March 11, 2005

O FIM DE UM TEMPO

Tenho alguma tendência para acreditar que os rituais e os símbolos são sinais que nos guiam e ajudam a balizar os comportamentos e as coisas à nossa volta.
Para mim, e para muitos que durante anos acreditaram ser possível que o centro-direita concretizasse um ciclo de reformas e mudanças e transformasse o país para melhor , estes últimos tempos foram um constante pôr em causa de referências e de símbolos. Quando daqui a uns anos se olhar com distanciamento suficiente para tudo o que se passou nestes últimos 10-12 meses, suspeito que a imagem não vai ser bonita de se ver.
De certa forma é a derrota de uma geração – ou pelo menos da parte de uma geração que achou que o caminho era esse, um caminho que passava por determinadas ideias e determinados protagonistas. O que me custa mais é que nestes três anos não se conseguiu mostrar que o centro-direita podia desenvolver e modernizar, nem se conseguiu mostrar que tinha preocupações sociais e culturais. A imagem dominante que fica é cinzenta, austera, com a contenção como quase único objectivo.
Continuo a achar que os fins não justificam os meios, continuo a pensar que o poder pessoal não se pode sobrepôr ao interesse colectivo, e continuo a pensar que muita coisa precisa de mudar para o país funcionar de outra maneira e todos poderem viver melhor.
A forma do exercício do poder é uma delas. Os primeiros rituais e símbolos do novo poder foram uma lufada de ar fresco na forma de fazer política.
A forma, como se sabe, não é tudo. Mas, no estado a que as coisas tinham chegado, ganhou uma súbita importância. Talvez seja este o sinal do fim de um tempo.