October 08, 2003

AO PEQUENO ALMOÇO
Tomo sempre o pequeno almoço sentado na mesa da cozinha, a olhar para a janela. Lá fora há um pátio largo, entra boa luz e a vista é desafogada. Ao fundo do pátio há um prédio novo. Quiseram os arquitectos que as janelas da casa de banho desse prédio fossem largas e encostadas ao duche. Agora, quando por volta das sete ainda está lusco-fusco, a luz no prédio do outro lado deixa ver as silhuetas recortadas. Uma delas, a de uma mulher, morena e de cabelos compridos, aparece a tomar duche à mesma hora que eu tomo o pequeno almoço. Vejo-a, recortada na sombra,mesmo em frente, a acompanhar-me o café. Adivinho-lhe o contorno do corpo, espreito-lhe as curvas, mesmo sem querer. Tornei-me um involuntário voyeur de pequeno almoço. Os arquitectos que há pouco mais de um ano colocaram o prédio da frente num espaço desafogado nunca pensaram que estavam a oferecer esta possibilidade aos vizinhos.