August 22, 2004

DE «O INDEPENDENTE
da passada sexta-feira:

INFORMAÇÃO E JUSTIÇA

Durante o último ano tornou-se evidente que Portugal vivia uma crise de costumes e uma grave crise na Justiça. Nas últimas semanas tornou-se patente que a crise na imprensa e no jornalismo é tão grande quanto a que existe na Justiça – e os problemas no jornalismo português evidenciam-se particularmente quando se trata de abordar casos precisamente na área da Justiça e do comportamento social.
O que se passou nas últimas semanas veio apenas mostrar o que muita gente já intuía: as notícias sobre processos judiciais em curso emanam dos próprios orgãos de investigação, existem relações de promiscuidade entre polícias, magistrados e jornalistas. Há quem ache que a divulgação pública de uma suspeita pode fazer acelerar uma investigação, há quem ache que se pode publicar tudo o que se ouve. Quando se entra neste registo não há limites e cedo começou a existir contra-informação, vinda de todos os lados.
O sistema Judicial é suposto ter por objectivo garantir a igualdade dos cidadãos perante a Lei. Como se sabe isso está longe de acontecer. Os jornalistas são supostos reportar factos, procurar a verdade e fugir a manipulações. Como se sabe isto não tem acontecido.
Recentemente alguns grandes jornais norte-americanos fizeram um pacto simples e que por si só resolve muitos dos problemas: não se publicam notícias de fontes não identificadas. So há notícia se houver fonte identificada a responsabilizar-se por ela. Pode ser que se percam algumas coisas, mas ganha-se a guerra contra o boato, ganha-se a guerra contra as manobras de contra-informação, contra as suspeitas lançadas por anónimos. Ganha-se mais do que se perde. E, a médio prazo, os jornais ganham credibilidade e a confiança dos leitores, sem terem que recorrer a violações de segredos de justiça dados por fontes não identificadas. Isto é simples e básico – e este é um daqueles momentos em que temos que voltar aos princípios.

Manuel Falcão