Nestas agitadas semanas em que cargas policiais sobre manifestações se tornaram um infeliz hábito tenho observado uma sucessão de erros de comunicação por parte da polícia e do Governo. Quase todos os dias surgiram contradições, graves, entre as imagens captadas por orgãos de comunicação e redes sociais e o discurso oficial. Polícia e governo têm querido salientar que as intervenções policiais seriam adequadas e proporcionais mas quando há imagens de polícias a pontapearem manifestantes caídos depois de terem levado umas bastonadas, quando há numerosas cabeças abertas à bastonada entre os manifestantes, quando um polícia à paisana puxa de uma arma sem razão aparente, quando um operador de câmara da estação de televisão CMTV foi agredido à bastonada, quando jornalistas foram empurrados na tentativa de os afastar do local para não poderem documentar o que se passava, então a proporcionalidade é apenas uma mentira. Foi Confúcio que disse que “uma imagem vale mais que mil palavras”, mas o Sr. Neves ainda não compreendeu isso. Termos a possibilidade de ter imagens jornalísticas do que se passou é fundamental para garantir a informação. Nos últimos dias a PSP também conseguiu impedir que drones com câmeras de órgãos de comunicação filmassem os confrontos, o que é uma limitação ao acesso à informação. Bem sei que para o Sr. Neves e o Sr. Pedro Moura é muito deagradávell terem as suas palavras desmentidas por imagens. Tomaram o freio nos dentes, fizeram asneira, e agora não sabem que fazer. O cinismo é tanto que o Sr. Neves disse há uns dias que a actuação violenta da polícia nas recentes manifestações devia ser encarada como uma atitude pedagógica. Não sei bem o que uma bastonada tem de pedagógico nem o que estabelecer limites à liberdade de captação de imagens pode ser considerado como algo educativo. Aquilo que se tem passado do lado da polícia mostra que os agentes não estão preparados para situações destas, rapidamente escalam e cometem ilegalidades e preferem esconder as suas identidades. Há relatos de que alguns agentes do Corpo de Intervenção Rápida colocaram a gola de forma a tapar a sua identificação - para impedir denúncia sobre o seu comportamento. Questionados sobre esta situação, os superiores encolhem os ombros. A polícia que é necessária é a que protege as pessoas, não a que as ataca, a que abusa do poder e faz interpretações de conveniência sobre a legalidade. Os acontecimentos dos últimos dias deviam ser motivo de reflexão sobre a formação e o comportamento dos agentes.
SEMANADA - Houve 94 tentativas de homicídio com recurso a arma de fogo no primeiro semestre deste ano; feitas as contas, contou-se um baleado a cada dois dias e, a manter-se a tendência dos primeiros seis meses, o ano acabará com um número recorde de baleados; quase 87 mil doentes, cerca de 30% do total, estão à espera de cirurgia no SNS além do tempo recomendado para o procedimento; nos primeiros sete meses deste ano, os hospitais do SNS realizaram 461.648 cirurgias programadas, menos 4,9% do que as feitas no mesmo período de 2025; em Julho de 2026, o número de utentes inscritos na lista para cirurgia ascendia a 284.210, estando 30,5% fora do tempo recomendado; mais de um terço dos estudantes de medicina admite emigrar no fim do curso; em dez anos o número de portugueses que afirma não ter religião mais que duplicou; em 2025, os impostos e as contribuições para a Segurança Social representaram 37,3% do PIB português; no ano anterior, quase 40% da receita total arrecadada pelo Estado proveio de impostos sobre o consumo (como o IVA) e 27,5% de impostos sobre o rendimento e o património (como o IRS e o IRC). Em dez meses já morreram 411 pessoas nas estradas portuguesas; desde 2015, o preço do cabaz de compras dos consumidores portugueses aumentou 24,8%, mas os alimentos tiveram uma subida superior, de 42%; de acordo com a Markest no estudo “Os portugueses e as redes sociais”, o tempo médio diário dedicado a estas plataformas aumentou de 84 minutos, em 2025, para 105 minutos, em 2026, o equivalente a 1h45 por dia; entre os jovens com idades entre os 15 e os 24 anos, o tempo médio sobe para 2h30 e 98,1% dos utilizadores afirma aceder pelo menos uma vez por dia e 92,7% assumem fazê-lo várias vezes por dia.
O ARCO DA VELHA - No Rossio a polícia aplicou multas a quem buzinava em solidariedade com os manifestantes, considerando esse facto uma contraordenação grave. Estou cheio de vontade de ver se no próximo grande jogo de futebol, quando houver carros a buzinar durante horas ao longo da noite em saudação dos vencedores, a polícia vai identificar e multar os adeptos.
POMAR EM DIÁLOGO COM ABRANTES - O Atelier-Museu Júlio Pomar tem, ao longo dos anos, posto em confronto obras de Pomar com trabalhos de artistas contemporâneos. Agora o artista escolhido foi Gabriel Abrantes que, para esta exposição, criou um conjunto de obras inéditas que se juntam a obras históricas de Júlio Pomar num total de 100 trabalhos entre pintura e desenho. A imagem que aqui reproduzimos é “O Almoço do Estafeta”, uma clara alusão a uma das pinturas mais conhecidas de Pomar, o “Almoço do Trolha”, uma obra marcante da sua fase neo-realista. A exposição, intitulada “Tragédia e Farsa”, estará patente até 28 de Fevereiro. Abrantes utiliza o seu processo de trabalho habitual, baseado em ferramentas digitais as quais posteriormente materializa no campo da pintura tradicional, a óleo sobre linho, desenho, e pastéis. Na realidade, segundo Sara Afonso Matos, que fez a curadoria da exposição, “Abrantes aproxima-se de Pomar não apenas através dos meios artísticos – pintura e desenho – mas também das temáticas e assuntos inerentes aos quadros, portadores de crítica social.” O Atelier Museu Júlio Pomar fica na Rua do Vale 7, em Lisboa.
ROTEIRO - O destaque da semana vai para "Juan Muñoz - dele & outras histórias”, com "a vida, apesar dela", com curadoria de Miguel von Hafe Pérez e que se desenrola no Centro de Artes Visuais, em parceria com a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, o Museu Municipal de Coimbra e o Museu Nacional de Machado de Castro, e integra igualmente obras de outros artistas próximas do universo de Muñoz (na imagem). O Lisbon Art Weekend tem no próximo fim de semana a sua oitava edição, a maior de sempre: apresenta obras de mais de 300 artistas nacionais e internacionais em 60 espaços (galerias, museus e espaços independentes) e tem 95 eventos programados. O programa completo pode ser seguido em lisbonartweekend.com. O calendário de exposições é aliciante. Na Galeria Carlos Carvalho está até 5 de Dezembro um trabalho de fotografia e instalação, fruto da colaboração entre Os Espacialistas e Gonçalo M. Tavares, baseado em imagens, palavras e objectos. E no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian está patente a exposição “Lugares que se desenham”, que mostra obras da colecção do CAM.
UM ANZOL - Estava longe de saber que há um tipo especial de anzol que é o anzol japonês. Muito afiado, é considerado um dos melhores anzóis pelos bons pescadores. Vem isto tudo a propósito do livro “O Anzol”, da japonesa Asako Yuzuyki. É uma história da relação de amizade entre duas mulheres, com vidas bem diferentes: uma trabalha, com sucesso, numa empresa que comercializa peixe e a outra tem uma frenética actividade de blogger e influenciadora. A primeira procura uma amizade a segunda vive num caos controlado. O romance é a história de como se aproximam e depois acabam por se afastarem. É um livro sobre a relação entre as pessoas nas sociedades modernas, uma narrativa tensa mas cativante, meticulosamente ordenada como tantas vezes acontece com os autores japoneses. O romance decorre lentamente, entre o estudo psicológico das personagens, Eriko a gestora e Hosho, a blogger. As duas acabam poor quebrar o que as unia e a solidão é o pano de fundo que continua a marcar a vida de Ericko. Edição Casa das Letras.
MESA DE CABECEIRA - O historiador britânico Antony Beevor faz um retrato de Rasputin, o homem que dominou a dinastia dos Romanov na Rússia antes da revolução. Embora não tivesse um cargo oficial na corte, o domínio de Rasputin sobre os Romanov tornou-se lendário. Acerca dele circulavam relatos exagerados de corrupção política e financeira, já para não falar das histórias da sua devassidão com a Imperatriz - e até com as filhas dela. Neste livro Antony Beevor aproxima os leitores da escandalosa vida de Rasputin e da sua morte. Embora não tivesse um cargo oficial na corte, o domínio de Rasputin sobre os Romanov tornou-se lendário. Baseado em muita documentação, Beevor faz um retrato cru de Rasputin. Parte thriller político, parte mistério gótico, Rasputin é uma história fascinante de perversidade humana. Edição Bertrand. O outro livro da semana vem mesmo a calhar para ajudar a compreender os conflitos intermináveis no Médio Oriente. Chama-se “Filhos de Abraão” e percorre a história que desmistifica as relações entre muçulmanos e judeus, traçando catorze séculos de cooperação e conflito. Hoje, a narrativa dominante sobre a relação entre os povos judeu e muçulmano parte do pressuposto de uma longa história de hostilidade violenta. Nesta obra, o historiador Marc David Baer desmonta este mito, mostrando como judeus e muçulmanos viveram juntos no Médio Oriente e na Europa, mais frequentemente em cooperação do que em conflito, durante mais de um milénio. Edição Temas & Debates.
FOLK - Aqui está um disco mesmo bom para estes tempos: “Hippies.Thugs and Heroes”. Trata-se do 20º álbum a solo, de estúdio, de Richard Thomson, um guitarrista virtuoso, grande criador de canções, fidelíssimo ao folk inglês e um dos fundadores dos Fairport Convention. São 12 histórias que se ouvem embaladas pela guitarra de Thompson. É um disco sobre as dúvidas e anseios dos tempos que vivemos, mas onde há também lugar para as baladas de amor - vejam estas palavras de “Siren”, a canção que fecha o álbum : It's only love that knows my name/ And love's the only thing that matters/ Only you and you alone/
Can mend the mirror when it shatters” Disponível em streaming.
DIXIT - “O ministro Luís Neves, cada vez mais merecedor do antigo título de“Ministro do Interior”, deu cabo de tudo, do que tinha aparência de benfeitoria. Conseguiu proeza rara: ser autor da virtude e desconhecer o erro” - António Barreto, no Público.
BACK TO BASICS - “Cada vez que as pessoas concordam comigo fico com a sensação de que devo estar errado” - Oscar Wilde.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS






