A AUTORIA
Em política, a autoria é tudo. Algumas propostas de direita são bem aceites pela esquerda se o seu autor lhes fôr simpático e o mesmo acontece a algumas propostas de esquerda. È claro que isto se passa a nível dos lideres partidários e dos fazedores de opinião, de algumas elites que ao longo dos séculos foram desviando o sentido da democracia, o significado efectivo do voto. Para algumas elites a opção do eleitorado não é interessante porque o povo não se sabe proteger – daí que precise de guardiões, de vigilantes, que se propõem velar pelo resultado efectivo das eleições. É o domínio do politicamente correcto e da hipocrisia ideológica, é o poder de elites não sufragadas sobre opções e programas que foram a votos.
Existe um perigo na nossa sociedade que é o do desprezo pelas indicações dadas pelos votos. Há quem não hesite em dizer que não interessa nada se um programa de acção de determinado partido ou político teve a maioria das urnas se, por acaso, as acções a concretizar estão no índex das pequenas inquisições que por aí abundam. A forma como se combate, com expedientes administrativos e processuais, a concretização de políticas votadas tem apenas o efeito de afastar ainda mais os cidadãos do voto, tem o efeito de desacreditar a política – que devia ser a forma privilegiada de acção cívica em vez de uma rotina de habilidades jurídicas avulsas.
A política não se esgota nos partidos nem nos políticos que os representam e por eles se sujeitam aos votos dos cidadãos. Mas – a menos que queiramos um outro regime – também não se faz contra eles. Quem quer mudar de regime?
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
maio 10, 2004
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A AUTORIA
Em política, a autoria é tudo. Algumas propostas de direita são bem aceites pela esquerda se o seu autor lhes fôr simpático e o mesmo acontece a algumas propostas de esquerda. È claro que isto se passa a nível dos lideres partidários e dos fazedores de opinião, de algumas elites que ao longo dos séculos foram desviando o sentido da democracia, o significado efectivo do voto. Para algumas elites a opção do eleitorado não é interessante porque o povo não se sabe proteger – daí que precise de guardiões, de vigilantes, que se propõem velar pelo resultado efectivo das eleições. É o domínio do politicamente correcto e da hipocrisia ideológica, é o poder de elites não sufragadas sobre opções e programas que foram a votos.
Existe um perigo na nossa sociedade que é o do desprezo pelas indicações dadas pelos votos. Há quem não hesite em dizer que não interessa nada se um programa de acção de determinado partido ou político teve a maioria das urnas se, por acaso, as acções a concretizar estão no índex das pequenas inquisições que por aí abundam. A forma como se combate, com expedientes administrativos e processuais, a concretização de políticas votadas tem apenas o efeito de afastar ainda mais os cidadãos do voto, tem o efeito de desacreditar a política – que devia ser a forma privilegiada de acção cívica em vez de uma rotina de habilidades jurídicas avulsas.
A política não se esgota nos partidos nem nos políticos que os representam e por eles se sujeitam aos votos dos cidadãos. Mas – a menos que queiramos um outro regime – também não se faz contra eles. Quem quer mudar de regime?
Em política, a autoria é tudo. Algumas propostas de direita são bem aceites pela esquerda se o seu autor lhes fôr simpático e o mesmo acontece a algumas propostas de esquerda. È claro que isto se passa a nível dos lideres partidários e dos fazedores de opinião, de algumas elites que ao longo dos séculos foram desviando o sentido da democracia, o significado efectivo do voto. Para algumas elites a opção do eleitorado não é interessante porque o povo não se sabe proteger – daí que precise de guardiões, de vigilantes, que se propõem velar pelo resultado efectivo das eleições. É o domínio do politicamente correcto e da hipocrisia ideológica, é o poder de elites não sufragadas sobre opções e programas que foram a votos.
Existe um perigo na nossa sociedade que é o do desprezo pelas indicações dadas pelos votos. Há quem não hesite em dizer que não interessa nada se um programa de acção de determinado partido ou político teve a maioria das urnas se, por acaso, as acções a concretizar estão no índex das pequenas inquisições que por aí abundam. A forma como se combate, com expedientes administrativos e processuais, a concretização de políticas votadas tem apenas o efeito de afastar ainda mais os cidadãos do voto, tem o efeito de desacreditar a política – que devia ser a forma privilegiada de acção cívica em vez de uma rotina de habilidades jurídicas avulsas.
A política não se esgota nos partidos nem nos políticos que os representam e por eles se sujeitam aos votos dos cidadãos. Mas – a menos que queiramos um outro regime – também não se faz contra eles. Quem quer mudar de regime?
FILOSOFIA
Brilhante a entrevista do filósofo Fernando Gil na PÚBLICA de ontem, feita por Maria João Seixas. Excerto:MJS - Qual é o papel do intelectual nas sociedades contemporâneas?
FG - O intelectual é pago pelas sociedades para se ocupar do estudo e do saber, que é um trabalho muito menos árduo que a maior parte das tarefas que as sociedades modernas exigem às pessoas. Isso implica certos deveres - o dever de informar, o dever de ser rigoroso, o dever de não mentir, de temperar o entusiasmo pela razão, de ver os dois aspectos (que são sempre quatro ou cinco ou cinquenta) de cada coisa. Suponho que, quando, jovem, alguém se decide pela via do espírito e não por outras, o faz em nome desses valores. E é o mesmo dever sermos-lhes fiéis. Até porque cedo aprendemos que ficaremos sempre aquém.
MJS - Mas as exigências éticas de uma conduta de rigor e verdade não são um imperativo exclusivo do intelectual ou de quem escolheu a via do espírito, como referiu.
FG - Obviamente. O que estou a dizer é que respeitá-las faz parte do contrato do intelectual com a sociedade. Sem por aí pretender transformá-lo num anjo. Pascal disse que o homem não é nem anjo nem animal, "et malheur veut que qui veut faire l'ange, fait la bête". Somos todos, e a cada momento, solicitados a "faire la bête". A dificuldade está em resistir à tentação da traição de que falava Julien Benda, e é renunciar a resistir atolarmo-nos na ideologia em vez de nos esforçarmos por dela nos libertar. É contra isso que o livro "Impasses" foi escrito.
MJS - Acha que a ideologia é sempre redutora?
FG - Sim, acho que é sempre redutora, em todas as circunstâncias. Não reconheço nenhuma vantagem na ideologia. É sempre uma viseira baixada sobre os olhos.
Brilhante a entrevista do filósofo Fernando Gil na PÚBLICA de ontem, feita por Maria João Seixas. Excerto:MJS - Qual é o papel do intelectual nas sociedades contemporâneas?
FG - O intelectual é pago pelas sociedades para se ocupar do estudo e do saber, que é um trabalho muito menos árduo que a maior parte das tarefas que as sociedades modernas exigem às pessoas. Isso implica certos deveres - o dever de informar, o dever de ser rigoroso, o dever de não mentir, de temperar o entusiasmo pela razão, de ver os dois aspectos (que são sempre quatro ou cinco ou cinquenta) de cada coisa. Suponho que, quando, jovem, alguém se decide pela via do espírito e não por outras, o faz em nome desses valores. E é o mesmo dever sermos-lhes fiéis. Até porque cedo aprendemos que ficaremos sempre aquém.
MJS - Mas as exigências éticas de uma conduta de rigor e verdade não são um imperativo exclusivo do intelectual ou de quem escolheu a via do espírito, como referiu.
FG - Obviamente. O que estou a dizer é que respeitá-las faz parte do contrato do intelectual com a sociedade. Sem por aí pretender transformá-lo num anjo. Pascal disse que o homem não é nem anjo nem animal, "et malheur veut que qui veut faire l'ange, fait la bête". Somos todos, e a cada momento, solicitados a "faire la bête". A dificuldade está em resistir à tentação da traição de que falava Julien Benda, e é renunciar a resistir atolarmo-nos na ideologia em vez de nos esforçarmos por dela nos libertar. É contra isso que o livro "Impasses" foi escrito.
MJS - Acha que a ideologia é sempre redutora?
FG - Sim, acho que é sempre redutora, em todas as circunstâncias. Não reconheço nenhuma vantagem na ideologia. É sempre uma viseira baixada sobre os olhos.
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FILOSOFIA
Brilhante a entrevista do filósofo Fernando Gil na PÚBLICA de ontem, feita por Maria João Seixas. Excerto:MJS - Qual é o papel do intelectual nas sociedades contemporâneas?
FG - O intelectual é pago pelas sociedades para se ocupar do estudo e do saber, que é um trabalho muito menos árduo que a maior parte das tarefas que as sociedades modernas exigem às pessoas. Isso implica certos deveres - o dever de informar, o dever de ser rigoroso, o dever de não mentir, de temperar o entusiasmo pela razão, de ver os dois aspectos (que são sempre quatro ou cinco ou cinquenta) de cada coisa. Suponho que, quando, jovem, alguém se decide pela via do espírito e não por outras, o faz em nome desses valores. E é o mesmo dever sermos-lhes fiéis. Até porque cedo aprendemos que ficaremos sempre aquém.
MJS - Mas as exigências éticas de uma conduta de rigor e verdade não são um imperativo exclusivo do intelectual ou de quem escolheu a via do espírito, como referiu.
FG - Obviamente. O que estou a dizer é que respeitá-las faz parte do contrato do intelectual com a sociedade. Sem por aí pretender transformá-lo num anjo. Pascal disse que o homem não é nem anjo nem animal, "et malheur veut que qui veut faire l'ange, fait la bête". Somos todos, e a cada momento, solicitados a "faire la bête". A dificuldade está em resistir à tentação da traição de que falava Julien Benda, e é renunciar a resistir atolarmo-nos na ideologia em vez de nos esforçarmos por dela nos libertar. É contra isso que o livro "Impasses" foi escrito.
MJS - Acha que a ideologia é sempre redutora?
FG - Sim, acho que é sempre redutora, em todas as circunstâncias. Não reconheço nenhuma vantagem na ideologia. É sempre uma viseira baixada sobre os olhos.
Brilhante a entrevista do filósofo Fernando Gil na PÚBLICA de ontem, feita por Maria João Seixas. Excerto:MJS - Qual é o papel do intelectual nas sociedades contemporâneas?
FG - O intelectual é pago pelas sociedades para se ocupar do estudo e do saber, que é um trabalho muito menos árduo que a maior parte das tarefas que as sociedades modernas exigem às pessoas. Isso implica certos deveres - o dever de informar, o dever de ser rigoroso, o dever de não mentir, de temperar o entusiasmo pela razão, de ver os dois aspectos (que são sempre quatro ou cinco ou cinquenta) de cada coisa. Suponho que, quando, jovem, alguém se decide pela via do espírito e não por outras, o faz em nome desses valores. E é o mesmo dever sermos-lhes fiéis. Até porque cedo aprendemos que ficaremos sempre aquém.
MJS - Mas as exigências éticas de uma conduta de rigor e verdade não são um imperativo exclusivo do intelectual ou de quem escolheu a via do espírito, como referiu.
FG - Obviamente. O que estou a dizer é que respeitá-las faz parte do contrato do intelectual com a sociedade. Sem por aí pretender transformá-lo num anjo. Pascal disse que o homem não é nem anjo nem animal, "et malheur veut que qui veut faire l'ange, fait la bête". Somos todos, e a cada momento, solicitados a "faire la bête". A dificuldade está em resistir à tentação da traição de que falava Julien Benda, e é renunciar a resistir atolarmo-nos na ideologia em vez de nos esforçarmos por dela nos libertar. É contra isso que o livro "Impasses" foi escrito.
MJS - Acha que a ideologia é sempre redutora?
FG - Sim, acho que é sempre redutora, em todas as circunstâncias. Não reconheço nenhuma vantagem na ideologia. É sempre uma viseira baixada sobre os olhos.
abril 26, 2004
WRAY GUNN
Fixem este nome:Wray Gunn, é o do grupo que fez um dos melhores discos de rock dos últimos tempos. A canção de abertura, «Soul City», é empolgante e arrebatadora. Rock, sem truques, eléctrico. Bem produzido. Bem cantado. Bem tocado.
Nota: este grupo, Wray Gunn, é de Coimbra. Por lá encontrarão caras que ficaram conhecidas nos bellechase Hotel. Descubram o disco, que se chama «Eclesiastes 1.11».
Fixem este nome:Wray Gunn, é o do grupo que fez um dos melhores discos de rock dos últimos tempos. A canção de abertura, «Soul City», é empolgante e arrebatadora. Rock, sem truques, eléctrico. Bem produzido. Bem cantado. Bem tocado.
Nota: este grupo, Wray Gunn, é de Coimbra. Por lá encontrarão caras que ficaram conhecidas nos bellechase Hotel. Descubram o disco, que se chama «Eclesiastes 1.11».
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WRAY GUNN
Fixem este nome:Wray Gunn, é o do grupo que fez um dos melhores discos de rock dos últimos tempos. A canção de abertura, «Soul City», é empolgante e arrebatadora. Rock, sem truques, eléctrico. Bem produzido. Bem cantado. Bem tocado.
Nota: este grupo, Wray Gunn, é de Coimbra. Por lá encontrarão caras que ficaram conhecidas nos bellechase Hotel. Descubram o disco, que se chama «Eclesiastes 1.11».
Fixem este nome:Wray Gunn, é o do grupo que fez um dos melhores discos de rock dos últimos tempos. A canção de abertura, «Soul City», é empolgante e arrebatadora. Rock, sem truques, eléctrico. Bem produzido. Bem cantado. Bem tocado.
Nota: este grupo, Wray Gunn, é de Coimbra. Por lá encontrarão caras que ficaram conhecidas nos bellechase Hotel. Descubram o disco, que se chama «Eclesiastes 1.11».
LEI DO CINEMA
A nova Lei do Cinema tem merecido as observações mais disparatadas. O realizador João Mário Grilo saíu-se com uma particularmente brilhante, dirigida aos que defendem que se devem criar bases para uma indústria audiovisual, sentido em que a nova Lei se alinha. Diz ele que não se pode fazer uma indústria sem mercado e que em Portugal não há mercado. Convém recordar três coisas: não é um problema de idioma nem de massa crítica demográfica - a Holanda é igual e tem cinema que funciona; não é problema de repúdio pelo cinema – as salas estão com boas lotações, o número de espectadores de cinema tem vindo a aumentar nos últimos anos e, curiosamente,à medida que aumenta o número de salas, ecrãs e espectadores, tem diminuído o número de bilhetes vendidos para filmes portugueses; provavelmente diminui o número de interessados nos filmes portugueses porque os seus realizadores e produtores não se interessam por o cativar – o que quer dizer filmes que comuniquem, o que quer dizer cativar CONTINUAMENTE os públicos. O problema não é o da dimensão do mercado, é o de o cinema português, na maioria, se estar nas tintas para o mercado e não procurar fomentá-lo. Nenhum mercado existe se não fôr acarinhado, estimulado e fomentado – e é certo que por muito artísticos que os filmes de João Mário Grilo sejam, não é a pensar no público que eles são feitos. Enquanto assim fôr, batatas. O mercado não vive sózinho, não é uma coisa abstracta.
A nova Lei do Cinema tem merecido as observações mais disparatadas. O realizador João Mário Grilo saíu-se com uma particularmente brilhante, dirigida aos que defendem que se devem criar bases para uma indústria audiovisual, sentido em que a nova Lei se alinha. Diz ele que não se pode fazer uma indústria sem mercado e que em Portugal não há mercado. Convém recordar três coisas: não é um problema de idioma nem de massa crítica demográfica - a Holanda é igual e tem cinema que funciona; não é problema de repúdio pelo cinema – as salas estão com boas lotações, o número de espectadores de cinema tem vindo a aumentar nos últimos anos e, curiosamente,à medida que aumenta o número de salas, ecrãs e espectadores, tem diminuído o número de bilhetes vendidos para filmes portugueses; provavelmente diminui o número de interessados nos filmes portugueses porque os seus realizadores e produtores não se interessam por o cativar – o que quer dizer filmes que comuniquem, o que quer dizer cativar CONTINUAMENTE os públicos. O problema não é o da dimensão do mercado, é o de o cinema português, na maioria, se estar nas tintas para o mercado e não procurar fomentá-lo. Nenhum mercado existe se não fôr acarinhado, estimulado e fomentado – e é certo que por muito artísticos que os filmes de João Mário Grilo sejam, não é a pensar no público que eles são feitos. Enquanto assim fôr, batatas. O mercado não vive sózinho, não é uma coisa abstracta.
O QUE DEVE SER A TELEVISÃO?
Leiam estas duas citações e fiquem a pensar: «Como estação de serviço público, que vive de uma taxa, muitas vezes nos encontramos numa difícil posição: se os nossos programas têm demasiado êxito em termos de audiências somos logo acusados de estar a nivelar por baixo, e se não conseguimos obter um bom share somos logo acusados de não estarmos a servir para nada por não dar aos espectadores aquilo que eles pretendem. Não entendo, de facto, o que se entende por «nivelar por baixo». Parece-me ser apenas um argumento utilizado por uma elite intelectual que não compreende nem acompanha a velocidade a que a sociedade evolui e muda e que não aceita que a nossa programação reflecta isso mesmo» - Wayne Garver, BBC; « Existe uma parte da televisão que é arte, e arte tem a ver com provocar e debater. Nos programas de ficção devem existir diferentes pontos de vista, troca de opiniões sobre o mundo em que vivemos e a afirmação de que género de pessoas somos. A televisão não pode ser apenas um espelho» - David Liddiment, produtor independente, All3Media.
Leiam estas duas citações e fiquem a pensar: «Como estação de serviço público, que vive de uma taxa, muitas vezes nos encontramos numa difícil posição: se os nossos programas têm demasiado êxito em termos de audiências somos logo acusados de estar a nivelar por baixo, e se não conseguimos obter um bom share somos logo acusados de não estarmos a servir para nada por não dar aos espectadores aquilo que eles pretendem. Não entendo, de facto, o que se entende por «nivelar por baixo». Parece-me ser apenas um argumento utilizado por uma elite intelectual que não compreende nem acompanha a velocidade a que a sociedade evolui e muda e que não aceita que a nossa programação reflecta isso mesmo» - Wayne Garver, BBC; « Existe uma parte da televisão que é arte, e arte tem a ver com provocar e debater. Nos programas de ficção devem existir diferentes pontos de vista, troca de opiniões sobre o mundo em que vivemos e a afirmação de que género de pessoas somos. A televisão não pode ser apenas um espelho» - David Liddiment, produtor independente, All3Media.
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O QUE DEVE SER A TELEVISÃO?
Leiam estas duas citações e fiquem a pensar: «Como estação de serviço público, que vive de uma taxa, muitas vezes nos encontramos numa difícil posição: se os nossos programas têm demasiado êxito em termos de audiências somos logo acusados de estar a nivelar por baixo, e se não conseguimos obter um bom share somos logo acusados de não estarmos a servir para nada por não dar aos espectadores aquilo que eles pretendem. Não entendo, de facto, o que se entende por «nivelar por baixo». Parece-me ser apenas um argumento utilizado por uma elite intelectual que não compreende nem acompanha a velocidade a que a sociedade evolui e muda e que não aceita que a nossa programação reflecta isso mesmo» - Wayne Garver, BBC; « Existe uma parte da televisão que é arte, e arte tem a ver com provocar e debater. Nos programas de ficção devem existir diferentes pontos de vista, troca de opiniões sobre o mundo em que vivemos e a afirmação de que género de pessoas somos. A televisão não pode ser apenas um espelho» - David Liddiment, produtor independente, All3Media.
Leiam estas duas citações e fiquem a pensar: «Como estação de serviço público, que vive de uma taxa, muitas vezes nos encontramos numa difícil posição: se os nossos programas têm demasiado êxito em termos de audiências somos logo acusados de estar a nivelar por baixo, e se não conseguimos obter um bom share somos logo acusados de não estarmos a servir para nada por não dar aos espectadores aquilo que eles pretendem. Não entendo, de facto, o que se entende por «nivelar por baixo». Parece-me ser apenas um argumento utilizado por uma elite intelectual que não compreende nem acompanha a velocidade a que a sociedade evolui e muda e que não aceita que a nossa programação reflecta isso mesmo» - Wayne Garver, BBC; « Existe uma parte da televisão que é arte, e arte tem a ver com provocar e debater. Nos programas de ficção devem existir diferentes pontos de vista, troca de opiniões sobre o mundo em que vivemos e a afirmação de que género de pessoas somos. A televisão não pode ser apenas um espelho» - David Liddiment, produtor independente, All3Media.
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LEI DO CINEMA
A nova Lei do Cinema tem merecido as observações mais disparatadas. O realizador João Mário Grilo saíu-se com uma particularmente brilhante, dirigida aos que defendem que se devem criar bases para uma indústria audiovisual, sentido em que a nova Lei se alinha. Diz ele que não se pode fazer uma indústria sem mercado e que em Portugal não há mercado. Convém recordar três coisas: não é um problema de idioma nem de massa crítica demográfica - a Holanda é igual e tem cinema que funciona; não é problema de repúdio pelo cinema – as salas estão com boas lotações, o número de espectadores de cinema tem vindo a aumentar nos últimos anos e, curiosamente,à medida que aumenta o número de salas, ecrãs e espectadores, tem diminuído o número de bilhetes vendidos para filmes portugueses; provavelmente diminui o número de interessados nos filmes portugueses porque os seus realizadores e produtores não se interessam por o cativar – o que quer dizer filmes que comuniquem, o que quer dizer cativar CONTINUAMENTE os públicos. O problema não é o da dimensão do mercado, é o de o cinema português, na maioria, se estar nas tintas para o mercado e não procurar fomentá-lo. Nenhum mercado existe se não fôr acarinhado, estimulado e fomentado – e é certo que por muito artísticos que os filmes de João Mário Grilo sejam, não é a pensar no público que eles são feitos. Enquanto assim fôr, batatas. O mercado não vive sózinho, não é uma coisa abstracta.
A nova Lei do Cinema tem merecido as observações mais disparatadas. O realizador João Mário Grilo saíu-se com uma particularmente brilhante, dirigida aos que defendem que se devem criar bases para uma indústria audiovisual, sentido em que a nova Lei se alinha. Diz ele que não se pode fazer uma indústria sem mercado e que em Portugal não há mercado. Convém recordar três coisas: não é um problema de idioma nem de massa crítica demográfica - a Holanda é igual e tem cinema que funciona; não é problema de repúdio pelo cinema – as salas estão com boas lotações, o número de espectadores de cinema tem vindo a aumentar nos últimos anos e, curiosamente,à medida que aumenta o número de salas, ecrãs e espectadores, tem diminuído o número de bilhetes vendidos para filmes portugueses; provavelmente diminui o número de interessados nos filmes portugueses porque os seus realizadores e produtores não se interessam por o cativar – o que quer dizer filmes que comuniquem, o que quer dizer cativar CONTINUAMENTE os públicos. O problema não é o da dimensão do mercado, é o de o cinema português, na maioria, se estar nas tintas para o mercado e não procurar fomentá-lo. Nenhum mercado existe se não fôr acarinhado, estimulado e fomentado – e é certo que por muito artísticos que os filmes de João Mário Grilo sejam, não é a pensar no público que eles são feitos. Enquanto assim fôr, batatas. O mercado não vive sózinho, não é uma coisa abstracta.
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ISRAEL
Nos dias mais recentes alguns cínicos mostram uma enorme indignação face a Israel, depois de anos a fio sem reacção à sucessão de atentados e acções terroristas de organizações palestinianas. Dois pesos, duas medidas. Onde já vimos isto?
Nos dias mais recentes alguns cínicos mostram uma enorme indignação face a Israel, depois de anos a fio sem reacção à sucessão de atentados e acções terroristas de organizações palestinianas. Dois pesos, duas medidas. Onde já vimos isto?
abril 18, 2004
COMENTÁRIO
A mania de acabar as notícias com um comentário é das coisas que mais me irrita - ontem estava a ver a notícia sobre o início de fabricação, em Coimbra, de um novo autocarro para uso urbano quando de repente, e sem se perceber porquê, a menina que estava a ler a peça acaba dizendo que «resta saber se este novo modelo vai convencer os portugueses a utilizar mais os transportes públicos».Isto é mesmo vontade de falar demais, sem nada dizer. Irra!
A mania de acabar as notícias com um comentário é das coisas que mais me irrita - ontem estava a ver a notícia sobre o início de fabricação, em Coimbra, de um novo autocarro para uso urbano quando de repente, e sem se perceber porquê, a menina que estava a ler a peça acaba dizendo que «resta saber se este novo modelo vai convencer os portugueses a utilizar mais os transportes públicos».Isto é mesmo vontade de falar demais, sem nada dizer. Irra!
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COMENTÁRIO
A mania de acabar as notícias com um comentário é das coisas que mais me irrita - ontem estava a ver a notícia sobre o início de fabricação, em Coimbra, de um novo autocarro para uso urbano quando de repente, e sem se perceber porquê, a menina que estava a ler a peça acaba dizendo que «resta saber se este novo modelo vai convencer os portugueses a utilizar mais os transportes públicos».Isto é mesmo vontade de falar demais, sem nada dizer. Irra!
A mania de acabar as notícias com um comentário é das coisas que mais me irrita - ontem estava a ver a notícia sobre o início de fabricação, em Coimbra, de um novo autocarro para uso urbano quando de repente, e sem se perceber porquê, a menina que estava a ler a peça acaba dizendo que «resta saber se este novo modelo vai convencer os portugueses a utilizar mais os transportes públicos».Isto é mesmo vontade de falar demais, sem nada dizer. Irra!
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REACÇÃO
O jornalismo reacção esteve em grande nos últimos dias à procura de reacções a citações sem que os próprios inquiridos muitas vezes tivessem conhecimento do contexto em que foram feitas. Poucos factos, muita especulação. Nisto, em 30 anos, a evolução foi fraca.
O jornalismo reacção esteve em grande nos últimos dias à procura de reacções a citações sem que os próprios inquiridos muitas vezes tivessem conhecimento do contexto em que foram feitas. Poucos factos, muita especulação. Nisto, em 30 anos, a evolução foi fraca.
abril 17, 2004
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