abril 24, 2012

A DIFERENÇA DOS MADREDEUS

Por estes dias ouvi umas certíssimas palavras de Pedro Ayres de Magalhães sobre a história dos Madredeus, a propósito do lançamento do novo disco do grupo, Às vezes custa a perceber que esta aventura dos Madredeus tem 25 anos. «Essência», esse novo disco,  recupera, em novas  versões, alguns temas de outras fases da carreira do grupo, entre os quais «Sombra», que Pedro Ayres de Magalhães esclareceu ter sido a primeira canção que compôs para Madredeus. Nessas declarações  ele conta como eram as coisas na música portuguesa em meados dos anos 80 – quando o fado, como recorda, era um tabu, apontado como uma música reacionária. «Achávamos um crime uma cidade como Lisboa ter uma música tradicional tão rica e ser quase escondida» - conta Pedro Ayres. «Sombra», composta em 1985, surge como uma ode ao Fado, a propósito de uma homenagem a António Variações, que morrera um ano antes e cujo derradeiro trabalho havia sido produzido por Pedro Ayres de Magalhães – o álbum «Dar & Receber». Variações, como bem recorda Pedro Ayres, foi muito influenciado pelo Fado, e sobretudo por Amália Rodrigues, de quem era um fã incondicional.


 


Hoje que o Fado voltou a ser popular entre os mais novos e recuperou o lugar a quem tem direito, pode quase parecer estranho ouvir esta história – mas ela corresponde à verdade. Nesse tempo o Fado era mal considerado, até Amália era ainda vista de lado por alguns guardiões do templo da pureza ideológica do novo regime. Foram precisos muitos anos para esse preconceito absurdo acabar – e é da maior justiça reconhecer que os Madredeus tiveram um papel decisivo e incontornável na criação de uma nova identidade musical portuguesa – que se afirmou porque soube guardar o melhor das tradições e criar um estilo próprio.


 


(Publicado no diário Metro de 24 de Abril)