junho 06, 2026

A FILOSOFIA INESPERADA

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Quase todos os fins de semana faço compras no mesmo supermercado e é lá que compro também o jornal diário. Tenho ainda essa mania de gostar de ver as coisas em papel mesmo quando já vi quase tudo nas edições online. Regressemos ao supermercado. Muitas vezes quem está na caixa é um rapaz com quem, ao longo dos anos, fui metendo conversa - a culpa é dele aliás porque, sempre bem disposto e simpático, reparou que eu, além dos frescos e mercearias, levava sempre o jornal - e me elogiou por isso. A partir daí, já lá vão uns anos, trocamos dois dedos de conversa sobre a actualidade. Ele muitas vezes já espreitou a capa na banca onde estão os jornais e faz um comentário interessado, ou, por vezes, pergunta a minha opinião sobre um qualquer assunto que está nas notícias. Aos poucos, conversa traz conversa, soube que ele estudava na área do design. Trabalha uns tantos dias no supermercado e, em simultâneo,  frequenta as aulas, por sinal ainda um bocado longe de casa. É um rapaz interessado pelas coisas, o país e o mundo,  como não se encontra com facilidade hoje em dia. Gosta de ler, gosta de estar a par das notícias. No domingo passado lá ia eu para pagar, com o jornal no meio do resto das compras. Foi o dia em que Edgar Morin estava na capa, a notícia da sua morte a ocupar quase toda a página. E vai daí, diz ele: “gostei muito de estudar Morin, em filosofia”. E antes que eu dissesse alguma coisa, continuou:”viveu felizmente muitos anos, sempre a pensar bem, deixou-nos muitas lições”. Concordei com ele, claro, e fiquei a apreciar o momento, esta súbita troca de palavras no sítio mais inesperado. Como estava escrito na capa do jornal, Morin foi “o filósofo que nos ensinou a viver na incerteza” e teria ficado bem contente por saber que foi o tópico de uma conversa na fila de pagamento de um supermercado da periferia de Lisboa. Ainda fiquei a apreciar mais o meu habitual interlocutor das compras de fim de semana.