outubro 02, 2007

BOM – O surgimento da edição portuguesa da revista «Time Out». Aqui está um guia que faltava, completo e transversal, que fazia falta desde que o «Se7e» acabou, um guia melhor que qualquer dos roteiros e suplementos que os diários generalistas publicam. Se os críticos das diversas áreas forem um bocadinho mais acutilantes e menos consensualistas os leitores ficarão ainda mais a ganhar.


MAU – O aumento da carga fiscal em Lisboa – que já é a cidade mais penalizada do país. Ser habitante de Lisboa quer dizer sofre muito, pagar e calar para se ter muito pouco em troca. A Câmara nem presta em condições os serviços mínimos que devia e agora António Costa adoptou a típica medida socialista: aumentar os impostos. Daqui a dois anos vamos ver quanto cortou na despesa e quanto aumentou na receita dos cidadãos. Contra isto é que não vejo o ex-activíssimo José Sá Fernandes insurgir-se e defender os direitos dos cidadãos, como tanto gosta de apregoar.


PÉSSIMO – Por mais que se queira entender, o programa de troca de seringas dentro das cadeias é o legitimar do tráfico de droga em estabelecimentos prisionais, debaixo do olhar dos guardas, num local onde o crime é suposto ser punido. Em vez de recuperação, a permissividade – eu sei, é mais fácil.


DESILUSÃO – O filme «O Capacete Dourado» de Jorge Cramez, mais uma oportunidade falhada no cinema português – à partida parecia haver tudo para funcionar – depois a narrativa perde-se, o argumento titubeia, os diálogos são desesperantes. Salva-se a interpretação de Eduardo Frazão no papel principal, mas o desempenho de Ana Moreira reforça a ideia de que é uma actriz demasiado repetitiva e sem capacidade de criação de personagens.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Eu achava que quando se deita uma moeda num parquímetro se estava a pagar à EMEL e à cidade, e não a uma rua em particular. Engano – detentor de de um bilhete válido por mais meia hora, coloquei o carro num outro local que não aquele onde tinha tirado o bilhete (ainda em validade de tempo) e eis que um pressuroso agente da EMEL me diz que tinha de pagar mais porque estava noutra zona. O dinheiro não vai para o mesmo cofre? Por acaso saí da cidade? Se isto não é roubo à mão armada, o que é?


PESADELO – Mário Soares elogia Hugo Chávez; Mário Soares revela-se intermediário de negócios petrolíferos da Galp com a Venezuela; Mário Soares é recebido por Cavaco Silva na companhia do Presidente da Galp. Tal está a molenga…


PETISCAR – Já aqui falei do tema, mas nunca é demais voltar ao convívio dos petiscos goeses do tradicional Sebastião (o homem do «Cantinho da Paz» e, desde há 35 anos, um pioneiro da boa comida indiana em Portugal), agora no Restaurante Casa de Goa, que fica na Calçada do Livramento 17, junto ao Palácio das Necessidades. A sala é boa, o serviço é atento, a qualidade e o tempero da comida são irrepreensíveis. Ainda por cima a Casa de Goa dispõe de estacionamento próprio, não há preocupações com parquímetros nem reboques, um alívio nesta cidade escravizada pela EMEL. Telefone 21 393 01 71.


LER – Isto nem é bem um livro, é mais um opúsculo, mas é delicioso. Reúne contos curtíssimos e divertidíssimos (além de muito bem escritos), da autoria de J. P. Simões, com desenhos deliciosos de André Carrilho. São 60 páginas de puro prazer, estas que compõem «O Vírus da Vida», uma edição da Sextante. J.P. Simões, recorda-se, é homem de vários talentos e foi a voz dos Bellechase Hotel antes de iniciar uma carreira a solo.


FOLHEAR – A edição de Setembro da revista «Egoísta» é dedicada ao sexo. Assim mesmo, sem rodeios. E embora não perceba porque é que uma edição com este tema abre com um escrito de Inês Pedrosa, tem que se reconhecer que as fotografias de Pedro Cláudio, Augusto Brázio, Luís de Barros, Sandra Rocha e sobretudo João Carvalho merecem bem ser vistas. Tal como merecem ser lidos o diálogo imaginado de Camilo a Eça urdido por Vasco da Graça Moura, os textos de José Eduardo Agualusa e de Hélia Correia e o belíssimo momento de Nelson Rodrigues.


OUVIR – As sonatas para piano nº 28, Opus 101, e nº 29, Opus 106, de Beethoven, na interpretação de Mitsuko Uchida, verdadeiramente arrebatadora. O «The Independent On Sunday» dizia que esta interpretação da pianista japonesa «é tão deslumbrante que parece que se estão a ouvir estas obras pela primeira vez». CD Philips, Universal Music.



PERGUNTANDO… O Dr. António Costa saberá quantas faixas de circulação úteis existem rotineiramente na Avenida João Crisóstomo? Já desistiu de pôr ordem no estacionamento caótico ou era apenas fogacho de início de mandato?


BACK TO BASICS – «Quando a investigação é mal feita ou os investigadores estão num beco sem saída, então todos os dias e a todas as horas aparecem informações ciurúrgicas, sempre absolvendo os investigadores (de incompetência, de ineficácia, de negligência) e quase sempre apontando a dedo os culpados de ocasião.» (António Marinho e Pinto, advogado).

setembro 28, 2007

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O CRITÉRIO EDITORIAL
A questão básica colocada pela atitude de Santana Lopes na SIC Notícias, na noite de quarta-feira, tem a ver exactamente com os termos em que se define a linha editorial de uma meio de comunicação que se apresenta como fazendo informação de referência.
Que Santana Lopes esteve bem é uma evidência - mas era bom que o assunto não ficasse esquecido e se debatesse o essencial da questão, que é o valor dos directos, a forma como são utilizados e o efeito que têm na informação.
Nos últimos anos a utilização de directos vulgarizou-se e isso não é bom. Pode dar muita imagem em movimento, mas é perigoso - um directo é uma possibilidade de manipular a informação e a opinião pública e não de fazer informação credível.
Vamos por partes - o jornalismo é basicamente intermediação. A evidência interessa pouco - é mais importante um relato que separe o trigo do joio, uma análise cuidada das forças em presença, a possibilidade de ouvir várias pesoas, qualificadas, sobre o mesmo tema. Os actuais directos não têm intgermediação - ou se têm é apenas electrónica, entre a câmara que capta e o receptor que recebe a imagem. E isto , por muito que custe a quem se mete nestas aventuras, não é jornalismo.
A mania dos directos é aliás responsável por essa anormalidade da vida mediática portuguesa que são as conferências de imprensa às oito da noite, para passarem em directo no Telejornal, ainda por cima estranhas conferências de imprensa - muitas delas anunciadas como sem direito a perguntas. Ou seja, trata-se de utilização de tempo de antena - sem querer exagerar é o mesmo comportamento de Hugo Chávez - quer falar sem ser interrompido, quando lhe dá mais jeito.
A opção de Santana Lopes, ao suspender a entrevista que estava a dar sobre a crise no PSD e o sistema partidário vem chamar a atenção para isto - o abuso dos directos irrelevantes, a prevalência do imediatismo sobre a reportagem, a apetência de muita comunicação pelo espectáculo, mesmo que seja vazio.
Um directo, infelizmente, não é uma reportagem na maior parte das vezes. De facto, é-o raramente. E o bom senso manda que a menos que haja uma catástrofe relevante, não se interrompa uma conversa sobre um tema sério. Não é só uma falta de respeito para com o entrevistado. É sobretudo uma enorme falta de respeito perante todos quantos estavam a seguir a emissão e queriam ouvir a entrevista. Nenhuma linha editorial deve violar a expectativa dos destinatários da mensagem, nem forçar uns temas por cima dos outros.
Mas isto é uma herança da prática «vamos até ao fim da rua, vamos até ao fim do mundo», que anda bem distante do jornalismo.
O CRITÉRIO EDITORIAL
A questão básica colocada pela atitude de Santana Lopes na SIC Notícias, na noite de quarta-feira, tem a ver exactamente com os termos em que se define a linha editorial de uma meio de comunicação que se apresenta como fazendo informação de referência.
Que Santana Lopes esteve bem é uma evidência - mas era bom que o assunto não ficasse esquecido e se debatesse o essencial da questão, que é o valor dos directos, a forma como são utilizados e o efeito que têm na informação.
Nos últimos anos a utilização de directos vulgarizou-se e isso não é bom. Pode dar muita imagem em movimento, mas é perigoso - um directo é uma possibilidade de manipular a informação e a opinião pública e não de fazer informação credível.
Vamos por partes - o jornalismo é basicamente intermediação. A evidência interessa pouco - é mais importante um relato que separe o trigo do joio, uma análise cuidada das forças em presença, a possibilidade de ouvir várias pesoas, qualificadas, sobre o mesmo tema. Os actuais directos não têm intgermediação - ou se têm é apenas electrónica, entre a câmara que capta e o receptor que recebe a imagem. E isto , por muito que custe a quem se mete nestas aventuras, não é jornalismo.
A mania dos directos é aliás responsável por essa anormalidade da vida mediática portuguesa que são as conferências de imprensa às oito da noite, para passarem em directo no Telejornal, ainda por cima estranhas conferências de imprensa - muitas delas anunciadas como sem direito a perguntas. Ou seja, trata-se de utilização de tempo de antena - sem querer exagerar é o mesmo comportamento de Hugo Chávez - quer falar sem ser interrompido, quando lhe dá mais jeito.
A opção de Santana Lopes, ao suspender a entrevista que estava a dar sobre a crise no PSD e o sistema partidário vem chamar a atenção para isto - o abuso dos directos irrelevantes, a prevalência do imediatismo sobre a reportagem, a apetência de muita comunicação pelo espectáculo, mesmo que seja vazio.
Um directo, infelizmente, não é uma reportagem na maior parte das vezes. De facto, é-o raramente. E o bom senso manda que a menos que haja uma catástrofe relevante, não se interrompa uma conversa sobre um tema sério. Não é só uma falta de respeito para com o entrevistado. É sobretudo uma enorme falta de respeito perante todos quantos estavam a seguir a emissão e queriam ouvir a entrevista. Nenhuma linha editorial deve violar a expectativa dos destinatários da mensagem, nem forçar uns temas por cima dos outros.
Mas isto é uma herança da prática «vamos até ao fim da rua, vamos até ao fim do mundo», que anda bem distante do jornalismo.

setembro 27, 2007

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DESFADOS
(publicado na edição de 26 de Setembro do diário «Meia Hora»

Anda por aí um grande alarido em torno de uma coisa chamada «Fados», uma operação propagandística impulsionada e protagonizada por Carlos do Carmo, que logrou um inusitado investimento público, à revelia de todas as regras vigentes em matéria de financiamento ao audiovisual, para conseguir um filme onde ele próprio brilhasse no papel de inspirador da obra. Para dar um ar cosmopolita à coisa arregimentou o sempre disponível Carlos Saura, que nos últimos anos se especializou em fazer bilhetes postais em torno de géneros musicais – primeiro o flamenco, depois o tango e, agora o fado. Claro que estes filmes não foram nem grátis nem rentáveis e claro que houve sempre vários poderes a pagar a factura, o que faz sentido por que na realidade eles foram usados essencialmente como peças propangandísticas. Pena é que o resultado final tenha sido sempre mais favorável a Saura e aos produtores que foram buscar os dinheiros públicos, do que aos países que financiaram a operação, e sobretudo, na realidade pouco fizeram a médio-longo prazo pelos géneros musicais cuja imagem no mundo se dizia irem exponenciar.

O mentor e os produtores do filme gabam-se de que ele estará colocado em duas dezenas de mercados e sublinham o enorme valor que isto tem para a divulgação da cultura portuguesa. Vamos por partes: primeiro é preciso ver que mercados são estes, em que circunstâncias vai o filme aparecer (para que audiências, em que circuitos, se estamos a falar de redes de salas de estreia, se salas e circuitos de filmes de autor, ou se de canais de televisão abertos; depois, é fundamental ver bem o que o filme é – e a esse nível as primeiras notícias são alarmantes na descaracterização, na falta de rigor, no facilitismo e até no pirosismo a que se recorreu.

No fundo a questão aqui é perceber se os tais imensos mercados onde dizem que o filme vai passar são relevantes em termos de audiência e, depois, se o produto e o seu conteúdo contribuem para afirmar a marca de Portugal e a sua cultura ou se apenas aumentam a confusão e a descaracterização. Do que li e ouvi, aposto que este é mais um caso de dinheiros públicos deitado à rua para satisfação de umas quantas vaidades e interesses pessoais.
DESFADOS
(publicado na edição de 26 de Setembro do diário «Meia Hora»

Anda por aí um grande alarido em torno de uma coisa chamada «Fados», uma operação propagandística impulsionada e protagonizada por Carlos do Carmo, que logrou um inusitado investimento público, à revelia de todas as regras vigentes em matéria de financiamento ao audiovisual, para conseguir um filme onde ele próprio brilhasse no papel de inspirador da obra. Para dar um ar cosmopolita à coisa arregimentou o sempre disponível Carlos Saura, que nos últimos anos se especializou em fazer bilhetes postais em torno de géneros musicais – primeiro o flamenco, depois o tango e, agora o fado. Claro que estes filmes não foram nem grátis nem rentáveis e claro que houve sempre vários poderes a pagar a factura, o que faz sentido por que na realidade eles foram usados essencialmente como peças propangandísticas. Pena é que o resultado final tenha sido sempre mais favorável a Saura e aos produtores que foram buscar os dinheiros públicos, do que aos países que financiaram a operação, e sobretudo, na realidade pouco fizeram a médio-longo prazo pelos géneros musicais cuja imagem no mundo se dizia irem exponenciar.

O mentor e os produtores do filme gabam-se de que ele estará colocado em duas dezenas de mercados e sublinham o enorme valor que isto tem para a divulgação da cultura portuguesa. Vamos por partes: primeiro é preciso ver que mercados são estes, em que circunstâncias vai o filme aparecer (para que audiências, em que circuitos, se estamos a falar de redes de salas de estreia, se salas e circuitos de filmes de autor, ou se de canais de televisão abertos; depois, é fundamental ver bem o que o filme é – e a esse nível as primeiras notícias são alarmantes na descaracterização, na falta de rigor, no facilitismo e até no pirosismo a que se recorreu.

No fundo a questão aqui é perceber se os tais imensos mercados onde dizem que o filme vai passar são relevantes em termos de audiência e, depois, se o produto e o seu conteúdo contribuem para afirmar a marca de Portugal e a sua cultura ou se apenas aumentam a confusão e a descaracterização. Do que li e ouvi, aposto que este é mais um caso de dinheiros públicos deitado à rua para satisfação de umas quantas vaidades e interesses pessoais.

setembro 24, 2007

BOM – O «New York Times» destacou esta semana um vinho português, o tinto «Padre Pedro» de 2002, da Casa Cadaval, considerando-o uma das cinco boas oportunidades do ano.


MAU – O fim da presença de António Sérgio na rádio e a extinção do seu programa «A Hora do Lobo», que passava na Comercial. É o terminar de um dos derradeiros programas de autor da rádio portuguesa, é o fim do tempo em que se podia ouvir um descobridor de sons e de músicas – o papel que o António Sérgio melhor cumpre. O serviço público de rádio encontraria um bocadinho de justificação para a sua existência (e para a cobrança de taxas na factura de electricidade), se desse aos ouvintes de António Sérgio a possibilidade de o poderem continuar a ouvir na rádio.


PÉSSIMO – Em vésperas de início efectivo do processo da Televisão Digital Terrestre o accionista Estado ainda não esclareceu que papel entende que a RTP deva desempenhar em tudo isto. E isso levanta as maiores suspeitas sobre a vontade de diminuir o peso do Estado na televisão do futuro e sobre a possibilidade de novos operadores entrarem em cena. O Ministro Santos Silva faria bem em esclarecer se acha que a RTP deve ter mais canais, os mesmos canais ou menos canais. E se o Governo tenciona permitir uma maior concorrência no sector.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Agentes da polícia a servirem de arrumadores de carros no anárquico largo do Tribunal da Boa Hora e a ficarem com as respectivas chaves, como se de um serviço de valet parking se tratasse.


PESADELO – Voar na TAP está a transformar-se num pesadelo. Esta semana calhou-me, num avião cheio, uma cadeira com um autêntico buraco no assento, que me fazia ficar inclinado e desconfortável. A sanduíche que foi servida era de fiambrino, um plastificado sucedâneo de fiambre, em pão elaborado numa fábrica de borracha. Mais valia não servirem nada e diminuírem o preço dos bilhetes para valores decentes.


PETISCAR – A La Gôndola é uma das mais antigas fábricas de conservas portuguesa, que data dos anos 40 do século passado. Situada em Perafita, Matosinhos, usa o método tradicional denominado “pré-cozido”, exclusivamente com peixe fresco, capturado nas épocas em que melhor realça o sabor e qualidade. Não é fácil encontrar, grande parte da produção vai para exportação (encontrei no google sites de Barcelona e dos Estados Unidos com elogiosas referências à marca). Nas boas lojas gourmet conseguem encontrar-se. As embalagens são só por si uma tentação – mas quando abrirem uma lata de petingas em azeite poderão perceber o que na verdade é um petisco.


LER – Não é muito frequente surgirem livros de poesia, de autores portugueses, que em cada página tragam uma revelação, que nos forcem a avançar de página para página, embrenhados no ritmo e nas palavras. «Senhor Fantasma», de Pedro Mexia, é um livro assim. É um livro de poesia que apetece devorar e, depois, ler e reler. Fica. Deixa marca. (edição Oceanos, 2007).


OUVIR – Maria Malibran foi uma das mais célebres cantoras de ópera da primeira metade do século XIX, aparentemente a mezzo-soprana preferida de Rossini para as suas óperas. De oridem espanholam, viveu uma vida agitada, encantou audiências de teatros em Londres, Filadélfia, Paris e por toda a Itália, fez escândalo e foi uma estrela da época. A sua carreira foi breve, uns dez anos – morreu cedo, no auge do talento. Muitos compositores escreveram para ela, aproveitando o potencial da sua voz, que alcançava uma extensão de praticamente três oitavas. Curiosamente uma das óperas que contribuíu para a sua fama foi expressamente escrita por ela por Giuseppe Persiani e conta a história de Inez de Castro. Cecília Bartoli é uma admiradora entusiasta de Maria Malibran e, a partir de partituras originais, reconstituíu algumas das árias que lhe deram maior fama e gravou-as com a Orchestra La Scintilla, dirigida por Adam Fischer. O registo está disponível em edições especiais – um livro sobre a história de Maria Malibran que inclui o CD e uma edição especial de grande formato, com reprroduções de documentos da época e que para além do CD integral inclui um DVD com um documentário sobre Bartoli e Malibran. (Edição Decca, 2007)



PERGUNTANDO… Que terá passado na cabeça de José Sócrates quando ouviu Bush elogiar e agradecer o apoio de Portugal aos Estados Unidos na invasão do Iraque?


BACK TO BASICS – «Em Portugal a justiça é uma máquina anquilosada, lenta e inconclusiva, incapaz de produzir provas e julgar em tempo útil, mais apropriada para triturar a paciência de um credor e a reputação de um inocente do que para fazer cumprir as obrigações e identificar responsáveis» - Carlos Pinto de Abreu, advogado, candidato à Presidência do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados.

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BOM – O «New York Times» destacou esta semana um vinho português, o tinto «Padre Pedro» de 2002, da Casa Cadaval, considerando-o uma das cinco boas oportunidades do ano.


MAU – O fim da presença de António Sérgio na rádio e a extinção do seu programa «A Hora do Lobo», que passava na Comercial. É o terminar de um dos derradeiros programas de autor da rádio portuguesa, é o fim do tempo em que se podia ouvir um descobridor de sons e de músicas – o papel que o António Sérgio melhor cumpre. O serviço público de rádio encontraria um bocadinho de justificação para a sua existência (e para a cobrança de taxas na factura de electricidade), se desse aos ouvintes de António Sérgio a possibilidade de o poderem continuar a ouvir na rádio.


PÉSSIMO – Em vésperas de início efectivo do processo da Televisão Digital Terrestre o accionista Estado ainda não esclareceu que papel entende que a RTP deva desempenhar em tudo isto. E isso levanta as maiores suspeitas sobre a vontade de diminuir o peso do Estado na televisão do futuro e sobre a possibilidade de novos operadores entrarem em cena. O Ministro Santos Silva faria bem em esclarecer se acha que a RTP deve ter mais canais, os mesmos canais ou menos canais. E se o Governo tenciona permitir uma maior concorrência no sector.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Agentes da polícia a servirem de arrumadores de carros no anárquico largo do Tribunal da Boa Hora e a ficarem com as respectivas chaves, como se de um serviço de valet parking se tratasse.


PESADELO – Voar na TAP está a transformar-se num pesadelo. Esta semana calhou-me, num avião cheio, uma cadeira com um autêntico buraco no assento, que me fazia ficar inclinado e desconfortável. A sanduíche que foi servida era de fiambrino, um plastificado sucedâneo de fiambre, em pão elaborado numa fábrica de borracha. Mais valia não servirem nada e diminuírem o preço dos bilhetes para valores decentes.


PETISCAR – A La Gôndola é uma das mais antigas fábricas de conservas portuguesa, que data dos anos 40 do século passado. Situada em Perafita, Matosinhos, usa o método tradicional denominado “pré-cozido”, exclusivamente com peixe fresco, capturado nas épocas em que melhor realça o sabor e qualidade. Não é fácil encontrar, grande parte da produção vai para exportação (encontrei no google sites de Barcelona e dos Estados Unidos com elogiosas referências à marca). Nas boas lojas gourmet conseguem encontrar-se. As embalagens são só por si uma tentação – mas quando abrirem uma lata de petingas em azeite poderão perceber o que na verdade é um petisco.


LER – Não é muito frequente surgirem livros de poesia, de autores portugueses, que em cada página tragam uma revelação, que nos forcem a avançar de página para página, embrenhados no ritmo e nas palavras. «Senhor Fantasma», de Pedro Mexia, é um livro assim. É um livro de poesia que apetece devorar e, depois, ler e reler. Fica. Deixa marca. (edição Oceanos, 2007).


OUVIR – Maria Malibran foi uma das mais célebres cantoras de ópera da primeira metade do século XIX, aparentemente a mezzo-soprana preferida de Rossini para as suas óperas. De oridem espanholam, viveu uma vida agitada, encantou audiências de teatros em Londres, Filadélfia, Paris e por toda a Itália, fez escândalo e foi uma estrela da época. A sua carreira foi breve, uns dez anos – morreu cedo, no auge do talento. Muitos compositores escreveram para ela, aproveitando o potencial da sua voz, que alcançava uma extensão de praticamente três oitavas. Curiosamente uma das óperas que contribuíu para a sua fama foi expressamente escrita por ela por Giuseppe Persiani e conta a história de Inez de Castro. Cecília Bartoli é uma admiradora entusiasta de Maria Malibran e, a partir de partituras originais, reconstituíu algumas das árias que lhe deram maior fama e gravou-as com a Orchestra La Scintilla, dirigida por Adam Fischer. O registo está disponível em edições especiais – um livro sobre a história de Maria Malibran que inclui o CD e uma edição especial de grande formato, com reprroduções de documentos da época e que para além do CD integral inclui um DVD com um documentário sobre Bartoli e Malibran. (Edição Decca, 2007)



PERGUNTANDO… Que terá passado na cabeça de José Sócrates quando ouviu Bush elogiar e agradecer o apoio de Portugal aos Estados Unidos na invasão do Iraque?


BACK TO BASICS – «Em Portugal a justiça é uma máquina anquilosada, lenta e inconclusiva, incapaz de produzir provas e julgar em tempo útil, mais apropriada para triturar a paciência de um credor e a reputação de um inocente do que para fazer cumprir as obrigações e identificar responsáveis» - Carlos Pinto de Abreu, advogado, candidato à Presidência do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados.

setembro 20, 2007

RECORDISTAS
(publicado do diário gratuto «Meia Hora» em 19 de Setembro)


Este ano Portugal corre o sério risco de se tornar o país da Comunidade Europeia com maior número de partos ocorridos em ambulâncias – é rara a semana em que não se tem notícia de mais um nascimento a meio de uma qualquer estrada entre uma terra onde antes existia uma maternidade, entretanto encerrada pelos diligentes serviços do Ministério da Saúde, e o hospital de destino.

Os mesmos diligentes serviços começaram agora a seguir a prática de contrariar as prescrições de médicos, quando lhes parece que os medicamentos receitados são de custo elevado. Na semana passada soube-se que os serviços administrativos de um Hospital haviam rejeitado uma recomendação médica sobre a utilização de um novo medicamento num paciente com cancro. Aqui há uns meses descobriu-se, da pior forma, que as juntas médicas eram dominadas por burocratas que nada sabiam de medicina e que ultrapassavam as recomendações médicas – o escândalo foi tal que o Governo teve de intervir. A predominância dos burocratas sobre os médicos no sistema de saúde do Estado arrisca-se a constituir outro triste recorde lusitano.

Mas estes diligentes serviços do Estado encontram muita ajuda dentro do sistema quando se trata de maltratar a vida e a saúde dos contribuintes. Há poucos dias atrás os familiares de um doente em estado grave chamaram a atenção para outro caso: a ambulância em que um doente seguia, aparentemente com uma ataque cardíaco, foi parada pela Brigada de Trânsito da GNR, que a terá imobilizado cerca de um quarto de hora fazendo uma fiscalização formal, apesar de avisada de que estava a ser transportado um doente em estado grave e situação de urgência. O doente veio a falecer à chegada ao hospital, o coração não resistiu e os seus familiares colocam a questão de saber se, caso a GNR não tivesse agido como agiu, se poderia ter salvo uma vida. Parece que a GNR queria confirmar se estava a ser feita uma utilização abusiva das luzes de emergência – e em vez de ter escoltado a ambulância ao hospital de destino e aí ter tirado as dúvidas, resolveu averiguar se o doente estava mesmo doente, ali no meio da estrada.

Eu, por mim, gostava que os inquéritos que devem ser levantados a casos destes tivessem conclusões rápidas publicamente divulgadas e culpados apontados a dedo e castigados. Mas Portugal também é o país recordista de inquéritos inconclusivos…

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RECORDISTAS
(publicado do diário gratuto «Meia Hora» em 19 de Setembro)


Este ano Portugal corre o sério risco de se tornar o país da Comunidade Europeia com maior número de partos ocorridos em ambulâncias – é rara a semana em que não se tem notícia de mais um nascimento a meio de uma qualquer estrada entre uma terra onde antes existia uma maternidade, entretanto encerrada pelos diligentes serviços do Ministério da Saúde, e o hospital de destino.

Os mesmos diligentes serviços começaram agora a seguir a prática de contrariar as prescrições de médicos, quando lhes parece que os medicamentos receitados são de custo elevado. Na semana passada soube-se que os serviços administrativos de um Hospital haviam rejeitado uma recomendação médica sobre a utilização de um novo medicamento num paciente com cancro. Aqui há uns meses descobriu-se, da pior forma, que as juntas médicas eram dominadas por burocratas que nada sabiam de medicina e que ultrapassavam as recomendações médicas – o escândalo foi tal que o Governo teve de intervir. A predominância dos burocratas sobre os médicos no sistema de saúde do Estado arrisca-se a constituir outro triste recorde lusitano.

Mas estes diligentes serviços do Estado encontram muita ajuda dentro do sistema quando se trata de maltratar a vida e a saúde dos contribuintes. Há poucos dias atrás os familiares de um doente em estado grave chamaram a atenção para outro caso: a ambulância em que um doente seguia, aparentemente com uma ataque cardíaco, foi parada pela Brigada de Trânsito da GNR, que a terá imobilizado cerca de um quarto de hora fazendo uma fiscalização formal, apesar de avisada de que estava a ser transportado um doente em estado grave e situação de urgência. O doente veio a falecer à chegada ao hospital, o coração não resistiu e os seus familiares colocam a questão de saber se, caso a GNR não tivesse agido como agiu, se poderia ter salvo uma vida. Parece que a GNR queria confirmar se estava a ser feita uma utilização abusiva das luzes de emergência – e em vez de ter escoltado a ambulância ao hospital de destino e aí ter tirado as dúvidas, resolveu averiguar se o doente estava mesmo doente, ali no meio da estrada.

Eu, por mim, gostava que os inquéritos que devem ser levantados a casos destes tivessem conclusões rápidas publicamente divulgadas e culpados apontados a dedo e castigados. Mas Portugal também é o país recordista de inquéritos inconclusivos…

setembro 17, 2007

BOM – A abertura de uma boa livraria no centro de Lisboa é sempre motivo de festa. Aqui se assinala a inauguração da «Pó dos Livros», no nº98 da Avenida Marquês de Tomar, um espaço amplo, bem arrumado, agradável e bem iluminado, com novidades editoriais portuguesas e também novidades importadas. Boa secção de fotografia e de banda desenhada.


MAU – Alguma coisa não funciona quando o próprio Ministro da Administração Interna é enganado pelas polícias, como aconteceu no caso do assalto à ourivesaria de Viana do Castelo.


PÉSSIMO – A habitual pantominice de Scolari deixou-se vencer pelos seus instintos mais básicos – agora pode fazer conferências sobre como dirigir homens ao estalo.


LISBOA – A Câmara Municipal devia garantir que os cidadãos que vivem e têm domicílio fiscal em Lisboa e que aí pagam imposto de circulação automóvel tivessem estacionamento gratuito à superfície em qualquer ponto da cidade que financiam; em contrapartida os não residentes deviam pagar, até mais do que agora se paga. Aqui estaria uma medida que defenderia os munícipes e que penalizaria a deslocação de veículos para a cidade, sem necessidade de evitar portagens. Dr. Costa, tem coragem para tanto?


PERGUNTANDO – Porque é que José Sócrates teve tanto empenho em receber o rocker reformado Bob Geldof e o seu Governo se esforçou por evitar o Dalai Lama?


O MUNDO AO CONTRÁRIO - O disco «A Música e a Guitarra», de Mário Pacheco, foi considerado pela revista britânica «Songlines» entre as dez melhores edições de world music de 2006. Esta semana tentei, sem sucesso, comprá-lo no «El Corte Inglês» e na FNAC do Chiado, as duas maiores discotecas de Lisboa. Não existia em nenhuma nem me sabiam dizer quando seria reposto. Fui à Amazon inglesa e lá estava o disco. Conclusão: para se comprar um disco português premiado o melhor é encomendá-lo do estrangeiro.


PETISCAR – Um bom prato de iscas à portuguesa (com elas) é das melhores coisas que me podem dar. Esta semana recordei como são excelentes no «Coelho da Rocha», em Campo de Ourique. São especiais: corte muito fino (como deve ser), mas depois disso cortadas em pedaços pequenos, quase farripas, bem temperadas e avinagradas no ponto certo. As «elas» são neste caso umas batatas fritas às rodelas de espessura média, mal passadas sem estarem cruas nem farinhentas. Uma delícia. Rua Coelho da Rocha nº104, Tel. 213900831.


LER – Shantideva foi um monge budista indiano do século VII, um príncipe que renunciou à coroa e entrou para a universidade budista de Nalanda onde por diversas razões se tornou motivo de chacota pelos seus pares. Para encurtar a história, os seus pares, que o julgavam incapaz, fizeram-lhe um desafio, convictos que Shantideva se iria ridicularizar. Em vez disso declamou-lhes um poema repleto de reflexão e ensinamentos e que havia de se afirmar um dos textos de referência do budismo, conhecido em português como «A Via do Bodhisattva». Por ocasião da visita do Dalai Lama a Portugal, acaba de ser editado pela Ésquilo, numa tradução de Paulo Borges e Rui Lopo, a partir da versão oficial inglesa do original em tibetano. Uma das citações mais conhecidas da obra é a estrofe 34, do capítulo IX, «Sabedoria»: «Quando algo e a sua não existência estão ambos ausentes da mente, nenhuma outra opção tem esta: chega a um perfeito repouso, livre de conceitos» - ou seja, há que deixar a mente tal como ela é, livre e sem entraves, solta do dogma da verdade única.


OUVIR – Volta e meia apetece-me voltar a ouvir alguns discos. Nestas últimas semanas tenho repetidamente posto a tocar «The Intimate Ella», um registo de gravações de Ella Fitzgerald em que a cantora é apenas acompanhada pelo piano de Paul Smith. Originalmente gravadas em 1960 e editadas como banda sonora do filme «Let No Man Write My Epitaph» (um filme menor, que não fez história, sobre o mundo da droga e a corrupção), estas 13 canções são interpretações invulgarmente intimistas, muitas vezes melancólicas até. Estes temas foram editados em CD sob a designação «The Intimate Ella» em 1990 e entre eles estão grandes clássicos como «Angel Eyes», «I Cant’t Give You Anything But Love, Baby», «My Melancholy baby», «Misty», «September Song» e «Reach For Tomorrow», entre outras. Por curiosidade o ano original de edição do disco, que na altura passou despercebido, é o mesmo do célebre «Ela In Berlin», uma gravação ao vivo que recebeu dois Grammies e em que Paul Smith também acompanha Ella. CD Verve, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – Toda a alegria que o mundo contém / Veio por desejar felicidade para os outros. / Toda a aflição que o mundo contém / Veio por querer o prazer para si mesmo. (Shantideva)

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BOM – A abertura de uma boa livraria no centro de Lisboa é sempre motivo de festa. Aqui se assinala a inauguração da «Pó dos Livros», no nº98 da Avenida Marquês de Tomar, um espaço amplo, bem arrumado, agradável e bem iluminado, com novidades editoriais portuguesas e também novidades importadas. Boa secção de fotografia e de banda desenhada.


MAU – Alguma coisa não funciona quando o próprio Ministro da Administração Interna é enganado pelas polícias, como aconteceu no caso do assalto à ourivesaria de Viana do Castelo.


PÉSSIMO – A habitual pantominice de Scolari deixou-se vencer pelos seus instintos mais básicos – agora pode fazer conferências sobre como dirigir homens ao estalo.


LISBOA – A Câmara Municipal devia garantir que os cidadãos que vivem e têm domicílio fiscal em Lisboa e que aí pagam imposto de circulação automóvel tivessem estacionamento gratuito à superfície em qualquer ponto da cidade que financiam; em contrapartida os não residentes deviam pagar, até mais do que agora se paga. Aqui estaria uma medida que defenderia os munícipes e que penalizaria a deslocação de veículos para a cidade, sem necessidade de evitar portagens. Dr. Costa, tem coragem para tanto?


PERGUNTANDO – Porque é que José Sócrates teve tanto empenho em receber o rocker reformado Bob Geldof e o seu Governo se esforçou por evitar o Dalai Lama?


O MUNDO AO CONTRÁRIO - O disco «A Música e a Guitarra», de Mário Pacheco, foi considerado pela revista britânica «Songlines» entre as dez melhores edições de world music de 2006. Esta semana tentei, sem sucesso, comprá-lo no «El Corte Inglês» e na FNAC do Chiado, as duas maiores discotecas de Lisboa. Não existia em nenhuma nem me sabiam dizer quando seria reposto. Fui à Amazon inglesa e lá estava o disco. Conclusão: para se comprar um disco português premiado o melhor é encomendá-lo do estrangeiro.


PETISCAR – Um bom prato de iscas à portuguesa (com elas) é das melhores coisas que me podem dar. Esta semana recordei como são excelentes no «Coelho da Rocha», em Campo de Ourique. São especiais: corte muito fino (como deve ser), mas depois disso cortadas em pedaços pequenos, quase farripas, bem temperadas e avinagradas no ponto certo. As «elas» são neste caso umas batatas fritas às rodelas de espessura média, mal passadas sem estarem cruas nem farinhentas. Uma delícia. Rua Coelho da Rocha nº104, Tel. 213900831.


LER – Shantideva foi um monge budista indiano do século VII, um príncipe que renunciou à coroa e entrou para a universidade budista de Nalanda onde por diversas razões se tornou motivo de chacota pelos seus pares. Para encurtar a história, os seus pares, que o julgavam incapaz, fizeram-lhe um desafio, convictos que Shantideva se iria ridicularizar. Em vez disso declamou-lhes um poema repleto de reflexão e ensinamentos e que havia de se afirmar um dos textos de referência do budismo, conhecido em português como «A Via do Bodhisattva». Por ocasião da visita do Dalai Lama a Portugal, acaba de ser editado pela Ésquilo, numa tradução de Paulo Borges e Rui Lopo, a partir da versão oficial inglesa do original em tibetano. Uma das citações mais conhecidas da obra é a estrofe 34, do capítulo IX, «Sabedoria»: «Quando algo e a sua não existência estão ambos ausentes da mente, nenhuma outra opção tem esta: chega a um perfeito repouso, livre de conceitos» - ou seja, há que deixar a mente tal como ela é, livre e sem entraves, solta do dogma da verdade única.


OUVIR – Volta e meia apetece-me voltar a ouvir alguns discos. Nestas últimas semanas tenho repetidamente posto a tocar «The Intimate Ella», um registo de gravações de Ella Fitzgerald em que a cantora é apenas acompanhada pelo piano de Paul Smith. Originalmente gravadas em 1960 e editadas como banda sonora do filme «Let No Man Write My Epitaph» (um filme menor, que não fez história, sobre o mundo da droga e a corrupção), estas 13 canções são interpretações invulgarmente intimistas, muitas vezes melancólicas até. Estes temas foram editados em CD sob a designação «The Intimate Ella» em 1990 e entre eles estão grandes clássicos como «Angel Eyes», «I Cant’t Give You Anything But Love, Baby», «My Melancholy baby», «Misty», «September Song» e «Reach For Tomorrow», entre outras. Por curiosidade o ano original de edição do disco, que na altura passou despercebido, é o mesmo do célebre «Ela In Berlin», uma gravação ao vivo que recebeu dois Grammies e em que Paul Smith também acompanha Ella. CD Verve, distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – Toda a alegria que o mundo contém / Veio por desejar felicidade para os outros. / Toda a aflição que o mundo contém / Veio por querer o prazer para si mesmo. (Shantideva)

setembro 10, 2007

BOM – A desassombrada posição do Presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Barbosa, que responsabiliza directamente António Costa, enquanto Ministro da Administração Interna, pelo aumento este ano verificado na sinistralidade rodoviária devido à desarticulação a que procedeu das campanhas da Prevenção Rodoviária Portuguesa.


MAU – Ficou esta semana a saber-se que está a aumentar o abandono escolar em Portugal. A notícia teve menos destaque nos telejornais do que o folclore montado à volta da entrega de computadores por membros do Governo durante o fim de semana por esse país fora.


PÉSSIMO – Diz um porta voz da PSP que a força policial não se revê na prática de espancamentos a civis por agentes policiais, na base de, literalmente, tomar em mãos a execução de punições. Convirá que alguém que mande nas polícias perceba porque é que os casos se repetem, porque é que os polícias portugueses são por via de regra violentos e prepotentes. Na realidade a regra é o abuso de poder e não o contrário.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Quem publicar transcrições de escutas telefónicas realizadas por forças policiais ou instâncias judiciais tem direito garantido a prisão. E o que acontece aos polícias, magistrados e outros agentes de justiça que as entregam a jornalistas para assim irem moldando a opinião pública e induzindo julgamentos sumários na praça pública?


INDEFESOS – O veto do Presidente da República à Lei da responsabilidade civil extracontratual do Estado foi um péssimo momento do Presidente da República. A única explicação possível para o facto de o mais alto magistrado da nação querer penalizar os cidadãos na sua relação com o Estado, é porque ele bem sabe quão mal o Estado funciona, quão injusto é e como a Lei, se aprovada, mostraria abusos, atropelos e injustiças quotidiana cometidos. E este veto, precisamente, encaixa-se nos abusos e atropelos aos direitos dos cidadãos.


PESADELO – Vivo no pesadelo de um dia pedir favas guisadas e me aparecer um prato com umas favas insípidas acompanhadas por chouriço, entrecosto e farinheira, tudo embrulhado individualmente em celofane com um selo da ASAE em cada um. Agora, quando estou num restaurante e vejo um tipo de bigode a olhar com cara de mau para o que está a comer, começo logo a temer que entre por ali dentro uma brigada da ASAE mascarada de tropa de choque com metralhadoras na mão.


PETISCAR – O pesadelo veio-me à ideia à hora de almoço num pacato restaurante de bairro, bem perto da sede da ASAE, enquanto comia precisamente umas favas deliciosas. Dei comigo a pensar que qualquer dia já não se consegue saborear um prato assim, que tanta uniformização e estandardização vão acabar com estes sítios. O restaurante em causa é um exemplo de bom serviço, simpatia, bom preço e honesta comidinha portuguesa. Chama-se «Manaus» e fica no nº23 da Avenida Conde de Valbom.


LER – Durante uns anos a revista «The Economist» publicava anualmente uma edição especial a que chamava «Intelligent Life», dedicada a algumas das melhores coisas da vida. A partir de agora a «Intelligent Life» passa a ter quatro edições por ano, uma por cada estação. A dedicada ao Outono de 2007 acaba de ser distribuída e está à venda na maior parte dos postos de venda onde se pode encontrar «The Economist». Há mudanças no grafismo, novas secções, novos temas e áreas por explorar. Muita informação sobre novidades na área da cultura e entretenimento, um portfolio fotográfico sobre caça, bons artigos sobre finanças pessoais e o preço da arte, incursões no mundo dos grandes cozinheiros e dos críticos de vinhos e ainda a previsão de que num futuro próximo utilizaremos leds para iluminar, melhor e mais barato, as nossas casas. Não deixa de ser engraçado que numa época em que tantos profetizam o fim da imprensa escrita, continuem a aparecer belos e ambiciosos projectos editoriais, lançados por empresas jornalísticas que não são propriamente nem inexperientes nem aventureiras.


OUVIR – A colecção de gravações organizada para celebrar os 150 anos da Steinway, a fabricante de pianos de excelência usados por alguns dos melhores pianistas de todo o mundo. São 10 CDs que recolhem gravações de diversas épocas, muito bem apresentadas e organizadas. A colecção recolhe registos inéditos, gravações nunca editadas em CD e outras actualmente fora de edição. A tocar estão nomes como Vladimir Horowitz, Claudio Arrau, Maurizio Pollini, Vladimir Ashkenazy, Mitsuko Uchida, Arturo Benedetti Michelangeli, Wilhelm Kempff, Emil Gilels, Martha Argerich e Alfred Brendel. Colecção Steinway Legends, distribuição Universal Music.



PERGUNTANDO… Alguém sabe o que aconteceu ao filme «Fados», do espanhol Carlos Saura, com estreia anunciada e falhada para vários festivais, e onde a Câmara Municipal de Lisboa investiu centenas de milhares de euros?


BACK TO BASICS – O mais importante de tudo é nunca deixar de colocar questões, Albert Einstein

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BOM – A desassombrada posição do Presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Barbosa, que responsabiliza directamente António Costa, enquanto Ministro da Administração Interna, pelo aumento este ano verificado na sinistralidade rodoviária devido à desarticulação a que procedeu das campanhas da Prevenção Rodoviária Portuguesa.


MAU – Ficou esta semana a saber-se que está a aumentar o abandono escolar em Portugal. A notícia teve menos destaque nos telejornais do que o folclore montado à volta da entrega de computadores por membros do Governo durante o fim de semana por esse país fora.


PÉSSIMO – Diz um porta voz da PSP que a força policial não se revê na prática de espancamentos a civis por agentes policiais, na base de, literalmente, tomar em mãos a execução de punições. Convirá que alguém que mande nas polícias perceba porque é que os casos se repetem, porque é que os polícias portugueses são por via de regra violentos e prepotentes. Na realidade a regra é o abuso de poder e não o contrário.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Quem publicar transcrições de escutas telefónicas realizadas por forças policiais ou instâncias judiciais tem direito garantido a prisão. E o que acontece aos polícias, magistrados e outros agentes de justiça que as entregam a jornalistas para assim irem moldando a opinião pública e induzindo julgamentos sumários na praça pública?


INDEFESOS – O veto do Presidente da República à Lei da responsabilidade civil extracontratual do Estado foi um péssimo momento do Presidente da República. A única explicação possível para o facto de o mais alto magistrado da nação querer penalizar os cidadãos na sua relação com o Estado, é porque ele bem sabe quão mal o Estado funciona, quão injusto é e como a Lei, se aprovada, mostraria abusos, atropelos e injustiças quotidiana cometidos. E este veto, precisamente, encaixa-se nos abusos e atropelos aos direitos dos cidadãos.


PESADELO – Vivo no pesadelo de um dia pedir favas guisadas e me aparecer um prato com umas favas insípidas acompanhadas por chouriço, entrecosto e farinheira, tudo embrulhado individualmente em celofane com um selo da ASAE em cada um. Agora, quando estou num restaurante e vejo um tipo de bigode a olhar com cara de mau para o que está a comer, começo logo a temer que entre por ali dentro uma brigada da ASAE mascarada de tropa de choque com metralhadoras na mão.


PETISCAR – O pesadelo veio-me à ideia à hora de almoço num pacato restaurante de bairro, bem perto da sede da ASAE, enquanto comia precisamente umas favas deliciosas. Dei comigo a pensar que qualquer dia já não se consegue saborear um prato assim, que tanta uniformização e estandardização vão acabar com estes sítios. O restaurante em causa é um exemplo de bom serviço, simpatia, bom preço e honesta comidinha portuguesa. Chama-se «Manaus» e fica no nº23 da Avenida Conde de Valbom.


LER – Durante uns anos a revista «The Economist» publicava anualmente uma edição especial a que chamava «Intelligent Life», dedicada a algumas das melhores coisas da vida. A partir de agora a «Intelligent Life» passa a ter quatro edições por ano, uma por cada estação. A dedicada ao Outono de 2007 acaba de ser distribuída e está à venda na maior parte dos postos de venda onde se pode encontrar «The Economist». Há mudanças no grafismo, novas secções, novos temas e áreas por explorar. Muita informação sobre novidades na área da cultura e entretenimento, um portfolio fotográfico sobre caça, bons artigos sobre finanças pessoais e o preço da arte, incursões no mundo dos grandes cozinheiros e dos críticos de vinhos e ainda a previsão de que num futuro próximo utilizaremos leds para iluminar, melhor e mais barato, as nossas casas. Não deixa de ser engraçado que numa época em que tantos profetizam o fim da imprensa escrita, continuem a aparecer belos e ambiciosos projectos editoriais, lançados por empresas jornalísticas que não são propriamente nem inexperientes nem aventureiras.


OUVIR – A colecção de gravações organizada para celebrar os 150 anos da Steinway, a fabricante de pianos de excelência usados por alguns dos melhores pianistas de todo o mundo. São 10 CDs que recolhem gravações de diversas épocas, muito bem apresentadas e organizadas. A colecção recolhe registos inéditos, gravações nunca editadas em CD e outras actualmente fora de edição. A tocar estão nomes como Vladimir Horowitz, Claudio Arrau, Maurizio Pollini, Vladimir Ashkenazy, Mitsuko Uchida, Arturo Benedetti Michelangeli, Wilhelm Kempff, Emil Gilels, Martha Argerich e Alfred Brendel. Colecção Steinway Legends, distribuição Universal Music.



PERGUNTANDO… Alguém sabe o que aconteceu ao filme «Fados», do espanhol Carlos Saura, com estreia anunciada e falhada para vários festivais, e onde a Câmara Municipal de Lisboa investiu centenas de milhares de euros?


BACK TO BASICS – O mais importante de tudo é nunca deixar de colocar questões, Albert Einstein

setembro 06, 2007

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO



Hugo Chávez dificilmente seria uma estrela do You Tube: os seus longos discursos não encaixam nos formatos reduzidos que agradam aos espectadores do canal de vídeo para computadores. Mas a verdade é que Chávez também não precisa – quando quer vai à TV do Estado na Venezuela e fica dezenas de minutos a falar sem ser interrompido; por cá, Sócrates e seus ministros têm cada vez mais lugar garantido nos telejornais, preparam cuidadosamente os momentos em que aparecem e aquilo que vão dizer, cada vez mais sem oportunidade a perguntas ou lugar a contraditório. Na realidade o espaço mediático da oposição – nomeadamente o seu espaço no mais poderoso dos media, que é a televisão – está cada vez mais reduzido às polémicas internas de cada partido e não a questões de fundo.

A televisão, na sua forma actual, favorece objectivamente a propaganda em detrimento da informação: relatar às pessoas o que aconteceu ou o que um político pensa arrisca-se a ser monótono e desinteressante, ganha sempre uma qualquer acção bem encenada mesmo que vazia de conteúdo ou até, paradoxalmente, de novidade.

A decisão de Paulo Portas, de assinalar a rentrée política no You Tube, tem duas leituras: por um lado é claramente a tentativa de ganhar uma imagem de modernidade e de contemporaneidade tecnológica; mas, por outro, é também a constatação de que, de outra forma, não conseguiria expor o que pensa, de forma articulada, sobre cada um dos temas que abordou: os vetos presidenciais, a destruição de propriedade privada por neo-ecologistas em Silves e, finalmente, a questão do aumento das taxas de juro.

A nossa sociedade alimenta-se de paradoxos e um deles, delicioso por sinal, é que Paulo Portas se tenha estreado no You Tube na mesma semana em que o Governo andou por esse país a distribuir computadores e placas de acesso à internet por banda larga para ter mais um pretexto para aparecer na televisão. Resta a esperança de que alguns dos destinatários dos computadores o tenham usado para ver Portas no You Tube, à mesma hora em o cerimonial das ofertas era religiosamente passado no Telejornal.

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O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO



Hugo Chávez dificilmente seria uma estrela do You Tube: os seus longos discursos não encaixam nos formatos reduzidos que agradam aos espectadores do canal de vídeo para computadores. Mas a verdade é que Chávez também não precisa – quando quer vai à TV do Estado na Venezuela e fica dezenas de minutos a falar sem ser interrompido; por cá, Sócrates e seus ministros têm cada vez mais lugar garantido nos telejornais, preparam cuidadosamente os momentos em que aparecem e aquilo que vão dizer, cada vez mais sem oportunidade a perguntas ou lugar a contraditório. Na realidade o espaço mediático da oposição – nomeadamente o seu espaço no mais poderoso dos media, que é a televisão – está cada vez mais reduzido às polémicas internas de cada partido e não a questões de fundo.

A televisão, na sua forma actual, favorece objectivamente a propaganda em detrimento da informação: relatar às pessoas o que aconteceu ou o que um político pensa arrisca-se a ser monótono e desinteressante, ganha sempre uma qualquer acção bem encenada mesmo que vazia de conteúdo ou até, paradoxalmente, de novidade.

A decisão de Paulo Portas, de assinalar a rentrée política no You Tube, tem duas leituras: por um lado é claramente a tentativa de ganhar uma imagem de modernidade e de contemporaneidade tecnológica; mas, por outro, é também a constatação de que, de outra forma, não conseguiria expor o que pensa, de forma articulada, sobre cada um dos temas que abordou: os vetos presidenciais, a destruição de propriedade privada por neo-ecologistas em Silves e, finalmente, a questão do aumento das taxas de juro.

A nossa sociedade alimenta-se de paradoxos e um deles, delicioso por sinal, é que Paulo Portas se tenha estreado no You Tube na mesma semana em que o Governo andou por esse país a distribuir computadores e placas de acesso à internet por banda larga para ter mais um pretexto para aparecer na televisão. Resta a esperança de que alguns dos destinatários dos computadores o tenham usado para ver Portas no You Tube, à mesma hora em o cerimonial das ofertas era religiosamente passado no Telejornal.

setembro 02, 2007

OFERTAS – Aqui há uns anos, numas eleições autárquicas, havia candidatos que se promoviam à custa de electrodomésticos; agora é o Governo que se promove à custa de entregas de computadores. O conteúdo é diferente, mas o princípio é o mesmo.


CURIOSO – A TVE decidiu deixar de fazer transmissões directas de touradas. Mantém magazines sobre tauromaquia, mas o serviço público de televisão no país mais aficionado por toiros do mundo resolveu que deixaria as touradas para as praças de touros. Vindo de um serviço público é um exemplo curioso, não é?


ASAE – Coisas que a ASAE deve estar quase a classificar como espécies em vias de extinção: a venda de bolacha americana na praia; as simpatias de alguns restaurantes algarvios que oferecem no fim da refeição uma medronheira caseira aos clientes; peixe não congelado nem embalado, assado na brasa ao ar livre, num grelhador feito a partir de um bidon; restaurantes com bancos corridos não ergonómicos nem certificados por um qualquer burocrata europeu; tarte de alfarroba não pasteurizada nem embalada.


ROTUNDAS – Há uns anos que não andava em vai-vem pelo país e julgava que o movimento de construção de rotundas tinha abrandado. Puro engano, a rotundomania continua em grande forma, a maior parte tem ajardinados horrendos, fontes em esguincho e, alguns, peças escultóricas medonhas - os autarcas são na realidade a vanguarda responsável por pôr o país inteiro a andar aos círculos sem sair do mesmo sítio.


A MESMA LUTA – António Costa e Rui Rio mostram ter grandes semelhanças em matéria de entretenimento. Rio resolveu monopolizar os céus do Porto para uma mais que discutível corrida de aviões - na prática por cima da cidade - e ninguém acha a coisa absurda; e António Costa promove um festival de magia e ilusionismo pelas ruas da Baixa, ao mesmo tempo que se deixou cair na tentação de transformar o Terreiro do Paço numa feira de fim-de-semana. Ambos gostam mais de fogachos do que em pensar uma política de entretenimento, diversão e cultura estruturantes, mas pelo meio lá vão gastando os magros orçamentos que têm. La Feria, que se tinha albergado nos braços de Rui Rio, deve estar prestes a regressar a Lisboa, ao regaço de António Costa. Ou então divide-se por ambos: dois apoios sempre são melhores que um só – é a globalização norte-sul…


INVESTIGAR – Um dos meus géneros favoritos é o livro policial. Há uns tempos vi umas referências elogiosas a uma escritora norte-americana que não conhecia, Sara Paretsky, Foi ela a criadora da detective privada V. I. Warshawski, em cujas aventuras baseia a sua escrita, que já vai em mais de uma dúzia de títulos publicados. Pesquisando na net vi elogiosas referências a um dos títulos recentes, de 2003, «Blacklist» e resolvi encomendá-lo pela Amazon. Saiu-me uma edição de bolso da Penguin, de letra minúscula, mas que apesar desse desconforto, se lê sem parar. A escrita de Paretsky é envolvente, intimista, relatada sempre na primeira pessoa, em nome da detective Warshawski, mulher de vida complicada, algo confusa e obcecada por uma boa investigação. O que é certo é que fiquei fã de Paretsky e resta-me agora continuar a ler o resto da sua obra. O próximo é capaz de ser «Ghost Country», um não policial, descrito como « uma viagem mágica e emocionante por algumas das mais cruéis ruas de Chicago», precisamente a cidade onde a escritora vive.


DESCOBRIR – As gravações das actuações de John Coltrane no Festival de Newport em 1963 e 1965, agora pela primeira vez reunidas num CD, «My Favourite Things: Coltrane at Newport». A gravação de 1963 apresenta os três temas com que Coltrane encerrou o Festival desse ano,«I Want To Talk About You», um clássico de Billy Eckstine, o standard «My Favourite Things» da dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein e finalmente um tema do próprio Coltrane, «Impressions». Nessa noite Coltrane era acompanhado por McCoy Tyner no piano, por Jimmy Garrison no contrabaixo e por Roy Haynes na bateria. Dois anos mais tarde a banda era quase a mesma (Elvin Jones estava de regresso à bateria no quarteto de Coltrane), mas a música estava mais solta e arrojada, era o tempo em que se experimentava a «New Thing». Curioso comparar a versão deste segundo ano de «My Favorite Things» com a de dois anos antes, e muito interessante ver como Coltrane , em termos de composição e improviso, avançava no seu tema «One Down, One Up». Coltrane havia ainda de regressar a Newport um ano depois, no que foi a sua última apresentação no Festival – o músico morreu em 1967, aos 40 anos. As gravações destes dois primeiros anos de Coltrane no Newport Jazz Festival são considerados momentos altos de uma carreira meteórica. CD Impulse, Distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – É muito perigoso querer ter razão quando um Governo persiste nos erros, Voltaire.

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OFERTAS – Aqui há uns anos, numas eleições autárquicas, havia candidatos que se promoviam à custa de electrodomésticos; agora é o Governo que se promove à custa de entregas de computadores. O conteúdo é diferente, mas o princípio é o mesmo.


CURIOSO – A TVE decidiu deixar de fazer transmissões directas de touradas. Mantém magazines sobre tauromaquia, mas o serviço público de televisão no país mais aficionado por toiros do mundo resolveu que deixaria as touradas para as praças de touros. Vindo de um serviço público é um exemplo curioso, não é?


ASAE – Coisas que a ASAE deve estar quase a classificar como espécies em vias de extinção: a venda de bolacha americana na praia; as simpatias de alguns restaurantes algarvios que oferecem no fim da refeição uma medronheira caseira aos clientes; peixe não congelado nem embalado, assado na brasa ao ar livre, num grelhador feito a partir de um bidon; restaurantes com bancos corridos não ergonómicos nem certificados por um qualquer burocrata europeu; tarte de alfarroba não pasteurizada nem embalada.


ROTUNDAS – Há uns anos que não andava em vai-vem pelo país e julgava que o movimento de construção de rotundas tinha abrandado. Puro engano, a rotundomania continua em grande forma, a maior parte tem ajardinados horrendos, fontes em esguincho e, alguns, peças escultóricas medonhas - os autarcas são na realidade a vanguarda responsável por pôr o país inteiro a andar aos círculos sem sair do mesmo sítio.


A MESMA LUTA – António Costa e Rui Rio mostram ter grandes semelhanças em matéria de entretenimento. Rio resolveu monopolizar os céus do Porto para uma mais que discutível corrida de aviões - na prática por cima da cidade - e ninguém acha a coisa absurda; e António Costa promove um festival de magia e ilusionismo pelas ruas da Baixa, ao mesmo tempo que se deixou cair na tentação de transformar o Terreiro do Paço numa feira de fim-de-semana. Ambos gostam mais de fogachos do que em pensar uma política de entretenimento, diversão e cultura estruturantes, mas pelo meio lá vão gastando os magros orçamentos que têm. La Feria, que se tinha albergado nos braços de Rui Rio, deve estar prestes a regressar a Lisboa, ao regaço de António Costa. Ou então divide-se por ambos: dois apoios sempre são melhores que um só – é a globalização norte-sul…


INVESTIGAR – Um dos meus géneros favoritos é o livro policial. Há uns tempos vi umas referências elogiosas a uma escritora norte-americana que não conhecia, Sara Paretsky, Foi ela a criadora da detective privada V. I. Warshawski, em cujas aventuras baseia a sua escrita, que já vai em mais de uma dúzia de títulos publicados. Pesquisando na net vi elogiosas referências a um dos títulos recentes, de 2003, «Blacklist» e resolvi encomendá-lo pela Amazon. Saiu-me uma edição de bolso da Penguin, de letra minúscula, mas que apesar desse desconforto, se lê sem parar. A escrita de Paretsky é envolvente, intimista, relatada sempre na primeira pessoa, em nome da detective Warshawski, mulher de vida complicada, algo confusa e obcecada por uma boa investigação. O que é certo é que fiquei fã de Paretsky e resta-me agora continuar a ler o resto da sua obra. O próximo é capaz de ser «Ghost Country», um não policial, descrito como « uma viagem mágica e emocionante por algumas das mais cruéis ruas de Chicago», precisamente a cidade onde a escritora vive.


DESCOBRIR – As gravações das actuações de John Coltrane no Festival de Newport em 1963 e 1965, agora pela primeira vez reunidas num CD, «My Favourite Things: Coltrane at Newport». A gravação de 1963 apresenta os três temas com que Coltrane encerrou o Festival desse ano,«I Want To Talk About You», um clássico de Billy Eckstine, o standard «My Favourite Things» da dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein e finalmente um tema do próprio Coltrane, «Impressions». Nessa noite Coltrane era acompanhado por McCoy Tyner no piano, por Jimmy Garrison no contrabaixo e por Roy Haynes na bateria. Dois anos mais tarde a banda era quase a mesma (Elvin Jones estava de regresso à bateria no quarteto de Coltrane), mas a música estava mais solta e arrojada, era o tempo em que se experimentava a «New Thing». Curioso comparar a versão deste segundo ano de «My Favorite Things» com a de dois anos antes, e muito interessante ver como Coltrane , em termos de composição e improviso, avançava no seu tema «One Down, One Up». Coltrane havia ainda de regressar a Newport um ano depois, no que foi a sua última apresentação no Festival – o músico morreu em 1967, aos 40 anos. As gravações destes dois primeiros anos de Coltrane no Newport Jazz Festival são considerados momentos altos de uma carreira meteórica. CD Impulse, Distribuição Universal Music.


BACK TO BASICS – É muito perigoso querer ter razão quando um Governo persiste nos erros, Voltaire.

agosto 29, 2007

TELEVISÃO – Se fosse ao Dr. Balsemão ficaria preocupado com os resultados de audiências mais recentes da SIC e furioso com a RTP, que continua em guerra aberta pelo segundo lugar na preferência dos telespectadores. É uma guerra de significado político claro, actualmente o telejornal da SIC já fica praticamente sempre em terceiro lugar e a perca de influência informativa em relação à estação financiada pelo Estado é cada vez mais evidente.


ERC – Os relatórios da ERC parecem-se cada vez mais com tentativas de branquear a acção do Governo nas relações com a Comunicação Social. A recente sugestão da criação de um conjunto de normas para regulamentar a relação dos assessores governamentais com os jornalistas é absolutamente sintomática do delírio reinante: o trabalho dos assessores de imprensa dos políticos é tentar evitar que surjam notícias desfavoráveis, procurar publicitar factos agradáveis e acima de tudo evitar as verdades incómodas. Querer regulamentar esta linha de acção é por junto institucionalizar a manipulação como parte do processo informativo. Simplesmente lamentável.


PSD – Quando um partido político tem de escolher entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, é muito mau sinal; é uma escolha entre uma pessoa estimável mas sem chama e um autêntico lança chamas cujo combustível é o populismo. A situação da direita e do centro direita assemelha-se a uma piscina a que abriram o ralo – anda num remoinho, mas fica cada vez mais vazia.


PROCURA – Suscitou muita procura e pedido de informação à referência ao mais recente número da «Monocle», aqui feita na semana passada. Vários quadrantes da autarquia perguntaram onde a poderiam obter. Folgo em saber que se interessam pelo tema das políticas para as cidades. A «Monocle» é uma revista fundada por Tyler Brûlé (o homem que também criou a «Wallpaper» e agora escreve aos sábados no International Herald Tribune) e esta sua nova publicação está cada vez melhor.


LISBOA – Eu acho que uma das áreas onde os escritos da «Monocle» sobre as cidades têm mais relevância é na vida cultural e na oferta de entretenimento que existe nas urbes. Aguarda-se que o novo executivo camarário dê algum sinal sobre o que nessa área tenciona fazer – tanto mais que o programa eleitoral de António Costa nesta matéria era de uma pobreza franciscana, limitando-se a meia dúzia de lugares comuns e com muito pouca correspondência com o que já é a realidade de Lisboa e a relação que deve manter com as instituições nacionais existentes na cidade. A este propósito foi sintomático o silêncio, quer do Presidente da Câmara, quer da sua vereadora da Cultura, em relação ao caso do afastamento da Directora do Museu Nacional de Arte Antiga. Submissão à política governamental ou falta de interesse ou/e conhecimento sobre o assunto?


LER – Gosto de livros de espionagem e um dos mais deliciosos que me lembro de ler foi devorado nestes últimos dias. Chama-se «O Correspondente» e relata as peripécias de um grupo de refugiados italianos que tentam combater Mussolini a partir de Paris, em vésperas do início da II Grande Guerra. É a história das tensões entre as diplomacias e as suas extensões nos serviços secretos do Reino Unido, França, Itália e Alemanha. O seu autor, Alan Furst, escreveu oito novelas de espionagem antes desta – porventura a que se tornou mais conhecida – e vê-se que domina o género. A forma da sua escrita combina a acção com a emoção, um estilo que por vezes corre mal mas que neste «O Correspondente» resulta da melhor forma.


BEBIDA – Embora este verão não esteja a ser muito quente, daqui saúdo a mais recente guerra das cervejas, em torno do formato «mini». A mini é uma garrafa de 20 cl, ou seja mais ou menos o mesmo que uma imperial. Este ano a Sagres convidou uma série de designers a refazerem as suas garrafas numa edição limitada com muita graça e lançou a Bohemia mini e a Super-Bock voltou a atacar no formato reduzido. Parece que as minis são sobretudo populares abaixo do Tejo e que a Sagres tem sido líder no segmento. O esforço da Super Bock para entrar no reino das minis é bem vindo. Eu gosto das minis, é um formato que apela a ser bebido directamente da garrafa, sem aquecer no transbordo para um copo. Direitinhas do frigorífico as minis são uma das boas coisas deste nosso Portugal.


OUVIR – Nestas férias uma presença constante tem sido uma recente edição dos quartetos para cordas de Brahms (e do quinteto para cordas e piano), gravadas por ocasião do 30º aniversário do Emerson String Quartet , aqui, no quinteto, com a participação do pianista Leon Fleisher. CD duplo Deutsche Grammophon.


BACK TO BASICS – Os politicos contam mentiras aos jornalistas e depois acreditam no que lêem (Alan Furst, adaptado, retirado de «O Correspondente»).

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TELEVISÃO – Se fosse ao Dr. Balsemão ficaria preocupado com os resultados de audiências mais recentes da SIC e furioso com a RTP, que continua em guerra aberta pelo segundo lugar na preferência dos telespectadores. É uma guerra de significado político claro, actualmente o telejornal da SIC já fica praticamente sempre em terceiro lugar e a perca de influência informativa em relação à estação financiada pelo Estado é cada vez mais evidente.


ERC – Os relatórios da ERC parecem-se cada vez mais com tentativas de branquear a acção do Governo nas relações com a Comunicação Social. A recente sugestão da criação de um conjunto de normas para regulamentar a relação dos assessores governamentais com os jornalistas é absolutamente sintomática do delírio reinante: o trabalho dos assessores de imprensa dos políticos é tentar evitar que surjam notícias desfavoráveis, procurar publicitar factos agradáveis e acima de tudo evitar as verdades incómodas. Querer regulamentar esta linha de acção é por junto institucionalizar a manipulação como parte do processo informativo. Simplesmente lamentável.


PSD – Quando um partido político tem de escolher entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, é muito mau sinal; é uma escolha entre uma pessoa estimável mas sem chama e um autêntico lança chamas cujo combustível é o populismo. A situação da direita e do centro direita assemelha-se a uma piscina a que abriram o ralo – anda num remoinho, mas fica cada vez mais vazia.


PROCURA – Suscitou muita procura e pedido de informação à referência ao mais recente número da «Monocle», aqui feita na semana passada. Vários quadrantes da autarquia perguntaram onde a poderiam obter. Folgo em saber que se interessam pelo tema das políticas para as cidades. A «Monocle» é uma revista fundada por Tyler Brûlé (o homem que também criou a «Wallpaper» e agora escreve aos sábados no International Herald Tribune) e esta sua nova publicação está cada vez melhor.


LISBOA – Eu acho que uma das áreas onde os escritos da «Monocle» sobre as cidades têm mais relevância é na vida cultural e na oferta de entretenimento que existe nas urbes. Aguarda-se que o novo executivo camarário dê algum sinal sobre o que nessa área tenciona fazer – tanto mais que o programa eleitoral de António Costa nesta matéria era de uma pobreza franciscana, limitando-se a meia dúzia de lugares comuns e com muito pouca correspondência com o que já é a realidade de Lisboa e a relação que deve manter com as instituições nacionais existentes na cidade. A este propósito foi sintomático o silêncio, quer do Presidente da Câmara, quer da sua vereadora da Cultura, em relação ao caso do afastamento da Directora do Museu Nacional de Arte Antiga. Submissão à política governamental ou falta de interesse ou/e conhecimento sobre o assunto?


LER – Gosto de livros de espionagem e um dos mais deliciosos que me lembro de ler foi devorado nestes últimos dias. Chama-se «O Correspondente» e relata as peripécias de um grupo de refugiados italianos que tentam combater Mussolini a partir de Paris, em vésperas do início da II Grande Guerra. É a história das tensões entre as diplomacias e as suas extensões nos serviços secretos do Reino Unido, França, Itália e Alemanha. O seu autor, Alan Furst, escreveu oito novelas de espionagem antes desta – porventura a que se tornou mais conhecida – e vê-se que domina o género. A forma da sua escrita combina a acção com a emoção, um estilo que por vezes corre mal mas que neste «O Correspondente» resulta da melhor forma.


BEBIDA – Embora este verão não esteja a ser muito quente, daqui saúdo a mais recente guerra das cervejas, em torno do formato «mini». A mini é uma garrafa de 20 cl, ou seja mais ou menos o mesmo que uma imperial. Este ano a Sagres convidou uma série de designers a refazerem as suas garrafas numa edição limitada com muita graça e lançou a Bohemia mini e a Super-Bock voltou a atacar no formato reduzido. Parece que as minis são sobretudo populares abaixo do Tejo e que a Sagres tem sido líder no segmento. O esforço da Super Bock para entrar no reino das minis é bem vindo. Eu gosto das minis, é um formato que apela a ser bebido directamente da garrafa, sem aquecer no transbordo para um copo. Direitinhas do frigorífico as minis são uma das boas coisas deste nosso Portugal.


OUVIR – Nestas férias uma presença constante tem sido uma recente edição dos quartetos para cordas de Brahms (e do quinteto para cordas e piano), gravadas por ocasião do 30º aniversário do Emerson String Quartet , aqui, no quinteto, com a participação do pianista Leon Fleisher. CD duplo Deutsche Grammophon.


BACK TO BASICS – Os politicos contam mentiras aos jornalistas e depois acreditam no que lêem (Alan Furst, adaptado, retirado de «O Correspondente»).

agosto 22, 2007

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ANTÓNIO COSTA – O novo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa fazia bem em ler a edição de Julho/Agosto da revista «Monocle», que elaborou uma lista das 20 melhores cidades do mundo para se viver, explicando o porquê da escolha. Lisboa, infelizmente, não está na lista – mas Madrid está, assim como Barcelona. Esta edição inclui ainda artigos sobre estratégias urbanas e uma análise dos pontos críticos que determinam a qualidade de vida numa cidade. Existem cinco recomendações que saliento: trazer pequenas indústrias não poluentes e tecnológicas, ateliers e oficinas para o centro das cidades; garantir que as metrópoles tenham vida ao longo de todas as 24 horas do dia; nomear um director criativo com uma forte visão, que possa criar uma marca própria para cada cidade – e a «Monocle» sublinha que o director criativo responsável por desenvolver a marca da cidade NÃO pode ser o respectivo Presidente de Câmara; garantir espaço exterior – todos os novos edifícios devem oferecer espaço exterior aos seus habitantes, sob a forma de varandas, pátios e terraços no tecto; um esforço forte em criar pequenas aldeias dentro das metrópoles, por forma a dinamizar o sentido de comunidade, fazer desenvolver o pequeno comércio e incentivar as deslocações pedestres.


RECOMENDAÇÕES – A mesma edição da «Monocle» estabelece, em cada uma das 20 cidades recomendadas, uma análise dos principais parâmetros das respectivas avaliações com base em indicadores concretos – dos espaços verdes à segurança, passando pela vida nocturna e oferta cultural. Vale a pena notar que este ano, desde Maio, pela primeira vez na História da humanidade, a população que vive nas cidades passou a ser mais numerosa do que a que vive nos campos. Esta transformação, esta «urbanização» do mundo, coloca problemas e questões e a «Monocle» estuda o tema com seriedade. Um artigo a ler vem assinado por Charles Landry, o director da firma de consultores «Comedia», que se dedica à estratégia de desenvolvimento urbano e foi um dos precursores da ideia das cidades criativas. O seu livro mais recente chama-se «The Art Of City Making» e o tema do seu artigo é «Como construir uma metrópole». Se eu estivesse no governo de uma cidade googlava o seu nome e instruía-me um pouco. Por fim destaco ainda nesta edição o inventário das coisas que devem existir num bairro e os 25 items que podem fazer toda a diferença numa cidade, desde a ligação ao aeroporto até às estações de caminho de ferro, passando pelos wi-fi hot spots.


OUVIR – No início dos anos 80 um dos meus grupos preferidos era um trio que dava pelo nome de Young Marble Giants. Originários de Cardiff, os Young Marble Giants giravam em torno dos irmãos Philip e Stuart Moxham, que asseguravam baixo, guitarra ritmo e orgão electrónico. Alison Statton cantava de uma forma suave e sensível, perfeitamente adequada às composições lineares e envolventes de Stuart. Desde cedo o trio passou a ser acompanhado em teclados, caixas de ritmos e electrónica diversa por Peter Joyce. A carreira da banda começou em 1978 mas o seu disco histórico, «Colossal Youth» é de 1980 (primeira edição ainda em vinyl) e é um marco na música dessa década. Os Young Marble Giants, recordo, eram uma das bandas referência da Rough Trade, uma das históricas editoras independentes que moldaram o som desses tempos. Por iniciativa de uma outra editora independente, contemporânea, a Domino, este ano foi editada uma caixa de três CD’s que inclui o álbum «Colossal Youth», um CD que agrupa o EP «Testcard», o single «Final Day» e registos da gravação do álbum «Salad Days». O terceiro CD da caixa reproduz a actuação da banda no programa de rádio do histórico DJ da BBC John Peel, gravado em Agosto de 1980. A melhor maneira de adquirir a caixa é através da Amazon do Reino Unido.


COMER – Quando lhe apetecer comida italiana, ambiente calmo e uma boa esplanada experimente o Specchio, em Alcântara. A lista é extensa e variada, desde as pizzas aos risottos e massas frescas. O serviço é atento, eficaz, simpático e rápido, uma verdadeira raridade nos tempos que correm. Nas entradas destaco umas gambas salteadas em vinho branco de Puglia e o carpaccio do chefe, muito bem temperado. Na zona mais substancial a mesa decidiu-se por várias pizzas, massa fina e estaladiça, cobertura sem exageros de queijo, todas confeccionadas com cuidado. O Specchio fica no interior do complexo Alcântara Rio, Rua Fradesso da Silveira nº4, Loja 7, tel 213 621 677.



BACK TO BASICS – Todas as actividades podem ser criativas quando quem as faz se esforça por as fazer cada vez melhor – John Updike.
ANTÓNIO COSTA – O novo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa fazia bem em ler a edição de Julho/Agosto da revista «Monocle», que elaborou uma lista das 20 melhores cidades do mundo para se viver, explicando o porquê da escolha. Lisboa, infelizmente, não está na lista – mas Madrid está, assim como Barcelona. Esta edição inclui ainda artigos sobre estratégias urbanas e uma análise dos pontos críticos que determinam a qualidade de vida numa cidade. Existem cinco recomendações que saliento: trazer pequenas indústrias não poluentes e tecnológicas, ateliers e oficinas para o centro das cidades; garantir que as metrópoles tenham vida ao longo de todas as 24 horas do dia; nomear um director criativo com uma forte visão, que possa criar uma marca própria para cada cidade – e a «Monocle» sublinha que o director criativo responsável por desenvolver a marca da cidade NÃO pode ser o respectivo Presidente de Câmara; garantir espaço exterior – todos os novos edifícios devem oferecer espaço exterior aos seus habitantes, sob a forma de varandas, pátios e terraços no tecto; um esforço forte em criar pequenas aldeias dentro das metrópoles, por forma a dinamizar o sentido de comunidade, fazer desenvolver o pequeno comércio e incentivar as deslocações pedestres.


RECOMENDAÇÕES – A mesma edição da «Monocle» estabelece, em cada uma das 20 cidades recomendadas, uma análise dos principais parâmetros das respectivas avaliações com base em indicadores concretos – dos espaços verdes à segurança, passando pela vida nocturna e oferta cultural. Vale a pena notar que este ano, desde Maio, pela primeira vez na História da humanidade, a população que vive nas cidades passou a ser mais numerosa do que a que vive nos campos. Esta transformação, esta «urbanização» do mundo, coloca problemas e questões e a «Monocle» estuda o tema com seriedade. Um artigo a ler vem assinado por Charles Landry, o director da firma de consultores «Comedia», que se dedica à estratégia de desenvolvimento urbano e foi um dos precursores da ideia das cidades criativas. O seu livro mais recente chama-se «The Art Of City Making» e o tema do seu artigo é «Como construir uma metrópole». Se eu estivesse no governo de uma cidade googlava o seu nome e instruía-me um pouco. Por fim destaco ainda nesta edição o inventário das coisas que devem existir num bairro e os 25 items que podem fazer toda a diferença numa cidade, desde a ligação ao aeroporto até às estações de caminho de ferro, passando pelos wi-fi hot spots.


OUVIR – No início dos anos 80 um dos meus grupos preferidos era um trio que dava pelo nome de Young Marble Giants. Originários de Cardiff, os Young Marble Giants giravam em torno dos irmãos Philip e Stuart Moxham, que asseguravam baixo, guitarra ritmo e orgão electrónico. Alison Statton cantava de uma forma suave e sensível, perfeitamente adequada às composições lineares e envolventes de Stuart. Desde cedo o trio passou a ser acompanhado em teclados, caixas de ritmos e electrónica diversa por Peter Joyce. A carreira da banda começou em 1978 mas o seu disco histórico, «Colossal Youth» é de 1980 (primeira edição ainda em vinyl) e é um marco na música dessa década. Os Young Marble Giants, recordo, eram uma das bandas referência da Rough Trade, uma das históricas editoras independentes que moldaram o som desses tempos. Por iniciativa de uma outra editora independente, contemporânea, a Domino, este ano foi editada uma caixa de três CD’s que inclui o álbum «Colossal Youth», um CD que agrupa o EP «Testcard», o single «Final Day» e registos da gravação do álbum «Salad Days». O terceiro CD da caixa reproduz a actuação da banda no programa de rádio do histórico DJ da BBC John Peel, gravado em Agosto de 1980. A melhor maneira de adquirir a caixa é através da Amazon do Reino Unido.


COMER – Quando lhe apetecer comida italiana, ambiente calmo e uma boa esplanada experimente o Specchio, em Alcântara. A lista é extensa e variada, desde as pizzas aos risottos e massas frescas. O serviço é atento, eficaz, simpático e rápido, uma verdadeira raridade nos tempos que correm. Nas entradas destaco umas gambas salteadas em vinho branco de Puglia e o carpaccio do chefe, muito bem temperado. Na zona mais substancial a mesa decidiu-se por várias pizzas, massa fina e estaladiça, cobertura sem exageros de queijo, todas confeccionadas com cuidado. O Specchio fica no interior do complexo Alcântara Rio, Rua Fradesso da Silveira nº4, Loja 7, tel 213 621 677.



BACK TO BASICS – Todas as actividades podem ser criativas quando quem as faz se esforça por as fazer cada vez melhor – John Updike.

agosto 13, 2007

(Publicado na Revista «Atlântico» de Agosto - ~já diponível nas bancas e boas papelarias)


CONTAGEM DECRESCENTE
O Verão é a silly season da televisão. As boas séries estão em época de defeso, os gestores dos canais estão a poupar no investimento – para depois, a partir de Setembro, poderem ter orçamento para atacar em força o fim do ano, a época mais importante para a captação de publicidade e para garantir boas receitas – é que, regra geral, nos canais abertos, o preço objectivo da publicidade depende das audiências conseguidas - portanto toca a guardar os programas que consigam captar público para quando há tradicionalmente mais espaço publicitário vendido em ecrã, e que são os últimos quatro meses do ano.
Se lerem as revistas de televisão notarão que nesta altura do ano elas estão cheias de artigos sobre novas produções em preparação – exactamente para estreia a partir de Setembro. Enquanto para os espectadores o Verão é época de maçadas em matéria de programação (filmes repetidos, infindáveis transmissões directas por dá cá aquela palha, etc, etc), para o universo da indústria audiovisual está é uma época alta em que toda a gente trabalha.
O objectivo, já se sabe, resume-se a garantir produção que consiga reter os espectadores no prime-time, o horário entre as 20h00 e as 24h00 que é o mais disputado em termos de audiências. É obviamente aí que o valor da publicidade é mais alto, é nessas horas que se concentra o maior número de espectadores e é aí que se perdem ou ganham as batalhas das audiências e a rentabilidade das estações provadas. Se pensarmos que dessas quatro horas, uma (pelo menos) é dedicada à informação, cada programador terá que encontrar três horas diárias de programa que tenham argumentos fortes para captar e fidelizar espectadores. Acreditem que não é tarefa fácil e exige muita planificação e criatividade.
Na realidade a batalha começa a desencadear-se por volta das sete da tarde – no chamado «acesso a prime time», cujo único objectivo é conseguir captar um número bom de espectadores antes do sinal das oito – quando começam os telejornais. A estratégia de qualquer programador é entregar a antena com o share o mais elevado possível ao Director de Informação e, depois, esperar que ele cumpra a sua função – que é sobretudo a de trazer ainda mais espectadores à antena. Por isso é que os telejornais têm uma hora, estão cheios de «faits-divers» e se tabloidizaram nos últimos anos: o bloco noticioso das oito é uma peça importante da guerra das audiências, quer dizer, das receitas publicitárias. Se num canal privado isto é lógico e natural, na televisão pública não devia ser. Mas, como todos sabemos, as coisas não são diferentes na RTP. Só isto dava muito que pensar sobre a definição de serviço público…

ADORMECIDOS NO SOFÁ
O prime-time das televisões portuguesas anda tão monótono e repetitivo que a coisa mais difícil é conseguir passar uma noite acordado a olhar televisão qualquer dia, por este andar, o melhor é mudar o título desta página para «adormecidos no sofá»…
Ora não há-de ser por acaso que o consumo de canais de cabo continua a aumentar em prime time – o que entre outras coisas mostra como a ideia estabelecida de que não se justifica fazer um quarto canal aberto tem muito que se lhe diga. Há espectadores que querem o que os actuais três canais não dão – resumidos que estão a apresentarem programações miméticas e com uma assumida falta de vontade de serem alternativa uns aos outros.
Cada vez que me sento à noite para ver televisão, passo mais tempo a zappar do que a ver um programa – sobretudo nesta altura em que até dos canais de cabo desapareceram as boas séries e estamos reduzidos a repetições. A única coisa que resta são mesmo alguns canais de documentários ou então ir a correr buscar um filme e poder ficar a vê-lo sem intermináveis intervalos publicitários.

500 CANAIS
Um dos operadores norte-americanos de cabo, a Cablevision, anunciou que até final do corrente ano terá capacidade para distribuir em simultâneo mais de 500 canais de alta definição (HD), através da sua moderna e avançada rede de fibra óptica. Em simultâneo a Cablevision é o único operador a proporcionar aos seus clientes vídeo-on-demand em alta definição.
De entre os canais HD já disponíveis fazem parte canais de informação, desporto, documentários, cinema, animação, concertos ao vivo, moda e jogos de computador.
A transmissão de televisão de alta definição é uma das tendências actuais em que os analistas da indústria depositam mais esperanças, mas exige uma rede de distribuição tecnologicamente avançada – coisa para pôr muita cabecinha a pensar em relação ao que se passa na PT Multimédia, onde a rede da TV Cabo é maioritariamente arcaica e com os problemas que os utilizadores bem lhe conhecem.

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(Publicado na Revista «Atlântico» de Agosto - ~já diponível nas bancas e boas papelarias)


CONTAGEM DECRESCENTE
O Verão é a silly season da televisão. As boas séries estão em época de defeso, os gestores dos canais estão a poupar no investimento – para depois, a partir de Setembro, poderem ter orçamento para atacar em força o fim do ano, a época mais importante para a captação de publicidade e para garantir boas receitas – é que, regra geral, nos canais abertos, o preço objectivo da publicidade depende das audiências conseguidas - portanto toca a guardar os programas que consigam captar público para quando há tradicionalmente mais espaço publicitário vendido em ecrã, e que são os últimos quatro meses do ano.
Se lerem as revistas de televisão notarão que nesta altura do ano elas estão cheias de artigos sobre novas produções em preparação – exactamente para estreia a partir de Setembro. Enquanto para os espectadores o Verão é época de maçadas em matéria de programação (filmes repetidos, infindáveis transmissões directas por dá cá aquela palha, etc, etc), para o universo da indústria audiovisual está é uma época alta em que toda a gente trabalha.
O objectivo, já se sabe, resume-se a garantir produção que consiga reter os espectadores no prime-time, o horário entre as 20h00 e as 24h00 que é o mais disputado em termos de audiências. É obviamente aí que o valor da publicidade é mais alto, é nessas horas que se concentra o maior número de espectadores e é aí que se perdem ou ganham as batalhas das audiências e a rentabilidade das estações provadas. Se pensarmos que dessas quatro horas, uma (pelo menos) é dedicada à informação, cada programador terá que encontrar três horas diárias de programa que tenham argumentos fortes para captar e fidelizar espectadores. Acreditem que não é tarefa fácil e exige muita planificação e criatividade.
Na realidade a batalha começa a desencadear-se por volta das sete da tarde – no chamado «acesso a prime time», cujo único objectivo é conseguir captar um número bom de espectadores antes do sinal das oito – quando começam os telejornais. A estratégia de qualquer programador é entregar a antena com o share o mais elevado possível ao Director de Informação e, depois, esperar que ele cumpra a sua função – que é sobretudo a de trazer ainda mais espectadores à antena. Por isso é que os telejornais têm uma hora, estão cheios de «faits-divers» e se tabloidizaram nos últimos anos: o bloco noticioso das oito é uma peça importante da guerra das audiências, quer dizer, das receitas publicitárias. Se num canal privado isto é lógico e natural, na televisão pública não devia ser. Mas, como todos sabemos, as coisas não são diferentes na RTP. Só isto dava muito que pensar sobre a definição de serviço público…

ADORMECIDOS NO SOFÁ
O prime-time das televisões portuguesas anda tão monótono e repetitivo que a coisa mais difícil é conseguir passar uma noite acordado a olhar televisão qualquer dia, por este andar, o melhor é mudar o título desta página para «adormecidos no sofá»…
Ora não há-de ser por acaso que o consumo de canais de cabo continua a aumentar em prime time – o que entre outras coisas mostra como a ideia estabelecida de que não se justifica fazer um quarto canal aberto tem muito que se lhe diga. Há espectadores que querem o que os actuais três canais não dão – resumidos que estão a apresentarem programações miméticas e com uma assumida falta de vontade de serem alternativa uns aos outros.
Cada vez que me sento à noite para ver televisão, passo mais tempo a zappar do que a ver um programa – sobretudo nesta altura em que até dos canais de cabo desapareceram as boas séries e estamos reduzidos a repetições. A única coisa que resta são mesmo alguns canais de documentários ou então ir a correr buscar um filme e poder ficar a vê-lo sem intermináveis intervalos publicitários.

500 CANAIS
Um dos operadores norte-americanos de cabo, a Cablevision, anunciou que até final do corrente ano terá capacidade para distribuir em simultâneo mais de 500 canais de alta definição (HD), através da sua moderna e avançada rede de fibra óptica. Em simultâneo a Cablevision é o único operador a proporcionar aos seus clientes vídeo-on-demand em alta definição.
De entre os canais HD já disponíveis fazem parte canais de informação, desporto, documentários, cinema, animação, concertos ao vivo, moda e jogos de computador.
A transmissão de televisão de alta definição é uma das tendências actuais em que os analistas da indústria depositam mais esperanças, mas exige uma rede de distribuição tecnologicamente avançada – coisa para pôr muita cabecinha a pensar em relação ao que se passa na PT Multimédia, onde a rede da TV Cabo é maioritariamente arcaica e com os problemas que os utilizadores bem lhe conhecem.
TELEVISÃO – Esta semana fiz uma análise curiosa: no primeiro trimestre a RTP 1 teve 25,2% de share médio de audiência, a SIC ficou pouco à frente com 25,8% e a TVI continuou a liderar, embora por uma margem escassa, com 28,7%. Mas de Abril para cá a coisa mudou: neste novo período (contas feitas até 6 de Agosto) a RTP 1 caíu para 24,1%, a SIC apesar do investimento em programação caíu também para 25,4% e a TVI foi a única a subir, para 29,1%. Deve haver gente por aí com uma pequena crise de nervos: José Eduardo Moniz, no período mais importante em termos de receitas publicitárias da primeira metade do ano, conseguiu roubar espectadores aos outros dois canais comerciais.


JUDICIÁRIA – Há qualquer coisa que não bate certo na actuação da Polícia Judiciária – não é de agora, é de há muitos anos. A Judiciária preocupa-se mais com a sua imagem do que em descobrir a verdade, preocupa-se mais em aparentar apresentar «resultados» do que em fazer um trabalho sério de investigação. Esta semana, com alguma pompa , surgiram notícias sobre corrupção naquela força – só os ingénuos acharão que ela não existia. Para quem observa o que se passa no país, a Polícia Judiciária surge como um território de manobras, um local de disputas de poder e de influência, um local receptivo a pressões e manobras, até mesmo venais. Mas, verdadeiramente, não parece ser uma polícia de investigação séria.



FOTOGRAFIA – A exposição «Entrar na Obra, Estar no Mundo: a fotografia na Colecção da Fundação de Serralves», que vai estar patente até 14 de Outubro, mostra pela primeira vez um lado pouco divulgado da colecção de Serralves, em que a fotografia é utilizada como suporte do processo criativo. A mostra inclui artistas portugueses como Paulo Nozolino, Fernando Calhau, Augusto Alves da Silva, Jorge Molder e Helena Almeida e internacionais como John Baldessari, Sigmar Rilke, Jan Dibbets e Roni Horne, entre outros.


VER – A «Slate» foi a primeira revista exclusivamente on-line. Tem evoluído ao longo dos anos e há pouco tempo «abriu» um videomagazine chamado Slate V, que pode ser visto em www.slatev.com . Lá poderão encontrar uns anúncios a sabonetes (sim, anúncios a sabonetes), realizados por Ingmar Bergman - imperdível. Igualmente imperdíveis são os três trailers de apresentação do filme dos Simpsons que se podem visionar no YouTube, bastando procurar «Simpson Trailer». Já agora fiquem a saber uma coisa: o filme é mesmo divertidíssimo.


OUVIR - Os Taraf de Haidouks são um grupo de músicos ciganos, originários da Roménia, que tocam de uma forma arrebatada. Aqui há uns anos encantei-me pelo seu estilo quando tive oportunidade de os ouvir ao vivo em Portugal e de estar ligado a um documentário sobre a sua carreira, feito por Luciana Fina. O novo disco dos Taraf é um surpreendente exercício que conjuga o rigor e o virtuosismo da interpretação instrumental com a espontaneidade da música cigana. «Maskarada», o novo CD dos Taraf, inclui interpretações de temas como «Danza Ritual del Fuego» de Manuel de Falla, «Waltz From Masquerade» de Khachaturian, «Danças Romenas» de Bela Bartok, além de vários originais do grupo. Edição Crammed, disponível no Corte Inglês e na FNAC.


JAPA – Pessoa que muito estimo costuma dizer, a propósito de alguns restaurantes, que «quem não tem competência não se devia estabelecer». Pois este singelo e verdadeiro pensamento aplica-se que nem uma luva a quem dirige o restaurante Japa, na Praça de Touros do Campo Pequeno. É certo, dirão, que quem vai a uma praça de touros para comer sujeita-se às ocorrências. É verdade, mas enganado por alguns elogiadores profissionais senti-me tentado a experimentar este japonês. A comida é sem história, é do género japonês industrial, mas não é esse o grande problema do local. O grande problema é o péssimo serviço, a desorganização completa, a absoluta falta de formação e arrogância dos empregados, a falta de direcção na sala, o descuido pelos pedidos dos clientes. O mais espantoso é que a sala não é muito grande e tem uns seis ou sete empregados mais uma criatura mascarada de chefe de sala. Cada um corre para seu lado, parece um bando de zombies, a desorganização é absoluta. Alguém devia explicar às criaturas que resolvem abrir um restaurante – ainda por cima com pretensão de ser um local agradável e que quer estar na moda – que a comida é importante mas não é tudo. Num restaurante, o serviço é tão importante como a comida. Na verdade este Japa não é um restaurante, é um teste à paciência de quem lá vai. A evitar absolutamente.


BACK TO BASICS – Uma secretária é um sítio particularmente perigoso para daí se observar o mundo – John Le Carré.

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TELEVISÃO – Esta semana fiz uma análise curiosa: no primeiro trimestre a RTP 1 teve 25,2% de share médio de audiência, a SIC ficou pouco à frente com 25,8% e a TVI continuou a liderar, embora por uma margem escassa, com 28,7%. Mas de Abril para cá a coisa mudou: neste novo período (contas feitas até 6 de Agosto) a RTP 1 caíu para 24,1%, a SIC apesar do investimento em programação caíu também para 25,4% e a TVI foi a única a subir, para 29,1%. Deve haver gente por aí com uma pequena crise de nervos: José Eduardo Moniz, no período mais importante em termos de receitas publicitárias da primeira metade do ano, conseguiu roubar espectadores aos outros dois canais comerciais.


JUDICIÁRIA – Há qualquer coisa que não bate certo na actuação da Polícia Judiciária – não é de agora, é de há muitos anos. A Judiciária preocupa-se mais com a sua imagem do que em descobrir a verdade, preocupa-se mais em aparentar apresentar «resultados» do que em fazer um trabalho sério de investigação. Esta semana, com alguma pompa , surgiram notícias sobre corrupção naquela força – só os ingénuos acharão que ela não existia. Para quem observa o que se passa no país, a Polícia Judiciária surge como um território de manobras, um local de disputas de poder e de influência, um local receptivo a pressões e manobras, até mesmo venais. Mas, verdadeiramente, não parece ser uma polícia de investigação séria.



FOTOGRAFIA – A exposição «Entrar na Obra, Estar no Mundo: a fotografia na Colecção da Fundação de Serralves», que vai estar patente até 14 de Outubro, mostra pela primeira vez um lado pouco divulgado da colecção de Serralves, em que a fotografia é utilizada como suporte do processo criativo. A mostra inclui artistas portugueses como Paulo Nozolino, Fernando Calhau, Augusto Alves da Silva, Jorge Molder e Helena Almeida e internacionais como John Baldessari, Sigmar Rilke, Jan Dibbets e Roni Horne, entre outros.


VER – A «Slate» foi a primeira revista exclusivamente on-line. Tem evoluído ao longo dos anos e há pouco tempo «abriu» um videomagazine chamado Slate V, que pode ser visto em www.slatev.com . Lá poderão encontrar uns anúncios a sabonetes (sim, anúncios a sabonetes), realizados por Ingmar Bergman - imperdível. Igualmente imperdíveis são os três trailers de apresentação do filme dos Simpsons que se podem visionar no YouTube, bastando procurar «Simpson Trailer». Já agora fiquem a saber uma coisa: o filme é mesmo divertidíssimo.


OUVIR - Os Taraf de Haidouks são um grupo de músicos ciganos, originários da Roménia, que tocam de uma forma arrebatada. Aqui há uns anos encantei-me pelo seu estilo quando tive oportunidade de os ouvir ao vivo em Portugal e de estar ligado a um documentário sobre a sua carreira, feito por Luciana Fina. O novo disco dos Taraf é um surpreendente exercício que conjuga o rigor e o virtuosismo da interpretação instrumental com a espontaneidade da música cigana. «Maskarada», o novo CD dos Taraf, inclui interpretações de temas como «Danza Ritual del Fuego» de Manuel de Falla, «Waltz From Masquerade» de Khachaturian, «Danças Romenas» de Bela Bartok, além de vários originais do grupo. Edição Crammed, disponível no Corte Inglês e na FNAC.


JAPA – Pessoa que muito estimo costuma dizer, a propósito de alguns restaurantes, que «quem não tem competência não se devia estabelecer». Pois este singelo e verdadeiro pensamento aplica-se que nem uma luva a quem dirige o restaurante Japa, na Praça de Touros do Campo Pequeno. É certo, dirão, que quem vai a uma praça de touros para comer sujeita-se às ocorrências. É verdade, mas enganado por alguns elogiadores profissionais senti-me tentado a experimentar este japonês. A comida é sem história, é do género japonês industrial, mas não é esse o grande problema do local. O grande problema é o péssimo serviço, a desorganização completa, a absoluta falta de formação e arrogância dos empregados, a falta de direcção na sala, o descuido pelos pedidos dos clientes. O mais espantoso é que a sala não é muito grande e tem uns seis ou sete empregados mais uma criatura mascarada de chefe de sala. Cada um corre para seu lado, parece um bando de zombies, a desorganização é absoluta. Alguém devia explicar às criaturas que resolvem abrir um restaurante – ainda por cima com pretensão de ser um local agradável e que quer estar na moda – que a comida é importante mas não é tudo. Num restaurante, o serviço é tão importante como a comida. Na verdade este Japa não é um restaurante, é um teste à paciência de quem lá vai. A evitar absolutamente.


BACK TO BASICS – Uma secretária é um sítio particularmente perigoso para daí se observar o mundo – John Le Carré.