
UMA SOMBRA - Neste final de 2024 sinto um enorme desencanto com a paisagem política. Não encontro figuras inspiradoras, que tenham uma ideia mobilizadora e de progresso para o país, apenas vejo habilidosos que disputam um jogo de vaidades, especialistas em soundbites inconsequentes que se esquecem de tudo o que disseram quando chegam ao poder - isto passa-se a nível nacional, regional e autárquico. Rever o que foi dito por políticos dos vários quadrantes nas suas campanhas eleitorais, quando estavam no poder ou faziam oposição, e comparar com os discursos actuais dos mesmos personagens, é ler uma compilação de promessas não cumpridas, é descobrir contradições e guinadas de opinião, e não raras vezes frases ridículas. São raros os que permanecem fiéis às suas convicções, que não se vergam para manter o poder, raríssimos os que resistem a ser paus mandados em nome da fidelidade ao partido e ao seu líder. A geração actual de políticos em Portugal e na Europa não tem um pensamento de futuro, os seus protagonistas vivem viciados em manter o poder e encontrar expedientes para saltitarem de lugar para lugar. Quando se olha para o que fizeram com os poderes que tiveram percebe-se que não apostaram em mudanças, preferiram remendos. Portugal é nesta matéria um caso tristemente exemplar. A actividade política partidária,em tempos digna, é agora, salvo raras excepções, palco para actores de terceira categoria que funcionam em circuito fechado, no meio de um passado de expedientes, num presente de manobras e sem ideias para o futuro. Estas precoces pré-presidenciais que se desenrolam à nossa frente parecem um desfile de pretendentes a papéis secundários num filme de baixo orçamento. A política e os políticos em Portugal são hoje uma sombra daquilo que já foram. E não se vê nenhuma luz ao fundo do túnel.
SEMANADA - Em novembro de 2024, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, liderou o top de exposição mediática nas estações de televisão, ao protagonizar 147 notícias de 7 horas e 5 minutos de duração durante o mês; o presidente do Chega, André Ventura, registou a segunda posição, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi terceiro, o secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, foi quarto e Ana Paula Martins, ministra da Saúde, ocupou a 5ª posição; segundo o estudo TGI da Marktest um milhão e meio de portugueses referem possuir robot de cozinha no lar; ainda segundo o mesmo estudo existem em Portugal 2 milhões e 374 mil pessoas que possuem consola de jogos em casa, ou seja cerca de 32% dos portugueses com idades entre os 15 e os 74 anos; os jovens portugueses dedicam em média duas horas e meia por dia às redes sociais; um quinto dos jovens diz não consumir nenhuma peça de fruta por dia; um estudo recente da OCDE indica que 42,4% dos portugueses têm dificuldade em compreender textos simples, 41,5% dos portugueses apenas conseguem resolver problemas simples com poucas variáveis e 39,8% dos portugueses não conseguem realizar operações matemáticas básicas; na leitura e operações matemáticas Portugal é o segundo país com pior desempenho em toda a OCDE; dez por cento dos alunos do ensino superior são estrangeiros; o total de estudantes vindos de fora do país ultrapassa os 51 mil.
O ARCO DA VELHA - Ao fim deste tempo todo não se encontra local de dimensões suficientes para fazer o julgamento de José Sócrates e uma das hipóteses é fazer obras em Monsanto no valor de 300 mil euros.

A NORTE, UMA PONTE - Pedro Cabrita Reis tem uma nova obra instalada em permanência no lago do jardim de Serralves, uma escultura em pedra, “Ponte” (na imagem), que se junta às várias obras do artista que já fazem parte da colecção da instituição. Cabrita Reis anunciou entretanto que vai doar o seu arquivo documental a Serralves, que inclui cartas pessoais, fotografias, esboços, catálogos, registos rigorosos da correspondência que acompanhou a produção de exposições, convites, cadernos de notas pessoais, cartazes de exposições e outros documentos. Por estes dias em Serralves pode também ver “Amo-te”, a maior exposição de sempre de Francisco Tropa, que inclui trabalhos de escultura, desenho, performance, gravura, fotografia e filme feitos ao longo de três décadas. E nas galerias da nova ala Álvaro Siza a exposição “Canção Contemporânea”, mostra a Colecção Mário Teixeira da Silva, recentemente depositada em Serralves e que reúne cerca de 210 obras de aproximadamente 116 artistas portugueses e estrangeiros. Na Casa do Cinema Manoel de Oliveira, igualmente em Serralves, pode ser vista uma exposição sobre a obra de Jean Luc Godard, o percurso do cineasta enquanto criador de imagens fixas, desde a sua infância até 2022 com pinturas, desenhos, cadernos, imagens digitais, bem como as fotografias de família.

A SUL, OS DESENHOS DE POMAR - “De Um Traço, Trai” é o título da nova exposição do Atelier-Museu Júlio Pomar, baseada num conjunto de desenhos em papel vegetal, de diferentes formatos, incluindo alguns esboços de retratos, como este de Fernando Pessoa que aqui se reproduz. Estes desenhos serviram de suporte, de esboço ou de estudo de composição para projetos de arte no espaço público criados por Júlio Pomar, como a Estação de Metropolitano Alto dos Moinhos, a Estação Ferroviária de Corroios, o Tribunal da Moita, o espaço exterior da Fundação Champalimaud ou o Circo de Brasília. Os desenhos são agora mostrados pela primeira vez em conjunto e permitem compreender o processo criativo de Júlio Pomar, desde os primeiros esboços em vegetal até aos grandes painéis de azulejo. O título da exposição vem de uma expressão que o próprio Júlio Pomar usou num texto sobre desenho: «De um traço, trai. O que é próprio do traço vivo é ser justo e trair. Trai o que desconhece: a parte que lhe escapa no desígnio que se pressupõe satisfazer; a vacilação do sentido». «D’un trait, il trahit», foi originalmente escrito em francês (Pomar viveu largos anos em França) e o artista sublinhou em nota de rodapé que «D’un trait» significa «de uma assentada», «de uma só vez». Nos trabalhos expostos vêem-se as hesitações de Júlio Pomar, os ajustes feitos traço após traço, e deixados à vista nas folhas de papel vegetal. A exposição, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro fica até 16 de Fevereiro, Rua do Vale 7, Lisboa.

ROTEIRO - Na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80, Lisboa), Sara Bichão apresenta “Diver’s Flight” (na imagem) uma exposição colaborativa onde os seus trabalhos coexistem com obras de Armineh Negahdari, Diego Bianchi, Gyan Panchal, Julien Carreyn, e Miriam Cahn, com curadoria de Noëlig Le Roux. Sara Bichão tem outra exposição em Lisboa, na Appleton Box (Rua Acácio Paiva 27, Lisboa) , baseada em desenhos criados desde 2010. Na Galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76, Lisboa) , a exposição “Portals” mostra obras de Laleh Khorramian e Alia Farid, numa apresentação em duo única em Lisboa, e que inclui arte têxtil, colagem e vídeo. Em simultâneo, noutro local da galeria, é apresentada “Force Majeure”, uma exposição de Inês Mendes Leal e Maria Máximo. E em Abrantes, no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, Catarina Castel-Branco e Manuel San-Payo expõem até Maio uma série de trabalhos sob a designação “Voltar a Casa” .

CONTOS DELICIOSAMENTE BANAIS - “Visitar Amigos”, uma colectânea de contos de Luísa Costa Gomes, é o melhor livro português que li este ano. À primeira vista estes 13 contos, inéditos, parecem relatos banais de situações que se podiam passar com todos nós - quer numas obras em casa, numa visita a amigos, histórias de viagens, de riqueza e negócios, de famílias e descendentes, de terras perdidas do nosso interior e das suas histórias, dos efeitos dos gatos nas pessoas, das dificuldades que surgem com telemóveis que necessitam de carregadores diferentes, de acessórios e roupas herdados e que vêm carregados de memórias. Na realidade o encanto maior deste livro é que facilmente o leitor se pode identificar com as situações , as histórias, as descrições que surgem em cada um dos contos. E depois a escrita de Luísa Costa Gomes é exemplar, feita para ser compreendida, é um manual de comunicação. Escrever de forma simples é mil vezes mais complicado que escrever complicado, armado ao pingarelho. A maior erudição é aquela que não necessita de ser anunciada e essa é uma das enormes qualidades deste livro que conta histórias de vida onde, pelo meio, passam muitos pensamentos, que sem esforço e prazer nos fazem, por sua vez, pensar. Edição D. Quixote.

REDESCOBRIR AMÁLIA - Em 1980 foi editado um LP de Amália Rodrigues intitulado “Gostava de Ser Quem Era”, que nasceu fruto da convalescença de um problema cardíaco da fadista. Depois do susto que apanhou, decidiu gravar um disco apenas com poemas escritos por si: “Para mim este disco é como que uma despedida. Eu sempre quis deixar qualquer coisa que pudesse fazer com que os outros pensassem em mim”, afirmou Amália na época. O álbum original tinha 10 temas e a Valentim de Carvalho, com a preciosa orientação de Frederico Santiago, editou agora um duplo CD em que além dos dez temas do disco original está incluído pela primeira vez o material gravado, que não foi então editado, e também os ensaios preparativos do trabalho em estúdio. No primeiro dos CD’s estão dez temas originais do álbum, mais 14, entre elas várias canções ligeiras que ficaram inéditas como canções de Carlos Paião e Belo Marques. No segundo disco há 17 faixas que resultam das gravações de ensaios, quatro gravadas ao vivo num espectáculo de Amália no Teatro Monumental em Janeiro de 1980 e mais três gravadas no Coliseu em Fevereiro do mesmo ano. Frederico Santiago explica este processo: “Parte do encanto deste disco ficou escondido na moda acústica da altura da primeira publicação em LP (1980). O eco excessivo apagou a verdadeira cor da voz de Amália nesta época e criou a ideia de que a sua dicção se tinha tornado menos perfeita. A sinceridade e o intimismo destas sessões, e a ausência de artifícios técnicos, aconselha-nos a devolver na presente edição o som “cru” das bobines originais. “. E é isso que se pode ouvir agora.
DIXIT - “Mário Centeno corre o risco de ser visto mais como gestor da sua ambição política do que como governador (do Banco de Portugal) “ - Helena Garrido
BACK TO BASICS - “A honestidade é a melhor política” - Miguel Cervantes
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS















