Acordei assim, caída no chão, no meio da rua. Perdi-me da minha árvore, deixei de ter casa, já não sei onde estou nem para onde vou. Assusto-me quando passam à volta, quase a pisar-me. Por vezes vem uma rabanada de vento e atira-me pelo ar, até aterrar mais à frente. O meu maior medo é ser levada para o meio da estrada e pisada pelos carros que me vão partindo aos bocadinhos. Também não gosto de cair dentro de uma poça de água. Quando isso acontece, sinto que começo a desfazer-me. A árvore que era a minha casa continua no mesmo sítio, as suas folhas é que vão mudando. Ela livra-se de nós, vai-se despindo à maneira que caímos. Nunca percebi bem se somos nós que partimos ou a árvore que se livra de nós, não quero pensar nisso agora, o mundo já está muito complicado. Nós, as folhas, somos como os passarinhos que chegam e partem em determinadas alturas do ano. Temos vidas curtas, a bem dizer a Primavera é a nossa adolescência e o Outono a nossa velhice. Vamos mudando de cor, de um verde radioso aos acastanhados do fim de vida. Dependemos das árvores, todos os anos renascem com novas roupagens. O nosso brilho esvai-se depressa, o das árvores renova-se todos os anos até alguém as abater. Eu gostava de estar mais tempo com a minha árvore e gosto de pensar que ela também me queria ter consigo. Por estes dias vou andar, aos trambolhões. Talvez alguém me pegue e leve para casa,
(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMPRE ÀS SEXTAS, EM SAPO.PT)
