junho 29, 2008

A ARTE DE NADA FAZER

(Publicado no diário Meia Hora de 25 de Junho)

 


Uma das especialidades da acção política é conseguir parecer que se faz muito, sem nada fazer de facto. Por exemplo José Sócrates e António Costa, um no país e outro em Lisboa, são mestres desse enredo. Falam, falam, prometem, prometem, inauguram, inauguram, mas depois vai-se a ver o que mudou e a coisa é bem pouca.


Dentro do mesmo género, mas menos elaborados, são por exemplo Mário Lino no Governo e Manuel Salgado em Lisboa. Os projectos que Mário Lino empenhadamente defende já se percebeu que não avançam, da mesma forma que Manuel Salgado gasta mais energias e recursos em exposições e no encerramento do Terreiro do Paço aos Domingos, que propriamente na reforma dos serviços de urbanismo e em medidas de recuperação da cidade.


Depois, há todo um outro género, que é o que vive de fazer o menos possível de acção política nas respectivas áreas, não se vá dar o caso de alguma coisa poder acontecer – é o que se passa com a Cultura, no país e em Lisboa (e no Porto também, mas isso é um caso de terrorismo do respectivo edil). No Palácio da Ajuda, onde fica o Ministério da Cultura, basta visitar o respectivo site da Internet para se perceber a ausência de definição de políticas, estratégias, prioridades ou reformas e nota-se que a acção mais pública do respectivo titular foi a inauguração de um museu dedicado aos comboios, que nem sequer está debaixo da sua tutela. Da mesma forma, a Vereadora da Cultura de Lisboa prima pela inexistência de qualquer actividade que não seja acabar com iniciativas que existiam e não se lhe conhece um pensamento sobre como tornar Lisboa uma cidade que acolha e promova a criatividade.


Poder-se-ia dizer que é falta de capacidade de comunicação. Não creio, é inacção. É não querer aparecer a tomar medidas, é não estar convicto do que se faz, é evitar tomar posição. Em política, cada vez mais, o que está a dar é não fazer nada, dizer o menos possível, esconder projectos, evitar concretizar.


A actual retórica política destina-se a afastar os cidadãos do debate, procura  fechar o círculo da participação cívica, esforça-se por reduzir o número de protagonistas. O processo político em Portugal é cada vez mais autista, cada vez menos interessado no que fica para o futuro. Não é de estranhar que Portugal seja o mais pessismista dos 27 países da moribunda União Europeia. 

 

(publicado no Jornal de Negócios de 27 de Junho)

POIS… – A capa da revista «The Economist» desta semana era a imagem de uma ave, caída, morta, de patas para o ar, com a bandeira europeia desenhada no ventre, trespassada por uma flecha, sob o título «O Futuro da União Europeia – Agora enterrem-na!». Lá dentro o artigo começava assim: «Os eleitores atiraram mais uma seta direita ao coração do tratado da União Europeia. Desta vez foram os Irlandeses a votar não ao tratado de Lisboa no passado dia 12, por 53-47% numa votação concorrida. Eles seguem-se aos Franceses e aos Holandeses, que rejeitaram em 2005 o predecessor do tratado de Lisboa, a constituição da EU. Já em 2001 os irlandeses haviam recusado o tratado de Nice, mas na realidade foram os Dinamarqueses a iniciar este jogo quando votaram contra o tratado de Maastricht em 1992». E o mesmo artigo termina assim: «Os eleitores disseram por três vezes não a esta caldeirada confusa. Vai sendo tempo de respeitar a sua opinião». Se pudesse oferecia exemplares da revista a Sócrates, a Durão Barroso, a Cavaco Silva e aos seus seguidores no coro que reivindica a ratificação do tratado de Lisboa a todo o custo.


 


LISBOA – A edição de Julho/Agosto da imprescindível revista «Monocle» traz a sua selecção das 25 melhores cidades do mundo para viver. Lisboa entra na lista, conseguindo o 24º lugar, elogiada pela animação, os cafés, o sol, o clima, a paisagem, as praias próximas e pela vida nocturna. Ou seja, a cidade tem sobrevivido à incúria, ao desleixo, até à falta de uma estratégia de inovação e criatividade. A única conclusão é que nem o mau governo da cidade consegue eliminar as suas vantagens naturais. Imaginem que a cidade era bem governada – devia ser fantástico. Num brilhante artigo publicado na mesma edição da revista, Richard Florida propõe que o conceito de qualidade de vida seja alterado pelo de qualidade do lugar, assente em três avaliações: o que lá existe (seja natural ou construído), quem lá está (as pessoas) e o que lá se passa ( o que as pessoas fazem, a sua relação com o ambiente natural e com o espaço construído).  

 


 


 


 


MUNDO – A revista «Wired» fez 15 anos e publica uma edição especial onde mostra as previsões em que acertou e aquelas em que falhou. Dedicada ao mundo digital desde 1993, a «Wired» foi pioneira na divulgação de tecnologias, novas culturas, novas formas de expressão e criatividade, novos aparelhos e tendências. O seu slogan é «Ideas With Impact» - nada podia ser mais simples e verdadeiro. O seu site (www.wired.com) tornou-se um local de referência, para mim de consulta diária. 

 


 


MÚSICA – Duas reedições extraordinárias da editora Riverside, a partir de gravações e edições originais de finais dos anos 50, dois discos excepcionais de Bill Evans. Em 1958 Bill Evans no piano, Sam Jones no baixo e Philly Joe Jones na bateria gravavam os temas que haviam de integrar o álbum «Everybody Digs Bill Evans», o segundo álbum do pianista, com uma capa invulgar, feita de citações elogiosas a Evans, assinadas por Miles Davis, George Shearing, Ahmad Jamal e Cannonball Adderley. Um ano mais tarde, e já depois de ter participado na gravação de «Kind Of Blue» de Miles Davis, Bill Evans voltou ao estúdio com um novo trio – a seu lado estavam agora Scott Lafaro no baixo e Paul Motian na bateria. Destas sessões resultou o álbum «Portrait In Jazz», uma pequena obra prima de criatividade e frescura na abordagem de temas clássicos do jazz, além de uma revelação nos caminhos que Evans trilhava na composição. Estes dois álbuns foram remasterizados digitalmente para 24 bits e estão agora disponíveis graças a uma série de reedições da Riverside/Universal. 

 


 


VER – O fotógrafo britânico Martin Parr ganhou o prémio Photo España 2008, pelo seu percurso profissional e influência na fotografia contemporânea. É uma boa notícia porque Parr é um fotojornalista, da prestigiada agência Magnum, e não apenas um observador académico e diletante a cruzar texturas com formas. As suas fotografias são cáusticas, de ângulos inesperados, críticas, mordazes muitas vezes, irónicas com frequência. Podem ter uma bela ideia da sua obra (que inclui livros e filmes além da fotografia) no seu site www.martinparr.com . Que bom é ver um prémio de fotografia bem atribuído. 

 


 


PROVAR – Por detrás do Hotel Tivoli, da Avenida da Liberdade, fica o Hotel Tivoli-Jardim. É um hotel mais pequeno, um pouco mais modesto, mas de qualidade, que sempre teve no rés do chão um restaurante simpático, de que aliás aqui falei há tempos. Agora o Hotel decidiu concessionar o espaço a um dos mais activos chefes e restauradores da nova geração portuguesa – Olivier. A decoração foi mexida para tornar o local mais moderno e o Olivier Avenida propõe uma lista que inclui surpresas como os mini-hamburguers com foie gras fresco e cebola caramelizada em vinho do porto ou uma bela salada de vieiras. O serviço é simpático, a lista é variada, o ambiente é bom e o preço não é exagerado. Um bom local no centro de Lisboa , telefone 213174105. 

 

 


BACK TO BASICS – Em vez de dar a um político as chaves da cidade, o melhor seria mandar mudar as fechaduras - Doug Larson. 

 

junho 23, 2008

Publicado no Jornal de Negócios do dia 20 de Junho

CELEBRAR – Gosto muito de cerveja Guinness. Tem um corpo e um travo únicos, fruto de uma receita original. Criada em meados do século XVIII na Irlanda, a Guinness é daqueles produtos diferentes e com um método de fabrico inusitado ( a suavidade vem do facto de  a gaseificação ser criada com nitrogénio, além do habitual dióxido de carbono), por cima de uma preparação e mistura única dos cereais – tratados - que são fermentados. A Guinness é um produto da diversidade, para ser saboreada. Esta semana brindei várias vezes ao NÃO irlandês com cerveja Guinness. Brindei pelo direito ao voto, pelo direito ao referendo e pelo direito à diferença. Eu gosto dos irlandeses, mais do que dos franceses e dos alemães. E acho que nos devíamos entender mais com os irlandeses do que com países que têm pouco a ver connosco. Resta dizer que, acima de tudo, apreciei a independência dos eleitores irlandeses – não cederam à chantagem dos financiamentos comunitários.


 


 


EUROPA – Se há coisa que o processo do Tratado de Lisboa prova é que a Europa, tal como está, gosta pouco de votos e tem uma noção muito estranha de democracia: nesta Europa, pelos vistos, uma votação só serve se puder ser repetida até sair o resultado desejado. Se a moda pega, a coisa vai ser curiosa – imaginem esta ideia nas mãos de Sarkozy, Berlusconi ou dos gémeos polacos... Mas o pior de todos os argumentos é aquele que pretende opôr as centenas de milhões de cidadãos de vários Estados que não fizeram referendo, aos poucos milhões de Irlandeses que tiveram a coragem de, votando, dizer não a um modelo centralista. Tivesse havido referendo em mais Estados, outro galo cantaria. Houvesse mais democracia e a Europa talvez pudesse ser um ideal simpático, em vez de um poço de burocracias. Portugal, como pequeno país periférico, faria bem em ouvir os argumentos do NÃO irlandês, em vez de aceitar as falácias dos grandes países que mandam em Bruxelas. Já repararam como o «não» da França há uns anos foi tratado com simpatia e desvelo (e obrigou a repetir todo o processo) e o «não» irlandês é tratado com insultos e desprezo? Esta diferença é a matriz do poder burocrata da Europa. E é isso que muitos, como eu, não desejam que aconteça. Devia ter tido a coragem de ir a votos sobre esta matéria senhor Sócrates, em vez da cobardia de se refugiar no Parlamento. 

 


 


LER – Esse belíssimo objecto editorial que é a revista «Egoísta» fez mais um número especial, desta vez dedicado aos 120 anos de Fernando Pessoa. Para além das palavras do poeta, destaco algumas ilustrações – nomeadamente as baseadas em fotografias de Cláudio Garrudo e desenhos de Rodrigo Saias. Destaque também para as reproduções de páginas de volumes anotados da biblioteca do próprio Pessoa com algumas imagens inéditas. Belos textos de Hélia Correia, Teresa Rita Lopes e António Tabuchi (mais previsível, mas enfim…). Mas o melhor de tudo é o ensaio sobre Fernando Pessoa e as suas ligações a contemporâneos como Walt Whitman e Oscar Wilde, trazido pelo seu tradutor Richard Zenith – que também propõe uma revisitação de quatro textos de Wilde, traduzidos por Pessoa e que Zenith transcreveu e anotou. De longe esta é a melhor parte desta edição e só por si vale a pena guardá-la. Não havia era necessidade de um desajeitado texto de Inês Pedrosa, a ensaiar uma réplica a um texto do próprio Pessoa – há dias em que a ausência da noção de ridículo mata mesmo.  

 


 


OUVIR – A britânica Minnie Driver tornou-se sobretudo conhecida como actriz de cinema, mas ao longo dos últimos anos desenvolveu uma carreira musical paralela. Neste seu segundo disco as canções são todas da sua autoria, a maioria baladas com um toque de blues. A atmosfera é inesperada, as canções são ricas, os arranjos são precisos e discretos, a voz é envolvente – permitam-me destacar a faixa «Love Is Love». No disco colaboram nomes como Ryan Adams (dos Cardinals), na guitarra em «Beloved», a grande Liz Phair que faz coros em «Sorry Baby» e Rami Jaffee (dos Wallflowers) Minnie Driver, presenças de Liz Phair, Rami Jaffee dos Wallflowers em «London Skies». Belas canções tem este «Seastories» de Minnie Driver, uma edição Decca. 

 


 


 


 


SABOREAR– Confesso que sou mais partidário dos chefes que trabalham com base na tradição culinária portuguesa do que dos seguidores de modelos importados. Por isso mesmo uma casa onde volto sempre com gosto é ao «Nobre», que ao longo dos últimos anos tem tido várias vicissitudes mas que, agora, estabilizou bem no Montijo, mesmo à saída da Ponte Vasco da Gama. Num espaço amplo, com um serviço impecável (que falta em tanto sítio…), Justa Nobre continua a mostrar como é possível manter a qualidade, introduzindo pequenas e bem achadas inovações, nomeadamente na forma de trabalhar o peixe. A comandar as operações, como sempre, está o seu marido José Nobre. Avenida de Olivença, junto à praça de touros do Montijo, telefone 212317511. 

 


 


BACK TO BASICS «Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.  

O primeiro passo passou para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança - mais, de certeza, nessa regeneração.» - Fernando Pessoa, em «Teoria e Prática do Comércio».
 

 


ONDE ESTÁ O ZÉ?

(Publicado no diário «Meia Hora» do dia 18 de Junho) 

 


Nas últimas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa o Bloco de Esquerda fez campanha com o slogan «O Zé Faz Falta», para defender a eleição de José Sá Fernandes. O objectivo foi cumprido e o tal Zé foi eleito.


Vamos aqui fazer um pequeno exercício de memória: nas vereações anteriores, de que não fez parte, o Dr. Zé teve uma persistente e constante atitude de batalha jurídica contra as decisões dos então responsáveis, quer no caso do elevador para o Castelo de S. Jorge no tempo de João Soares, quer no caso do Túnel do Marquês no tempo de Santana Lopes e, mais tarde, sobre o Parque Mayer,  no tempo de Carmona Rodrigues. Em todos os casos argumentou com o interesse público e esgrimiu providências cautelares e denúncias avulsas, para impedir políticas, atrasar obras, causar prejuízos variados (o caso do Túnel do Marquês é o mais flagrante e os milhões de custos suplementares que as suas diatribes causaram deviam ser objecto de atribuição de responsabilidades).


Pois eis que agora o Senhor Vereador Zé resolveu permitir o abuso do espaço público, o incómodo dos munícipes, a diminuição dos seus direitos de movimento dentro da cidade onde pagam impostos – estou a falar do aberrante caso da cedência de uma praça no centro da cidade para uma operação privada  (o lançamento de um carro) que durante cerca de duas dezenas de dias vai prejudicar a vida de todos os que habitam ou normalmente frequentam a Praça das Flores.


Não está aqui em causa a acção em si – os responsáveis de marketing da Skoda tiveram uma ideia original e aproveitaram a fraqueza e complacência da Câmara para a porem em prática. Merecem palmas.  O que está em causa é que o Sr. Zé, dantes, nunca via vantagens nem benefícios naquilo que os outros propunham, e agora só vê vantagens e receitas na perturbação da vida dos lisboetas. Na verdade, o que fazia falta, neste caso, era alguém que tivesse interposto uma providência cautelar à ocupação da Praça das Flores, apoiada pelo tal Zé, que, vê-se agora, não era preciso para nada.


A hipocrisia é o pão nosso dos políticos, mas o tal Zé abusa. E, já agora, em todo este assunto estranha-se o diáfano silêncio do Senhor Presidente da Câmara. Quem cala, consente. Ao menos ficamos a saber do que a casa gasta. 

 

junho 16, 2008

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 12 de Junho)

ASAE I – Gostava de saber em que vão ficar as dúvidas sobre a constitucionalidade da ASAE, levantadas por alguns distintos Constitucionalistas. A quem cabe promover o esclarecimento das dúvidas? Irá o Presidente da República averiguar o que se passa? Irá o Tribunal Constitucional ter a ousdadia de agir? 

 


 


ASAE II – O inconfundível senhor Nunes, produto acabado do que pode acontecer num Governo de maioria absoluta, continua a fazer das suas: agora a responsável da ASAE no Norte foi levada a abandonar o cargo, por coincidência depois de ter criticado a forma como a ASAE por vezes actua. A ASAE não só actua de forma descricionária (e vamos ver se inconstitucional…), como não tolera discussões nem críticas. O senhor Nunes está cada vez mais parecido com um déspota muito mal iluminado. 

 


 


CRISE I – Primeiro a Europa combateu a produção agrícola nos países periféricos para satisfazer a Alemanha e a França, depois condicionou a pesca para satisfazer os países do Norte. A crise que hoje vivemos é fruto de décadas de políticas erradas dos responsáveis europeus, é fruto da obsessão pela construção de um mega-estado capaz de bater pé a americanos e russos, custasse o que custasse. O custo, vê-se agora, é altíssimo. A guerra fria continua, só que agora as armas são os sempre escalantes juros do Euribor , o preço do petróleo, o estrangulamento das especificidades nacionais. Eu não sou europeísta, eu sou contra o tratado de Lisboa, e tenho muita pena de ser obrigado a aceitá-lo por um Governo que despreza a auscultação da vontade dos seus cidadãos. 

 


 


 


 


 


CRISE II – Os juros do crédito à  habitação subiram a níveis históricos, o preço dos bens de consumo essenciais sobe como nunca nos anos mais recentes, a inflação dispara, o Estado perde receitas fiscais cada dia que passa porque em Espanha as coisas são mais baratas e quem pode vai lá abastecer-se. E é em nome da necessidade da receita fiscal que essa receita vai diminuindo, porque o  consumo está a retrair-se. É em nome da estabilização do deficit que a classe média é sufocada pelo peso do Estado. Nada disto é lógico, nada disto é produtivo, nada disto faz sentido. Vivemos num reino de faz de conta. 

 


 


 


PAÍS – Este país irrita-me, irrita-me muito. No mesmo dia em que a taxa do Euribor passa os 5%, nos restaurantes, à hora do almoço, só se ouve falar de futebol. Todos os jornais têm páginas e páginas sobre o circo do Euro. O ruído do futebol contrasta com o silêncio apurado de Sócrates, encolhido a esperar que a crise seja arredada pelo esférico rolando sobre os relvados da Suiça e Áustria.  

 


 


RESTAURANTES – A Avenida da Liberdade está de repente a ganhar uma enorme vida em matéria de restaurantes. Entre o Zeno e o Ad Lib, aparecem novas propostas. A Brasserie Flo, no Hotel Tivoli, é já um êxito e decididamente o almoço mais empresarial de Lisboa, depois de décadas de prevalência da Varanda do Ritz. Um pouco atrás, no Tivoli Jardim, está o Olivier Avenida, que vai dando que falar E agora o Terraço do Tivoli está para abrir pela mão de Luís Baena. Este é o movimento que me levanta mais dúvidas, nunca comi bem na Quinta de Catralvos, numa me senti lá bem porque o serviço era péssimo. Para mim, Luís Baena é daqueles chefes que se refugia na tecnologia – um dos grandes chefes espanhóis, Santi Santamaría, denunciou há poucos dias o abuso de químicos e aditivos para compor os pratos e preconizou o regresso à pureza das boas matérias primas locais. Até prova em contrário acho que Luís Baena tem mais ego que talento e, absolutamente, tem uma imperdoável falta de atenção ao serviço. Espero que se corrija a tempo de não estragar mais um restaurante. 

 


 


LER – A propósito disto de restaurantes, recomendo vivamente a leitura de «A Ferver – Aventuras e desventuras de um cozinheiro amador», pelo jornalista e escritor americano Bill Buford, o homem que refundou e criou a revista «Granta», célebre publicação dedicada à literatura. Este livro de Buford, nascido em 1954, é como um deliciosa sucessão entre reportagens e short-stories, todas dedicadas à cozinha – desde as peripécias como aprendiz de cozinha num restaura italiano célebre, até à aprendizagem das  massas  frescas italianas, passando pelas dificuldades em aprender a nobre arte dos talhantes. Mais do que isso, quase em cada página encontra-se um conselho, uma sugestão, um truque. Nunca a palavra DELÍCIA se aplicou tão bem a um livro como a este. 

 


 


OUVIR – Na Ópera contemporânea existe uma dupla mágica: Anna Netrebko e Rolando Villazón. Juntos cantaram «La Traviata» em Munique, depois «Roméo et Juliette» em Los Angeles, «Lélisir d’amore» em Viena, «Manon» de novo em Los Angeles. Finalmente, em 2006, interpretaram juntos «La Bohème», primeiro em São Petersburgo e depois em Nova Iorque e finalmente, em 2007, em Munique, onde a ópera foi gravada, quer para disco, quer numa versão de Cinema e noutra de televisão. É a gravação áudio dessa apresentação, com a Orquestra Sinfónica da Rádio da Bavária, dirigida por Bertrand de Billy, que agora é editada pela Deutsche Grammophon, Netrebko é Mimi e Villazón é o poeta Rodolfo. O resultado merece ser descoberto. 

 


 


BACK TO BASICS – «A minha mãe teve algumas dificuldades comigo, mas no fundo acho que gostou de as resolver» - Mark Twain.  

 

SAUDADES DA RÁDIO

(publicado no diário «Meia Hora» de 11 de Junho)

 


 


Hoje estou um bocadinho sentimental. Estou com saudades da rádio, da rádio que me acompanha desde miúdo, de ouvir emissões e programas, de sentir variedade e diferença, sem ser apenas uma enorme e monótona lista de discos que se repetem dia após dia, ou uma algazarra de conversas sem sentido nem utilidade


Lembro-me de quando ouvia rádio, ao pé da minha mãe, ela a querer que eu estudasse e fizesse os trabalhos de casa, e eu à procura das estações que tivessem música nova. Lembro-me de noites na casa dos meus avós, no Alto Alentejo, a procurar distantes rádios estrangeiras em onda curta e onda longa. Anos mais tarde lembro-me de ter gravado partes do álbum branco dos Beatles a partir de uma emissão em onda curta da BBC, no exacto dia em que ele foi apresentado em Londres.. Nesse tempo, não se espantem, não existia Internet, nem My Space. nem You Tube. As ondas curtas e longas eram o nosso terreno de exploração numa época em que o único computador que conhecíamos era o que aparecia em «2001-Odisseia No Espaço», o filme de Kubrick entretanto largamente ultrapassado pelos acontecimentos.


A rádio foi progressivamente sendo morta por programas que queriam ter graça mas não tinham nenhuma, por notícias ansiosas, por gravações de declarações a favor e contra repetidas vezes sem fim, a propósito de tudo e de nada. O estilo editorial «procura a reacção» deu cabo das notícias e, em boa parte, da rádio..A tentação de a rádio concorrer com a TV matou a própria rádio que hoje precisa de se reinventar.


Há pouco tempo voltei a ouvir rádio pela manhã para ouvir como o dia se desenha, Gosto da rádio que não se repete, que é capaz de me dar as duas primeiras horas do meu dia de forma diferente. Primeiro fartei-me das emissões de rádio que pareciam más emissões de televisão, depois fartei-me das emissões de televisão, sempre como mesmo bloco de notícias repetido vezes demais.


Acredito que a rádio se vai reinventar, acredito que é na diversidade, nos programas e nas diferenças, que a rádio vai ressurgir. Se calhar com programas mais curtos, entre os podcasts e blogs radiofónicos, utilizando redes sociais, facultando preferências  personalizadas, se calhar com maior atenção ao que é local e de interesse para as pessoas, se calhar menos presa à agenda política de Ministros e de partidos. Eu gostava que fosse assim. 

 


 

junho 09, 2008

Publicado no Jornal de Negócios de dia 6 de Junho

CURIOSIDADE – A frota automóvel do município de Tavira passou a ser abastecida em Espanha porque é mais barato. Quem é que diz que as comparações com Espanha não interessam para nada? 

 


MÉDIA – Recomendo aos governantes que gostam de citar médias europeias que atentem neste subtítulo de capa um jornal desta semana: «os pescadores portugueses pagam taxas mais baixas nas lotas espanholas, recebem mais pelo mesmo peixe e atestam os barcos com combustível mais barato». 

 


 


PONTARIA – Li num jornal da semana passada que os agentes da ASAE foram os que, de entre as várias polícias, maior treino de tiro tiveram nos últimos tempos. Dá que pensar, não é? Será que vão invadir os arraiais de Lisboa com o aparato que costumam utilizar em feiras e mercados? 

 


 


FUTEBOL I – Antes que a palhaçada comece, o melhor é declarar isto desde já: embirro com Scolari, com as espertalhices e teimosias que alarda, com o patriotismo de meia tigela que fomenta, com a maneira como algumas marcas se colam a ele. Por mim passo ao lado de qualquer coisa que tenha o carimbo desse senhor. 

 


 


 


 


FUTEBOL II – Não gosto do espírito de união nacional que a participação da selecção nacional induz. Irrita-me que os responsáveis nacionais usem a selecção e o futebol para terem um interregno nos problemas. Não gosto de pensar que há quem pense que a grandeza do futebol é a solução de todos os problemas do país.  

 


 


ANÁLISE – «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade da ironia». Escrito por Fernando Pessoa nos anos 20, imaginem este texto escrito agora e façam as necessárias adaptações às sutuações actuais. 

 


 


LER – Este certeiro e oportuno texto de Fernando Pessoa pertence a uma pequena mas muito interessantes publicação, da Editorial Nova Ática: «O Provincianismo Português», incluindo ainda um outro texto, «O Caso Mental Português . Do mesmo autor e pela mesma editora vale também a pena ler «Um Grande Português ou A Origem do Conto do Vigário». Todos são curtos ensaios originalmente publicados por Pessoa na imprensa da sua época. Ainda um dia destes vou tirar mais umas belas citações destes textos, quer-me parecer. Estes deliciosos livrinhos estão disponíveis no renovado espaço da Livraria Guimarães (Rua da Misericórdia 68, um pouco acima do Teatro da Trindade), onde se conseguem encontrar textos clássicos e algumas edições fundamentais de autores portugueses, uma raridade nos tempos que correm.  

 


 


VER – Ir até Belém e de uma assentada só ver a peça que Pedro Cabrita Reis tem no Mosteiro dos Jerónimos e dar um pulinho ao CCB para ver no Museu Berardo a exposição sobre a obra do arquitecto Le Corbusier.  

 


 


OUVIR AO FIM DA TARDE – O novo volume da série Verve/Remixed, que já vai na quarta compilação. Aqui são revisitados temas como «Cry Me A River» de Dinah Washington, «Gimme Some» e «Take Care Of Business» de Nina Simone, «There Was A Time» de James Brown, «Tea For Two» de Sarah Vaughan, «Bim Bom» de Astrud Gilberto» e «I Get A Kick Out Of You» de Ella Fitzgerald, entre outros. Ao todo doze clássicos reinventados em tantas outras remixes de outros tantos DJ’s. Um disco ideal para acompanhar estes longos fins de tarde, depois do trabalho, já na fase de descontracção. CD Verve/ Universal. 

 


 


OUVIR À  NOITE– A banda sonora do filme «Sex In The City» já está disponível e merece atenção. Mistura sons da cidade de Nova Iorque, entre o rock, o pop e o hip-hop. Destaque para «Labels Of Love» de Fergie, «Mercy» de Duffy, o remix de «The Look Of Love» a partir de uma versão de Nina Simone, uma belíssima canção - «It’s Amazing» - de Jem, uma versão de «How Deep Is Your Love» (um original dos Bee Gees), aqui interpretado por The Bird & The Bee. Há mais Bee Gees numa versão de «How Can You Mend A Broken Heart» por Al Green e Joss Stone e a coisa remata com o sempre brilhante «Walk This Way» dos Aerosmith pelos RUN DMC com a participação dos autores Steve Tyler e Joe Perry. CD Decca/Universal Music.  

 


 


PETISCAR – Pastéis de bacalhau com salada de feijão frade ou outra combinação qualquer de salgados com saladas, de entre as várias que estão disponíveis na «Versailles». Uma maneira fresca de fazer um almoço leve numa sala simpática. Mas além de saladas tem bons pratos do dia e honestíssimos bifes. Às vezes até me esqueço que a Versailles é um muito decente restaurante. Av da República 15ª, quase a chegar ao Saldanha, não é pior marcar mesa ao almoço se quiser mesmo uma refeção como deve ser. Telefone 213546340. 

 


 


BACK TO BASICS - «Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão» - Eça de Queiroz. 

 

junho 04, 2008

CRIATIVIDADE CONGELADA

(Publicado no diário Meia-Hora de 4 de Junho)


Nos últimos tempos fala-se bastante da importância de atrair e fomentar a criatividade e há poucas semanas esteve em Lisboa, para uma conferência, o economista norte-americano Richard Florida que se tornou conhecido exactamente por defender a necessidade de cidades e países se posicionarem enquanto pólos de criatividade, como factor de desenvolvimento económico e social.


Numa conjuntura destas seria de esperar que os maiores municípios do país e o Governo andassem de mãos dadas para tentar criar uma estratégia de actuação concertada. E seria natural que fossem os vereadores dos pelouros autárquicos da Cultura e o Ministro da Cultura os dinamizadores dessas acções.


Pois então não se passa nada disso. A área da Cultura continua a ser sistematicamente subalternizada, e em primeiro lugar por Presidentes de Câmara e por Primeiros Ministros, que olham para o sector e não conseguem ver mais do que a política de subsídios e a gestão de favores a grupos de interesse, para posterior utilização nos ramalhetes de apoios em épocas eleitorais.


A actividade cultural – no sentido lato do entretenimento e das indústrias criativas – é hoje em dia um factor decisivo para fazer desenvolver a economia. Duvidam? Pois ouçam estas palavras do Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg: «O sector criativo dá à nossa cidade a sua vantagem estratégica e a margem competitiva que lhe permite ter êxito na economia globalizada. O diversificado e criativo ambiente de Nova Iorque não só atrai empresários, homens de negócio e turistas de todo o mundo, como influencia cada um dos nossos mais pequenos gestos. Na realidade este ambiente melhora permanentemente a qualidade de vida em Nova Iorque, cria empregos, atrai estudantes, contribui para manter na região empresas e negócios e ajuda a transformar e requalificar os nossos bairros. A influência das artes e da cultura na cidade é extraordinária.»


Dito isto, pensem lá um bocadinho: que andam a fazer, por exemplo, os vereadores da cultura do Porto e de Lisboa? Que anda a fazer o Ministério da Cultura? Não se sente nenhum esforço em tornar esta área uma prioridade, mas a maior responsabilidade cabe aos titulares governamentais da pasta da Cultura que nunca se bateram pela definição de uma estratégia nacional para o desenvolvimento económico do sector.

maio 31, 2008

O PÚBLICO

Leio o diário «Público» desde o primeiro dia. Já foi o melhor diário português, já há uns anos que não é. Notícias que reportam pouco e comentam muito são o pão nosso de cada dia. Mas o pior veio na edição de hoje, com a frase de abertura da chamada de capa a prpósitodo »Rock In Rio», na qual, se escreve que Amy Winehouse não desiludiu. O jornalista esteve lá? Ouviu? Viu - nem que fossoe na Sic notícias? O «Público» tem uma equipa de marketing eficaz, uma direcção comercial combativa, mas tem uma direcção editorial que se abstém de editar o jornal, entretida que está em opinar. No «Público» cada vez se lêem menos notícias.

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Maio)

COMBUSTÍVEIS I – As mudanças de posição de membros do Governo sobre a questão dos combustíveis sucederam-se ao longo da semana, à medida que os protestos dos consumidores, aqui e no resto da Europa, crescem de forma assinalável. Da inicial impossibilidade de alterações até ao pedido formal a Bruxelas para que implemente alterações, viu-se de tudo um pouco. Só falta começar pelo básico, que é acabar com a dupla tributação nos combustívies em Portugal: sabem que o IVA é aplicado não ao preço do combustível, mas à soma do preço de venda do combustível, com o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, o que quer dizer que cerca de metade do IVA decorre da sua aplicação a uma outra receita fiscal? Quando se trata de roubar e abusar o Ministério das Finanças nunca hesita. O que é engraçado é ver quem são os defensores destas cobranças abusivas e da imutabilidade do ISPP… (já depois de publicado: a Galpa baixou um cêntimo por litro, no dia a seguir à Repsol ter aumentado para ficar próxima dos preços da GALP - ele há coincidências, não é?)


 


COMBUSTÍVEIS II – O Governo anda muito atarefado a explicar que o preço dos combustíveis em Portugal não está muito afastado da média europeia. Eu acho que a conta que interessa fazer é o afastamento existente em relação aos nossos vizinhos espanhóis. É o preço deles que nos importa em primeiro lugar  - ou estarei a ver as coisas ao contrário? E por falar em médias europeias, quando é que o Governo começa a falar dos casos em que nos afastamos de forma gritante dessas médias, e que são, cada vez mais, a maioria? 

 


 


PSD – A questão dos combustíveis e da crise que eles desencadeiam tem sido um precioso instrumento de análise dos candidatos do PSD. De um lado os que privilegiam a imutabilidade do sistema, do outro quem pensa que novas situações exigem novas soluções, como é o caso de Pedro Passos Coelho. Já que estou neste tema, e para fugir aos combustíveis, foi com algum prazer que vi que Passos Coelho é o único dos candidatos que dedicou um capítulo da sua proposta estratégica a questões culturais, colocando ainda por cima em destaque a necessidade de melhorar a Lei do Mecenato. Mais uma razão para achar que ele é o melhor candidato. 

 


 


ATRASO – Está a dar que falar a situação de atraso no pagamento dos projectos de investigação já aprovados, nomeadamente na área da investigação biológica aplicada à agronomia. Mas não é caso único – Mariano Gago começa a dar nas vistas pela incapacidade de o seu Ministério cumprir os compromissos assumidos. Há investigadores, de várias áreas, que já desesperam… 

 


 


NÃO VOU – Desde o início tenho um posição sobre o Rock In Rio – eu não vou. Acho que a Câmara de Lisboa deu mais apoios a estrangeiros para fazer um festival que a portugueses, e repugna-me a forma como utilizam a máscara da solidariedade para uma operação exclusivamente comercial. Este ano até mascararam um palco com painéis solares desligados para fazer de conta que se preocupam com o ambiente. Os obreiros desta operação de contornos e benefícios mais que duvidosos querem agora convencer o Presidente da Câmara de Lisboa a deixá-los construir, em permanência, uma cidade do rock. E pretendem muitos apoios, claro.  (Já depois de publicado: O Rock In Rio não é um festival de música, é um pot pourri em que a música é apenas um pretexto, como se viu na noite de estreia com a previsivelmente confrangedora actuação de Amy Winehouse)


LER – A capa da edição de Junho da revista «Vanity Fair» é dedicada a Robert Kennedy, assassinado em campanha eleitoral há 40 anos. Destaque para um conjunto inédito de fotografias da campanha, acompanhado de um relato do dia a dia dessa batalha política que levou à morte do candidato. Neste tempo de escolhas políticas é engraçado ver o que nessa altura era considerado renovação. Muitas lições a aprender. Ainda nesta edição um belo artigo sobre Karl Lagerfeld e fotos de Annie Leibowitz e de Bruce Weber. 

 


 


OUVIR – Gustavo Dudamel é um jovem maestro venezuelano apontado como um dos mais brilhantes da sua geração (nasceu em 1981, tem 27 anos), que se tornou notado pelas suas interpretações, gravadas, das 5ª e 7ª Sinfonia de Beethoven e da 5ª de Mahler. Agora, acompanhado pela Simon Bolívar Youth Orchestra of Venezuela, dedicou-se ao repertório popular da América Latina e o resultado é um disco cheio de ritmo, vida, arranjos orquestrais fantásticos e um ar de festa permanente. – não há-de ser por acaso que este disco se chama «Fiesta». Aqui estão temas de quatro compositores venezuelanos, dois mexicanos , um argentino e o clássico «Mambo» de Leonard Bernstein numa interpretação arrebatadora. O disco é uma surpresa, ouve-se vezes de seguida e merece ser descoberto. «Fiesta» de Gustavo Dudamel, CD Deutsche Grammophon. 

 


 


VER – Por estes dias é obrigatório ir seguindo o site da NASA (www.nasa.gov) para ver a evolução das imagens recolhidas pela sonda Phoenix e, também, para a ver em acção, filmada de cima, por um outro satélite que orbita sobre Marte. É uma emoção ver o solo de Marte, ver imagens de outros mundos. 

 


 


PETISCO – Tenho uma velha curiosidade por conservas pouco vulgares e ao longo dos anos já provei muitas codornizes de conserva. Mas confesso que nenhumas foram tão boas como as «Codornices escabechadas da Abuela Juliana», de impecável ponto e tempero. Cada lata tem duas de bom tamanho, o suficiente para fazer um delicioso petisco ao jantar, acompanhado por uma boa salada. Esta marca de conservas, espanhola, «Abuela Juliana», existe nas lojas Jumbo. 

 


 


BACK TO BASICS – «Na economia pós industrial o principal contributo são as ideias, o trabalho mental. O impulso humano para criar é a chave para a inovação económica» - Richard Florida. 

 

maio 29, 2008

COINCIDÊNCIAS

Estava aqui a pensar que não deixa de ser coincidência que uma das principais concorrentes da Galp tenha decidido colocar o seu preço de venda ao público quase igual ao da concorrência, no mesmo dia em que o Primeiro Ministro vai ao Parlamento debater o preço dos combustíveis. Por acaso esta empresa fez aumentos em dois dias seguidos para ficar a par da Galp. Não está a decorrer uma investigação sobre cartelização?


 

maio 28, 2008

PORQUE É QUE AS DIRECTAS DO PSD INTERESSAM A TODOS?

(Publicado na edição de quarta 28 de Maio do diário «Meia Hora»)

 


Um dos grandes problemas da sociedade portuguesa reside no progressivo bloqueio do sistema político-partidário. Este bloqueio tem muitas causas, a começar na forma como os partidos se constituíram em 1974 – muito fulanizados, construídos em torno de personalidades fortes, com programas políticos e ideológicos pouco cuidados e muito dependentes do enquadramento e das limitações da época.


Ao fim de 34 anos mudaram os protagonistas, mas na essência não mudou a forma e o funcionamento do sistema e, pior, agravou-se a indefinição política e ideológica, sobretudo naquilo a que se convencionou chamar de Bloco Central. Acresce que a adesão à Comunidade Europeia e a integração na Zona Euro vieram ainda mais contribuir para apagar as diferenças entre PS e PSD. Num resumo breve o PS virou um pouco à direita e o PSD um pouco à esquerda. Encontraram-se ao centro, à sombra de um Estado – português e europeu – demasiado presente.


O actual processo eleitoral interno do PSD é por isso um tema que não interessa apenas ao seus militantes, é importante para todos os que gostam de exercer a cidadania mediante escolhas políticas. De uma certa forma, todos nós somos políticos – ou temos o dever de o ser, porque temos o dever de participar nas decisões que nos afectam a todos.


Os militantes do PSD têm este fim de semana esta responsabilidade: a de não olhar apenas para as directas como uma disputa interna, mas sim como um processo de renovação da actividade política em Portugal, de afirmação de uma identidade própria ao seu partido, que o diferencie do PS de forma clara. A questão não é simples: o êxito futuro do PSD depende de uma escolha que provoque mudanças, que afirme a diferença e que seja capaz de atrair aliados e alargar o campo de influência partidário. 


Por isso, eu que não sou filiado em nenhum partido, baseado no que é a história de cada candidato e nas propostas que agora apresentam, acho que a escolha de Pedro Passos Coelho é a que melhor pode contribuir para que o PSD tenha um papel activo e dinâmico na renovação do sistema político e partidário e para que possa contribuir para tirar o país do impasse onde nos encontramos. Na realidade Pedro Passos Coelho é o único que traça um caminho diferente e essa é a sua grande vantagem. E esse caminho, outra vantagem, não passa pelo Bloco Central. 

 

 

maio 26, 2008

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Maio)

PSD – Quando se quer debater, aparece-se. Esteja quem estiver. No Porto dois candidatos não quiseram aparecer num debate. Se não é agora que se vão trocar ideias, quando é? Ele há quem, nesta disputa, queira separar os candidatos entre os de primeira e os de segunda. É mau sinal, muito mau sinal. 

 


 


PERGUNTAS – Houve uma remodelação no Ministério da Cultura no dia 30 de Janeiro. Desde então, que novas medidas foram tomadas? Que novas políticas vão ser seguidas? Que foi – ou vai ser - corrigido da actuação que levou à saída da anterior Ministra? Qual o balanço dos primeiros cem dias do novo Ministro? A cultura não faz parte da agenda política do Governo? Se fosse noutros tempos não haviam de faltar críticas de inacção… Nem os tristes episódios da Feira do Livro tiraram o Ministro do seu silêncio – mesmo sabendo que noutros tempos outros titulares da pasta da Cultura não hesitaram em querer agitar a monotonia que a APEL gosta de impor. 

 


 


SINTOMA – Na semana passada mais do que um amigo meu me disse que cada vez que assiste à abertura dos noticiários da noite fica com vontade de não viver aqui. Isto está a ficar triste, o país esvai-se nos problemas do dia a dia. 

 


 


DIFERENÇA – No tempo em que Dalila Rodrigues estava no Museu Nacional de Arte Antiga a Noite dos Museus era um acontecimento onde as teias de aranha da veneranda instituição eram varridas, onde propostas contemporâneas tinham as honras da noite e onde sons actuais faziam a festa, chamando efectivamente novos públicos que nessas ocasiões descobriam o espaço, os jardins, as colecções. Era uma festa, aberta e diferente. Este ano voltou tudo ao ram ram antigo, com um solene jantar e um não menos solene concerto de música antiga. Sinais dos tempos. Tristes sinais. 

 


 


DESCOBRIR – Sugiro que entrem no site do Meo e escolham a opção «Assume o Comando». Ou então vão direitos a http://jatens.meo.pt e sigam as instruções. É absolutamente genial, é um site interactivo brilhante, com os Gato Fedorento versão espacial a entrarem directamente em contacto consigo. Parabéns PT, parabéns à equipa do Meo. Com sites destes futuro não é uma palavra vã. 

 


 


VER – Já vi muitos filmes de concertos rock mas nenhum chega aos calcanhares deste «Shine A Light» de Martin Scorsese, que regista um concerto dos Rolling Stones no final de 2006, no Beacon Theatre de Nova York. É um trabalho notável, em primeiro lugar de captação de imagem, depois de edição, não esquecendo a recolha de depoimentos antigos. Martin Scorsese rodeou-se de uma equipa brilhante que fez um filme extraordinário: um concerto, na prática, visto de dentro do palco, os músicos a olharem uns para os outros, as câmaras nos seus planos visuais. Colaborações especiais de Jack White (dos White Stripes), Buddy Guy , Christina Aguillera e de… Bill Clinton. Versões fantásticas de temas como «Faraway Eyes», «Brown Sugar», «Sympathy For The Devil» e de «As Tears Go By», uma canção originalmente composta pelos Stones para Marianne Faithful. À data da gravação deste filme Mick Jagger e Keith Richards tinham 63 anos, Charlie Watts 65 e Ron Wood era o benjamim, com 59. Não percam o filme, de preferência numa sala com bom som. Ou então guardem-se para quando sair uma cópia em Blue Ray. 

 


 


OUVIR – As «coplas» são pequenas canções, um género musical muito popular em Espanha, histórias de amor e ciúme, de orgulho e solidão, de morte e de dor, histórias que começam e acabam em três ou quatro minutos, hoje em dia muito populares também na América Latina e sobretudo no México. Rafael Alberti, Federico Garcia Lorca e António Machado são alguns dos grandes poetas que escreveram letras para «coplas» que ficaram célebres. Admirador confesso das coplas, a que chama «mini-óperas», Plácido Domingo reuniu uma selecção de 13 das suas preferidas no seu novo CD «Pasión Española», no qual é acompanhado por José Maria Gallardo del Rey à guitarra e pela Orquestra da Comunidad de Madrid. Muito bom para comer umas tapas num fim de tarde, a olhar para as cores primaveris e a fazer de conta que estamos num país menos cinzento. (CD Deutsche Grammophon, Universal Music). 

 


 


 


PETISCOS – Nesta altura do ano gosto das giestas, das papoilas, dos malmequeres, das alcachofras que começam a rebentar. António Barreto sublinharia os jacarandás, eu limito-me a dizer que estas cores todas são o sinal de que já aí estão dois dos bons petiscos da estação: as sardinhas e os caracóis. Nos tempos que correm estou para ver como neste final de Primavera dois dos mais típicos petiscos portugueses vão escapar à fúria da ASAE. Ainda teremos sardinhas assadas na grelha à beira da estrada por muito tempo? Caracóis tirados de grandes panelões para acompanhar uma imperial? Sócrates, que é quem manda na ASAE, deixar-nos-à ainda petiscar? 

 


 


BACK TO BASICS – A política não é uma má profissão: quando se tem êxito é-se recompensado, e quando se falha pode-se sempre escrever um livro – Ronald Reagan. 

 

CÍNICOS E CRUÉIS

(Publicado no diário Meia Hora de 21 de Maio)


Palavra de honra que a culpa não é minha: depois do que aqui escrevi na semana passada, não contava voltar a falar de novo da ASAE e do seu  inexcedível Sr. Nunes. Mas a realidade é que as notícias de vilezas praticadas pela ASAE aparecem a toda a hora e, depois, já se vê, o assunto volta à baila.


No fim de semana surgiram notícias de que a ASAE apreendeu e mandou destruir alimentos que tinham sido oferecidos a Instituições de Solidariedade Social (entre eles lares de terceira idade), apenas baseada no não cumprimento de regras e sem qualquer análise. Soube-se que a ASAE sujeita essas instituições às regras que impõe por todo o lado, sem sequer querer saber se têm condições para fazer o investimento necessário, sem procurar soluções transitórias.


Esta acção da ASAE mostra um organismo dirigido para actuar de forma cruel e desumana, apenas interessada em cumprir objectivos – os tais mapas de objectivos que o Sr. Nunes diz não estarem em vigor.


Este caso de perseguição e ataque a organismos de apoio aos mais carenciados é a peça que faltava para mostrar o processo de deturpação de objectivos que o Sr. Nunes empreendeu na ASAE. Evidentemente é necessário que exista e actue uma entidade que fiscalize condições sanitárias de estabelecimentos e de alimentos, mas ainda é mais necessário que essa entidade tenha bom senso e não tenha uma actuação desproporcionada. A ASAE é forte para com os fracos e fraca para com os fortes. Delicia-se a perseguir quem tem poucos recursos para se defender. É ao mesmo tempo polícia, juiz e carrasco, numa intolerável actuação que ignora as mais elementares regras da sociedade em que vivemos, tendo por cartilha única regulamentos europeus lidos de forma burocrática.


Não sei se José Sócrates e Manuel Pinho já repararam numa coisa: enquanto derem cobertura à forma de actuação da ASAE e ao padrão que o Sr. Nunes lhe imprimiu, para os efeitos práticos são eles próprios que cometem os excessos, os desmandos desumanos e a crueldade que é dificultar o trabalho de organismos de apoio social. É como se fossem eles próprios a deitar fora os alimentos que as populações oferecem a estas instituições ou a mandá-las encerrar sem cuidar de quem lá é assistido. O silêncio que têm sobre esta matéria é de um cruel cinismo e de um intolerável desprezo para quem os elegeu. Espero que do próximo programa eleitoral de Sócrates constem as medidas da ASAE que ele protege. Assim, pelos menos, os eleitores saberão o que os espera. 

 

maio 20, 2008

Mais vale agora

Se Pedro Passos Coelho fôr o próximo lider do PSD estou disposto a filiar me no partido. e mais vale dizer isto agora do que arrepender me depois de não ter mostrado que acredito na possibilidade de mudança.

maio 17, 2008

(publicado no Jornal de Negócios de 16 de Maio)

 


 


EXPATRIADOS - Paris está a ficar uma cidade deprimida: depois de Ferro Rodrigues, agora vai lá instalar-se Carrilho. Como imagino que Guterres de vez em quando lá passe à procura de refugiados, o trio deve tornar a cidade numa animação. Imagino que, ao longo deste ano, tenham muita oportunidade de chorar baba e ranho a recordar Maio de 68. Decididamente o PS conquistou Paris – só que foi o PS português e não o francês…com estes, Sarkozy não precisa de se preocupar. 

 


 


CANDIDATOS - A disputa pela liderança de um partido não devia ser apenas a comparação entre a galeria de notáveis que cada candidatura apresenta. Os desafios actuais ultrapassam os créditos dos feitos passados e a sociedade portuguesa e o mundo estão a mudar tão rapidamente que qualquer dia vai ser preciso inventar um GPS político para os líderes partidários se orientarem no meio da confusão. É exactamente nestes tempos - de súbitas transformações e de crise - que o debate político se torna mais necessário para encontrar novas soluções. E é isso que se vê muito pouco no actual processo eleitoral do PSD. Nessa matéria apenas Passos Coelho faz a diferença. 

 


 


 


 


CARICATURAS – Confesso que tenho um fraquinho por caricaturas e há muito que André Carrilho é um dos meus favoritos. Se gostam do género não percam a exposição de 37 desenhos seus publicados em jornais portugueses, espanhóis, franceses e norte-americanos. Carrilho é um dos mais internacionais artistas portugueses  e estas ampliações de grande dimensão dos seus trabalhos são surpreendentes. Até 28 de Maio na Galeria do «Diário de Notícias», Avenida da Liberdade – este é aliás o jornal para onde Carrilho desenha agora  em Portugal. 

 


 


FOTOGRAFIA – Há mais fotografia para além da exposição da «World Press Photo», este ano aliás não muito excitante. Para terem outra visão das coisas vale a pena frequentar a galeria P4Photography, na Rua dos Navegantes 16. Lá encontrarão por estes dias perturbantes fotografias de Inês Gonçalves, da série «Secret Names», originalmente de 2000, resultado de uma encomenda feita na altura por um Museu de Badajoz. Aguarda-se que Inês Gonçalves, felizmente regressada às exposições, apresente a de novo a sua série sobre Cabo Verde, exposta uma única vez por ocasião da Expo 98. 

 


 


BOAVISTA – Não, não vou falar da crise do futebol. Vou apenas chamar a atenção para o que se passa no número 84 da Rua da Boavista, em Lisboa, entre Santos e o Mercado da Ribeira. Nesse prédio coexistem três espaços de exposição, todos ligados a Victor Pinto da Fonseca. A actual série apresenta um conjunto de artistas e obras que merecem atenção. Na VPF – Cream Art Gallery, Frederico Ferreira propõe imponentes esculturas/colunas de som, animadas com a sonoridade dos Blasted Mechanism; no espaço Rock Gallery, dedicado a novos artistas, Nádia Duvall  (Prémio Pintura Banif- Revelação 2008)  mostra trabalhos baseados num processo de reacções químicas e configurações orgânicas, assente num minimalismo de fundos e cores; e, na «Plataforma Revolver» está uma perturbante e imperdível exposição sobre a interculturalidade, «Novas Geografias», de Mónica Miranda. Tudo até 14 de Junho. 

 


 


MONTANHAS – Cristina Ataíde apresenta «Manual de Instruções» na Zoom – Galeria Carlos Carvalho, Rua Joly Braga Santos Lote F, a Sete Rios, Lisboa.  É uma exposição inesperada onde a artista propõe obras transformáveis, segundo o manual de instruções que acompanha cada uma. Continuando a misturar materiais, Cristina Ataíde cruza o efémero dos pigmentos com a perenidade do bronze, tendo a transformação das montanhas e acidentes geográficos como pano de fundo de todo o jogo proposto. Destaque para a série dos bronzes isolados e para um desenho de grandes dimensões, espécie de mapa de todas as ideias deste «Manual de Instruções». 

 


 


RELEVOS – A pintura de Jorge Humberto (que durante uns anos assinou Joh) tem sido feita de relevos e da cuidadosa procura de um espaço tridimensional sobre as telas, mercê de um laborioso processo de trabalho. É neste rumo que ele prossegue, depurando cada vez mais a utilização da cor e, nesta nova exposição, avançando naturalmente no caminho da escultura, como que deixando as formas saírem finalmente das telas. «Clairevoyance» pode ser vista na Galeria Jorge Shirley (Largo Hintze Ribeiro 2E (Ao cimo da Rua de S. Bento, perto do Rato). 

 


 


ALMOÇO – Tenho um fraquinho por restaurantes que ficam em hotéis. Come-se bem, o serviço é bom, há espaço nas mesas, não há muito barulho. São, geralmente, bons locais para almoços tranquilos. No renovado Tiara Park Hotel, Rua Castilho, (ex Méridien), o restaurante L’Appart é uma boa surpresa. O chefe Eddie Melo inspira-se na tradição culinária portuguesa e trabalha com mão delicada pratos como medalhões de lombo ou choquinhos à algarvia, garantindo que se consegue conjugar sabor com leveza. Para quem quiser há um amplo buffet de frios e outro de sobremesas.  

 


CANTO – Ledisi Anibade Young, conhecida pelo seu primeiro nome, é uma cativante cantora de jazz, que vem da área dos rhythm’n’blues e que cruza influências do hip hop. É co-autora e co-produtora das canções que interpreta neste seu terceiro álbum, «Lost And Found». Tem um sentido rítmico invulgar e utiliza a voz para o pontuar num estilo que, por vezes,  faz lembrar Ella Fitzgerald e que já lhe valeu um Grammy em 2007. CD Verve/ Universal. 

 


 


BACK TO BASICS – A coisa mais importante em comunicação é conseguir ouvir aquilo que não está a ser dito (Peter Drucker) 

 

A MENTIRA COMO FORMA DE VIDA

(Publicado no diário Meia Hora de 14 de Maio)

 


Desde há cerca de duas semanas a imprensa vem publicando informações sobre a existência de documentos, oriundos de uma Direcção da ASAE que está na dependência orgânica do seu Presidente, que indicam metas a at9ingir no domínio, exclusivamente, da actividade repressiva daquela organização.


Não voiu aqui perder tempo com o que é evidente: a mentalidade persecutória do Sr. Nunes, a forma como ele sempre quis aparecer, a imagem que promoveu de si próprio: uma pessoa sem escrúpulos, de pensam,ento reduzido, que preferia incentivar acções repressivas em vez das preventivas. O Sr. Nunes, no decurso do último ano, tornou-se o estereotipo da pessoa que mada e quer ser obedecido, que não quer que ordens sejam p3ensadas enm discutidas.


N a edição de sábado o semanário «Expresso» reproduzia um detaslhado documento da ASAE onde todas as metas eram quantificadas: em prisões, encerramentos, multas, todo o arsenal de medidas repressivas. Era uma folha de c+álculko da perseguição.


O Sr. Nunes desde há semanas que anda a desmentir a exist~encia destes dados – ao início dizia que eram fantasia, agora já rectificou a dizer que era um documento de trabalho (apesar de o ficheiro divulgado nãoi ter nenhuma indicação nesse sentido) e, mais cobarde ainda, insinua que o caso não seria da sua responsabilidade mas de um seu subordinado, quando se sabe que a responsabilidade da Direcção que elaborou o documento é dele próprio.


Apesar de esfarrapadas, as tentativas de manipulação dos facytos do Sr. Nunes ainda podia merecer alguma atenção, não fosse a evidência dos últimos meses, as acções que ele tanto propagandeou, em que tanto gosta de aparecer. É que este documento agora divulgado é tão só o complemento das acções que a ASAE tem desenvolvido: de armas na mão invade mercados, encerra fábricas de produtos artesanais e restaurantes, lança o medo, tem por único objectivo reprimir, perseguir castigar. O documento limita-se a colocar isto em papel. E como a acção que o Sr. Nunes tão bem propagandeou corresponde ponto por ponto ao documento, a única conclusão é que os desmentidos que o Sr. Nunes agora faz são uma evidente aldrabice.


O Sr. Nunes não é um cidadão qualquer – é um alto funcionário do Estado. E o Estado não pode ter em lugares de direcção pessoas que têm uma mentalidade repressiva, que usam a mentira quando são descobertos a errar, que persistem a querer esconder a verdade. O Sr. Nunes não tem vergonha – pede para si próprio a tolerância que nunca deu aos outros, que encerrou e perseguiu. O Sr. Nunes é a imagem do poder do Governo Sócrates no seu pior – é um sem vergonha autoritário, abusador e repetidamente enganador, que se recusa a admitir as suas responsabilidades. Ao Primeiro Ministro e ao Ministro Manuel Pinho apenas resta demitir o Sr. Nunes e colocar a ASAE num caminho honesto onde ela nuna esteve. 

 

maio 10, 2008

PROVINCIANISMO, ABUSO, OBSERVAÇÕES

 


(Publicado no «Jornal de Negócios» de 9 de Maio de 2008)


 


 


LISBOA – Mau, mas mesmo mau, é o fim do «África Festival», uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa que existiu durante três anos e que se destinava a fomentar o papel da capital como plataforma do multiculturalismo e como ponto privilegiado de divulgação da música africana na Europa, nomeadamente dos países de expressão portuguesa. O primeiro golpe no Festival foi dado pelo anterior vereador Amaral Lopes, a equipa de António Costa liquidou-o argumentando com a falta de disponibilidade orçamental. A questão dos orçamentos insuficientes da Câmara Municipal tem que ser vista à luz da gestão de prioridades: para Lisboa é mais importante uma iniciativa de repercussão internacional como o «África Festival» ou as xaropadas em que o vereador Manuel Salgado gasta verbas no encerramento forçado da Praça do Comércio ao Domingo, ao que consta preparando até iniciativas orçamentalmente pesadas para o segundo semestre do ano?. Não seria preferível manter o Festival e a sua equipa, o seu nome, a tradição e imagem já acumuladas, mesmo que com menor investimento, e provavelmente num local de custos mais reduzidos (como era originalmente), no auditório Keil do Amaral, em Monsanto? Ainda vamos ver outro dos munícipios à volta de Lisboa a pegar na ideia, como já aconteceu por exemplo com a «Moda Lisboa». Esta equipa autárquica da capital parece apostada em liquidar tudo o que tenha notoriedade internacional (declaração de interesse: fui o criador do conceito do «África Festival» e responsável pela sua criação e primeira edição, à época em que fui administrador da EGEAC). 

 


 


ABUSOS NA ALFÂNDEGA E CTT – No último mês encomendei à Amazon norte-americana dois livros escolares, especializados. Pois tive que pagar à alfândega portuguesa cerca de sete euros por cada um - à volta de quatro euros de IVA e três euros de impressos e taxas diversas, incluindo um impresso de quase dois euros (!!!???). Além disso por cada livro ainda paguei duas verbas aos CTT, cerca de três euros de uma taxa de apresentação à alfândega mais quinze cêntimos que aparecem no detalhe da alfândega sob a designação «CTT Portugal». Em ambos os casos a descrição da alfândega classificava os livros (um sobre marketing e outro sobre programação de computadores) como «álbuns de Banda Desenhada, Álbuns Anuais de Selos, etc». Mais: no decurso deste processo a alfândega ou os CTT retiveram em seu poder a factura original de envio da Amazon, nem sequer forneceram cópia, pelo que nem prova de pagamento, nem descrição exacta é dada ao comprador. Quer dizer, roubaram-me, nas duas ocasisões, um documento pessoal que entre outras coisas me servia para certificar a natureza efectiva dos livros. Ora digam lá: se isto não é desprezo total pelos cidadãos – da parte da Alfândega e dos CTT – o que será?  


 


 


 


DESILUSÃO – Fã de Bruno Nogueira na rádio, foi com expectativa que segui a estreia de «Contemporâneos» na RTP. Pois foi uma desilusão, humor substituído por graçolas, um conceito visual falho de ideias, na realidade um momento de televisão falhado. Às vezes as estreias são assim e depois as coisas melhoram. Resta aguardar. 

 


 


OUVIR – O novo disco do saxofonista John Carter, «Present Tense», o primeiro em três anos, é uma arrebatadora colecção de temas cheios de swing, no entanto com uma sonoridade muito contemporânea. O disco inclui três originais de Carter e uma selecção de sete temas de nomes como Djando Reinhardt, Jimmy Jones, Walter Gross, Dave Burns e o sempre arrebatador «Song For Delilah» de Victor Young a Ray Evans. Cárter tem sido considerados como um dos mais inventivos e virtuosos sax barítonos da actualidade e neste disco toca também flauta. Um dos seus temas originais «Bossa J.C.» é uma bela surpresa. CD Emarcy/ Universal. 

 


 


 


LER – Merece atenta leitura artigo de Augusto M. Seabra na sua habitual rubrica «O Estado da Arte» da revista online www.artecapital.net , este mês sobre a situação existente na Fundação Gulbenkian em relação às áreas artísticas, nomeadamente na música e no Centro de Arte Moderna. É uma análise do que se passa e, mais importante, uma perspectiva dos problemas futuros. 

 


 


PETISCAR – Melhor ainda que as lojas Gourmet, são as pequenas lojas de produtores que disponibilizam produtos de outras regiões. Na Quinta do Anjo (Palmela), recomendo uma visita à Casa Agrícola Horácio Simões, Rua São João de Deus, mesmo ao lado da junta de freguesia. Doces caseiros, bons queijos artesanais de Azeitão, queijos e enchidos do Alentejo, farripas de laranja cobertas a chocolate de Setúbal, variados doces regionais. E, claro o afamado Moscatel Roxo que Horácio Simões produz na sua adega e que tem ganho notoriedade internacional. 

 


 


IDEIA – Os treinadores de futebol deviam ser pagos face aos resultados obtidos: competições conquistadas, lugar obtido nas tabelas, pontos obtidos, comportamento em competições internacionais. Talvez assim as coisas fossem de outra maneira. 

 


 


 


BACK TO BASICS – O poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente – frase de Maio de 1968 . 

 

maio 08, 2008

PSD: ESCOLHER ENTRE O IMEDIATISMO E A ESTRATÉGIA

(publicado no diário «Meia Hora» de 7 de Maio)


A situação no PSD pode ser um bom momento para se perceber como poderá evoluir o sistema político-partidário português nos próximos anos. A situação criada pela demissão de Luís Filipe Menezes criou espaço para estas mini-primárias, que decorrerão até ao final do mês.


O que está em jogo em cima da mesa é eleger um líder partidário, que será igualmente o candidato a Primeiro Ministro nas legislativas do próximo ano, o responsável pelos outros próximos processos eleitorais (europeias e autárquicas) e, também, o responsável pela constituição do próximo grupo parlamentar do PSD, o que não é de todo uma questão menor e, em determinadas circunstâncias (por exemplo não conseguir derrotar Sócrates), é mesmo decisivo para o futuro do partido.


Na realidade, apesar do pouco tempo para o processo, o que está em jogo nestas directas do PSD é muito mais o médio-longo prazo que o imediatismo do curto-médio prazo. Por isso mesmo era bom que o debate se centrasse em questões estratégicas e políticas, e saísse da esfera em que está, essencialmente centrado em torno de pessoas, das suas reputações, histórias, intenções ou memórias. Se é certo que as pessoas são importantes, não é menos certo que o problema maior do PSD nos últimos anos está na diminuição do seu espaço político, na ausência de ideias novas, da sua descaracterização. Falando claro, o PSD perdeu valor enquanto marca, perdeu posicionamento. É preciso uma espécie de processo de rebranding, não no sentido de mudar de logótipo nem de colocar apenas uma cara nova nos cartazes, mas sobretudo em apontar uma nova missão e novos valores, procurando credibilizar o produto político – desculpem a linguagem «técnica», mas neste caso ela adequa-se bem à situação.


Na conjuntura actual, em que Sócrates ocupou o centro-direita e pegou em muitas questões que eram bandeiras do PSD, o novo líder social-democrata terá que mostrar que não é igual a Sócrates, que tem alternativas concretizáveis e uma linha política que seja capaz de voltar a congregar vontades, unir os militantes e conquistar independentes.


Da maneira que as coisas estão não é tarefa fácil levar o PSD a encontrar o seu lugar.


A tentação do conforto e segurança que as opções «regresso ao passado» apresentam, podem aparentemente parecer as mais seguras, mas arriscam-se também a ser as mais desmotivadoras – sobretudo quando se evita discutir política e ideias. E o fundamental, para assegurar a vida para além dos próximos feriados de Junho, é discutir propostas políticas e ideias, e não apenas pessoas. 

maio 05, 2008

O SEXO E MAIO DE 68

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 2 de Maio)




AGORA - Se pensam que Maio de 68 mudou o mundo, o melhor é olharem para estes últimos anos, desde o 11 de Setembro de 2001: emergência do fanatismo religioso, escalada no preço do petróleo, instabilidade bolsista, o crescimento da China e Índia e os reflexos no resto do planeta, a derrocada do sistema financeiro, o descontrolo no preço dos alimentos: estes dez primeiros anos do último milénio prometem deixar mais marcas que os últimos 32 do milénio passado.


 
ANTES - E, no entanto, 1968 foi um ano marcante: A Primavera de Praga e a chegada de Dubcek ao poder levaram à invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, desencaderam a crise na heterodoxia comunista e significaram o princípio do fim do império soviético.  No mesmo ano, nos Estados Unidos, foram assassinados em atentados Martin Luther King e Robert Kennedy Jr. Para além da França, manifestações diversas, mas significativas, ocorreram na Itália, na Alemanha, no Brasil e no México, quase sempre a partir das universidades – eram jovens nascidos por volta de 1950, frutos dos casamentos do pós guerra e da súbita evolução da sociedade e dos costumes. Em 1967 os hippies, acabados de surgir, tinham lançado ao mundo o slogan « Make Love, Not War».


Nesse tempo, as notícias chegavam mais pela rádio e pela imprensa que pela televisão, e as imagens do que se passavam no mundo vinham nas revistas. O meu Maio de 1968 foi marcado pelas edições especiais do «Paris-Match» e do «L’Express» que cá chegavam, e que mostravam o que de outra maneira não se conseguia ver. 


A ORIGEM  - Maio de 1968 não foi um fenómeno súbito, teve a ver com dois movimentos essenciais que se cruzaram: em primeiro lugar o pacifismo, alimentado nos protestos contra a guerra do Vietname; e, em segundo lugar, a reivindicação de liberdade sexual e a recusa da autoridade.


É curioso recordar como tudo começou, em França, nesse ano de 1968: Paris-Nanterre era uma Universidade periférica, para onde eram arredados os que não haviam conseguido ingressar na Sorbonne ou em outras prestigiadas escolas superiores do centro de Paris. Era o que se podia dizer uma universidade contestatária: tinha-se indignado com a morte de Che Guevara em finais de 67, protestava regularmente contra a guerra do Vietname e devorava com avidez as notícias da Revolução Cultural que Mao Tse Tung dirigia na longínqua e enigmática China.


Mas na realidade o rastilho dos primeiros incidentes da Universidade de Paris-Nanterre (que foi onde tudo se iniciou) foi inflamado pela proibição, em Março de 1968, pelas autoridades académicas, de uma conferência sobre a obra de Wilhelm Reich, um psicanalista de origem austríaca que preconizava que os adolescentes deviam viver livremente a sua sexualidade e, de uma forma geral, defendia a liberdade sexual. A revolta começa contra as autoridades académicas, conservadoras, que não viam nas teorias de Reich nada que merecesse ser discutido numa Universidade. No centro das suas teorias estava o «orgónio», uma forma de energia que derivaria directamente do acto sexual e do prazer nele obtido. Reich morreu, só e desacreditado, em 1957, nos Estados Unidos, mas em meados dos anos 60 as suas principais obras foram reeditadas e ganharam uma súbita segunda vida. Foi, em parte, o mentor involuntário do célebre Verão do Amor, na Califórnia, em 1967. A originalidade e liberdade do  Festival de Monterrey e os slogans «Make Love Not War», chegaram à Europa com uns meses de atraso. Mas chegaram com força. 




A UTOPIA - Foi também esse o tempo suficiente para que em Paris se desse pela obra de Herbert Marcuse, o livro «O Fim da Utopia», publicado em 1967 nos Estados Unidos. Ao contrário de Engels, que defendia que o socialismo avançava a partir do utópico para uma análise científica da sociedade, Marcuse desejava resgatar o valor mobilizador das utopias – o slogan «A Imaginação Ao Poder», que inundou as paredes de Paris nesse Maio, tinha aqui as suas verdadeiras origens. Marcuse, que vivia nos Estados Unidos, estava na vanguarda dos teóricos da nova esquerda, que renegavam o papel do proletariado das sociedades industriais na revolução, acusando-o, com muita justeza, de estar acomodado ao consumismo. Para ele os agentes da transformação social deveriam ser os que estavam fora dos compromissos sociais estabelecidos, os estudantes, as minorias étnicas, os intelectuais que continuavam a ser livre pensadores. Aqui não havia uma ideologia, apenas um protesto, e desses grupos sociais é que, ainda que inconscientemente, partiria a contestação ao sistema capitalista e à ordem autoritária. Para os estudantes e intelectuais franceses isto era música celestial. Estava legitimada teoricamente a acção, coisa que como se sabe é sempre útil em França. Se a proibição da discussão da obra de Wilhelm Reich foi o pretexto, o resto nasceu pura e simplesmente do combate à autoridade e aos valores estabelecidos. E o resto foi uma enorme roda livre, uma explosão de tensões, que provocou forte susto à autoridade, mas que no entanto rapidamente se restabeleceu, como a estrondosa vitória eleitoral do General De Gaulle em finais de Julho, dois meses depois das barricadas, deixou bem claro.


Nesses meses, deu-se o declínio da esquerda tradicional, completamente ultrapassada pelos acontecimentos – o caso havia de lançar socialistas e comunistas franceses numa longa crise. O PSF era já quase inexistente e o Partido Comunista Francês demarcou-se sempre das manifestações estudantis, o que levou Jean Paul Sartre a dizer, com uma ingénua evidência: «Os comunistas temem a revolução ». Uns anos depois, seis para ser mais exacto, o mesmo aconteceu por cá. Uma parte do pós 25 de Abril foi o nosso Maio de 68, com o atraso do costume. E, como em França, no fim, a autoridade foi restabelecida.