novembro 22, 2004

UMA VIDA A DOIS

Os três discursos de Pedro Santana Lopes foram o melhor do Congresso do PSD mas também foram, quase, a única coisa. De facto Pedro Santana Lopes aproveitou o Congresso para falar ao país e pelo meio resolveu pormenores internos de organização do pessoal político. Não conseguiu, no entanto, evitar que a imagem que saíu do Congresso fosse a das reticências à continuação da coligação com o PP.
A força dos discursos de Pedro Santana Lopes mostrou, em contraste, as fraquezas do Congresso e, também, do partido. A única divergência palpável centra-se na política de alianças do PSD, ou seja, na coligação com o PP. Na realidade, neste congresso, ficou-se com a sensação de que uma parte audível do PSD preferiria soluções tipo «queijo limiano», do que alianças estáveis e negociadas que permitam traçar estratégias de médio-longo prazo.
Tenho para mim que esta dificuldade de aceitação de coligações tem origem no vazio ideológico em que o PSD foi mergulhando ao longo dos anos (e que no caso do PP, por exemplo, é muito menos sensível). Na inexistência de referências ideológicas claras, na ausência de inovação e discussão políticas, sem noção clara do lugar que quer ocupar no espectro político (centro? centro-esquerda? centro-direita?) o PSD teme, inconscientemente, ser subalternizado, perder espaço próprio.
Habituado desde há décadas a gerir conjunturas, o PSD tem enorme sentido táctico mas dificuldade em encontrar rumo estratégico e em inovar. Daí nascem muitos dos seus incómodos actuais. Viver a dois é um exercício de permanente imaginação e um desafio constante. Acontece que, se a direita quiser cumprir o seu programa e concretizar reformas, é forçoso manter esta união de facto. Sob pena de a pensão de alimentos ser caríssima.

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UMA VIDA A DOIS



Os três discursos de Pedro Santana Lopes foram o melhor do Congresso do PSD mas também foram, quase, a única coisa. De facto Pedro Santana Lopes aproveitou o Congresso para falar ao país e pelo meio resolveu pormenores internos de organização do pessoal político. Não conseguiu, no entanto, evitar que a imagem que saíu do Congresso fosse a das reticências à continuação da coligação com o PP.

A força dos discursos de Pedro Santana Lopes mostrou, em contraste, as fraquezas do Congresso e, também, do partido. A única divergência palpável centra-se na política de alianças do PSD, ou seja, na coligação com o PP. Na realidade, neste congresso, ficou-se com a sensação de que uma parte audível do PSD preferiria soluções tipo «queijo limiano», do que alianças estáveis e negociadas que permitam traçar estratégias de médio-longo prazo.

Tenho para mim que esta dificuldade de aceitação de coligações tem origem no vazio ideológico em que o PSD foi mergulhando ao longo dos anos (e que no caso do PP, por exemplo, é muito menos sensível). Na inexistência de referências ideológicas claras, na ausência de inovação e discussão políticas, sem noção clara do lugar que quer ocupar no espectro político (centro? centro-esquerda? centro-direita?) o PSD teme, inconscientemente, ser subalternizado, perder espaço próprio.

Habituado desde há décadas a gerir conjunturas, o PSD tem enorme sentido táctico mas dificuldade em encontrar rumo estratégico e em inovar. Daí nascem muitos dos seus incómodos actuais. Viver a dois é um exercício de permanente imaginação e um desafio constante. Acontece que, se a direita quiser cumprir o seu programa e concretizar reformas, é forçoso manter esta união de facto. Sob pena de a pensão de alimentos ser caríssima.

SEM ILUSÕES

MUDANÇAS – Olhando para o que se passa à nossa volta sou levado a seguir este pensamento, que me chegou por mão amiga: nenhuma sociedade ou civilização se esgota e morre, sobretudo de morte total, por um ataque de dúvida; é mais fácil que o definhar venha pela razão inversa, isto é, por causa da petrificação ou arterioesclerose das crenças. Talvez valha a pena estender este raciocínio e levá-lo mais além. Começa a ser evidente que o sistema político e partidário tem uma lógica interna que não permite que surjam verdadeiras mudanças, que evita transformações. Por isso, provavelmente, faz sentido pensar em novas formas de intervenção, faz sentido colocar dúvidas, debater novas formulações que só surgirão de rupturas e, muito provavelmente, nunca de evoluções a partir do modelo actual. Na verdade os apelos à democratização interna dos partidos e a uma maior preocupação dos políticos pelos cidadãos significaria a subversão total do esquema que está instalado. Não me parece que os políticos vão cometer suicídio colectivo e iniciar um processo de auto-destruição do sistema que lhes assegura o poder.

INVENÇÃO – Uma das maiores multinacionais, a Unilever decidiu há uns anos impulsionar a criatividade como factor de mudança da cultura da empresa. De facto o objectivo inicial era procurar um toque mágico na maneira como se imagina a produto, como se pensa no consumidor,
como se comunica, como se faz publciidade. Em 1999, na sede de Londres da companhia, iniciou-se o programa Catalyst, baseado no princípio de trazer para dentro da lógica empresarial o sistema de inovação da criação artística. Instrumentalmente o programa Catalyst começou por intervir na decoração da empresa e, depois, em fórmulas de entretenimento para os funcionários. Mas rapidamente se estabeleceu como um processo estratégico de transformação pessoal e organizacional. Do teatro ao cinema, passando pela poesia, a música ou as artes plásticas o Catalyst tem intervido na transformação da cultura da empresa, em estimular o surgimento do potencial criativo dos quadros, em aumentar a partilha de descobertas com os colegas. De facto, ao apostar na arte contemporânea, o Catalyst estimulou a descoberta, a dúvida, o pensamento e as interrogações sobre uma visão mais ampla da sociedade. Tudo isto foi relatado na semana passada em Serralves numa interessante conferência intitulada «Arte e Empresa, uma aliança criativa». O Presidente da Fundação, António Gomes de Pinho, na sua intervenção inicial, deixou um desafio aos gestores portugueses: « sejam criativos, imaginativos, intuitivos, visionários». É um apelo que devia percorrer toda a sociedade, e não apenas as empresas.

LUCIDEZ – O ex-Presidente da República do Brasil, Fernando Henriques Cardoso, passou esta semana por Lisboa e no meio da intervenção que proferiu a convite da Fundação Luso-Brasileira, fez uma afirmação de uma enorme actualidade: «A lucidez, em política, só aumenta a angústia».

BACK TO BASICS – Citando Charles De Gaulle, «a política é um assunto demasiado sério para ser deixado só aos políticos».

RESTAURANTE – Xanti, comida indiana, na Casa de Goa, Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. Tel. 21 393 01 71. Um grande espaço, uma cozinha surpreendente.
LEITURA – O artigo sobre a tecnologia e o método utilizados pelo arquitecto Frank Gehry no seu processo criativo, na revista «Wired», edição de Novembro, também disponível em www.wired.com
TENTAÇÃO – A mostra Mundo Mix, Tivoli Forum, Avenida da Liberdade, dias 20, 21,27 e 28 de Novembro.
SUGESTÃO – A Arte Lisboa no Pavilhão 4 da FIL do Parque das Nações, até às 20h00 de segunda-feira.

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SEM ILUSÕES



MUDANÇAS – Olhando para o que se passa à nossa volta sou levado a seguir este pensamento, que me chegou por mão amiga: nenhuma sociedade ou civilização se esgota e morre, sobretudo de morte total, por um ataque de dúvida; é mais fácil que o definhar venha pela razão inversa, isto é, por causa da petrificação ou arterioesclerose das crenças. Talvez valha a pena estender este raciocínio e levá-lo mais além. Começa a ser evidente que o sistema político e partidário tem uma lógica interna que não permite que surjam verdadeiras mudanças, que evita transformações. Por isso, provavelmente, faz sentido pensar em novas formas de intervenção, faz sentido colocar dúvidas, debater novas formulações que só surgirão de rupturas e, muito provavelmente, nunca de evoluções a partir do modelo actual. Na verdade os apelos à democratização interna dos partidos e a uma maior preocupação dos políticos pelos cidadãos significaria a subversão total do esquema que está instalado. Não me parece que os políticos vão cometer suicídio colectivo e iniciar um processo de auto-destruição do sistema que lhes assegura o poder.



INVENÇÃO – Uma das maiores multinacionais, a Unilever decidiu há uns anos impulsionar a criatividade como factor de mudança da cultura da empresa. De facto o objectivo inicial era procurar um toque mágico na maneira como se imagina a produto, como se pensa no consumidor,

como se comunica, como se faz publciidade. Em 1999, na sede de Londres da companhia, iniciou-se o programa Catalyst, baseado no princípio de trazer para dentro da lógica empresarial o sistema de inovação da criação artística. Instrumentalmente o programa Catalyst começou por intervir na decoração da empresa e, depois, em fórmulas de entretenimento para os funcionários. Mas rapidamente se estabeleceu como um processo estratégico de transformação pessoal e organizacional. Do teatro ao cinema, passando pela poesia, a música ou as artes plásticas o Catalyst tem intervido na transformação da cultura da empresa, em estimular o surgimento do potencial criativo dos quadros, em aumentar a partilha de descobertas com os colegas. De facto, ao apostar na arte contemporânea, o Catalyst estimulou a descoberta, a dúvida, o pensamento e as interrogações sobre uma visão mais ampla da sociedade. Tudo isto foi relatado na semana passada em Serralves numa interessante conferência intitulada «Arte e Empresa, uma aliança criativa». O Presidente da Fundação, António Gomes de Pinho, na sua intervenção inicial, deixou um desafio aos gestores portugueses: « sejam criativos, imaginativos, intuitivos, visionários». É um apelo que devia percorrer toda a sociedade, e não apenas as empresas.



LUCIDEZ – O ex-Presidente da República do Brasil, Fernando Henriques Cardoso, passou esta semana por Lisboa e no meio da intervenção que proferiu a convite da Fundação Luso-Brasileira, fez uma afirmação de uma enorme actualidade: «A lucidez, em política, só aumenta a angústia».



BACK TO BASICS – Citando Charles De Gaulle, «a política é um assunto demasiado sério para ser deixado só aos políticos».



RESTAURANTE – Xanti, comida indiana, na Casa de Goa, Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. Tel. 21 393 01 71. Um grande espaço, uma cozinha surpreendente.

LEITURA – O artigo sobre a tecnologia e o método utilizados pelo arquitecto Frank Gehry no seu processo criativo, na revista «Wired», edição de Novembro, também disponível em www.wired.com

TENTAÇÃO – A mostra Mundo Mix, Tivoli Forum, Avenida da Liberdade, dias 20, 21,27 e 28 de Novembro.

SUGESTÃO – A Arte Lisboa no Pavilhão 4 da FIL do Parque das Nações, até às 20h00 de segunda-feira.

novembro 15, 2004

SOBRE A POLÍTICA
PROFISSIONAIS – Pela primeira vez desde 1974 temos os partidos entregues a uma geração de políticos profissionais, criada em democracia. Em quase todos os países isto é assim há muito – existe um núcleo duro de políticos profissionais que assegura o funcionamento dos partidos, de algumas instituições (como o Parlamento), que se vai treinando para o exercício do poder. É claro que há falhas- à excepção do Primeiro-Ministro, que foi militante e dirigente partidário, deputado, membro do Governo e autarca, a esta geração de políticos falta uma verdadeira carreira política e profissional fora do estrito círculo partidário. O percurso do dirigente partidário (juvenil, concelhio, distrital, nacional), normalmente é seguido de eleição parlamentar e daí, eventualmente, o salto para o Governo. Faltam os degraus do efectivo exercício executivo do poder a muitos destes políticos e também ao círculo que lhes é próximo. E isso nota-se. Muito.
SENSIBILIDADE – Um dos problemas de termos uma classe política com demasiados políticos profissionais é que corre-se o risco, grande, de eles perderem contacto com a realidade. Ver o país e os cidadãos através dos filtros dos aparelhos partidários é garantia de ter uma noção distorcida. Na política fazem sempre falta profissionais de outras áreas, cidadãos comuns que estejam empenhados no progresso e na participação cívica e os não alinhados são os que mais falta fazem para que ideias novas possam surgir. Uma das razões porque a reforma dos sistema tarda e porque ninguém quer mexer nas remunerações dos cargos políticos é que, se isso acontecesse, mais gente se poderia interessar e a cotação do tráfico de influências arriscava-se a descer. Seria o suicídio dos que vêem o exercício do poder apenas como um trampolim para outros vôos ou para a viabilização de outros interesses. Seria o fim dos assessores desqualificados, dos moços de recados, dos seguidistas.
PARTIDOS – Não é preciso fazer uma sondagem para perceber que os cidadãos desconfiam dos partidos, dos seus dirigentes e não se revêem no funcionamento actual do sistema político. Basta olhar para o aumento continuado da abstenção; basta ver a forma como ao longo destes trinta anos os partidos se foram enquistando; basta ver a falta de novidade ideológica e teórica que sai dos vários Congressos; basta ver como eles se foram progressivamente transformando apenas em rituais mediáticos da consagração do poder; basta ver a reduzida renovação da própria classe política. Se os partidos mantivessem laços estreitos com o pulsar dos vários grupos sociais não estariam sempre tão atrás do senso comum, seriam mais criativos. A forma de organização leninista dos partidos políticos – que a todos contaminou no leque partidário – acabou com os iconoclastas, estabeleceu a obediência cega às hierarquias, marginalizou os divergentes e aniquilou o desenvolvimento de pensamentos alternativos. Ou seja, matou a participação política, o debate, a criação teórica, o pensamento estratégico alternativo. Era bom os Congressos voltassem a servir para separar as águas, para clarificar, para romper e não para consagrar.

BACK TO BASICS – Só da discussão nasce a luz.
O MELHOR DA SEMANA – O plano de trabalho para os próximos dois anos apresentado pela UMIC.
O PIOR DA SEMANA – As informações contraditórias sobre as mudanças no IRS.
A PERGUNTA – No fim de semana, no Congresso do PSD, vai haver clarificação? Surgirá alguma novidade?
SUGESTÃO – O livro «Abrigos», de António Pinto Ribeiro, sobre a influência crescente das cidades e da sua política cultural no mundo em que vivemos.


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SOBRE A POLÍTICA

PROFISSIONAIS – Pela primeira vez desde 1974 temos os partidos entregues a uma geração de políticos profissionais, criada em democracia. Em quase todos os países isto é assim há muito – existe um núcleo duro de políticos profissionais que assegura o funcionamento dos partidos, de algumas instituições (como o Parlamento), que se vai treinando para o exercício do poder. É claro que há falhas- à excepção do Primeiro-Ministro, que foi militante e dirigente partidário, deputado, membro do Governo e autarca, a esta geração de políticos falta uma verdadeira carreira política e profissional fora do estrito círculo partidário. O percurso do dirigente partidário (juvenil, concelhio, distrital, nacional), normalmente é seguido de eleição parlamentar e daí, eventualmente, o salto para o Governo. Faltam os degraus do efectivo exercício executivo do poder a muitos destes políticos e também ao círculo que lhes é próximo. E isso nota-se. Muito.

SENSIBILIDADE – Um dos problemas de termos uma classe política com demasiados políticos profissionais é que corre-se o risco, grande, de eles perderem contacto com a realidade. Ver o país e os cidadãos através dos filtros dos aparelhos partidários é garantia de ter uma noção distorcida. Na política fazem sempre falta profissionais de outras áreas, cidadãos comuns que estejam empenhados no progresso e na participação cívica e os não alinhados são os que mais falta fazem para que ideias novas possam surgir. Uma das razões porque a reforma dos sistema tarda e porque ninguém quer mexer nas remunerações dos cargos políticos é que, se isso acontecesse, mais gente se poderia interessar e a cotação do tráfico de influências arriscava-se a descer. Seria o suicídio dos que vêem o exercício do poder apenas como um trampolim para outros vôos ou para a viabilização de outros interesses. Seria o fim dos assessores desqualificados, dos moços de recados, dos seguidistas.

PARTIDOS – Não é preciso fazer uma sondagem para perceber que os cidadãos desconfiam dos partidos, dos seus dirigentes e não se revêem no funcionamento actual do sistema político. Basta olhar para o aumento continuado da abstenção; basta ver a forma como ao longo destes trinta anos os partidos se foram enquistando; basta ver a falta de novidade ideológica e teórica que sai dos vários Congressos; basta ver como eles se foram progressivamente transformando apenas em rituais mediáticos da consagração do poder; basta ver a reduzida renovação da própria classe política. Se os partidos mantivessem laços estreitos com o pulsar dos vários grupos sociais não estariam sempre tão atrás do senso comum, seriam mais criativos. A forma de organização leninista dos partidos políticos – que a todos contaminou no leque partidário – acabou com os iconoclastas, estabeleceu a obediência cega às hierarquias, marginalizou os divergentes e aniquilou o desenvolvimento de pensamentos alternativos. Ou seja, matou a participação política, o debate, a criação teórica, o pensamento estratégico alternativo. Era bom os Congressos voltassem a servir para separar as águas, para clarificar, para romper e não para consagrar.



BACK TO BASICS – Só da discussão nasce a luz.

O MELHOR DA SEMANA – O plano de trabalho para os próximos dois anos apresentado pela UMIC.

O PIOR DA SEMANA – As informações contraditórias sobre as mudanças no IRS.

A PERGUNTA – No fim de semana, no Congresso do PSD, vai haver clarificação? Surgirá alguma novidade?

SUGESTÃO – O livro «Abrigos», de António Pinto Ribeiro, sobre a influência crescente das cidades e da sua política cultural no mundo em que vivemos.





novembro 07, 2004

SER DO CONTRA

BLOGS – Estas foram as primeiras eleições que viveram sob o constante foco dos blogs. Desde a angariação de fundos até à organização de voluntários para as campanhas, de tudo se passou nos blogs. Penso não ser exagero dizer que os democratas e Kerry eram maioritários na blogosfera. Mas, como se vai comprovando, os Blogs são um novo e extraordinário meio de expressão, mas são ainda um instrumento de minorias e de elites. Não se pode ver o mundo através dos seus olhos, senão começa a haver uma distorção. A multiplicação de vozes pró-Kerry na blogosfera ajudou a dar a ideia de que a opinião pública queria maioritariamente afastar Bush. Afinal não foi nada disso que se verificiou. Há coisas para aprender aqui. Continuando a ver e fazer blogs, claro.

NEGATIVO – Uma campanha eleitoral toda feita contra alguma coisa não é o suficiente para acabar com ela. A prova está aí: provavelmente o maior erro de Kerry foi ser tão obsessivamente do contra, ter dado mais realce às suas opiniões contra Bush do que em mostrar aquilo em que acreditava, em falar das suas propostas e de como as queria concretizar. Como tudo o resto, a política tem que ser feita pela positiva. Falar só pela negativa é uma perca de capacidade de comunicação e de mobilização. As eleições ganham-se a anunciar o que se quer fazer, não o que se quer desfazer.

FLOP – Michael Moore deve estar à beira de um ataque de nervos. O autor de «Fahrenheit-911» bem se esforçou por manipular a opinião pública, mas o efeito prático da forma apalhaçada com que faz uns filmes (que quer fazer passar por documentários) foi afinal bem reduzido – o objectivo confesso do filme (derrubar Bush) – não foi afinal conseguido. Quando se quer mascarar a propaganda como arte, as pessoas acabam por perceber. Pode demorar tempo, mas percebe-se.

POR CÁ – O sindroma do contra é endémico na sociedade portuguesa - e alimentou a figura do Velho do Restelo. Por cá fica sempre bem ser do contra, é sempre mais difícil ser a favor de alguma coisa. A oposição só gosta de dizer aquilo em que está contra o que o Governo faz. Os media gostam sempre de publicar temas contra o Governo e os seus membros. Na Assembleia os deputados falam mais frequentemente das coisas contra as quais entendem manifestar-se, do que daquilo de que são a favor. As opiniões do contra são melhor acolhidas que as opiniões a favor. Ser do contra é bom, ser a favor é mau.

ABSTRACÇÃO – Vamos por um instante imaginar que o Primeiro Ministro não era Pedro Santana Lopes e que o Governo tinha tomado exactamente as mesmas medidas que já tomou. Acham que se assim fosse o número de vozes contra seria maior ou menor? Exercício curioso, não é? – dá que pensar sobre os efeitos de uma coisa que varre a sociedade portuguesa: preconceito.

TABUS – Citado, com a devida vénia, do artigo de capa da edição desta semana da revista britânica «The Spectator»: « Os tabus existem não somente porque são um reflexo de coisas que a opinião geral considera serem más, mas existem também porque contribuem para dar um sentido de unidade e coerência, real ou imaginário, à sociedade. É certo que os tabus não necessitam de ser sujeitos a um mecanismo de avaliação democrática da maioria que os suporta. Geralmente basta que um número suficiente de fazedores de opinião,as grandes organisações de meios de comunicação e a classe política os definam e logo toga a gente se lhes submete.»

BACK TO BASICS – Nunca tomar os desejos por realidades.

O MELHOR DA SEMANA – A maneira como correram as eleições americanas.

O PIOR DA SEMANA – O atraso de Kerry no reconhecimento da derrota.

A PERGUNTA – Que se passará na cabeça de George Soros depois de ter investido mais de 20 milhões de dolares numa campanha anti-Bush?

SUGESTÃO – A edição norte-americana da revista «Esquire» de Novembro, o clássico «The Women We Love Issue», com Angelina Jolie na capa e, lá dentro, a lista dos melhores novos restaurantes dos Estados Unidos.

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SER DO CONTRA



BLOGS – Estas foram as primeiras eleições que viveram sob o constante foco dos blogs. Desde a angariação de fundos até à organização de voluntários para as campanhas, de tudo se passou nos blogs. Penso não ser exagero dizer que os democratas e Kerry eram maioritários na blogosfera. Mas, como se vai comprovando, os Blogs são um novo e extraordinário meio de expressão, mas são ainda um instrumento de minorias e de elites. Não se pode ver o mundo através dos seus olhos, senão começa a haver uma distorção. A multiplicação de vozes pró-Kerry na blogosfera ajudou a dar a ideia de que a opinião pública queria maioritariamente afastar Bush. Afinal não foi nada disso que se verificiou. Há coisas para aprender aqui. Continuando a ver e fazer blogs, claro.



NEGATIVO – Uma campanha eleitoral toda feita contra alguma coisa não é o suficiente para acabar com ela. A prova está aí: provavelmente o maior erro de Kerry foi ser tão obsessivamente do contra, ter dado mais realce às suas opiniões contra Bush do que em mostrar aquilo em que acreditava, em falar das suas propostas e de como as queria concretizar. Como tudo o resto, a política tem que ser feita pela positiva. Falar só pela negativa é uma perca de capacidade de comunicação e de mobilização. As eleições ganham-se a anunciar o que se quer fazer, não o que se quer desfazer.



FLOP – Michael Moore deve estar à beira de um ataque de nervos. O autor de «Fahrenheit-911» bem se esforçou por manipular a opinião pública, mas o efeito prático da forma apalhaçada com que faz uns filmes (que quer fazer passar por documentários) foi afinal bem reduzido – o objectivo confesso do filme (derrubar Bush) – não foi afinal conseguido. Quando se quer mascarar a propaganda como arte, as pessoas acabam por perceber. Pode demorar tempo, mas percebe-se.



POR CÁ – O sindroma do contra é endémico na sociedade portuguesa - e alimentou a figura do Velho do Restelo. Por cá fica sempre bem ser do contra, é sempre mais difícil ser a favor de alguma coisa. A oposição só gosta de dizer aquilo em que está contra o que o Governo faz. Os media gostam sempre de publicar temas contra o Governo e os seus membros. Na Assembleia os deputados falam mais frequentemente das coisas contra as quais entendem manifestar-se, do que daquilo de que são a favor. As opiniões do contra são melhor acolhidas que as opiniões a favor. Ser do contra é bom, ser a favor é mau.



ABSTRACÇÃO – Vamos por um instante imaginar que o Primeiro Ministro não era Pedro Santana Lopes e que o Governo tinha tomado exactamente as mesmas medidas que já tomou. Acham que se assim fosse o número de vozes contra seria maior ou menor? Exercício curioso, não é? – dá que pensar sobre os efeitos de uma coisa que varre a sociedade portuguesa: preconceito.



TABUS – Citado, com a devida vénia, do artigo de capa da edição desta semana da revista britânica «The Spectator»: « Os tabus existem não somente porque são um reflexo de coisas que a opinião geral considera serem más, mas existem também porque contribuem para dar um sentido de unidade e coerência, real ou imaginário, à sociedade. É certo que os tabus não necessitam de ser sujeitos a um mecanismo de avaliação democrática da maioria que os suporta. Geralmente basta que um número suficiente de fazedores de opinião,as grandes organisações de meios de comunicação e a classe política os definam e logo toga a gente se lhes submete.»



BACK TO BASICS – Nunca tomar os desejos por realidades.



O MELHOR DA SEMANA – A maneira como correram as eleições americanas.



O PIOR DA SEMANA – O atraso de Kerry no reconhecimento da derrota.



A PERGUNTA – Que se passará na cabeça de George Soros depois de ter investido mais de 20 milhões de dolares numa campanha anti-Bush?



SUGESTÃO – A edição norte-americana da revista «Esquire» de Novembro, o clássico «The Women We Love Issue», com Angelina Jolie na capa e, lá dentro, a lista dos melhores novos restaurantes dos Estados Unidos.

novembro 05, 2004

Manual da Manipulação
(In «Independências»)

Ingredientes: uma ideia para transmitir, uma fonte minimamente credível (um assessor, um deputado, um dirigente partidário, um membro do Governo), uma boa lista telefónica.
O conceito funciona desta forma: a ideia a transmitir não deve ser uma notícia, mas deve conter a sugestão de que se está por dentro de uma coisa que poderá vir a ser notícia. A fonte escolhe o difusor da ideia, e aqui há duas opções possíveis: ou um influente semanário que nunca investigue os dados que lhe são soprados ao telefone ou à mesa do restaurante, ou então um jornal de segunda linha. No primeiro caso a «dica» poderá ser apenas uma entre muitas «inconfidências», o destaque que tiver depende da competição entre as várias pistas largadas na tarde de sexta-feira para os diligentes transmissores e analistas; no segundo caso, pode ser encarada de forma suficientemente relevante para ser paginada com destaque.
O passo seguinte é sempre o mesmo: o que interessa é conseguir publicar a primeira «dica», a partir daí o processo gira sózinho – essa «dica» vai entrar na agenda das outras redacções e a partir daí os outros media vão trabalhá-la. Isto quer dizer que vão procurar reacções – essa terrível forma de manipular a informação que se tornou uma rotina. A «dica» passa a ter estatuto de verdade incontestada e desde os seus hipotéticos apoiantes até aos seus eventuais opositores todos falam dela como se de facto consumado se tratasse. Com sorte até um «opinio-maker» escreve sobre o assunto. A isto chama-se «fazer a agenda».. Em muitos mais casos do que se imagina criam-se factos artificiais a partir de um simples rumor. Às vezes, assim, impede-se que alguma coisa aconteça. Ou faz-se acontecer o que antes era improvável.

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Manual da Manipulação

(In «Independências»)



Ingredientes: uma ideia para transmitir, uma fonte minimamente credível (um assessor, um deputado, um dirigente partidário, um membro do Governo), uma boa lista telefónica.

O conceito funciona desta forma: a ideia a transmitir não deve ser uma notícia, mas deve conter a sugestão de que se está por dentro de uma coisa que poderá vir a ser notícia. A fonte escolhe o difusor da ideia, e aqui há duas opções possíveis: ou um influente semanário que nunca investigue os dados que lhe são soprados ao telefone ou à mesa do restaurante, ou então um jornal de segunda linha. No primeiro caso a «dica» poderá ser apenas uma entre muitas «inconfidências», o destaque que tiver depende da competição entre as várias pistas largadas na tarde de sexta-feira para os diligentes transmissores e analistas; no segundo caso, pode ser encarada de forma suficientemente relevante para ser paginada com destaque.

O passo seguinte é sempre o mesmo: o que interessa é conseguir publicar a primeira «dica», a partir daí o processo gira sózinho – essa «dica» vai entrar na agenda das outras redacções e a partir daí os outros media vão trabalhá-la. Isto quer dizer que vão procurar reacções – essa terrível forma de manipular a informação que se tornou uma rotina. A «dica» passa a ter estatuto de verdade incontestada e desde os seus hipotéticos apoiantes até aos seus eventuais opositores todos falam dela como se de facto consumado se tratasse. Com sorte até um «opinio-maker» escreve sobre o assunto. A isto chama-se «fazer a agenda».. Em muitos mais casos do que se imagina criam-se factos artificiais a partir de um simples rumor. Às vezes, assim, impede-se que alguma coisa aconteça. Ou faz-se acontecer o que antes era improvável.

outubro 31, 2004

HIPOCRISIA – Em toda a discussão sobre esta questão da liberdade de expressão há duas ou três coisas que merecem ser ditas, que é para não passarmos todos por hipócritas. Em primeiro lugar todos os proprietários de meios de comunicação, aqui e em qualquer país, têm ideias claras sobre o posicionamento editorial que pretendem que seja seguido – as mais das vezes sobre o que não desejam que seja feito – a coisa é mesmo assim; em segundo lugar a independência de jornais, jornalistas ou comentadores é um mito hipócrita – todos têm as suas opções, todos são influenciados a partir do posicionamento que têm; em terceiro lugar o grande problema que existe em Portugal é a falta da saudável transparência dos media anglo-saxónicos que não hesitam em assumir partido e – mais que tomar posição – dizer quem apoiam. A grande hipocrisia está em pensar que agentes políticos possam fazer comentários inocentes ou independentes – na verdade a coisa tem pouco a ver com liberdade de expressão e mais a ver com ética e conflito de interesses.

POLÍTICA – Nesta história alguém mente e talvez convenha revisitar o passado para ver quem tem mais tradições, digamos, de dizer inverdades: se Miguel Paes do Amaral, se Marcelo Rebelo de Sousa. Sem ser demasiado cínico acho que qualquer observador mediano da sociedade portuguesa tem algumas razões para desconfiar da bondade das intenções de Marcelo e sobretudo da sua ingenuidade. Uma frase não muito sublinhada da resposta de Miguel Paes do Amaral a Marcelo, na noite de quarta-feira, revelava tudo. O Presidente da Media Capital disse, preto no branco, que Marcelo tinha agido para poder fazer um aproveitamento político de uma situação. Dias antes tinha afirmado que dentro de alguns meses tudo se perceberia melhor. Que Marcelo conseguiu aproveitamento político neguem duvida. Continuo a achar que a história ainda está por contar e que daqui a algum tempo talvez tudo se esclareça. Por isso me aflige que os juízos sejam feitos na base de presunções.

IMPASSE – As mais recentes sondagens sobre as eleições norte-americanas da próxima terça-feira apontam para uma probabilidade de empate. Estas eleições destinam-se a encontrar os 538 membros do Colégio Eleitoral, que depois hão-de votar o nome do futuro presidente dos EUA. Muitos comentadores apontam para a possibilidade de, mais uma vez, como aconteceu em 2000, o candidato ganhador no voto popular acabe por ter menos apoiantes no colégio eleitoral. Em 2000 votaram 110 milhões de norte-americanos, todos os esforços vão no sentido de diminuir a abstenção e conseguir mais eleitores.

TÁCTICA – Durão Barroso conseguiu dar a volta ao impasse que estava em vias de ser criado no Parlamento Europeu, em relação à votação sobre os nomes dos novos Comissários. Boa gestão de informação e uma actuação táctica com um timing bem preciso proporcionaram um defecho elogiado pela generalidade dos comentadores dos principais jornais europeus. O próprio Buttiglione, o homem no centro de toda a polémica, admitia na imprensa italiana de quinta-feira que talvez já não lhe interessasse ser Comissário.

DIGITAL – A Apple anunciou a edição em finais de Novembro da primeira compilação musical exclusivamente feita para formato de download digital legal. Através da sua I Tunes Music Store, que vende downloads para o leitor I Pod, a Apple, em colaboração com os U2, vai lançar um conjunto de 400 canções do grupo, «The Complete U2», incluindo alguns inéditos e o novo álbum «How To Dismantle An Atomic Bomb» que vai ter a sua edição no formato CD pela mesma altura.


A PERGUNTA DA SEMANA – Quem fala verdade?

BACK TO BASICS – O tempo acaba por esclarecer tudo.

O MELHOR DA SEMANA – As primeiras imagens de Titã, a lua de Saturno que está a ser explorada pela sonda Cassini, da Nasa.

O PIOR DA SEMANA – A morte de John Peel, um dos mais influentes DJ’s da rádio de todo o mundo, que fez a sua carreira na BBC a revelar talentos. Um exemplo de atenção permanente à inovação.

RECOMENDAÇÃO – A revista «Tabacaria», editada em Lisboa pela Casa Fernanda Pessoa, com direcção de arte de João Francisco Vilhena. É um exemplo raro de elegância editorial.

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HIPOCRISIA – Em toda a discussão sobre esta questão da liberdade de expressão há duas ou três coisas que merecem ser ditas, que é para não passarmos todos por hipócritas. Em primeiro lugar todos os proprietários de meios de comunicação, aqui e em qualquer país, têm ideias claras sobre o posicionamento editorial que pretendem que seja seguido – as mais das vezes sobre o que não desejam que seja feito – a coisa é mesmo assim; em segundo lugar a independência de jornais, jornalistas ou comentadores é um mito hipócrita – todos têm as suas opções, todos são influenciados a partir do posicionamento que têm; em terceiro lugar o grande problema que existe em Portugal é a falta da saudável transparência dos media anglo-saxónicos que não hesitam em assumir partido e – mais que tomar posição – dizer quem apoiam. A grande hipocrisia está em pensar que agentes políticos possam fazer comentários inocentes ou independentes – na verdade a coisa tem pouco a ver com liberdade de expressão e mais a ver com ética e conflito de interesses.



POLÍTICA – Nesta história alguém mente e talvez convenha revisitar o passado para ver quem tem mais tradições, digamos, de dizer inverdades: se Miguel Paes do Amaral, se Marcelo Rebelo de Sousa. Sem ser demasiado cínico acho que qualquer observador mediano da sociedade portuguesa tem algumas razões para desconfiar da bondade das intenções de Marcelo e sobretudo da sua ingenuidade. Uma frase não muito sublinhada da resposta de Miguel Paes do Amaral a Marcelo, na noite de quarta-feira, revelava tudo. O Presidente da Media Capital disse, preto no branco, que Marcelo tinha agido para poder fazer um aproveitamento político de uma situação. Dias antes tinha afirmado que dentro de alguns meses tudo se perceberia melhor. Que Marcelo conseguiu aproveitamento político neguem duvida. Continuo a achar que a história ainda está por contar e que daqui a algum tempo talvez tudo se esclareça. Por isso me aflige que os juízos sejam feitos na base de presunções.



IMPASSE – As mais recentes sondagens sobre as eleições norte-americanas da próxima terça-feira apontam para uma probabilidade de empate. Estas eleições destinam-se a encontrar os 538 membros do Colégio Eleitoral, que depois hão-de votar o nome do futuro presidente dos EUA. Muitos comentadores apontam para a possibilidade de, mais uma vez, como aconteceu em 2000, o candidato ganhador no voto popular acabe por ter menos apoiantes no colégio eleitoral. Em 2000 votaram 110 milhões de norte-americanos, todos os esforços vão no sentido de diminuir a abstenção e conseguir mais eleitores.



TÁCTICA – Durão Barroso conseguiu dar a volta ao impasse que estava em vias de ser criado no Parlamento Europeu, em relação à votação sobre os nomes dos novos Comissários. Boa gestão de informação e uma actuação táctica com um timing bem preciso proporcionaram um defecho elogiado pela generalidade dos comentadores dos principais jornais europeus. O próprio Buttiglione, o homem no centro de toda a polémica, admitia na imprensa italiana de quinta-feira que talvez já não lhe interessasse ser Comissário.



DIGITAL – A Apple anunciou a edição em finais de Novembro da primeira compilação musical exclusivamente feita para formato de download digital legal. Através da sua I Tunes Music Store, que vende downloads para o leitor I Pod, a Apple, em colaboração com os U2, vai lançar um conjunto de 400 canções do grupo, «The Complete U2», incluindo alguns inéditos e o novo álbum «How To Dismantle An Atomic Bomb» que vai ter a sua edição no formato CD pela mesma altura.





A PERGUNTA DA SEMANA – Quem fala verdade?



BACK TO BASICS – O tempo acaba por esclarecer tudo.



O MELHOR DA SEMANA – As primeiras imagens de Titã, a lua de Saturno que está a ser explorada pela sonda Cassini, da Nasa.



O PIOR DA SEMANA – A morte de John Peel, um dos mais influentes DJ’s da rádio de todo o mundo, que fez a sua carreira na BBC a revelar talentos. Um exemplo de atenção permanente à inovação.



RECOMENDAÇÃO – A revista «Tabacaria», editada em Lisboa pela Casa Fernanda Pessoa, com direcção de arte de João Francisco Vilhena. É um exemplo raro de elegância editorial.



outubro 27, 2004

PARA ALÉM DOS CEM DIAS
(publicado no dia 26 de Outubro no «Jornal de Negócios»)

1. Cada projecto tem o seu tempo. A saída de Durão Barroso acelerou o fim do seu projecto e apressou mais que uma simples remodelação ou sucessão. Provocou uma mudança. O novo executivo, tendo a mesma base, não é de facto o mesmo Governo - é diferente, no estilo, na substância e na forma. O dia-a-dia não é o mesmo. Reintroduziu no vocabulário político o verbo «mudar», as reformas regressaram – da Lei do Arrendamento, à revisão do financiamento das auto-estradas, passando pelas modificações no sistema de saúde. E, claro, há mudanças na maneira de encarar a política económica e financeira. Lembram-se do côro que no tempo de Manuela Ferreira Leite clamava por mais maleabilidade nas finanças, que pedia incentivos à economia? Não aconteceu uma ruptura, mas, se olharmos seis meses para trás, vê-se como algumas das questões que andavam paradas começaram a dar sinais de vida. Desde há muitos anos este parece ser o executivo mais reformista.

2. Em meados do primeiro semestre deste ano existia, um pouco por todo o lado, uma sensação de paralisia. O Governo tinha perdido o ímpeto reformista dos primeiros meses, a única estratégia conhecida era a da inflexível restrição orçamental. Em sectores económicos, políticos, sociais e culturais dizia-se à boca cheia que estava tudo parado. A oposição, é certo, não existia, estava ela própria paralisada. No ar sentia-se o peculiar cheiro da paz pôdre. O país estava adiado e ainda não tinha dado por isso.
O Governo de Durão Barroso arrancou enérgico mas perdeu velocidade em cada compromisso que fazia. Em vez de remover os escolhos foi contornando-os, sempre pelo caminho mais longo. Na prática, tinha deixado de governar e falava-se à boca cheia da necessidade de uma remodelação – recordam-se?

3. Este Governo tomou posse porque tem uma legitimidade eleitoral que ninguém conseguiu desmentir, porque tem uma base de apoio parlamentar que o Presidente da República teve que admitir e porque o PS nem tinha sequer na altura condições para tentar organizar qualquer espécie de alternativa. Mas para um número significativo de observadores, tomou posse porque não existia outra solução – e isto é que os irrita, terem sido apanhados tão distraídos. Para algumas elites foi uma enorme indigestão: perdoem-me a expressão mas, para muitos bem pensantes, foi como se os descamisados tivessem chegado ao poder. Nunca tinham previsto esta hipótese. Julgavam o assunto confinado e controlado. Enganaram-se porque pensaram mais neles próprios do que no desconforto que percorria o país. Uma boa parte do PSD estava confortavelmente sentada na cadeira do poder sem muitos incómodos, à espera que a legislatura decorresse confortável e sem demasiadas mudanças ou rupturas. Por uns anos, parecia, a vida estava tratada.

4. Por tudo isto, este Governo começou debaixo de uma razoável dose de desconfiança – oposição interna e aberta dentro do PSD, oposição ideológica aguerrida do Bloco de Esquerda e contemplação distante do PS, nesse tempo ainda ocupado a procurar uma solução de sucessão interna. Este Governo ainda não tinha feito nada e já estava a ser criticado, nem tinha apresentado Programa e já tinha declarações antecipadas de voto contra. Nunca, em tempos recentes, um executivo começou a funcionar sob tão permanente observação ao microscópio. Este Governo nunca viveu sob Estado de Graça, teve tolerância zero – em boa parte porque a sua liderança suscita tudo menos indiferença. Para a maioria dos críticos o problema deste Governo reside em Santana Lopes, no seu estilo, na sua forma. A fulanização da política regressou em força. Pelo menos a coisa teve o mérito de provocar uma separação das águas.

5. Nesta semana começaram a publicar-se os habituais balanços dos cem dias do executivo. Cem dias são três meses – quase nada num ciclo de Governo, mesmo que este tenha menos de dois anos de horizonte. Vamos olhar bem de frente: em cem dias já se fez alguma coisa, que a bem dizer estava parada há pelo menos doze meses. Mas não é isso o fundamental: é claro que houve erros, é claro que aconteceram precipitações, é claro que às vezes a táctica foi mais valorizada que a estratégia. Isso é tudo verdade – mas também é verdade que se começou a agir, que a máquina voltou a andar – e o que aconteceu na educação é um dramático sinal da paralisia que existia.

6. Gostava de fazer aqui uma comparação com a música: há seis meses ninguém diria que isto tinha acontecido – juntaram-se na mesma banda músicos que não contavam estar juntos em cima do palco, ainda por cima com um solista que estava a pensar noutras canções. O resultado foi igual ao de qualquer boa «jam-session» – de início demora-se tempo a encontrar o compasso certo, o ritmo desejado, a conjugar harmonias. A seu tempo as peças juntam-se. Eu acho que já se sente que isso está a acontecer e é o receio de que daqui saia, afinal, alguma música que faça sentido que preocupa tanto, tanta gente. É claro que pelo meio convém que os músicos se ouçam uns aos outros e percebam quem está a desafinar. A surdez, nestas coisas, é fatal.

7. Qualquer projecto demora algum tempo a conseguir encontrar o seu rumo. Peguemos num novo jornal que nasce – quantas vezes os primeiros meses são desesperantes, quando tudo parece correr ao contrário do que queríamos e tínhamos imaginado? Nestas alturas o que há a fazer é ver bem o que se passa e ir corrigindo, ir acertando, ir procurando. Quem lança novos projectos sabe que a culpa dos problemas nunca é dos outros, como também nunca é dos observadores e, em última análise, dos eleitores e muito menos dos detractores e da concorrência. A culpa do que não corre bem é sempre nossa e a chave do êxito é descobrir o que não vai bem e corrigi-lo.

8. O pior que pode acontecer ao poder é tornar-se dono de todas as certezas e ficar cinzento. Tem que existir a capacidade de ouvir e a de pôr em causa o que se fez. Da mesma forma, todo o poder que perca a capacidade de se rir de si próprio está destinado a dias difíceis. Há uma velha máxima que eu gosto sempre de recordar: quando estamos muito envolvidos num projecto, convém saltar para fora dele e observá-lo de longe. Ouvir os outros, sentir o humor e ver a realidade é meio caminho andado para uma boa imagem. A outra metade vive da articulação de duas coisas fundamentais: quando a estratégia parece confusa, a táctica tem de ser clara; e mais vale apresentar obra feita, do que anunciar o que não se sabe quando será concretizado. A forma é importante no exercício do poder – e retomando a nossa «jam session» - há momentos em que mais vale diminuir o som dos amplificadores, só assim o cantor pode ganhar espaço para a sua voz.

9. A forma de exercer o poder condiciou Barroso, no seu permanente jogo de equilíbrios e de consensos que é a sua forma de agir, bem revelada agora na Comissão Europeia. É a recusa da forma convencionada de utilização do poder que está prejudicar Santana. O poder tem rituais – uns que vale a pena cumprir, outros nem por isso – mas o sistema não tolera os iconoclastas. Não sou adepto da teoria das cabalas, mas olho à minha volta e sei que existe preconceito, despeito, má vontade generalizada: desde as nossas fracas e muito oportunistas elites até aos nossos media que, vezes demais, continuam a ter dificuldade em separar informação de opinião, em separar a notícia do comentário, em separar a verdade do preconceito.
Recordam-se das acusações de populismo de há três meses? Foram esquecidas rapidamente, quando as reformas começaram pela parte mais difícil, com mais custos de opinião pública, quando em vez de medidas eleiçoeiras foram tomadas decisões difíceis.

10. Na semana passada li duas entrevistas de George Soros, nas quais ele explicava porque gastou para cima de 20 milhões de dolares da sua fortuna pessoal em campanhas contra Bush. Confessando-se um centrista nato diz que o seu principal objectivo é conseguir fazer mover o centro da posição demasiado à direita para onde Bush o levou, trazendo-o de novo para o seu lugar original, no centro. É uma reflexão curiosa. Mas Soros preconiza sobretudo mudanças sensíveis no funcionamento do sistema político, apela à existência de «think tanks» que sirvam de consciência crítica permanente do poder, a uma melhor articulação e relação com os media, e à criação de grupos de acção cívica que encontrem formas de mobilizar os jovens e levá-los a participar no governo da sociedade. São coisas evidentes. Mas de tão evidentes serem, convém tê-las sempre presentes, sobretudo quando é mesmo preciso mudar o sistema.










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PARA ALÉM DOS CEM DIAS

(publicado no dia 26 de Outubro no «Jornal de Negócios»)



1. Cada projecto tem o seu tempo. A saída de Durão Barroso acelerou o fim do seu projecto e apressou mais que uma simples remodelação ou sucessão. Provocou uma mudança. O novo executivo, tendo a mesma base, não é de facto o mesmo Governo - é diferente, no estilo, na substância e na forma. O dia-a-dia não é o mesmo. Reintroduziu no vocabulário político o verbo «mudar», as reformas regressaram – da Lei do Arrendamento, à revisão do financiamento das auto-estradas, passando pelas modificações no sistema de saúde. E, claro, há mudanças na maneira de encarar a política económica e financeira. Lembram-se do côro que no tempo de Manuela Ferreira Leite clamava por mais maleabilidade nas finanças, que pedia incentivos à economia? Não aconteceu uma ruptura, mas, se olharmos seis meses para trás, vê-se como algumas das questões que andavam paradas começaram a dar sinais de vida. Desde há muitos anos este parece ser o executivo mais reformista.



2. Em meados do primeiro semestre deste ano existia, um pouco por todo o lado, uma sensação de paralisia. O Governo tinha perdido o ímpeto reformista dos primeiros meses, a única estratégia conhecida era a da inflexível restrição orçamental. Em sectores económicos, políticos, sociais e culturais dizia-se à boca cheia que estava tudo parado. A oposição, é certo, não existia, estava ela própria paralisada. No ar sentia-se o peculiar cheiro da paz pôdre. O país estava adiado e ainda não tinha dado por isso.

O Governo de Durão Barroso arrancou enérgico mas perdeu velocidade em cada compromisso que fazia. Em vez de remover os escolhos foi contornando-os, sempre pelo caminho mais longo. Na prática, tinha deixado de governar e falava-se à boca cheia da necessidade de uma remodelação – recordam-se?



3. Este Governo tomou posse porque tem uma legitimidade eleitoral que ninguém conseguiu desmentir, porque tem uma base de apoio parlamentar que o Presidente da República teve que admitir e porque o PS nem tinha sequer na altura condições para tentar organizar qualquer espécie de alternativa. Mas para um número significativo de observadores, tomou posse porque não existia outra solução – e isto é que os irrita, terem sido apanhados tão distraídos. Para algumas elites foi uma enorme indigestão: perdoem-me a expressão mas, para muitos bem pensantes, foi como se os descamisados tivessem chegado ao poder. Nunca tinham previsto esta hipótese. Julgavam o assunto confinado e controlado. Enganaram-se porque pensaram mais neles próprios do que no desconforto que percorria o país. Uma boa parte do PSD estava confortavelmente sentada na cadeira do poder sem muitos incómodos, à espera que a legislatura decorresse confortável e sem demasiadas mudanças ou rupturas. Por uns anos, parecia, a vida estava tratada.



4. Por tudo isto, este Governo começou debaixo de uma razoável dose de desconfiança – oposição interna e aberta dentro do PSD, oposição ideológica aguerrida do Bloco de Esquerda e contemplação distante do PS, nesse tempo ainda ocupado a procurar uma solução de sucessão interna. Este Governo ainda não tinha feito nada e já estava a ser criticado, nem tinha apresentado Programa e já tinha declarações antecipadas de voto contra. Nunca, em tempos recentes, um executivo começou a funcionar sob tão permanente observação ao microscópio. Este Governo nunca viveu sob Estado de Graça, teve tolerância zero – em boa parte porque a sua liderança suscita tudo menos indiferença. Para a maioria dos críticos o problema deste Governo reside em Santana Lopes, no seu estilo, na sua forma. A fulanização da política regressou em força. Pelo menos a coisa teve o mérito de provocar uma separação das águas.



5. Nesta semana começaram a publicar-se os habituais balanços dos cem dias do executivo. Cem dias são três meses – quase nada num ciclo de Governo, mesmo que este tenha menos de dois anos de horizonte. Vamos olhar bem de frente: em cem dias já se fez alguma coisa, que a bem dizer estava parada há pelo menos doze meses. Mas não é isso o fundamental: é claro que houve erros, é claro que aconteceram precipitações, é claro que às vezes a táctica foi mais valorizada que a estratégia. Isso é tudo verdade – mas também é verdade que se começou a agir, que a máquina voltou a andar – e o que aconteceu na educação é um dramático sinal da paralisia que existia.



6. Gostava de fazer aqui uma comparação com a música: há seis meses ninguém diria que isto tinha acontecido – juntaram-se na mesma banda músicos que não contavam estar juntos em cima do palco, ainda por cima com um solista que estava a pensar noutras canções. O resultado foi igual ao de qualquer boa «jam-session» – de início demora-se tempo a encontrar o compasso certo, o ritmo desejado, a conjugar harmonias. A seu tempo as peças juntam-se. Eu acho que já se sente que isso está a acontecer e é o receio de que daqui saia, afinal, alguma música que faça sentido que preocupa tanto, tanta gente. É claro que pelo meio convém que os músicos se ouçam uns aos outros e percebam quem está a desafinar. A surdez, nestas coisas, é fatal.



7. Qualquer projecto demora algum tempo a conseguir encontrar o seu rumo. Peguemos num novo jornal que nasce – quantas vezes os primeiros meses são desesperantes, quando tudo parece correr ao contrário do que queríamos e tínhamos imaginado? Nestas alturas o que há a fazer é ver bem o que se passa e ir corrigindo, ir acertando, ir procurando. Quem lança novos projectos sabe que a culpa dos problemas nunca é dos outros, como também nunca é dos observadores e, em última análise, dos eleitores e muito menos dos detractores e da concorrência. A culpa do que não corre bem é sempre nossa e a chave do êxito é descobrir o que não vai bem e corrigi-lo.



8. O pior que pode acontecer ao poder é tornar-se dono de todas as certezas e ficar cinzento. Tem que existir a capacidade de ouvir e a de pôr em causa o que se fez. Da mesma forma, todo o poder que perca a capacidade de se rir de si próprio está destinado a dias difíceis. Há uma velha máxima que eu gosto sempre de recordar: quando estamos muito envolvidos num projecto, convém saltar para fora dele e observá-lo de longe. Ouvir os outros, sentir o humor e ver a realidade é meio caminho andado para uma boa imagem. A outra metade vive da articulação de duas coisas fundamentais: quando a estratégia parece confusa, a táctica tem de ser clara; e mais vale apresentar obra feita, do que anunciar o que não se sabe quando será concretizado. A forma é importante no exercício do poder – e retomando a nossa «jam session» - há momentos em que mais vale diminuir o som dos amplificadores, só assim o cantor pode ganhar espaço para a sua voz.



9. A forma de exercer o poder condiciou Barroso, no seu permanente jogo de equilíbrios e de consensos que é a sua forma de agir, bem revelada agora na Comissão Europeia. É a recusa da forma convencionada de utilização do poder que está prejudicar Santana. O poder tem rituais – uns que vale a pena cumprir, outros nem por isso – mas o sistema não tolera os iconoclastas. Não sou adepto da teoria das cabalas, mas olho à minha volta e sei que existe preconceito, despeito, má vontade generalizada: desde as nossas fracas e muito oportunistas elites até aos nossos media que, vezes demais, continuam a ter dificuldade em separar informação de opinião, em separar a notícia do comentário, em separar a verdade do preconceito.

Recordam-se das acusações de populismo de há três meses? Foram esquecidas rapidamente, quando as reformas começaram pela parte mais difícil, com mais custos de opinião pública, quando em vez de medidas eleiçoeiras foram tomadas decisões difíceis.



10. Na semana passada li duas entrevistas de George Soros, nas quais ele explicava porque gastou para cima de 20 milhões de dolares da sua fortuna pessoal em campanhas contra Bush. Confessando-se um centrista nato diz que o seu principal objectivo é conseguir fazer mover o centro da posição demasiado à direita para onde Bush o levou, trazendo-o de novo para o seu lugar original, no centro. É uma reflexão curiosa. Mas Soros preconiza sobretudo mudanças sensíveis no funcionamento do sistema político, apela à existência de «think tanks» que sirvam de consciência crítica permanente do poder, a uma melhor articulação e relação com os media, e à criação de grupos de acção cívica que encontrem formas de mobilizar os jovens e levá-los a participar no governo da sociedade. São coisas evidentes. Mas de tão evidentes serem, convém tê-las sempre presentes, sobretudo quando é mesmo preciso mudar o sistema.





















outubro 25, 2004

AS FLORES – Era muito mais cómodo escrever sobre flores nesta semana que fechou. Há quem escreva sobre a outonal queda das folhas, há quem disserte sobre a Turquia, há quem se refugie no futebol. Deixemos o interlúdio. Há muita coisa que não vai bem, e o melhor seria encarar os assuntos de frente. O autismo, nos círculos do poder, pode revestir a forma de uma epidemia mortífera.

A MÁSCARA – Há poucos dias o advogado José Sá Fernandes deixou cair a máscara: depois de provocar a interrupção das obras do túnel do Marquês, e a escasssas semanas de existir uma decisão sobre o assunto, veio requerer que fosse restabelecido o pavimento. Prova-se assim que o seu objectivo não tem a bondade que sugere, mas apenas o de evitar, de facto, a concretização de obras públicas, desde que isso lhe dê exposição. Depois de meses sem se preocupar com os incómodos e prejuízos que causou, deu-lhe um súbito acesso de bondade? Mais curioso é o facto de ter feito constar nas redacções dos jornais que o requerimento sobre o assunto estava entregue, antes mesmo de ele dar entrada nos serviços da Câmara Municipal. Afinal que pretende: impacto mediático ou acção concreta? Que triste figura...

A POLÉMICA – Continuo a achar que a memória é o nosso melhor arquivo, um dos nossos bons instrumentos de trabalho que nunca devemos desprezar. Anda tudo numa roda viva sobre a liberdade de imprensa, sobre a independência dos órgãos de comunicação do Estado, mas ninguém se lembra como, há uns anos atrás, surgiram os nomes de Joaquim Vieira e Joaquim Furtado para a Direcção da RTP, e, mais tarde de Emídio Rangel? Basta uma consulta detalhada à imprensa da época para se ver quem, dentro do Governo da época, eram os impulsionadores dessas nomeações. Nas redacções deve haver quem se recorde do que as fontes contavam por essa época. Na altura não houve o actual coro de protestos, apesar de terem existido de facto decisões, em vez de um curioso debate sobre a regulação, que é o que agora existiu. Pode ser que se tenham apagado muitas diferenças entre a esquerda e a direita, mas continuam a existir preconceitos, até entre os mais insuspeitos. Vista a frio, a coisa é assim: nas redacções continua a seguir-se o lema de que quando a esquerda actua se deve ser complacente, quando a direita sugere se deve ser implacável; a esquerda é vestida para aparecer como criativa, a direita como manipuladora. Este livro de estilo dos justiceiros é o que de pior existe no jornalismo português – e que tem origens, causas e métodos bem conhecidos. Não vale a pena sermos hipócritas: em matéria de condicionamento político da comunicação social este Governo é um menino de côro, comparado com as diatribes do Dr. Jorge Coelho. Embora encoberta e não publicada em «Diário da República», a central de informação do Governo era bem mais eficaz e notória nessa época – será que já não anda por aí ninguém que estivesse nas redacções nessa época?

BACK TO BASICS – Só se devem publicar correcções ou desmentidos referentes a factos que tenhamos reportado, e não em relação ao que foi reportado por terceiros (do livro de estilo da Associated Press, citado de memória).

O MELHOR DA SEMANA – A nova agenda cultural da Câmara Municipal de Lisboa, a «Agenda Lx». Jorge Silva voltou a acertar no alvo com um grafismo claro, elegante e moderno – três características que, em geral, muita falta fazem.

O PIOR DA SEMANA – A carga policial de quarta-feira na Universidade de Coimbra. Os anos passam, a forma de agir da polícia não muda – e não presta.

A PERGUNTA DA SEMANA – Numa semana tão barulhenta como é que ninguém falou do ruído?

RECOMENDAÇÃO –A banda sonora do filme De-Lovely, baseado em canções de Cole Porter, com Sheryl Crow, Elvis Costello, Diana Krall, Ashley Judd, Robbie Williams e Alanis Morissette, entre outros.

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AS FLORES – Era muito mais cómodo escrever sobre flores nesta semana que fechou. Há quem escreva sobre a outonal queda das folhas, há quem disserte sobre a Turquia, há quem se refugie no futebol. Deixemos o interlúdio. Há muita coisa que não vai bem, e o melhor seria encarar os assuntos de frente. O autismo, nos círculos do poder, pode revestir a forma de uma epidemia mortífera.



A MÁSCARA – Há poucos dias o advogado José Sá Fernandes deixou cair a máscara: depois de provocar a interrupção das obras do túnel do Marquês, e a escasssas semanas de existir uma decisão sobre o assunto, veio requerer que fosse restabelecido o pavimento. Prova-se assim que o seu objectivo não tem a bondade que sugere, mas apenas o de evitar, de facto, a concretização de obras públicas, desde que isso lhe dê exposição. Depois de meses sem se preocupar com os incómodos e prejuízos que causou, deu-lhe um súbito acesso de bondade? Mais curioso é o facto de ter feito constar nas redacções dos jornais que o requerimento sobre o assunto estava entregue, antes mesmo de ele dar entrada nos serviços da Câmara Municipal. Afinal que pretende: impacto mediático ou acção concreta? Que triste figura...



A POLÉMICA – Continuo a achar que a memória é o nosso melhor arquivo, um dos nossos bons instrumentos de trabalho que nunca devemos desprezar. Anda tudo numa roda viva sobre a liberdade de imprensa, sobre a independência dos órgãos de comunicação do Estado, mas ninguém se lembra como, há uns anos atrás, surgiram os nomes de Joaquim Vieira e Joaquim Furtado para a Direcção da RTP, e, mais tarde de Emídio Rangel? Basta uma consulta detalhada à imprensa da época para se ver quem, dentro do Governo da época, eram os impulsionadores dessas nomeações. Nas redacções deve haver quem se recorde do que as fontes contavam por essa época. Na altura não houve o actual coro de protestos, apesar de terem existido de facto decisões, em vez de um curioso debate sobre a regulação, que é o que agora existiu. Pode ser que se tenham apagado muitas diferenças entre a esquerda e a direita, mas continuam a existir preconceitos, até entre os mais insuspeitos. Vista a frio, a coisa é assim: nas redacções continua a seguir-se o lema de que quando a esquerda actua se deve ser complacente, quando a direita sugere se deve ser implacável; a esquerda é vestida para aparecer como criativa, a direita como manipuladora. Este livro de estilo dos justiceiros é o que de pior existe no jornalismo português – e que tem origens, causas e métodos bem conhecidos. Não vale a pena sermos hipócritas: em matéria de condicionamento político da comunicação social este Governo é um menino de côro, comparado com as diatribes do Dr. Jorge Coelho. Embora encoberta e não publicada em «Diário da República», a central de informação do Governo era bem mais eficaz e notória nessa época – será que já não anda por aí ninguém que estivesse nas redacções nessa época?



BACK TO BASICS – Só se devem publicar correcções ou desmentidos referentes a factos que tenhamos reportado, e não em relação ao que foi reportado por terceiros (do livro de estilo da Associated Press, citado de memória).



O MELHOR DA SEMANA – A nova agenda cultural da Câmara Municipal de Lisboa, a «Agenda Lx». Jorge Silva voltou a acertar no alvo com um grafismo claro, elegante e moderno – três características que, em geral, muita falta fazem.



O PIOR DA SEMANA – A carga policial de quarta-feira na Universidade de Coimbra. Os anos passam, a forma de agir da polícia não muda – e não presta.



A PERGUNTA DA SEMANA – Numa semana tão barulhenta como é que ninguém falou do ruído?



RECOMENDAÇÃO –A banda sonora do filme De-Lovely, baseado em canções de Cole Porter, com Sheryl Crow, Elvis Costello, Diana Krall, Ashley Judd, Robbie Williams e Alanis Morissette, entre outros.

outubro 21, 2004

COINCIDÊNCIA
A «Visão» publica hoje um curioso artigo intitulado «Como Eles Se Aturam», dedicado ao relacionamento Presidente da República-Primeiro Ministro. A tese do artigo é a de que o Primeiro Ministro teria optado por tentar provocar eleições antecipadas depois de despoletado o «caso Marcelo».
Já agora reza a verdade cronológica dos factos que algumas semanas antes do «caso Marcelo» algumas fontes próximas de Belém, como agora é hábito dizer-se, faziam correr que nos corredores da Presidência da República se estudavam cenários para uma dissolução do Parlamento. Era uma daqueles rumores que, nas doutas palavras do Presidente da República, se incluem na categoria de ruídos que circulam nas redacções.
Quer-me pois parecer que este artigo da «Visão» cumpriria bem o objectivo de tapar o sol com a peneira, se por acaso fosse essa a intenção.

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COINCIDÊNCIA

A «Visão» publica hoje um curioso artigo intitulado «Como Eles Se Aturam», dedicado ao relacionamento Presidente da República-Primeiro Ministro. A tese do artigo é a de que o Primeiro Ministro teria optado por tentar provocar eleições antecipadas depois de despoletado o «caso Marcelo».

Já agora reza a verdade cronológica dos factos que algumas semanas antes do «caso Marcelo» algumas fontes próximas de Belém, como agora é hábito dizer-se, faziam correr que nos corredores da Presidência da República se estudavam cenários para uma dissolução do Parlamento. Era uma daqueles rumores que, nas doutas palavras do Presidente da República, se incluem na categoria de ruídos que circulam nas redacções.

Quer-me pois parecer que este artigo da «Visão» cumpriria bem o objectivo de tapar o sol com a peneira, se por acaso fosse essa a intenção.

outubro 18, 2004

PLÁSTICA - Nos últimos anos criou-se uma doentia misturada entre política e informação. Primeiro, protagonistas da política foram convidados para comentadores; depois criou-se-lhes um estatuto implícito de comunicadores, mais próximos do entretenimento que do jornalismo; pelo meio sofreram uma operação plástica que fez passar protagonistas da vida política por opinadores independentes – que de facto nunca poderiam ser. Na realidade não exprimiam opiniões, limitavam-se a ser instrumentos de ambições ou campanhas – e nisto não há uma única excepção à vista.

SECRETO - Outro lado desta misturada, eventualmente mais grave, tem a ver com o estabelecimento de agendas políticas transformados em pseudo informação.Muito do que é publicado vive de rumores, de fontes não identificadas, de hábeis campanhas de informação e contra-informação em que os jornalistas não são os descodificadores (nem sequer os mediadores) mas meras correias de transmissão. É como se, por exemplo, numa determinada ocasião um jornal publicasse a informação de que existia um acordo secreto para uma futura coligação pós eleitoral, com o único objectivo de esconder a existência de um verdadeiro acordo pré-eleitoral com os mesmos protagonistas. De quem é a culpa de uma desinformação: de quem veicula a notícia – mas não é identificado formalmente – ou de quem a publica, dando apenas ouvidos a sopradores de rumores?

RUÍDOS- Não sei se era a estes rumores, a estas intrigas que todos os dias atravessam todas as redacções do país, que o Presidente da República se referia quando na semana passada, enquanto no estrangeiro, decidiu comentar a actualidade portuguesa, construindo um raciocínio baseado em «ruídos» que se ouviriam nas redacções. Espanta-me que um Presidente da República baseie uma análise em ruídos, mas deve ser sinal dos tempos – afinal , de facto, qualquer Presidente chega ao lugar por ser um político – não vale a pena pretendermos que não sofra dos males que atravessam os partidos e quem neles habita.

PARTIDO - E agora, os partidos, essas uniões de interesses que nos governam e que tão desajustadas são da sociedade. Cada vez compreendo menos a existência dos partidos tais como os conhecemos: nos últimos 30 anos são responsáveis pelo aumento da abstenção, pouco fizeram para reformar o sistema, procuram manter o «status quo» e impedem a entrada de novos protagonistas, privilegiam o seguidismo sobre o espírito crítico e declaradamente assumem a ausência de estratégia como uma vantagem e o excesso de táctica como uma qualidade. Se o melhor que os partidos têm para nos oferecer é isto a que assistimos nos últimos dez dias, então havemos de concordar que o espectáculo não é bonito de se ver – por alguma razão a «Quinta das Celebridades» faz rir e o noticiário político deprime.

REACÇÃO – O estilo jornalismo-reacção é o exemplo da parcialidade de muita informação: quando um facto é sistematicamente confrontado com reacções isto não é a procura de cotraditório, é a tentativa de impedir que o facto seja noticiado de forma clara e que os comentários ao que aconteceu superem a própria notícia original que os motiva.

BACK TO BASICS – Os jornalistas fazem perguntas; os políticos respondem a perguntas.

O MELHOR DA SEMANA – A réplica de António Mexia aos autarcas algarvios.

O PIOR DA SEMANA – 55% da classe A-B vê regualramente a «Quinta das Celebridades».

A PERGUNTA DA SEMANA – Quem reparou no reaparecimento do «Grupo da Sueca» na última quinzena?

RECOMENDAÇÃO – O disco «Canções Subterrâneas», do grupo A Naifa.

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PLÁSTICA - Nos últimos anos criou-se uma doentia misturada entre política e informação. Primeiro, protagonistas da política foram convidados para comentadores; depois criou-se-lhes um estatuto implícito de comunicadores, mais próximos do entretenimento que do jornalismo; pelo meio sofreram uma operação plástica que fez passar protagonistas da vida política por opinadores independentes – que de facto nunca poderiam ser. Na realidade não exprimiam opiniões, limitavam-se a ser instrumentos de ambições ou campanhas – e nisto não há uma única excepção à vista.



SECRETO - Outro lado desta misturada, eventualmente mais grave, tem a ver com o estabelecimento de agendas políticas transformados em pseudo informação.Muito do que é publicado vive de rumores, de fontes não identificadas, de hábeis campanhas de informação e contra-informação em que os jornalistas não são os descodificadores (nem sequer os mediadores) mas meras correias de transmissão. É como se, por exemplo, numa determinada ocasião um jornal publicasse a informação de que existia um acordo secreto para uma futura coligação pós eleitoral, com o único objectivo de esconder a existência de um verdadeiro acordo pré-eleitoral com os mesmos protagonistas. De quem é a culpa de uma desinformação: de quem veicula a notícia – mas não é identificado formalmente – ou de quem a publica, dando apenas ouvidos a sopradores de rumores?



RUÍDOS- Não sei se era a estes rumores, a estas intrigas que todos os dias atravessam todas as redacções do país, que o Presidente da República se referia quando na semana passada, enquanto no estrangeiro, decidiu comentar a actualidade portuguesa, construindo um raciocínio baseado em «ruídos» que se ouviriam nas redacções. Espanta-me que um Presidente da República baseie uma análise em ruídos, mas deve ser sinal dos tempos – afinal , de facto, qualquer Presidente chega ao lugar por ser um político – não vale a pena pretendermos que não sofra dos males que atravessam os partidos e quem neles habita.



PARTIDO - E agora, os partidos, essas uniões de interesses que nos governam e que tão desajustadas são da sociedade. Cada vez compreendo menos a existência dos partidos tais como os conhecemos: nos últimos 30 anos são responsáveis pelo aumento da abstenção, pouco fizeram para reformar o sistema, procuram manter o «status quo» e impedem a entrada de novos protagonistas, privilegiam o seguidismo sobre o espírito crítico e declaradamente assumem a ausência de estratégia como uma vantagem e o excesso de táctica como uma qualidade. Se o melhor que os partidos têm para nos oferecer é isto a que assistimos nos últimos dez dias, então havemos de concordar que o espectáculo não é bonito de se ver – por alguma razão a «Quinta das Celebridades» faz rir e o noticiário político deprime.



REACÇÃO – O estilo jornalismo-reacção é o exemplo da parcialidade de muita informação: quando um facto é sistematicamente confrontado com reacções isto não é a procura de cotraditório, é a tentativa de impedir que o facto seja noticiado de forma clara e que os comentários ao que aconteceu superem a própria notícia original que os motiva.



BACK TO BASICS – Os jornalistas fazem perguntas; os políticos respondem a perguntas.



O MELHOR DA SEMANA – A réplica de António Mexia aos autarcas algarvios.



O PIOR DA SEMANA – 55% da classe A-B vê regualramente a «Quinta das Celebridades».



A PERGUNTA DA SEMANA – Quem reparou no reaparecimento do «Grupo da Sueca» na última quinzena?



RECOMENDAÇÃO – O disco «Canções Subterrâneas», do grupo A Naifa.



outubro 12, 2004

COMO SE FABRICA A TEORIA DE UMA CONSPIRAÇÃO
Na noite de segunda-feira dia 11 não faltaram comentadores, dentro e fora da blogosfera, a afirmar, insinuar, sugerir, que o facto de a comunicação do Primeiro Ministro ter passado em horários diferentes nas várias estações de TV seria o resultado de uma manobra premeditada para perpetuar ao longo de uma hora, em diversos canais, as imagens dessa mesma comunicação.
Claro que se a opção das estações fosse por um simultâneo, as mesmas vozes diriam que se tratava de uma demonstração que Portugal estava no Burkina Faso e que o Primeiro Ministro impunha a sua presença em todos os ecrãs, ao mesmo tempo.
Mas, adiante. Vamos aos factos:
1- A gravação da comunicação foi feita pela RTP e pela RDP, e o seu sinal foi facultado a todos os outros operadores, com a indicção que seria emitido em simultãneo, por meios técnicos previamente ajustados, a partir das 20h00
2- A gravação decorreu e terminou antes dos telejornais das várias estações e o sinal foi fornecido, às 20h00 em ponto, pelos competentes serviços técnicos da RTP e RDP em «clean feed», directo, para todas as estações (Canal 1 da RTP, SIC e TVI, além das estações de rádio, obviammente). A emissão saíu do edifício da Marechal Gomes da Costa em simultâneo para toda a gente.
3- A maneira como cada uma das estações emitiu foi fruto de opções editoriais de cada uma - serão discutíveis, mas foram escolhas de cada um. A SIC, como se viu, optou por manter o directo logo que foi libertado o seu conteúdo e foi a primeira a emitir, logo na abertura do seu jornal, as imagens distribuídas pela central de emissão da RTP; o Canal 1 da RTP entendeu abordar outros assuntos do dia e emitir, em diferido, cerca das oito e meia; e a TVI optou igualmente pelo diferido, ainda mais tarde.

Sugere-se aos autores e divulgadores da grande teoria da conspiração que investiguem se o que acima se relata corresponde ou não à realidade dos factos.

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COMO SE FABRICA A TEORIA DE UMA CONSPIRAÇÃO

Na noite de segunda-feira dia 11 não faltaram comentadores, dentro e fora da blogosfera, a afirmar, insinuar, sugerir, que o facto de a comunicação do Primeiro Ministro ter passado em horários diferentes nas várias estações de TV seria o resultado de uma manobra premeditada para perpetuar ao longo de uma hora, em diversos canais, as imagens dessa mesma comunicação.

Claro que se a opção das estações fosse por um simultâneo, as mesmas vozes diriam que se tratava de uma demonstração que Portugal estava no Burkina Faso e que o Primeiro Ministro impunha a sua presença em todos os ecrãs, ao mesmo tempo.

Mas, adiante. Vamos aos factos:

1- A gravação da comunicação foi feita pela RTP e pela RDP, e o seu sinal foi facultado a todos os outros operadores, com a indicção que seria emitido em simultãneo, por meios técnicos previamente ajustados, a partir das 20h00

2- A gravação decorreu e terminou antes dos telejornais das várias estações e o sinal foi fornecido, às 20h00 em ponto, pelos competentes serviços técnicos da RTP e RDP em «clean feed», directo, para todas as estações (Canal 1 da RTP, SIC e TVI, além das estações de rádio, obviammente). A emissão saíu do edifício da Marechal Gomes da Costa em simultâneo para toda a gente.

3- A maneira como cada uma das estações emitiu foi fruto de opções editoriais de cada uma - serão discutíveis, mas foram escolhas de cada um. A SIC, como se viu, optou por manter o directo logo que foi libertado o seu conteúdo e foi a primeira a emitir, logo na abertura do seu jornal, as imagens distribuídas pela central de emissão da RTP; o Canal 1 da RTP entendeu abordar outros assuntos do dia e emitir, em diferido, cerca das oito e meia; e a TVI optou igualmente pelo diferido, ainda mais tarde.



Sugere-se aos autores e divulgadores da grande teoria da conspiração que investiguem se o que acima se relata corresponde ou não à realidade dos factos.

outubro 11, 2004

RICOCHETE - Estatística recente diz que Portugal é, de entre todos os Estados da União Europeia alargada, aquele onde se verifica maior fosso entre os muito ricos e os muito pobres e, também, aquele que tem maior percentagem da população (20%) nos níveis de pobreza. Esta é uma das razões pelas quais faz sentido considerar como prioridade nacional medidas de carácter social que possam contribuir para melhorar esta situação. Isto só se conseguirá se o Estado tiver mais meios, ou seja, se conseguir diminuir a despesa noutros sectores. É provavelmente este raciocínio que leva a tocar naquilo que tem sido sempre intocável – uma classe média relativamente recente, mas ainda muito instável e insegura, que não é pobre, mas está longe de ser abastada – e que vive dilacerada no receio da falência do Estado-providência. A ideia, justa, de que o Estado deve seguir o princípio de utilizador-pagador tem certamente por objectivo libertar recursos para implementar políticas sociais para os mais desfavorecidos. Mas as medidas sociais devem sempre ser pensadas para não provocar ricochete, para não se virarem contra quem as implementa – esse é um princípio base da acção política, sobretudo daquela que tem por objectivo defender os interesses dos mais fracos e criar igualdade de oportunidades. Em matéria de política social a coligação vive um dilema: pode o PP ficar com a fama de polícia bom, e o PSD viver com a de polícia mau? A política não pode ser um remake de brincadeiras de «polícias & ladrões».

INTERESSANTE - O Ministério francês da Cultura e Comunicação anunciou que os canais subvencionados pelo Estado, Arte e grupo France Telévision, teriam um aumento de 2,3% nas dotações previstas no orçamento de 2005.

RÁDIO - Lee Abrams foi o homem que nos anos 70 revolucionou a rádio nos Estados Unidos e, depois na Europa. Foi um dos gurus das playlists e das rádios formatadas – como as pioneiras AOR (Album Oriented Rock) - e um dos pioneiros da pesquisa de gostos dos ouvintes.. Pelo caminho, é certo, acabou por contribuir para matar a inovação em matéria musical – mas descobriu como fidelizar audiências. Agora ele está de novo na berra com o trabalho que tem feito na XM, um conjunto de estações de rádio digital de transmissão satélite, que cobrem todos os Estados Unidos. Os novos carros vêm equipados com receptores que permitem ouvir o sinal, mediante o pagamento de uma assinatura de dez dólares mensais. Já existem 2,5 milhões de assinantes e as perspectivas apontam para 20 milhões em 1910. As técnicas de compressão digital que a emissão satélite permite, possibilitam que a XM tenha mais de 130 canais diferentes, cada um para seu género musical, algumas mesmo para pequenos grupos. Os observadores dizem que a XM, e o trabalho de Lee Abrams, estão a revolucionar a rádio e a devolver-lhe o estatuto que ela tinha há duas décadas atrás. Aqui está uma história para seguir. O Governo federal americano concedeu as duas primeiras licenças de emissão rádio via satélite em 1997. E por cá?

BACK TO BASICS – Em democracia há Governo e há oposição.

A PERGUNTA DA SEMANA – O que é que marcou mais o Congresso do PS: a entrada de telepontos na actividade política ou o discurso de Jaime Gama?

O MELHOR DA SEMANA – O artigo «Reféns de Nós Próprios», de João Carlos Espada, no «Expresso» do passado sábado. Excerto: «Temos um sistema soviético de educação, totalmente dirigido por burocratas e computadores, com emprego garantido para quem já o tem, com salários médios superiores ao da OCDE , e totalmente indiferente aos resultados obtidos por cada escola e por cada professor».

O PIOR DA SEMANA – Em Portugal, no ano de 2003, não foram feitas 143 mil análises para assegurar os níveis de qualidade da água, de entre as cerca de um milhão que são obrigatórias.

RECOMENDAÇÃO – O CD «Índigo», de Bernardo Sassetti.

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RICOCHETE - Estatística recente diz que Portugal é, de entre todos os Estados da União Europeia alargada, aquele onde se verifica maior fosso entre os muito ricos e os muito pobres e, também, aquele que tem maior percentagem da população (20%) nos níveis de pobreza. Esta é uma das razões pelas quais faz sentido considerar como prioridade nacional medidas de carácter social que possam contribuir para melhorar esta situação. Isto só se conseguirá se o Estado tiver mais meios, ou seja, se conseguir diminuir a despesa noutros sectores. É provavelmente este raciocínio que leva a tocar naquilo que tem sido sempre intocável – uma classe média relativamente recente, mas ainda muito instável e insegura, que não é pobre, mas está longe de ser abastada – e que vive dilacerada no receio da falência do Estado-providência. A ideia, justa, de que o Estado deve seguir o princípio de utilizador-pagador tem certamente por objectivo libertar recursos para implementar políticas sociais para os mais desfavorecidos. Mas as medidas sociais devem sempre ser pensadas para não provocar ricochete, para não se virarem contra quem as implementa – esse é um princípio base da acção política, sobretudo daquela que tem por objectivo defender os interesses dos mais fracos e criar igualdade de oportunidades. Em matéria de política social a coligação vive um dilema: pode o PP ficar com a fama de polícia bom, e o PSD viver com a de polícia mau? A política não pode ser um remake de brincadeiras de «polícias & ladrões».



INTERESSANTE - O Ministério francês da Cultura e Comunicação anunciou que os canais subvencionados pelo Estado, Arte e grupo France Telévision, teriam um aumento de 2,3% nas dotações previstas no orçamento de 2005.



RÁDIO - Lee Abrams foi o homem que nos anos 70 revolucionou a rádio nos Estados Unidos e, depois na Europa. Foi um dos gurus das playlists e das rádios formatadas – como as pioneiras AOR (Album Oriented Rock) - e um dos pioneiros da pesquisa de gostos dos ouvintes.. Pelo caminho, é certo, acabou por contribuir para matar a inovação em matéria musical – mas descobriu como fidelizar audiências. Agora ele está de novo na berra com o trabalho que tem feito na XM, um conjunto de estações de rádio digital de transmissão satélite, que cobrem todos os Estados Unidos. Os novos carros vêm equipados com receptores que permitem ouvir o sinal, mediante o pagamento de uma assinatura de dez dólares mensais. Já existem 2,5 milhões de assinantes e as perspectivas apontam para 20 milhões em 1910. As técnicas de compressão digital que a emissão satélite permite, possibilitam que a XM tenha mais de 130 canais diferentes, cada um para seu género musical, algumas mesmo para pequenos grupos. Os observadores dizem que a XM, e o trabalho de Lee Abrams, estão a revolucionar a rádio e a devolver-lhe o estatuto que ela tinha há duas décadas atrás. Aqui está uma história para seguir. O Governo federal americano concedeu as duas primeiras licenças de emissão rádio via satélite em 1997. E por cá?



BACK TO BASICS – Em democracia há Governo e há oposição.



A PERGUNTA DA SEMANA – O que é que marcou mais o Congresso do PS: a entrada de telepontos na actividade política ou o discurso de Jaime Gama?



O MELHOR DA SEMANA – O artigo «Reféns de Nós Próprios», de João Carlos Espada, no «Expresso» do passado sábado. Excerto: «Temos um sistema soviético de educação, totalmente dirigido por burocratas e computadores, com emprego garantido para quem já o tem, com salários médios superiores ao da OCDE , e totalmente indiferente aos resultados obtidos por cada escola e por cada professor».



O PIOR DA SEMANA – Em Portugal, no ano de 2003, não foram feitas 143 mil análises para assegurar os níveis de qualidade da água, de entre as cerca de um milhão que são obrigatórias.



RECOMENDAÇÃO – O CD «Índigo», de Bernardo Sassetti.

DE VOLTA AO NORMAL

Ao fim de quase um ano de crise no PS, eis que volta a haver oposição. O discurso de abertura do Congresso feito por José Sócrates foi muito claro: o alvo é Santana Lopes, mais que o Governo da coligação. Sócrates sabe de onde lhe vem o perigo e não perdeu tempo com minudências.
Uma das consequências deste singelo facto de ter voltado a existir oposição no nosso país, é que se torna mesmo necessário que o Governo faça o que lhe compete – governar. Os primeiros sinais – reformas polémicas, antes anunciadas, mas que andavam de facto empatadas há dois anos ( como a revisão da Lei das Rendas) – já aí estão. Agora falta o resto. A oposição vai atacar o Governo pelo que ele fizer e pelo que deixar de fazer – não vale a pena criar grandes ilusões. Quer isto dizer que quanto melhor fôr o Governo, mais espaço vai ocupar à oposição – essa é a lógica da democracia.
A outra consequência do Congresso do PS, que será também curioso seguir nos próximos tempos, tem a ver com o que irá suceder às oposiçõeszitas que têm ocupado o lugar deixado vago pelo PS – o Bloco de Esquerda e, sobretudo, os sindicatos. O discurso de Jorge Coelho no sábado passado, em apoio de Jaime Gama e José Sócrates, e rejeitando coligações à esquerda, é um sinal claro de como o PS quer recuperar o seu espaço próprio.
O PSD terá sobejas razões para se preocupar nos próximos tempos com uma marcação mais cerrada do PS, mas a verdade é que a vitória de Sócrates vai também provocar um separar das águas à esquerda. Que é que isto quer dizer? - Começou a luta pelo centro.

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DE VOLTA AO NORMAL



Ao fim de quase um ano de crise no PS, eis que volta a haver oposição. O discurso de abertura do Congresso feito por José Sócrates foi muito claro: o alvo é Santana Lopes, mais que o Governo da coligação. Sócrates sabe de onde lhe vem o perigo e não perdeu tempo com minudências.

Uma das consequências deste singelo facto de ter voltado a existir oposição no nosso país, é que se torna mesmo necessário que o Governo faça o que lhe compete – governar. Os primeiros sinais – reformas polémicas, antes anunciadas, mas que andavam de facto empatadas há dois anos ( como a revisão da Lei das Rendas) – já aí estão. Agora falta o resto. A oposição vai atacar o Governo pelo que ele fizer e pelo que deixar de fazer – não vale a pena criar grandes ilusões. Quer isto dizer que quanto melhor fôr o Governo, mais espaço vai ocupar à oposição – essa é a lógica da democracia.

A outra consequência do Congresso do PS, que será também curioso seguir nos próximos tempos, tem a ver com o que irá suceder às oposiçõeszitas que têm ocupado o lugar deixado vago pelo PS – o Bloco de Esquerda e, sobretudo, os sindicatos. O discurso de Jorge Coelho no sábado passado, em apoio de Jaime Gama e José Sócrates, e rejeitando coligações à esquerda, é um sinal claro de como o PS quer recuperar o seu espaço próprio.

O PSD terá sobejas razões para se preocupar nos próximos tempos com uma marcação mais cerrada do PS, mas a verdade é que a vitória de Sócrates vai também provocar um separar das águas à esquerda. Que é que isto quer dizer? - Começou a luta pelo centro.



outubro 03, 2004

MANIPULAÇÃO - Uma das mais curiosas transformações dos últimos tempos é o aperfeiçoamento da forma como os sindicatos portugueses aprenderam a utilizar os media. No decurso do último ano e meio assiste-se a uma operação bem montada de sistemática divulgação de opiniões de líderes e porta-vozes laborais e sindicais, tratadas como se de notícias se tratassem, todas obviamente no mesmo sentido, que têm por único objectivo dar uma ideia de multiplicação de posições contra o Governo. Muitas vezes uma acção em si, do executivo ou do patronato, é menos noticiada que as reacções que ela suscita. Esta forma de encarar opiniões como se de matéria noticiosa se tratasse é uma dos problemas maiores que atravessa a comunicação em Portugal nestes dias que correm. Esta forma de encarar e trabalhar a informação é manipulação pura e simples, é, quase apetece dizer, a extensão contemporânea da luta de classes.

PARCIALIDADE – Uma leitura e audição atenta das notícias mostra que elas são muitas vezes apresentadas sob a forma de uma interpretação do que aconteceu e não como um relato do que sucedeu. Notícias que começam na negativa (fulano ainda não declarou se faz isto ou aquilo) induzem a pensar que o sujeito da notícia está a falhar qualquer obrigação, o que já é de si um juízo de valor. A utilização abusiva de termos valorativos em vez de descritivos difunde uma opinião em vez de reportar um acontecimento. Este jornalismo «apimentado» por adjectivos e advérbios, fundamentalmente opinativo, está no cerne de uma forma de agir que é tendenciosa. É cada vez mais oportuno reler «Bias- A CBS insider exposes how the media distort the news», de Bernard Goldberg, uma referência do jornalismo norte-americano, que insiste num facto simples: os jornalistas ignoram muitas vezes a sua missão primária: informação objectiva e desinteressada. Goldberg vai mais longe: os preconceitos liberais e de esquerda são os responsáveis pelas mais frequentes manipulações dos factos.

ABUSO – Usa-se e abusa-se da citação, nas mais das vezes uma muleta desnecessária que só serve para ocupar espaço.. Na imprensa escrita citações de fontes políticas não identificadas servem para espalhar a pequena intriga; na rádio ou na televisão o uso e abuso de depoimentos serve para difundir opiniões, muitas vezes não qualificadas, com o único objectivo de ocupar espaço de antena. Em todos os casos o que se mostra não é uma notícia – é uma opinião ou, pior uma insinuação. Nada de relevante: Nada que mereça sequer ser publicado. O propósito da citação deve ser obter em primeira mão a descrição do sucedido por testemunhas dos factos, não registar a sua opinião. A opinião, sendo por si só importante nas sociedades e na comunicação, é a mais irrelevante de todas as coisas no meio de uma notícia.

CÍRCULO FECHADO – Cada vez mais há medias que funcionam em círculo fechado: recados de jornalistas para políticos, destes uns para os outros, e por aí fora. Alguns semanários parecem mais newsletters de grupos de interesses que jornais ou revistas.

BACK TO BASICS – Quando se está num buraco pára-se de cavar.

A PERGUNTA DA SEMANA – Porque é que José Veiga e Pinto da Costa se tratam de forma tão ordinária e têm tanta cobertura com isso?

O MAIS CURIOSO DA SEMANA – Bush folgado à frente de Kerry nas sondagens. Apesar de tudo, apesar dos filmes, dos documentários e da propaganda.

O MELHOR DA SEMANA – O livro «Pela China Dentro, uma viagem de 12 anos», do jornalista António Caeiro, que durante esse tempo foi correspondente da agência Lusa em Pequim – logo a seguir aos incidentes da Praça de Tiananmen. Relatos deliciosos, com um enorme espírito de observação, das grandes mudanças que percorriam um país e uma sociedade.

O PIOR DA SEMANA – O tratamento mediático do desaparecimento da jovem Joana e das investigações sobre o seu assassínio.

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MANIPULAÇÃO - Uma das mais curiosas transformações dos últimos tempos é o aperfeiçoamento da forma como os sindicatos portugueses aprenderam a utilizar os media. No decurso do último ano e meio assiste-se a uma operação bem montada de sistemática divulgação de opiniões de líderes e porta-vozes laborais e sindicais, tratadas como se de notícias se tratassem, todas obviamente no mesmo sentido, que têm por único objectivo dar uma ideia de multiplicação de posições contra o Governo. Muitas vezes uma acção em si, do executivo ou do patronato, é menos noticiada que as reacções que ela suscita. Esta forma de encarar opiniões como se de matéria noticiosa se tratasse é uma dos problemas maiores que atravessa a comunicação em Portugal nestes dias que correm. Esta forma de encarar e trabalhar a informação é manipulação pura e simples, é, quase apetece dizer, a extensão contemporânea da luta de classes.



PARCIALIDADE – Uma leitura e audição atenta das notícias mostra que elas são muitas vezes apresentadas sob a forma de uma interpretação do que aconteceu e não como um relato do que sucedeu. Notícias que começam na negativa (fulano ainda não declarou se faz isto ou aquilo) induzem a pensar que o sujeito da notícia está a falhar qualquer obrigação, o que já é de si um juízo de valor. A utilização abusiva de termos valorativos em vez de descritivos difunde uma opinião em vez de reportar um acontecimento. Este jornalismo «apimentado» por adjectivos e advérbios, fundamentalmente opinativo, está no cerne de uma forma de agir que é tendenciosa. É cada vez mais oportuno reler «Bias- A CBS insider exposes how the media distort the news», de Bernard Goldberg, uma referência do jornalismo norte-americano, que insiste num facto simples: os jornalistas ignoram muitas vezes a sua missão primária: informação objectiva e desinteressada. Goldberg vai mais longe: os preconceitos liberais e de esquerda são os responsáveis pelas mais frequentes manipulações dos factos.



ABUSO – Usa-se e abusa-se da citação, nas mais das vezes uma muleta desnecessária que só serve para ocupar espaço.. Na imprensa escrita citações de fontes políticas não identificadas servem para espalhar a pequena intriga; na rádio ou na televisão o uso e abuso de depoimentos serve para difundir opiniões, muitas vezes não qualificadas, com o único objectivo de ocupar espaço de antena. Em todos os casos o que se mostra não é uma notícia – é uma opinião ou, pior uma insinuação. Nada de relevante: Nada que mereça sequer ser publicado. O propósito da citação deve ser obter em primeira mão a descrição do sucedido por testemunhas dos factos, não registar a sua opinião. A opinião, sendo por si só importante nas sociedades e na comunicação, é a mais irrelevante de todas as coisas no meio de uma notícia.



CÍRCULO FECHADO – Cada vez mais há medias que funcionam em círculo fechado: recados de jornalistas para políticos, destes uns para os outros, e por aí fora. Alguns semanários parecem mais newsletters de grupos de interesses que jornais ou revistas.



BACK TO BASICS – Quando se está num buraco pára-se de cavar.



A PERGUNTA DA SEMANA – Porque é que José Veiga e Pinto da Costa se tratam de forma tão ordinária e têm tanta cobertura com isso?



O MAIS CURIOSO DA SEMANA – Bush folgado à frente de Kerry nas sondagens. Apesar de tudo, apesar dos filmes, dos documentários e da propaganda.



O MELHOR DA SEMANA – O livro «Pela China Dentro, uma viagem de 12 anos», do jornalista António Caeiro, que durante esse tempo foi correspondente da agência Lusa em Pequim – logo a seguir aos incidentes da Praça de Tiananmen. Relatos deliciosos, com um enorme espírito de observação, das grandes mudanças que percorriam um país e uma sociedade.



O PIOR DA SEMANA – O tratamento mediático do desaparecimento da jovem Joana e das investigações sobre o seu assassínio.



setembro 28, 2004

DEBATE – Apesar dos ataques pessoais iniciais – às vezes a roçarem a intriga - o debate em torno das eleições para Secretário-Geral significa um considerável avanço em termos da actividade partidária em Portugal. Na verdade trata-se de umas eleições primárias entre vários candidatos do mesmo partido, que durante umas semanas mostraram diferenças, expuseram divergências, delinearam estratégias e tácticas para o futuro. É um bom princípio – contraria a perversão do unanimismo, os debates redutores dos Congressos (cada vez menos interessantes...), estende a discussão à própria sociedade. É certo que o modelo das «primárias», nos Estados Unidos, dura vários meses e acaba por ser o processo determinante – lá as Convenções são apenas um ritual de celebração, mais mediático que outra coisa, e tão previsível que as próprias televisões já começaram a deixar de lhes dar grande importância. O PS foi o primeiro partido a seguir, e bem, esta via que, por acaso, já havia sido proposta para o PSD há uns anos por Pedro Santana Lopes.

AULAS – Vale a pena recordar aqui uma questão básica: a primeira obrigação do Estado é em relação aos alunos. Isto parece uma evidência mas o que é facto é que, ao longo dos anos, o Ministério da Educação tem conseguido afastar-se progressivamente dos alunos, parecendo apostado em ser mais uma estrutura de defesa dos professores do que dos educandos. Acho que não é exagero dizer-se que todo o funcionamento do Ministério da Educação se organiza em torno das carreiras dos Professores, dos seus direitos, do que dos deveres do Estado para com os alunos e suas famílias. Talvez esteja aqui, nesta recorrente forma de pensar e trabalhar no Ministério da Educação ao longo de décadas, uma das explicações para todos os problemas que nos últimas semanas saltaram para a opinião pública. E este era um bom assunto a debater: quem deve o Ministério da Educação considerar uma prioridade?

PARLAMENTO – Leio nos jornais e não acredito: «deputados faltaram em massa ao debate sobre o novo código da estrada». O que se passa nas estradas portuguesas brada aos céus, a mudança do Código é imperiosa, a penalização severa das infracções é uma necessidade, a actualização dos conceitos e das regras uma evidência e os deputados não querem saber? Milhares de acidentes e de vítimas não são motivo suficiente para motivarem o plenário, que se enche por qualquer querela política de sgunda no período de antes da ordem do dia? Mas mais espantoso ainda é ter lido algures que alguma oposição classificava de repressivas em excesso algumas das novas medidas previstas. E como classificam a atitude do juiz que mandou em liberdade, sem medidas de coacção, sem sequer interdição de condução, o responsável por um acidente que numa noite destas matou duas jovens em pleno centro de Lisboa e ainda por cima se pôs em fuga?

BACK TO BASICS – Fazer é melhor que falar.

O MELHOR DA SEMANA – O terminal rodoviário foi para Sete Rios e no seu antigo local, no Arco do Cego, vai nascer um jardim. Aos poucos a cidade vai mudando.

O PIOR DA SEMANA – O Sporting- Marítimo.

A PERGUNTA – Será que os clubes de futebol não sabem que quando vendem direitos de transmissão dos jogos são supostos venderem espectáculo e não apenas imagens de 22 homens a correrem num relvado?

SUGESTÃO – A arrebatadora interpretação dos Scherzi e Impromptus de Chopin pelo pianista chinês Yundi Li, sim o do anúncio da Nike.