertido (Rua das Fisgas, perto da Makro), a Fundação tem vindo a fazer aquisições importantes e há um mês atrás apresentou as suas instalações. Esta é a primeira exposição de uma colecção que no seu já vasto património (300 peças) inclui obras de Rui Chafes, José Pedro Croft, Stan Douglas, Jimmie Durham, Olafur Eliasson, Douglas Gordon, John Baldessari, Richard Prince, Cabrita Reis, Julião Sarmento, Thomas Schutte, Cindy Sherman, Felix Gonzalez-Torres e João Tabarra, entre outros. As instalações da Fundação têm 3500 m2, 1600 dos quais para exposições.



PROVAR – Vale a pena experimentar a comida que Leo Guzman e Erik Hervik fazem no restaurante do Clube de Jornalistas, sobretudo agora com este tempo, onde se pode ficar na esplanada do jardim interior. O restaurante é aberto a toda a gente (e não apenas aos membros do Clube) e fica na Rua das Trinas 129 r/c. Tel 213 977 138.~

SUGESTÃO – Aproveitem Frank Gehry para reconverter o mamarracho em ruínas do Pavilhão dos Desportos do Parque Eduardo VII e dêem-lhe aquele sítio bem visível da cidade para fazer um auditório de música, que é das coisas que ele melhor sabe fazer.

REGISTO – O Estado tem um contrato com os cidadãos. Todos nós descontámos ao longo dos anos com uma expectativa de retorno do investimento que fomos fazendo desde que cada um começou a trabalhar. O Estado quer agora alterar as regras, retroactivamente. Chama-se a isto enganar. Como bem notou Fernando Sobral neste jornal, Portugal está a ficar sem Lei.

BACK TO BASICS – Se fosse intenção de Deus que os homens votassem, Ele teria também criado candidatos – Jay Leno.

Untitled

VALOR – Um relatório da PricewaterhouseCoopers divulgado esta semana prevê que as receitas globais da indústria de media e de entretenimento vão subir a um ritmo anual de 6,6% até 2010, ano em que atingirão o valor de 1.8 três mil milhões de dólares. O PricewaterhouseCoopers' Global Entertainment and Media Outlook: 2006-2010 sublinha que muito deste crescimento vai ser proporcionado pela banda larga e dispositivos móveis. A facturação global online e em dispositivos wireless e móveis atingiu 19 mil milhões de dólares em 2005 e deve aumentar até 67 mil milhões em 2010. O volume de publicidade vai aumentar a um ritmo anual de 6,2% durante o período estudado, passando dos 521 mil milhões de dólares de 2005 para 385 mil milhões em 2010. A Internet vai continuar a ser o suporte publicitário com maior crescimento, a um ritmo anual de 18,1%, atingindo o valor global de 52 mil milhões em 2010. A Internet representará cerca de 10% do total dos investimentos globais em publicidade, comparados com menos de 3 por cento em 2002.

LER – A imprescindível edição de Junho da revista «Wired», que traz a tradicional lista dos Rave Awards que a revista publica anualmente. Na lista de premiados deste ano estão Steve Jobs, George Clooney, a banda-revelação Clap Your Hands And Say Yeah. Como a revista gosta de afirmar, são 20 páginas com histórias de sonhadores, rebeldes e revolucionários. O futuro passa por aqui, algures – não lhe percam a pista.

OUVIR – Os Massive Attack são uma das mais inovadoras e influentes bandas britânicas dos últimos 20 anos. Um pouco de história: originários de Bristol, podem detectar-se as primeiras actividades musicais públicas de alguns dos seus membros nos anos 80 com o colectivo Wild Bunch, que agrupava rappers, compositores e DJ’s. Daddy G, o decano do grupo, ganha notoriedade quando integra os Soul II Soul e quando, depois, produz o primeiro disco de Bjork. Em Outubro de 90 surge o primeiro single, «Daydreaming» assinado por Massive Attack. A formação incluía, para além de Daddy G, Mushroom, 3-D, um rapper ainda desconhecido, Tricky, e a cantora Shara Nelson. O primeiro êxito vem meses mais tarde com «Unfinished Sympathy» e a carreira da banda começa a dar que falar a partir daí. Na colectânea editada este ano, «The Best Of Massive Attack» esse é exactamente o tema mais antigo que aparece. A história desenrola-se por faixas como «teradrop», «Protection», «Karmacoma»,«Angel» até ao bem recente «Live With Me». Ao todo 14 temas que retratam bem a carreira de um dos mais interessantes grupos dos últimos anos. CD EMI.

VER – O Centro de Artes da Fundação Ellipse, no Alcoitão, inaugura hoje a sua primeira exposição, com peças da sua colecção de arte contemporânea. Localizado num armazém industrial reconvertido (Rua das Fisgas, perto da Makro), a Fundação tem vindo a fazer aquisições importantes e há um mês atrás apresentou as suas instalações. Esta é a primeira exposição de uma colecção que no seu já vasto património (300 peças) inclui obras de Rui Chafes, José Pedro Croft, Stan Douglas, Jimmie Durham, Olafur Eliasson, Douglas Gordon, John Baldessari, Richard Prince, Cabrita Reis, Julião Sarmento, Thomas Schutte, Cindy Sherman, Felix Gonzalez-Torres e João Tabarra, entre outros. As instalações da Fundação têm 3500 m2, 1600 dos quais para exposições.



PROVAR – Vale a pena experimentar a comida que Leo Guzman e Erik Hervik fazem no restaurante do Clube de Jornalistas, sobretudo agora com este tempo, onde se pode ficar na esplanada do jardim interior. O restaurante é aberto a toda a gente (e não apenas aos membros do Clube) e fica na Rua das Trinas 129 r/c. Tel 213 977 138.~

SUGESTÃO – Aproveitem Frank Gehry para reconverter o mamarracho em ruínas do Pavilhão dos Desportos do Parque Eduardo VII e dêem-lhe aquele sítio bem visível da cidade para fazer um auditório de música, que é das coisas que ele melhor sabe fazer.

REGISTO – O Estado tem um contrato com os cidadãos. Todos nós descontámos ao longo dos anos com uma expectativa de retorno do investimento que fomos fazendo desde que cada um começou a trabalhar. O Estado quer agora alterar as regras, retroactivamente. Chama-se a isto enganar. Como bem notou Fernando Sobral neste jornal, Portugal está a ficar sem Lei.

BACK TO BASICS – Se fosse intenção de Deus que os homens votassem, Ele teria também criado candidatos – Jay Leno.

junho 19, 2006

O SENHOR SILVA


Se vivesse em Holywood o Sr. Jaime Silva seria candidato a papéis de
galã fora de moda em filmes de série B; nem para «soap-operas»
televisivas serviria. Aqui é Ministro da Agricultura e, para mal dos
nossos pecados, é o exemplo acabado do que é um burocrata formado na
escola da trapalhice e arrogância da Comunidade Europeia.

Existem neste Governo algumas figuras que pensam que faz parte da sua
função hostilizar as pessoas das áreas de que são responsáveis.
Misturam arrogância com insensibilidade, uma receita explosiva. São um
género perigoso – acham-se cruzados, donos da verdade, querem fazer
justiça pelas suas mãos e procuram culpados em todo o lado. Em comum
têm o facto de serem peritos em arranjar problemas, mas absolutamente
inábeis em encontrar soluções, em resolver questões de fundo. Ficam-se
sempre pelo superficial, gostam de fazer declarações pomposas, à falta
de conseguirem mostrar obra que se veja.

O Sr. Jaime Silva encaixa que nem uma luva nesta descrição – não é o
único mas é dos mais evidentes. Dá tanto nas vistas que até o
Presidente da República já o expôs. Por muitas culpas que os
agricultores tenham, uma coisa é certa: ninguém resiste a falta de
estratégia, a zigue-zagues constantes, a medidas contraditórias que
seguem os ventos de Bruxelas e da PAC em vez de olharem para as nossas
realidades. Existem áreas em que Portugal é demasiado servil a
Bruxelas, desde há anos – basta olhar aqui para o lado, para Espanha,
para se perceber que não se tem que fazer apenas o que satisfaz os
apetites dos agricultores franceses. Prisioneiro da lógica da Política
Agrícola Comum, o Sr. Silva é apenas um aprendiz de cómico. Não é
disto que a Agricultura precisa.

Os Ministros e Directores Gerais não são Zorros predestinados, são
servidores públicos de quem se espera bom-senso, humildade, equidade –
bens escassos neste Governo e nesta Administração. Fazer reformas não
é governar contra as pessoas – sobretudo quando se começa a tornar
evidente que as reformas às vezes são apenas contra algumas pessoas.
Já se percebe que o Governo não trata todos por igual – há uns que são
mais iguais que outros. Todos os dias isto está a ficar mais claro.

Untitled

O SENHOR SILVA


Se vivesse em Holywood o Sr. Jaime Silva seria candidato a papéis de
galã fora de moda em filmes de série B; nem para «soap-operas»
televisivas serviria. Aqui é Ministro da Agricultura e, para mal dos
nossos pecados, é o exemplo acabado do que é um burocrata formado na
escola da trapalhice e arrogância da Comunidade Europeia.

Existem neste Governo algumas figuras que pensam que faz parte da sua
função hostilizar as pessoas das áreas de que são responsáveis.
Misturam arrogância com insensibilidade, uma receita explosiva. São um
género perigoso – acham-se cruzados, donos da verdade, querem fazer
justiça pelas suas mãos e procuram culpados em todo o lado. Em comum
têm o facto de serem peritos em arranjar problemas, mas absolutamente
inábeis em encontrar soluções, em resolver questões de fundo. Ficam-se
sempre pelo superficial, gostam de fazer declarações pomposas, à falta
de conseguirem mostrar obra que se veja.

O Sr. Jaime Silva encaixa que nem uma luva nesta descrição – não é o
único mas é dos mais evidentes. Dá tanto nas vistas que até o
Presidente da República já o expôs. Por muitas culpas que os
agricultores tenham, uma coisa é certa: ninguém resiste a falta de
estratégia, a zigue-zagues constantes, a medidas contraditórias que
seguem os ventos de Bruxelas e da PAC em vez de olharem para as nossas
realidades. Existem áreas em que Portugal é demasiado servil a
Bruxelas, desde há anos – basta olhar aqui para o lado, para Espanha,
para se perceber que não se tem que fazer apenas o que satisfaz os
apetites dos agricultores franceses. Prisioneiro da lógica da Política
Agrícola Comum, o Sr. Silva é apenas um aprendiz de cómico. Não é
disto que a Agricultura precisa.

Os Ministros e Directores Gerais não são Zorros predestinados, são
servidores públicos de quem se espera bom-senso, humildade, equidade –
bens escassos neste Governo e nesta Administração. Fazer reformas não
é governar contra as pessoas – sobretudo quando se começa a tornar
evidente que as reformas às vezes são apenas contra algumas pessoas.
Já se percebe que o Governo não trata todos por igual – há uns que são
mais iguais que outros. Todos os dias isto está a ficar mais claro.
REGISTAR – Uma bela e esclarecedora entrevista de João Rendeiro à revista on-line www.artecapital.net onde aborda temas como a a Fundação Ellipse e o acordo entre o Estado português e Joe Berardo. Excerto, sobre os termos desse acordo: «O ponto mais frágil do acordo é a contribuição anual de 500 mil euros que o Estado faz para compras, no quadro daquela colecção. Acho que esse é o ponto mais frágil, no sentido em que, se o Estado não comprar a Colecção Berardo, as compras entretanto feitas - que, num horizonte de dez anos, ainda são 5 milhões de euros, o que é uma verba significativa do ponto de vista do montante que o Estado gasta anualmente em aquisições em Portugal - ficam sem lógica do ponto de vista da sua aquisição.»

VER – Até dia 18 de Junho ainda pode descobrir no Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea uma exposição antológica sobre a produção artística portuguesa das décadas de 40 e 50, que fazem parte da colecção do Museu. Foi uma época marcada pela guerra e pelo consolidar de poder de Salazar, pela Exposição do Mundo Português. Aqui pode ver obras de Almada Negreiros, Nadir Afonso, Querubim Lapa, Júlio Pomar, Jorge Vieira, Manuel d’Assumpção, Vespeira, Jorge Oliveira ou Vieira da Silva, entre outros. Esta exposição é uma forma de revisitar o que foram aqueles anos, entre o neo-realismo e a explosão surrealista. Rua Serpa Pinto 4, de terça a Domingo entre as 10h00 e as 18h00 – crónico problema dos museus, estão abertos só para quem não trabalha.

LER – Gosto muito de ler Alberto Gonçalves, um sociólogo que escreve regularmente no «Correio da Manhã» e na «Sábado» e que é, na minha opinião, um dos mais lúcidos observadores da sociedade portuguesa. «Selecção Nacional» é uma colectânea dos seus textos publicados entre 1999 e 2006 e pode ser adquirida nas bancas de jornais, juntamente com a «Sábado» ou o «CM». Alberto Gonçalves também pode ser seguido através do blog www.homem-a-dias.blogspot.com .

OUVIR – O mundo está cheio de grandes vozes que não sabem cantar, de jovens prodígios de timbre cristalino e zero de emoção. Felizmente há excepções e Erin Boheme, com apenas 19 anos, fez um disco que junta composições origianis que ela escreveu, com interpretações de clássicos como «Let’s Do It» de Cole Porter, «I Love Being Here With You» de Peggy Lee ou «Teach Me Tonight» de Sammy Cahn, um tema popularizado por Frank Sinatra. Uma das canções originais deste álbum de estreia de Erin Boheme é precisamente dedicada a Sinatra, «A Night With Frank». Para além da surpreendente maturidade de interpretação e de escrita de Boheme, o seu disco destaca-se pela qualidade da produção e do leque de músicos que com ela trabalharam e que fizeram desta gravação um dos discos de jazz vocal mais curiosos que ouvi nos últimos tempos. CD Concord, distribuído por Universal Music.

COMER – Gosto muito de peixe fresco, bem cozinhado – o que na maior parte das vezes quer dizer bem grelhado – uma operação aparentemente simples, mas de uma rara complexidade e que muito frequentemente é mal feita. O peixe fresco ganha todo o seu esplendor com um pouco de sal e umas brasas no ponto certo. Isto tanto se aplica aos injustamente esquecidos carapaus, como aos mais saborosos linguados. E aplica-se também a outros peixes mais raros – já que grande parte dos restaurantes anda permanentemente reduzido às espécies mais comerciais – robalo, garoupa, etc. De lado ficam coisas magníficas como o imperador, um peixe saborosíssimo e que nem sempre é fácil de encontrar em restaurantes. Um dos sítios onde ainda se consegue comer bom peixe, a preços aceitáveis, bem cozinhado e em boa variedade, é a região de Setúbal. Há poucos dias experimentei um pequeno e discreto restaurante-marisqueira em Brejos de Azeitão, apropriadamente chamado «O Pescador». Casa simples mas bem arranjada, serviço simpático, qualidade excelente, preço honesto. Para a mesa vieram amêijoas (à Bulhão Pato, que estavam excelentes), linguado e imperador. Estava tudo muito bom e o jantar não podia ter corrido melhor. A casa é dos mesmos proprietário de «O Arpão», na Quinta do Conde, mas eu prefiro francamente este «Pescador», mais simples, menos barulhento e mais simpático. «O Pescador» fica na Rua São Gonçalo, Lote 31, Loja 4 e tem o telefone 212191843, Brejos de Azeitão.

BACK TO BASICS – Começar bem alguma coisa é meio caminho andado para ela ficar feita – Aristóteles.

Untitled

REGISTAR – Uma bela e esclarecedora entrevista de João Rendeiro à revista on-line www.artecapital.net onde aborda temas como a a Fundação Ellipse e o acordo entre o Estado português e Joe Berardo. Excerto, sobre os termos desse acordo: «O ponto mais frágil do acordo é a contribuição anual de 500 mil euros que o Estado faz para compras, no quadro daquela colecção. Acho que esse é o ponto mais frágil, no sentido em que, se o Estado não comprar a Colecção Berardo, as compras entretanto feitas - que, num horizonte de dez anos, ainda são 5 milhões de euros, o que é uma verba significativa do ponto de vista do montante que o Estado gasta anualmente em aquisições em Portugal - ficam sem lógica do ponto de vista da sua aquisição.»

VER – Até dia 18 de Junho ainda pode descobrir no Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea uma exposição antológica sobre a produção artística portuguesa das décadas de 40 e 50, que fazem parte da colecção do Museu. Foi uma época marcada pela guerra e pelo consolidar de poder de Salazar, pela Exposição do Mundo Português. Aqui pode ver obras de Almada Negreiros, Nadir Afonso, Querubim Lapa, Júlio Pomar, Jorge Vieira, Manuel d’Assumpção, Vespeira, Jorge Oliveira ou Vieira da Silva, entre outros. Esta exposição é uma forma de revisitar o que foram aqueles anos, entre o neo-realismo e a explosão surrealista. Rua Serpa Pinto 4, de terça a Domingo entre as 10h00 e as 18h00 – crónico problema dos museus, estão abertos só para quem não trabalha.

LER – Gosto muito de ler Alberto Gonçalves, um sociólogo que escreve regularmente no «Correio da Manhã» e na «Sábado» e que é, na minha opinião, um dos mais lúcidos observadores da sociedade portuguesa. «Selecção Nacional» é uma colectânea dos seus textos publicados entre 1999 e 2006 e pode ser adquirida nas bancas de jornais, juntamente com a «Sábado» ou o «CM». Alberto Gonçalves também pode ser seguido através do blog www.homem-a-dias.blogspot.com .

OUVIR – O mundo está cheio de grandes vozes que não sabem cantar, de jovens prodígios de timbre cristalino e zero de emoção. Felizmente há excepções e Erin Boheme, com apenas 19 anos, fez um disco que junta composições origianis que ela escreveu, com interpretações de clássicos como «Let’s Do It» de Cole Porter, «I Love Being Here With You» de Peggy Lee ou «Teach Me Tonight» de Sammy Cahn, um tema popularizado por Frank Sinatra. Uma das canções originais deste álbum de estreia de Erin Boheme é precisamente dedicada a Sinatra, «A Night With Frank». Para além da surpreendente maturidade de interpretação e de escrita de Boheme, o seu disco destaca-se pela qualidade da produção e do leque de músicos que com ela trabalharam e que fizeram desta gravação um dos discos de jazz vocal mais curiosos que ouvi nos últimos tempos. CD Concord, distribuído por Universal Music.

COMER – Gosto muito de peixe fresco, bem cozinhado – o que na maior parte das vezes quer dizer bem grelhado – uma operação aparentemente simples, mas de uma rara complexidade e que muito frequentemente é mal feita. O peixe fresco ganha todo o seu esplendor com um pouco de sal e umas brasas no ponto certo. Isto tanto se aplica aos injustamente esquecidos carapaus, como aos mais saborosos linguados. E aplica-se também a outros peixes mais raros – já que grande parte dos restaurantes anda permanentemente reduzido às espécies mais comerciais – robalo, garoupa, etc. De lado ficam coisas magníficas como o imperador, um peixe saborosíssimo e que nem sempre é fácil de encontrar em restaurantes. Um dos sítios onde ainda se consegue comer bom peixe, a preços aceitáveis, bem cozinhado e em boa variedade, é a região de Setúbal. Há poucos dias experimentei um pequeno e discreto restaurante-marisqueira em Brejos de Azeitão, apropriadamente chamado «O Pescador». Casa simples mas bem arranjada, serviço simpático, qualidade excelente, preço honesto. Para a mesa vieram amêijoas (à Bulhão Pato, que estavam excelentes), linguado e imperador. Estava tudo muito bom e o jantar não podia ter corrido melhor. A casa é dos mesmos proprietário de «O Arpão», na Quinta do Conde, mas eu prefiro francamente este «Pescador», mais simples, menos barulhento e mais simpático. «O Pescador» fica na Rua São Gonçalo, Lote 31, Loja 4 e tem o telefone 212191843, Brejos de Azeitão.

BACK TO BASICS – Começar bem alguma coisa é meio caminho andado para ela ficar feita – Aristóteles.

junho 15, 2006

E SE O SERVIÇO PÚBLICO NÃO TIVESSE PUBLICIDADE?


Três, talvez quatro, canais comerciais em sinal aberto, segmentados para públicos diferentes, mais canais com conteúdos portugueses ou programação pensada para Portugal no cabo, maior actividade da produção independente, maior transparência no estabelecimento de preços, entrada de novos operadores – a vida podia ser assim, mas a realidade é que muito dificilmente lá chegaremos enquanto o serviço público de televisão competir comercialmente com os canais privados, quer no espaço hertziano, quer no cabo.

A vida podia ser bem diferente no reino da televisão se o canal público não estivesse sujeito à guerra das audiências, em função da possibilidade que tem de vender espaço publicitário – embora limitado. As diferenças existiriam em dois sentidos – numa vida diferente para os operadores privados (que seriam mais e com maior concorrência entre si), e numa tipologia de produção substancialmente diferente para o serviço público.

A falta de coragem em assumir o custo social de ter um serviço público de televisão arrasa com qualquer tentativa séria e coerente de fazer uma programação cuidada e de referência, por maior que seja a vontade e empenho dos seus responsáveis. Na realidade inviabiliza que o serviço público se torne instrumental na definição de uma paisagem audiovisual diferente, mais completa e dinâmica. Os responsáveis do serviço público vivem a disputar lideranças de audiências para melhorarem o valor dos seus espaços comerciais.

A situação tem laivos de algum maquiavelismo: o Estado gosta de ter um Serviço Público com audiências fortes, porque assim ele é mais influente – o facto de, dessa forma, limitar a possibilidade de maturação de um sector privado competitivo no audiovisual, é de somenos importância e tem sido uma característica de quase todos os Governos, com muito poucas excepções. O actual executivo tem aliás agido no sentido de reforçar a ligação ao Estado de todo o universo do serviço público e de incentivar até a sua concorrência ao sector privado. Ao mesmo tempo que estimula esta luta desigual, cria sucessivos mecanismos regulatórios, baseados em taxas e mais taxas, e vai diminuindo o relevo que nos anos mais recentes tinha sido dado à auto-regulação. O Estado quer mais poder de controlo, ao mesmo tempo que é ele próprio parte interessada – na realidade o objectivo do Estado é que a RTP tenha o máximo de receitas publicitárias possíveis e isso, em larga medida, não é compatível com uma definição de serviço público que se baseie na complementaridade de conteúdos e na apresentação de uma oferta alternativa à das televisões privadas. Sem publicidade o serviço público de televisão seria diferente, não necessariamente pior e certamente mais justo para com o mercado.

(publicado na edição especial do «Diário Económico» titulada «E se Portugal»....)

Untitled

E SE O SERVIÇO PÚBLICO NÃO TIVESSE PUBLICIDADE?


Três, talvez quatro, canais comerciais em sinal aberto, segmentados para públicos diferentes, mais canais com conteúdos portugueses ou programação pensada para Portugal no cabo, maior actividade da produção independente, maior transparência no estabelecimento de preços, entrada de novos operadores – a vida podia ser assim, mas a realidade é que muito dificilmente lá chegaremos enquanto o serviço público de televisão competir comercialmente com os canais privados, quer no espaço hertziano, quer no cabo.

A vida podia ser bem diferente no reino da televisão se o canal público não estivesse sujeito à guerra das audiências, em função da possibilidade que tem de vender espaço publicitário – embora limitado. As diferenças existiriam em dois sentidos – numa vida diferente para os operadores privados (que seriam mais e com maior concorrência entre si), e numa tipologia de produção substancialmente diferente para o serviço público.

A falta de coragem em assumir o custo social de ter um serviço público de televisão arrasa com qualquer tentativa séria e coerente de fazer uma programação cuidada e de referência, por maior que seja a vontade e empenho dos seus responsáveis. Na realidade inviabiliza que o serviço público se torne instrumental na definição de uma paisagem audiovisual diferente, mais completa e dinâmica. Os responsáveis do serviço público vivem a disputar lideranças de audiências para melhorarem o valor dos seus espaços comerciais.

A situação tem laivos de algum maquiavelismo: o Estado gosta de ter um Serviço Público com audiências fortes, porque assim ele é mais influente – o facto de, dessa forma, limitar a possibilidade de maturação de um sector privado competitivo no audiovisual, é de somenos importância e tem sido uma característica de quase todos os Governos, com muito poucas excepções. O actual executivo tem aliás agido no sentido de reforçar a ligação ao Estado de todo o universo do serviço público e de incentivar até a sua concorrência ao sector privado. Ao mesmo tempo que estimula esta luta desigual, cria sucessivos mecanismos regulatórios, baseados em taxas e mais taxas, e vai diminuindo o relevo que nos anos mais recentes tinha sido dado à auto-regulação. O Estado quer mais poder de controlo, ao mesmo tempo que é ele próprio parte interessada – na realidade o objectivo do Estado é que a RTP tenha o máximo de receitas publicitárias possíveis e isso, em larga medida, não é compatível com uma definição de serviço público que se baseie na complementaridade de conteúdos e na apresentação de uma oferta alternativa à das televisões privadas. Sem publicidade o serviço público de televisão seria diferente, não necessariamente pior e certamente mais justo para com o mercado.

(publicado na edição especial do «Diário Económico» titulada «E se Portugal»....)

junho 12, 2006

GLOBALIZAÇÃO...
O seleccionador de Angola fala melhor português que o seleccionador de Portugal. Será isto a globalização?

Untitled

GLOBALIZAÇÃO...
O seleccionador de Angola fala melhor português que o seleccionador de Portugal. Será isto a globalização?
ESTADÃO


Às vezes acho que o país virou esquizofrénico. Explico: de um lado vemos o Governo a anunciar incentivos para reduzir o número de funcionários públicos e até a incentivar que passem para a iniciativa privada (vá-se lá saber como ou porquê…); do outro, vemos o Governo a criar novos organismos. O verniz liberal que o Primeiro Ministro gosta de usar dilui-se na acetona da fúria regulamentadora do Governo. Há cada vez mais entidades, autoridades, sumidades e banalidades que se proclamam reguladores. Têm duas coisas em comum: nascem de arranjinhos parlamentares onde a falta de pudor é a norma; e vivem de novas taxas que, em última análise são pagas pelos consumidores, por todos nós cidadãos.

Em boa parte dos casos há uma origem comum: o Ministro dos Assuntos Parlamentares, que distribui lugares, faz negociatas políticas nos corredores de S.Bento e garante a perpetuidade e prosperidade do Estadão, esse ponto de convergência de apetites partidários por lugares pagos pelo erário público.

Primeiro foram as empresas de comunicação a serem taxadas, de seguida querem fazer o mesmo às publicitárias, que fazem parte da cadeia de valor do mercado de informação e conteúdos. À falta de poder controlar ainda mais editorialmente a informação e os empresários do sector, aplicam-se taxas, criam-se limites artificiais, instala-se a ameaça. Este Governo resolveu acabar com os mecanismos que começavam a existir de auto-regulação e assumiu para o Estado o papel de fiscal todo-poderoso.

Para regulamentar a publicidade o Governo tem em mira cobrar 0,5% de um mercado de 5,4 mil milhões de euros - o alvo é sacar muitos milhões de euros em taxas aos anunciantes. Quem perde com isto? – Os consumidores que vão ver esta valor reflectido nos preços dos produtos que compram.

O Ministro Santos Silva pode continuar a fazer os seus joguinhos de corredor em S. Bento para comprar consciências. Mas para a História o que fica é uma nódoa no livre funcionamento da sociedade. Santos Silva é o retrato acabado do Estadão, ineficaz e perdulário por código genético. Longe do simplex e de vernizes liberais.

Untitled

ESTADÃO


Às vezes acho que o país virou esquizofrénico. Explico: de um lado vemos o Governo a anunciar incentivos para reduzir o número de funcionários públicos e até a incentivar que passem para a iniciativa privada (vá-se lá saber como ou porquê…); do outro, vemos o Governo a criar novos organismos. O verniz liberal que o Primeiro Ministro gosta de usar dilui-se na acetona da fúria regulamentadora do Governo. Há cada vez mais entidades, autoridades, sumidades e banalidades que se proclamam reguladores. Têm duas coisas em comum: nascem de arranjinhos parlamentares onde a falta de pudor é a norma; e vivem de novas taxas que, em última análise são pagas pelos consumidores, por todos nós cidadãos.

Em boa parte dos casos há uma origem comum: o Ministro dos Assuntos Parlamentares, que distribui lugares, faz negociatas políticas nos corredores de S.Bento e garante a perpetuidade e prosperidade do Estadão, esse ponto de convergência de apetites partidários por lugares pagos pelo erário público.

Primeiro foram as empresas de comunicação a serem taxadas, de seguida querem fazer o mesmo às publicitárias, que fazem parte da cadeia de valor do mercado de informação e conteúdos. À falta de poder controlar ainda mais editorialmente a informação e os empresários do sector, aplicam-se taxas, criam-se limites artificiais, instala-se a ameaça. Este Governo resolveu acabar com os mecanismos que começavam a existir de auto-regulação e assumiu para o Estado o papel de fiscal todo-poderoso.

Para regulamentar a publicidade o Governo tem em mira cobrar 0,5% de um mercado de 5,4 mil milhões de euros - o alvo é sacar muitos milhões de euros em taxas aos anunciantes. Quem perde com isto? – Os consumidores que vão ver esta valor reflectido nos preços dos produtos que compram.

O Ministro Santos Silva pode continuar a fazer os seus joguinhos de corredor em S. Bento para comprar consciências. Mas para a História o que fica é uma nódoa no livre funcionamento da sociedade. Santos Silva é o retrato acabado do Estadão, ineficaz e perdulário por código genético. Longe do simplex e de vernizes liberais.

junho 11, 2006

LISBOA E AS FESTAS


A ideia das Festas de Lisboa, com centenas de acontecimentos concentrados em Junho, muitas vezes a sobreporem-se, tinha sido abandonada nos últimos quatro anos. Em vez disso optou-se por um conceito, «Lisboa em Festa», que decorria entre meados de Maio (com a abertura da Feira do Livro) e meados de Setembro, assegurando que ao longo dos quatro meses com maior afluxo de turistas existisse um conjunto diversificado de eventos, exclusivamente de iniciativa autárquica ou feitos em parceria com privados, que promovessem o diálogo com públicos de municípios próximos (como acontecia nos concertos de Monsanto do auditório Keil do Amaral), que revelassem tendências novas (como o «Cosmopólis») ou que aprofundassem o conceito de placa giratória multi-cultural de Lisboa, como o Africa Festival. Para Junho ficavam as marchas populares, os arraiais, o Fado e meia dúzia de iniciativas de dimensão maior. Este conceito teve aliás por base uma constatação simples: Em Maio e Junho concentram-se já naturalmente iniciativas privadas de grande envergadura, sobretudo na área da música popular – não faz sentido fazer-lhes concorrência mas sim complementá-las.

Do ponto de vista dos custos o que acontecia era diluir o orçamento de actividades ao longo dos quatro meses, seleccionar e co-participar em parcerias co-produzindo eventos, garantir uma grande exposição de artistas portugueses de várias gerações, assegurar alguns nomes internacionais mais arredados do circuito comercial, procurar não fazer concorrência desleal aos promotores privados de concertos e sobretudo garantir a existência de animação na cidade nos meses (meados de Julho a meados de Setembro) onde a actividade dos produtores privados sofre uma quebra sazonal até porque em parte se desloca para os festivais de Verão e para outras iniciativas no litoral e interior do país. Lisboa tinha pouco a oferecer nesses meses e o objectivo traçado para a animação cultural era que ela fizesse parte integrante da atracção turística de Lisboa – daí por exemplo mega-exposições ao ar livre no Terreiro do Paço, apesar das limitações actuais do local devido às eternas obras do Metro; e daí também garantir que Monsanto se tornasse num pólo natural de actividades, o que aconteceu. Facto: em 2005 nesses quatro meses, tudo incluído, foram gastos 3,5 milhões de euros. Este ano voltou-se ao modelo antigo, muito igual ao de João Soares, e, essencialmente em Junho (na realidade de 1 de Junho a 9 de Julho) serão gastos 3 milhões de euros. São formas diferentes de planear, de fazer as contas e de procurar resultados.

O que é facto é que se conseguiu, sobretudo em 2003, 2004 e 2005, que este panorama funcionasse e fosse entendido não só por quem vive na cidade, mas também por quem a visita – desde o turismo exterior até ao turismo interno. As Festas de Lisboa deixaram de ser uma amálgama de acontecimentos em Junho e passaram a ter uma programação estruturada multi-disciplinar que se prolongava ao longo de 120 dias e que envolvia desde colectividades populares até à Orquestra Gulbenkian. O que se procurou foi criar a imagem de uma cidade onde a criatividade fazia parte do quotidiano e não apenas de algumas semanas com agitaçãozinha fabricada. Além disso desenvolveram-se acções específicas para as comunidades estrangeiras de emigrantes – desde africanos aos provenientes do Leste, que nos últimos anos alteraram o panorama de Lisboa, tornando-a de facto numa metrópole multi-étcnica e multi-cultural. Na realidade, sobretudo em 2004 e 2005, a actividade autárquica estendeu-se, numa série de outras acções complementares, ao longo de meses onde tradicionalmente não existia, entre Setembro e Abril – sempre em parcerias com privados, mas estimulando a existência e viabilizando ciclos de música, exposições e festivais de diversa natureza e origem: basta ver o que surgiu e se consolidou nesse período, como a Lisboa Photo e o Indy Lisboa. Às vezes convém forçar a memória para que algumas coisas não fiquem no esquecimento.

Existe um curioso documento sobre a importância das políticas culturais nas cidades, «The Memphis Manifesto», que não resisto a citar: «A criatividade é parte fundamental da natureza humana e é um bem essencial para a vida individual, das comunidades e da economia. As comunidades onde a criatividade se sente são locais vibrantes e humanizados, que estimulam o crescimento dos indivíduos, proporcionam avanços culturais e tecnológicos, criam empregos e riqueza e aceitam uma grande diversidade de estilos de vida e de cultura. Acreditamos que o futuro é construído pela força das ideias e as ideias são o motor do crescimento de amanhã – portanto acarinhar comunidades onde as ideias se possam desenvolver é um factor chave para o sucesso. As ideias nascem onde a criatividade é estimulada de forma permanente e a criatividade implanta-se e desenvolve-se onde as comunidades acarinham e estimulam as ideias».

Untitled

LISBOA E AS FESTAS


A ideia das Festas de Lisboa, com centenas de acontecimentos concentrados em Junho, muitas vezes a sobreporem-se, tinha sido abandonada nos últimos quatro anos. Em vez disso optou-se por um conceito, «Lisboa em Festa», que decorria entre meados de Maio (com a abertura da Feira do Livro) e meados de Setembro, assegurando que ao longo dos quatro meses com maior afluxo de turistas existisse um conjunto diversificado de eventos, exclusivamente de iniciativa autárquica ou feitos em parceria com privados, que promovessem o diálogo com públicos de municípios próximos (como acontecia nos concertos de Monsanto do auditório Keil do Amaral), que revelassem tendências novas (como o «Cosmopólis») ou que aprofundassem o conceito de placa giratória multi-cultural de Lisboa, como o Africa Festival. Para Junho ficavam as marchas populares, os arraiais, o Fado e meia dúzia de iniciativas de dimensão maior. Este conceito teve aliás por base uma constatação simples: Em Maio e Junho concentram-se já naturalmente iniciativas privadas de grande envergadura, sobretudo na área da música popular – não faz sentido fazer-lhes concorrência mas sim complementá-las.

Do ponto de vista dos custos o que acontecia era diluir o orçamento de actividades ao longo dos quatro meses, seleccionar e co-participar em parcerias co-produzindo eventos, garantir uma grande exposição de artistas portugueses de várias gerações, assegurar alguns nomes internacionais mais arredados do circuito comercial, procurar não fazer concorrência desleal aos promotores privados de concertos e sobretudo garantir a existência de animação na cidade nos meses (meados de Julho a meados de Setembro) onde a actividade dos produtores privados sofre uma quebra sazonal até porque em parte se desloca para os festivais de Verão e para outras iniciativas no litoral e interior do país. Lisboa tinha pouco a oferecer nesses meses e o objectivo traçado para a animação cultural era que ela fizesse parte integrante da atracção turística de Lisboa – daí por exemplo mega-exposições ao ar livre no Terreiro do Paço, apesar das limitações actuais do local devido às eternas obras do Metro; e daí também garantir que Monsanto se tornasse num pólo natural de actividades, o que aconteceu. Facto: em 2005 nesses quatro meses, tudo incluído, foram gastos 3,5 milhões de euros. Este ano voltou-se ao modelo antigo, muito igual ao de João Soares, e, essencialmente em Junho (na realidade de 1 de Junho a 9 de Julho) serão gastos 3 milhões de euros. São formas diferentes de planear, de fazer as contas e de procurar resultados.

O que é facto é que se conseguiu, sobretudo em 2003, 2004 e 2005, que este panorama funcionasse e fosse entendido não só por quem vive na cidade, mas também por quem a visita – desde o turismo exterior até ao turismo interno. As Festas de Lisboa deixaram de ser uma amálgama de acontecimentos em Junho e passaram a ter uma programação estruturada multi-disciplinar que se prolongava ao longo de 120 dias e que envolvia desde colectividades populares até à Orquestra Gulbenkian. O que se procurou foi criar a imagem de uma cidade onde a criatividade fazia parte do quotidiano e não apenas de algumas semanas com agitaçãozinha fabricada. Além disso desenvolveram-se acções específicas para as comunidades estrangeiras de emigrantes – desde africanos aos provenientes do Leste, que nos últimos anos alteraram o panorama de Lisboa, tornando-a de facto numa metrópole multi-étcnica e multi-cultural. Na realidade, sobretudo em 2004 e 2005, a actividade autárquica estendeu-se, numa série de outras acções complementares, ao longo de meses onde tradicionalmente não existia, entre Setembro e Abril – sempre em parcerias com privados, mas estimulando a existência e viabilizando ciclos de música, exposições e festivais de diversa natureza e origem: basta ver o que surgiu e se consolidou nesse período, como a Lisboa Photo e o Indy Lisboa. Às vezes convém forçar a memória para que algumas coisas não fiquem no esquecimento.

Existe um curioso documento sobre a importância das políticas culturais nas cidades, «The Memphis Manifesto», que não resisto a citar: «A criatividade é parte fundamental da natureza humana e é um bem essencial para a vida individual, das comunidades e da economia. As comunidades onde a criatividade se sente são locais vibrantes e humanizados, que estimulam o crescimento dos indivíduos, proporcionam avanços culturais e tecnológicos, criam empregos e riqueza e aceitam uma grande diversidade de estilos de vida e de cultura. Acreditamos que o futuro é construído pela força das ideias e as ideias são o motor do crescimento de amanhã – portanto acarinhar comunidades onde as ideias se possam desenvolver é um factor chave para o sucesso. As ideias nascem onde a criatividade é estimulada de forma permanente e a criatividade implanta-se e desenvolve-se onde as comunidades acarinham e estimulam as ideias».

junho 07, 2006

AS CONTAS DO AMARAL
Há uns dias atrás o Vereador da Cultura de Lisboa anunciou que as festas de Lisboa custariam este ano menos que as do ano passado, o que lhe daria o cognome de «poupadinho».
Para que as coisas sejam como devem ser, convém recordar que em 2005, entre as iniciativas todas de Junho em Lisboa, arraiais, marchas populares, Feira do Livro, África Festival, Festa do Fado e dezenas de concertos gratuitos entre Junho e final de Setembro em Monsanto e demais iniciativas que decorreram sob o chapéu de Lisboa em Festa durante todos estes meses, o custo total foi de 3,5 milhões de euros. O actual Presidente da autarquia deve lembrar-se do assunto, já que na altura presidia à Egeac.
Actualmente e só para as festividades de Junho vão ser gastos três milhões - e Lisboa voltou a ser uma bagunça de iniciativas simultâneas e sobrepostas em Junho, como era no tempo de João Soares, desertificando nos outros meses, fundamentais para o turismo da cidade.
No final veremos em que ano se gastou mais, quantos espectáculos se produziram, como se fez a ligação a produtores privados, como se diversificaram públicos, como se fidelizaram iniciativas.

Untitled

AS CONTAS DO AMARAL
Há uns dias atrás o Vereador da Cultura de Lisboa anunciou que as festas de Lisboa custariam este ano menos que as do ano passado, o que lhe daria o cognome de «poupadinho».
Para que as coisas sejam como devem ser, convém recordar que em 2005, entre as iniciativas todas de Junho em Lisboa, arraiais, marchas populares, Feira do Livro, África Festival, Festa do Fado e dezenas de concertos gratuitos entre Junho e final de Setembro em Monsanto e demais iniciativas que decorreram sob o chapéu de Lisboa em Festa durante todos estes meses, o custo total foi de 3,5 milhões de euros. O actual Presidente da autarquia deve lembrar-se do assunto, já que na altura presidia à Egeac.
Actualmente e só para as festividades de Junho vão ser gastos três milhões - e Lisboa voltou a ser uma bagunça de iniciativas simultâneas e sobrepostas em Junho, como era no tempo de João Soares, desertificando nos outros meses, fundamentais para o turismo da cidade.
No final veremos em que ano se gastou mais, quantos espectáculos se produziram, como se fez a ligação a produtores privados, como se diversificaram públicos, como se fidelizaram iniciativas.

junho 05, 2006

A ARQUIVISTA
A Ministra da Cultura afinal não desapareceu. Tornou-se arquivista. Na sua nova paixão quer transformar o Centro Nacional de Fotografia num mero arquivo.Acho que alguém lhe devia explicar bem o que é um Centro e o que é um Arquivo. E o melhor é explicarem-lhe muito devagarinho a ver se ela consegue perceber...

Untitled

A ARQUIVISTA
A Ministra da Cultura afinal não desapareceu. Tornou-se arquivista. Na sua nova paixão quer transformar o Centro Nacional de Fotografia num mero arquivo.Acho que alguém lhe devia explicar bem o que é um Centro e o que é um Arquivo. E o melhor é explicarem-lhe muito devagarinho a ver se ela consegue perceber...
DEPUTADOS - Certamente por engano um jornal noticiava esta semana que os patrióticos deputados portugueses estão a adaptar a agenda do Parlamento aos horários dos jogos do Mundial. É obviamente um equívoco: a verdade é que os deputados adoptaram a agenda do Mundial em detrimento da agenda parlamentar. Confirma-se que até os senhores deputados colocam no futebol, na selecção e em Scolari os destinos do país. Quem achar isto estranho arrisca-se a ser chamado vende-pátrias.

LER – A edição deste mês da revista «Atlântico» tem um imperdível artigo de Maria Filomena Mónica sobre a Casa da Música do Porto no qual arrasa com observação metódica e humor cáustico os detalhes do «poliedro esdrúxulo». Mas a grande peça da revista é um notável artigo do historiador Rui Ramos sobre o 28 de Maio, provocatoriamente intitulado «O 25 de Abril de Salazar»: «Tal como o 25 de Abril de 1974 poderia ter acabado numa ditadura marxista, mas deu lugar à democracia em 1976, também o 28 de Maio de 1926 Poderia ter acabado numa república reformada, mas deu lugar ao Estado Novo. Por estranho que possa parecer, as semelhanças e as analogias não se ficam por aqui».

OUVIR – Sonny Rollins tem 75 anos e continua a ser um dos saxofonistas tenor mais marcantes do jazz. A sua capacidade de interpretação, o sentimento que consegue transmitir com o seu sopro, a intensidade com que toca, tudo contribui para que cada disco seja uma redescoberta. No dia 15 de Setembro de 2001, poucos dias depois dos atentados de Nova York, Rollins deu um concerto no auditório da Universidadce de Berklee, em Boston – esta é a mais prestigiada escola de música de jazz do mundo. Fortemente marcado pela conjuntura de choque em que decorreu, o concerto teve uma carga emotiva invulgar que felizmente se preservou na respectiva gravação, agora editada. Sonny Rollins foi acompanhado neste concerto por um quinteto que integrava Clifton Anderson no trombone, Stephen Scott no piano, Bob Crenshaw no baixo eléctrico, Perry Wilson na bateria e Kimati Dinizilu na percussão. É preciso dizer que em Nova York , Rollins vive a seis quarteirões do local onde ficava o World Trade Center e assistiu, na rua, a tudo o que se passou. Um dia depois foi evacuado do local e há imagens, da CNN, que o mostram a ser transportado, com o seu inseparável saxofone debaixo do braço. Sóbrio e intenso, o concerto tem momentos altos no tema que lha dá o nome, «Without a Song» (do clássico álbum «The Bridge»), no swing irresistível de «Global Warming» e no extraordinário «Why Was I Born». «Without A Song – The 9/11 Concert», CD Milestone Records, distribuído por Universal Music.

COMER – Durante muito tempo o Restaurante A Paz foi um prazer quase diário – fica na Ajuda, era-me próximo, um grupo de amigos juntava-se lá com frequência ao almoço. A qualidade era extraordinária e o serviço irrepreensível. Esta semana, após quase quatro anos de ausência, voltei lá e só me arrependi de o regresso ter demorado tanto tempo. A simpatia do Senhor António continua um cartão de visita, assim como tudo o resto. À hora de almoço a casa tem mais movimento, ao jantar é mais sossegada – e como serve até às dez e meia, é um bom local para um jantar tranquilo. De entrada puseram-nos na mesa uma saladinha de feijão e uns carapauzinhos de escabeche que estavam uma delícia. A seguir veio o que nos tinha lá levado nesse dia: uns filetes de garoupa, acompanhados de arroz de feijão, batata frita às rodelas finíssimas e uma salada mista. A coisa correu pelo melhor: os filetes, bem panados, secos de gordura, de peixe fresquíssimo, continuam entre os melhores que se podem provar em Lisboa. A rematar umas cerejas do Fundão, bem primaveris. Ficou a apetecer-me voltar lá com mais frequência. A Paz, Largo da Paz 22B (à Ajuda), telef. 213 631 915.

AGENDA – Hoje e amanhã às 21h00 e Domingo às 16h00, últimas oportunidades de ver o bailado Giselle, pela Companhia Nacional de Bailado, com coreografia de Georges Garcia, segundo Marius Petipa, Jean Coralli e Jules Perrot, música de Adolphe Adam, cenário e figurinos de António Lagarto e desenho de luz de Cristina Piedade. No Teatro Camões, em Lisboa.

BACK TO BASICS – «Vivemos num tempo em que as coisas desnecessárias se transformaram nas nossas maiores necessidades» - Óscar Wilde.

Untitled

DEPUTADOS - Certamente por engano um jornal noticiava esta semana que os patrióticos deputados portugueses estão a adaptar a agenda do Parlamento aos horários dos jogos do Mundial. É obviamente um equívoco: a verdade é que os deputados adoptaram a agenda do Mundial em detrimento da agenda parlamentar. Confirma-se que até os senhores deputados colocam no futebol, na selecção e em Scolari os destinos do país. Quem achar isto estranho arrisca-se a ser chamado vende-pátrias.

LER – A edição deste mês da revista «Atlântico» tem um imperdível artigo de Maria Filomena Mónica sobre a Casa da Música do Porto no qual arrasa com observação metódica e humor cáustico os detalhes do «poliedro esdrúxulo». Mas a grande peça da revista é um notável artigo do historiador Rui Ramos sobre o 28 de Maio, provocatoriamente intitulado «O 25 de Abril de Salazar»: «Tal como o 25 de Abril de 1974 poderia ter acabado numa ditadura marxista, mas deu lugar à democracia em 1976, também o 28 de Maio de 1926 Poderia ter acabado numa república reformada, mas deu lugar ao Estado Novo. Por estranho que possa parecer, as semelhanças e as analogias não se ficam por aqui».

OUVIR – Sonny Rollins tem 75 anos e continua a ser um dos saxofonistas tenor mais marcantes do jazz. A sua capacidade de interpretação, o sentimento que consegue transmitir com o seu sopro, a intensidade com que toca, tudo contribui para que cada disco seja uma redescoberta. No dia 15 de Setembro de 2001, poucos dias depois dos atentados de Nova York, Rollins deu um concerto no auditório da Universidadce de Berklee, em Boston – esta é a mais prestigiada escola de música de jazz do mundo. Fortemente marcado pela conjuntura de choque em que decorreu, o concerto teve uma carga emotiva invulgar que felizmente se preservou na respectiva gravação, agora editada. Sonny Rollins foi acompanhado neste concerto por um quinteto que integrava Clifton Anderson no trombone, Stephen Scott no piano, Bob Crenshaw no baixo eléctrico, Perry Wilson na bateria e Kimati Dinizilu na percussão. É preciso dizer que em Nova York , Rollins vive a seis quarteirões do local onde ficava o World Trade Center e assistiu, na rua, a tudo o que se passou. Um dia depois foi evacuado do local e há imagens, da CNN, que o mostram a ser transportado, com o seu inseparável saxofone debaixo do braço. Sóbrio e intenso, o concerto tem momentos altos no tema que lha dá o nome, «Without a Song» (do clássico álbum «The Bridge»), no swing irresistível de «Global Warming» e no extraordinário «Why Was I Born». «Without A Song – The 9/11 Concert», CD Milestone Records, distribuído por Universal Music.

COMER – Durante muito tempo o Restaurante A Paz foi um prazer quase diário – fica na Ajuda, era-me próximo, um grupo de amigos juntava-se lá com frequência ao almoço. A qualidade era extraordinária e o serviço irrepreensível. Esta semana, após quase quatro anos de ausência, voltei lá e só me arrependi de o regresso ter demorado tanto tempo. A simpatia do Senhor António continua um cartão de visita, assim como tudo o resto. À hora de almoço a casa tem mais movimento, ao jantar é mais sossegada – e como serve até às dez e meia, é um bom local para um jantar tranquilo. De entrada puseram-nos na mesa uma saladinha de feijão e uns carapauzinhos de escabeche que estavam uma delícia. A seguir veio o que nos tinha lá levado nesse dia: uns filetes de garoupa, acompanhados de arroz de feijão, batata frita às rodelas finíssimas e uma salada mista. A coisa correu pelo melhor: os filetes, bem panados, secos de gordura, de peixe fresquíssimo, continuam entre os melhores que se podem provar em Lisboa. A rematar umas cerejas do Fundão, bem primaveris. Ficou a apetecer-me voltar lá com mais frequência. A Paz, Largo da Paz 22B (à Ajuda), telef. 213 631 915.

AGENDA – Hoje e amanhã às 21h00 e Domingo às 16h00, últimas oportunidades de ver o bailado Giselle, pela Companhia Nacional de Bailado, com coreografia de Georges Garcia, segundo Marius Petipa, Jean Coralli e Jules Perrot, música de Adolphe Adam, cenário e figurinos de António Lagarto e desenho de luz de Cristina Piedade. No Teatro Camões, em Lisboa.

BACK TO BASICS – «Vivemos num tempo em que as coisas desnecessárias se transformaram nas nossas maiores necessidades» - Óscar Wilde.
A MINISTRA DESAPARECIDA


Olho à volta à procura da Ministra da Cultura e não a vejo. Se calhar, penso para os meus botões, neste Governo PS de centro-direita, vingou a tese de que o Ministério da Cultura é uma bizarria, uma extravagância, e está a ser descontinuado de forma discreta, longe dos olhares da ribalta.

Digitando «Ministra da Cultura» no Google e escolhendo a opção páginas de Portugal, que conclusão se tira? – Que a Ministra passou a ser apenas corta-fitas. O primeiro ecrã que aparece vem recheado de referências à Feira do Livro, ao Museu do Pão e a outros momentos semelhantes. Verifico, com curiosidade, que é muito referida na imprensa regional e percebo que tem andando no interior a fazer algumas promessas.

O segundo ecrã recorda-me os saneamentos que promoveu, para colocar nos postos chave do Ministério gente da sua confiança, desde a Biblioteca Nacional até ao Teatro Nacional D. Maria; recorda-me as polémicas em que se envolveu com Rui Rio, o episódio da colecção Berardo ou a interminável história da Casa da Música (a propósito: já leram o artigo de Maria Filomena Mónica sobre o tema na revista «Atlântico» deste mês?).

Junto dois mais dois e penso que, depois das complicações que arranjou ao Primeiro-Ministro, alguma voz sábia a mandou passear pelo interior, visitando monumentos e desenvolvendo como área chave do seu Ministério a etnografia.

Anteontem fui ao site do Ministério da Cultura à procura de confirmação para esta tese, e constato que na página de entrada, o Dia Internacional dos Museus, do passado dia 18 de Maio, era ainda o tema em destaque; o último comunicado de imprensa que lá encontro tinha um mês e era sobre a feira do Livro de Turim, do passado dia 2 de Maio – na realidade existem seis comunicados de imprensa desde o dia 1 de Janeiro, uma actividade verdadeiramente imparável.

Dir-me-ão: a Ministra é uma discreta formiguinha trabalhadeira, lá na sombra está tudo em efervescência. Eu, por acaso, gostava de saber o que se passa, quais os planos para aumentar a nossa relação cultural com outros países de língua portuguesa, se uma prometida Film Commission sempre avança, se a Lei do Mecenato está a ser tornada mais atractiva, qual a estratégia de promoção da cultura portuguesa no exterior que está a ser preparada. Em vez disso, vejo notícias do interior. É como se o Ministério da Cultura tivesse entrado em fase de comissão liquidatária.

Untitled

A MINISTRA DESAPARECIDA


Olho à volta à procura da Ministra da Cultura e não a vejo. Se calhar, penso para os meus botões, neste Governo PS de centro-direita, vingou a tese de que o Ministério da Cultura é uma bizarria, uma extravagância, e está a ser descontinuado de forma discreta, longe dos olhares da ribalta.

Digitando «Ministra da Cultura» no Google e escolhendo a opção páginas de Portugal, que conclusão se tira? – Que a Ministra passou a ser apenas corta-fitas. O primeiro ecrã que aparece vem recheado de referências à Feira do Livro, ao Museu do Pão e a outros momentos semelhantes. Verifico, com curiosidade, que é muito referida na imprensa regional e percebo que tem andando no interior a fazer algumas promessas.

O segundo ecrã recorda-me os saneamentos que promoveu, para colocar nos postos chave do Ministério gente da sua confiança, desde a Biblioteca Nacional até ao Teatro Nacional D. Maria; recorda-me as polémicas em que se envolveu com Rui Rio, o episódio da colecção Berardo ou a interminável história da Casa da Música (a propósito: já leram o artigo de Maria Filomena Mónica sobre o tema na revista «Atlântico» deste mês?).

Junto dois mais dois e penso que, depois das complicações que arranjou ao Primeiro-Ministro, alguma voz sábia a mandou passear pelo interior, visitando monumentos e desenvolvendo como área chave do seu Ministério a etnografia.

Anteontem fui ao site do Ministério da Cultura à procura de confirmação para esta tese, e constato que na página de entrada, o Dia Internacional dos Museus, do passado dia 18 de Maio, era ainda o tema em destaque; o último comunicado de imprensa que lá encontro tinha um mês e era sobre a feira do Livro de Turim, do passado dia 2 de Maio – na realidade existem seis comunicados de imprensa desde o dia 1 de Janeiro, uma actividade verdadeiramente imparável.

Dir-me-ão: a Ministra é uma discreta formiguinha trabalhadeira, lá na sombra está tudo em efervescência. Eu, por acaso, gostava de saber o que se passa, quais os planos para aumentar a nossa relação cultural com outros países de língua portuguesa, se uma prometida Film Commission sempre avança, se a Lei do Mecenato está a ser tornada mais atractiva, qual a estratégia de promoção da cultura portuguesa no exterior que está a ser preparada. Em vez disso, vejo notícias do interior. É como se o Ministério da Cultura tivesse entrado em fase de comissão liquidatária.

junho 01, 2006

PESADELO
Vai começar o tempo em que os que não ligam ao futebol vão ser descriminados: não vão ter tema de conversa, vão sentir-se excluídos, levam bombardeamentos por tudo quanto é lado. Pior ainda, se não mostratem um resto de emoção que seja pela equipa portuguesa serão apelidados de traidores, excomungados da sociedade e acusados de contribuírem para o descrédito, o desprestígio e a desmoralização do país.

Untitled

PESADELO
Vai começar o tempo em que os que não ligam ao futebol vão ser descriminados: não vão ter tema de conversa, vão sentir-se excluídos, levam bombardeamentos por tudo quanto é lado. Pior ainda, se não mostratem um resto de emoção que seja pela equipa portuguesa serão apelidados de traidores, excomungados da sociedade e acusados de contribuírem para o descrédito, o desprestígio e a desmoralização do país.