
MAIS ESTATIZAÇÃO DA CULTURA - Na semana passada estive num encontro promovido pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Um dos oradores foi Agustin Gonzalez Garcia, um especialista espanhol em Direito da Arte, que falou sobre a responsabilidade social, o papel do Estado e o regime de mecenato em vários países. Uma das ideias fortes que passou, em jeito de conclusão, no final da sua intervenção, foi esta: “No contexto actual, os incentivos fiscais ao mecenato estão justificados e existe margem de manobra suficiente para que os estados membros da União Europeia aprovem uma melhoria razoável desses incentivos”. O Ministro da Cultura apareceu no final de uma tarde de boas conversas, que contou com Teresa Gouveia num diálogo com Vicente Todolí e com um rico debate incentivado por Pedro Cabrita Reis com José Miranda Justo e Paula Pinto. O Ministro aproveitou uma tarde, que até aí tinha sido proveitosa, para fazer um comício com as conclusões do Conselho de Ministros desse dia, que aprovou a reestruturação na área do património, criando a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal e o Instituto Público Património Cultural. A propósito da empresa, que o governante proclamou ser o veículo para a captação de mais financiamento pela sociedade civil, Adão e Silva manifestou a opinião de que, nesse campo, não vale a pena conceder mais benefícios fiscais ao mecenato. Ficámos portanto com a opinião de um especialista que preconiza mais isenções fiscais e de um governante que se mostrou convicto de que empresas e particulares acorreriam a deitar dinheiro em cima do peso do Estado sem mais contrapartidas. Entretanto percebeu-se que as medidas tomadas pelo Governo desagradavam a quase todos os envolvidos, desde responsáveis de museus a municípios e às CCDR, até aos responsáveis das Direcções Regionais de Cultura, que ficarão extintas. O presidente da Comissão de Coordenação Regional do Norte (CCDR-N) , António Cunha, considera que o documento apresentado pelo Ministério da Cultura assenta num “quadro conceptual extremamente centralista” e receia que as decisões anunciadas possam mesmo “pôr em causa todo o processo de regionalização da cultura a partir de estruturas regionais”. O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, o socialista José Apolinário, também se pronunciou contra as alterações anunciadas pelo ministro, defendendo que esta reorganização afasta as entidades locais da gestão do seu património e promove a centralização da gestão dos monumentos. Outros responsáveis da área queixaram-se que o sector não foi ouvido sobre as alterações anunciadas e que souberam das decisões pelos jornais. No fim do dia, este é mais um pacote de medidas tomado por gente com pouca ligação à realidade. O Ministro da Cultura, uma das estrelas da galáctica costista, tem fama de ter peso político. É só pena que o use desta maneira.
SEMANADA - A maioria absoluta do PS na Assembleia da República impediu 56 audições no Parlamento este ano, treze ministros evitaram ir à AR e Medina foi o que mais ignorou perguntas da oposição; em 2022 registaram-se 2401 mortes por excesso de calor e a população idosa foi a mais atingida; na União Europeia cerca de 40% dos doutorados chegam às empresas, mas em Portugal apenas 6% estão na mesma situação; o programa Mais Habitação alterou o regime fiscal de reinvestimento do valor de venda de casa própria para aquisição de novo imóvel, com prejuízo para os cidadãos no caso de compra de nova casa; no primeiro trimestre deste ano venderam-se menos 20% de casas que no período homólogo do ano anterior; um terço dos inquilinos gasta mais de 40% do rendimento para pagar a renda de casa e Portugal está entre os países europeus onde a taxa de esforço para pagar habitação é maior; Portugal demorou ano e meio a pedir às autoridades de Paris para interrogar um casal de graffiters franceses que vandalizaram o Padrão dos Descobrimentos e o sistema judicial português demorou 10 meses a traduzir para francês as 19 páginas com as perguntas que as autoridades francesas deviam fazer na investigação deste caso; a viagem de comboio Porto-Faro no Alfa Pendular demora actualmente mais 15 minutos que em 2016 e o mesmo se passa na ligação ferroviária de Lisboa para Braga; as marcas brancas pesam já quase metade da fatura do supermercado; a subida do preço dos alimentos emPortugal é o dobro da média europeia, nos últimos meses os ovos aumentaram 60%, o arroz 50% e a carne de porco 49%.
O ARCO DA VELHA - Com a subida das taxas de juro, num empréstimo com Euribor a 12 meses, o aumento do valor da prestação mensal, de junho de 2022 a junho de 2023, foi de 58%.

A IMAGEM FOTOGRÁFICA - Esta semana o destaque vai só para fotografia e começo pela exposição que Luísa Ferreira tem patente na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma retrospectiva que reúne trabalhos por ela realizados ao longo das últimas três décadas, nomeadamente as séries “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”, “Intimidade”, “Tranquilidade, Fidelidade, Infelicidade”, “Lorento”, “Sem Prata” e alguns inéditos (na imagem). Luísa Ferreira debruça-se sobre a cidade, a casa, as memórias, o centro histórico, a gentrificação, o (des)enraizamento e o (des)alojamento, numa reflexão sobre os efeitos da transformação urbana na cidade de Lisboa. A exposição fica patente até 12 de Julho. Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais, destaque para a nova exposição “Auto & Retrato”, uma visita à colecção dos Encontros de Fotografia com curadoria de Miguel von Hafe Pérez que ficará patente até 10 de Setembro. Na exposição, com 97 fotografias, é possível acompanhar o caminho que a fotografia foi fazendo ao longo do tempo, numa mostra que põe em diálogo artistas nacionais e internacionais e fotógrafos de diferentes períodos. Miguel Von Hafe Pérez sublinha que além dos trabalhos resultantes de encomendas feitas pelos Encontros de Fotografia, é possível encontrar na exposição vários retratos do país, a partir de “um olhar internacional sobre Portugal que, nos anos 80 e 90, ainda era um território por descobrir”, mostrando-se ainda um “confronto entre imagens com um caráter mais intimista com imagens relativamente públicas, ou imagens muito divergentes, como um retrato de Eusébio ao lado do de Samuel Beckett”. Por fim, na Galeria da Avenida da Índia, por iniciativa da Embaixada de Itália, é apresentada a exposição “Aos Olhos Delas. Mulheres e Trabalho em Itália desde 1950”, que ao longo de uma centena de imagens investiga a forma como a fotografia realizada pelas mulheres se tem confrontado com o mundo do trabalho na Itália contemporânea.

O STREAMING DA SEMANA - Depois de ter estado ausente das plataformas de streaming audio durante uns tempos, “Coffee And Cigarretes”, de Bill Evans, regressou ao Spotify. Trata-se de uma compilação que reúne temas de quatro álbuns, “Everybody Digs Bill Evans” (1959), “Explorations” (1961), e dois álbuns gravados ao vivo, na mesma data, no Village Vanguard embora com momentos de edição diferentes: “Live at the Village Vanguard” (1961) e “Waltz for Debby” (1962). Ao todo quase uma hora e meia de música, repartida por 14 temas, como “Some Other Time”, “Lucky to Be Me”, “Night and Day” , “Tenderly”, ou “My Foolish Heart”, entre outros. Um manual sobre a arte do piano no jazz.

AS CIDADES DA MONOCLE - Já saíu a edição dupla de verão da revista “Monocle” que tem a habitual lista das cidades com melhor qualidade de vida, segundo os editores da publicação. Viena, que no ano passado estava na sétima posição, subiu ao primeiro lugar, seguida por Copenhaga, Munique, Zurique, Estocolmo, Tokyo, Helsínquia, Madrid (que subiu da 15ª para oitava posição), Lisboa (que desceu da terceira para a nona posição) e Melbourne. Nas páginas sobre Lisboa a “Monocle” destaca a segurança, o sentido de comunidade, a hospitalidade e a natureza. Mas chama atenção para o facto de a chegada de estrangeiros que vieram viver para a cidade fomentar a especulação imobiliária. Recomendam uma política de habitação que proteja os residentes nacionais e trave a subida das rendas. “Enquanto Lisboa continua a ser uma cidade acessível para os nómadas digitais, os salários em Portugal continuam entre os mais baixos da Europa ocidental, com a situação a ser particularmente difícil para os mais novos” - escreve a “Monocle”, sublinhado:”Os políticos precisam de mostrar um sentido de liderança e pragmatismo que impeça que a cidade seja vítima do seu próprio sucesso”. Num outro artigo, que analisa a situação social da cidade, é citado o Presidente da Câmara, Carlos Moedas: ” O turismo é muito importante para nós mas não queremos que Lisboa se transforme só numa cidade Airbnb”.
A ACOMPANHANTE DO JOAQUIM - Quando olho para as sardinhas que se vão vendo decido esperar mais um tempo para que cresçam e fiquem mais suculentas. Mas entretanto os jaquinzinhos, esses pequenos carapaus, estão no ponto. E chegou aquela altura do ano em que se coloca um dilema; qual o melhor acompanhamento para jaquinzinhos fritos? As escolhas vão do proverbial arroz de tomate malandrinho, à ideia saudável mas não demasiado atraente, da salada, passando pela açorda. Esta última hipótese é a minha preferida - o problema é que fazer uma boa açorda não é coisa fácil. Há que ter em conta a consistência e o tempero. Para uma açorda não se pode usar um pão qualquer- convém que seja de véspera, pão antigo, de boa massa, de mistura. E depois convém que o azeite seja de muito boa qualidade. A arte do assunto está na forma como o pão é molhado e depois escorrido, a proporção certa do alho que há-de ir à frigideira para depois receber o pão onde se misturarão os ovos e, por fim, os coentros finamente cortados que hão-de compor o repasto. Já os jaquinzinhos são outro desafio: devem ser pequenos, não podem entrar na categoria de “eram já quase carapaus”, terão obrigatoriamente de ser comidos à mão, com os dedos a segurar a cauda dos peixinhos, que será a única parte não comida. E a sua fritura deve ser impecável, deixando desfeitas as espinhas mas intacta a carne que as rodeia, não lhes alterando o sabor e a desejável frescura, garantido que vêm bem secos para a mesa.
DIXIT - "Os barcos não podem estar atracados com os motores ligados com energias fósseis" - Carlos Moedas sobre a presença de navios de cruzeiro com os motores ligados no porto de Lisboa, exigindo que passem a só poder usar energia eléctrica enquanto estiverem atracados.
BACK TO BASICS - “Maçador é alguém que fala quando queríamos era que ouvisse” - Ambrose Bierce
















