maio 15, 2026

OS NÚMEROS DOS JORNAIS E SUGESTÕES DIVERSAS

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A IMPRENSA ENCOLHIDA - A propósito do Dia Mundial da Imprensa, que se assinalou a 3 de Maio, foi divulgado que Portugal ocupa agora a 10ª posição no índice da liberdade de imprensa, quando no ano passado ocupava o 8º lugar, um mau sinal para o país. Mas há outros sinais preocupantes. Segundo o INE e a Marktest em 2024 existiam em Portugal 860 publicações periódicas. Verifica-se assim que o número de publicações tem vindo a diminuir, sendo hoje menos de metade do registado em 2004, quando se contabilizavam 2064 publicações. Isto significa que, em 20 anos, o país perdeu 1204 títulos. Em 183 dos 308 concelhos do país é editada pelo menos uma publicação periódica e em 62 destes existem 3 ou mais. Nos restantes 125 concelhos não existe nenhuma. O mesmo estudo indica que  Lisboa é o concelho onde é editado o maior número de publicações (228), representando 26.5% do total do país. Porto, Oeiras, Coimbra e Sintra completam a lista dos cinco concelhos com maior número de publicações periódicas em 2024, com um total de 379 títulos, 44% do total. Outro sinal preocupante:  face ao observado há 20 anos, em 68 concelhos passou a não existir nenhuma publicação  e em Amadora, Funchal, Chaves, Gondomar, Almada, Seia, Faro, Arcos de Valdevez, Olhão, Pombal e Vila Nova de Cerveira esse número baixou mais de 80%.  Em termos absolutos, foi em Lisboa que mais diminuíu o número de publicações (menos 459), a que se seguiram os concelhos de Oeiras e Porto (ambos com menos 58 publicações), Funchal (menos 36) e Amadora (menos 29). Olhemos agora ainda mais para trás: é muito interessante comparar o que era o universo mediático português em 1974 e o que se passa hoje em dia. Em 1974 existiam, só em Lisboa e no Porto, mais de uma dezena de jornais diários generalistas, hoje existem apenas quatro, um deles exclusivamente online. Os números são duros.

SEMANADA - Cem dias depois da tempestade Kristin ainda há estradas cortadas, pinhais cheios de árvores caídas no chão, comunicações sem funcionar; um terço das detenções por abuso sexual tem origem, em denúncias das escolas; em quatro anos foram afastados 129 agentes e militares da GNR e desde que Luís Neves entrou no Ministério da Administração Interna já foram afastados e expulsos 44 elementos das forças  de segurança; nos últimos cinco anos nasceram em Portugal 200 crianças com mães que tinham mais de 50 anos;  há oito mil professores que estão a dar aulas em escolas a mais de 50 quilómetros de casa, percorrendo diariamente pelo menos 100 quilómetros para poderem ensinar; no ano passado os profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) comunicaram 3429 episódios de violência de que foram vítimas, mais 33 por cento do que em 2024; no ano passado Portugal recusou mais de mil pedidos de asilo, os pedidos pendentes duplicaram e chegam quase aos 8800; há mais de 95 mil pedidos de junta médica em lista de espera há mais de um ano; há cerca de 40 mil jacarandás em Lisboa e estão a começar a florir.

 

O ARCO DA VELHA - A despesa fiscal com os residentes não habituais quase triplicou em cinco anos, atingindo 1,7 mil milhões de euros em 2024 segundo a Inspecção-Geral de Finanças, que alerta para fragilidades no controlo deste tipo de benefícios fiscais e para a ausência de uma avaliação sobre os seus efeitos económicos e orçamentais.

 

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A BIENAL -  A abertura da Bienal de Veneza na semana passada gerou mais notícias sobre protestos políticos diversos do que sobre a arte apresentada, o que é o retrato perfeito da feira de activismos em que a edição deste ano da Bienal se transformou. Nos pavilhões nacionais havia de tudo, desde a mulher austríaca nua, montada numa moto de água, que dava voltas circulares dentro de um grande tanque, até muitas instalações e performances, frequentemente baseadas na utilização de vídeo e de efeitos sonoros. Dirão que é sinal dos tempos e da presença da tecnologia no nosso quotidiano, mas é também sinal de um deslumbramento, frequentemente inconsequente, convenientemente ornamentado com roupagens ideológicas de ocasião. Alexandre Estrela, com “RedSkyFalls” é a representação oficial portuguesa, apresentada como um cruzamento entre a investigação científica e artística tendo como pano de fundo a neurociência. Regressando ao tema geoestratégico, se falarmos de exposições políticas vale a pena visitar “Still Joy” no Palazzo Contarini Polignac, onde um grupo de artistas ucraniamos mostra, em diversos suportes, a imagem da resistência do país à invasão russa, de forma muitas vezes impressionante. Mas a Bienal é também pretexto para em alguns locais da cidade outros artistas apresentarem de forma independente obras que não estão a concurso mas onde muitas vezes se encontra o que de melhor se pode ver. Vou passar de lado os clássicos incontornáveis que estão na Academia ou na Scuola Grande di San Rocco, e que ali coexistem com obras de Marina Abramovic e Jan Fabre. Mas chamo a atenção a quem se deslocar a Veneza para as fotografias a preto e branco da Itália dos anos 90 pela indiana Dayanita Singh, no Archivio di Stato di Venezia e sobretudo para a magnífica exposição de pintura “The Promise Of Change” do artista queniano Michael Armitage, uma produção da Colecção Pinault no Palazzo Grassi. A força da pintura revela-se também numa importante presença independente portuguesa, a exposição XIV STEPS de Pedro Cabrita Reis que percorre em dípticos de grandes dimensões as 14 estações da Via Sacra, bem expostas no Magazzini del Sale da Academia de Belas Artes de Veneza (na imagem), visitada na inauguração pelo Cardeal Tolentino Mendonça que escreveu um dos textos do catálogo. 

 

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ROTEIRO - Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais estão duas novas exposições, “Man Machine” de Miguel Palma (na imagem) e “Direito à Plasticidade” de Marta Soares, ambas com curadoria de Miguel von Hafe Pérez e que podem ser vistas até 5 de Julho. Na Galeria Salgadeiras, em Lisboa, Rita Gaspar Vieira apresenta até 20 de Junho uma série de novas pinturas na exposição “Tabique”. No Instituto Cervantes, em Lisboa a fotógrafa espanhola Beatriz Ruibal apresenta até 18 de Julho “Inventário- Os Objectos Olham para Nós”, 25 fotografias realizadas entre 2020 e 2023 baseando-se numa investigação nas vidas de escritores e escritoras de língua espanhola, a maioria já falecida, para reconstruir biografias diferentes das usuais, oferecendo uma nova perspetiva sobre a relação entre os objetos e as histórias pessoais de vários criadores e criadoras. Na Culturgest João Penalva assinala até 12 de Julho os seus 50 anos de trabalho com a exposição “Personagens e Intérpretes”. que reúne uma dezena das suas peças mais importantes, com curadoria de Bruno Marchand. 

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O QUE FICA DA VIDA - Escrever obituários exige investigação, uma dose de distanciamento e até por vezes algum humor. Um bom obituário não é uma biografia mas permite conhecer o pensamento e a obra do falecido, saber o que dele pensam os próximos e os menos próximos, e compreender a vida que levou. Uma das páginas de obituários mais célebres da imprensa portuguesa é a do semanário “Expresso” que já teve vários autores e actualmente está entregue a Carla Quevedo, que resolveu dar aos seus escritos semanais o título “Vidas Perfeitas”. Agora juntou mais de 110 desses obituários num livro a que também adequadamente deu o mesmo título, “Vidas Perfeitas”, o que permite voltar a descobrir estas vidas de uma forma diferente do que na rapidez das páginas de um jornal. No fundo este livro é uma enciclopédia de vidas. Aqui se cruzam nomes portugueses e estrangeiros, como as das  cantoras Astrud Gilberto e Françoise Hardy, da actriz Jane Birkin, da galerista e mecenas Maria da Graça Carmona e Costa, do cineasta António-Pedro Vasconcelos, dos estilistas Manuel Alves e Giorgio Armani, dos escritores Martin Amis e Mario Vargas Llosa, dos fotógrafos Sebastião Salgado e Eduardo Gageiro, do mafioso Matteo Messina Denaro ou do mercenário Yevgeny Prigozhin. Miguel Esteves Cardoso, que escreveu o prefácio do livro, termina o seu texto com uma pergunta:”para que é que a vida serve? para ler livros como “A Vida Perfeita” é a resposta”. Edição Quetzal.

 

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MESA DE CABECEIRA - Os diplomatas têm sempre muitas histórias que vão vivendo ao longo dos anos e que, muitas vezes, ficam perdidas nas suas memórias pessoais . Quando têm um agudo sentido de observação, uma estimável dose de humor e resolvem contar algumas dessas histórias, de forma discreta mas precisa, o resultado só pode ser delicioso. O embaixador José Bouza Serrano junta esses atributos, de observação, humor e bom português, e o resultado é o livro  “Esta Coisa da Vida Não É Nada Fácil - memórias inconvenientes de um diplomata de carreira”. Ao longo de cerca de 200 páginas, Bouza Serrano percorre memórias de 22 episódios um pouco por todo o mundo, da Irlanda a Beirute, passando pela Noruega. As histórias são bem acompanhadas por desenhos também cheios de humor de Amaro Della Quercia, numa edição Oficina do Livro. O outro livro da semana é muito adequado aos dias que correm, “História Concisa da União Europeia”, por Kiran Klais Patel, o responsável pela cátedra de História Moderna da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique. Nesta obra, originalmente publicada na Alemanha em 2022, o autor percorre as décadas de construção da União Europeia, nas suas diversas fases, de 1950 a 1969, depois de 1969 a 1992 e finalmente de 1992 a 2009. O autor fez para a edição portuguesa um prefácio onde aborda o processo de entrada de Portugal na União Europeia. Edição Casa das Letras.

 

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JAZZ TRIO - O baterista Peter Erskine, o pianista Alan Pasqua e o baixista Scott Colley puseram de pé o magnífico álbum “Peregrine” que percorre onze faixas, algumas compostas por Pasqua e Erskine e versões  de “Bop Be” de Keith Jarrett, “God Only Knows” dos Beach Boys, “Poetry Man” de  Phoebe Snow (com a participação de Kate Lamont na voz, Bob Sheppard no saxofone e Brian Kilgore na percussão) e “Wichita Lineman” de Jimmy Webb. Erskine descreve este seu trabalho como “o álbum que sempre desejei fazer”. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Uma reforma equilibrada exige convergência nos vários domínios. Como está a ser feita, é muito duvidoso que a reforma laboral traga grandes benefícios ao país” - Luís Aguiar Conraria, no Expresso.

 

BACK TO BASICS - “O jazz estimula-nos o pensamento, o reggae faz o nosso corpo mexer, mas os blues são o que nos devolve a alma” - Taj Mahal, um dos grandes músicos de blues, ainda activo aos 84 anos.

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS