
O CAOS NAS VIAGENS - Desde há meses que se registam grandes atrasos no processo de entrada em Portugal de cidadãos provenientes de países fora da Comunidade Europeia. Na origem dos atrasos está um novo sistema, europeu, de controlo biométrico dos visitantes extra comunitários, implementado em Abril passado. As demoras no aeroporto de Lisboa, e também nos do Porto e Faro, são tão grandes que o novo controlo já foi suspenso uma vez, o que poderá suceder de novo. Na semana passada as principais companhias aéreas vieram alertar para a necessidade de reavaliar o funcionamento de todo o sistema, que provoca atrasos, perda de ligações aéreas e grandes constrangimentos. Nada disto nos deve espantar. Num país onde o Estado tem problemas crónicos no funcionamento de serviços públicos básicos, da justiça à saúde, passando pela educação ou a protecção civil, a novidade seria que um novo sistema, com alguma complexidade, funcionasse bem. O improviso e a falta de planificação reinam como é habitual e só passados todos estes meses alguns responsáveis perceberam que eram necessárias mais máquinas e mais funcionários junto a elas. Mas o problema, desta vez, não é só português, o caos instalou-se em vários aeroportos europeus. Na origem está um sistema, pensado, desenhado e adjudicado por Bruxelas que claramente se revela desadequado - de tal forma que as autoridades europeias temiam os atrasos e longas filas que agora ocorrem. Este é apenas o mais recente exemplo de uma imposição central da UE que foi mal pensada, mal planeada e pessimamente executada. Não é a primeira vez que decisões deste género, que significam investimentos enormes, se revelam um grande e suspeito problema. Quem, na União Europeia, criou, desenhou e adjudicou este complexo sistema e a sua implementação, quem adjudicou milhões de euros de máquinas e sistemas que funcionam mal deve ser inquirido. A corrupção, de mãos dadas com a burocracia, é a causa dos problemas que um pouco por toda a Europa percorrem o sistema político de todos os países. Em muitas situações, Bruxelas tem as mãos sujas e persiste em não querer lavá-las. E nada disto tira responsabilidades às autoridades portuguesas que, como é costume, só acordaram para o problema quando ele lhes rebentou na cara.
SEMANADA - Num estudo que abarcou 127 cidades europeias, Lisboa surgiu como aquela onde o aluguer de um T1 é o mais caro, representando 99,15% do salário médio; até final de 2027 Lisboa vai ter 39 novos hotéis com 2900 quartos, um acréscimo de 10% relativamente à oferta agora existente; uma reportagem do “Expresso” indica que há um número crescente de emigrantes, nomeadamente brasileiros, que estão a sair de Portugal, de regresso ao Brasil ou com destino a Espanha devido às condições de trabalho, custo de habitação e os atrasos na regularização da sua situação; foi neste contexto, de enormes atrasos de regularização de processos, que o sindicato dos Técnicos de Migração, da AIMA, convocou uma greve para 1,2,3 e 5 de Junho (aproveitando o feriado de Corpo de Deus de dia 4) e garantindo assim uma semana inteira fora dos seus postos de trabalho; segundo o Conselho das Finanças Públicas a contribuição dos trabalhadores estrangeiros para a Segurança Social, já subtraída das prestações sociais que recebem, foi de 16,3 mil milhões de euros entre 2025 e 2025; 60% dos alunos do ensino básico e secundário dizem que não dormem o suficiente ou não acordam repousados; as novas regras de acesso ao ensino superior restringem entrada de estudantes com deficiência; em 1975, as crianças até aos 12 anos eram 22% da população, mas hoje são 9,8%: Portugal é o quarto país da União Europeia com menos crianças; segundo a Pordata as crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas por semana em creches e escolas na Europa.
O ARCO DA VELHA - O director do serviço de Gestão de Recursos Humanos da Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental, André Coelho Dias, foi acusado de ter prendido uma trabalhadora a uma cadeira com fita cola para a obrigar a terminar um trabalho que lhe havia pedido.

HISTÓRIAS CANTADAS - Kurt Vile, compositor e músico norte-americano já leva três décadas de carreira e dez álbuns de originais, incluindo o seu novo trabalho “Philadelphia’s Been Good To Me”. Aos 46 anos este compositor reforça a sua observação do mundo, evita rupturas musicais e faz o que melhor sabe: canções serenas, pequenas histórias, frequentemente confessionais, cantadas com sensibilidade. São 12 canções com pérolas como “Piano For Sarah”, “99th Song”, “You Don’t Know Because It’s My Life”, “Everytime I Look At You” ou o tema título “Philly’s Been Good To Me”. Disponível nas plataformas de streaming.
DIAS INSPIRADORES - No grande salão da Sociedade Nacional de Belas Artes, Inez Teixeira apresenta até 11 de Julho a exposição “Quarenta Dias Sem Deus”. São dezenas de desenhos e pinturas, de vários formatos, maioritariamente inéditas, produzidas entre 2018 e 2026. A exposição, apoiada pela Fundação Carmona e Costa, foi concebida especificamente para este espaço, com curadoria de Nuno Faria e um projecto expositivo concebido pelo atelier de arquitectura Promontório. Na SNBA está um conjunto alargado de obras, de desenho e pintura, divididas em quatro séries, maioritariamente inéditas, produzidas entre 2018 e 2026. A artista, sublinha um texto do curador, propõe com estas obras “uma meditação sobre o tempo, a fragilidade e o desaparecimento, mas também sobre a possibilidade de reflorescimento e recomeço”. O título da exposição, de inspiração bíblica, evoca o jejum e a purificação como caminhos para uma nova etapa. Nuno Faria sublinha que as quatro séries apresentadas,”relacionam-se por confluência e por contraste - contraste de escala e de materiais, confluência de temas, de espírito e de ânimo”. Esta é seguramente a mais importante exposição de Inez Teixeira e revela o seu crescimento enquanto artista. Os desenhos a carvão logo à entrada são uma das peças mais fortes da exposição, assim como as grandes pinturas que ocupam toda uma parede. (SNBA - Rua Barata Salgueiro 36).

ROTEIRO - O destaque desta semana vai para a exposição “Dawn”, de João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, na Galeria Cristina Guerra, que prossegue o trabalho desta dupla de artistas em torno da defesa da identidade, o combate ao preconceito e a provocação como forma de afirmação política. Alexandre Vale e Nuno Alexandre Ferreira observam o mundo à sua volta e propõem preservar a memória de espaços, momentos, rituais que fazem parte do seu quotidiano social e pessoal. Através de uma instalação que evoca os percursos da noite, percorrendo uma sucessão de quatro peças que interpretam os espaços que acolhem e facilitam proximidades, este é um trabalho onde público e privado se misturam e o prazer viaja por entre o anonimato. Na inauguração os espaços foram habitados numa performance (na foto). Até 4 de Julho, Rua de Santo António à Estrela 33. Na Galeria Monumental, Álvaro Rosendo revisita em fotografia os 40 anos daquele espaço que ajudou a fundar e lançou uma edição numerada de 20 exemplares de um pequeno catálogo que serve de testemunho da exposição “Monumental Zero, 1985-1987” (Campo dos Mártires da Pátria 101). No Porto a Galeria Quadrado Azul (Rua Miguel Bombarda 553) reabriu com a exposição “A Viatura Sem Condutor”, de Bernardo Ferrão. E em Lisboa, a Galeria Francisco Fino acolhe até 26 de Setembro a sua primeira exposição de Alfredo Jaar, “One Million Points Of Light”, com curadoria de Mauriuzio Bortolotti (Rua Capitão Leitão)

O FASCÍNIO DO ORIENTE - Em 74 páginas com magníficas ilustrações, “O Dragão Chinês: Uma Enciclopédia” é um álbum cuidadosamente editado e que nos permite perceber a importância do dragão, símbolo da nação, a cultura chinesa que se desenvolve em torno do Dragão e os valores e a visão ancestrais do povo chinês. O livro começa por mostrar a origem do dragão, incluindo as suas espécies, linhagens e animais míticos relacionados, sem esquecer as lendas com mais de oito mil anos. Esta singular enciclopédia mostra o sistema de conhecimentos chineses sobre o dragão, que abrange a literatura, a história, a arquitectura, a arte, os festivais, o zodíaco ou o património cultural. O álbum percorre as criaturas mitológicas chinesas, as diferenças entre dragões do Oriente e dragões do Ocidente, o zodíaco chinês e a muralha dos nove dragões na cidade proibida de Pequim.

MESA DE CABECEIRA - “O Silêncio dos Livros”, um curto ensaio de George Steiner, há muito esgotado, foi agora reeditado com um prefácio de Onésimo Teotónio Almeida, cujo título diz tudo:”O Livro de Cada Dia nos Dai Hoje”. Steiner, um importante crítico literário, que leccionou literatura comparada nas universidades de Genebra e Oxford, sublinha neste ensaio a permanência sempre ameaçada e a fragilidade da escrita. A sua abordagem entusiástica da leitura corre em paralelo com uma crítica radical das novas formas de ilusão, de intolerância e de barbárie produzidas no seio da sociedade contemporânea. O livro inclui ainda um outro ensaio, de Michel Crépu, “Esse Vício ainda Impune”. Edição Gradiva. Outro livro para quem gosta de pensar sobre o que lê, é “Manifesto pela Leitura” , uma defesa intransigente da importância de livros e leituras, da espanhola Irene Vallejo. Os livros, defende, “são refúgios da memória, espelhos onde nos olhamos para podermos ser mais parecidos com aquilo que desejamos ser (...) Os livros recordam-nos, serenos e sempre prontos a desdobrar-se diante dos nossos olhos, que a saúde das palavras está enraizada nas editoras, nas livrarias, nos círculos de leitura partilhada, nas bibliotecas, nas escolas. É aí que imaginamos o futuro que nos une”. Edição Bertrand.
ALMANAQUE - Um dos mais encantadores museus de Londres é o Wallace Collection, localizado no centro da cidade, em Manchester Square, na Hartford House, uma antiga residência familiar. Tem uma enorme colecção de pintura, cerâmica e objectos do século 18 e 19 e acolhe exposições temporárias. A actual é uma retrospectiva sobre a pintura de Winston Churchill, que pode ser vista até 29 de Novembro.
DIXIT - Ano após ano, governo após governo, vemos que a cultura fica sempre de lado e só é importante na altura em que os senhores candidatos precisam de pessoas com alguma visibilidade para que sejam melhor ouvidos” - Marina Mota
BACK TO BASICS - “O pessimismo é um problema maior do que as alterações climáticas(...) o optimismo é um dever moral” - Ian McEwan
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS