abril 17, 2020

CLAUSURA, TELETRABALHO E LESÕES

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O TELETRABALHO - Ao princípio achei piada ao teletrabalho. Desde que se disponha de uma infraestrutura tecnológica boa na empresa, de uma ligação de internet razoável e de um mínimo de condições logísticas sabe bem não gastar tempo em deslocações, ficar a observar o trabalho da equipa a uma distância virtual, ter menos interrupções, gerir a agenda de outra forma, poder ter mais tempo para pensar. Mas, depois, sobretudo ao fim de um mês, começo a sentir falta das conversas com mais pessoas, do confronto de ideias mais directo, de poder falar sem ser pelo microfone, de ouvir os outros sem o som roufenho do Zoom ou do Teams, de poder ver caras sem estarem desfocadas ou sem fundos falsos com praias e outras coisas do género. Por sorte, a empresa onde trabalho, a Nova Expressão, tinha migrado todos os sistemas, há cerca de um ano, para a cloud por causa de uma mudança temporária de instalações. Quando a pandemia começou estava tudo operacional e já havia hábito de utilização da cloud e de trabalho remoto. O problema não está na tecnologia, está na falta que as pessoas fazem e na falta do confronto directo de ideias, do debate não electrónico. Com a situação de encerramento das escolas das crianças mais novas ouço muitos pais queixarem-se que não conseguem fazer o acompanhamento das aulas virtuais dos filhos ao mesmo tempo que trabalham. Alguns estão esgotados, outros à beira de um ataque de nervos. Quando sairmos disto, além de todas as outras questões, vamos ter que enfrentar problemas na área dos recursos humanos, saber como recuperar toda a gente que ficou lesionada no meio deste jogo da clausura.


 


SEMANADA - Um estudo da Universidade Católica indica uma quebra de rendimento de 43%  nas famílias que ganham até mil euros; diversos autarcas autarcas têm sido confrontados com o aumento do número de pedidos de comida por parte de famílias carenciadas que, no último mês, viram os rendimentos baixar;  o lay-off em Portugal já atinge cerca de mil trabalhadores; um terço das mortes registadas até agora em Portugal durante a pandemia foram de idosos residentes em unidades de 3ª idade; com uma boa parte das aulas a fazer-se de forma não presencial, e porque grande parte dos docentes não são digitais nativos, a Universidade Aberta e a Direção Geral de Educação vão formar mais de 2.300 professores em ensino à distância; segundo a Marktest 69,8% dos consumidores diminuíram a frequência das compras em super/hipermercados (69,8%), e destes cerca de 38% afirmam que passaram a ir a outro tipo de lojas (maioritariamente ao comércio local: minimercados, mercearias, talhos, peixarias, padarias, etc)  e a encomenda online ou por telefone foi a alternativa referida por um número muito pequeno de indivíduos; em março de 2020 RTP1, SIC e TVI emitiram cerca de 264 horas de informação regular, mais 21.5% do que no mês anterior e mais 7.4% do que o verificado no mesmo mês de 2019. num total de de 797 notícias e 35 horas de emissão sobre a pandemia, com a RTP1 a liderar com 14 horas de emissão e 327 notícias emitidas sobre o tema.


 


ESTE TEMPO - Entre 1 a 14 de Abril, foram matriculados em Portugal 838 ligeiros de passageiros, enquanto um  ano antes, no mesmo período tinham sido 6208, o que significa uma quebra de 86,5%, em termos homólogos.


 


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A FOTOGRAFIA - Quando se fala de fotografia é incontornável que a conversa vá parar à Magnum Photos, a agência fundada em 1947 por um grupo de fotógrafos liderados por Robert Capa e que mudou a forma de encarar o fotojornalismo, a fotografia documental e a fotografia em geral. Ao lado de Capa estavam nomes como David Seymour, Henri Cartier Bresson,  Ernest Hass, René Burri e Inge Morath, entre muitos outros. Os membros da Magnum publicaram nas maiores revistas da época, fizeram trabalhos exclusivos para a Life ou a Look, acompanharam a guerra do Vietnam e muitos outros conflitos. Henri Cartier Bresson descrevia a agência da seguinte forma: “A Magnum é uma comunidade de pensamento, uma qualidade humana compartilhada, uma curiosidade sobre o que está a acontecer no mundo, um respeito pelo que está acontecer e um desejo de o interpretar visualmente''. Ao longo dos anos por lá passaram alguns dos mais marcantes fotógrafos e actualmente podemos encontrar talentos tão diversos como Antoine d’Agata, Elliiott Erwitt, Josef Koudelka, mas também Martin Parr ou Cristina de Middel entre tantos outros. Podem ir seguindo a actualidade fotográfica e a produção da Magnum, assim como os cursos e exposições que organiza  no site da empresa - https://www.magnumphotos.com  , em www.instagram.com/magnumphotos ou ainda em www.facebook.com/MagnumPhotos . A imagem aqui reproduzida do Instagram é de Patrick Zachmann, feita a 16 de Março, em Paris, já com a pandemia declarada.


 


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FOLK CONTEMPORÂNEO - Laura Marling é uma das vozes mais importantes da folk contemporânea e o seu álbum de estreia data de 2008. “Song For Our Daughter”, o novo álbum lançado há dias,  é, nas palavras da cantora, um trabalho quase conceptual, escrito para uma criança imaginária sobre “aquilo que é ser uma mulher na sociedade actual”. O disco é ao mesmo tempo intimista, triste e pessimista, mas cheio de melodias e arranjos magníficos. “Blow By Blow”, uma das canções chave do álbum, fala daquilo que por vezes acontece nas relações: “Note by note, bruise by bruise/Sometimes the hardest thing to learn is what you get from what you lose”. Musicalmente este é claramente um disco folk tradicional, instrumentos acústicos e voz em primeiro plano, sempre a emoção colocada em destaque, como quando os arranjos incluem  um piano discreto ou um côro pontual. O ambiente anda próximo daquilo que se encontrava nos anos 70 em discos folk americanos (Marling, embora inglesa, vive há uns anos perto de Los Angeles). A produção do disco privilegia os arranjos de cordas e vozes. Destaco a canção que dá título ao álbum, “Song For Our Daughter”, mas também “For You”, “Held Down”, “Strange Girl” ou ainda “The End Of The Affair”. Disponível no Spotify.


 


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A CHINA EXPLICADA A OCIDENTAIS - Calhou ter lido “Sob Céus Vermelhos” agora, nesta última semana, no meio de tantas notícias e  especulações vindas do Oriente. É um livro sobre o passado mais recente da China, numa altura em que, pelas razões que se sabem, tanto se fala daquele país e se desenvolvem polémicas à sua volta. “Sob Céus Vermelhos” foi originalmente editado em 2019 e agora lançado em Portugal pela Quetzal. A sua autora, Karoline Kan, aliás Chaoqun Kan, nasceu numa aldeia chinesa em 1989, o ano dos protestos em Tiananmen. Cresceu e viveu nessa aldeia, e depois numa cidade do interior, até ir para a Universidade, em Pequim. Depois de concluído o curso, Kan trabalhou para o New York Times e Radio France Inter em Pequim, foi jornalista na revista “That’s Beijing”, actualmente é editora do jornal digital “China Dialogue” e em 2019 foi distinguida com o Young China Watcher of the Year. “Sob Céus Vermelhos” é essencialmente a história da vida da autora, o relato de como era o dia-a-dia na aldeia, como se estabeleciam hierarquias dentro de uma família ao longo de três gerações, o que era esperado das mulheres e o que era atribuição dos homens. No tempo da política do “filho único”, Chaoqun Kan foi a filha proibida, a que não devia ter nascido. A sua mãe desafiou as ordens do Partido Comunista Chinês ao querer tê-la e viu a sua vida profissional - era professora - prejudicada por isso. O livro relata o que eram as tradições e a cultura tradicional na China de então, quando Deng Xiaoping começou a abrir a economia. ao longo dos anos 90. Conta o choque que foi passar da aldeia para uma pequena cidade, na região de Hunan, que então se começava a desenvolver. Relata a mudança de uma sociedade rural para uma sociedade industrial, no meio de uma corrupção que vivia à sombra dos dirigentes políticos e perante a passividade que os ensinamentos de Confúcio estimulavam. À autora sempre fez confusão porque é que nos livros de História por onde estudou não havia referências ao ano de 1989, o ano dos grandes protestos estudantis - apenas percebeu o que se tinha passado quando finalmente chegou a Pequim. Este livro é a história da descoberta de um país e o relato das suas contradições por uma pessoa que nasceu no despontar da nova China. Indispensável para se perceber tudo o que ali se passou nestes últimos anos.


 


CULINÁRIAS - O prazer de um molho de grelos fresquíssimo, em flor, é uma das coisas que só os mercados tradicionais nos oferecem. A sua textura e o seu gosto não têm comparação com os que são sujeitos a longos períodos de frio e chegam enrugados às prateleiras dos supermercados. Um molho de grelos frescos deve lavado em várias águas e arranjado, tirando as folhas que estejam amareladas. Depois, precisam de ser muito bem cozidos, longamente, até ficarem tenros. Só se metem na água quando já estiver a ferver e obviamente destapados para ficarem bem verdes, que é uma belíssima cor - e é quando entram na água que se salgam a gosto. Depois de escorridos com cuidado são um belíssimo acompanhamento. No topo das minhas combinações preferidas está um lombo de bacalhau. Filetes de pescada também são uma ideia e em geral qualquer peixe de qualidade é boa companhia para os grelos. Uma experiência interessante pode ser desfazer uma posta de pescada já cozida e misturá-la com os grelos. Tudo bem envolvido e regado com bom azeite e está pronta uma refeição. Depois há outras possibilidades e à cabeça lembro-me de um arroz de grelos, com arroz carolino, claro. E, finalmente, um pedaço de grelos cozidos e depois levemente salteados acompanha bem uma boa carne grelhada. Sou dos que acreditam que cozinhar descontrai e que nesta época confinada é algo que estimula a imaginação. 


 


DIXIT - “Raramente saímos das crises da mesma forma como entrámos. Acontecem coisas em nós, e na nossa relação com as outras pessoas, que fazem com que tudo mude” - Miguel Xavier, psiquiatra.


 


BACK TO BASICS - “Não devemos temer e sim procurar compreender. Agora é o tempo de compreender, para que tenhamos menos receios” -  Marie Curie.


 

abril 09, 2020

O PERIGOSO VÍRUS DA ROTINA

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O CONFINAMENTO - A rotina é nestes dias o nosso pior inimigo. A rotina a que estamos forçados, a rotina do confinamento, a falta de socialização, a rotina da avalanche de notícias. Aos poucos os números elevadíssimos de consumo de internet e de televisão começam a voltar a valores mais próximos das médias anteriores ao Estado de Emergência. Embora continue alto o consumo de notícias, já começa a subir o consumo de entretenimento - filmes, séries, musicais, documentários, e, claro, culinária. O teletrabalho fez explodir a venda de impressoras domésticas e de máquinas de café. Na realidade as antigas rotinas são substituídas por novas. Olhamos para o horizonte e o ar está mais límpido. No espaço de poucas semanas a vida mudou imenso - desde o vazio das ruas das cidades até à maneira como reorganizamos os nossos hábitos. Há um contraste enorme que percorre a sociedade - entre aqueles que estão em casa a trabalhar, com tudo o que isso comporta, e aqueles que estão nos hospitais, na rua, nas tarefas essenciais que garantem a nossa vida colectiva. O Estado, esse ser sem cara e nas mais das vezes com pouco coração, até deu uns laivos de humanidade nestas semanas. Mas falta imenso - há sectores básicos da sociedade e da economia, sobretudo nas microempresas, que continuam a braços com tratamentos discriminatórios. O Estado, que há uns anos fomentou a criação dessas microempresas e a criação de postos de trabalho com a consequente redução dos números e custos do desemprego, ainda tem muito para fazer neste sector. Se nesta altura se criarem novas barreiras e diferenças entre vários áreas de actividade todos vamos perder. A pior de todas as rotinas é a da resignação, e há muita gente que conta com ela e com a aceitação do mal menor. E, no entanto, só recuperaremos se nos excedermos, se ambicionarmos reconstruir e recuperar. É isso que devemos exigir da Europa, é isso que devemos exigir dos Governos. Ficarmos na rotina não basta - é demasiado perigoso.


 


SEMANADA - Foram apreendidos mais de 100 quilogramas de cocaína no Porto de Sines durante uma operação de controlo a um contentor proveniente da América do Sul;  segundo a CNN dois pandas do Jardim Zoológico Ocean Park, em Hong Kong, China, que não acasalavam há dez anos, fizeram-no quando o zoo fechou devido ao coronavírus; uma cobra pitão com 2,60 metros de comprimento que foi capturada na quinta-feira, no Percurso Pedestre da Fonte Benémola, em Querença, no interior do concelho de Loulé, foi transportada para o Zoo de Lagos; foram criadas duas áreas de refúgio para cavalos-marinhos na ria Formosa e as capitanias de Olhão e Faro, determinaram para estas zonas a "suspensão temporária da circulação de todas as embarcações"; um relatório do Conselho da Europa mostra que as penas de prisão em Portugal continuam a ter uma duração muito superior às dos outros países europeus e a taxa de mortalidade nas cadeias portuguesas está entre os 12 países onde essa estatística é a mais elevada; Portugal reciclou mais 10% em 2019, face ao ano anterior, tendo sido encaminhados para reciclagem mais de 388 mil toneladas de resíduos de embalagens, anunciou a Sociedade Ponto Verde; a pandemia está a afectar a indústria livreira e segundo a GFK, na semana de 23 a 29 de Março, venderam-se menos 66,7% de livros que na semana homóloga do ano passado; também segundo a GFK, na semana de 23 a 29 de Maio as vendas online de aparelhos eléctricos alcançaram 33% do total, quando antes do confinamento valiam 8%; comparando com igual período do ano passado a venda de impressoras domésticas aumentou 172% , as consolas aumentaram 122% e as máquinas de café 54% e os portáteis 33%.


 


ARCO DA VELHA - A Junta de Freguesia de Santa Clara, em Lisboa, deixou de ceder as suas instalações aos 150 idosos da Associação Unitária de Reformados e Idosos da Charneca que ali conviviam diariamente, para ceder o espaço ao Instituto de Emprego e Formação Profissional. 


 


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FOTOGRAFIAS - O Instagram tornou-se na galeria que vou visitando. Esta semana dei com a foto que reproduzo, da autoria de João Miguel Barros, um advogado português que trabalha em Macau e que tem desenvolvido intensa actividade como  fotógrafo, curador independente e editor da publicação de fotografia “ZinePhoto”. Esta fotografia é um auto-retrato “Self-portrait of a not so young artist in times of crisis”  e foi uma das imagens seleccionadas e premiadas pelo júri do Fotofestival Lenzburg, para a série “Times Under Pressure”. Pode saber mais sobre o festival em https://www.fotofestivallenzburg.ch/en/. O trabalho deste autor pode ser seguido em www.instagram.com/joaomiguel.barros e em http://www.jmb.photo/ . Outras sugestões, ainda no instagram: David Guttenfelder é um fotógrafo que trabalha regularmente para a revista National Geographic e tem estado a publicar no Instagram imagens de uma viagem que fez por estrada pelos Estados Unidos ainda antes do início da pandemia - podem encontrá-lo em instagram.com/dguttenfelder . Para terminar sugiro que visitem o instagram da cooperativa de fotógrafos Magnum, que tem feito uma série de iniciativas ligadas com estes tempos que vivemos - podem ver em instagram.com/magnumphotos . E um dos fotógrafos da Magnum é o britânico Martin Parr, cujo trabalho pode ser visto em instagram.com/martinparrstudio .


 


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A VOZ - Cantora, pianista, compositora, Nina Simone  percorreu muitos territórios musicais ao longo da vida. Entre os discos da última fase da sua carreira “Fodder on My Wings” é um registo que tem andado esquecido e que teve sempre uma divulgação reduzida. A editora Verve resolveu agora relançá-lo. Editado originalmente em 1982, gravado em Paris, o disco é influenciado pelos músicos africanos que ela encontrou na capital francesa - Paco Sery na percussão, Sydney Thaim nas congas e Sylvin Marc no baixo. A própria Nina Simone assegurou a voz, o piano, os arranjos e a produção musical e fez um dos discos mais pessoais e intimistas e que é dos melhores trabalhos da sua carreira, injustamente pouco conhecido. Há faixas surpreendentes, como “Liberian Calipso”, que juntamente com “Le Peuple en Suisse” e “I Sing Just To Know That I’m Alive”,  são três faixas inéditas incluídas na nova edição. O álbum inclui 13 temas que exploram uma vasta gama de emoções, desde o “Heaven Belongs To You” que evoca os espirituais negros, cantado em francês e inglês, um primor de utilização da voz de Nina Simone em “Vous Êtes Seul Mais Je Désire Être Avec Vous” e a homenagem ao seu pai feito numa pessoalíssima versão de “Alone Again Naturally” (de Gilbert O’Sullivan), completamente transfigurado nesta interpretação - a cantora altera a letra, os arranjos e até a composição musical. “Fodder On My Wings” está disponível no Spotify.


 


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DOIS MUNDOS - “Sementes Mágicas”, de V.S. Naipaul, é a continuação de um anterior romance, também já editado em Portugal, “Metade da Vida”. Destaca-se aqui de novo a forma de escrita de Naipaul, muito bem transmitida e interpretada pela tradução de Maria João Lourenço. Os dois romances acompanham a vida e as dúvidas de Willie Chandran, um homem de identidade incerta que, aos quarenta e cinco anos, se interroga sobre o seu papel no mundo e o sentido da sua vida. Willie Chandran tem atrás de si uma vida errante: saiu da Índia, onde nasceu, viveu em Londres, em Moçambique e em Berlim. E é a partir de Berlim, para onde regressara depois de deixar África e um casamento, que decide regressar à Índia. O seu regresso é estimulado pela irmã, Sarojini, uma realizadora de documentários empenhada politicamente, que considera que Willie leva uma vida passiva, sem direcção nem objectivo. Influenciado pela irmã resolve juntar-se a um grupo revolucionário clandestino e regressa à Índia - mas encontra-se perante uma organização dividida e é apanhado, digamos, pelo lado errado da História. Quando depois de muitas peripécias volta ao Reino Unido, onde a sua demanda começara trinta anos antes, encontra um país que virou costas ao seu passado colonial. Willie dá consigo a reflectir sobre aquilo em que a sociedade britânica se transformou e na sua própria vida. De certa forma “Sementes Mágicas” é a forma de Naipaul reavaliar a sua carreira e a sua obra e a personagem de Willie, assim como a sua evolução, têm não poucos paralelos com o que foi também a evolução da carreira literária de Naipaul e a sua visão do mundo - dos dois mundos da sua vida e da sua escrita, o da colónia e o da potência colonial.


 


COZINHADOS - Hoje aqui fica uma receita de época. Costeletas de borrego cortadas de forma generosa, não demasiado finas, conte entre 3 a 4 por pessoa, dependendo da respectiva volumetria dos convivas. Em casos acentuados, carregar na dose. Tempere-as generosamente com muito sumo de limão, sal e pimenta preta moída na hora. Faça-lhes uma cama e um cobertor com alecrim e deixe-a assim durante uma hora ou duas. Comece por cozinhar ao lume, numa frigideira que vá ao forno. Basta colocar um pouco de azeite no fundo bem espalhado. Com o lume alto cozinhe-as de um lado e outro até começarem a ganhar côr e a própria gordura das costeletas começar a invadir o recipiente. Quando estiverem a começar a tostar leve-as ao forno previamente aquecido a 200º e deixe-as estar durante dez minutos, virando-as a meio. Se gosta delas muito bem passadas (não é o meu caso), deixe ficar mais cinco minutos. Eu gosto de as acompanhar com ervilhas, levemente cozidas, e depois salteadas com hortelã picadinha bem misturada. Para companhia experimentei um vinho regional da península de Setúbal, da Quinta do Piloto, em Palmela - o Cabernet Sauvignon 2017 e a coisa correu muito bem.


DIXIT - “Há um velho ditado grego que apetece recuperar agora: “Aquele a quem os deuses desejam destruir, primeiro enlouquecem”. A Europa, antes de se destruir, está a enlouquecer” - Fernando Sobral


BACK TO BASICS - “Uma das grandes falhas da raça humana é que toda a gente quer construir de novo, mas muito poucos querem preservar e manter o que existe” - Kurt Vonnegut


 


 

abril 03, 2020

E DEPOIS? NA EUROPA ? E CÁ?

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E A EUROPA? - A situação que vivemos mostra aquilo  que é de facto a Europa: uma confluência egoísta de interesses económicos, não uma federação de vontades nem uma aliança de princípios, muito menos um mecanismo de entreajuda. Cada vez que há crise, há clivagem. É o salve-se quem puder. Olha-se para o que é a estrutura central da Comunidade Europeia e não se vê direcção, não se vê liderança, não se vêem estadistas. Há silêncios, há alarvidades da Hungria à Holanda, noutros países há a procura de uma solidariedade que embate em limites apertados e rigorosamente vigiados. O Banco Central Europeu é uma anedota de capacidade de acção quando comparado com a Reserva Federal Americana. A realidade é esta: ao fim de todos estes anos a Europa não existe como o paraíso prometido quando é mais necessária. Os burocratas convivem mal com a acção e este é um momento de acção. Esta crise vai ser longa. O PIB vai baixar de forma generalizada, muitos sectores vão defrontar-se com a sua própria sobrevivência. Portugal, que tem um mercado interno pequeno, viveu anos de crescimento porque teve uma população visitante, de passagem, que alargou o  mercado muito para além do seu tamanho real. Agora, quando ficarmos outra vez no nosso pequeno rectângulo, provavelmente com menos visitantes, que acontecerá? O Governo português tem reagido bem à situação em termos de prevenção e defesa da saúde pública, atrevo-me a dizer que para além do que era previsível - e ainda bem. Mas a seguir vão sentir-se os efeitos de falta de estratégia de competitividade económica, da falta de reformas. E é quando isto acabar que é preciso começar a pensar no que tem de se fazer para o país poder voltar a prosperar, sem bóias passageiras de salvação. Contando com os nossos recursos e a nossa capacidade. 


 


SEMANADA - A aldeia de São Pedro Velho, em Mirandela, conhecida pela produção de morango, teme pela colheita deste ano com toneladas do fruto que podem ficar por apanhar por falta de trabalhadores e de procura devido à pandemia de Covid-19; técnicos de som e de palco de norte a sul do país, que tinham as suas agendas cheias nos próximos meses, ficaram sem um único trabalho; nos primeiros 22 dias de Março, o número de domínios registados com palavras-chave associadas à pandemia subiram de 3000 para 53 mil; a pandemia está a gerar o maior número de ciberataques alguma vez realizado; o índice mundial dos mercados de ações recuou 13,7% em março, com as maiores quedas registadas na América Latina e na Zona Euro;  as praças de Bogotá, São Paulo, Buenos Aires e Viena foram as mais penalizadas e Lisboa perdeu 16%; o montante médio das compras no comércio online aumentou 6% desde o registo do primeiro caso de Covid-19 em Portugal; segundo as projeções do Instituto Nacional de Estatística, a população residente em Portugal poderá baixar de 10,3 para 8,2 milhões de habitantes em 2080 e o índice de envelhecimento quase duplicará; Portugal continua dependente de outros países para se alimentar, pois só produz 85% dos bens de que precisa para pôr no prato.; a superfície semeada dos principais cereais em Portugal diminuiu pelo sétimo ano consecutivo e a sua produção está no mínimo dos últimos 100 anos.


 


ARCO DA VELHA -  A organização sindical de professores do Sr. Mário Nogueira exigiu que as escolas suspendam já o acolhimento de filhos de profissionais de saúde e forças de segurança.


 


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ARTE NO INSTAGRAM - Nestes tempos o Instagram tornou-se numa imensa galeria virtual - de museus, de artistas e claro de pessoas que mostram o que estão elas próprias a ver. Mas concentremo-nos hoje nos artistas. Um dos que tem estado mais activo durante estes tempos da pandemia é Todd Hido, um americano que hoje em dia vive em São Francisco. O seu trabalho está focado em casas, muitas delas em ambientes rurais, outras em ambientes urbanos pouco densificados. O domínio da luz e da côr, uma cuidadosa escolha da luminosidade natural em que prefere fotografar, são a sua imagem de marca - nomeadamente na série “Homes At Night”. Todd Hido tem trabalhos seus publicados na Artforum, The New York Times Magazine, Eyemazing, Wired, Elephant, FOAM e Vanity Fair. Tem obras suas nas colecções permanentes de museus como o Getty, o Whitney Museum of Art, o Guggenheim, San Francisco Museum of Modern Art e The Smithsonian, entre outros. Por vezes surgem paisagens rurais e muitas vezes foca-se em questões ambientais, como aconteceu com o seu mais recente livro, “Bright Black World”, fotografado fora dos Estados Unidos. Poucas vezes surge o elemento humano, excepto numa série em que fotografa interiores de casas onde surgem corpos de mulheres. Do ponto de vista técnico utiliza grandes formatos, exposições longas e uma enorme profundidade de campo, na tradição de alguns fotógrafos paisagistas americanos de meados do século passado - só que desta vez a cores e não a preto e branco. A imagem que aqui se reproduz é extraída da sua página do Instagram, que merece ser visitada.


 


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O TRIO DE JAZZ - Uma das minhas formações preferidas no jazz é o trio - o mais frequente é ter piano, bateria e baixo, mas outra formação de que gosto particularmente é guitarra, bateria e baixo. “Angular Blues” é o novo disco do guitarrista austríaco Wolfgang Muthspiel, acompanhado por Scott Colley no baixo e Brian Blade  na bateria. Muthspiel tem uma forma de tocar guitarra eléctrica muito característica, com um dedilhar marcante e preciso e um sentido melódico notável. Editado pela ECM, o disco tem uma produção simples que deixa os três músicos mostrarem as suas capacidades de improvisação e sobretudo a forma como se conseguem ligar uns aos outros. “Angular Blues” é um dos discos de jazz que mais gostei de descobrir nos últimos tempos e dos melhores de que me lembro onde a guitarra desempenha o papel principal. O primeiro tema, “Wondering” é uma espécie de manifesto daquilo que se vai poder ouvir ao longo do disco. Logo a seguir, a faixa título, “Angular Blues” mostra como a guitarra de Muthspiel se cruza de forma perfeita com o baixo e a bateria. “Huttengriffe” é uma faixa apaixonante, a mais bluesy de todo o disco. “Camino” é uma ode à guitarra e “Ride” uma demonstração de virtuosismo colectivo. “Kanon in 6/8” é um percurso que evoca o blues-rock e “Solo Kanon in 5/4” é o único tema tocado a solo por Wolfgang Muthspiel. O álbum termina com uma versão do standard “I’ll Remember April”, já interpretada por muitos músicos mas que aqui vive do diálogo entre a guitarra e o baixo. Disponível no Spotify.


 


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HISTÓRIAS DE MACAU -  Os mais recentes livros de ficção de Fernando Sobral são orientais, passados entre a China e a Índia. Não são orientais apenas na localização geográfica das histórias que contam, são-no, sobretudo, na forma como estão escritos, nos reparos que as personagens fazem, nas reflexões que evocam ao longo da narrativa, nos pensamentos que deixam no ar. “A Grande Dama do Chá” é o mais recente livro de Fernando Sobral e foi publicado originalmente como folhetim semanal no diário “Hoje Macau” em 2019. O cenário é Macau, em 1937, no momento em que o Japão tinha atacado a China, tomado Xangai, o que leva a um êxodo de refugiados em direcção a Macau - que assim se torna numa plataforma onde se vigiam mutuamente chineses nacionalistas, comunistas e agentes japoneses. É neste ambiente que se desenrola a história de Jin Shixin, que abre a mais famosa casa de chá de Macau, cobertura para a sua ligação com a tríade do Bando Verde que dominava Xangai. O livro retrata o que era a vida em Macau, o papel dos funcionários portugueses da administração local, os conflitos, cumplicidades, pequenas corrupções e também histórias de sedução. O livro conta a noite, os bares, a música, deixa antever todos os vícios e negócios, os segredos e as conspirações. Macau é uma terra de encontros e desencontros, e , como uma das personagens diz no final do livro, “Macau é bela e sem saída. Sejam sempre bem-vindos a esta cidade. Para jogar, para fugir do passado, para encontrarem o futuro. Assim continuará a ser”. É certo que eu tenho um fascínio pelo oriente, mas de cada vez que leio um livro assim fico com vontade de lá voltar. Pelos vistos, agora, infelizmente, não vai ser tão cedo.





VINHOS DURIENSES - Durante uns anos os vinhos do Alentejo dominaram o mercado doméstico português e João Portugal Ramos foi o enólogo decisivo para criar uma marca e uma personalidade que antes estavam difusas. Sem nunca deixar o seu Alentejo, aqui há uns anos aventurou-se, em parceria com José Maria Soares Franco, por terras do Douro. Assim nasceu a gama Tons do Duorum, inicialmente com Tinto e Branco e agora, pela primeira vez, com um Rosé, uma surpresa nas colheitas agora lançadas. As uvas são de terreno xistoso, com as vinhas a uma cota alta, entre os 400 e 600 metros. O Tons do Duorum Rosé 2019 é feito a partir de uvas Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz, tem aroma marcado por frutos vermelhos, um final de boca prolongado, acidez equilibrada, fresco, graduação de 12%. É uma boa surpresa na gama Duorum, ideal para acompanhar pratos leves e saladas. O Tons do Duorum Tinto 2017 é feito a partir das mesmas castas, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz com um processo de vinificação muito controlado. Tem dominante de frutos vermelhos, taninos suaves, aroma intenso, fresco, graduação de 13,5% e vai bem com carnes temperadas. O Tons do Duorum Branco 2019 foi feito com uvas das castas Viosinho, Robigato, Verdelho, Arinto e Moscatel Galego Branco. Tem graduação de 12,5%, aroma intenso, citrinos pronunciados, perfeito para acompanhar uma massa com gambas ou massada de peixe. 


 


DIXIT - “Fazer as duas coisas que parecem ou são contraditórias: este é o grande problema. Fazer com que os cientistas e os técnicos, sem se envolver em política, encontrem os remédios e tratem de quem necessita. Mas fazer também com que os políticos façam as leis necessárias, sem se envolver em ciência.” - António Barreto 


 


BACK TO BASICS - “Por melhor que uma estratégia pareça ser, são os resultados alcançados o que verdadeiramente conta” - Winston Churchill

março 27, 2020

MELHORAR O SISTEMA: MENOS PROMESSAS, MAIS ACÇÕES

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A LIDERANÇA - A crise que vivemos é um desafio à capacidade de nos organizarmos, lutarmos e mudarmos, para garantir um novo futuro. Este não é tempo de profetas, mas é tempo para pensarmos pelas nossas próprias cabeças e vermos onde líderes políticos actuais nos levaram. Esta é a fase em que devemos pensar e preparar a resposta - a resposta que garanta a sobrevivência de pessoas, da economia, da sociedade. Por estes dias li uma entrevista do historiador e filósofo israelita Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, de “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” e de “21 Lições para o Século 21”. Dessa entrevista retive dois parágrafos - o que reproduzo no Back To Basics e este, que creio resumir o que se passa: “Devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis têm deliberadamente minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço por isso.”  Claro que há mais temas para analisar e reflectir sobre a situação actual, mas a verdade é que o que hoje se passa mostra o desfasamento entre os líderes políticos e as necessidades da sociedade - em termos de estabelecimento de prioridades de investimento em áreas como a ciência e a saúde. Passámos de uma fase em que os Ministros das Finanças faziam com que não houvesse dinheiro para nada, para a fase em que os governos disponibilizam milhões e milhões - esperemos que não seja tarde demais. A situação actual evidencia que é sempre melhor prevenir do que remediar. O remédio, como estamos a ver, é sempre mais caro que a prevenção. Esta é apenas uma das etapas - mas importante - da mudança global de estratégias que tem de ser feita. Fala-se muito de mudança e liderança nas empresas. Aquilo que hoje vivemos mostra que o sentido da mudança e um novo estilo de liderança são também fundamentais na sociedade e na política que é suposto governá-la. O fundamental é melhorar o sistema, e não abandoná- lo.


 


SEMANADA - O preço da carne subiu;  nas lotas os pescadores vendem peixe a metade do preço; foram detectados casos de especulação na venda de produtos como gel desinfectante, máscaras, luvas e até paracetamol; com o fecho dos parques de campismo 13 mil caravanistas ficaram desalojados; um estudo europeu revela que Portugal não tem habitação social suficiente para as necessidades; o mesmo estudo do Conselho da Europa aponta falhas graves na protecção de crianças e jovens; sem o retomar das competições à vista os responsáveis dos jornais desportivos portugueses estão apreensivos quanto ao futuro; 43,7% dos portugueses considera a actuação do governo na pandemia como “pouco eficaz”, 40,9% como eficaz e apenas 5,4% como “muito eficaz”; uma sondagem divulgada esta semana revela um reforço da imagem de António Costa, algum desgaste de Marcelo Rebelo de Sousa, e subidas assinaláveis do Bloco de Esquerda e Chega que ficam, respectivamente, na terceira e quarta posição, logo atrás do PSD e à frente da CDU, PAN e CDS; se a pandemia durar três meses o PIB português pode ter uma quebra de 10%; o valor médio das casas em Portugal subiu 21% em cinco anos; os preços da habitação em Lisboa são 35% superiores à média nacional; o preço de venda das novas habitações subiu cinco vezes mais que o da construção;  o Facebook registou esta semana um aumento exponencial de utilização mas as suas receitas publicitárias diminuíram e o maior aumento de utilização verifica-se nas áreas de mensagens da rede social e do whatsapp.


 


ARCO DA VELHA - Segundo informações da Ordem dos Solicitadores a venda de bens penhorados rendeu 1,6 mil milhões de euros em menos de quatro anos. 


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ARTES - Desde que as medidas de contenção do Covid 19 foram tomadas todos os espaços públicos foram sendo progressivamente fechados. Entre eles estão as galerias de arte privadas, local de eleição de apresentação de obras de artistas contemporâneos, novos ou consagrados. De um modo geral uma série de actividades culturais que por definição implicam a presença de públicos têm as portas fechadas. Muitos  artistas plásticos portugueses preparavam exposições para os próximos meses, em Portugal ou no estrangeiro. Algumas já não se poderão fazer, pelo menos nas datas indicadas. Os artistas plásticos vivem das suas obras que vendem. Se os locais onde as podem mostrar e vender estão encerrados, não há vendas, não há receitas. Não vai ser fácil para muitos. Independentemente das medidas conjunturais que estão a ser tomadas esta é uma boa oportunidade para pensar o que se pode fazer no futuro. E uma das mais simples e evidentes ajudas que o Estado pode dar é criar uma nova Lei do Mecenato , que seja mais fácil de usar para criadores, entidades e mecenas - privados ou empresariais. Há muitos modelos dignos de estudo no mundo e todos passam por uma mesma coisa - incentivos fiscais para os mecenas, taxas reduzidas para os criadores. No caso das artes plásticas há coisas tão absurdas como a dificuldade que é uma empresa comprar obras de arte, podendo considerá~las como custo - tal como outras partes do seu imobilizado. O efeito na receita fiscal do Estado é ridículo, mas esta medida, por si só, permitiria alargar o mercado. É nestas questões que vale a pena pensar para o futuro. Na imagem que acompanha estas palavras está a exposição de Sara Bichão na Galeria Filomena Soares, que foi montada mas nem sequer chegou a ser inaugurada. Podem ver mais em http://gfilomenasoares.com/


 


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PLAYLISTS - Embora em casa, não temos que ficar confinados nem aos nossos discos nem ao que o Spotify nos quiser dar . Sugiro-vos que naveguem pela plataforma Mixcloud, onde DJ’s de todo o lado (incluindo muitos portugueses) e algumas entidades ligadas à música fazem autênticos programas de rádio. A ideia é ouvirem selecções musicais, de vários géneros, playlists bem elaboradas. As possibilidades são imensas, por isso vale a pena explorar bem a plataforma - tem uma aplicação que funciona muito bem em smartphones. Lá poderá descobrir por exemplo o Ronnie Scott Radio Show, preparado pelo lendário clube de jazz de Londres, ou listas de DJ’s portugueses, como a Mixtape Nação Valente de MdeMonica Mendes, ou as Sleeping Dogs Lie de Miguel Santos, a Eclética de Lucinda Sebastião, a Estrada do Guincho de Lucio (José Lucio Duarte) ou ainda as Dance Sessions de João Vaz. Algumas destas listas têm dezenas e até centenas de emissões diferentes, muito moldadas obviamente aos gostos dos seus autores. Em todos estes exemplos a música é boa e as sequências apresentadas são muito bem pensadas. São programas de autor como já é raro ouvir hoje em dia na rádio. Nestes dias tenho acompanhado o trabalho diário de um DJ do Porto, há muito ligado à música e à descoberta de músicos, Pedro Tenreiro. A sua Quarentena Funky tem sempre capas bem escolhidas (como esta que aqui se reproduz) e o que ele propõe é soul e funk do melhor. Muito bom para animar o ritmo destes dias - uma sempre renovada pista de dança em casa.


 


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MISTÉRIOS NÓRDICOS - Bem sei que estes tempos já são bastante misteriosos. Mas por isso mesmo pode ser boa ideia pegar numa boa história dos tempos de guerra, ainda por cima baseada em factos reais. Henry Rinnan é a personagem central de “Léxico da Luz e da Escuridão” e torna-se odiado por ser um agente duplo que mata noruegueses para os nazis. O seu autor, Simon Stranger, é um prestigiado escritor norueguês e o presente livro, agora editado pela Quetzal, com boa tradução de João Reis,  foi galardoado com o Prémio dos Livreiros Noruegueses. A história desenrola-se a partir de uma acaso: a família da mulher do escritor, depois da guerra, vai morar para a casa que serviu de quartel general a Rinnan, onde ele próprio vivia e onde os resistentes noruegueses que ele entregava eram torturados. É uma visita a um passado sombrio, um retrato duplo de um traidor criminoso e de uma família que havia sido devastada pela guerra - o bisavô da mulher de Stranger morreu depois de ter sido entregue pelo próprio Rinnan. A família acaba por descobrir a história terrível da casa para onde foi morar, o que cria tensões enormes. Muito bem escrito, o livro é passado na cidade de Trondheim, que quase ficamos a conhecer pela minuciosa descrição dos locais. Envolvente do princípio ao fim, este é um daqueles livros que não se consegue largar até terminar.


 


OS MERCADOS - Na maior parte dos supermercados e nas grandes superfícies há filas e muitas vezes há falta de produtos, nomeadamente frescos. Nesta semana entrei num mercado tradicional e quase ninguém lá estava, além dos vendedores nas suas bancas. E as bancas estavam bem fornecidas - de peixe, de carne, de fruta, de legumes e até de alguns produtos regionais. Alguém me explicava que muitos restaurantes abastecem-se nos mercados e agora, com o encerramento dos restaurantes, os mercados tradicionais tiveram um decréscimo de actividade. Vale a pena lá ir - comprei peras como ainda não tinha provado este ano e tomate coração de boi absolutamente fantástico. O tomate, maduro, temperado com um pouco de flor de sal fez as minhas delícias e foi um acompanhamento fantástico do peito de frango no forno, temperado com mel. A entrada consistiu nuns bons rabanetes cortados em fatias finas e temperados só com sal. Na mesma ocasião comprei também umas sumarentas laranjas que foram a base de uma salada que brilhou noutra refeição. Por cima das rodelas de laranja descascada coloquei filetes de cavala de conserva a que escorri o azeite. A coisa foi acompanhada por uma boa fatia de pão de mistura cozido em forno de lenha, que também veio do mercado. E as peras garantiram a sobremesa. O regresso aos mercados vale a pena. E quem os mantém vivos bem merece.


 


DIXIT -  “É preciso investir mais. Agilizar mais os procedimentos. É preciso uma estratégia clara a nível europeu, que oriente, apoie e reforce as respostas que estão a ser dadas pelos diferentes países. Temos de subir a parada à escala da ameaça que enfrentamos” - Maria da Graça Carvalho, eurodeputada.


 


BACK TO BASICS - “A crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema em vez de abandoná-lo”- Yuval Noah Harari.


 


 


 


 

março 20, 2020

O VÍRUS DEU CABO DAS FOLHAS DE EXCEL

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A CRISE - Em duas décadas já tivemos três crises severas neste século. A primeira com os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos; a segunda com a crise financeira de 2008; e agora, a terceira, com o COVID 19. No 11 de Setembro de 2001 lembro-me de estar à hora de almoço num restaurante e ver, perplexo, os aviões a derrubar as torres gémeas de Nova Iorque. Nessa tarde, já a perceber melhor o que se tinha passado, pensei que o mundo nunca mais iria ser igual ao que era antes. Não me enganei. A geração que tem agora entre 20 e 30 anos viveu sempre na incerteza e isso explica muito da sua forma de pensar e agir. A crise desencadeada em 2001 gerou medo e insegurança físicas. Anos depois, em 2008, a crise financeira gerou medo e insegurança económica; agora, esta crise do COVID 19 arrisca-se a gerar insegurança e medo físicos e pânico na economia. Esta é  a maior insegurança destas crises dos últimos 20 anos, é a primeira vez em que, a milhares de mortes e a uma sensação de impotência do Estado, se junta a hipótese de colapso de uma série de economias de diversos países. O retrato da Europa nestas semanas não é bonito de se ver. A Comunidade responde pouco, o Banco Central Europeu acordou tarde quando comparado com a Reserva Federal Americana e os alemães, mais uma vez, assobiam para o ar à espera que a coisa passe. Mas é certo que os rendimentos vão diminuir, que o consumo vai cair. Tudo vai ser diferente. Este vírus deu cabo de todas as folhas de excel e os burocratas não sabem o que fazer. O que se vai passar a seguir? Adopto a sigla de uma amiga minha, médica, em situações de grande crise: LSV - logo se vê. As prioridades são viver, ajudar, reconstruir. 


 


SEMANADA - Quase dois em três portugueses declaram ser optimistas, revela um estudo da Marktest divulgado esta semana; segundo o Telenews da MediaMonitor, o noticiário sobre o COVID 19 continuou a ser dominante na semana passada, tendo-se registado  um total de 1059 notícias e 42 horas de emissão sobre este tema; foram encontradas 1680 caixas de esteroides anabolizantes num descampado em Elvas; o Tribunal de Contas desconfia do regulador da aviação civil que tem à sua frente gestores da maior empresa regulada por esse organismo, a ANA; o Tribunal Constitucional defendeu que facilitar a prostituição não deve ser crime; os resultados líquidos dos CTT subiram 35,8% desde que a empresa mudou de liderança em Maio do ano passado e registaram lucro de 29 milhões de euros; o montante de novos créditos ao consumo aumentou cerca de 13% no final de Janeiro, em relação a igual período do ano passado; o Festival da Eurovisão foi cancelado; o Euro 2020 foi adiado para 21; o debate instrutório da Operação Marquês foi adiado sine die; a Auto-Europa suspendeu toda a produção até 29 de Março; o controlo de fronteiras foi reintroduzido em Portugal;  António Costa disse que o país não vai parar; Fernando Medina não disse nada sobre Lisboa.


 


BOA IDEIA - Na Índia várias operadoras de comunicações substituíram os toques de telefone (ring tones) por mensagens de 30 segundos com conselhos sobre como evitar o COVID 19.


 


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A PINTURA - Não podemos viajar, mas podemos ver belíssimas obras on line. Escolhi esta porque me parece adequada ao nosso estado de espírito. “The Night Watch”, “A Ronda da Noite”, é uma obra de Rembrandt, criada em 1642, e que tem a curiosidade de ser uma das primeiras pinturas a retratar um grupo de pessoas em acção, no caso diversos guardas que se preparam para actuarem. A utilização da luz é extraordinária, a dimensão da obra é imponente. A pintura mede 380 cm de altura e 454 cm de largura e mostra a milícia do capitão Frans Banning Cocq no momento em que este dá a ordem para marchar ao alferes Willem van Ruytenburch. Atrás deles aparecem os 18 integrantes da Companhia. Está exposta em Amsterdão, no Rijksmuseum. Graças à iniciativa da Google Arts & Culture pode não só visitar este e outros grandes museus, mas também, no caso desta obra, pode observar com atenção os pormenores, acompanhados por informação, que ajuda a compreender o tempo em que foi criada. Vale a pena visitar o site artsandculture.google.com, uma iniciativa feita em conjunto com a Unesco, e ver o que oferece em matéria de visitas virtuais a locais históricos, museus, colecções de arte e géneros artísticos, entre muitas outras coisas.


 


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A VIDA - O álbum “async”, de Ryuichi Sakamoto, foi editado em 2017, após quase oito anos sem discos do músico japonês. São 14 temas, muito ambientais, que retratam os anos difíceis de luta contra um cancro da garganta. As canções são sóbrias, como sempre,  com produção e arranjos discretos. Há uma canção em particular que é a razão desta escolha, “Life, Life” - um hino tranquilo à necessidade de superarmos os dias mais complicados, pensando na vida. A voz é a de David Sylvian, um colaborador de longa data de Sakamoto. É o décimo sexto álbum a solo do autor, bem diferente da fase mais pop de há alguns anos. Em “async”, disponível no Spotify, melodias e texturas sonoras - a grande matéria prima da obra de Sakamoto - desenvolvem-se de forma natural, colando os temas uns aos outros. Sakamoto, um homem que fez algumas das mais marcantes bandas sonoras para cinema (Merry Christmas Mr. Lawrence, The Last Emperor ou The Revenant), diz que concebeu este disco como uma banda sonora imaginária para um filme de Andrei Tarkovsky. “Life,Life”, a canção que marca o disco, foi feita a partir de um poema do pai do cineasta, o famoso poeta russo Arseny Tarkovsky. Aqui fica um excerto do que Sakamoto escolheu e Sylvian interpretou:


To one side from ourselves, to one side from the world


Wave follows wave to break on the shore


On each wave is a star, a person, a bird


Dreams, reality, death - on wave after wave


No need for a date; I was, I am, and I will be


Life is a wonder of wonders


 


O Velho Expresso da Patagónoa - Terra Incognita (


A VIAGEM - “O Velho Expresso da Patagónia”, uma das obras de referência de Paul Theroux, foi editado em 1979 e chega agora a Portugal pela mão da Quetzal na colecção Terra Incógnita, que a editora  criou para reunir “títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento.” Paul Theroux tinha acabado de publicar “O Grande Bazar Ferroviário”, em 1975, quando iniciou a escrita deste livro prodigioso: entrar na estação de metro mais perto de casa arrastando a mala, mudar para o comboio daí a pouco e percorrer dois continentes inteiros, a América do Norte e a América do Sul… até terminar às portas da Patagónia e da Terra do Fogo, onde chegava o pequeno e velho comboio que designa como Expresso da Patagónia”.


Este livro, que chega oportunamente quando viajar está a ficar um prazer proibido, é considerado uma referência central e indispensável que mudou a história da literatura de viagens. A narrativa relata a viagem, de comboio em comboio, de fronteira em fronteira, do México à Costa Rica, do Panamá à Guatemala e aos Andes até à mítica linha ferroviária da Patagónia argentina. «Theroux não embeleza nenhum cenário, não se comove com romantismos literários, não cede nunca: quer procurar histórias e entrevistar gente que não figura nos romances», escreve Francisco José Viegas o editor da Quetzal, na introdução ao livro.





A COZINHA - Estamos pois confinados às nossas casas, façamos o melhor da situação. Esta é uma boa ocasião para vasculhar a dispensa e despachar algumas das coisas que estão por lá. Hoje estou numa de latas e nesta semana dedico-me às conservas e começo pelas de atum. Desde que seja uma das felizmente numerosas boas marcas, qualquer serve e nem tem que ser atum ao natural (o Tenório em azeite é o meu preferido). Ingredientes para quatro pessoas: duas latas de atum, conteúdo escorrido e desfeito; uma lata de tomate em cubos (prefiro) ou triturado; gengibre fresco; alcaparras ou azeitonas aos pedaços; azeite; esparguete ou tagliatelle. Coloque pedaços finos de gengibre fresco no azeite, acrescente o tomate e deixe cozinhar em lume brando, até borbulhar. Não uso propositadamente cebola para a coisa ficar mais leve, mas, se quiserem, experimentem cortar umas rodelas finas de alho francês e usem-no como base, junto com o gengibre, antes de deitarem o tomate. Nessa altura, já a borbulhar deito o atum desfeito e as alcaparras ou azeitonas e mexo tudo bem.  Ao lado cozam em água abundante, já a ferver, temperada com sal e um fio de azeite, a quantidade de massa que entenderem necessária durante o tempo recomendado para cada marca (eu tiro-a sempre um minuto antes não só para ficar al dente, mas também para acabar de cozinhar no molho). Depois de escorrida a massa atirem-na para dentro do molho, envolvam-na bem e deixem acabar de cozinhar mais um minuto antes de a levarem para a mesa. Pimenta a gosto, um pouco de cebolinho também não fica mal. É um petisco simples e rápido de preparar. Cozinhar não deve ser um stress - mas sim um momento criativo. Juntem outros ingredientes, usem outras massas, coloquem outras coisas no molho. Divirtam-se.





DIXIT - "Só se salvam vidas e saúde se entretanto a economia não morrer" - Marcelo Rebelo de Sousa


 


BACK TO BASICS - “No caso de doença generalizada há duas coisas a fazer: ajudar a curar e evitar piorar as coisas” - Hipócrates

março 13, 2020

NADA NA VIDA É PARA SER TEMIDO, MAS SIM COMPREENDIDO

Quando este artigo foi escrito a crise gerada pelo COVID 19 só se desenhava. Não retiro uma linha do que escrevi. Mas reforço aqui o apelo a que todos colaboremos para diminuir os riscos de propagação e para aumentarmos o apoio que podemos dar uns aos outros. Reforço aqui a citação da grande investigadora que foi Marie Curie e que é hoje o Back To Basics:  “Nada na vida é para ser temido, mas sim para ser compreendido”.


 


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UM PAÍS DESIGUAL - As palavras que se seguem não são minhas, são de uma intervenção de Carlos Guimarães Pinto, ex-líder da Iniciativa Liberal, numa conferência recente sobre “Novas Desigualdades”.  É uma análise poucas vezes feita. E certeira. Excertos: “Há uma opção política clara de concentrar o poder político em Lisboa, de concentrar os negócios do estado na capital. Tendo o estado um peso tão grande na economia, esta concentração arrasta inevitavelmente o poder económico, e ambos arrastam o poder mediático. O centralismo garante que o poder no país está concentrado num pequeno círculo de pessoas distante do escrutínio da maioria, facilitando redes de nepotismo e corrupção. (...)  Cada vez mais a elite é um círculo fechado controlado por meia dúzia de famílias e dois ou três grupos mais ou menos secretos. A esmagadora maioria das pessoas neste país, por muito bons que sejam, não podem aspirar a chegar a altos cargos na política ou nas empresas. Esta ausência de meritocracia tem implicações graves na forma como o país e as grandes empresas são geridas. Para termos os melhores no topo, o acesso a esses lugares não pode estar restrito a quem tem o apelido certo ou pertence a uma qualquer organização secreta. Para além de aprofundar desigualdades, a concentração de poder faz com que se desperdice muito capital humano. Há um eixo de Braga a Coimbra onde se concentra muita da criação de conhecimento do país e, acima de tudo, onde ainda se vai concentrando uma boa parte da população jovem. Mas nesse eixo, onde se formam os jovens da geração mais bem preparada de sempre escasseiam as oportunidades de crescimento profissional. (...) Mais 5 anos e podemos ser o país mais pobre da Zona Euro. Daqui a 10 ou 15 anos poderemos ser o país mais pobre não só da Zona Euro como da União Europeia. Estamos num país centralista, com elevada carga fiscal onde redes de compadrio e nepotismo se substituem aos mecanismos de concorrência e mercado que deveriam guiar uma economia desenvolvida.”  É isto. É este o estado da Nação. 


 


SEMANADA - Mais de 60% dos hotéis do Algarve registam cancelamento de reservas; um quarto dos membros do Governo têm participações directas ou indirectas no capital de empresas e alguns dos casos não foram declarados no registo de interesses; a procura de cursos superiores de curta duração aumentou 21%; a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil emitiu um parecer desfavorável sobre o projecto do aeroporto do Montijo devido ao risco de acidentes com aves e aeronaves; os tempos de espera para marcações de exames e intervenções cirúrgicas levou mais de 700 mil portugueses a escolherem ser tratados em hospitais fora da sua área de residência; em Penamacor o presidente da Câmara forjou contrato com pais e irmãos da sua chefe de gabinete, e ex-vereadora, para dar cobertura a uma obra de quase 150 mil euros feita ilegalmente três anos antes; Portugal é o país da OCDE onde os custos com a habitação mais subiram; a maternidade depois dos 40 anos duplicou entre 2011 e 2018 devido à precaridade laboral; mais de metade dos bebés são filhos de mães solteiras; em Lisboa a esquadra de Turismo da PSP é a que tem mais denúncias de crimes; os transportes públicos de Lisboa são o serviço com os clientes mais insatisfeitos pelo sétimo ano seguido; nos últimos 15 anos centenas de processos da Relação de Lisboa foram distribuídos manualmente, o que agrava as suspeitas de viciação.


 


ARCO DA VELHA -  Segundo o “Correio da Manhã” a PSP está sem dinheiro para reparar viaturas e há agentes do Corpo de Intervenção que trazem papel higiénico de casa já que o mesmo não está por vezes disponível no local de trabalho.


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NORTE-SUL - Ana Vidigal faz uma incursão na pintura sobre papel, pouco frequente na sua obra mais recente onde a colagem tem estado mais presente. O resultado é a exposição “amor-próprio” que abre sábado no Porto, no espaço 531 do galerista Fernando Santos. A história é simples - Ana Vidigal aceitou o desafio do galerista e de Pedro Quintas para realizar uma série de trabalhos em pequenos formatos para esta exposição (na imagem). Vidigal não utiliza geralmente esse formato com dimensões de cerca de 100 X 70. Mas desta vez estabeleceu uma dimensão e forçou-se a esse exercício de atelier que pode agora ser visto nesta exposição intitulada “amor-próprio” constituída por 16 pinturas sobre papel de 14 de Março a 02 de Maio de 2020 no espaço 531 da Galeria Fernando Santos, no Porto. Outra sugestão é a exposição de José Pedro Croft, “1 nova, 2 nem tanto” que apresenta três esculturas, todas obras inéditas. A peça central é composta por camadas, evocando a imagem de uma cabana, uma espécie de abrigo primitivo constituído por  placas de ferro unidas duas a duas, juntas num ponto, e pintadas. No meio das placas, um conjunto de duas grelhas, recorda os desenhos de Croft e reforça a luz como parte da obra. As outras duas esculturas —uma em madeira, mármore e gesso e a outra em madeira e gesso— são ambas feitas a partir de portas reutilizadas que perderam a sua função original. De 12 de Março a 2 de Maio, na Galeria Vera Cortês, em Lisboa, de terça a sexta das duas às sete e no sábado entre as dez e a uma e dentre as duas e as sete.


 


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POP ROCK - Hoje o tema é música pop, de inspiração electrónica, feita por um duo originário de Brooklyn e que dá pelo nome de Overcoats. O seu segundo álbum  é “The Fight”, acabado de publicar e disponível no Spotify. Hana Elion and JJ Mitchell são as duas compositoras e intérpretes que constituem o duo, cuja estreia foi em 2017 com o álbum “Young”. No início basearam-se na conjugação de um pop de instrumentação electrónica com algumas influências do folk, sobretudo na forma de cantar. Neste novo disco os arranjos são bem diferentes, entram guitarras e bateria e sente-se uma produção onde o rock se faz sentir mais presente, como no no tema “The Fool”, que foi o primeiro single Os dez temas do álbum são bastante diversos entre si, incluem uma balada acústica como”New Shoes”, a encerrar o disco, e um envolvente “I’ll Be There”, onde os arranjos vão crescendo ao lado das vozes. Outros temas em destaque: “Apathetic Boys”, “Leave If You Wanna” e “Fire And Fury”.


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EPISÓDIOS DA JUSTIÇA - Nos últimos anos ouvi numerosas crónicas de rádio de António Canêdo Berenguel, que, na TSF, contava episódios curiosos e algo rocambolescos da justiça portuguesa ao longo dos séculos. Berenguel é advogado em Portalegre e tem-se cruzado com muitas histórias no exercício da sua profissão - mas foi nos fundos dos arquivos judiciais que encontrou algumas das mais incríveis e surpreendentes, ocorridas nos finais do século XIX e início do século XX. Com o título “Histórias da Justiça”, essa sua rubrica da TSF contava coisas que vão da passagem de notas falsas em ceroulas até casos de  barbeiros abortadeiros, passando por furtos de galinha, queijos ou presuntos. Há histórias inacreditáveis como a de um político local que mudou a hora nacional, ou de ex- namorados que foram parar ao tribunal por uma disputa de sabonetes. Os títulos das histórias narradas são por si só um episódio: “A açorda e a morte suspeita”, “O tigre chamado Porfírio vivia no Rossio da vila”, “O porco comeu-lhe a merenda”, “O oficial de justiça apaixonado”, “As cartas da mulher do juiz”, “as mãos por baixo das saias” ou “mordeu a sogra junto à virilha” são alguns deles. O mais delicioso de tudo está nas citações dos registos dos julgamentos, a transcrição de sentenças  ou de boletins do registo criminal. É um retrato de Portugal num determinado tempo - mas em muitos momentos estes parecem ser casos de sempre, que se vão repetindo. Na introdução o autor constata que olhando para o país de então e para o país de hoje, muito mudou e interroga-se: O que mudou no essencial? Que povo fomos e somos? Que justiça é esta e foi a outra? Que valores cimentavam os laços sociais? Segundo o autor, «as respostas estão nos processos, um acervo documental único e o retrato fiel do país ao longo de séculos”. Edição Guerra & Paz.


 


PETISCO - O Folar Limiano é o meu tema desta semana depois de ter levado um que fez sucesso num lanche de amigos há uns dias. Elaborado com carnes seleccionadas e enchidos tradicionais, como o lombo do cachaço, o chouriço de carne, a barriga fumada e o chouriço para grelhar, o seu maior segredo está na massa, regada com vinho verde de Ponte do Lima, que lhe confere um sabor e uma textura inesperados. Este Folar Limiano tem um peso aproximado de 650 gramas, é uma óptima ideia para um petisco de fim de tarde e mantém-se fresco alguns dias. As carnes têm um sabor intenso, a massa tem um paladar delicado numa consistência suave. A receita deste Folar foi criada pelo chef Vitor Lima, que está à frente da Casa do Folar Limiano, em Ponte de Lima. Outra das suas especialidades são os bombons limianos, elaborados a partir de chocolate belga, com recheio de vinho verde, aguardente velha. A casa do Folar Limiano fica na Rua Salvato Feijó em Ponte de Lima mas pode comprar o Folar em Lisboa na Garrafeira Néctar das Avenidas, Rua Pinheiro Chagas 50, nas Avenidas Novas em Lisboa. Aproveite que além do Folar tem lá bons queijos e uma excelente selecção de vinhos.


 


DIXIT - “O coronavírus vai ser a prova de algodão do Governo de António Costa. Pela qualidade do combate à epidemia se verá se ele é um político de mão cheia” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “Nada na vida é para ser temido, mas sim para ser compreendido” - Marie Curie




março 06, 2020

É O ESTADO A INCENTIVAR O SEU PRÓPRIO DESCRÉDITO

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A CONFIANÇA - “A meio da batalha não se mudam os generais” -  disse esta semana o Primeiro Ministro no Parlamento, a propósito das falhas registadas na actuação das autoridades de saúde e da necessidade de se mudarem os seus responsáveis. A situação provocada pelo Covid 19 está a mostrar as grandes lacunas que existem na coordenação, mas também na disponibilização de meios humanos e materiais e na articulação da informação a profissionais da saúde e público em geral. Em última análise a questão é a capacidade de o Estado desempenhar o seu papel em prol dos cidadãos. E, infelizmente como já aconteceu em situações anteriores - recordo apenas a falta de coordenação do combate aos incêndios 2017 - a obstinação de não mudar responsáveis quando surgem problemas não é uma boa ideia. A Ministra da Saúde, que tem tido um desempenho em geral fraco, é, em última análise, a responsável pelo que se está a passar e os seus desencontros com a Direcção Geral da Saúde são um sinal preocupante. O que está em causa aqui é a forma como vamos perdendo a confiança no Estado, como vamos aceitando passivamente que as coisas não funcionam. A resignação face a um Estado ineficaz é uma ameaça ao funcionamento da democracia e é o caminho que abre campo ao populismo.  Num país onde o funcionamento da justiça levanta tantas dúvidas, onde as finanças distorcem a realidade e onde a saúde defronta problemas graves, avolumam-se as razões para o descrédito do Estado. E isso nunca é uma boa notícia. O Estado que é omnipotente de um lado e ausente de outro é um perigo para todos.


 


SEMANADA - Os serviços postais apresentaram 28 mil reclamações em 2019, mais 18% do que no ano anterior e o atraso na entrega foi o motivo que registou uma maior percentagem de queixas; a dívida pública situou-se em 252,1 mil milhões de euros em janeiro, aumentando 2,3 mil milhões relativamente ao final de 2019; ao contrário do que a Lei prevê, as Finanças não publicam os encargos trimestrais do Estado com as PPP desde há um ano; o Sporting já teve 24 treinadores desde 2000 e sob a direcção de Frederico Varandas já teve seis em apenas um ano e meio; o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa demitiu-se depois de surgirem suspeitas sobre a viciação dos sorteios de atribuição de processos, possibilitando a escolha de juízes de acordo com o interesse de uma das partes envolvidas; segundo o Eurostat Portugal está entre os países com sinais mais agudos de degradação do mercado de trabalho no arranque de 2020; Portugal tem quinta maior taxa de desemprego jovem da Europa; as chamadas por telefone fixo caíram 15% em 2019, a maior queda dos últimos quatro anos; os grandes contribuintes, com mais de 750 mil euros de rendimento ou património superior a cinco milhões de euros, aumentaram 34% em 2019; José Sócrates afirmou esta semana à saída do tribunal onde foi interrogado, que as perguntas do juiz sobretudo aquelas sobre umas férias no Algarve, eram "perguntas ridículas".


 


ARCO DA VELHA - Uma médica afirma ter telefonado 44 vezes para a Linha de Apoio Aos Médicos sobre o Covid 19 sem ter conseguido obter qualquer resposta e a linha Saúde 24 não atendeu 25% das cahamadas no pico da crise.


 


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DESENHOS NATURAIS - Esta semana sugiro uma ida à Galeria Monumental, que inaugurou recentemente duas exposições. A primeira mostra desenhos de Bárbara Assis Pacheco (na imagem), fruto das suas viagens, mas também das suas preocupações ambientais, baseadas na observação persistente da natureza. Num texto recente sobre uma das suas exposições dizia-se que Bárbara Assis Pacheco concorda com Goethe quando ele diz que «falamos demasiado — devíamos falar menos e desenhar». A artista é mesmo bastante lacónica e resume-se a si própria em quatro palavras: «Faz desenhos e coisas». A segunda exposição da Monumental tem um título retirado de um poema autobiográfico de William Wordsworth, “...quando as nuvens são pelo vento arrastadas do seu lugar favorito, onde descansam...” e usa livros em mau estado encontrados em alfarrabistas como a matéria prima, sobre cujas páginas a artista trabalhou. As duas exposições ficam patentes na Monumental até 28 de Março (Campo dos Mártires da Pátria 101). Outras sugestões: até sábado dia 7 ainda poderá ver na Fundação Carmona e Costa a exposição  ”The I Of The Beeholder” do colectivo Musa Paradisíaca, composto por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão (Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1). Para uma experiência perfeitamente diferente recomenda-se o Museu do Dinheiro, aberto em abril de 2016, distinguido em 2017 como “Melhor Museu do Ano” pela Associação Portuguesa de Museologia e que em 2019, cerca de 75 000 visitantes, interessados em saber mais sobre o dinheiro, a sua história e a sua evolução, em Portugal e no mundo. O Museu abriu agora um novo núcleo, “Compreender”, dedicado a explicar  a finalidade do Banco de Portugal, que ganhou relevância nos últimos anos pelos grandes contributos para a crise do sistema financeiro português (Largo de S. Julião).


 


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MÚSICA DARK - Pesadelos, fantasmas, espíritos errantes são os personagens recorrentes das canções de Agnes Obel, uma dinamarquesa com um estilo musical muito próprio, uma voz entre o murmurado e o sinuoso e arranjos instrumentais austeros, com larga utilização de electrónica. Obel tem feito bandas sonoras para algumas séries de televisão dinamarquesas e alemãs, como The Rain e Dark, e até jogos video, como o violento Dark Souls III: The Fire Fades Edition . O seu novo disco, “Myopia”, foi editado pela Blue Note, está disponível no Spotify e foi escrito, tocado, produzido e misturado integralmente pela própria Agnes Obel, que assegurou a voz, piano, teclas, sintetizadores e caixas de ritmos. O primeiro tema do disco dá logo o mote na forma como Obel canta e no clima sonoro que encenou e que se adensa depois. Destaque para “Island Of Doom”, “Roscian”, para a faixa-título “Myopia” e para a última faixa, “Won’t You Call Me”, onde a voz de Obel e o piano se envolvem reforçando um ambiente de mistério, que afinal, é o de todo o disco. Música de câmara pop fantasmagórica é como uma das críticas descreve este “Myopia”, o quarto disco da autora.


 


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RECEITAS & PETISCOS - Desde há bastante tempo que sigo o blogue “O Homem Que Comia Tudo”, do jornalista Ricardo Dias Felner, onde ele vai relatando as suas avaliações sobre restaurantes, petiscos ou coisas tão triviais como iogurtes de supermercado. Aí escreveu guias esclarecedores sobre, por exemplo, o bacalhau que por cá se come e anualmente atribui os prémios Cometa que têm uma extensa lista de nomeações, que vai das melhores sardinhas de conserva até à melhor sobremesa ou melhor empregado do ano. É uma lista incontornável. Agora “O Homem Que Comia Tudo” passou a livro, pela mão da Quetzal, e com o subtítulo “Aventuras culinárias, receitas e restaurantes de Portugal e do mundo”. A nota de introdução ao livro, uma citação de um dos textos de Felner, é por si só todo um episódio: “Se vou em viagem de carro e passo por um boi, começo logo a apreciar os cortes: o lombo, o acém, as abas gordas. No Oceanário toda a gente de volta dos tubarões e dos peixes coloridos e incomestíveis e a única coisa que me detém são as garoupas gordas, as douradas, os pargos”. E depois vem a contextualização da música e da comida, que é uma coisa que me toca muito - de John Cage o autor escolheu a citação “Cheguei à conclusão de que podemos aprender muito sobre música se prestarmos atenção ao cogumelo”; e, de Black Francis, dos Pixies: “ O nosso amor é arroz e feijão e banha de cavalo”. Citações à parte, o livro começa por uma cachupa, passa pelas sardinhas e carapaus e acaba na lagosta, descrita como  o insecto aquático da aristocracia”. Há avaliações de lugares, manuais de instrução para cozinhar, um guia de produtos culinários e considerações sobre a arte da restauração e da comida. Corro o risco de dizer que o livro é tão delicioso como as comidas de que fala com o maior empenho.


 


PÃO COM MANTEIGA - Hoje dedico-me ao pão - e, voltando ao livro de Ricardo Dias Felner acima citado, ele recorda a busca da perfeita baguette em Paris e elogia a baguette da padaria Isco, em Alvalade, na rua José de Esaguy 10. Claro que há outras boas padarias como a incontornável Gleba (Rua Prior do Crato 4, a Alcântara). Mas, voltemos à baguette e à geração de novas padarias que apostam em retomar a tradição da fermentação lenta. Encontrar uma baguette estaladiça é um exercício de perseverança e continuo a considerar que as baguettes são a melhor matéria prima para fazer boas sanduíches. Procurem-nas, então no Isco e já que estão em Alvalade vão ao mercado local, ali perto, e pesquisem queijo ou charcutaria do vosso agrado para rechear a baguette - naquele mercado há das melhores bancas lisboetas para esses produtos - também há bom pão regional, do pão de milho tradicional do norte do país ao pão de centeio.  Como curiosidade não resisto a recordar que a CNN considerou recentemente o pão de milho português como um dos 50 melhores pães do mundo e o da Gleba é muito bom. Se não tiver paciência de ir à Gleba ou ao Isco pode experimentar outras possibilidades. Por exemplo, um dos melhores pães alentejanos, que está disponível em vários supermercados, é produzido pela Fermentopão de Beja, tem uma massa saborosa, com o toque ázimo tradicional e é fácil de encontrar em Lisboa. Outra hipótese, de género diferente, mas também de muito boa qualidade, é o Pão da Lagoinha, produzido pela Maranata, em Palmela. São duas variedades de pão feito com recurso às receitas tradicionais das respectivas regiões, cozinhados diariamente sem recurso às massas congeladas que abundam em muitos locais. São óptimos consumidos frescos em fatias finas para petiscar com queijo, boas azeitonas ou presunto e muito bons, no dia a seguir, em fatias mais grossas, para torradas matinais - com manteiga Rainha do Pico, dos Açores, claro.


 


DIXIT - “Ninguém tira a Nuno Artur Silva o mérito de ter criado as Produções Fictícias e de ter gerido tantos talentos e tantos egos. Mas virtudes passadas não apagam vícios presentes. O equilibrismo que anda a tentar fazer desde 2015 entre cargos públicos e negócios privados não tem defesa possível.” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - “O silêncio é a virtude dos idiotas” - Sir Francis Bacon.








fevereiro 28, 2020

O CENÁRIO DE MEDINA - UMA CIDADE ESVAZIADA

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A GRANDE CONTRADIÇÃO - Nas últimas semanas assistimos ao anúncio, por Fernando Medina, de uma série de medidas de limitação do trânsito em zonas centrais de Lisboa. As medidas anunciadas vêm na linha das sucessivas barreiras levantadas ao trânsito automóvel com o estreitamento das vias, como na Avenida Defensores de Chaves, onde foram colocados até obstáculos que, além de dificultarem a circulação, colocam em causa a segurança, sobretudo em caso de transportes de urgência. A contradição é também evidente quando se observam obras como as que agora se desenvolvem na Rua de Campolide, onde se projecta alargar as faixas de uma via de entrada em Lisboa. O resultado será maior desconforto para os moradores locais, mais trânsito, ainda mais engarrafamentos no local - em suma mais poluição daquela que se anuncia querer combater. Os maiores problemas do trânsito em Lisboa vêm do enorme número de carros que entram na cidade porque os transportes não funcionam, não são essencialmente provocados pelos carros dos moradores locais. Com esta equipa autárquica Lisboa está a transformar-se numa cidade que é estranha aos seus: uma cidade para visitantes, que prefere não ter os habitantes que lhe deram a aura que os turistas procuram. Ao retirar a população tradicional da cidade, substituindo-a por convidados eventuais, está a derrubar-se um dos pilares de uma cidade viva: ter gente de todas as idades e classes que a habite, no seu centro, e não na periferia. O que a dupla Salgado-Medina fez, aproveitando-se da conivência do simplório e triste Zé, foi fomentar a especulação imobiliária e destruir a diversidade. Agora vivemos numa cidade-montra onde se faz tudo menos tornar a vida mais fácil aos seus habitantes tradicionais. Parece que a cidade foi esvaziada e transformada num cenário. E quem paga os seus impostos na cidade deixou de fazer parte do mapa.


 


SEMANADA - Desde há cinco meses que, por falta de condições, está suspensa a admissão de doentes para transplante de fígado no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra; entre janeiro e novembro do ano passado foram comprados nas farmácias 670 milhões de euros de medicamentos, mais 18,5 milhões que em período idêntico do ano anterior; as burlas via sms custam aos consumidores um milhão de euros por ano; as famílias portuguesas gastaram, no ano passado, 9,7 mil milhões de euros em nas compras para casa, incluindo produtos alimentares,  um aumento de 4,8% face ao ano anterior; os portugueses gastaram 890 milhões de euros em novos telemóveis durante o ano passado; as pensões mínimas sobem 54 cêntimos por dia; foi anunciado que o Novo Banco vai pedir mais de mil milhões de euros ao Fundo de Resolução por causa dos prejuízos que registou de novo em 2019;  a Comissão de acompanhamento dos ativos tóxicos do Novo Banco está incompleta há um ano e os seus responsáveis não conseguem encontrar quem se disponibilize a ir para lá; um grupo de generais enviou uma carta ao Presidente da República alertando para “o processo de desconstrução e pré-falência com que as forças armadas se defrontam”; as mortes por enfarte, AVC ou cancro estão nos níveis mais elevados desde 2008; o Ministério da Educação tem recusado dar a listagem das escolas de onde ainda não foi removido amianto.


 


ARCO DA VELHA - A Polónia já ultrapassou Portugal em PIB por habitante, uma evolução de duas décadas, em contraste com quase 20 anos de estagnação em Portugal.


 


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A TRANSFORMAÇÃO DOS MÓVEIS - Neste fim de semana um bom número de galeristas e alguns artistas portugueses estão na ARCO Madrid. Mas por cá pode continuar a ver algumas das exposições que abriram durante o mês de Fevereiro. Comecemos por “Mais do Mesmo”, de Patrícia Garrido, na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Garrido usou móveis de proveniências diversas que a artista depois cortou em pedaços criando a partir deles novas peças de várias formas, quase como a construção de um puzzle cuja imagem nada tem a ver com a do móvel original. É um campo de trabalho que Patrícia Garrido abriu há cerca de cinco anos e que já a levou a comprar recheios inteiros de casa para transformar em pedaços que criam novas peças. Há um ano, na Fundação EDP do Porto, apresentou uma dessas peças, de grande dimensão, que agora mostra pela primeira vez em Lisboa. A ideia é dar nova vida e nova forma a móveis que fizeram parte de outras vidas e a artista encara este seu trabalho como um olhar para o espaço interior que os móveis habitaram e propor, através da sua manipulação, um novo habitat. Além da peça de chão na imagem Patrícia Garrido expõe igualmente na Miguel Nabinho três pinturas. Outras sugestões: no Centro de Artes Visuais (Pátio da Inquisição 10, Coimbra) estão até 14 de Abril “Invalid Passwords” de Noé Sendas e “Unfinished Past” de Henrique Pavão. Em Lisboa, também até 14 de Abril, Hugo Brazão expõe “Out Of Sight, Out Of Mind” na Balcony, Rua Coronel Bento Roma 12. “Uma lufada de fumo na cara” é uma exposição sobre o ato de camuflar com obras de  Nicky Coutts, Theodore Ereira-Guyer, Mariana Gomes, Jorge Santos, Pedro Valdez-Cardoso e Carmela Garcia, trabalhos de desenho, gravura, xilogravura, fotografia e colagem - na Galeria Diferença, Rua S. Filipe Neri 42  Fora de portas Cecília Costa expôs na Detour,  em Beverly Hills, durante a Frieze Los Angeles. A Detour assume-se como uma plataforma sem local fixo que pretende conectar artistas, instituições e galerias para mostrar novas tendências da criação artística e que acolheu peças de Cecília Costa.


 


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CRIME HISTÓRICO - Não existem muitos romances históricos em Portugal e os poucos que têm sido publicados são essencialmente à volta de figuras de primeiro plano da História. Construir um romance, com base em factos reais, à volta do relato do julgamento e condenação de uma mulher acusada de matar crianças é a base de “A Assassina da Roda”, de Rute de Carvalho Serra , uma jurista que se tem dedicado a estudar a criminalidade em Portugal ao longo dos tempos. Desta vez dedicou-se a contar o que sucedeu em 1772 quando Luiza de Jesus foi acusada de ter assassinado 33 crianças abandonadas e expostas na roda da Misericórdia de Coimbra. O intendente Pina Manique foi o seu julgador e a decisão do tribunal foi a pena de morte -  Luiza de Jesus foi a última mulher executada em Portugal. O romance detalha os meandros da investigação e do julgamento, com os pormenores do interrogatório, violento, com as torturas permitidas à época. Toda a escrita está cheia de detalhe, mostrando como na instrução do processo pesaram os equilíbrios e ajustes do sistema judicial de então. Do romance não sai a certeza da culpa da condenada - cria-se uma dúvida que fica até ao relato da sua execução pública.


 


image.pngMÉTODO ELECTRÓNICO - A carreira de Rodrigo Leão tem sido uma sucessão de evoluções de projectos, desde os Sétima Legião em 1982, passando pelos Madredeus em 1985, até ao início da sua carreira a solo em 1993 com o disco “Ave Mundi Luminari”. Há quase quatro décadas que o trabalho de Rodrigo Leão, nas várias etapas da sua carreira, marca a música portuguesa, quase sempre inovando. Após uma ausência discográfica de cerca de três anos, depois de “A Vida Secreta das Máquinas”, “O Retiro” e “Life Is Long”, eis que surge novo trabalho, “O Método”. Não é nenhuma mudança drástica, mas é uma evolução assinalável, ao lado dos seus companheiros de sempre, Pedro Oliveira e João Eleutério. Desta vez chamou também um músico italiano, Federico Albanese, que trabalhou sobretudo nos arranjos e na utilização da electrónica, e participa em alguns temas (como o que dá o título ao disco). Além disso Albanese foi o responsável pela presença de Casper Clausen, um dinamarquês que integra os Efterlang, e que empresta a voz a uma das composições, aliás a par do próprio Albanese. A russa Viviena Tupikova, a violinista que há uns anos trabalha com Rodrigo Leão, desta vez surge também a cantar num dos temas, “O Cigarro”. Por fim Rodrigo Leão utiliza a técnica de andar para trás na gravação (reverse), para distorcer a voz da própria filha no tema “Bailarina”. De um modo geral a electrónica é mais presente que em registos anteriores, incorporando as influências de compositores como Nils Frahm, Ólafur Arnalds ou Max Richter , como o próprio Rodrigo leão Aponta. Segundo ele o trabalho que fez de ilustração musical para a exposição “Cérebro, Mais Vasto Que o Céu”, na Fundação Gulbenkian, foi um novo ponto de partida que acabou por resultar neste “O Método”, mais minimalista, mais depurado, com maior recurso à electrónica e, com uma energia renovada a que não é alheia a simplicidade de toda a sonoridade. Edição BMG, disponível no Spotify.


 


O SÁVEL - Esta época do ano é a boa altura para tomar o pulso a duas iguarias: sável e lampreia. De lampreia ainda não lhe vi o rasto e tenho algumas dúvidas sobre o que se passa com o ciclópode face à proliferação de letreiros que dizem “há lampreia” num ano em que, segundo os entendidos, as condições climatéricas não foram as melhores para a espécie. Um dia destes tentarei encontrar uma das boas e raras, que não venha congelada de paragens distantes do outro lado do oceano - e depois falaremos. Já do sável só tenho a dizer bem, os vários que provei já este ano estavam todos em boas condições. Permito-me destacar o mais recente, desta semana, no clássico Alfoz, de Alcochete. O sável veio cortado em fatias finíssimas, invulgarmente bem cortado, com uma fritura impecável, estaladiça e seca. Estava verdadeiramente fora de série, acompanhado por uma açorda de ovas que não desmereceu. Outra possibilidade teriam sido ovas de pescada grelhadas, acompanhadas de legumes salteados. Provadas as ovas revelaram-se bem no ponto e saborosas, grelhadas sem terem ficado secas. Massada de garoupa, caldeirada de línguas de bacalhau com ovo escalfado e garoupa à Bulhão Pato são outras opções. O Alfoz continua a servir bem, a ter produtos frescos e a saber prepará-los, oferecendo uma soberba vista sobre o Tejo e Lisboa. Em meia hora está-se lá e a relação qualidade-preço é muito boa. O Alfoz fica na Avenida D. Manuel I, em Alcochete, telefone 212 340 668. 


 


DIXIT - “Não deite nada fora! Mais que um arquivo a Ephemera é um movimento pela memória, logo, pela democracia”- José Pacheco Pereira no décimo aniversário da Ephemera.


 


BACK TO BASICS -  “O poder não garante inteligência” - Vasco Pulido Valente.





fevereiro 21, 2020

NOVO PASSATEMPO GOVERNAMENTAL: BRINCAR COM AS LEIS

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MUDE-SE A LEI AO SABOR DO MINISTRO - Portugal tem um Ministro que pensa ser lícito e normal mudar a Lei a seu belo prazer, para que os seus objectivos sejam cumpridos sem sobressaltos. Esta semana, numa Comissão Parlamentar, o Ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, anunciou que o enquadramento legal da certificação do aeroporto do Montijo tem que ser revisto para impedir que a Lei actual se cumpra. A Lei actual dá direito de veto a autarquias que se sintam prejudicadas pela construção de qualquer estrutura aeroportuária e há pelo menos dois municípios da região que já anunciaram que iriam recorrer a essa Lei. A construção do novo aeroporto do Montijo tem levantado polémicas ambientais e de segurança mas, apesar disso, o Governo quer cumprir o negócio, cadas vez mais suspeito, que fez com a empresa concessionária dos aeroportos nacionais. Com as atenções focadas no debate sobre a eutanásia as declarações de Pedro Nuno Santos passaram meio despercebidas. Mas são graves: mostram que um membro deste Governo pode ignorar a Lei vigente e fazê-la à medida dos seus interesses. Talvez alguma alma caridosa possa explicar a este ambicioso político do PS que o expediente de mudar a Lei para um Governo fazer o que quer é coisa típica de ditadores, é um acto de desrespeito para com a democracia e para com os cidadãos. Com Ministros assim não se pode dormir descansado. Pedro Nuno Santos, que tem feito um bom trabalho na ferrovia, esteve mal neste caso. Muito mal. Convinha que dentro do PS alguém lhe explicasse que convém respeitar a Lei em vez de a mudar porque dá jeito.


 


SEMANADA - Portugueses apostam por dia 9,5 milhões de euros em jogos online; dez antigos gestores bancários, de Ricardo Salgado a Oliveira e Costa, passando por Tomás Correia, acumulam coimas de quase 17 milhões lançadas por supervisores como o Banco de Portugal ou a CMVM;  nos últimos seis anos, o Banco de Portugal lançou coimas de mais de 49 milhões e a CMVM quase 17 milhões, mas estas coimas tendem a arrastar-se em tribunal e acabam muitas vezes na prescrição; a gestão de Tomás Correia no Banco Montepio já levou o supervisor a aplicar coimas no valor de quase nove milhões de euros; em 2019 os portugueses endividaram-se a um ritmo de 20,8 milhões de euros por dia em crédito pessoal, compra de automóvel, cartões de crédito e contas a descoberto num total anual de 7,6 mil milhões de euros, o que constitui um novo recorde; as operações financeiras suspensas por suspeitas de branqueamento triplicaram em 2019 e congelaram em Portugal 2,5 mil milhões de euros; o INEM forneceu máscaras danificadas para as equipas de emergência que atendem casos de suspeita de coronavírus; o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu uma sentença onde se aceita que possam ser proferidos insultos contra intervenientes num jogo de futebol; um deputado do PS pediu imunidade parlamentar num processo em que é acusado de insultar um árbitro de uma prova de pesca.


 


ARCO DA VELHA -  O secretário de estado das comunicações, Alberto Souto de Miranda, escreveu um artigo em defesa do aeroporto do Montijo onde, relativamente às dúvidas sobre a preservação da fauna animal no estuário do Tejo, afirma: “os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem”.


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O LABIRINTO E AS CIDADES NO MUSEU BERARDO - Desde a semana passada a arquitectura das galerias do piso -1 do Museu Berardo transformou-se de forma radical. Joana Escoval optou por tratar o espaço como parte da obra em “Mutações, The Last Poet”, a sua exposição que lá estará patente até 19 de Abril, com curadoria de Pedro Lapa. Estou a falar de uma instalação quase labiríntica que se desenvolve numa série de curvas orgânicas onde se vão fazendo descobertas. É como se o visitante percorresse o interior de um organismo vivo onde de repente surgem esculturas, videos, sons, sugestões de desenhos através de fios metálicos ou fotografias. Joana Escoval, 38 anos e expõe desde 2010, tendo feito residências artísticas em vários países. Aqui, numa surpreendente e inesperada exposição, explora o movimento constante de transformação das ideias e formas - daí as Mutações. Ao mesmo tempo, também no Museu Berardo, está patente uma exposição de fotografia de Andreas H. Bitesnich, “Deeper Shades, Lisboa e Outras Cidades”, comissariada por João Miguel Barros. A exposição é o resultado da  residência artística de Andreas H. Bitesnich em Lisboa, em 2019,  e integra a série Deeper Shades: retratos de grandes cidades vistas pelo artista nas últimas três décadas (na imagem). Apesar de o núcleo principal estar centrado em Lisboa, incluem-se ainda imagens dos seus projetos anteriores (Nova Iorque, Tóquio, Paris, Viena e Berlim). Andreas H. Bitesnich combina a fotografia de rua com fotografia de estúdio, oscilando entre o imaginado e o construído. Sábado 22, pelas 16h00, há uma visita guiada à exposição com a participação do autor e do curador.


 


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COUNTRY GREGORIANO - A norte-americana Mackenzie Scott fez três discos para  a etiqueta 4AD e foi despedida. Entrou numa crise criativa e depois de um interregno longo saíu-se com um disco magnífico. Como é seu hábito foi composto, tocado e cantado por ela - mas neste caso com a produção musical ficou também a seu cargo. Assina com o nome Torres, e o disco “Silver Tongues”, lançado recentemente está disponível no Spotify e é uma das minhas descobertas recentes. Musicalmente Torres está algures entre o country contemporâneo e o rock independente, há influências de Anna Calvi ou P.J.Harvey (o que não é espantar porque num dos discos anteriores Mackenzie trabalhou com o mesmo produtor) e nas letras e conceito geral há toques que vão de Ray Bradbury a Kurt Cobain.  E, calcule-se, influências do canto gregoriano - daí a própria dizer que este é um disco “country-gregorian”. O álbum anterior tinha sido editado em 2017 e a sua carreira discográfica, que começou em 2013. é caracterizada por uma sonoridade dura, com a sua guitarra e percussões frequentemente em primeiro plano. O tema do álbum é a estabilidade que Scott sente que o amor lhe proporciona - o disco tem um lado autobiográfico, respeitante à sua relação com a namorada, a artista Jenna Gribbon. No novo disco há menos tensão e dramatismo nos anteriores. “Silver Tongues” é o seu trabalho mais intimista. Destaque para os temas “Good Scare”, “Last Forest” “Dressing America” e o acústico e envolvente “Gracios Day”.


 


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LIÇÕES DA INDÚSTRIA DA MÚSICA - Quando a Apple lançou o primeiro iPod, em 2001, começou a grande reviravolta da indústria discográfica e musical. Ao longo das últimas duas décadas assistimos ao desenvolvimento de uma nova forma de possuir e ouvir música, que culminou com o surgimento do Spotify em 2008 e que desde aí se tem desenvolvido e alargado. A venda de CD’s caíu drasticamente, o modelo de negócio de artistas, produtores de espectáculos e editores discográficos mudou radicalmente. Alan B. Krueger foi um economista americano e esta é a sua derradeira obra, já que ele morreu no ano passado, pouco depois da sua edição. Foi economista-chefe do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos entre 2009 e 2010 e presidiu ao Conselho Económico do Presidente Barack Obama entre  2011 e 2013. Era um apreciador esclarecido e reconhecido de música rock, que fazia parte do seu dia a dia. “Rockonomics” é o livro onde Krueger fala sobre o que a indústria da música nos pode ensinar sobre economia e sobre a vida. Para fazer a interpretação das alterações ocorridas, Krueger realizou entrevistas com músicos, executivos de editoras, agentes de artistas e promotores de concertos e a dados recentes sobre colecta de direitos de autor, receitas de streaming e vendas de merchandise, por exemplo. No livro estão as respostas do autor a questões como estas: como é que uma canção se torna popular? Como pode um novo artista nesta nova economia e paisagem audiovisual? Como podem os músicos e demais trabalhadores ganhar a vida na economia digital? . Nas páginas finais do livro, Krueger reconhece que a música teve um impacto profundo na sua vida e este livro é testemunho disso mesmo. Edição Temas & Debates, do Círculo de Leitores.


 


PETISCOS MOÇAMBICANOS - Uma das boas coisas de Lisboa é que cada vez tem mais restaurantes que representam vários países. Longe vão os tempos em que existiam apenas os chineses, italianos ou os indianos. Já houve algumas tentativas africanas bem conseguidas - e até duas ou três moçambicanas. Mas agora, em plenas Avenidas Novas, surgiu o Chiveve, que neste momento deve ser o expoente da gastronomia de Moçambique em Lisboa. À sua frente está um casal, Edner Abreu a comandar as operações na sala e na cave dos vinhos e a sua mulher, Sheila Abreu, na cozinha.  Há um menu executivo ao almoço, ao competitivo preço de oito euros, com um prato de origem moçambicana e outro português. Mas é na lista do menu que surgem as propostas mais interessantes. Começo por destacar as chamussas de carne, absolutamente impecáveis. Depois surpreendi-me com o caril de camarão com quiabos, tempero no ponto, a evitar abafar o sabor dos camarões, tudo acompanhado de um bom arroz basmati. Ficou para outro dia provar o caril de caranguejo desfiado ou o matapá de peito de caranguejo, com o bicho a ser importado de moçambique - de onde vem também a cerveja que o pode acompanhar. O caril de peixe e gambas é uma receita tradicional, bem conseguida. Como bem conseguido - e elogiado por conhecedores - é o frango à zambeziana, receita clássica, com um piri piri caseiro e enérgico à disposição. Foi provado um bom branco alentejano, o Etc da Herdade do Álamo, feito pela mão de Filipe Sevinate Pinto com uvas das castas Roupeiro, Arinto e Antão Vaz. A sala é confortável, bom serviço, bom ambiente e um busto em bronze de Eusébio a recordar o grande embaixador do futebol moçambicano. O nome do restaurante vem do rio que banha a cidade da Beira e o Chiveve fica na Rua Filipe Folque 19, telefone 218036347.


 


DIXIT - «Convém socializarmos um bocadinho menos, termos alguma distância social, não nos beijarmos tanto, não nos abraçarmos tanto» -  Graça Freitas, Diretora Geral da Saúde.


 


BACK TO BASICS - “Se ensinares, ensina ao mesmo tempo a duvidar daquilo que estás a ensinar” - Jose Ortega Y Gasset