JUSTIÇA? – O sistema judicial português – em particular a Procuradoria da República e a Polícia Judiciária - tornaram prática corrente uma forma muito século XXI da justiça popular pós revolucionária de má memória: insinua-se uma acusação a alguém, de alguma coisa, não se apresentam provas nem acusação concreta, constituem-se arguidos ad-hoc, dá-se boa cobertura jornalística ao sucedido avisando de buscas domiciliárias, inquirições, e arguições, atenta-se ao bom nome das pessoas de forma metódica e sistemática. Depois, o processo não anda, as provas não surgem, a acusação não é concretizada – mas o mal está feito e as pessoas vão sendo afastadas do que faziam. A utilização destas práticas em processos de matriz política é assunto corrente. Kafka escreveu sobre isto no século passado, mas é no século XXI que o sistema judicial português e a sua justiça popular pós-moderna são cada vez mais kafkianos.
ACASO – Estou para ver se por algum acaso do destino as entidades judiciais resolvem constituir arguido mais algum vereador da Câmara Municipal de Lisboa, ou o seu próprio Presidente, precisamente na altura em que o PS já estiver pronto para apresentar candidato – processo turbulento, difícil e de calendário complicado. O caso, recordo aqui, não seria inédito na forma: o ex-Presidente da República, o socialista Jorge Sampaio, só encontrou razões para convocar eleições antecipadas quando o seu partido já estava pronto para as disputar. Ele há métodos que fazem escola…
IMPOSTOS – O insuspeito Medina Carreira disse na semana passada, em entrevista ao Rádio Clube Português, que a via administrativa para cobrar mais impostos estava a ficar esgotada – é um alerta para o que começam a ser sinais de abuso de poder da administração fiscal contra os cidadãos, reflexo de uma atitude generalizada do Estado. Na realidade fica cada vez mais evidente que, incapaz de concretizar reformas estruturais, o socratismo utiliza o Estado para perseguir os cidadãos e não para os servir. É o mundo ao contrário.
LIVRO – Uma fantástica e muitíssimo oportuna edição de um dos mais divertidos e certeiros escritos de Arthur Schopenhauer, «A Arte De Ter Sempre Razão». Eu oferecia de bom grado este livro ao Ministro António Pinho e ao Primeiro-Ministro José Sócrates – havia de lhes ser muito útil. Esta bela edição da Frenesi tem a vantagem de incluir ainda excertos de outro texto fundamental do autor, «O Fundamento da Moral», outro tema muito desconhecido pelo Estado nos dias que correm. A edição da Frenesi tem uma boa tradução e um certeiro prólogo de Jorge Pereirinha Pires intitulado «Da Linguagem Como Arte Marcial».
FOTOGRAFIA – Olho para a exposição dos seleccionados para o prémio BES Photo e fico com a sensação de que, em três quartos do que está exposto, estou no reino da Floribella. De facto são uma desilusão os seleccionados para o prémio BES Photo de 2006: com a excepção de Daniel Blaufuks, o resto das escolhas do júri revela um provincianismo gritante, a adesão ao kitsch como abordagem estética, a subalternização da fotografia como forma de expressão e a sua consagração como mero suporte e meio técnico de cópia. É uma pena que esta iniciativa tenha escorregado para a lógica dos jogos florais pictóricos onde contam mais as influências que o talento. No CCB até 18 de Março.
OUVIR – O disco mais tropicalista alguma vez feito em Portugal chama-se «JP Simões 1970» e acabou de ser editado. Os temas originais de JP Simões, que foi a voz e boa parte do espírito dos Bellechase Hotel, são deslumbrantes. A forma de dizer, mais do que cantar, isola a música das palavras de uma forma quase provocatória, que contribui para tornar este disco uma das mais importantes gravações portuguesas dos últimos anos. É impensável não salientar a genial versão de um original de José Mário Branco, «Inquietação». Há muitos anos que fora do hip-hop não havia um disco de originais portugueses com esta qualidade e vigor. CD edição Nortesul.
REFERENDO – Voto pela liberdade individual de escolha e contra a hipocrisia. Voto sim.
BACK TO BASICS – Devemos fazer encolerizar o oponente, pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse – A.Schopenhauer.
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
fevereiro 10, 2007
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JUSTIÇA? – O sistema judicial português – em particular a Procuradoria da República e a Polícia Judiciária - tornaram prática corrente uma forma muito século XXI da justiça popular pós revolucionária de má memória: insinua-se uma acusação a alguém, de alguma coisa, não se apresentam provas nem acusação concreta, constituem-se arguidos ad-hoc, dá-se boa cobertura jornalística ao sucedido avisando de buscas domiciliárias, inquirições, e arguições, atenta-se ao bom nome das pessoas de forma metódica e sistemática. Depois, o processo não anda, as provas não surgem, a acusação não é concretizada – mas o mal está feito e as pessoas vão sendo afastadas do que faziam. A utilização destas práticas em processos de matriz política é assunto corrente. Kafka escreveu sobre isto no século passado, mas é no século XXI que o sistema judicial português e a sua justiça popular pós-moderna são cada vez mais kafkianos.
ACASO – Estou para ver se por algum acaso do destino as entidades judiciais resolvem constituir arguido mais algum vereador da Câmara Municipal de Lisboa, ou o seu próprio Presidente, precisamente na altura em que o PS já estiver pronto para apresentar candidato – processo turbulento, difícil e de calendário complicado. O caso, recordo aqui, não seria inédito na forma: o ex-Presidente da República, o socialista Jorge Sampaio, só encontrou razões para convocar eleições antecipadas quando o seu partido já estava pronto para as disputar. Ele há métodos que fazem escola…
IMPOSTOS – O insuspeito Medina Carreira disse na semana passada, em entrevista ao Rádio Clube Português, que a via administrativa para cobrar mais impostos estava a ficar esgotada – é um alerta para o que começam a ser sinais de abuso de poder da administração fiscal contra os cidadãos, reflexo de uma atitude generalizada do Estado. Na realidade fica cada vez mais evidente que, incapaz de concretizar reformas estruturais, o socratismo utiliza o Estado para perseguir os cidadãos e não para os servir. É o mundo ao contrário.
LIVRO – Uma fantástica e muitíssimo oportuna edição de um dos mais divertidos e certeiros escritos de Arthur Schopenhauer, «A Arte De Ter Sempre Razão». Eu oferecia de bom grado este livro ao Ministro António Pinho e ao Primeiro-Ministro José Sócrates – havia de lhes ser muito útil. Esta bela edição da Frenesi tem a vantagem de incluir ainda excertos de outro texto fundamental do autor, «O Fundamento da Moral», outro tema muito desconhecido pelo Estado nos dias que correm. A edição da Frenesi tem uma boa tradução e um certeiro prólogo de Jorge Pereirinha Pires intitulado «Da Linguagem Como Arte Marcial».
FOTOGRAFIA – Olho para a exposição dos seleccionados para o prémio BES Photo e fico com a sensação de que, em três quartos do que está exposto, estou no reino da Floribella. De facto são uma desilusão os seleccionados para o prémio BES Photo de 2006: com a excepção de Daniel Blaufuks, o resto das escolhas do júri revela um provincianismo gritante, a adesão ao kitsch como abordagem estética, a subalternização da fotografia como forma de expressão e a sua consagração como mero suporte e meio técnico de cópia. É uma pena que esta iniciativa tenha escorregado para a lógica dos jogos florais pictóricos onde contam mais as influências que o talento. No CCB até 18 de Março.
OUVIR – O disco mais tropicalista alguma vez feito em Portugal chama-se «JP Simões 1970» e acabou de ser editado. Os temas originais de JP Simões, que foi a voz e boa parte do espírito dos Bellechase Hotel, são deslumbrantes. A forma de dizer, mais do que cantar, isola a música das palavras de uma forma quase provocatória, que contribui para tornar este disco uma das mais importantes gravações portuguesas dos últimos anos. É impensável não salientar a genial versão de um original de José Mário Branco, «Inquietação». Há muitos anos que fora do hip-hop não havia um disco de originais portugueses com esta qualidade e vigor. CD edição Nortesul.
REFERENDO – Voto pela liberdade individual de escolha e contra a hipocrisia. Voto sim.
BACK TO BASICS – Devemos fazer encolerizar o oponente, pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse – A.Schopenhauer.
ACASO – Estou para ver se por algum acaso do destino as entidades judiciais resolvem constituir arguido mais algum vereador da Câmara Municipal de Lisboa, ou o seu próprio Presidente, precisamente na altura em que o PS já estiver pronto para apresentar candidato – processo turbulento, difícil e de calendário complicado. O caso, recordo aqui, não seria inédito na forma: o ex-Presidente da República, o socialista Jorge Sampaio, só encontrou razões para convocar eleições antecipadas quando o seu partido já estava pronto para as disputar. Ele há métodos que fazem escola…
IMPOSTOS – O insuspeito Medina Carreira disse na semana passada, em entrevista ao Rádio Clube Português, que a via administrativa para cobrar mais impostos estava a ficar esgotada – é um alerta para o que começam a ser sinais de abuso de poder da administração fiscal contra os cidadãos, reflexo de uma atitude generalizada do Estado. Na realidade fica cada vez mais evidente que, incapaz de concretizar reformas estruturais, o socratismo utiliza o Estado para perseguir os cidadãos e não para os servir. É o mundo ao contrário.
LIVRO – Uma fantástica e muitíssimo oportuna edição de um dos mais divertidos e certeiros escritos de Arthur Schopenhauer, «A Arte De Ter Sempre Razão». Eu oferecia de bom grado este livro ao Ministro António Pinho e ao Primeiro-Ministro José Sócrates – havia de lhes ser muito útil. Esta bela edição da Frenesi tem a vantagem de incluir ainda excertos de outro texto fundamental do autor, «O Fundamento da Moral», outro tema muito desconhecido pelo Estado nos dias que correm. A edição da Frenesi tem uma boa tradução e um certeiro prólogo de Jorge Pereirinha Pires intitulado «Da Linguagem Como Arte Marcial».
FOTOGRAFIA – Olho para a exposição dos seleccionados para o prémio BES Photo e fico com a sensação de que, em três quartos do que está exposto, estou no reino da Floribella. De facto são uma desilusão os seleccionados para o prémio BES Photo de 2006: com a excepção de Daniel Blaufuks, o resto das escolhas do júri revela um provincianismo gritante, a adesão ao kitsch como abordagem estética, a subalternização da fotografia como forma de expressão e a sua consagração como mero suporte e meio técnico de cópia. É uma pena que esta iniciativa tenha escorregado para a lógica dos jogos florais pictóricos onde contam mais as influências que o talento. No CCB até 18 de Março.
OUVIR – O disco mais tropicalista alguma vez feito em Portugal chama-se «JP Simões 1970» e acabou de ser editado. Os temas originais de JP Simões, que foi a voz e boa parte do espírito dos Bellechase Hotel, são deslumbrantes. A forma de dizer, mais do que cantar, isola a música das palavras de uma forma quase provocatória, que contribui para tornar este disco uma das mais importantes gravações portuguesas dos últimos anos. É impensável não salientar a genial versão de um original de José Mário Branco, «Inquietação». Há muitos anos que fora do hip-hop não havia um disco de originais portugueses com esta qualidade e vigor. CD edição Nortesul.
REFERENDO – Voto pela liberdade individual de escolha e contra a hipocrisia. Voto sim.
BACK TO BASICS – Devemos fazer encolerizar o oponente, pois no seu furor ele fica incapaz de um juízo correcto e de perceber o que é do seu interesse – A.Schopenhauer.
fevereiro 05, 2007
DESPUDOR - Da maneira que as informações sobre investigações em curso, sobre buscas domiciliárias e sobre os trâmites do sistema judicial se tornam publicitadas, valia a pena pedir ao senhor Procurador da República para ordenar escutas aos telefones e vigilância aos computadores de agentes, magistrados e juízes, para ver quem anda a fazer o que não deve. Se há justiça, ela deve ser para todos e o Procurador não pode ficar sob a suspeita de deixar utilizar investigações e investigadores como um elemento de pressão na opinião pública nem como arma de contendas políticas - a menos que esteja disposto a continuar as linhas mestras do triste mandato do seu antecessor.
REGISTAR – Este ano a Câmara Municipal de Lisboa acabou com duas bienais – a Lisbon Photo e a Experimenta Design, dois momentos diferentes na vida da cidade, que a valorizavam e projectavam internacionalmente. Mais do que acabar conjunturalmente com uma edição dessas bienais, o gesto da vereação da Cultura da Câmara deita para o caixote de lixo o investimento feito nos últimos anos nestas duas iniciativas, e que ao longo do tempo foi dando os seus frutos. O mais curioso é que o anúncio do fim destas duas bienais coincide com o anúncio de um investimento numa nova iniciativa, uma trienal de arquitectura, para a qual se vai utilizar o Pavilhão de Portugal. Não vejo problema nenhum em criar uma mostra de arqutectura, vejo é com muita desconfiança uma gestão que prefere delapidar investimentos passados e extinguir o que ía bem existindo, apenas para deixar uma obrinha sua. Estas manias persecutórias e este afã de deixar obra arrasando o passado são uma das maiores demonstrações do nosso atávico provincianismo, dos orgulhos pacóvios de paróquia, dos joguinhos de interesses que desprezam o interesse público, que delapidam os investimentos anteriormente realizados com o dinheiro dos contribuintes e que revelam apenas uma completa ausência de estratégia de posicionamento cultural da cidade. A coisa, já agora, é tanto pior quanto é certo que, na segunda metade do ano, Lisboa recebe a presidência da Comunidade Europeia e ninguém parece ter-se preocupado com o assunto.
VER – As fotografias de Annie Leibowitz, num dos mais fantásticos álbuns dos últimos tempos, feito a propósito da exposição que entre 20 de Outubro do ano passado e 21 de Janeiro esteve no Brooklyn Museum, de Nova York: «A Photographer’s Life, 1990-2005». A exposição (e o álbum) traçam paralelos entre o trabalho de Leibowitz para revistas como a «Vanity Fair» e a «Rolling Stone», ao mesmo tempo que mostram o seu percurso pessoal, nomeadamente a relação com a ensaísta Susan Sontag – e a doença que acabou por a derrotar no final de 2004. É curioso contrastar a produção colocada em fotografias de moda e publicidade, com a simplicidade de algumas imagens a preto e branco, muito íntimas, delicadamente pessoais. Leibowitz é uma das grandes retratistas da segunda metade do século XX e uma das fotógrafas que melhor seguiu o mundo do entretenimento, nomeadamente das estrelas do rock e das estrelas do cinema. O álbum foi um delicioso e inesquecível presente que me deram e alivia-me a mágoa de não ter partilhado a exposição propriamente dita. Edição Random House.
OUVIR - É engraçado notar como a estratégia editorial de uma das maiores etiquetas de música clássica – a Deutsche Grammophon – se tem agilizado nos últimos anos. A mudança é curiosa porque incorpora alguns dos truques editoriais da música pop num repertório clássico, em gravações e interpretações com o elevado padrão de qualidade a que a editora habituou o seu público. Depois de em Novembro ter lançado o disco da soprano Anne Netrebko dedicado aos compositores russos, que há semanas lidera o top clássico na Europa central, o disco de estreia da meio-soprano Elina Garanco, «Ária Cantilena», editado em Dezembro (e que inclui uma deliciosa interpretação da «Cantilena» das «Bachinas Brasileiras» de Villa-Lobos, segue carreira similar e obtém críticas elogiosas. A culminar, escassas duas semanas depois do tradicional concerto de Ano Novo de Viena, eis que a Deutsche lançou já no mercado a gravação desse mesmo concerto deste ano, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Zubin Mehta, com valsas de Johan e Josef Strauss, incluindo uma interpretação inédita da arrebatadora valsa «Wo die Zitronen bluh’n».
BACK TO BASICS –As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas - Otto von Bismark
REGISTAR – Este ano a Câmara Municipal de Lisboa acabou com duas bienais – a Lisbon Photo e a Experimenta Design, dois momentos diferentes na vida da cidade, que a valorizavam e projectavam internacionalmente. Mais do que acabar conjunturalmente com uma edição dessas bienais, o gesto da vereação da Cultura da Câmara deita para o caixote de lixo o investimento feito nos últimos anos nestas duas iniciativas, e que ao longo do tempo foi dando os seus frutos. O mais curioso é que o anúncio do fim destas duas bienais coincide com o anúncio de um investimento numa nova iniciativa, uma trienal de arquitectura, para a qual se vai utilizar o Pavilhão de Portugal. Não vejo problema nenhum em criar uma mostra de arqutectura, vejo é com muita desconfiança uma gestão que prefere delapidar investimentos passados e extinguir o que ía bem existindo, apenas para deixar uma obrinha sua. Estas manias persecutórias e este afã de deixar obra arrasando o passado são uma das maiores demonstrações do nosso atávico provincianismo, dos orgulhos pacóvios de paróquia, dos joguinhos de interesses que desprezam o interesse público, que delapidam os investimentos anteriormente realizados com o dinheiro dos contribuintes e que revelam apenas uma completa ausência de estratégia de posicionamento cultural da cidade. A coisa, já agora, é tanto pior quanto é certo que, na segunda metade do ano, Lisboa recebe a presidência da Comunidade Europeia e ninguém parece ter-se preocupado com o assunto.
VER – As fotografias de Annie Leibowitz, num dos mais fantásticos álbuns dos últimos tempos, feito a propósito da exposição que entre 20 de Outubro do ano passado e 21 de Janeiro esteve no Brooklyn Museum, de Nova York: «A Photographer’s Life, 1990-2005». A exposição (e o álbum) traçam paralelos entre o trabalho de Leibowitz para revistas como a «Vanity Fair» e a «Rolling Stone», ao mesmo tempo que mostram o seu percurso pessoal, nomeadamente a relação com a ensaísta Susan Sontag – e a doença que acabou por a derrotar no final de 2004. É curioso contrastar a produção colocada em fotografias de moda e publicidade, com a simplicidade de algumas imagens a preto e branco, muito íntimas, delicadamente pessoais. Leibowitz é uma das grandes retratistas da segunda metade do século XX e uma das fotógrafas que melhor seguiu o mundo do entretenimento, nomeadamente das estrelas do rock e das estrelas do cinema. O álbum foi um delicioso e inesquecível presente que me deram e alivia-me a mágoa de não ter partilhado a exposição propriamente dita. Edição Random House.
OUVIR - É engraçado notar como a estratégia editorial de uma das maiores etiquetas de música clássica – a Deutsche Grammophon – se tem agilizado nos últimos anos. A mudança é curiosa porque incorpora alguns dos truques editoriais da música pop num repertório clássico, em gravações e interpretações com o elevado padrão de qualidade a que a editora habituou o seu público. Depois de em Novembro ter lançado o disco da soprano Anne Netrebko dedicado aos compositores russos, que há semanas lidera o top clássico na Europa central, o disco de estreia da meio-soprano Elina Garanco, «Ária Cantilena», editado em Dezembro (e que inclui uma deliciosa interpretação da «Cantilena» das «Bachinas Brasileiras» de Villa-Lobos, segue carreira similar e obtém críticas elogiosas. A culminar, escassas duas semanas depois do tradicional concerto de Ano Novo de Viena, eis que a Deutsche lançou já no mercado a gravação desse mesmo concerto deste ano, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Zubin Mehta, com valsas de Johan e Josef Strauss, incluindo uma interpretação inédita da arrebatadora valsa «Wo die Zitronen bluh’n».
BACK TO BASICS –As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas - Otto von Bismark
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DESPUDOR - Da maneira que as informações sobre investigações em curso, sobre buscas domiciliárias e sobre os trâmites do sistema judicial se tornam publicitadas, valia a pena pedir ao senhor Procurador da República para ordenar escutas aos telefones e vigilância aos computadores de agentes, magistrados e juízes, para ver quem anda a fazer o que não deve. Se há justiça, ela deve ser para todos e o Procurador não pode ficar sob a suspeita de deixar utilizar investigações e investigadores como um elemento de pressão na opinião pública nem como arma de contendas políticas - a menos que esteja disposto a continuar as linhas mestras do triste mandato do seu antecessor.
REGISTAR – Este ano a Câmara Municipal de Lisboa acabou com duas bienais – a Lisbon Photo e a Experimenta Design, dois momentos diferentes na vida da cidade, que a valorizavam e projectavam internacionalmente. Mais do que acabar conjunturalmente com uma edição dessas bienais, o gesto da vereação da Cultura da Câmara deita para o caixote de lixo o investimento feito nos últimos anos nestas duas iniciativas, e que ao longo do tempo foi dando os seus frutos. O mais curioso é que o anúncio do fim destas duas bienais coincide com o anúncio de um investimento numa nova iniciativa, uma trienal de arquitectura, para a qual se vai utilizar o Pavilhão de Portugal. Não vejo problema nenhum em criar uma mostra de arqutectura, vejo é com muita desconfiança uma gestão que prefere delapidar investimentos passados e extinguir o que ía bem existindo, apenas para deixar uma obrinha sua. Estas manias persecutórias e este afã de deixar obra arrasando o passado são uma das maiores demonstrações do nosso atávico provincianismo, dos orgulhos pacóvios de paróquia, dos joguinhos de interesses que desprezam o interesse público, que delapidam os investimentos anteriormente realizados com o dinheiro dos contribuintes e que revelam apenas uma completa ausência de estratégia de posicionamento cultural da cidade. A coisa, já agora, é tanto pior quanto é certo que, na segunda metade do ano, Lisboa recebe a presidência da Comunidade Europeia e ninguém parece ter-se preocupado com o assunto.
VER – As fotografias de Annie Leibowitz, num dos mais fantásticos álbuns dos últimos tempos, feito a propósito da exposição que entre 20 de Outubro do ano passado e 21 de Janeiro esteve no Brooklyn Museum, de Nova York: «A Photographer’s Life, 1990-2005». A exposição (e o álbum) traçam paralelos entre o trabalho de Leibowitz para revistas como a «Vanity Fair» e a «Rolling Stone», ao mesmo tempo que mostram o seu percurso pessoal, nomeadamente a relação com a ensaísta Susan Sontag – e a doença que acabou por a derrotar no final de 2004. É curioso contrastar a produção colocada em fotografias de moda e publicidade, com a simplicidade de algumas imagens a preto e branco, muito íntimas, delicadamente pessoais. Leibowitz é uma das grandes retratistas da segunda metade do século XX e uma das fotógrafas que melhor seguiu o mundo do entretenimento, nomeadamente das estrelas do rock e das estrelas do cinema. O álbum foi um delicioso e inesquecível presente que me deram e alivia-me a mágoa de não ter partilhado a exposição propriamente dita. Edição Random House.
OUVIR - É engraçado notar como a estratégia editorial de uma das maiores etiquetas de música clássica – a Deutsche Grammophon – se tem agilizado nos últimos anos. A mudança é curiosa porque incorpora alguns dos truques editoriais da música pop num repertório clássico, em gravações e interpretações com o elevado padrão de qualidade a que a editora habituou o seu público. Depois de em Novembro ter lançado o disco da soprano Anne Netrebko dedicado aos compositores russos, que há semanas lidera o top clássico na Europa central, o disco de estreia da meio-soprano Elina Garanco, «Ária Cantilena», editado em Dezembro (e que inclui uma deliciosa interpretação da «Cantilena» das «Bachinas Brasileiras» de Villa-Lobos, segue carreira similar e obtém críticas elogiosas. A culminar, escassas duas semanas depois do tradicional concerto de Ano Novo de Viena, eis que a Deutsche lançou já no mercado a gravação desse mesmo concerto deste ano, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Zubin Mehta, com valsas de Johan e Josef Strauss, incluindo uma interpretação inédita da arrebatadora valsa «Wo die Zitronen bluh’n».
BACK TO BASICS –As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas - Otto von Bismark
REGISTAR – Este ano a Câmara Municipal de Lisboa acabou com duas bienais – a Lisbon Photo e a Experimenta Design, dois momentos diferentes na vida da cidade, que a valorizavam e projectavam internacionalmente. Mais do que acabar conjunturalmente com uma edição dessas bienais, o gesto da vereação da Cultura da Câmara deita para o caixote de lixo o investimento feito nos últimos anos nestas duas iniciativas, e que ao longo do tempo foi dando os seus frutos. O mais curioso é que o anúncio do fim destas duas bienais coincide com o anúncio de um investimento numa nova iniciativa, uma trienal de arquitectura, para a qual se vai utilizar o Pavilhão de Portugal. Não vejo problema nenhum em criar uma mostra de arqutectura, vejo é com muita desconfiança uma gestão que prefere delapidar investimentos passados e extinguir o que ía bem existindo, apenas para deixar uma obrinha sua. Estas manias persecutórias e este afã de deixar obra arrasando o passado são uma das maiores demonstrações do nosso atávico provincianismo, dos orgulhos pacóvios de paróquia, dos joguinhos de interesses que desprezam o interesse público, que delapidam os investimentos anteriormente realizados com o dinheiro dos contribuintes e que revelam apenas uma completa ausência de estratégia de posicionamento cultural da cidade. A coisa, já agora, é tanto pior quanto é certo que, na segunda metade do ano, Lisboa recebe a presidência da Comunidade Europeia e ninguém parece ter-se preocupado com o assunto.
VER – As fotografias de Annie Leibowitz, num dos mais fantásticos álbuns dos últimos tempos, feito a propósito da exposição que entre 20 de Outubro do ano passado e 21 de Janeiro esteve no Brooklyn Museum, de Nova York: «A Photographer’s Life, 1990-2005». A exposição (e o álbum) traçam paralelos entre o trabalho de Leibowitz para revistas como a «Vanity Fair» e a «Rolling Stone», ao mesmo tempo que mostram o seu percurso pessoal, nomeadamente a relação com a ensaísta Susan Sontag – e a doença que acabou por a derrotar no final de 2004. É curioso contrastar a produção colocada em fotografias de moda e publicidade, com a simplicidade de algumas imagens a preto e branco, muito íntimas, delicadamente pessoais. Leibowitz é uma das grandes retratistas da segunda metade do século XX e uma das fotógrafas que melhor seguiu o mundo do entretenimento, nomeadamente das estrelas do rock e das estrelas do cinema. O álbum foi um delicioso e inesquecível presente que me deram e alivia-me a mágoa de não ter partilhado a exposição propriamente dita. Edição Random House.
OUVIR - É engraçado notar como a estratégia editorial de uma das maiores etiquetas de música clássica – a Deutsche Grammophon – se tem agilizado nos últimos anos. A mudança é curiosa porque incorpora alguns dos truques editoriais da música pop num repertório clássico, em gravações e interpretações com o elevado padrão de qualidade a que a editora habituou o seu público. Depois de em Novembro ter lançado o disco da soprano Anne Netrebko dedicado aos compositores russos, que há semanas lidera o top clássico na Europa central, o disco de estreia da meio-soprano Elina Garanco, «Ária Cantilena», editado em Dezembro (e que inclui uma deliciosa interpretação da «Cantilena» das «Bachinas Brasileiras» de Villa-Lobos, segue carreira similar e obtém críticas elogiosas. A culminar, escassas duas semanas depois do tradicional concerto de Ano Novo de Viena, eis que a Deutsche lançou já no mercado a gravação desse mesmo concerto deste ano, com a Filarmónica de Viena, dirigida por Zubin Mehta, com valsas de Johan e Josef Strauss, incluindo uma interpretação inédita da arrebatadora valsa «Wo die Zitronen bluh’n».
BACK TO BASICS –As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas - Otto von Bismark
fevereiro 01, 2007
MAO MAO
marcas da revolução
Andy Warhol estava bem longe de poder ser considerado um maoísta – mas o seu célebre retrato de Mao Zedong (1973) mostra como a pop art compreendeu rapidamente o valor do maior ícone revolucionário daquela época. Warhol colocou Mao no mesmo limiar simbólico de uma lata de sopa, de uma nota de dólar, de uma garrafa de Coca-Cola ou de um pacote de detergente - na época isto pareceu uma heresia para alguns. Na realidade Warhol apropriava-se de imagens universalmente conhecidas e tornava-as em imagens de marca da sua própria criação artística: objectos numa primeira fase, pessoas num segundo momento – foi quando, no trabalho do pintor, Mao conviveu com Marylin Monroe, Elvis Presley, Jacqueline Kennedy e Che Guevara. Quando Warhol fazia esta apropriação, passava ao mesmo tempo um certificado de credibilidade à imagem inicial que o inspirara, tornava-a em parte numa marca criativa.
A imagem de Mao – e da revolução chinesa – não surgiu apenas pela mão de Warhol. Os ícones da revolução desde cedo se tornaram boa fonte de rendimento nas sociedades ocidentais para os vendedores de T Shirts e de posters que encheram com os seus produtos, estampados com as caras de Mao ou de Guevara, os quartos e a imaginação dos protagonistas dos dias agitados de 1968, moda que entrou pelo início dos anos 70.
A revolução chinesa – como quase todas as grandes revoluções do século XX – foi muito iconográfica e mais não fez que seguir o exemplo da revolução soviética de 1917. Os dirigentes soviéticos desde cedo perceberam o valor da imagem (do vermelho, do contraste da foice com o martelo) e investiram talentos e recursos em cartazes, de um acutilante propagandismo baseado no hiper-realismo, cartazes que pretendiam divulgar objectivos políticos, assim como mobilizar apoiantes; mais tarde utilizaram cineastas como Vassiliev ou Eisenstein para fins idênticos e fabricaram filmes revolucionários onde a estética realista mostrava o que ainda não existia, e era apenas um modelo ou um objectivo. A estrela vermelha começou por pretender ser o farol da revolução e, nos anos 80, acabou a servir de marca a jeans e de inspiração a capas de discos e logótipos variados.
No caso chinês, o formato das enormes bandeiras vermelhas, sobre o alto em vez de ser sobre o comprido, acabou por inspirar os desenhadores de bandeirolas publicitárias. Da mesma forma a combinação improvável, mas irresistível, do vermelho e do amarelo vivo, acabou por ser utilizada numa série de outras situações que nada tinham a ver com a revolução.
Subconscientemente, nos símbolos das revoluções, combina-se a utopia de um ideal com a energia da luta, a afectividade a uma causa com um desejo de mudança. A utilização da simbologia das revoluções de forma comercial tem a ver com isto mesmo, com a utilização dos factores subconscientes que tornam os ícones da revolução em marcas massificadas e invejáveis.
Não me surpreenderia se, depois de passar a fase em que está a resolver o conflito interior com o seu passado recente, a China retomasse a imagem de Mao e utilizasse a sua enorme carga simbólica como imagem de marca internacional. A História já viu coisas mais improváveis – e, se isso acontecer, Pequim limitar-se-à a fechar o círculo com a Nova York onde Warhol criou os seus heróis.
(publicado no «Diário Económico» de 31 de Janeiro)
marcas da revolução
Andy Warhol estava bem longe de poder ser considerado um maoísta – mas o seu célebre retrato de Mao Zedong (1973) mostra como a pop art compreendeu rapidamente o valor do maior ícone revolucionário daquela época. Warhol colocou Mao no mesmo limiar simbólico de uma lata de sopa, de uma nota de dólar, de uma garrafa de Coca-Cola ou de um pacote de detergente - na época isto pareceu uma heresia para alguns. Na realidade Warhol apropriava-se de imagens universalmente conhecidas e tornava-as em imagens de marca da sua própria criação artística: objectos numa primeira fase, pessoas num segundo momento – foi quando, no trabalho do pintor, Mao conviveu com Marylin Monroe, Elvis Presley, Jacqueline Kennedy e Che Guevara. Quando Warhol fazia esta apropriação, passava ao mesmo tempo um certificado de credibilidade à imagem inicial que o inspirara, tornava-a em parte numa marca criativa.
A imagem de Mao – e da revolução chinesa – não surgiu apenas pela mão de Warhol. Os ícones da revolução desde cedo se tornaram boa fonte de rendimento nas sociedades ocidentais para os vendedores de T Shirts e de posters que encheram com os seus produtos, estampados com as caras de Mao ou de Guevara, os quartos e a imaginação dos protagonistas dos dias agitados de 1968, moda que entrou pelo início dos anos 70.
A revolução chinesa – como quase todas as grandes revoluções do século XX – foi muito iconográfica e mais não fez que seguir o exemplo da revolução soviética de 1917. Os dirigentes soviéticos desde cedo perceberam o valor da imagem (do vermelho, do contraste da foice com o martelo) e investiram talentos e recursos em cartazes, de um acutilante propagandismo baseado no hiper-realismo, cartazes que pretendiam divulgar objectivos políticos, assim como mobilizar apoiantes; mais tarde utilizaram cineastas como Vassiliev ou Eisenstein para fins idênticos e fabricaram filmes revolucionários onde a estética realista mostrava o que ainda não existia, e era apenas um modelo ou um objectivo. A estrela vermelha começou por pretender ser o farol da revolução e, nos anos 80, acabou a servir de marca a jeans e de inspiração a capas de discos e logótipos variados.
No caso chinês, o formato das enormes bandeiras vermelhas, sobre o alto em vez de ser sobre o comprido, acabou por inspirar os desenhadores de bandeirolas publicitárias. Da mesma forma a combinação improvável, mas irresistível, do vermelho e do amarelo vivo, acabou por ser utilizada numa série de outras situações que nada tinham a ver com a revolução.
Subconscientemente, nos símbolos das revoluções, combina-se a utopia de um ideal com a energia da luta, a afectividade a uma causa com um desejo de mudança. A utilização da simbologia das revoluções de forma comercial tem a ver com isto mesmo, com a utilização dos factores subconscientes que tornam os ícones da revolução em marcas massificadas e invejáveis.
Não me surpreenderia se, depois de passar a fase em que está a resolver o conflito interior com o seu passado recente, a China retomasse a imagem de Mao e utilizasse a sua enorme carga simbólica como imagem de marca internacional. A História já viu coisas mais improváveis – e, se isso acontecer, Pequim limitar-se-à a fechar o círculo com a Nova York onde Warhol criou os seus heróis.
(publicado no «Diário Económico» de 31 de Janeiro)
Untitled
MAO MAO
marcas da revolução
Andy Warhol estava bem longe de poder ser considerado um maoísta – mas o seu célebre retrato de Mao Zedong (1973) mostra como a pop art compreendeu rapidamente o valor do maior ícone revolucionário daquela época. Warhol colocou Mao no mesmo limiar simbólico de uma lata de sopa, de uma nota de dólar, de uma garrafa de Coca-Cola ou de um pacote de detergente - na época isto pareceu uma heresia para alguns. Na realidade Warhol apropriava-se de imagens universalmente conhecidas e tornava-as em imagens de marca da sua própria criação artística: objectos numa primeira fase, pessoas num segundo momento – foi quando, no trabalho do pintor, Mao conviveu com Marylin Monroe, Elvis Presley, Jacqueline Kennedy e Che Guevara. Quando Warhol fazia esta apropriação, passava ao mesmo tempo um certificado de credibilidade à imagem inicial que o inspirara, tornava-a em parte numa marca criativa.
A imagem de Mao – e da revolução chinesa – não surgiu apenas pela mão de Warhol. Os ícones da revolução desde cedo se tornaram boa fonte de rendimento nas sociedades ocidentais para os vendedores de T Shirts e de posters que encheram com os seus produtos, estampados com as caras de Mao ou de Guevara, os quartos e a imaginação dos protagonistas dos dias agitados de 1968, moda que entrou pelo início dos anos 70.
A revolução chinesa – como quase todas as grandes revoluções do século XX – foi muito iconográfica e mais não fez que seguir o exemplo da revolução soviética de 1917. Os dirigentes soviéticos desde cedo perceberam o valor da imagem (do vermelho, do contraste da foice com o martelo) e investiram talentos e recursos em cartazes, de um acutilante propagandismo baseado no hiper-realismo, cartazes que pretendiam divulgar objectivos políticos, assim como mobilizar apoiantes; mais tarde utilizaram cineastas como Vassiliev ou Eisenstein para fins idênticos e fabricaram filmes revolucionários onde a estética realista mostrava o que ainda não existia, e era apenas um modelo ou um objectivo. A estrela vermelha começou por pretender ser o farol da revolução e, nos anos 80, acabou a servir de marca a jeans e de inspiração a capas de discos e logótipos variados.
No caso chinês, o formato das enormes bandeiras vermelhas, sobre o alto em vez de ser sobre o comprido, acabou por inspirar os desenhadores de bandeirolas publicitárias. Da mesma forma a combinação improvável, mas irresistível, do vermelho e do amarelo vivo, acabou por ser utilizada numa série de outras situações que nada tinham a ver com a revolução.
Subconscientemente, nos símbolos das revoluções, combina-se a utopia de um ideal com a energia da luta, a afectividade a uma causa com um desejo de mudança. A utilização da simbologia das revoluções de forma comercial tem a ver com isto mesmo, com a utilização dos factores subconscientes que tornam os ícones da revolução em marcas massificadas e invejáveis.
Não me surpreenderia se, depois de passar a fase em que está a resolver o conflito interior com o seu passado recente, a China retomasse a imagem de Mao e utilizasse a sua enorme carga simbólica como imagem de marca internacional. A História já viu coisas mais improváveis – e, se isso acontecer, Pequim limitar-se-à a fechar o círculo com a Nova York onde Warhol criou os seus heróis.
(publicado no «Diário Económico» de 31 de Janeiro)
marcas da revolução
Andy Warhol estava bem longe de poder ser considerado um maoísta – mas o seu célebre retrato de Mao Zedong (1973) mostra como a pop art compreendeu rapidamente o valor do maior ícone revolucionário daquela época. Warhol colocou Mao no mesmo limiar simbólico de uma lata de sopa, de uma nota de dólar, de uma garrafa de Coca-Cola ou de um pacote de detergente - na época isto pareceu uma heresia para alguns. Na realidade Warhol apropriava-se de imagens universalmente conhecidas e tornava-as em imagens de marca da sua própria criação artística: objectos numa primeira fase, pessoas num segundo momento – foi quando, no trabalho do pintor, Mao conviveu com Marylin Monroe, Elvis Presley, Jacqueline Kennedy e Che Guevara. Quando Warhol fazia esta apropriação, passava ao mesmo tempo um certificado de credibilidade à imagem inicial que o inspirara, tornava-a em parte numa marca criativa.
A imagem de Mao – e da revolução chinesa – não surgiu apenas pela mão de Warhol. Os ícones da revolução desde cedo se tornaram boa fonte de rendimento nas sociedades ocidentais para os vendedores de T Shirts e de posters que encheram com os seus produtos, estampados com as caras de Mao ou de Guevara, os quartos e a imaginação dos protagonistas dos dias agitados de 1968, moda que entrou pelo início dos anos 70.
A revolução chinesa – como quase todas as grandes revoluções do século XX – foi muito iconográfica e mais não fez que seguir o exemplo da revolução soviética de 1917. Os dirigentes soviéticos desde cedo perceberam o valor da imagem (do vermelho, do contraste da foice com o martelo) e investiram talentos e recursos em cartazes, de um acutilante propagandismo baseado no hiper-realismo, cartazes que pretendiam divulgar objectivos políticos, assim como mobilizar apoiantes; mais tarde utilizaram cineastas como Vassiliev ou Eisenstein para fins idênticos e fabricaram filmes revolucionários onde a estética realista mostrava o que ainda não existia, e era apenas um modelo ou um objectivo. A estrela vermelha começou por pretender ser o farol da revolução e, nos anos 80, acabou a servir de marca a jeans e de inspiração a capas de discos e logótipos variados.
No caso chinês, o formato das enormes bandeiras vermelhas, sobre o alto em vez de ser sobre o comprido, acabou por inspirar os desenhadores de bandeirolas publicitárias. Da mesma forma a combinação improvável, mas irresistível, do vermelho e do amarelo vivo, acabou por ser utilizada numa série de outras situações que nada tinham a ver com a revolução.
Subconscientemente, nos símbolos das revoluções, combina-se a utopia de um ideal com a energia da luta, a afectividade a uma causa com um desejo de mudança. A utilização da simbologia das revoluções de forma comercial tem a ver com isto mesmo, com a utilização dos factores subconscientes que tornam os ícones da revolução em marcas massificadas e invejáveis.
Não me surpreenderia se, depois de passar a fase em que está a resolver o conflito interior com o seu passado recente, a China retomasse a imagem de Mao e utilizasse a sua enorme carga simbólica como imagem de marca internacional. A História já viu coisas mais improváveis – e, se isso acontecer, Pequim limitar-se-à a fechar o círculo com a Nova York onde Warhol criou os seus heróis.
(publicado no «Diário Económico» de 31 de Janeiro)
janeiro 30, 2007
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POLÍTICA – Uma das questões que marca estes últimos anos é a utilização de investigações policiais como arma de arremesso político e uma das coisas que marca as intervenções, nomeadamente da Judiciária e da Procuradoria Geral da República, é o aparato e o deliberado mediatismo de muitas das suas acções. Para complicar as coisas, numa enorme quantidade de processos investigados por estas entidades com grande alarde público, os resultados ficam aquém do estardalhaço provocado e constatam-se repetidas fragilidades formais na construção dos processos. Vivemos num país sem culpados nem inocentes, como bem fazia notar, em editorial, a subdirectora deste jornal, Luísa Bessa, há poucos dias. A forma como tudo se passa deixa as maiores dúvidas sobre a bondade da intervenção aparatosa da Polícia Judiciária na Câmara de Lisboa, assim como a conjugação de factos e acontecimentos permite criar interpretações políticas à actuação policial – desta suspeição já não se livram.
COINCIDÊNCIA – O alarde investigativo sobre a Câmara Municipal de Lisboa desencadeou-se na mesma semana em que a autarquia começou a protestar contra os cortes impostos pelo Governo nas transferências que eram devidas pela Lei das Finanças Locais – na verdade, unilateralmente, o Governo decidiu que Lisboa devia receber menos do que aquilo que a Lei prevê. Sou pouco dado a acreditar em coincidências: quando o estrangulamento financeiro surge ao mesmo tempo que uma investigação ruidosa, é porque está instalada uma guerra política com objectivos precisos - fazer cair o executivo camarário, provocar eleições e arrastar pela lama os opositores do Governo. E o actual poder, como se tem visto, não tem contemplações nem escrúpulos: o caso Cravinho é bem a prova da tentação absolutista. O PS está a especializar-se em usar a polícia para fazer política.
SISTEMA – Não é preciso ser especialista para perceber uma coisa: a capacidade de influência de promotores imobiliários e construtores nas autarquias e no sistema partidário tem aumentado nos últimos anos e a razão é simples, mas toda a gente prefere meter a cabeça na areia a falar dela: o financiamento de partidos políticos, e, no caso autárquico, o financiamento de campanhas eleitorais tem sempre, maioritariamente os mesmos protagonistas - aqueles que querem construir mais, deitar a mão a terrenos públicos, acelerar a crónica morosidade das decisões. A situação atinge todos os partidos há anos e a todos interessa manter. O financiamento da actividade política de forma ilícita – estimulado por uma lei utópica e por uma fiscalização infantil – é o cancro que corrói partidos e autarquias, mas ninguém quer falar dele ou pôr cobro à situação porque todos dependem da sua manutenção.
LER – No site da «Vanity Fair» procurem, na edição de Janeiro, o artigo «The Esquire Decade», de Frank DiGiacomo, uma viagem à época em que, nos anos 60, a «Esquire» se tornou numa referência, ajudou a lançar o «new journalism» e revolucionou a forma de editar fotografia e fazer capas: na origem de tudo esteve um homem, Harold Hayes, e é ele o tema central deste belo artigo que todos os que gostam de revistas deviam ler em www.vanityfair.com .
OUVIR – Há franceses que devem estar a arrancar cabelos: a única cantora decente que apareceu a cantar em francês nos últimos dez anos, Carla Bruni, resolveu ao segundo CD mudar para a língua inglesa e fez um disco onde musicou poemas de autores como Dorothy Parker, William Butler Yeats, Emily Dickinson, Wystam Auden, Walter de la Mare ou Christina Rossetti. O resultado é fascinante e a voz de Bruni continua surpreendente, sensual, envolvente. Carla Bruni, CD «No Promises», edição Naive.
VER – A exposição, perturbante e inesperada, de Gustavo Sumpta, na VPFcreamarte (Rua da Boavista 84-2º, Lisboa) intitulada «Quando se reúne muito, trabalha-se pouco», que coexiste com algumas peças do acervo da Galeria, como quadros de Inez Teixeira, Ana Cardoso, João Fonte Santa e uns preciosos desenhos de Jorge Feijão.
BACK TO BASICS – A coisa mais importante em política é ter uma memória curta – John Kenneth Galbraith
COINCIDÊNCIA – O alarde investigativo sobre a Câmara Municipal de Lisboa desencadeou-se na mesma semana em que a autarquia começou a protestar contra os cortes impostos pelo Governo nas transferências que eram devidas pela Lei das Finanças Locais – na verdade, unilateralmente, o Governo decidiu que Lisboa devia receber menos do que aquilo que a Lei prevê. Sou pouco dado a acreditar em coincidências: quando o estrangulamento financeiro surge ao mesmo tempo que uma investigação ruidosa, é porque está instalada uma guerra política com objectivos precisos - fazer cair o executivo camarário, provocar eleições e arrastar pela lama os opositores do Governo. E o actual poder, como se tem visto, não tem contemplações nem escrúpulos: o caso Cravinho é bem a prova da tentação absolutista. O PS está a especializar-se em usar a polícia para fazer política.
SISTEMA – Não é preciso ser especialista para perceber uma coisa: a capacidade de influência de promotores imobiliários e construtores nas autarquias e no sistema partidário tem aumentado nos últimos anos e a razão é simples, mas toda a gente prefere meter a cabeça na areia a falar dela: o financiamento de partidos políticos, e, no caso autárquico, o financiamento de campanhas eleitorais tem sempre, maioritariamente os mesmos protagonistas - aqueles que querem construir mais, deitar a mão a terrenos públicos, acelerar a crónica morosidade das decisões. A situação atinge todos os partidos há anos e a todos interessa manter. O financiamento da actividade política de forma ilícita – estimulado por uma lei utópica e por uma fiscalização infantil – é o cancro que corrói partidos e autarquias, mas ninguém quer falar dele ou pôr cobro à situação porque todos dependem da sua manutenção.
LER – No site da «Vanity Fair» procurem, na edição de Janeiro, o artigo «The Esquire Decade», de Frank DiGiacomo, uma viagem à época em que, nos anos 60, a «Esquire» se tornou numa referência, ajudou a lançar o «new journalism» e revolucionou a forma de editar fotografia e fazer capas: na origem de tudo esteve um homem, Harold Hayes, e é ele o tema central deste belo artigo que todos os que gostam de revistas deviam ler em www.vanityfair.com .
OUVIR – Há franceses que devem estar a arrancar cabelos: a única cantora decente que apareceu a cantar em francês nos últimos dez anos, Carla Bruni, resolveu ao segundo CD mudar para a língua inglesa e fez um disco onde musicou poemas de autores como Dorothy Parker, William Butler Yeats, Emily Dickinson, Wystam Auden, Walter de la Mare ou Christina Rossetti. O resultado é fascinante e a voz de Bruni continua surpreendente, sensual, envolvente. Carla Bruni, CD «No Promises», edição Naive.
VER – A exposição, perturbante e inesperada, de Gustavo Sumpta, na VPFcreamarte (Rua da Boavista 84-2º, Lisboa) intitulada «Quando se reúne muito, trabalha-se pouco», que coexiste com algumas peças do acervo da Galeria, como quadros de Inez Teixeira, Ana Cardoso, João Fonte Santa e uns preciosos desenhos de Jorge Feijão.
BACK TO BASICS – A coisa mais importante em política é ter uma memória curta – John Kenneth Galbraith
POLÍTICA – Uma das questões que marca estes últimos anos é a utilização de investigações policiais como arma de arremesso político e uma das coisas que marca as intervenções, nomeadamente da Judiciária e da Procuradoria Geral da República, é o aparato e o deliberado mediatismo de muitas das suas acções. Para complicar as coisas, numa enorme quantidade de processos investigados por estas entidades com grande alarde público, os resultados ficam aquém do estardalhaço provocado e constatam-se repetidas fragilidades formais na construção dos processos. Vivemos num país sem culpados nem inocentes, como bem fazia notar, em editorial, a subdirectora deste jornal, Luísa Bessa, há poucos dias. A forma como tudo se passa deixa as maiores dúvidas sobre a bondade da intervenção aparatosa da Polícia Judiciária na Câmara de Lisboa, assim como a conjugação de factos e acontecimentos permite criar interpretações políticas à actuação policial – desta suspeição já não se livram.
COINCIDÊNCIA – O alarde investigativo sobre a Câmara Municipal de Lisboa desencadeou-se na mesma semana em que a autarquia começou a protestar contra os cortes impostos pelo Governo nas transferências que eram devidas pela Lei das Finanças Locais – na verdade, unilateralmente, o Governo decidiu que Lisboa devia receber menos do que aquilo que a Lei prevê. Sou pouco dado a acreditar em coincidências: quando o estrangulamento financeiro surge ao mesmo tempo que uma investigação ruidosa, é porque está instalada uma guerra política com objectivos precisos - fazer cair o executivo camarário, provocar eleições e arrastar pela lama os opositores do Governo. E o actual poder, como se tem visto, não tem contemplações nem escrúpulos: o caso Cravinho é bem a prova da tentação absolutista. O PS está a especializar-se em usar a polícia para fazer política.
SISTEMA – Não é preciso ser especialista para perceber uma coisa: a capacidade de influência de promotores imobiliários e construtores nas autarquias e no sistema partidário tem aumentado nos últimos anos e a razão é simples, mas toda a gente prefere meter a cabeça na areia a falar dela: o financiamento de partidos políticos, e, no caso autárquico, o financiamento de campanhas eleitorais tem sempre, maioritariamente os mesmos protagonistas - aqueles que querem construir mais, deitar a mão a terrenos públicos, acelerar a crónica morosidade das decisões. A situação atinge todos os partidos há anos e a todos interessa manter. O financiamento da actividade política de forma ilícita – estimulado por uma lei utópica e por uma fiscalização infantil – é o cancro que corrói partidos e autarquias, mas ninguém quer falar dele ou pôr cobro à situação porque todos dependem da sua manutenção.
LER – No site da «Vanity Fair» procurem, na edição de Janeiro, o artigo «The Esquire Decade», de Frank DiGiacomo, uma viagem à época em que, nos anos 60, a «Esquire» se tornou numa referência, ajudou a lançar o «new journalism» e revolucionou a forma de editar fotografia e fazer capas: na origem de tudo esteve um homem, Harold Hayes, e é ele o tema central deste belo artigo que todos os que gostam de revistas deviam ler em www.vanityfair.com .
OUVIR – Há franceses que devem estar a arrancar cabelos: a única cantora decente que apareceu a cantar em francês nos últimos dez anos, Carla Bruni, resolveu ao segundo CD mudar para a língua inglesa e fez um disco onde musicou poemas de autores como Dorothy Parker, William Butler Yeats, Emily Dickinson, Wystam Auden, Walter de la Mare ou Christina Rossetti. O resultado é fascinante e a voz de Bruni continua surpreendente, sensual, envolvente. Carla Bruni, CD «No Promises», edição Naive.
VER – A exposição, perturbante e inesperada, de Gustavo Sumpta, na VPFcreamarte (Rua da Boavista 84-2º, Lisboa) intitulada «Quando se reúne muito, trabalha-se pouco», que coexiste com algumas peças do acervo da Galeria, como quadros de Inez Teixeira, Ana Cardoso, João Fonte Santa e uns preciosos desenhos de Jorge Feijão.
BACK TO BASICS – A coisa mais importante em política é ter uma memória curta – John Kenneth Galbraith
COINCIDÊNCIA – O alarde investigativo sobre a Câmara Municipal de Lisboa desencadeou-se na mesma semana em que a autarquia começou a protestar contra os cortes impostos pelo Governo nas transferências que eram devidas pela Lei das Finanças Locais – na verdade, unilateralmente, o Governo decidiu que Lisboa devia receber menos do que aquilo que a Lei prevê. Sou pouco dado a acreditar em coincidências: quando o estrangulamento financeiro surge ao mesmo tempo que uma investigação ruidosa, é porque está instalada uma guerra política com objectivos precisos - fazer cair o executivo camarário, provocar eleições e arrastar pela lama os opositores do Governo. E o actual poder, como se tem visto, não tem contemplações nem escrúpulos: o caso Cravinho é bem a prova da tentação absolutista. O PS está a especializar-se em usar a polícia para fazer política.
SISTEMA – Não é preciso ser especialista para perceber uma coisa: a capacidade de influência de promotores imobiliários e construtores nas autarquias e no sistema partidário tem aumentado nos últimos anos e a razão é simples, mas toda a gente prefere meter a cabeça na areia a falar dela: o financiamento de partidos políticos, e, no caso autárquico, o financiamento de campanhas eleitorais tem sempre, maioritariamente os mesmos protagonistas - aqueles que querem construir mais, deitar a mão a terrenos públicos, acelerar a crónica morosidade das decisões. A situação atinge todos os partidos há anos e a todos interessa manter. O financiamento da actividade política de forma ilícita – estimulado por uma lei utópica e por uma fiscalização infantil – é o cancro que corrói partidos e autarquias, mas ninguém quer falar dele ou pôr cobro à situação porque todos dependem da sua manutenção.
LER – No site da «Vanity Fair» procurem, na edição de Janeiro, o artigo «The Esquire Decade», de Frank DiGiacomo, uma viagem à época em que, nos anos 60, a «Esquire» se tornou numa referência, ajudou a lançar o «new journalism» e revolucionou a forma de editar fotografia e fazer capas: na origem de tudo esteve um homem, Harold Hayes, e é ele o tema central deste belo artigo que todos os que gostam de revistas deviam ler em www.vanityfair.com .
OUVIR – Há franceses que devem estar a arrancar cabelos: a única cantora decente que apareceu a cantar em francês nos últimos dez anos, Carla Bruni, resolveu ao segundo CD mudar para a língua inglesa e fez um disco onde musicou poemas de autores como Dorothy Parker, William Butler Yeats, Emily Dickinson, Wystam Auden, Walter de la Mare ou Christina Rossetti. O resultado é fascinante e a voz de Bruni continua surpreendente, sensual, envolvente. Carla Bruni, CD «No Promises», edição Naive.
VER – A exposição, perturbante e inesperada, de Gustavo Sumpta, na VPFcreamarte (Rua da Boavista 84-2º, Lisboa) intitulada «Quando se reúne muito, trabalha-se pouco», que coexiste com algumas peças do acervo da Galeria, como quadros de Inez Teixeira, Ana Cardoso, João Fonte Santa e uns preciosos desenhos de Jorge Feijão.
BACK TO BASICS – A coisa mais importante em política é ter uma memória curta – John Kenneth Galbraith
janeiro 22, 2007
GULAG – Os grandes organismos internacionais estão em vias de se tornarem numa espécie de Gulag dourado para as vozes incómodas ao socratismo. Depois de Ferro Rodrigues, aí vai Cravinho para Londres e, sabe-se agora, Carrilho para Paris. Esqueçam as aparências – isto não é uma distribuição de benesses aos companheiros de partido, é uma maneira de limitar as oposições internas e as memórias socialistas daqui a ano e meio, quando se estiver no trabalho preparatório das próximas legislativas. Outros se seguirão certamente, de muitas e variadas formas, desde que preencham uma condição: deixarem de falar sobre o que se passa no nosso querido rectângulo.
SOCORRO – O caso de Odemira veio mostrar como a vida humana é tão frágil em Portugal – da mesma maneira que se evidenciou com os pescadores da Nazaré. O Ministro da Saúde veio dizer que os procedimentos foram cumpridos. Se calhar é esse o busílis da questão – e se calhar o que valia a pena era avaliar se os procedimentos são os mais indicados: não parece normal que uma vítima de traumatismo crâneo-encefálico com várias facturas expostas vá primeiro para um simples centro de saúde sem nenhumas condições, e não parece lógico que alguém em tais condições tenha que passar por uma via sacra de procedimentos até se decidir, cerca de cinco horas depois do acidente, chamar um helicóptero. Na realidade os problemas no 112 avolumam-se desde que há uns meses atrás – lembram-se? – profissionais de emergência médica chamaram a atenção para o facto de alterações de procedimentos então implementadas poderem agravar situações de risco.
INJUSTIÇA – Se quiserem beber uns copos antes de conduzir, o melhor é tornarem-se jogadores de futebol. O que se passou com Luisão mostra que a justiça tem dois pesos e duas medidas. Houve um juiz que pelo simples facto de se tratar de um futebolista, figura pública, estrela do Benfica, resolveu deixar passar uma condução em estado de embriaguez e atribuíu como castigo o cumprimento de serviço cívico. Se fosse eu ou qualquer outra pessoa provavelmente ficaríamos com carta apreeendida, no mínimo. Por esta e por outras é que não dá mesmo para acreditar que temos um sistema de Justiça, nem dá para acreditar na bondade e sageza de juízes e tribunais.
ESTACIONAR – A EMEL está a tornar-se num caso de polícia – com a via sacra de arbitrariedades que os seus agentes cometem, com a sua tolerância a quem de facto incomoda o trânsito e a sua ferocidade na mera caça à multa. com o rosário de dificuldades para obter dístico de estacionamento residencial Os agentes da EMEL trazem consigo um livro de reclamações? Ou acham apenas que reclamar é insultar a autoridade, como já ouvi um a dizer a um cidadão, que não se conformava por ter sido multado num local de estacionamento, enquanto o agente nem queria saber de quem estava em dupla fila ali ao lado?
VER – Passear pelas galerias de arte lisboetas neste sábado : 17 inaugurações simultâneas em mais uma Lisboarte, desde os «Territórios de Transição» na Luís Serpa Projectos, Marta Soares na Módulo e Teresa Figueira na Monumental. Se quiserem ver gravuras e litografias de Paula Rego podem vê-las na 111 e na S.Bento. Todas as informações em www.apga.pt/lisboarte .
OUVIR – Volta e meia sabe bem revisitar um disco mais antigo. Esta semana foi a vez de uma das vozes injustamente menos conhecidas do jazz, Steve Tyrell, com o seu «Standard Time», irresistível em interpretações de temas como «What A Little Moonlight Can Do», «It Had To Be You» ou «Our Love Is Here To Stay» - daquelas canções que nos transportam para quem elas nos fazem evocar. CD Columbia, via Amazon.
PROVAR – Comida nepalesa no restaurante Everest Montanha. Sala simpática, serviço agradável, combinação de sabores inesperada. Bom local para jantar de amigos à conversa. Rua Artilharia Um 26, tel 213 866 218.
BACK TO BASICS – Tenho observado que pessoas sem vícios têm na realidade muito poucas virtudes, Abraham Lincoln
SOCORRO – O caso de Odemira veio mostrar como a vida humana é tão frágil em Portugal – da mesma maneira que se evidenciou com os pescadores da Nazaré. O Ministro da Saúde veio dizer que os procedimentos foram cumpridos. Se calhar é esse o busílis da questão – e se calhar o que valia a pena era avaliar se os procedimentos são os mais indicados: não parece normal que uma vítima de traumatismo crâneo-encefálico com várias facturas expostas vá primeiro para um simples centro de saúde sem nenhumas condições, e não parece lógico que alguém em tais condições tenha que passar por uma via sacra de procedimentos até se decidir, cerca de cinco horas depois do acidente, chamar um helicóptero. Na realidade os problemas no 112 avolumam-se desde que há uns meses atrás – lembram-se? – profissionais de emergência médica chamaram a atenção para o facto de alterações de procedimentos então implementadas poderem agravar situações de risco.
INJUSTIÇA – Se quiserem beber uns copos antes de conduzir, o melhor é tornarem-se jogadores de futebol. O que se passou com Luisão mostra que a justiça tem dois pesos e duas medidas. Houve um juiz que pelo simples facto de se tratar de um futebolista, figura pública, estrela do Benfica, resolveu deixar passar uma condução em estado de embriaguez e atribuíu como castigo o cumprimento de serviço cívico. Se fosse eu ou qualquer outra pessoa provavelmente ficaríamos com carta apreeendida, no mínimo. Por esta e por outras é que não dá mesmo para acreditar que temos um sistema de Justiça, nem dá para acreditar na bondade e sageza de juízes e tribunais.
ESTACIONAR – A EMEL está a tornar-se num caso de polícia – com a via sacra de arbitrariedades que os seus agentes cometem, com a sua tolerância a quem de facto incomoda o trânsito e a sua ferocidade na mera caça à multa. com o rosário de dificuldades para obter dístico de estacionamento residencial Os agentes da EMEL trazem consigo um livro de reclamações? Ou acham apenas que reclamar é insultar a autoridade, como já ouvi um a dizer a um cidadão, que não se conformava por ter sido multado num local de estacionamento, enquanto o agente nem queria saber de quem estava em dupla fila ali ao lado?
VER – Passear pelas galerias de arte lisboetas neste sábado : 17 inaugurações simultâneas em mais uma Lisboarte, desde os «Territórios de Transição» na Luís Serpa Projectos, Marta Soares na Módulo e Teresa Figueira na Monumental. Se quiserem ver gravuras e litografias de Paula Rego podem vê-las na 111 e na S.Bento. Todas as informações em www.apga.pt/lisboarte .
OUVIR – Volta e meia sabe bem revisitar um disco mais antigo. Esta semana foi a vez de uma das vozes injustamente menos conhecidas do jazz, Steve Tyrell, com o seu «Standard Time», irresistível em interpretações de temas como «What A Little Moonlight Can Do», «It Had To Be You» ou «Our Love Is Here To Stay» - daquelas canções que nos transportam para quem elas nos fazem evocar. CD Columbia, via Amazon.
PROVAR – Comida nepalesa no restaurante Everest Montanha. Sala simpática, serviço agradável, combinação de sabores inesperada. Bom local para jantar de amigos à conversa. Rua Artilharia Um 26, tel 213 866 218.
BACK TO BASICS – Tenho observado que pessoas sem vícios têm na realidade muito poucas virtudes, Abraham Lincoln
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GULAG – Os grandes organismos internacionais estão em vias de se tornarem numa espécie de Gulag dourado para as vozes incómodas ao socratismo. Depois de Ferro Rodrigues, aí vai Cravinho para Londres e, sabe-se agora, Carrilho para Paris. Esqueçam as aparências – isto não é uma distribuição de benesses aos companheiros de partido, é uma maneira de limitar as oposições internas e as memórias socialistas daqui a ano e meio, quando se estiver no trabalho preparatório das próximas legislativas. Outros se seguirão certamente, de muitas e variadas formas, desde que preencham uma condição: deixarem de falar sobre o que se passa no nosso querido rectângulo.
SOCORRO – O caso de Odemira veio mostrar como a vida humana é tão frágil em Portugal – da mesma maneira que se evidenciou com os pescadores da Nazaré. O Ministro da Saúde veio dizer que os procedimentos foram cumpridos. Se calhar é esse o busílis da questão – e se calhar o que valia a pena era avaliar se os procedimentos são os mais indicados: não parece normal que uma vítima de traumatismo crâneo-encefálico com várias facturas expostas vá primeiro para um simples centro de saúde sem nenhumas condições, e não parece lógico que alguém em tais condições tenha que passar por uma via sacra de procedimentos até se decidir, cerca de cinco horas depois do acidente, chamar um helicóptero. Na realidade os problemas no 112 avolumam-se desde que há uns meses atrás – lembram-se? – profissionais de emergência médica chamaram a atenção para o facto de alterações de procedimentos então implementadas poderem agravar situações de risco.
INJUSTIÇA – Se quiserem beber uns copos antes de conduzir, o melhor é tornarem-se jogadores de futebol. O que se passou com Luisão mostra que a justiça tem dois pesos e duas medidas. Houve um juiz que pelo simples facto de se tratar de um futebolista, figura pública, estrela do Benfica, resolveu deixar passar uma condução em estado de embriaguez e atribuíu como castigo o cumprimento de serviço cívico. Se fosse eu ou qualquer outra pessoa provavelmente ficaríamos com carta apreeendida, no mínimo. Por esta e por outras é que não dá mesmo para acreditar que temos um sistema de Justiça, nem dá para acreditar na bondade e sageza de juízes e tribunais.
ESTACIONAR – A EMEL está a tornar-se num caso de polícia – com a via sacra de arbitrariedades que os seus agentes cometem, com a sua tolerância a quem de facto incomoda o trânsito e a sua ferocidade na mera caça à multa. com o rosário de dificuldades para obter dístico de estacionamento residencial Os agentes da EMEL trazem consigo um livro de reclamações? Ou acham apenas que reclamar é insultar a autoridade, como já ouvi um a dizer a um cidadão, que não se conformava por ter sido multado num local de estacionamento, enquanto o agente nem queria saber de quem estava em dupla fila ali ao lado?
VER – Passear pelas galerias de arte lisboetas neste sábado : 17 inaugurações simultâneas em mais uma Lisboarte, desde os «Territórios de Transição» na Luís Serpa Projectos, Marta Soares na Módulo e Teresa Figueira na Monumental. Se quiserem ver gravuras e litografias de Paula Rego podem vê-las na 111 e na S.Bento. Todas as informações em www.apga.pt/lisboarte .
OUVIR – Volta e meia sabe bem revisitar um disco mais antigo. Esta semana foi a vez de uma das vozes injustamente menos conhecidas do jazz, Steve Tyrell, com o seu «Standard Time», irresistível em interpretações de temas como «What A Little Moonlight Can Do», «It Had To Be You» ou «Our Love Is Here To Stay» - daquelas canções que nos transportam para quem elas nos fazem evocar. CD Columbia, via Amazon.
PROVAR – Comida nepalesa no restaurante Everest Montanha. Sala simpática, serviço agradável, combinação de sabores inesperada. Bom local para jantar de amigos à conversa. Rua Artilharia Um 26, tel 213 866 218.
BACK TO BASICS – Tenho observado que pessoas sem vícios têm na realidade muito poucas virtudes, Abraham Lincoln
SOCORRO – O caso de Odemira veio mostrar como a vida humana é tão frágil em Portugal – da mesma maneira que se evidenciou com os pescadores da Nazaré. O Ministro da Saúde veio dizer que os procedimentos foram cumpridos. Se calhar é esse o busílis da questão – e se calhar o que valia a pena era avaliar se os procedimentos são os mais indicados: não parece normal que uma vítima de traumatismo crâneo-encefálico com várias facturas expostas vá primeiro para um simples centro de saúde sem nenhumas condições, e não parece lógico que alguém em tais condições tenha que passar por uma via sacra de procedimentos até se decidir, cerca de cinco horas depois do acidente, chamar um helicóptero. Na realidade os problemas no 112 avolumam-se desde que há uns meses atrás – lembram-se? – profissionais de emergência médica chamaram a atenção para o facto de alterações de procedimentos então implementadas poderem agravar situações de risco.
INJUSTIÇA – Se quiserem beber uns copos antes de conduzir, o melhor é tornarem-se jogadores de futebol. O que se passou com Luisão mostra que a justiça tem dois pesos e duas medidas. Houve um juiz que pelo simples facto de se tratar de um futebolista, figura pública, estrela do Benfica, resolveu deixar passar uma condução em estado de embriaguez e atribuíu como castigo o cumprimento de serviço cívico. Se fosse eu ou qualquer outra pessoa provavelmente ficaríamos com carta apreeendida, no mínimo. Por esta e por outras é que não dá mesmo para acreditar que temos um sistema de Justiça, nem dá para acreditar na bondade e sageza de juízes e tribunais.
ESTACIONAR – A EMEL está a tornar-se num caso de polícia – com a via sacra de arbitrariedades que os seus agentes cometem, com a sua tolerância a quem de facto incomoda o trânsito e a sua ferocidade na mera caça à multa. com o rosário de dificuldades para obter dístico de estacionamento residencial Os agentes da EMEL trazem consigo um livro de reclamações? Ou acham apenas que reclamar é insultar a autoridade, como já ouvi um a dizer a um cidadão, que não se conformava por ter sido multado num local de estacionamento, enquanto o agente nem queria saber de quem estava em dupla fila ali ao lado?
VER – Passear pelas galerias de arte lisboetas neste sábado : 17 inaugurações simultâneas em mais uma Lisboarte, desde os «Territórios de Transição» na Luís Serpa Projectos, Marta Soares na Módulo e Teresa Figueira na Monumental. Se quiserem ver gravuras e litografias de Paula Rego podem vê-las na 111 e na S.Bento. Todas as informações em www.apga.pt/lisboarte .
OUVIR – Volta e meia sabe bem revisitar um disco mais antigo. Esta semana foi a vez de uma das vozes injustamente menos conhecidas do jazz, Steve Tyrell, com o seu «Standard Time», irresistível em interpretações de temas como «What A Little Moonlight Can Do», «It Had To Be You» ou «Our Love Is Here To Stay» - daquelas canções que nos transportam para quem elas nos fazem evocar. CD Columbia, via Amazon.
PROVAR – Comida nepalesa no restaurante Everest Montanha. Sala simpática, serviço agradável, combinação de sabores inesperada. Bom local para jantar de amigos à conversa. Rua Artilharia Um 26, tel 213 866 218.
BACK TO BASICS – Tenho observado que pessoas sem vícios têm na realidade muito poucas virtudes, Abraham Lincoln
janeiro 13, 2007
METRO – O Metropolitano de Lisboa aborrece-me muito: por causa das greves de sindicatos que pretendem apenas manter privilégios; e por causa das obras a céu aberto que transformam parte da cidade num inferno – é inadmissível o que se passa nas avenidas novas e perto do Corte Inglês. Alguém devia pôr cobro a isto e obrigar as obras a serem feitas de outra forma. O desprezo pelos cidadãos têm três níveis de actuação: o dos sindicatos que agridem os utentes; o da administração que se está nas tintas para a circulação em Lisboa; e o das autoridades competentes que fecham os olhos a todos estes abusos. Uma pouca vergonha.
SÍMBOLOS - Cavaco Silva rumou à Índia naquilo que parece ser uma visita guiada a um «case study». Levou alguns dos mais criativos empresários portugueses e colocou, na página da Presidência da República na net, uma área especial inteiramente dedicada à visita e ao país visitado, cheia de dados e exemplar do ponto de vista da construção (www.presidencia.pt) . Cavaco é um homem de símbolos e esta viagem é simbólica do ponto de vista dos convidados escolhidos e da forma como foi preparada, longe das incomodidades históricas sobre Goa, Damão e Diu. Gostava que alguém lhe tivesse mostrado, antes da viagem, dois filmes portugueses: «A Dama de Chandoor», de Catarina Mourão e «Pátria Incerta», de Inês Gonçalves e Vasco Pimentel. E não tinha ficado nada mal que estes autores fossem também parte das preocupações de quem elaborou a lista dos convidados. Também as áreas de intervenção dos convidados presidenciais são simbólicas. Assim como as ausências.
ESCALA - No final do mês Sócrates parte para a China, repetindo alguns dos convidados que Cavaco Levou à Índia. É típico: quando temos qualquer coisinha, esgotamo-la até à medula. Adiante. A realidade chinesa é difícil de abarcar: 666 cidades, 1,3 mil milhões de pessoas, 393 milhões de telemóveis, 3243 estações de televisão, 123 milhões de utilizadores de net. São números de estarrecer - se o jogo com Cristiano Ronaldo que a Y Dreams de António Câmara está a desenvolver conseguisse vender a apenas um por cento desses utilizadores, despacharia mais de um milhão de unidades. É outra escala – uma escala que vai alterar completamente a face do mundo nos próximos anos.
LER – Na edição deste mês da revista «Atlântico» está mais um incontornável artigo de Rui Ramos, desta vez sobre o Partido Socialista, uma abordagem histórica da sua evolução tendo em conta o pano de fundo da actualidade. Rui Ramos defende que o PS não cocretizará muitas das reformas que hoje estão em cima da mesa, porque concretizar não faz parte do modelo social do PS, um partido cujo oxigénio político sempre foi o Estado: « O PS – escreve – fez sempre tudo, desde que fosse imposto pelas circunstâncias. Mas nunca mais do que isso. É, de algum modo, o verdadeiro partido conservador do regime. Nunca começou nada de novo em Portugal».
OUVIR - Um grande disco para começar o ano e pensar bem na importância do amor e no valor das cumplicidades: «Love Sublime», um encontro entre um pianista de jazz, Brad Mehldau, e uma soprano, Renée Fleming, em torno da poesia de Rainer Maria Rilke e Louise Bogan. CD Nonesuch.
PROVAR - Come-se muito bem, o serviço é muito simpático, a sala continua lindíssima, as cadeiras e mesas são confortáveis, a garrafeira é razoável e a preços honestos – falo do Alcântara Café, que me aconteceu revisitar por estes dias ao fim de longa ausência. Criado no final dos anos 80, este continua a ser um local de referência. O meu risotto estava rico e no ponto, todos os comensais concordaram que mais valia revisitar um bom clássico que descobrir uma novidade fracota. É evidente, mas às vezes as modas impedem-nos de pensar. Aqui está um bom sítio onde voltar mais vezes, tanto mais que é dos poucos onde se pode jantar em condições até bem tarde – a cozinha fecha à uma, o espaço às três. R. Maria Luísa Holstein, 15, Tel. 213637176.
BACK TO BASICS – A coisa mais difícil de entender no mundo é o imposto sobre rendimentos, Albert Einstein.
SÍMBOLOS - Cavaco Silva rumou à Índia naquilo que parece ser uma visita guiada a um «case study». Levou alguns dos mais criativos empresários portugueses e colocou, na página da Presidência da República na net, uma área especial inteiramente dedicada à visita e ao país visitado, cheia de dados e exemplar do ponto de vista da construção (www.presidencia.pt) . Cavaco é um homem de símbolos e esta viagem é simbólica do ponto de vista dos convidados escolhidos e da forma como foi preparada, longe das incomodidades históricas sobre Goa, Damão e Diu. Gostava que alguém lhe tivesse mostrado, antes da viagem, dois filmes portugueses: «A Dama de Chandoor», de Catarina Mourão e «Pátria Incerta», de Inês Gonçalves e Vasco Pimentel. E não tinha ficado nada mal que estes autores fossem também parte das preocupações de quem elaborou a lista dos convidados. Também as áreas de intervenção dos convidados presidenciais são simbólicas. Assim como as ausências.
ESCALA - No final do mês Sócrates parte para a China, repetindo alguns dos convidados que Cavaco Levou à Índia. É típico: quando temos qualquer coisinha, esgotamo-la até à medula. Adiante. A realidade chinesa é difícil de abarcar: 666 cidades, 1,3 mil milhões de pessoas, 393 milhões de telemóveis, 3243 estações de televisão, 123 milhões de utilizadores de net. São números de estarrecer - se o jogo com Cristiano Ronaldo que a Y Dreams de António Câmara está a desenvolver conseguisse vender a apenas um por cento desses utilizadores, despacharia mais de um milhão de unidades. É outra escala – uma escala que vai alterar completamente a face do mundo nos próximos anos.
LER – Na edição deste mês da revista «Atlântico» está mais um incontornável artigo de Rui Ramos, desta vez sobre o Partido Socialista, uma abordagem histórica da sua evolução tendo em conta o pano de fundo da actualidade. Rui Ramos defende que o PS não cocretizará muitas das reformas que hoje estão em cima da mesa, porque concretizar não faz parte do modelo social do PS, um partido cujo oxigénio político sempre foi o Estado: « O PS – escreve – fez sempre tudo, desde que fosse imposto pelas circunstâncias. Mas nunca mais do que isso. É, de algum modo, o verdadeiro partido conservador do regime. Nunca começou nada de novo em Portugal».
OUVIR - Um grande disco para começar o ano e pensar bem na importância do amor e no valor das cumplicidades: «Love Sublime», um encontro entre um pianista de jazz, Brad Mehldau, e uma soprano, Renée Fleming, em torno da poesia de Rainer Maria Rilke e Louise Bogan. CD Nonesuch.
PROVAR - Come-se muito bem, o serviço é muito simpático, a sala continua lindíssima, as cadeiras e mesas são confortáveis, a garrafeira é razoável e a preços honestos – falo do Alcântara Café, que me aconteceu revisitar por estes dias ao fim de longa ausência. Criado no final dos anos 80, este continua a ser um local de referência. O meu risotto estava rico e no ponto, todos os comensais concordaram que mais valia revisitar um bom clássico que descobrir uma novidade fracota. É evidente, mas às vezes as modas impedem-nos de pensar. Aqui está um bom sítio onde voltar mais vezes, tanto mais que é dos poucos onde se pode jantar em condições até bem tarde – a cozinha fecha à uma, o espaço às três. R. Maria Luísa Holstein, 15, Tel. 213637176.
BACK TO BASICS – A coisa mais difícil de entender no mundo é o imposto sobre rendimentos, Albert Einstein.
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METRO – O Metropolitano de Lisboa aborrece-me muito: por causa das greves de sindicatos que pretendem apenas manter privilégios; e por causa das obras a céu aberto que transformam parte da cidade num inferno – é inadmissível o que se passa nas avenidas novas e perto do Corte Inglês. Alguém devia pôr cobro a isto e obrigar as obras a serem feitas de outra forma. O desprezo pelos cidadãos têm três níveis de actuação: o dos sindicatos que agridem os utentes; o da administração que se está nas tintas para a circulação em Lisboa; e o das autoridades competentes que fecham os olhos a todos estes abusos. Uma pouca vergonha.
SÍMBOLOS - Cavaco Silva rumou à Índia naquilo que parece ser uma visita guiada a um «case study». Levou alguns dos mais criativos empresários portugueses e colocou, na página da Presidência da República na net, uma área especial inteiramente dedicada à visita e ao país visitado, cheia de dados e exemplar do ponto de vista da construção (www.presidencia.pt) . Cavaco é um homem de símbolos e esta viagem é simbólica do ponto de vista dos convidados escolhidos e da forma como foi preparada, longe das incomodidades históricas sobre Goa, Damão e Diu. Gostava que alguém lhe tivesse mostrado, antes da viagem, dois filmes portugueses: «A Dama de Chandoor», de Catarina Mourão e «Pátria Incerta», de Inês Gonçalves e Vasco Pimentel. E não tinha ficado nada mal que estes autores fossem também parte das preocupações de quem elaborou a lista dos convidados. Também as áreas de intervenção dos convidados presidenciais são simbólicas. Assim como as ausências.
ESCALA - No final do mês Sócrates parte para a China, repetindo alguns dos convidados que Cavaco Levou à Índia. É típico: quando temos qualquer coisinha, esgotamo-la até à medula. Adiante. A realidade chinesa é difícil de abarcar: 666 cidades, 1,3 mil milhões de pessoas, 393 milhões de telemóveis, 3243 estações de televisão, 123 milhões de utilizadores de net. São números de estarrecer - se o jogo com Cristiano Ronaldo que a Y Dreams de António Câmara está a desenvolver conseguisse vender a apenas um por cento desses utilizadores, despacharia mais de um milhão de unidades. É outra escala – uma escala que vai alterar completamente a face do mundo nos próximos anos.
LER – Na edição deste mês da revista «Atlântico» está mais um incontornável artigo de Rui Ramos, desta vez sobre o Partido Socialista, uma abordagem histórica da sua evolução tendo em conta o pano de fundo da actualidade. Rui Ramos defende que o PS não cocretizará muitas das reformas que hoje estão em cima da mesa, porque concretizar não faz parte do modelo social do PS, um partido cujo oxigénio político sempre foi o Estado: « O PS – escreve – fez sempre tudo, desde que fosse imposto pelas circunstâncias. Mas nunca mais do que isso. É, de algum modo, o verdadeiro partido conservador do regime. Nunca começou nada de novo em Portugal».
OUVIR - Um grande disco para começar o ano e pensar bem na importância do amor e no valor das cumplicidades: «Love Sublime», um encontro entre um pianista de jazz, Brad Mehldau, e uma soprano, Renée Fleming, em torno da poesia de Rainer Maria Rilke e Louise Bogan. CD Nonesuch.
PROVAR - Come-se muito bem, o serviço é muito simpático, a sala continua lindíssima, as cadeiras e mesas são confortáveis, a garrafeira é razoável e a preços honestos – falo do Alcântara Café, que me aconteceu revisitar por estes dias ao fim de longa ausência. Criado no final dos anos 80, este continua a ser um local de referência. O meu risotto estava rico e no ponto, todos os comensais concordaram que mais valia revisitar um bom clássico que descobrir uma novidade fracota. É evidente, mas às vezes as modas impedem-nos de pensar. Aqui está um bom sítio onde voltar mais vezes, tanto mais que é dos poucos onde se pode jantar em condições até bem tarde – a cozinha fecha à uma, o espaço às três. R. Maria Luísa Holstein, 15, Tel. 213637176.
BACK TO BASICS – A coisa mais difícil de entender no mundo é o imposto sobre rendimentos, Albert Einstein.
SÍMBOLOS - Cavaco Silva rumou à Índia naquilo que parece ser uma visita guiada a um «case study». Levou alguns dos mais criativos empresários portugueses e colocou, na página da Presidência da República na net, uma área especial inteiramente dedicada à visita e ao país visitado, cheia de dados e exemplar do ponto de vista da construção (www.presidencia.pt) . Cavaco é um homem de símbolos e esta viagem é simbólica do ponto de vista dos convidados escolhidos e da forma como foi preparada, longe das incomodidades históricas sobre Goa, Damão e Diu. Gostava que alguém lhe tivesse mostrado, antes da viagem, dois filmes portugueses: «A Dama de Chandoor», de Catarina Mourão e «Pátria Incerta», de Inês Gonçalves e Vasco Pimentel. E não tinha ficado nada mal que estes autores fossem também parte das preocupações de quem elaborou a lista dos convidados. Também as áreas de intervenção dos convidados presidenciais são simbólicas. Assim como as ausências.
ESCALA - No final do mês Sócrates parte para a China, repetindo alguns dos convidados que Cavaco Levou à Índia. É típico: quando temos qualquer coisinha, esgotamo-la até à medula. Adiante. A realidade chinesa é difícil de abarcar: 666 cidades, 1,3 mil milhões de pessoas, 393 milhões de telemóveis, 3243 estações de televisão, 123 milhões de utilizadores de net. São números de estarrecer - se o jogo com Cristiano Ronaldo que a Y Dreams de António Câmara está a desenvolver conseguisse vender a apenas um por cento desses utilizadores, despacharia mais de um milhão de unidades. É outra escala – uma escala que vai alterar completamente a face do mundo nos próximos anos.
LER – Na edição deste mês da revista «Atlântico» está mais um incontornável artigo de Rui Ramos, desta vez sobre o Partido Socialista, uma abordagem histórica da sua evolução tendo em conta o pano de fundo da actualidade. Rui Ramos defende que o PS não cocretizará muitas das reformas que hoje estão em cima da mesa, porque concretizar não faz parte do modelo social do PS, um partido cujo oxigénio político sempre foi o Estado: « O PS – escreve – fez sempre tudo, desde que fosse imposto pelas circunstâncias. Mas nunca mais do que isso. É, de algum modo, o verdadeiro partido conservador do regime. Nunca começou nada de novo em Portugal».
OUVIR - Um grande disco para começar o ano e pensar bem na importância do amor e no valor das cumplicidades: «Love Sublime», um encontro entre um pianista de jazz, Brad Mehldau, e uma soprano, Renée Fleming, em torno da poesia de Rainer Maria Rilke e Louise Bogan. CD Nonesuch.
PROVAR - Come-se muito bem, o serviço é muito simpático, a sala continua lindíssima, as cadeiras e mesas são confortáveis, a garrafeira é razoável e a preços honestos – falo do Alcântara Café, que me aconteceu revisitar por estes dias ao fim de longa ausência. Criado no final dos anos 80, este continua a ser um local de referência. O meu risotto estava rico e no ponto, todos os comensais concordaram que mais valia revisitar um bom clássico que descobrir uma novidade fracota. É evidente, mas às vezes as modas impedem-nos de pensar. Aqui está um bom sítio onde voltar mais vezes, tanto mais que é dos poucos onde se pode jantar em condições até bem tarde – a cozinha fecha à uma, o espaço às três. R. Maria Luísa Holstein, 15, Tel. 213637176.
BACK TO BASICS – A coisa mais difícil de entender no mundo é o imposto sobre rendimentos, Albert Einstein.
janeiro 08, 2007
GOVERNAR - Este Governo promete imenso. Faz imensas apresentações. Elabora muitos planos. Planeia muitíssimas reformas. O grande problema é que as promessas não se vêem a serem cumpridas. A grande dúvida é que as apresentações pouco passam do papel. O grande mistério é saber porque os planos não se concretizam. A enorme incógnita é saber se alguma reforma será efectivamente concretizada. Na realidade, o Presidente da República veio apenas chamar a atenção para a diferença entre as palavras e os actos, entre a ilusão e a realidade. O Governo não pode continuar muito mais tempo a viver de construções na areia.
LIMITAR - Há no entanto uma área em que o Governo cumpre: há Ministérios que regulamentam; Direcções Gerais que restringem; reguladores que dificultam; entidades que reprimem; serviços que limitam. O rol de prepotências sobre os cidadãos, o rol de poderes especiais de vários patamares do Estado, começa a ser insuportável. Cada vez que o Estado aumenta os seus poderes, os cidadãos diminuem os seus direitos. Esta equação é incontornável e não traz nada de bom.
FALHAR - Os sucessivos casos de inoperância das Comissões de Protecção de Menores dão que pensar. Alguma coisa está mal e não é conjuntural – é estrutural. O Estado falha onde era mais necessário que funcionasse. Aqui e ali há sinais de que o Estado deixou de ser funcional. Na protecção de menores, mas também em serviços de urgência. O desastre dos pescadores da Nazaré é um dramático exemplo, mas a demora cada vez maior registada nos tempos de intervenção do serviço 112 em casos de emergência começa a ser preocupante. E este é o papel que o Estado tem que cumprir. A nossa carga fiscal, enquanto cidadãos, não é pequena. Temos direito à protecção da vida. É isso que o Estado dá sinais de não estar a fazer.
MANOBRAR - Um leitor atento de «O Princípe», de Maquiavel, saberá que esse é o texto inspirador do Ministro da Saúde que, com a sua acção, mais não faz que diminuir cada vez mais as capacidades e funcionalidades dos serviços públicos de saúde, abrindo caminho, da pior forma possível, para a inevitabilidade de mais serviços privados. O que se está a fazer tem pouco a ver com responsabilidade social e alguém tem de dizer que o rei vai nu. É preciso desenvolver a área privada, mas era bom que isso não fosse feito à custa da qualidade dos cuidados públicos de saúde.
IGNORAR – É fácil legislar sem ouvir, produzir textos sem estudar, ignorar a realidade- como se sabe o pior cego é o que não quer ver. O que se está a passar no sector da comunicação – e em primeiro lugar nas empresas em que o Estado mantém posição – é um sinal da prepotência dos dias que correm. O Estado não deixa crescer, limita como quer, impede o que pode. No último ano sugeriu nomes em empresas privadas para permitir negócios mediante garantias de compadrio. Hugo Chavez é mais directo – aponta a direito e elimina o que não quer; aqui cilindra-se e achata-se aquilo de que se torna incómodo.
FALTAR - O Ministério da Cultura não pode ser apenas um verbo de encher – não pode ser uma máquina de nomeações de compadrio, de reestruturações imbecis, nem de lugares comuns. Não é só na macro economia que perdemos competitividade, é também na capacidade de inovação e no desenvolvimento da expressão artística. A nossa pobreza atávica nessa matéria está a ficar ao nível da indigência, o repúdio do Estado português, que é ancestral, à criatividade, está a atingir níveis que nos colocam na cauda da Europa – e é mais por falta de ideias e por gastos disparatados do que propriamente por falta de dinheiro. Leiam a entrevista do galerista Luís Serpa ao site www.artecapital.net e vejam como o modelo português privilegiou a dependência em vez do fomento. É essa, quase de certeza, a raiz de tantos disparates ao longo dos anos, e de tão fracos resultados. Se há um sector que precisa de estudo, definição estratégica e de um pacto de vontades, do Governo às autarquias, é o da Cultura.
BACK TO BASICS –O poder tem tendência a corromper e o poder absoluto corrompe completamente, Lord Acton, 1887.
LIMITAR - Há no entanto uma área em que o Governo cumpre: há Ministérios que regulamentam; Direcções Gerais que restringem; reguladores que dificultam; entidades que reprimem; serviços que limitam. O rol de prepotências sobre os cidadãos, o rol de poderes especiais de vários patamares do Estado, começa a ser insuportável. Cada vez que o Estado aumenta os seus poderes, os cidadãos diminuem os seus direitos. Esta equação é incontornável e não traz nada de bom.
FALHAR - Os sucessivos casos de inoperância das Comissões de Protecção de Menores dão que pensar. Alguma coisa está mal e não é conjuntural – é estrutural. O Estado falha onde era mais necessário que funcionasse. Aqui e ali há sinais de que o Estado deixou de ser funcional. Na protecção de menores, mas também em serviços de urgência. O desastre dos pescadores da Nazaré é um dramático exemplo, mas a demora cada vez maior registada nos tempos de intervenção do serviço 112 em casos de emergência começa a ser preocupante. E este é o papel que o Estado tem que cumprir. A nossa carga fiscal, enquanto cidadãos, não é pequena. Temos direito à protecção da vida. É isso que o Estado dá sinais de não estar a fazer.
MANOBRAR - Um leitor atento de «O Princípe», de Maquiavel, saberá que esse é o texto inspirador do Ministro da Saúde que, com a sua acção, mais não faz que diminuir cada vez mais as capacidades e funcionalidades dos serviços públicos de saúde, abrindo caminho, da pior forma possível, para a inevitabilidade de mais serviços privados. O que se está a fazer tem pouco a ver com responsabilidade social e alguém tem de dizer que o rei vai nu. É preciso desenvolver a área privada, mas era bom que isso não fosse feito à custa da qualidade dos cuidados públicos de saúde.
IGNORAR – É fácil legislar sem ouvir, produzir textos sem estudar, ignorar a realidade- como se sabe o pior cego é o que não quer ver. O que se está a passar no sector da comunicação – e em primeiro lugar nas empresas em que o Estado mantém posição – é um sinal da prepotência dos dias que correm. O Estado não deixa crescer, limita como quer, impede o que pode. No último ano sugeriu nomes em empresas privadas para permitir negócios mediante garantias de compadrio. Hugo Chavez é mais directo – aponta a direito e elimina o que não quer; aqui cilindra-se e achata-se aquilo de que se torna incómodo.
FALTAR - O Ministério da Cultura não pode ser apenas um verbo de encher – não pode ser uma máquina de nomeações de compadrio, de reestruturações imbecis, nem de lugares comuns. Não é só na macro economia que perdemos competitividade, é também na capacidade de inovação e no desenvolvimento da expressão artística. A nossa pobreza atávica nessa matéria está a ficar ao nível da indigência, o repúdio do Estado português, que é ancestral, à criatividade, está a atingir níveis que nos colocam na cauda da Europa – e é mais por falta de ideias e por gastos disparatados do que propriamente por falta de dinheiro. Leiam a entrevista do galerista Luís Serpa ao site www.artecapital.net e vejam como o modelo português privilegiou a dependência em vez do fomento. É essa, quase de certeza, a raiz de tantos disparates ao longo dos anos, e de tão fracos resultados. Se há um sector que precisa de estudo, definição estratégica e de um pacto de vontades, do Governo às autarquias, é o da Cultura.
BACK TO BASICS –O poder tem tendência a corromper e o poder absoluto corrompe completamente, Lord Acton, 1887.
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GOVERNAR - Este Governo promete imenso. Faz imensas apresentações. Elabora muitos planos. Planeia muitíssimas reformas. O grande problema é que as promessas não se vêem a serem cumpridas. A grande dúvida é que as apresentações pouco passam do papel. O grande mistério é saber porque os planos não se concretizam. A enorme incógnita é saber se alguma reforma será efectivamente concretizada. Na realidade, o Presidente da República veio apenas chamar a atenção para a diferença entre as palavras e os actos, entre a ilusão e a realidade. O Governo não pode continuar muito mais tempo a viver de construções na areia.
LIMITAR - Há no entanto uma área em que o Governo cumpre: há Ministérios que regulamentam; Direcções Gerais que restringem; reguladores que dificultam; entidades que reprimem; serviços que limitam. O rol de prepotências sobre os cidadãos, o rol de poderes especiais de vários patamares do Estado, começa a ser insuportável. Cada vez que o Estado aumenta os seus poderes, os cidadãos diminuem os seus direitos. Esta equação é incontornável e não traz nada de bom.
FALHAR - Os sucessivos casos de inoperância das Comissões de Protecção de Menores dão que pensar. Alguma coisa está mal e não é conjuntural – é estrutural. O Estado falha onde era mais necessário que funcionasse. Aqui e ali há sinais de que o Estado deixou de ser funcional. Na protecção de menores, mas também em serviços de urgência. O desastre dos pescadores da Nazaré é um dramático exemplo, mas a demora cada vez maior registada nos tempos de intervenção do serviço 112 em casos de emergência começa a ser preocupante. E este é o papel que o Estado tem que cumprir. A nossa carga fiscal, enquanto cidadãos, não é pequena. Temos direito à protecção da vida. É isso que o Estado dá sinais de não estar a fazer.
MANOBRAR - Um leitor atento de «O Princípe», de Maquiavel, saberá que esse é o texto inspirador do Ministro da Saúde que, com a sua acção, mais não faz que diminuir cada vez mais as capacidades e funcionalidades dos serviços públicos de saúde, abrindo caminho, da pior forma possível, para a inevitabilidade de mais serviços privados. O que se está a fazer tem pouco a ver com responsabilidade social e alguém tem de dizer que o rei vai nu. É preciso desenvolver a área privada, mas era bom que isso não fosse feito à custa da qualidade dos cuidados públicos de saúde.
IGNORAR – É fácil legislar sem ouvir, produzir textos sem estudar, ignorar a realidade- como se sabe o pior cego é o que não quer ver. O que se está a passar no sector da comunicação – e em primeiro lugar nas empresas em que o Estado mantém posição – é um sinal da prepotência dos dias que correm. O Estado não deixa crescer, limita como quer, impede o que pode. No último ano sugeriu nomes em empresas privadas para permitir negócios mediante garantias de compadrio. Hugo Chavez é mais directo – aponta a direito e elimina o que não quer; aqui cilindra-se e achata-se aquilo de que se torna incómodo.
FALTAR - O Ministério da Cultura não pode ser apenas um verbo de encher – não pode ser uma máquina de nomeações de compadrio, de reestruturações imbecis, nem de lugares comuns. Não é só na macro economia que perdemos competitividade, é também na capacidade de inovação e no desenvolvimento da expressão artística. A nossa pobreza atávica nessa matéria está a ficar ao nível da indigência, o repúdio do Estado português, que é ancestral, à criatividade, está a atingir níveis que nos colocam na cauda da Europa – e é mais por falta de ideias e por gastos disparatados do que propriamente por falta de dinheiro. Leiam a entrevista do galerista Luís Serpa ao site www.artecapital.net e vejam como o modelo português privilegiou a dependência em vez do fomento. É essa, quase de certeza, a raiz de tantos disparates ao longo dos anos, e de tão fracos resultados. Se há um sector que precisa de estudo, definição estratégica e de um pacto de vontades, do Governo às autarquias, é o da Cultura.
BACK TO BASICS –O poder tem tendência a corromper e o poder absoluto corrompe completamente, Lord Acton, 1887.
LIMITAR - Há no entanto uma área em que o Governo cumpre: há Ministérios que regulamentam; Direcções Gerais que restringem; reguladores que dificultam; entidades que reprimem; serviços que limitam. O rol de prepotências sobre os cidadãos, o rol de poderes especiais de vários patamares do Estado, começa a ser insuportável. Cada vez que o Estado aumenta os seus poderes, os cidadãos diminuem os seus direitos. Esta equação é incontornável e não traz nada de bom.
FALHAR - Os sucessivos casos de inoperância das Comissões de Protecção de Menores dão que pensar. Alguma coisa está mal e não é conjuntural – é estrutural. O Estado falha onde era mais necessário que funcionasse. Aqui e ali há sinais de que o Estado deixou de ser funcional. Na protecção de menores, mas também em serviços de urgência. O desastre dos pescadores da Nazaré é um dramático exemplo, mas a demora cada vez maior registada nos tempos de intervenção do serviço 112 em casos de emergência começa a ser preocupante. E este é o papel que o Estado tem que cumprir. A nossa carga fiscal, enquanto cidadãos, não é pequena. Temos direito à protecção da vida. É isso que o Estado dá sinais de não estar a fazer.
MANOBRAR - Um leitor atento de «O Princípe», de Maquiavel, saberá que esse é o texto inspirador do Ministro da Saúde que, com a sua acção, mais não faz que diminuir cada vez mais as capacidades e funcionalidades dos serviços públicos de saúde, abrindo caminho, da pior forma possível, para a inevitabilidade de mais serviços privados. O que se está a fazer tem pouco a ver com responsabilidade social e alguém tem de dizer que o rei vai nu. É preciso desenvolver a área privada, mas era bom que isso não fosse feito à custa da qualidade dos cuidados públicos de saúde.
IGNORAR – É fácil legislar sem ouvir, produzir textos sem estudar, ignorar a realidade- como se sabe o pior cego é o que não quer ver. O que se está a passar no sector da comunicação – e em primeiro lugar nas empresas em que o Estado mantém posição – é um sinal da prepotência dos dias que correm. O Estado não deixa crescer, limita como quer, impede o que pode. No último ano sugeriu nomes em empresas privadas para permitir negócios mediante garantias de compadrio. Hugo Chavez é mais directo – aponta a direito e elimina o que não quer; aqui cilindra-se e achata-se aquilo de que se torna incómodo.
FALTAR - O Ministério da Cultura não pode ser apenas um verbo de encher – não pode ser uma máquina de nomeações de compadrio, de reestruturações imbecis, nem de lugares comuns. Não é só na macro economia que perdemos competitividade, é também na capacidade de inovação e no desenvolvimento da expressão artística. A nossa pobreza atávica nessa matéria está a ficar ao nível da indigência, o repúdio do Estado português, que é ancestral, à criatividade, está a atingir níveis que nos colocam na cauda da Europa – e é mais por falta de ideias e por gastos disparatados do que propriamente por falta de dinheiro. Leiam a entrevista do galerista Luís Serpa ao site www.artecapital.net e vejam como o modelo português privilegiou a dependência em vez do fomento. É essa, quase de certeza, a raiz de tantos disparates ao longo dos anos, e de tão fracos resultados. Se há um sector que precisa de estudo, definição estratégica e de um pacto de vontades, do Governo às autarquias, é o da Cultura.
BACK TO BASICS –O poder tem tendência a corromper e o poder absoluto corrompe completamente, Lord Acton, 1887.
janeiro 05, 2007
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MARCHA ATRÁS
A vereação que era suposta desenvolver políticas culturais em Lisboa esclareceu hoje que o que ontem disse sobre a Lisboa Photo já não tem validade hoje. É extraordinário, mas é real. O senhor vereador aparece agora aflito a dizer que a bienal continua «sob outra forma» e integrada num pouco interessante Mês Europeu da Fotografia. Só uma cabecinha pequenina, tacanha e ignorante é que se podia lembrar de misturar uma celebração folclórica com uma bienal, de misturar uma escolha estruturada com uma miscelânea. Pobre cidade que andas entregue a tais arremedos de faunos...
A vereação que era suposta desenvolver políticas culturais em Lisboa esclareceu hoje que o que ontem disse sobre a Lisboa Photo já não tem validade hoje. É extraordinário, mas é real. O senhor vereador aparece agora aflito a dizer que a bienal continua «sob outra forma» e integrada num pouco interessante Mês Europeu da Fotografia. Só uma cabecinha pequenina, tacanha e ignorante é que se podia lembrar de misturar uma celebração folclórica com uma bienal, de misturar uma escolha estruturada com uma miscelânea. Pobre cidade que andas entregue a tais arremedos de faunos...
MARCHA ATRÁS
A vereação que era suposta desenvolver políticas culturais em Lisboa esclareceu hoje que o que ontem disse sobre a Lisboa Photo já não tem validade hoje. É extraordinário, mas é real. O senhor vereador aparece agora aflito a dizer que a bienal continua «sob outra forma» e integrada num pouco interessante Mês Europeu da Fotografia. Só uma cabecinha pequenina, tacanha e ignorante é que se podia lembrar de misturar uma celebração folclórica com uma bienal, de misturar uma escolha estruturada com uma miscelânea. Pobre cidade que andas entregue a tais arremedos de faunos...
A vereação que era suposta desenvolver políticas culturais em Lisboa esclareceu hoje que o que ontem disse sobre a Lisboa Photo já não tem validade hoje. É extraordinário, mas é real. O senhor vereador aparece agora aflito a dizer que a bienal continua «sob outra forma» e integrada num pouco interessante Mês Europeu da Fotografia. Só uma cabecinha pequenina, tacanha e ignorante é que se podia lembrar de misturar uma celebração folclórica com uma bienal, de misturar uma escolha estruturada com uma miscelânea. Pobre cidade que andas entregue a tais arremedos de faunos...
janeiro 04, 2007
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O FIM DA LISBOA PHOTO
O «Diário de Notícias» de hoje anuncia o fim da bienal «Lisboa Photo», das poucas coisas interessantes feitas em matéria de exposições em Lisboa nos últimos anos. Uma criatura que dá pelo nome de Rui Cintra, e que trabalha com o Vereador que teoricamente tem a seu cargo o pelouro da Cultura, diz uma série de barbaridades, fruto da pesporrência, que como se sabe é a mãe de todas as ignorâncias. Delfim Sardo, ex- Director do Centro de Exposições do CCB, sublinha, sobre esta bárbara decisão, o essencial: « A Lisboa Photo poderia necessitar de ajustes, mas havia uma base para melhorar. Infelizmente em Portugal deixa-se cair as coisas sem lhes dar tempo para avaliação. Há uma cultura de desperdício». Nada é mais certo - mas quem conseguirá explicar isto a essa cabeça duríssima do Dr. Amaral Lopes (o tal Vereador), um diletante que prefere gerir a actividade cultural da cidade em função das suas afectividades e amizades profundas, em vez da razão?
O «Diário de Notícias» de hoje anuncia o fim da bienal «Lisboa Photo», das poucas coisas interessantes feitas em matéria de exposições em Lisboa nos últimos anos. Uma criatura que dá pelo nome de Rui Cintra, e que trabalha com o Vereador que teoricamente tem a seu cargo o pelouro da Cultura, diz uma série de barbaridades, fruto da pesporrência, que como se sabe é a mãe de todas as ignorâncias. Delfim Sardo, ex- Director do Centro de Exposições do CCB, sublinha, sobre esta bárbara decisão, o essencial: « A Lisboa Photo poderia necessitar de ajustes, mas havia uma base para melhorar. Infelizmente em Portugal deixa-se cair as coisas sem lhes dar tempo para avaliação. Há uma cultura de desperdício». Nada é mais certo - mas quem conseguirá explicar isto a essa cabeça duríssima do Dr. Amaral Lopes (o tal Vereador), um diletante que prefere gerir a actividade cultural da cidade em função das suas afectividades e amizades profundas, em vez da razão?
O FIM DA LISBOA PHOTO
O «Diário de Notícias» de hoje anuncia o fim da bienal «Lisboa Photo», das poucas coisas interessantes feitas em matéria de exposições em Lisboa nos últimos anos. Uma criatura que dá pelo nome de Rui Cintra, e que trabalha com o Vereador que teoricamente tem a seu cargo o pelouro da Cultura, diz uma série de barbaridades, fruto da pesporrência, que como se sabe é a mãe de todas as ignorâncias. Delfim Sardo, ex- Director do Centro de Exposições do CCB, sublinha, sobre esta bárbara decisão, o essencial: « A Lisboa Photo poderia necessitar de ajustes, mas havia uma base para melhorar. Infelizmente em Portugal deixa-se cair as coisas sem lhes dar tempo para avaliação. Há uma cultura de desperdício». Nada é mais certo - mas quem conseguirá explicar isto a essa cabeça duríssima do Dr. Amaral Lopes (o tal Vereador), um diletante que prefere gerir a actividade cultural da cidade em função das suas afectividades e amizades profundas, em vez da razão?
O «Diário de Notícias» de hoje anuncia o fim da bienal «Lisboa Photo», das poucas coisas interessantes feitas em matéria de exposições em Lisboa nos últimos anos. Uma criatura que dá pelo nome de Rui Cintra, e que trabalha com o Vereador que teoricamente tem a seu cargo o pelouro da Cultura, diz uma série de barbaridades, fruto da pesporrência, que como se sabe é a mãe de todas as ignorâncias. Delfim Sardo, ex- Director do Centro de Exposições do CCB, sublinha, sobre esta bárbara decisão, o essencial: « A Lisboa Photo poderia necessitar de ajustes, mas havia uma base para melhorar. Infelizmente em Portugal deixa-se cair as coisas sem lhes dar tempo para avaliação. Há uma cultura de desperdício». Nada é mais certo - mas quem conseguirá explicar isto a essa cabeça duríssima do Dr. Amaral Lopes (o tal Vereador), um diletante que prefere gerir a actividade cultural da cidade em função das suas afectividades e amizades profundas, em vez da razão?
janeiro 03, 2007
BILHETE POSTAL
Lisboa está invadida de jeeps, o Lisboa Dakar está a começar. Além dos jeeps parece que Lisboa está invadida pelos pombos - a Câmara Municipal, à falta de melhor para fazer, calculou o seu número: 27 mil pombitos esvoaçam nos céus lisboetas. Uma breve revisitação das revistas dos tablóides no fim de semana dá para perceber que existem duas figuras do ano, em 2006, em Portugal: Cavaco Silva e Carolina Salgado. Querem melhor retrato do rectângulo?
Lisboa está invadida de jeeps, o Lisboa Dakar está a começar. Além dos jeeps parece que Lisboa está invadida pelos pombos - a Câmara Municipal, à falta de melhor para fazer, calculou o seu número: 27 mil pombitos esvoaçam nos céus lisboetas. Uma breve revisitação das revistas dos tablóides no fim de semana dá para perceber que existem duas figuras do ano, em 2006, em Portugal: Cavaco Silva e Carolina Salgado. Querem melhor retrato do rectângulo?
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BILHETE POSTAL
Lisboa está invadida de jeeps, o Lisboa Dakar está a começar. Além dos jeeps parece que Lisboa está invadida pelos pombos - a Câmara Municipal, à falta de melhor para fazer, calculou o seu número: 27 mil pombitos esvoaçam nos céus lisboetas. Uma breve revisitação das revistas dos tablóides no fim de semana dá para perceber que existem duas figuras do ano, em 2006, em Portugal: Cavaco Silva e Carolina Salgado. Querem melhor retrato do rectângulo?
Lisboa está invadida de jeeps, o Lisboa Dakar está a começar. Além dos jeeps parece que Lisboa está invadida pelos pombos - a Câmara Municipal, à falta de melhor para fazer, calculou o seu número: 27 mil pombitos esvoaçam nos céus lisboetas. Uma breve revisitação das revistas dos tablóides no fim de semana dá para perceber que existem duas figuras do ano, em 2006, em Portugal: Cavaco Silva e Carolina Salgado. Querem melhor retrato do rectângulo?
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