
Este país não é para novos, no interior ainda menos. Estou a escrever de numa aldeia bonita, com História. A paisagem, a descer para o Tejo, é soberba, o último pedaço de Alentejo, antes da Beira Baixa. A aldeia chama-se Amieira do Tejo. Como muitas outras aldeias do interior esta existe há centenas de anos, desde o século XII para ser mais exacto . Hoje, esta e outras aldeias estão quase desertas, um contraste com o que se passava há pouco mais de meio século. Amieira do Tejo, concelho de Nisa, de onde é a minha família, tem um castelo construído no século XIV pelo pai de D.Nuno Álvares Pereira, uma fortificação de defesa que servia para proteger a linha do Tejo. Mais tarde, no início do século XVIII, Amieira era uma vila próspera e desenvolvida, onde viviam cerca de setecentas pessoas. Em meados do século XX mantinha quase 800 habitantes, tinha uma actividade agrícola intensa, dois lagares de azeite, muita cortiça, meia dúzia de estabelecimentos comerciais, escola primária, hospital, médico e padre residentes. Nas décadas de 60 e 70 do século passado chegaram os eucaliptos e foram-se as oliveiras e os sobreiros, a aldeia esvaziou-se, gente a ir trabalhar para Lisboa, outros partiram para França ou Alemanha. No final dos anos 70 a aldeia já só tinha cerca de 500 habitantes e hoje em dia tem pouco mais de 200. Nos últimos anos acentuou-se o declínio demográfico, muitas das casas estão degradadas, muitas à venda, mas poucas são recuperadas - encontrar quem faça obras não é fácil. Passeio pelas ruas e vejo várias casas com correntes fechadas a cadeado, janelas partidas, algumas com os telhados caídos. Quase desapareceram crianças, a média de idades dos que cá vivem é alta, mas recentemente chegou gente de fora com filhos pequenos, a tentar fazer aqui vida. As crianças têm de fazer quase vinte quilómetros para irem à escola. Os mais velhos têm mais sorte: na aldeia há um centro de dia e um lar de idosos. Este país não é para novos, e é uma pena. Mudar isto era a mais necessária das muitas reformas de que Portugal prercisa.