maio 16, 2026

O MOMENTO ANTES DA PARTIDA

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Gosto de comboios. Arrisco até dizer que gosto de todos os comboios - os de brincar, os a sério, os rápidos, até dos lentos. Tenho pena de não andar mais de comboio mas já se sabe que o panorama ferroviário do país não ajuda. Por exemplo: desde cedo habituei-me a andar de comboio na linha da Beira Baixa, foi a minha aprendizagem, a descoberta dos cruzamentos do Entroncamento, a segunda etapa da viagem, a procura da plataforma onde estaria o comboio que me levaria ao meu destino. Até essa linha da Beira Baixa está fechada desde as tempestades de fevereiro e não se sabe ainda quando abrirá. Não é a única, as obras na ferrovia prolongam-se sempre por mais tempo do que se imaginava, são as novas obras de Santa Engrácia. O incumprimento de prazos é uma doença crónica do Estado português e ainda não houve Governo que tivesse o dom de melhorar o panorama. Mas quando se entra num comboio para uma viagem longa tudo se esquece: gosto de olhar pela janela e ver a paisagem passar, quando chove ver as gotas de água a escorrer, gosto até dos solavancos, e, sobretudo, gosto de misturar olhar pela janela e ir lendo o jornal ou um livro. E gosto das estações, desde as centrais nas grandes cidades, até aos pequenos apeadeiros onde os comboios só param de vez em quando. Gosto de as ver ao anoitecer, de sentir as luzes que iluminam as pessoas que estão à espera nas plataformas. E gosto de ver as linhas desenhadas pelo carris, essa esquadria que modela o horizonte e nos abre o caminho, como nesta fotografia, aquele instante antes do comboio chegar.