maio 30, 2026

AS MÃOS DA MÚSICA

 

IMG_1177.jpg

Desde cedo ocupo uma parte dos meus dias a ouvir música e, ao longo dos anos, fui variando de géneros musicais. Nos anos 60 ouvia a pop francesa da época, depois a pop britânica e, mais tarde, a música da costa oeste dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo ia descobrindo o jazz na rádio pela mão dos “cinco minutos” do Zé Duarte, e em casa ouvia o que o meu Pai punha a tocar, quase sempre música clássica, com uma predominância pelo piano, um gosto que ele me deixou de herança. Desde cedo fiquei fascinado por dois instrumentos bem diferentes: a guitarra eléctrica e o piano. Tanto vibrava com um solo de Jimi Hendrix como com o jazz que brotava do piano de Bill Evans ou de Alfred Brendel, um favorito lá de casa. Ainda hoje, ao fim do dia ponho quase sempre música a tocar, faz-me bem ter esse momento de isolamento do resto do mundo. A música é um encanto estranho, uma aventura humana. Bem sei que a música nasce no cérebro, mas são as mãos que a transportam para a podermos ouvir. Na realidade as mãos têm um papel decisivo na música, na expressão que é conseguida, no ritmo que é marcado, na sonoridade final. Sem mãos que acariciem o teclado o piano não vive. São as mãos do pianista que despertam as teclas e lhes dão vida. Sempre achei que o movimento das mãos dos pianistas é como um bailado, para o qual gosto de olhar. Tanto pensei nelas que, no início deste ano, resolvi fotografar as mãos de um pianista, amigo e cúmplice, o Nuno Vieira de Almeida, enquanto ele estudava para um recital. Andei à sua volta, à procura do movimento das mãos. Fixei-o em sete imagens que estão expostas até 20 de Junho na Galeria Diferença, em Lisboa. Esta é uma delas. A exposição chama-se “Um Piano”.